• Francisco Carneiro Júnior
  • 07 Agosto 2026

 

 

Francisco Carneiro Junior

E Por Que Elas Caem, Uma a Uma, Diante dos Fatos

 

Há um vocabulário inteiro construído para que o brasileiro comum nunca precise olhar de frente para o tamanho real do problema que ocupa o seu país. Esse vocabulário não nasce do debate técnico, nasce do conforto retórico: frases curtas, repetidas em estúdio de televisão, em postagem de rede social, em nota de ONG e em parecer de comissão parlamentar, que dispensam quem as repete de qualquer obrigação de prova e que, ao mesmo tempo, blindam exatamente quem mais se beneficia da inércia do Estado brasileiro diante do território que o crime organizado já ocupa. Não é coincidência que essas frases sobrevivam por décadas sem nunca serem submetidas a um teste empírico sério. Elas não precisam ser verdadeiras. Precisam apenas ser repetíveis. E o que se segue é exatamente isso: o teste que essas doze frases nunca quiseram enfrentar, frase por frase, fato por fato, sem anestesia.

“O Brasil é soberano.”

É a frase mais confortável de todas, a que abre qualquer discurso oficial sobre segurança pública e fecha qualquer debate antes que ele comece. Pergunte isso a um morador de uma comunidade sob hegemonia de facção e a resposta virá em silêncio, no jeito como ele evita determinada rua porque sabe que ali existe pedágio armado, no jeito como a concessionária de energia precisa negociar acesso ao poste com quem nunca disputou eleição alguma, no jeito como o motorista de aplicativo memoriza, sem precisar de mapa nenhum, onde termina a jurisdição da Constituição e onde começa a jurisdição do fuzil. Soberania não é o título que se ostenta no preâmbulo de uma carta constitucional. É a capacidade concreta, mensurável, de o Estado fazer valer sua autoridade sem pedir licença a um terceiro armado. E o ano de 2026 trouxe a prova mais humilhante dessa fratura: foi um governo estrangeiro, e não o brasileiro, quem primeiro chamou a coisa pelo nome. Em 28 de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos, sob assinatura do secretário Marco Rubio, classificou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como Terroristas Globais Especialmente Designados, com efeito a partir de 5 de junho, e anunciou a intenção de também os enquadrar como Organizações Terroristas Estrangeiras. A decisão não nasceu no vácuo. Nasceu de articulação política conduzida pelo senador Flávio Bolsonaro, que dois dias antes havia se reunido com o próprio presidente Donald Trump e, na véspera do anúncio, com Rubio, pedindo explicitamente esse enquadramento. O governo Lula reagiu como reage todo poder que prefere administrar a vergonha a admitir a derrota: chamou a designação de risco à soberania nacional, de manipulação política promovida por “falsos patriotas” e insistiu que o terror praticado por essas organizações busca lucro, não ideologia, e que por isso não se equipara, tecnicamente, ao terrorismo internacional. A nota é juridicamente defensável e politicamente patética ao mesmo tempo, porque ela defende uma soberania de papel justamente no momento em que o papel já não vale nada nas ruas de três milhões e meio de moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro que vivem, segundo o mapeamento mais recente do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense em parceria com o Instituto Fogo Cruzado, sob domínio territorial direto de milícias e facções, parcela que corresponde a quatorze por cento de toda a área urbanizada da região. Soberania que precisa ser defendida com nota oficial, mas não com presença armada contínua, é exatamente o tipo de soberania que um governo estrangeiro tem todo o direito de não respeitar.

“Pancadão é festa.”

A segunda mentira tenta vestir de cultura aquilo que é, na realidade, logística de poder. O argumento cultural é sedutor justamente porque mobiliza um sentimento legítimo, a defesa da expressão popular contra o preconceito de classe, mas esconde uma função econômica que raramente entra no debate. O evento de rua com fluxo intenso de dinheiro vivo, sem fiscalização fiscal de qualquer espécie, funciona também como mecanismo de lavagem e circulação de capital de origem difícil de rastrear, e essa não é uma acusação gratuita: é a mesma lógica que motivou Francisco a investigar, em trabalho anterior, como parte da indústria do funk no Brasil opera como canal de lavagem de dinheiro para organizações criminosas que financiam o próprio evento que depois se apresenta como manifestação espontânea de lazer popular. Cultura autêntica não depende de fechamento ilegal de via pública, não depende de presença armada discreta nas saídas para garantir que nenhum forasteiro circule sem ser notado, não depende de segurança que pergunta documento antes de o Estado perguntar qualquer coisa. Manifestação cultural não precisa de sentinela. Poder territorial precisa. E a distinção entre as duas coisas é exatamente o que a frase tenta apagar, porque uma vez apagada essa distinção, toda crítica técnica ao financiamento criminoso de eventos de massa passa a ser tratada como ataque à cultura popular, quando na verdade é o contrário: é defesa da cultura popular contra quem a sequestrou como fachada.

“A polícia é o problema.”

A terceira mentira é a mais perigosa de todas porque finge ser progressista enquanto entrega a rua a quem nunca mereceu recebê-la. Em qualquer território onde o Estado perde o monopólio legítimo da força, o vácuo nunca é ocupado por harmonia espontânea. É ocupado por quem já tinha capacidade de impor regra à força antes da polícia chegar e que continuará tendo essa capacidade depois que ela sair. Esse não é um argumento ideológico, é uma lei observável em qualquer território do planeta onde o Estado recuou: do Sahel à fronteira colombiana, do interior do México às próprias favelas brasileiras antes e depois da era das Unidades de Polícia Pacificadora. Retirar a polícia da equação não devolve a rua ao cidadão comum, devolve a rua a quem já estava armado. Críticas pontuais a abusos específicos, a excessos documentados, a operações mal planejadas, são legítimas e necessárias, e nenhum profissional de tropa de elite que já vestiu uniforme operacional discorda disso. Mas usar esses casos pontuais para deslegitimar a função policial como instituição é confundir o instrumento mal utilizado com a inexistência de qualquer instrumento. A alternativa real à presença policial, mesmo a presença policial imperfeita, nunca foi liberdade. Foi domínio de quem a polícia deveria conter.

“O crime nasce da fome.”

A quarta mentira tenta explicar com miséria aquilo que nasceu, documentadamente, dentro de cela. Se essa equação fosse verdadeira, bastaria erradicar a pobreza para erradicar o crime organizado, e a história recente de países que reduziram drasticamente a miséria sem reduzir na mesma proporção o crime corporativo mostra que a conta não fecha. O Primeiro Comando da Capital nasceu em 1993 dentro do sistema penitenciário paulista, fundado por presos comuns que perceberam, com frieza absolutamente empresarial, a vantagem econômica de estruturar hierarquia, disciplina e estatuto interno. O Comando Vermelho nasceu ainda antes, em 1979, na Ilha Grande, na convivência forçada entre presos comuns e presos políticos da ditadura, que ensinaram aos primeiros disciplina organizacional, célula, compartimentação. Fome explica furto isolado de sobrevivência. Não explica organização com estatuto escrito, comando reconhecido hierarquicamente e capacidade de tributar bairro inteiro como se fosse contribuinte regular de uma prefeitura paralela. Atribuir a existência da facção à fome é confundir o sintoma da desigualdade brasileira, que é real e que merece política pública séria, com a arquitetura deliberada de quem decidiu lucrar com ela.

