Artigos do Puggina
Percival Puggina
17/02/2026
Percival Puggina
Foi complicado assistir pela TV ao desfile da Escola de Samba que homenageou Lula na Sapucaí. Qual era, mesmo, o canal da Globo? Minha mulher – graças a Deus! – também não fazia a menor ideia. Há tantos anos não sintonizávamos essa emissora que precisei sair atrás, de canal em canal. Quando pensei ter encontrado, percebi, instantes depois, que estava na tal Globo News. Continuei buscando no sentido decrescente até topar com a RBSTV em rede com a Globo na transmissão.
Não vou analisar a letra do samba-enredo homenageando o enredado presidente. Aliás, samba-enredo de homenagem a Lula é piada pronta. Foi como ouvir discursos de petistas numa sessão da Câmara dos Deputados. Muito barulho de prato e pouca comida.
A sete meses da eleição, com um ilícito eleitoral em cada verso e em cada alegoria para o mundo assistir ao vivo, a inusitada homenagem concede ao TSE tempo para julgar o assunto quando for mais oportuno. E aí se instala uma situação cada vez mais comum em nossos tribunais superiores: oportuno para quem? Infelizmente, todos sabemos a resposta. Na corte onde missões dadas são cumpridas e onde os manés perderam, questões de natureza política ou com reflexos políticos têm sido decididas conforme as cortes considerem melhor para si mesmas. E isso pode representar, no caso do showmício da Sapucaí, desde uma tênue multa até uma prolongada inelegibilidade.
Num Estado de Direito, a lei se impõe igualmente a todos. Quando a Justiça faz política, é seu querer que se impõe a todos.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
15/02/2026
Percival Puggina
Quem quisesse saber como se sentem os cidadãos de uma nação que perdeu o senso de justiça, a noção de certo, errado, limites, ética e compostura, agora já sabe. Quem tem juízo, olha a realidade e observa os personagens que nos pretenderam lecionar sobre vida civilizada. Ouviu que “empurravam a História” ... Sentiu os trambolhões e os maus jeitos de uma Justiça com inusitadas estratégias políticas, praticando excessos e fazendo vítimas.
Há uma parcela demograficamente ponderável do povo brasileiro que consegue conviver com escândalos sucessivos; com revelações de mesadas que, se repartidas por cabeça, fariam felizes populações inteiras de vários municípios brasileiros; com o arrogante controle da política por quem não tem voto; com o desrespeitoso silêncio de quem tem explicações a dar; com argumentos falaciosos que nem jeito de argumentos têm; com os constrangimentos internacionais pelos quais o Brasil vem passando; com a obsessão do Executivo e do Judiciário em controlar a liberdade de expressão. É o produto de cinco mandatos presidenciais petistas e de políticas sociais viciantes. Deliberadamente, criam dependência e escravizam enquanto a ação do governo se restringe a distribuir dinheiro ou bens de consumo, ou crédito, para suprir demandas de dezenas de milhões que não trabalham.
Sinceramente, conheço pouquíssimos eleitores que correspondam a essas descrições. Os eleitores de esquerda que conheço são cidadãos com causas, embora não entenda como conciliam tais causas com a atuação dos governos que elegem. Preferem qualquer desastre nacional a um governo de direita.
Contudo, não foram os dois grandes grupos mencionados nos parágrafos anteriores – os dependentes e os militantes – que deram a Lula o mandato presidencial obtido em 2022. Não é a esses grupos de lulistas fieis que Lula deveria agradecer a presidência da República, mas aos mais de 30 milhões de eleitores que se deram ao luxo de ficar em casa nos dias da eleição. Decisiva omissão! Numa disputa que contou 60 milhões de votos para Lula e 58 milhões para Bolsonaro, a leviandade dos 30 milhões de ausentes entregou o Brasil em mãos que, de modo compulsivo, destroem tudo em que tocam!
