• Heitor de Paola
  • 13 Favereiro 2016

(Publicado originalmente em http://www.heitordepaola.com)


A maior perda do Homo Sovieticus é sua separação do coletivo. (...) Sua alma está na sua participação na vida coletiva (...). Até mesmo a rebelião contra a sociedade Soviética ocorre dentro de uma perspectiva coletiva (...). A ideologia unifica a consciência individual e une milhões de pequenos “Eus” num imenso “Nós”.  ALEXANDER ZINOVIEV, em Homo Sovieticus


Podemos ver esta característica descrita no romance satírico de Zinoviev em qualquer grupo de esquerdistas na atualidade, como também foi mostrado por Olavo de Carvalho (1), ressaltando, mais recentemente, que ‘(a) característica fundamental das ideologias é o seu caráter normativo, a ênfase no dever ser’”.

Os grupos ideológicos funcionam exatamente como um bando de cães de Pavlov, não por acaso o inventor da reflexologia, base da pseudo-psicologia que formou o Homo Sovieticus e por tabela os grupelhos comunistófilos que abundam (com trocadilho, please!) no Ocidente: basta alguém soar a campainha e todos começam a salivar selvagemente!

Eu poderia comentar sobre o re-lançamento do livro Mein Kampf que suscitou dramas esquizóides terríveis numa esquerda que apoia a selvagem e assassina censura comunista, mas abomina a suavíssima censura da “ditadura militar” dos “anos de chumbo” – tão suave que fez a fortuna de alguns “artistas” e poetinhas de meia tigela. De tanto defenderem falsamente a liberdade de expressão ficam sem saber o que fazer, pois ninguém toca a campainha para saberem quando salivar. Quase 77 anos depois do Pacto Molotov-Ribbentrop – que mostrou a irmandade entre comunistas e nazistas, causando imensas desagregações coletivas e individuais no seio das esquerdas - estas ainda tremem de pavor de tudo que se relaciona àquela época. O único que tentou romper o silêncio coletivo foi o indefectível Veríssimo dizendo que a obra deveria ser obrigatoriamente vendida com um DVD que mostrasse a selvageria que gerou. Mas ninguém do “coletivo” o acompanhou! Vá que alguém da terrível “direita” sugerisse o mesmo para as obras de Lenin, Trotsky, Mao, Guevara e outros!

Já o aborto os une, o imenso “Nós” que absolve de tudo os pequenos “Eus” permitindo que defendam o maior genocídio da história da humanidade sem culpa e com a empáfia de quem pontifica sobre uma verdade maior, divina e incontestável.

Assim Cora Rónai (O Globo, 04-02-2016, Segundo Caderno) ordena: “com a epidemia de zika e o aumento explosivo de microcefalia, o aborto tem que voltar a ser discutido! Quem sabe agora, diante do desastre e da gritaria tomem vergonha e tenência”, se referindo a “uma das classes políticas mais cínica e calhorda do mundo” que “foge de qualquer tema que possa desagradar aos religiosos”.

No dia seguinte (notem a sequência) abre-se a ação coletiva no mesmo jornal. Em editorial intitulado “Microcefalia põe o aborto na agenda de debates” (O Globo, 05-02-2016) chega a inovar sugerindo um “aborto preventivo”, pois o prazo concedido pelo Conselho Federal de Medicina para a anencefalia – 12ª semana – é pequeno para a microcefalia que pode ser diagnosticada tardiamente, com o feto mais desenvolvido. Então, segundo o editorialista deste pasquim poder-se-ia “dar à gestante a opção de, tendo contraído a zika, decidir pelo aborto”. E termina, reconhecendo que a interrupção da gravidez é um tema “que suscita paixões”: “O país está diante de um drama explosivo, que afetará um grupo potencialmente grande de pessoas, e precisa lhe dar uma resposta à altura”.
Sempre que esta gente fala de “discutir”, leia-se impor decisões segundo sua excelsa onisciência, a tal “resposta à altura”: abaixo o feto!

Ah, a zika e a microcefalia, mesmo sem segura comprovação científica da relação entre elas, são as atuais campainhas que fazem os cães de Pavlov salivarem sangue de ódio! Todo o pretexto é válido para “discutir o aborto”. Dona Cora, de modo professoral, diz que “Interromper uma gravidez, em qualquer situação, é prerrogativa da mulher”. A ênfase é minha para mostrar que Dona Cora mente! Somente usa a zika e a microcefalia como pretextos para defender o que defende em qualquer caso: o “direito” da mulher sobre seu corpo! Garrincha perguntaria: já combinaram com os fetos?

Antes de prosseguir é preciso dizer que concordo com ela num ponto: a lei “permite aborto por estupro: não vem contradição nenhuma em defender o aborto em caso de estupro e em gritar que toda vida é sagrada. Mas, se é, que diferença há entre os fetos gerados por estupro e os fetos gerados por amor”? No meu entender, nenhuma! Este é um aspecto hipócrita da lei. Muitas mulheres não abortam após serem estupradas e cuidam seus filhos com amor. Esta hipocrisia abre esta chance para críticas. O aborto só deveria ser permitido se houver risco de morte da mão. Mesmo assim, ela deveria ter o direito de optar sobre qual vida salvar.