“Desarmar a população reduz a violência.”

A quinta mentira inverte o risco e chama isso de proteção. O cálculo por trás da política de desarmamento civil parte de uma premissa que o comportamento cotidiano do criminoso desmente todos os dias: a de que quem já rompeu a lei mais grave do ordenamento jurídico, a que proíbe matar, vai se conter diante de uma lei muito mais branda, a que regula posse e porte de arma de fogo. O efeito prático do Estatuto do Desarmamento, sancionado em 2003 sob enorme entusiasmo do establishment político e midiático da época, não foi simetria de paz. Foi assimetria de risco. O cidadão ordeiro perdeu, em larga medida, a ferramenta de defesa imediata exatamente no momento em que o agressor manteve a sua intacta, porque facção criminosa não compra fuzil em loja registrada e não se submete a cadastro de posse responsável. Reduzir a circulação legal de armas entre quem nunca pretendeu usá-las contra ninguém, sem reduzir na mesma proporção o arsenal de quem já as usa todos os dias contra civis e contra policiais, não desarma a violência. Apenas escolhe, com uma assinatura de canetada legislativa, de que lado dela a desvantagem vai recair.

“Barricada é questão social.”

A sexta mentira desloca para o urbanismo aquilo que pertence à logística de guerra territorial. Toda estrutura física de controle de acesso, seja muro, seja cancela, seja barricada de madeira e fogo erguida às pressas, existe para regular quem entra e quem sai de um espaço, e quem regula esse fluxo exerce poder sobre quem depende dele para circular. A barricada erguida em via de comunidade dominada não nasce de carência de infraestrutura. Nasce de necessidade tática de quem precisa de tempo de reação contra a chegada da polícia e de instrumento de controle sobre o próprio morador, que perde a autonomia de ir e vir sem autorização de quem ergueu a estrutura. Isso não é especulação literária. É exatamente o que se viu, documentado por câmera de celular e por reportagem ao vivo, na manhã de 28 de outubro de 2025, quando organizações criminosas incendiaram barricadas, posicionaram setenta e um ônibus atravessados nas principais vias da Zona Norte do Rio de Janeiro e lançaram explosivos por meio de drones contra equipes de força especial durante a chamada Operação Contenção. Chamar isso de questão social é deslocar para o campo da assistência urbana aquilo que qualquer oficial de operações táticas reconhece, no primeiro segundo de leitura de cenário, como manual de guerra irregular.

“Bandido é vítima da sociedade.”

A sétima mentira rebaixa moralmente quem resistiu à tentação ao equiparar quem cedeu a ela. A mesma estrutura social que produz o traficante produz, na vasta maioria estatística dos casos, o trabalhador que nunca cometeu crime algum, criado na mesma rua, sob a mesma ausência de Estado, com a mesma falta de oportunidade. Se a circunstância bastasse como explicação causal completa, o resultado seria uniforme. Não é. O que distingue os dois destinos não é o ambiente compartilhado, é a decisão individual tomada dentro dele, e atribuir essa decisão inteiramente a fatores externos retira do criminoso a condição de agente moral responsável pelos próprios atos — condição que, paradoxalmente, é a mesma que permite reconhecer mérito e dignidade a quem, na mesma circunstância, escolheu o caminho honesto. Tratar o bandido como vítima não engrandece o pobre. Rebaixa ao mesmo patamar moral aquele que resistiu e aquele que cedeu, e isso é, sob qualquer ética que mereça o nome, uma injustiça contra o primeiro.

“Retomar território é impossível.”

A oitava mentira chama de impossibilidade técnica o que é, na verdade, falta de vontade política de pagar um custo. Toda afirmação sobre impossibilidade política, quando examinada de perto, revela-se afirmação sobre custo, não sobre limite técnico. A prova está documentada em números frios e em sangue real. Em 28 de outubro de 2025, aproximadamente dois mil e quinhentos agentes de segurança do estado do Rio de Janeiro, sob comando do governador Cláudio Castro, deflagraram a Operação Contenção nos Complexos da Penha e do Alemão, cumprindo cem mandados de prisão contra integrantes do Comando Vermelho em vinte e seis comunidades. O resultado operacional foi a apreensão de mais de uma tonelada de droga e cento e dezoito armas, incluindo noventa e três fuzis de procedência identificada em fábricas clandestinas e em arsenais de origem venezuelana, argentina e peruana — prova material, e não retórica, de que o domínio armado daquele território estava lastreado em capacidade bélica equivalente a tropa regular. O custo humano foi monumental: cento e vinte e um mortos confirmados oficialmente, a operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, superando até a Chacina do Carandiru. Cláudio Castro chamou a ação de sucesso. Parte da sociedade civil, defensoria pública e Ministério Público abriram apuração sobre possíveis execuções, sobre cadáveres encontrados amarrados, sobre indícios de fraude processual na cena do crime, e o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou em fevereiro de 2026 que o governo fluminense, o Ministério Público estadual e o Conselho Nacional de Justiça prestassem esclarecimentos formais sobre todas as fases da operação. A controvérsia é real e nenhuma análise séria a esconde. Mas o que a controvérsia jamais conseguiu desfazer foi o fato operacional bruto: o domínio do Comando Vermelho sobre aquele perímetro recuou, de forma mensurável, depois de décadas em que recuar parecia impossível. O preço foi imenso. A impossibilidade, não.

“Reduzir a maioridade penal vai aumentar o problema.”

A nona mentira inverte causa e efeito com uma elegância retórica que não resiste ao primeiro contato com a prática das próprias facções. O recrutamento sistemático de adolescentes para funções de risco máximo — vigilância armada, execução, transporte de carga ilícita — não acontece por afinidade etária. Acontece porque a estrutura penal vigente oferece a essas organizações um ativo extremamente valioso: o agente capaz de matar e morrer sem responder como adulto pelas consequências, protegido pelo limite de internação que o Estatuto da Criança e do Adolescente fixa em no máximo três anos, com ficha que se apaga depois da soltura. Em 10 de junho de 2026, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados aprovou, por quarenta e quatro votos a dezoito, a admissibilidade da Proposta de Emenda à Constituição que reduz de dezoito para dezesseis anos a idade mínima de responsabilização penal, sob relatoria do deputado Coronel Assis, do PL do Mato Grosso. A oposição, representada por nomes como o deputado Tadeu Veneri, do PT do Paraná, e a deputada Sâmia Bonfim, do PSOL de São Paulo, argumentou que a medida é eleitoreira, que vai parar no Supremo Tribunal Federal por violar cláusula pétrea e que vai apenas empurrar o recrutamento para idades ainda mais baixas. Esse último argumento merece resposta técnica, não dispensa retórica: ele assume que existe, hoje, algum piso de proteção real contra o recrutamento infantil pelas facções, quando na verdade o que existe é o oposto, um incentivo estrutural explícito ao uso de menores como instrumento descartável de violência, precisamente porque o sistema atual já garante impunidade prática a quem recruta e a quem é recrutado. Reduzir a maioridade penal não cria uma vulnerabilidade nova. Fecha a brecha jurídica que hoje funciona como vantagem competitiva de quem usa criança como escudo legal e operacional. O deputado Mendonça Filho, defensor da proposta, lembrou que o Brasil registra ao redor de quarenta e quatro mil homicídios por ano e descreveu a situação como padrão de guerra civil que o debate público insiste em fingir não existir. A comparação com El Salvador, onde o regime de exceção do presidente Nayib Bukele esvaziou bairros inteiros de domínio de maras ao custo de uma política prisional de dureza extrema, não é usada por acaso nesse debate: é usada porque, goste-se ou não do método, o resultado empírico de redução de homicídio está documentado, e isso pesa mais, para quem sofre a violência todos os dias, do que qualquer objeção de principiologia constitucional discutida a portas fechadas em Brasília.