Eu sei, muitos leitores destas linhas podem estar pensando nas “excepcionalidades” que viraram rotina na arbitragem da campanha eleitoral de 2022, na criminalização da direita, que nunca mais saiu do vocabulário dos tribunais superiores, na censura, nas palavras proibidas e na pressão sobre as plataformas. Nada disso, porém, superaria a presença de uma parcela, pequena que fosse, daquele tipo de cidadão que ficou em casa por razões do tamanho de sua casca de noz mental. Esse tipo de pessoa, tão autossuficiente que se permite dispensar a política, só pode situar-se ideologicamente do centro para a direita. A esquerda ou é dependente do Estado ou é militante. Eleitor da esquerda não se ausenta de eleição.
Se você passar uma lupa no que tem sido expresso pelo lado direito em conversas de rua ou nas redes como opinião vulgar, popular, perceberá impressões digitais, pegadas e farelos mentais da mesma convicção e da mesma atitude em relação ao pleito deste ano. A omissão dos milhões de cidadãos do sofá, povo da bolha, volta a ser esperança maior da esquerda e de Lula para a eleição deste ano. Não façam isso com o Brasil!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
08/02/2026
Percival Puggina
“Quando a verdade é substituída pelo silêncio, o silêncio é a mentira”.
Yevgeny Yevtushenko
Na atualidade brasileira, talvez não haja assunto mais urgente do que o silêncio. A história ensina serem os tiranos de qualquer pelagem ou época os que mais insistentemente impõem silêncio a quem deles diverge. É alarmante, então, a frequência com que constato o silêncio imposto em nosso país por quem se recusa a ouvir a sociedade sobre o que deixam destruído na esteira de seu andar.
A democracia sem adjetivos, amigos, é ruidosa. O silêncio das ruas é música para o arbítrio e seus embustes. Quando os cidadãos se recolhem aos sofás, os donos do Brasil acendem charutos e a Rede Goebbels de Comunicação, pela natureza orgânica de sua atuação, amplia o próprio poder. Suas principais antagonistas, as redes sociais, dado o caráter plural e disperso, são muito inorgânicas para gerar linhas de pensamento, compreensões coletivas da realidade e formas de atuação.
Isso quanto às ruas e ao povo, mas há, também, o silêncio dos poderosos. Sim, sim, é verdade que os poderosos, aqui e em qualquer lugar do mundo, são autoritários boquirrotos, falastrões e chatos. No entanto, todos adotam a técnica vulgar de silenciar ante perguntas para as quais não têm respostas que sejam dadas sem graves consequências pessoais: “Consultado, não deu retorno,” reporta o repórter. Aliás, todo jornalista, delegado ou membro de CPI sabe que, se a fé move montanhas, há perguntas que ficam sem respostas porque arrasariam arrogantes cordilheiras.
No cotidiano da política nacional, convivemos, também, com o silêncio da representação parlamentar. É um silêncio inconstitucional que, por si só, desqualifica o suposto caráter democrático do Estado. Quando é sob pressão de outro poder que o Congresso cala, a Constituição foi para o brejo, a Liberdade foi igualmente perdida e a nação deve entender o próximo pleito como momento oportuno de recuperá-las pela poderosa mão do voto popular.
Existem manifestações espontâneas de autoridades públicas e atos solenes nos quais eu trocaria por um repousante silêncio toda a oratória mentirosa que os acompanha. Quantas vezes em oportunidades assim, leitor, você viu membros de poder afirmar terem feito exatamente o oposto do que fizeram? Quantas vezes, nas últimas décadas, você quis morar no país que Lula descrevia ou descreve como presidente? Quantas vezes você viu digitais conhecidas exercendo pressão em pratos da balança de Têmis? Não é também verdade que, em todos esses momentos, aplausos reverberaram a mistificação? Silêncio, por favor, cavalheiros e damas, tenham dó!
Mary Ann Evans, inglesa que viveu no século XIX, tornou-se uma grande romancista com pseudônimo masculino. Em bom tempo, ela percebeu que só venceria a barreira do silêncio sobre suas obras adotando nome de homem, tornando-se conhecida como George Elliot. É dela a frase: “Abençoado o homem que tendo nada a dizer se abstém de nos dar uma verborrágica evidência disso”.
* Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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