Sua mentira fica clara quando defende que “A maioria do dos países do Primeiro Mundo – aqueles que melhor resolveram as suas desigualdades econômicas e sociais – já reconheceu isso. O aborto é legal em toda a América do Norte, na Europa (com as significativas exceções da Polônia e da Irlanda)...”. Serão apenas estes os critérios para galhardear aqueles países com maiúsculas ou existe outro critério oculto?

Qual gato escondido com rabo de fora ela cita as significativas exceções dos raros países europeus onde a religião ainda tem papel significativo nas decisões. Este é o critério oculto: a falta de religião onde impera o laicismo pós-Jacobino. Este é o Primeiro Mundo de Cora Rónai. Mas será que ela não vê que este mundo está desmoronando com a invasão muçulmana? E está desmoronando exatamente porque, tendo jogado no lixo o Cristianismo, sequer é capaz de perceber que está sofrendo uma invasão que se pretende religiosa (2), mas apenas uma “migração” de pobres refugiados das guerras do leste. Pois são estes invasores que fazem “todo o tipo de chicana moral e religiosa para continuar mantendo as mulheres na posição de submissão em foram mantidas ao longo dos séculos” para citar Dona Cora. Pior ainda, pois as mulheres que não tem o pacto dos Dhimmi (3) podem ser estupradas e escravizadas pelos invasores. O cativeiro e a escravização das mulheres dos infiéis que guerreiam o Islam só podem ocorrer na jihad e elas são consideradas sabaya (prisioneiras de guerra). Caso não haja uma guerra declarada contra o Islam qualquer coisa pode ser definida como “islamofobia”.

É isto que vai ocorrer em breve no tão decantado “primeiro mundo” da Dona Cora, porque não há mais homens Cristãos para defenderem suas mulheres e a sociedade. Os valores da masculinidade, incluindo o da defesa da mulher e da prole, são valores Cristãos, portanto, quase inexistentes por lá. Não foi um homem de minissaia nem palhaços de nenhum hebdo que há 1300 anos derrotou os Muçulmanos na França. Charles Martel não portava um cartaz com os dizeres Bienvenue a Poitiers, mas guerreiros com lanças e espadas. Nem El Campeador (el-Cid para os Mouros) expulsou os muçulmanos de Espanha com belas frases, carinho e tolerância!

A ONU, A ZIKA E O ABORTO
A súcia de comunistófilos só se manifesta quando sabe que tem apoio potente de fora. E a ONU – o ramo aparente do governo mundial - só se manifesta depois que seus porta-vozes (jornalistas, editorialistas, ONGs, blogueiros, etc.) já falaram. Assim, apenas um dia depois (notem ainda uma vez a sequência) ela falou: os governos que ainda (notem o ainda!) não liberaram o aborto, devem fazê-lo agora! Embora seu próprio órgão técnico (ma non troppo!), a OMS, ainda não tenha identificado as reais causas da microcefalia – há somente uma suspeita não confirmada ainda de ser causada pelo vírus zika – já impõe o aborto aos países que ainda o proíbem em alguns casos.

A sequência:
1. Um dos membros do coletivo se manifesta (geralmente alguém muito conhecido e respeitado em algum setor, não necessariamente naquele – Cora Rónai é respeitada como especialista em informática)
2. Outro membro, mais representativo do coletivo (os editorialistas do Globo) apoia
3. O órgão máximo – aparente – do coletivo mundial, caso se aplique, fecha a comunicação

O ainda:
É fundamental estabelecer o objetivo final, pois é a régua pela qual se medirá os ”avanços” e “retrocessos”. No caso em questão qualquer medida que facilite o aborto é um avanço e quem o apoia é lúcido e entende das necessidades do mundo moderno, do “empoderamento” da mulher (que raios é isto? Mais um anglicismo idiota, derivado de empowerment? O corretor do Word me diz que nem está dicionarizado) e dos “direitos” sobre seu corpo. Quem é contra o aborto e a favor da vida de todos os seres, inclusive dos fetos, é retrógrado, favorece os retrocessos¸ reacionário, pela opressão das mulheres (será desempoderamento?), religioso – que coisa horrível!! - quando não um canalha, corrupto, cínico e hipócrita, pois não obedece ao “deve ser”!

O Príncipe jordaniano Zeid Ra’ad Al Hussein, ele mesmo suspeito de impedir o direito humano básico à livre expressão, Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos clama pela revogação de leis e políticas que restringem o acesso aos serviços de saúde sexual e reprodução que não estejam em desacordo com os standards internacionais (leiam-se aborto e devem ser). “Certamente a expansão do zika é o maior desafio para os governos da América Latina”. “Os serviços de saúde devem ser claros de modo a informar as mulheres a respeito de sua dignidade, garantia de sua privacidade e que forneçam respostas às suas necessidades e perspectivas”. “Leis e políticas que restringem seu acesso a estes serviços devem ser (lembram do Olavo?) urgentemente revistos, seguindo as obrigações de direitos humanos, assegurando o direito à saúde e sua prática (leiam: direito ao aborto)”. Nos países afetados pela zika que têm leis restritivas aos direitos reprodutivos da mulher (ufa, não aguento mais: aborto!) tais leis devem ser revistas.