“Milícia é o mal menor.”

A décima mentira trata como equivalentes duas estruturas que nascem de origens moralmente opostas. Comparar milícia e tráfico como se fossem apenas pontos diferentes de gravidade na mesma escala ignora exatamente a origem que separa as duas estruturas. O traficante nunca pertenceu ao aparato que deveria combatê-lo. O miliciano, na maioria documentada dos casos, sim, e usa o treinamento, o conhecimento operacional e por vezes o próprio distintivo recebido do Estado para construir domínio paralelo sobre gás, água, internet e transporte alternativo dentro do território que jurou proteger. O mapeamento mais recente do Geni-UFF em parceria com o Instituto Fogo Cruzado confirma que essa traição de origem não é figura de linguagem: milícias ainda respondem pela maior fatia histórica das áreas dominadas ou influenciadas por grupos armados na região metropolitana do Rio de Janeiro, mesmo após perderem espaço territorial para o Comando Vermelho nos últimos anos, em uma disputa que inclui inclusive a venda informal de território entre grupos rivais, como ocorreu em Bangu, na Zona Oeste fluminense, quando uma milícia local repassou parte de sua área de influência ao Terceiro Comando Puro. Essa traição de origem não torna a milícia mais branda. Torna-a mais corrosiva, porque corrompe por dentro exatamente a instituição que a sociedade deveria poder confiar como antídoto contra esse tipo de domínio.

“Operação policial não resolve.”

A décima primeira mentira confunde limite temporal de uma ação com prova de inutilidade estrutural. Quem sustenta essa frase raramente apresenta o que resolveria em seu lugar, e esse silêncio é o ponto mais revelador do argumento. Toda operação tem custo e limite temporal, isso é fato técnico inquestionável; tratar esse custo pontual como prova de inutilidade é erro de raciocínio, não conclusão de evidência. A pergunta correta nunca foi se uma operação isolada resolve o problema por completo. Foi se a presença sustentada do Estado, com continuidade e inteligência, reduz o domínio armado ao longo do tempo, e a própria disputa institucional em torno da Operação Contenção prova o ponto às avessas: o motivo pelo qual o Supremo Tribunal Federal, por meio do ministro Moraes, e o Ministério Público fluminense passaram a exigir relatórios contínuos sobre cada fase da ação não foi para provar que ela não funcionou taticamente, foi para garantir que o sucesso tático não vire pretexto para abandono da fiscalização institucional depois que as câmeras de televisão desligarem. Presença intermitente, qualquer que seja a desculpa para ela, sempre ensina ao território ocupado que a ausência do Estado vai voltar.

“Endurecer pena não resolve, o problema é a impunidade estrutural.”

A décima segunda mentira acerta o diagnóstico e erra a receita. A premissa está correta — a impunidade estrutural brasileira é fato documentado, grave e antigo. A conclusão que se extrai dela, porém, não decorre logicamente da premissa. Recursos protelatórios manipulados, prescrição usada como estratégia de defesa e sistema prisional incapaz de gerir sua própria capacidade não são argumento contra pena mais severa, são argumento a favor de corrigir a engrenagem que impede qualquer pena, leve ou severa, de se cumprir de fato. Essa é exatamente a disputa que paralisou o Congresso Nacional ao longo de 2025 e 2026 em torno do chamado Marco Legal de Combate ao Crime Organizado. O projeto original do governo Lula, enviado sob o número 5582/2025, criava o tipo penal de organização criminosa qualificada, com pena entre oito e quinze anos, voltado a grupos que controlam território por meio de violência sistemática. O deputado Guilherme Derrite, secretário de Segurança Pública de São Paulo sob o governo de Tarcísio de Freitas, relator do projeto na Câmara, apresentou substitutivo que eliminou essa figura e equiparou facções e milícias diretamente ao regime da Lei Antiterrorismo, elevando penas e reduzindo o papel de coordenação da União. O líder do PT na Câmara, deputado Lindbergh Farias, acusou Derrite de ter contaminado politicamente um projeto técnico para transformá-lo em instrumento de disputa eleitoral. Derrite respondeu, sem rodeios, que é hora de endurecer a lei, não de suavizá-la. Em paralelo, tramitava ainda o Projeto de Lei 1283/2025, de autoria do deputado Danilo Forte, que pretendia o mesmo enquadramento antiterrorista, sob relatoria sucessiva de Alexandre Ramagem e depois de Nikolas Ferreira. O ponto que une as duas frentes legislativas, apesar de toda a disputa partidária entre elas, é o reconhecimento, mesmo que tácito, de que o arcabouço penal de 2013 já não corresponde ao tamanho real da ameaça, e essa é a única conclusão coerente que se pode extrair da premissa da impunidade estrutural: corrigir a engrenagem processual e, ao mesmo tempo, endurecer a pena, porque pena dura sem certeza de cumprimento não inibe ninguém, e abandonar o endurecimento por causa da impunidade processual é resolver a metade errada do problema.

As doze mentiras compartilham um único mecanismo, e identificá-lo é mais importante do que desmontar cada frase isoladamente: deslocar a responsabilidade do agente que escolhe o crime, ou da estrutura que o sustenta, para qualquer abstração disponível — pobreza, cultura, corporação policial, idade penal ou o próprio conceito de soberania nacional. Mas há um risco em parar aqui, em tratar como doze problemas isolados aquilo que é, na verdade, um único fenômeno com doze sintomas. Chamar facção criminosa de problema social, chamar domínio territorial de tráfico comum, chamar extorsão sistemática de cultura de rua, é recusar-se a nomear o que de fato ocupa parte do mapa brasileiro. Quem domina território, impõe medo de forma sistemática sobre população civil inteira e ataca com violência letal quem ousa resistir não está cometendo crime no sentido tradicional do termo. Está exercendo controle armado com finalidade territorial e econômica, com estrutura de comando, logística de combate e capacidade de mobilização equivalente, em escala local, a um exército irregular. A diferença entre essa categoria e o crime comum não é semântica, é doutrinária: esse tipo de ameaça exige resposta de inteligência permanente, doutrina de guerra irregular e continuidade estratégica de décadas, enquanto crime comum se resolve com policiamento ostensivo de rotina. Foi exatamente essa percepção, amadurecida sob enorme pressão diplomática externa, que levou Washington a classificar Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas globalmente designadas antes que Brasília o fizesse, e foi a mesma percepção que moveu deputados de diferentes bancadas a tentar, por caminhos legislativos distintos e às vezes rivais entre si, alcançar a mesma equiparação dentro da legislação brasileira. O governo Lula pode resistir ao rótulo internacional, e tem argumentos jurídicos técnicos respeitáveis para isso, mas não pode mais negar a substância sem que a negação pareça, ela mesma, parte do problema.