As organizações internacionais que controlam a ONU, o Council on Foreign Relations e o Interamerican Dialogue, também já se manisfestaram na mesma linha (poderia ser diferente?). O primeiro publicou um artigo com o título Zika Virus and Reproductive Health Access in Latin América.

O Dialogue republicou um artigo de uma de suas mais importantes membros, Jacqueline Pitanguy, Zika and the Right to Abortion: "Brazil has some of the most restrictive abortion laws in the world. (...) The common denominator of those laws is the recognition that women have the right to the respect and protection of their physical and emotional integrity, and that the rights of the unborn are not absolute and do not supersede the fundamental rights of the woman.If Brazilian law followed the example of countries with more liberal abortion laws, women who are in a panic over carrying a fetus with microcephaly would, based on their right to reproductive autonomy and the emotional integrity of themselves and their families, be able to decide whether to carry or interrupt their pregnancy. Such decisions should be made outside the parameters of moral and criminal condemnation and in the context of respect for human dignity". (A publicação original no Globo é um pouco diferente).

A verdadeira razão para estas organizações serem a favor do aborto - assim como da agenda gay - é diminuir o crescimento populacional. Mas isto fica para um próximo artigo.

NOTAS:
(1) A Nova Era e a Revolução Cultural
(2) Já deixei claro em outras oportunidades que não considero o Islam uma religião, mas uma ideologia totalitária e coletivista.
(3) Dhimmi: status de minorias não-islâmicas vivendo na Ummah (Dar al-Islam, Terra da submissão a Allah), submetidas à shari’a e pagando impostos elevados. O infiéis que não são dhimmi são os que vivem na Terra dos Infiéis (Dar al-Kufr), a Europa, a América, etc., todos os lugares onde não há Islam ou este é minoritário. (Mais informações em Subsídios para entender o Islam.)
 

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  • Guilherme Fiuza - O Globo
  • 13 Favereiro 2016

No princípio era expropriar o Estado para ficar no poder. Aí o poder foi perdendo a graça, e passamos a roubar para ficarmos ricos mesmo.

A inconfessável confissão acima não precisa ser feita. Você já sabe de tudo. Mas, por favor, não conte ao Brasil. Ele não suportaria mais essa. O país está parado, e como você não tem nada para fazer mesmo nesse marasmo, segue um passatempo: faça as contas das despesas dos guerreiros do povo brasileiro apenas com seus advogados milionários.

O que esses heróis (os presos e os soltos) gastaram para se defender em dois anos de Lava-Jato acabaria com a fome no Haiti por várias gerações e compraria meio time do Barcelona. Coisa de nababo. Se não fossem pessoas tão humildes, seriam os xeques do petrolão.
Continua entediado? Expanda suas contas para os honorários da banca defensora dos mensaleiros. Você não estará somando bananas com laranjas: são todos laranjas do mesmo esquema, companheiro. Por coincidência, aquele que continua mandando no Brasil, um país de todos os que não sabiam.

Faça como o golpista Sérgio Moro, inimigo número um dos coitados profissionais: siga o dinheiro. Você encontrará a anatomia completa do bando, e constatará que todas — todas — as peças se ligam de alguma forma ao palácio petista, guarnecido por Dilma Rousseff.
Conclusão: não há razão para impeachment. A não ser que você queira interromper as férias dessa gente sofrida.

Os brasileiros estão afundando na pior recessão da sua história, provocada pela DisneyLula (nem tudo é perfeito), mas não têm pressa. Estão esperando os mosqueteiros Zavascki, Barroso, Lewandowski, Janot e companhia autorizarem a criançada a processar a senhora Rousseff.

Todo mundo esperando sentado, passando repelente e assistindo ao pas-de-deux de Dilma e Zika, a nova coreografia oferecida ao povo pelos reis do entretenimento tarja preta.

Enquanto isso, o país assiste ao final feliz da dinastia oprimida, com os filhos dessa gente humilde dando a volta ao mundo, faturando milhões em consultorias copiadas da internet, dando festas hollywoodianas e saboreando ostensivamente a vida boa que essa casta de perseguidos políticos lhes proporcionou com o suor das suas propinas.

E já que não há um único voluntário na plateia para apresentar o pedido de impeachment que a Lava-Jato esfregou na cara do Brasil, vamos à união nacional: todos de mãos dadas com a elite cultural que luta bravamente contra a criminalização desses pobres milionários. Está lançado o Manifesto de Atibaia.

Para os que estão bêbados de repelente e não ligaram o nome à pessoa: Atibaia é onde fica o sítio de Lula que não é de Lula. Em outro texto explicaremos quem é Lula. O que importa saber aqui é que se trata de uma pessoa boa, perseguida pelas elites invejosas que não suportam vê-lo feliz por ter um milhão de amigos que não lhe deixam faltar nada.

Esse homem bom, que inclusive é filho do Brasil, virou alvo de uma caçada cruel, e você precisa ajudá-lo. Lula é hoje alvo de uma série de investigações criminais — desumanas e neoliberais. Ele é investigado pelo Ministério Público por ocultação de patrimônio, por causa de um tríplex no Guarujá reformado pelos amigos da construtora OAS.

Todas as testemunhas afirmam que o imóvel foi preparado para Lula, que acompanhou as obras, mas nós, signatários do Manifesto de Atibaia, sabemos que isso não é possível: Lula é um homem simples, que só tem amigos.

As coincidências da vida fizeram com que o mesmo amigo da OAS comprasse, na mesma loja, as cozinhas do tríplex e do sítio de Atibaia, que também não é de Lula, embora ele tenha estado lá 111 vezes desde 2012. De Lula, mesmo, só o amigo. E esse amigo não mandou a cozinha do sítio diretamente para o sítio.

A mercadoria foi despachada para outro endereço em Atibaia, e de lá escoltada por receptadores até o sítio Santa Bárbara, o que não é de Lula. Parece cena de suspense policial com ocultação de pistas, mas nós, signatários do Manifesto de Atibaia, sabemos que as almas honestas não têm nada a esconder.

A Polícia Federal abriu inquérito para apurar a relação entre Lula e a OAS na montagem do sítio em Atibaia. A MPB precisa urgentemente compor um hino em defesa da invasão desse sítio, porque se Lula vive lá e é pobre, só pode ser reforma agrária. Caminhando e cantando e seguindo o cifrão.

Quem andou ajudando também na reforma do sítio que não é de Lula foi o pessoal da Odebrecht, que é amigo de Lula. E tome coincidência: o Ministério Público abriu inquérito para apurar tráfico de influência desse brasileiro humilde em favor da Odebrecht, que o contratou para as palestras mais bem pagas do mundo.

Essa gente do mal acha que o governo Dilma é o escudo da gangue de inocentes perseguidos pela operação Lava-Jato. Mas você sabe que nada disso é suficiente para o impeachment. Então, faça a sua parte: assine o Manifesto de Atibaia e ajude essa gente sofrida a continuar pagando seus advogados milionários, enviando sua contribuição cidadã para o caixa do Partido dos Trabalhadores. Em espécie, por favor.


* Jornalista
 

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  • Fernando Schüler
  • 12 Favereiro 2016

(Publicado originalmente no Estadão)

Na democracia, é assim: há um acordo tácito, entre todos, de respeito às instituições. O Ministério Público e a Polícia Federal têm autonomia para investigar? Que bom. O judiciário é independente, feito de profissionais de carreira, cercados de garantias constitucionais? Ótimo, não é mesmo? Não era isto que se pretendia, quando o País desenhou suas instituições, na Constituição de 1988?

O problema das instituições é que elas funcionam. E aí tem gente que não gosta. É como aquele juiz que deu voz de prisão a uma agente de trânsito, ao ser parado numa blitz da Lei Seca, no Rio de Janeiro. Aposto um chopp no Bar Brahma que o Doutor achava a lei muito boa, em tese. Só não gostou de, justo ele, ser a vítima da dita-cuja.

A operação lava-jato anda cheia de doutores enfurecidos. O Senador Collor de Mello, sentindo-se perseguido, chamou o Procurador Geral, Rodrigo Janot, na tribuna do Senado (bem baixinho, é verdade), de “FDP”. Leio que Eduardo Cunha, também indignado com as perseguição do MP, cogita apelar à Corte Europeia de Direitos Humanos.

É seu direito, registro. Reclamar, dar discurso, fazer cara de indignado, denunciar o juiz Sérgio Moro para a Anistia Internacional. Tudo isto faz parte do que se chamava (ao menos no meu tempo de estudante de direito) ojus esperniandi. Num latim, digamos, mais informal, o “direito de espernear”.

O “doutor” da vez é o ex-Presidente Lula. Ao contrario de seus colegas de indignação, porém, Lula pratica uma espécie de “jus esperniandi ideológico”, feito de um palavrório sem fim e repetido ad nauseam por uma legião de seguidores, Brasil afora.

É mais ou menos assim: quando Eduardo Cunha diz qualquer coisa sobre suas supostas contas na Suiça, todo mundo ri. Quando o Instituto Lula diz qualquer coisa sobre as supostas propriedades de Lula, a metade repete.

Dias atrás, o referido Instituto lançou uma nota denunciando uma “perseguição ao maior líder político do País”. Sobrou para a mídia, como de hábito. A dos “adversários”, frisou a nota. Além da mídia, me chamou a atenção a denúncia contra os “agentes públicos partidarizados”. Ficou faltando dizer que agentes e que partidos seriam estes.