A prova de que se trata de governo paralelo, e não de criminalidade dispersa, está na lista exata de funções que hoje dependem de autorização armada em território dominado. Internet, gás de cozinha, transporte alternativo, abertura e funcionamento de comércio, circulação de pessoas pela própria rua: quando o acesso a cada uma dessas necessidades básicas de vida civil passa pelo crivo de quem porta fuzil, esse território já não é administrado pelo Estado brasileiro. É administrado por quem ali impôs sua própria estrutura de cobrança e permissão, com os mais de três milhões e quatrocentos mil moradores da região metropolitana do Rio de Janeiro vivendo sob esse domínio direto, segundo o levantamento mais recente do Geni-UFF, e com áreas urbanizadas inteiras — a Zona Oeste da capital fluminense é o exemplo mais extremo, com a maior parte de seu território sob controle ou influência armada — funcionando, na prática administrativa cotidiana, sob jurisdição paralela. Isso não é figura de linguagem. É descrição técnica de governo de fato, ainda que ilegítimo e nunca reconhecido como tal pelo discurso oficial. Negar essa realidade não a apaga. Apenas atrasa a hora em que o Estado vai precisar reconhecê-la para poder revertê-la.

E quem paga a conta dessa governança paralela nunca é quem a romantiza à distância, do conforto de um apartamento na Zona Sul ou de um estúdio de televisão. É o pequeno comerciante que abre a loja sabendo que parte do lucro do mês já está comprometida com taxa que não consta em nenhuma nota fiscal. É o motorista de aplicativo e o entregador que aceitam rota mais longa para não cruzar esquina onde sabem que existe cobrança informal de passagem. É o morador que paga duas vezes pelo mesmo serviço, uma à concessionária legal e outra a quem controla o acesso físico ao poste ou ao cano. Quem se nega a pagar não recebe advertência administrativa. Recebe ameaça direta, e o silêncio em torno dessa extorsão cotidiana é o combustível que permite à narrativa romântica sobre o crime sobreviver sem nunca precisar enfrentar quem de fato sustenta a conta no fim do mês. Trabalhador, mãe de família, aposentado e pequeno comerciante formam a lista invariável de quem sustenta, sem nunca ter sido consultado, o orçamento de uma estrutura armada que nenhum deles escolheu.

A resposta a isso não cabe em meio termo, e qualquer política pública desenhada como meio termo já nasce derrotada. Não existe negociação possível com quem já demonstrou, pela prática diária, que entende diálogo como sinal de fraqueza a ser explorado, não como gesto de boa-fé a ser retribuído. O Estado brasileiro precisa retomar rua por rua, comunidade por comunidade, bairro por bairro, com a mesma consistência e o mesmo tempo que o crime organizado levou para construir o domínio que hoje exerce, porque presença intermitente apenas ensina ao território ocupado que a ausência sempre volta. O novo ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, empossado em janeiro de 2026 em substituição a Ricardo Lewandowski, repetiu o diagnóstico correto ao afirmar que ações isoladas, ainda que eficientes, não bastam para enfrentar estruturas criminosas complexas e financeiramente organizadas, e defendeu a tramitação da Proposta de Emenda à Constituição da Segurança Pública como instrumento de coordenação federativa permanente. O diagnóstico está certo. O que falta, depois de décadas de diagnósticos corretos sem execução correspondente, é a disposição de sustentar o custo da execução além do ciclo de manchete. Recuar diante da primeira baixa, da primeira pressão midiática ou da primeira negociação informal por trégua não é prudência. É confirmação pública de que o controle territorial paralelo pode esperar a próxima onda de cansaço institucional para se reconsolidar — e a história recente do Rio de Janeiro, com o Comando Vermelho retomando, entre 2022 e 2023, mais de duzentos e quarenta quilômetros quadrados que havia perdido para milícias um ano antes, mostra exatamente essa lógica de maré: o território vacante nunca fica vacante por muito tempo, ele apenas espera saber quem vai ocupá-lo de novo.

Cidades inteiras estão sendo tomadas em pedaços, rua após rua, enquanto parte significativa da opinião pública e de sua representação política trata o fenômeno como exagero retórico de quem quer alarmar sem motivo, ou pior, como pretexto eleitoral de quem busca capital político em cima do medo da população. Não é exagero. É descrição precisa de um processo em curso, mensurável pelo número de territórios onde o cidadão comum já não decide por conta própria quando sair de casa, o que vender, quanto cobrar ou para quem prestar contas. Fingir que não vê não interrompe o processo. Apenas garante que, quando a urgência for impossível de ignorar, o custo da reação será proporcionalmente maior ao tempo perdido em negação. O relógio dessa disputa territorial não para porque Brasília decidiu chamá-la de outra coisa, e não vai parar porque algum gabinete climatizado no centro do poder considera o tema desconfortável demais para a próxima campanha. Ele só para quando o Estado brasileiro decidir, de uma vez, pagar o preço que ele sempre soube que essa guerra custaria.

*         Enviado ao site pelo autor em 7 de agosto de 2026

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  • Claudio Apolinario
  • 06 Agosto 2026

 

Claudio Apolinario

O Brasil perde mais de R$ 693 bilhões por ano com a criminalidade. Mas o custo mais alto não aparece nos números — aparece nas vidas que param.

Em 2024, o Brasil registrou 42.590 homicídios. São 116 pessoas mortas por dia. Quatro a cada hora. Enquanto você lê este parágrafo, alguém no Brasil está sendo assassinado.

Esses números são do Atlas da Violência 2026, publicado pelo Ipea em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O dado oficial aponta queda de 7,4% em relação a 2023 — o menor patamar desde 2014. Mas o próprio Ipea alerta: parte das mortes simplesmente não está sendo contada. Quando esses casos são incluídos, a queda real cai para apenas 0,3%. Na prática, estagnação.

E mesmo aceitando os números oficiais como verdadeiros, o Brasil perdeu mais de 300 mil jovens entre 15 e 29 anos para a violência em onze anos. Não são estatísticas. São pessoas. São filhos, pais, irmãos que não voltaram para casa.

Mas há uma dimensão desse problema que raramente aparece no debate público. O custo econômico da violência.

Segundo o Ipea, o Brasil perde o equivalente a R$ 693 bilhões por ano com os efeitos do crime — quase 6% de tudo que o país produz em um ano inteiro — mais do que todo o orçamento federal de saúde e educação somados. O número inclui gastos com segurança, perdas de produtividade, danos à propriedade e o custo humano das mortes prematuras. Cada homicídio custa, em média, R$ 1 milhão aos cofres públicos — somando saúde, previdência, segurança, processos judiciais e perda de produtividade. Com mais de 42 mil homicídios por ano, a conta ultrapassa R$ 42 bilhões só com mortes.

Empresas brasileiras gastam R$ 170 bilhões por ano em segurança privada — 1,7% do PIB, segundo a Confederação Nacional da Indústria. São recursos que não constroem nada, não criam empregos, não melhoram a vida de ninguém. São gastos para tentar compensar a ausência do Estado onde ele mais deveria estar presente: garantindo que as pessoas possam viver e trabalhar em segurança.

E aqui está o ponto que o debate político prefere evitar: o problema não é falta de policial. É a impunidade.

Em 2023, apenas 36% dos homicídios dolosos — quando há a intenção de matar — foram esclarecidos, segundo o Instituto Sou da Paz. Isso significa que em 64% dos assassinatos, ninguém foi responsabilizado. Nenhuma investigação concluída. Nenhuma denúncia ao Ministério Público. Nenhuma punição.

Na Bahia, o pior estado do ranking, apenas 13% dos homicídios foram esclarecidos. Na prática, quem mata na Bahia tem 87% de chance de não ser responsabilizado.

Esse dado explica tudo o que os discursos sobre segurança pública não conseguem explicar. O crime não persiste porque faltam policiais. Persiste porque matar no Brasil raramente tem consequência. A polícia prende — e com frequência o sistema solta. O inquérito some na fila. O processo prescreve. A impunidade não é exceção. É o padrão.

Um país que não pune o crime ensina que o crime compensa. E quando o crime compensa, ele se expande — para as comunidades, para as periferias, para os jovens sem perspectiva que aprendem cedo que a lei não vale para todos da mesma forma.

O crime não é um problema de falta de recursos para a segurança pública. O Brasil gastou R$ 124,8 bilhões em segurança pública em 2023, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O problema é que esse dinheiro entra num sistema que não fecha o ciclo — que investiga pouco, denuncia pouco, condena pouco e prende ainda menos.

E o custo vai além do bolso. Uma criança que cresce num bairro onde tiroteios são rotina, perde dias de aula. O professor pede transferência. O comerciante fecha mais cedo. O investidor escolhe outra cidade. O ciclo de pobreza se aprofunda — não porque as pessoas não querem trabalhar, mas porque o Estado não consegue garantir o mínimo: que elas cheguem ao trabalho e voltem para casa.

A solução não está em mais gastos com segurança. Está em acabar com a impunidade — investigar mais, denunciar mais, julgar mais rápido e punir com consistência. Não como vingança. Como sinal claro de que o crime tem preço.

Quando o Estado não dá esse sinal, alguém ocupa o vácuo. E quem ocupa nas periferias brasileiras não é o governo — é o crime organizado, com suas próprias regras, sua própria justiça e seu próprio preço para quem desobedece.

*          O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.

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  • Jordani Maciel
  • 05 Agosto 2026

 

Jordani Maciel

             Quando falamos sobre dinheiro, normalmente pensamos em uma nota de papel ou no saldo disponível em uma conta bancária. Porém, o verdadeiro valor do dinheiro vai muito além de um número. Ele está no poder de compra, na confiança que uma moeda transmite e na capacidade de pessoas, empresas e investidores planejarem o futuro.

Em 1994, o Brasil iniciou uma das maiores transformações econômicas de sua história com a implantação do Plano Real. Um país marcado por décadas de hiperinflação passou a conviver com algo essencial para qualquer sociedade que deseja crescer: previsibilidade.

Mais de três décadas depois, uma reflexão continua necessária: o que antes representava R$ 100,00 no início do Plano Real possui hoje um poder de compra equivalente a R$ 12,33. Para dimensionar essa corrosão na base da sociedade, basta olhar para o Salário Mínimo em 1994. Convertido para a nova moeda representava pouco mais de R$ 60,00, enquanto atualmente supera R$ 1.600,00 em valor nominal.

Entretanto, o crescimento do número estampado no contracheque não significa, necessariamente, aumento proporcional do poder de compra. Essa diferença revela uma realidade que muitas vezes passa despercebida: a inflação reduz silenciosamente o valor do dinheiro, dificulta o planejamento e influencia diretamente as decisões das famílias, das empresas e dos investidores.

Essa perda de valor do dinheiro pode ser analisada sob dois aspectos:

a) O impacto sobre o poder de compra: a inflação reduz a quantidade de bens e serviços que uma determinada quantia consegue adquirir ao longo do tempo. A nota continua tendo o mesmo valor nominal, mas sua capacidade econômica real despenca.

b) O impacto sobre o planejamento: quando famílias, empresas e investidores perdem a previsibilidade econômica, tomar decisões de longo prazo torna-se um exercício de alto risco. Investimentos, contratações e expansão de negócios passam a ser travados pela incerteza.

O Plano Real foi responsável por controlar a hiperinflação e recuperar a confiança na moeda brasileira. Entretanto, preservar o valor do dinheiro continua sendo um desafio constante. A estabilidade econômica não é uma conquista definitiva; ela depende de responsabilidade fiscal, segurança jurídica, respeito às instituições e de um ambiente capaz de gerar confiança.

A inflação não aparece apenas nos indicadores econômicos. Ela está no supermercado, no custo de vida, nos investimentos, nos salários e nas decisões tomadas diariamente por quem produz. Funciona como um imposto silencioso, corroendo o poder de compra e reduzindo a capacidade de as  famílias e empresas planejarem o futuro.

Para quem empreende, cada aumento de custo representa uma escolha difícil: absorver perdas, repassar reajustes ao consumidor ou buscar ganhos de produtividade para manter a competitividade. Em ambientes de incerteza, investir deixa de ser apenas uma oportunidade e passa a representar um risco maior.

Nas últimas décadas, consolidou-se a ideia de que um Estado cada vez mais presente seria capaz de organizar melhor a atividade econômica. Contudo, a experiência prática e os números revelam o oposto: com uma média de crescimento anual do PIB brasileiro travada em torno de modestos 2% a 2,4% ao longo dos anos, e uma carga tributária que ultrapassa 33% da riqueza nacional, o excesso de intervenção, a burocracia excessiva e a insegurança regulatória produzem efeitos contrários aos desejados. Em vez de desenvolvimento, limitam a inovação, reduzem os investimentos produtivos e aumentam os custos de quem gera riqueza e empregos.

O desafio de uma sociedade moderna não está em escolher entre Estado ou mercado, mas em encontrar o equilíbrio adequado. O Estado possui um papel fundamental na criação de regras claras, na garantia da segurança jurídica e na construção de um ambiente estável. Porém, quando ultrapassa esses limites e passa a substituir a iniciativa das pessoas e das empresas, pode reduzir a capacidade de inovação e crescimento.

É nesse contexto que a liberdade econômica se apresenta como um contraponto necessário. Não por defender a ausência do Estado, mas por reconhecer que o desenvolvimento depende de previsibilidade, confiança e liberdade para empreender. Um ambiente econômico saudável permite que pessoas e empresas assumam riscos, invistam, inovem e criem oportunidades.

A Lei da Liberdade Econômica representa essa mudança de perspectiva. Mais do que simplificar procedimentos, ela reforça a ideia de que o Estado deve atuar como garantidor das regras do jogo, oferecendo segurança para quem deseja produzir, investir e gerar empregos. Reduzir burocracias desnecessárias e fortalecer a livre iniciativa significa ampliar as condições para o crescimento sustentável.

Empresas não existem apenas para gerar resultados financeiros. Elas movimentam a economia, criam empregos, desenvolvem comunidades e transformam realidades. Para cumprir esse papel, precisam de previsibilidade, confiança e liberdade para produzir.

No fim, o valor do dinheiro representa muito mais do que uma questão econômica. Representa a confiança de uma sociedade em seu próprio futuro. E confiança não nasce do excesso de controle, mas da combinação entre estabilidade, responsabilidade e liberdade.

Quando esses pilares caminham juntos, quem prospera não são apenas as empresas, mas toda a sociedade.