Os ditos do Jus esperniandi ideológico são mais ou menos conhecidos: as elites não toleram que um operário compre um triplex/Antes também roubavam/a direita tem medo das urnas/ a polícia federal virou policia política/é o ódio de classe/Lula é perseguido como os judeus no holocausto/e o apartamento do Aécio na Vieira Souto?

A lista é infinita. Um blog governista vociferou dizendo que iriam “tocar fogo no País”, caso prendessem o Lula. O argumento mais refinado veio tuitado pelo senador Roberto Requião: “Vão todos à PQP”. O dito mereceu manchete em outro site governista. Talvez fosse uma metáfora. Não captei.

Alguém dirá que tudo isso é bobagem. Coisa desses tempos de tribalismo digital. Da erupção quase incontrolável do que um dia Madame de Staël chamou de “espírito de partido”. Do sujeito que passa o dia lendo as mesmas fontes e cada vez mais “convencido das próprias opiniões”. Ninguém, vamos reconhecer, está isento desse processo.

Mas percebo algo mais ai: um traço de desprezo pelas instituições. A permanência da ideia arcaica de que tudo pode ser relativizado no mundo da política. Que alguns flutuam acima das “regras do jogo”, pela posição que ocupam ou apoio popular de que dispõem. Que a paixão partidária, no fim das contas, vale mais do que míseros valores republicanos.

Intuo que as investigações sobre Lula irão funcionar como uma prova de fogo para nossas instituições. Isto precisamente por ele ser (como diz a nota de seu Instituto), “duas vezes eleito presidente”, e o “maior líder político do País”. É sua continuidade, com absoluta serenidade, que dirá se somos, de fato, uma república feita cidadãos iguais em direitos e responsabilidades.
 

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  • Maria Lucia Victor Barbosa
  • 12 Favereiro 2016

Esta é uma pergunta extremamente complexa que diz respeito não só ao Brasil, mas ao contexto mundial, sendo impossível de ser respondida num breve artigo.

Darei apenas breves pinceladas sobre o tema sem tratar da revolução dos meios de comunicação eletrônicos, da iminente era dos robôs dotados de inteligência emocional, da modificação genética de embriões, dos avanços da ciência que nos possibilitarão viver bem mais e morrer com cara de 30 anos.

Isso e muito mais não é ficção e trará grandes mudanças ao planeta. Entretanto, se o futuro está acelerado e só será interrompido se algum maluco cismar de fazer uma demonstração atômica acabando de vez com o mundo, meu interesse é por outros tipos de mudança, aquelas que alteram valores, comportamentos e atitudes.

O tema mudança social é amplo e existem variadas análises elaboradas por filósofos, sociólogos, historiadores, cada qual com seu enfoque. Aqui cito apenas o filósofo e historiador alemão, Oswald Arnold Gottfried Spengler (29/05/1880 – 08/05/1936), que entre outras obras escreveu The Decline of West, ou seja, O Declínio do Ocidente.

Spengler, como tantos outros que se debruçaram sobre o estudo da mudança social pensava que sociedades são como organismos humanos que nascem, crescem e morrem. Não vou discutir se sociedades morrem ou apenas se transformam, mas penso ser interessante citar o pensamento do autor alemão que afirmou no início do século XX: "A civilização ocidental está agora em declínio e sua desintegração é inevitável, pois ela deve percorrer o caminho de todas as civilizações extintas".

Isso pode parecer drástico e, claro, não acontece de uma hora para outra, pois processos históricos são longos diante da brevidade de nossas vidas. Contudo, já se percebe o declínio ocidental, especialmente na Europa com a entrada dos mulçumanos, não só os que já tinham se radicado especialmente na França e na Bélgica, como através dos milhões de refugiados que estão sendo acolhidos na Alemanha e nos demais países europeus.

Explicando melhor, como as populações europeias estão envelhecidas e a natalidade daqueles países é baixa, em tempo relativamente curto os mulçumanos serão maioria e, obviamente farão prevalecer sua cultura político-religiosa como de certo modo já o fazem. Então, a sharia será amplamente implementada e não haverá mais infiéis Lembremos ainda, que sendo o Islã expansionista a ideia é a de se impor globalmente.

Já houve tempos e lugares em que judeus, cristãos e mulçumanos conviveram de forma pacífica como na Espanha antes da Nova Inquisição dos reis católicos Fernando e Isabel. Hoje isso é difícil uma vez que está havendo um choque de visões de mundo opostas, sendo que o grande alvo do ódio terrorista são os judeus.

Para ficar mais claro tomo o exemplo das mulheres: Entre mulçumanos a mulher é inferiorizada, coisificada. Há países em que não podem estudar ou sequer dirigir um carro. Vestem o xador ou a burca, roupas nas quais apenas os olhos aparecem.

No ocidente as mulheres trabalham, estudam, ocupam empregos antes só desempenhados por homens. Contudo, muitas se coisificam ao ficar praticamente nuas nas praias e vestir roupas que mais mostram que escondem certas partes do corpo.