*              O autor, Jordani Maciel, é Administrador, ex-diretor de Desenvolvimento Econômico e Habitação e relator da Lei da Liberdade Econômica de Glorinha/RS.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 03 Agosto 2026

 

Gilberto Simões Pires     

 

ESTÃO CRIMINOSA DA PANDEMIA

Na semana passada, o senador americano Ted Cruz, em entrevista que concedeu à Fox News Digital, ACUSOU o ex-principal assessor da Casa Branca para assuntos ligados à COVID-19, ANTONIO FAUCI, de ter MENTIDO DELIBERADAMENTE em diversas ocasiões sobre assuntos relacionados à PANDEMIA. Ted Cruz concluiu reafirmando a urgente necessidade de que FAUCI responda CRIMINALMENTE por suas ações, em um momento em que as discussões sobre a GESTÃO DA PANDEMIA E SUAS GRAVES CONSEQUÊNCIAS PERMANECEM EM PAUTA NA SOCIEDADE AMERICANA.

NEGACIONISTAS

Pois, nessa mesma toada de URGENTE -BUSCA DA JUSTIÇA-, FAZ-SE NECESSÁRIO QUE TODOS OS VEÍCULOS DE COMUNICAÇÃO DO BRASIL QUE INTEGRARAM O CRIMINOSO -CONSÓRCIO GENOCIDA-, criado em junho de 2020 pelo G1, O Globo, Extra, O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e UOL, assim como seus CRIMINOSOS ÂNCORAS, REPÓRTERES E COMENTARISTAS -SEJAM EXEMPLARMENTE RESPONSABILIZADOS PELO FATO DE TEREM -MARCADO NA PALETA- DAQUELES QUE OUSASSEM SE MANIFESTAR CONTRÁRIOS ÀS VACINAS (na real não passavam de meros EXPERIMENTOS)- o  RÓTULO DE -NEGACIONISTAS-.

CALAR E INCRIMINAR

Como, por diversas vezes também fui alvo dos SAFADOS, que agiam com o DUPLO PROPÓSITO DE -CALAR e INCRIMINAR- quem exigia apenas e tão somente 1- o USO DA LIBERDADE DE OPINIÃO; e 2 - o DIREITO DE NÃO QUERER RECEBER A VACINA; MAIS DEVO ME ESFORÇAR NO SENTIDO DE QUE TODOS OS CRIMINOSOS, e não apenas o bandido -ANTONIO FAUCI- PAGUEM PELO QUE FIZERAM, AFIRMARAM E CONDENARAM. 

QUESTIONAMENTO QUE SE FAZ NECESSÁRIO

Aliás, como bem questiona o jornalista Eugênio Esber, no seu artigo -A CAIXA-PRETA DA PANDEMIA- publicado na ZH de ontem, 02, 

1- POR QUE O MUNDO PERDEU TANTAS VIDAS NA PANDEMIA?

2- POR QUE TANTOS EMPREGOS E TANTOS NEGÓCIOS FORAM DESTRUÍDOS?

3- POR QUE TANTAS FAMÍLIAS FORAM TRANCAFIADAS EM CASA, SOB A MIRA DA POLÍCIA (e dos repórteres)?

4- QUAL A EFICÁCIA DAQUELAS MÁSCARAS?

5- POR QUE FECHAR ESCOLAS INDEFINIDAMENTE E CONFINAR CRIANÇAS E AVÓS?

6- POR QUE DETERMINAR O CANCELAMENTO DE CIRURGIAS E CONSULTAS?

7- POR QUE IMPOR UMA VACINA DESENVOLVIDA SEM A CONCLUSÃO DOS TESTES NECESSÁRIOS? 

8- POR QUE COLOCAR UM ALVO NAS COSTAS DE TODOS AQUELES QUE TINHAM ALGUM RECEIO EM SE VACINAR?

9- POR QUE PERSEGUIR GENTE DO POVO COM A AMEAÇA DE DEMISSÃO DO EMPREGO OU PROCESSO JUDICIAL OU ATÉ A PERDA DA GUARDA DOS FILHOS PELO CRIME DE TER DÚVIDAS?

10- E MÉDICOS, POR QUE PROIBI-LOS DE PRESCREVER TRATAMENTOS À BASE DE DROGAS REPOSICIONADAS, AINDA QUE ESTIVESSEM LASTREADOS EM EVIDÊNCIAS TEÓRICAS E EMPÍRICAS?

11- POR QUE TRATAR UM PACIENTE DEIXOU DE SER OBRIGAÇÃO E SE CONVERTEU EM CRIME? 

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  • Francisco Carneiro Júnior
  • 31 Julho 2026

 

Francisco Carneiro Junior

“O socialismo nunca defendeu o povo — defendeu o Estado contra o povo, e destruiu, no caminho, a menor minoria que existe sobre a Terra: o indivíduo”. Ayn Rand

             Enquanto Brasília sonha com outubro, o Brasil sangra em silêncio.

O projeto que hoje ocupa Brasília não é um projeto de governo. É um projeto eleitoral disfarçado de governo. Não existe plano de nação ali dentro — existe cronograma de campanha. E a diferença entre as duas coisas é medida em vidas, em contas de luz, em presídios que viraram sede social do crime, em fronteiras que ninguém fecha. O horizonte deles é outubro de 2026. O horizonte do povo é o Brasil que sobra depois. Sacrifica-se o presente do brasileiro para financiar o futuro do partido — e a fatura, gigantesca, cairá sobre a mesa de cada família em 2027, quando o circo já tiver ido embora e restar só a lona rasgada.Olhe ao redor. Segurança pública, defesa nacional, infraestrutura, o interior esquecido, o cotidiano exaurido — em cada uma dessas frentes a sensação é uma só, monocórdica, obsessiva: abandono. Não é impressão. É método.

Comecemos pelo bolso, que é onde a ideologia perde a poesia e vira aritmética. Você paga luz, combustível, internet, plano de saúde, transporte, água — e nunca votou em quem decide, de fato, quanto você vai pagar por cada um desses itens. O Brasil mantém onze agências reguladoras federais com poder de editar norma, autorizar, fiscalizar, multar, interferir. Um poder imenso, quase invisível, que não passa pela urna e raramente passa pela imprensa. O problema não é a regulação em si — regular é função legítima do Estado moderno. O problema é quando a regulação deixa de prestar contas a alguém e passa a prestar favor a algum setor. Isso tem nome técnico: captura regulatória. E captura regulatória, meus caros, é apenas uma forma elegante de dizer que o Estado trocou de dono sem avisar o eleitor.

Agora olhe a fronteira, porque é lá que a ficção do “Brasil que funciona” se desfaz com mais violência. O país deixou de ser rota do narcotráfico internacional para se tornar base dele. O Tren de Aragua fornece armamento. O Comando Vermelho articula redes que atravessam continentes. O PCC se expande como uma corporação transnacional — porque é exatamente isso que ele é: uma corporação transnacional do crime, com filial, com logística, com departamento financeiro. E enquanto isso acontece, a cúpula da Polícia Federal chama de “equívoco técnico” a decisão de potências estrangeiras de tratar essas facções como organizações terroristas. Chamam de equívoco o que deveria ser chamado de diagnóstico tardio. O governo, em vez de agradecer a cooperação, veste a beca da soberania ferida — como se soberania fosse o direito de deixar o crime crescer sem interferência alheia, e não o dever de protegê-la com as próprias mãos, antes que outros precisem fazê-lo por nós.