Recentemente, em Colônia – Alemanha, jovens alemãs foram estupradas por refugiados. Elas portavam minúsculas minissaias e andavam sozinhas. Para a cultura mulçumana elas eram solteiras e estavam disponíveis e mulçumanos só obedecem a suas próprias leis e não as dos países que os acolhem. Para nós ocidentais foi um ato brutal e reprovável como são os ataques terroristas.

Onde estavam os homens alemães para defender suas mulheres? Perguntou uma entrevistadora a uma jornalista dinamarquesa. Esta respondeu dizendo que os homens europeus foram efeminados, ensinados a ser corteses, a não protestar, a se adequar a tudo e isso produziu um desequilíbrio no qual os homens perderem seus valores.

Acrescento que esse desequilíbrio se deve em grande parte ao nefando politicamente correto, que impõe a autocensura por temor à opinião pública. A sociedade ocidental está sufocada por essa excrescência ideológica, de matriz esquerdista e com viés de dominação, pois tudo que se diz pode ser interpretado com preconceito, racismo ou crime passível de severa punição.

Muitos outros exemplos de choque de civilizações podem ser dados, quem sabe em outros artigos, mas o fato é que valores ocidentais estão se perdendo e expressões da vida, incluindo a arte, vão se tornando vulgares e banalizadas.

No Brasil acentua-se não o declínio, mas a degradação social e econômica comandada em larga medida por um governo que institucionalizou a corrupção como nunca antes nesse país.

Aonde estamos indo? Regredirá o mundo a uma sombria Idade das Trevas? Tomara que não.

* Socióloga

www.maluvibar.blogspot.com.br 

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  • Carlos I.S. Azambuja
  • 11 Favereiro 2016

Publicado oroginalmente em www.alertatotal.net



1. A FORMAÇÃO DA VAR-PALMARES

          Em meados de 1969, duas organizações de linha foquista, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e o Comando de Libertação Nacional (COLINA) debatiam-se sufocadas pelo cerco dos órgãos de segurança. Espremidas entre os sucessos dos atos terroristas e dos assaltos a bancos e as amarguras da prisão de dezenas de seus militantes, ambas buscaram, na fusão, um modo de rearticularem-se, formando uma única organização, mais poderosa e de âmbito quase nacional.

          Assim é que, em junho e em julho, em duas casas do litoral paulista, respectivamente, em Peruíbe e em Mongaguá, os dois comandos nacionais realizaram a denominada Conferência de Fusão, em cujo Informe, datado de 07 de julho, já aparecia o nome da nova organização, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-P), que iria, também, ganhar a adesão de militantes da Dissidência do Partido Comunista Brasileiro de São Paulo (DI/SP).

          Foi eleito o seguinte Comando Nacional (CN), três oriundos de cada organização: Carlos Lamarca, Antônio Roberto Espinosa e Cláudio de Souza Ribeiro, da VPR, e Juarez Guimarães de Brito, sua esposa Maria do Carmo Brito e Carlos Franklin Paixão Araújo, do COLINA.

          Apesar da fusão ter sido concretizada, as discussões da conferência não foram tranqüilas, transcorrendo num clima tenso e, por vezes, tumultuado. Os "massistas" oriundos do COLINA, melhor preparados politicamente, criticavam os "militaristas" da VPR, pelo "imediatismo revolucionário" que defendiam. Ao mesmo tempo, entrando com 55 milhões de cruzeiros e um grande arsenal de armas, munições e explosivos, os oriundos da VPR sentiam-se moralmente fortalecidos, em face do nenhum dinheiro e das duas metralhadoras Thompson e quatro pistolas trazidas pelo COLINA.

          Entretanto, tudo foi esquecido quando Juarez Guimarães de Brito apresentou o seu trunfo, o planejamento da"ação grande", que poderia dar, à nova VAR-P, sua independência financeira.

2. A "AÇÃO GRANDE"

          Gustavo Buarque Schiller, o "Bicho", era um secundarista da então Guanabara que havia participado das agitações estudantis de 1968 e, através de militantes do diminuto Núcleo Marxista Leninista (NML), havia se ligado ao COLINA. De família rica, morava no bairro de Santa Tereza, próximo à casa de seu tio, o médico Aarão Benchimol, que a havia cedido para ser a residência de sua irmã - tia do "Bicho", Anna Gimel Benchimol Capriglione, tida como sendo a "amante do Adhemar", ex-Governador de São Paulo. Ao ouvir que no cofre do casarão de sua tia, que morava na Rua Bernardino dos Santos, havia milhões de dólares, levou esse dado à Organização.

          No início de maio de 1969, "Bicho" recebeu de Juarez Guimarães de Brito a incumbência de realizar levantamentos mais acurados, com croquis e tudo, para um futuro assalto. Descobriu, então, que não havia só um, mas dois cofres, o segundo num escritório em Copacabana. Descobriu, também, que neles deveria haver de 2 a 4 milhões de dólares, além de documentos que poderiam incriminar, por corrupção, o ex-Governador Adhemar de Barros.