A solução, aliás, nunca foi complicada — só foi, sistematicamente, evitada. Fronteira protegida. Dinheiro bloqueado. Bens confiscados. Lideranças isoladas em regime que impeça o comando de dentro da cela. Facções tratadas como o que são: ameaça à soberania nacional, não como problema de assistência social mal resolvido. Ou o Brasil enfrenta o narcoestado que se instala célula por célula, ou aceita ser playground do crime organizado — e nações não escolhem entre essas duas coisas por acaso; escolhem por covardia ou por coragem, e a covardia, infelizmente, também é política pública.

E é dentro do próprio sistema prisional que se vê o retrato mais cru do abandono. Quando o Estado perde o controle dos presídios, ele não perde um detalhe administrativo — perde a soberania sobre o próprio território, célula por célula, ala por ala. É nesse vácuo, morno e silencioso, que as facções recrutam, se organizam, se profissionalizam. Cada preso não ressocializado é um funcionário em potencial da maior multinacional do crime que o Brasil já produziu.

E é nesse cenário que ouvimos uma vereadora — Karen Santos, do PSOL — descrever traficantes como “trabalhadores megaexplorados” e defender a legalização das drogas como política de combate ao próprio tráfico. Segundo ela, a droga seria “uma mercadoria como qualquer outra”. Vejam a inversão: quem morre soterrado pela guerra das facções vira estatística; quem comanda o tráfico vira proletário oprimido. É a compaixão apontada para o lado errado da arma. E o pior: dita com a solenidade de quem acredita estar do lado certo da história — o que nos leva a um fenômeno mais profundo do que qualquer discurso isolado de plenário.

Porque existe uma engrenagem, quase invisível, que rege a política digital contemporânea, e que explica por que discursos como esse não desaparecem — eles se multiplicam. A internet não premia necessariamente quem está certo. Premia quem consegue fazer o adversário reagir. Há uma lei informal da internet que descreve exatamente isso: a forma mais eficiente de dominar uma conversa não é fazer a pergunta mais inteligente — é lançar a provocação mais irritante, aquela que ninguém consegue deixar sem resposta. O erro vira isca. A indignação vira combustível. E jornalistas, adversários, influenciadores, militantes de boa-fé começam, sem perceber, a trabalhar de graça espalhando exatamente aquilo que gostariam de destruir. Some a isso outro princípio, batizado em homenagem a um escritor italiano: a quantidade de energia necessária para desmentir uma mentira é ordens de grandeza maior do que a energia necessária para produzi-la. E some ainda a advertência de um linguista americano: negar publicamente um enquadramento é, paradoxalmente, reforçá-lo na mente de quem ouve — porque a palavra repetida grava a moldura, mesmo quando pretende apagá-la. Três mecanismos, uma só conclusão: nem toda provocação merece palco, porque na guerra de narrativas quem “corrige” costuma sair convencido de que venceu o debate — enquanto quem provocou, na verdade, venceu a pauta.

E a hipocrisia, aqui, atinge sua forma mais pura. Em palanque na universidade, antes de discurso do próprio presidente da República, ouvimos a acusação de que as igrejas seriam “máfias”. Mas, chegada a eleição, os mesmos lábios que insultaram os templos pedirão, mansamente, o voto dos que neles rezam. Quando alguém chama a igreja de máfia, não está atacando um prédio de tijolo e telha — está atacando milhões de pessoas de fé que sustentam famílias, recuperam vidas destruídas pelo vício, alimentam quem o Estado esqueceu. Quem conhece o trabalho das igrejas nas periferias sabe que ali não há crime organizado: há oração, acolhimento, prato de comida quente, esperança reconstruída tijolo por tijolo. A fé do povo não pode ser transformada em inimigo ideológico por quem, depois, precisará dela nas urnas. Respeitar as igrejas não é favor — é reconhecer a liberdade religiosa e a dignidade elementar de quem crê.

Mas para entender por que tudo isso se encaixa como peças de um só quebra-cabeça, é preciso voltar a 1985, quando um ex-agente da KGB desertou para o Ocidente e revelou o método. Yuri Bezmenov não foi treinado para plantar bombas — foi treinado para plantar percepções. O trabalho dele não era espionagem no sentido clássico. Era reformular, lentamente, a maneira como uma população inteira enxerga a realidade, até que essa população perca a capacidade de distinguir o certo do errado. Ele batizou o processo de subversão ideológica. Eu batizo de Brasil contemporâneo.

A subversão não chega de tanque. Chega pela escola que ensina a obedecer em vez de pensar. Chega pela mídia que decide, por você, o que merece sua indignação hoje. Chega pela cultura que glorifica o Estado provedor e culpa o empresário pela pobreza que o próprio Estado, com sua carga tributária asfixiante, ajudou a produzir. Bezmenov descreveu quatro etapas, e cada uma delas tem endereço no Brasil de 2026. Desmoralização: corroer os valores que sustentam uma sociedade produtiva — família, mérito, propriedade. Ele considerava essa etapa concluída no Ocidente já em 1985; no Brasil, ela amadureceu tardiamente, mas amadureceu. Desestabilização: atacar a economia real, as relações exteriores, a capacidade de defesa — leis que encarecem produzir, impostos que sufocam quem gera emprego. Crise: o colapso que chega, com pontualidade quase matemática, quando a base produtiva de um país é sistematicamente destruída. Normalização: o momento em que o povo deixa de se indignar e passa a administrar o caos como se fosse clima — carga tributária alta? “é assim mesmo”. Empresa fechando? “culpa do empresário ganancioso”. E aqui mora a peça mais trágica do tabuleiro: os idiotas úteis. Não são vilões conscientes — são, em sua maioria, pessoas de boa-fé que propagam a narrativa da própria ruína por ingenuidade, por vaidade, por ganância de aplauso, sem perceber que ajudam a afundar o mesmo barco em que navegam.

E é preciso dizer, com honestidade que a militância raramente pratica: a esquerda moderna não é uma conspiração de cinismo. É pior — é um sistema de poder que se autolegitima através da própria linguagem moral. A maioria de seus operadores acredita genuinamente no que prega. E é exatamente por isso que o sistema é tão resistente: um regime que depende de conspiradores conscientes é frágil, porque conspiradores podem ser expostos, comprados, desmascarados. Um regime que convence seus próprios operadores de que estão praticando o bem é quase inexpugnável, porque não há traidor a delatar — há apenas fiéis convictos. Roger Scruton deu nome a esse impulso: oikofobia — o desprezo sistemático pelo que é seu, familiar, herdado, local. É um movimento psicológico que precede o político. Primeiro se aprende a sentir vergonha da própria origem; depois se aprende a reparar essa vergonha através da militância; a militância então se torna identidade; e a identidade se torna o bem supremo, blindado contra qualquer crítica. O resultado é uma classe que se sente moralmente superior precisamente por ter rompido com tudo que a precedeu — a família, a tradição, a fé, a nação. Quanto mais se rejeita o passado, mais virtuoso se é. Quanto mais se pertence a ele, mais culpado se torna. É um sistema fechado, meus caros: não há como vencer esse debate por dentro, porque o debate, ali, nunca foi sobre argumentos — é sobre pertencimento moral, e pertencimento moral não se discute, se professa.