          Juarez vislumbrou a "ação grande": num assalto simultâneo, arrecadaria recursos financeiros nunca antes conseguidos por uma Organização e, com os documentos, poderia desmoralizar um dos articuladores da Revolução de 1964.

          Necessitando de mais dinheiro para o roubo dos cofres, Juarez decidiu executar o que denominou de "ação retificadora", chefiando, em 11 de julho, o assalto à agência Muda do Banco Aliança, com os seguintes sete militantes da VAR-P: Darcy Rodrigues, Chael Charles Schreier, Adilson Ferreira da Silva, Fernando Borges de Paula Ferreira, Flavio Roberto de Souza, Reinaldo José de Melo e Sonia Eliane Lafoz. O assalto não proporcionou o resultado esperado: além de só terem conseguido 17 milhões de cruzeiros, foram perseguidos pela polícia, quando Darcy Rodrigues assassinou o motorista de táxi Cidelino Palmeira do Nascimento, causando "reflexos políticos negativos" para a nascente organização.

          Por outro lado, o assalto ao cofre de Copacabana necessitava um tempo maior de planejamento, o que a "revolução" não poderia conceder. Decidiu, então, roubar o de Santa Tereza.

          Na tarde de 18 de julho de 1969, os seguintes treze militantes da VAR-P, comandados por Juarez Guimarães de Brito ("Juvenal", "Júlio"), invadiram o casarão de Anna Capriglione, disfarçados de policiais à cata de "documentos subversivos": Wellington Moreira Diniz ("Lira", "Justino", "Mario", "Lampião", "Virgulino"), José Araújo de Nóbrega ("Alberto", "Monteiro", "Zé", "Pepino"), Jesus Paredes Sotto ("Mário", "Reis", "Lu", "Roque", "Tião", "Elmo"), João Marques de Aguiar ("Braga", "Jeremias", "Topo Gigio"), João Domingos da Silva ("Elias", "Ernesto"), Flávio Roberto de Souza ("Marques", "Mário", "Juarez", "Ernesto", "Gustavo"), Carlos Minc Baumfeld ("Orlando", "José", "Jair"), Darcy Rodrigues ("Sílvio", "Léo", "Batista", "Souza"), Sônia Eliane Lafoz ("Bonnie", "Mariana", "Clarice", "Paula", "Rita", "Olga"), Reinaldo José de Melo ("Rafael", "Maurício", "Otávio", "Douglas"), Paulo Cesar de Azevedo Ribeiro ("Ronaldo", "Hilton", "Comprido", "Glauco", "Ivo", "José", "Luiz", "Osvaldo", "Pedro", "Rui") e Tânia Manganelli ("Simone", "Glória", "Marcia", "Patrícia", "Sandra", "Vera").

          Hoje, Carlos Minc Baumfeld, assaltante e ex-banido do território nacional, cuja liberdade foi trocada pela vida de um embaixador seqüestrado, posa como administrador, com um cargo no Estado do Rio de Janeiro...

          Após confinarem os presentes a uma dependência do térreo da casa, um grupo subiu ao 2º andar e levou, através de cordas lançadas pela janela, o cofre de 200 Kg, colocado numa Rural Willys. Em menos de 30 minutos, consumava-se o maior assalto da subversão no Brasil.

          Levado para um "aparelho" localizado próximo ao Largo da Taquara, em Jacarepaguá, o cofre foi arrombado com maçarico e com o cuidado de, antes, ser cheio de água através da fechadura, para evitar que o dinheiro se queimasse. Aberto, "os militantes puderam ver, maravilhados, milhares de cédulas verdes boiando". Penduraram as notas em fios de nylon estendidos por toda a casa e secaram-nas com ventiladores. Ao final, 2.800.064,00 dólares atestavam o sucesso da "ação grande".

          Entretanto, entre os documentos encontrados só havia cartas e papéis pessoais, nada que pudesse incriminar Adhemar de Barros, além das inevitáveis especulações sobre as origens da fabulosa quantidade de dólares.

3. O DESTINO DO BUTIM

          O destino dado ao dinheiro nunca foi devidamente esclarecido, perdido nos obscuros meandros da cobiça humana sobrepondo-se à ideologia.

          Juarez e Wellington Moreira Diniz deixaram todo o dinheiro no "aparelho" da Rua Oricá, 768, em Braz de Pina, sob a guarda de Luiz Carlos Rezende Rodrigues ("Chico", "Negão") e Edson Lourival Reis Menezes ("Miranda", "Sérgio", "Wander", "Emílio", "Gilson"). Dias depois, Juarez foi buscar o dinheiro e determinou que essas duas "testemunhas" viajassem para a Argélia: Luiz Carlos embarcou em 12 de agosto, a fim de comprar armas, e Edson, via Argélia, foi fazer um curso de guerrilha em Cuba. Cinco meses depois, já no início de 1970, de volta ao Brasil, Luiz Carlos pediu para o militante Jorge Frederico Stein levar a quantia de 220 milhões de cruzeiros do Rio Grande do Sul para a Guanabara, em duas viagens.

Cerca de 300 mil dólares foram colocados em circulação e sabe-se que muitos militantes receberam, cada um, 800 dólares para emergências e que os dirigentes passaram a viver sem dificuldades financeiras. Inês Etienne Romeu ("Alda", "Isabel", "Leda", "Nadia", "Olga", "Tania") recebeu 300 mil. Cerca de 1,2 milhão foi distribuído pelas regionais, para a aquisição de armas, "aparelhos" e carros, além da implementação das possíveis áreas de treinamento de guerrilhas. No final de setembro, Maria do Carmo Brito ("Lia", "Madalena", "Madá", "Sara") entregou ao Embaixador da Argélia no Brasil, Hafif Keramane, a quantia de 1 milhão de dólares. Em contas secretas da Suíça - depois transferidas para a França, foram depositados 250 mil dólares, dos quais 120 mil foram divididos, em 1974, pelos grupos remanescentes da VAR-P e 130 mil foram abocanhados por Lalemant, um francês intelectual de esquerda, editor e dono da livrariaMarterout, em Paris.

Quanto ao Gustavo Buarque Schiller, o "Bicho", seu destino foi mais claro, se não trágico, do que o dos dólares que ajudou a roubar. Logo após o assalto, passou para a clandestinidade, escondendo-se com Herbert Eustáquio de Carvalho, o "Daniel". Depois, fugiu para o Rio Grande do Sul, onde usou os codinomes de "Luiz" e "Flávio". Preso no final de março de 1970, foi banido para o Chile em 13 de janeiro de 1971, em troca da vida do embaixador suíço. Depois de passar longos anos de dificuldades financeiras na França, retornou ao Brasil com a anistia, em novembro de 1979. Movido por"conflitos existenciais", suicidou-se em 22 de setembro de 1985, atirando-se de um edifício em Copacabana.

Com dólares, armas e militantes preparados, a VAR-P nascia grande e prometia tornar-se a maior das organizações subversivas brasileiras. Os conflitos ideológicos entre seus integrantes, originados de uma fusão que nunca desceu da cúpula dirigente às bases, acabariam por dividi-la e enfraquecê-la, facilitando a sua posterior destruição.

Dilma Vana Rousseff (Estela, Wanda, Luiza ou Patrícia) nessa época foi militante do COLINA, da VPR e da Var-Palmares. Era, então, casada com Claudio Galeno de Magalhães Linhares, também militante do COLINA, que participou do seqüestro de um avião comercial, em 01 de janeiro de 1970, de Montevideu para Cuba.

A kamarada Dilma teve uma pequena participação no roubo do Cofre do Ademar, cumprindo a tarefa de efetuar uma troca de dólares numa Casa de Câmbio que funciona até hoje no térreo do Hotel Copacabana Palace.

 

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  • Reynaldo Rocha
  • 11 Favereiro 2016


A ignorância costuma produzir efeito contrário ao desejado pelo autor. Ao afirmar que Lula está sofrendo um linchamento, Rui Falcão — que antes de assumir a presidência do PT foi diretor de redação da revistaExame e puxa-saco de empresários por anos a fio — encarna o papel do urubu que acertou errando.

Nos tempos de Linch (William ou Charles, não se sabe ao certo), o homem cujo nome acabou batizando a prática, fazer justiça com as próprias mãos era algo aceito por muitos. Hoje esse método é vista por cidadãos decentes como uma distorção odiosa que busca punir criminosos à margem dos tribunais.

Quase todos os linchados são culpados. Isso não justifica, mas ajuda a compreender o fenômeno. Já houve muitos linchamentos decorrentes de suposições, mas (e acontece), mas a esmagadora maioria das execuções atinge criminosos pegos em flagrante.

Estudos feitos em diferentes países demonstram que a descrença em punições está na raiz dessa reação desmedida, que não respeita o devido processo legal, ignora o direito de defesa e consuma arbitrariamente a sentença. O que motiva essa explosão é a falta de confiança na Justiça. O cidadão se concede o direito inexistente de acusar, julgar e executar a pena por entender que o Estado é inoperante.

A questão levantada por Rui Falcão é diferente. Ele próprio coloca Lula na posição de criminoso cuja condenação imediata é exigida pela população. Neste aspecto, está certo. Ou Lula estaria entre os linchados inocentes, que somam 0,1% dos casos incluídos nos estudos, ou os sucessivos flagrantes induziram o povo a querer justiçar quem o enganou por tanto tempo. Se Lula está sendo linchado, há 99 chances em 100 de ser efetivamente culpado pelos crimes que lhe são atribuídos.

Rui Falcão precisa escolher melhor as palavras e imagens que insiste em usar na defesa do indefensável. O Brasil foi e está sendo furtado. O furto ocorre quando bandidos amealham coisa alheia móvel (dinheiro, por exemplo) para si ou para outrem. É o que diz o Código Penal. Lula furtou, e está sendo moralmente linchado pelo que fez.

O PT piora as coisas quando defende Lula como Rui Falcão tem feito. Além de provocar as vítimas do furto, está se oferecendo para ser linchado junto. Moralmente.
 

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