Se o brasileiro real, no seu dia a dia, em seus valores, em sua fé, é majoritariamente conservador — e se os partidos que dizem falar em nome do povo são sistematicamente progressistas — a pergunta que ninguém quer responder se impõe sozinha: quem, afinal, representa quem? A resposta é desconfortável, mas é precisa: a esquerda brasileira nunca representou o povo. Representou a classe intelectual que se autoproclamou porta-voz dele. E essa distinção não é detalhe acadêmico — é o núcleo exato do problema. Quando Antonio Gramsci formulou o conceito de hegemonia cultural, ele não estava ensinando como convencer a maioria a mudar de opinião. Estava ensinando como tornar a opinião da maioria irrelevante, controlando as instituições que decidem o que conta como realidade. Escola. Universidade. Imprensa. Entretenimento. Quem domina essas quatro estruturas não precisa vencer eleição nenhuma para governar — governa antes mesmo de a urna ser aberta.

E o que é o aparelhamento senão a hegemonia cultural com CNPJ, com organograma, com folha de pagamento? Não é teoria. É prática administrativa. Educação, saúde, previdência, o Bolsa Família — tudo instrumento; nada é fim em si. Um pedaço das Forças Armadas, capturado pela lógica da acomodação. Um pedaço da Polícia Federal, capturado pela lógica do “equívoco técnico”. As autarquias, a ANEEL, a ANATEL, o alfabeto inteiro das siglas que ninguém elegeu — tudo isso não administra o Brasil: administra o desvio, a cooptação, a promoção contínua de um projeto único, que é a utopia centralizadora de Brasília. E a essa utopia é preciso, finalmente, dizer basta. Precisamos rever, reexaminar, reconquistar aquilo que é nosso — porque a verdade incômoda é esta: nós não defendemos coisa alguma que seja nossa.

Enquanto isso, observe o mundo lá fora: as outras nações defendem, com unhas e dentes, até aquilo que não lhes pertence. Recebem o que não é delas, e ficam com o que recebem. O Brasil, ao contrário, entrega o que é seu — e agradece pela oportunidade. Por que a exceção somos sempre nós? O sistema, note bem, já nasceu arranjado para isso: os fundos estão definidos, as autarquias estão desenhadas, os recursos escoam para onde a lei manda escoar, obrigatoriamente, independentemente de mérito, de resultado, de qualquer critério que não seja o critério político que criou a norma. Não é desvio informal — é rolo institucionalizado, com força de lei, blindado contra qualquer revisão.

E aqui está o erro estratégico mais grave de décadas de resistência conservadora: nós só sabemos nos levantar contra indivíduos. Contra o ministro, contra o petista da vez, contra o rosto que a televisão nos mostra. Mas nunca contra a instituição — a autarquia, o fundo, a estrutura burocrática permanente — que segue ali, entronizada, cooptada, orientada contra o próprio país, muito depois de o indivíduo ter caído em desgraça e sido substituído por outro igual. Combater o sintoma e poupar a doença é a receita exata da derrota eterna. É a instituição, e não apenas o nome que a ocupa hoje, que precisa ser revista, disputada, reconquistada — porque enquanto lutarmos apenas contra pessoas, o aparelho continuará de pé, esperando, paciente, o próximo ocupante.

A esquerda não chegou ao poder no Brasil por vitória eleitoral esmagadora nem por sedução ideológica da maioria silenciosa. Chegou por infiltração institucional — lenta, paciente, metódica, executada ao longo de gerações por intelectuais e militantes que compreenderam exatamente aquilo que os conservadores brasileiros insistiram, soberbamente, em ignorar: que o poder duradouro não está em quem vence a eleição de outubro, mas em quem forma os juízes, os professores, os jornalistas, os funcionários públicos de carreira que permanecem no cargo enquanto os governos passam. Os conservadores brasileiros falharam de maneira monumental em construir as alternativas institucionais que poderiam ter alterado esse equilíbrio décadas atrás. E aqui vai a advertência mais dura deste texto, porque advertência sem dureza é apenas lamento vestido de análise: criticar a hegemonia cultural da esquerda sem ter erguido nada comparável não é diagnóstico — é queixa. É o general que denuncia o exército inimigo sem jamais ter treinado o próprio batalhão.

E, no entanto — e é aqui que este texto se recusa a terminar em resignação, porque resignação é exatamente o produto final que a subversão ideológica pretende entregar — reverter esse quadro é questão de construção, não de lamentação. Escola por escola. Instituição por instituição. Uma geração disposta a ocupar o espaço que a anterior cedeu por comodismo.

O Brasil não está condenado ao regime de exceção regulatória, ao narcoestado tolerado, à normalização do caos como clima. Está, isso sim, diante da última hora em que a construção ainda é possível sem que o colapso a torne inevitável. Um Brasil que funciona não é utopia de gabinete nem imaginação de discurso de posse — é projeto que se constrói com as mãos, com instituição, com coragem de nomear o crime pelo nome certo e a fé pelo respeito que ela merece. Existe, ainda, um caminho de volta. A pergunta que resta — e que cada brasileiro terá que responder, sozinho, diante da própria consciência, antes de outubro de 2026 — é se ainda restará gente disposta a percorrê-lo antes que a conta, gigantesca e avassaladora, vença de vez.

Francisco Carneiro Júnior

*  Enviado ao site pelo autor, em 31/07/2026

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 31 Julho 2026

 

Alex Pipkin, PhD

              Há poucos dias subi a um lugar muito alto. Instintivamente olhei para baixo. Meu corpo enrijeceu, as pernas balançaram e
senti aquela velha sensação de que a própria altura nos lembra de recuar. Quem estava comigo também olhou para baixo. Nenhum de nós conseguiu ignorar a altura.

Voltei para casa pensando que a natureza criou um mecanismo extraordinário. Quanto maior a altura, maior a cautela. A vertigem não existe para impedir que subamos. Existe para impedir que esqueçamos onde estamos.

Foi então que me ocorreu uma pergunta.

Por que esse mecanismo desativa justamente quando a altura deixa de ser física e passa a ser intelectual?

Já passei dos sessenta anos. Li milhares de páginas, lecionei por mais de trinta e cinco anos e continuo estudando todos os dias.

Se existe uma conclusão à qual todo esse tempo me conduziu, ela é quase um paradoxo.

O conhecimento não elimina a ignorância, apenas ilumina suas fronteiras. Cada resposta revela perguntas que antes sequer existiam. Aprender não é acumular certezas, mas ampliar, continuamente, a consciência daquilo que ainda desconhecemos.

Descobri também que estudar produz um efeito inesperado. Não nos transforma em proprietários da verdade. Apenas reduz nossa arrogância diante dela. Continuamos sem saber exatamente o que fazer em muitas situações, mas passamos a reconhecer, com muito mais clareza, aquilo que repetidamente não deveria ser feito. A maior utilidade do conhecimento não é eliminar a dúvida, mas impedir que deixemos de duvidar.

Talvez por isso as pessoas mais preparadas dificilmente são as sempre mais categóricas.

O curioso é que vivemos exatamente a época oposta.

Nunca foi tão fácil encontrar especialistas instantâneos. Pessoas que jamais estudaram geopolítica distribuem certezas sobre conflitos milenares. Quem nunca abriu um tratado de economia apresenta soluções definitivas para países inteiros. Jovens que mal começaram a viver falam da vida como quem já escreveu o último capítulo.

Quase ninguém demonstra a menor vertigem.

O conhecimento amplia o horizonte, e a inteligência nunca consistiu na ausência de dúvidas, mas na capacidade de conservar a vertigem diante daquilo que pensamos saber.

 

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