Afonso Pires Faria
Quantos absurdos são cometidos em nome do bem? E quantos deles já internalizamos e aceitamos como norma? Um deles é a obrigatoriedade da utilização do cinto de segurança. A alegação é de que ele protege os passageiros em caso de acidente. Perfeito. Nenhuma dúvida sobre isso.
Por que, então, somos obrigados a nos proteger de acidentes automobilísticos, mas não somos, por exemplo, obrigados a utilizar coletes à prova de balas quando andamos nas ruas das favelas do Rio de Janeiro? E por que não nos obrigam a ter uma arma de fogo em casa para proteger nossa família, ou quando andamos na rua durante a noite? Não! Eles não nos obrigam. Eles simplesmente nos proíbem. A coerência passa ao largo dos nossos legisladores e do nosso governo de plantão. Demagogia é o lema. É o Estado se agigantando e mostrando suas garras.
Quando não agimos mais por vontade própria e sim por ordem de um ente estatal, já estamos com o "buçal" na cabeça e o cabresto na mão deles. A razão e o bom senso deixam de valer em nome de uma ordem do Estado. Qualquer dia, este todo-poderoso, que tudo ordena, irá nos ensinar a falar a linguagem deles e não a nossa. E pode piorar. Já imaginou o dia em que resolverem que tens que chamar homem de mulher e mulher de homem, se assim se identificarem? E pode ficar mais repressivo ainda. O Estado vai te multar ou prender se chamares o indivíduo por aquilo que ele é, e não pelo que ele julga ser.
As leis são criadas sem qualquer critério de lógica e aplicabilidade. Leis estúpidas já abundam no nosso país. São leis, portarias, decretos e regulamentações que para nada servem, senão para confundir ou beneficiar algum setor que se encontra em dificuldade momentânea. Obrigar um cidadão a recompensar quem encontre e devolva um objeto roubado, proibir a exposição de recipientes com sal sobre a mesa de restaurantes, e obrigar a comercialização de preservativos em bares são alguns exemplos de leis criadas no nosso país.
Como levar a sério um governo que permite este tipo de legislação? Não são normas apenas ridículas. São, também, improdutivas. Algumas destas idiotices causam efeito contrário ao da finalidade a que se propõem. Senão vejamos: o Brasil aumenta o investimento em educação e perde posições no ranking mundial, segundo o PISA. Criam-se leis que protegem as mulheres de serem agredidas por seus companheiros. Após a sua criação o número de agressões e mortes, cresce exponencialmente. Todos estes absurdos, são produzidos por legisladores e governos muito bem remunerados. Sim, pagamos para pessoas criarem empecilhos na nossa vida.
Claudio Apolinario
O que entra na sala de aula não é neutro. Nunca foi. E no Brasil alguém decidiu o que seu filho deve pensar e você não foi consultado.
Pergunte a qualquer pai o que seu filho aprendeu na escola sobre livre mercado. Depois pergunte o que aprendeu sobre racismo estrutural. A diferença entre as duas respostas não é acaso. É currículo.
O currículo escolar não é neutro. Nunca foi em nenhum país do mundo. É sempre uma escolha — sobre o que importa, o que forma, o que o jovem deve pensar ao sair da escola. A questão não é se o currículo tem direção. É quem decide essa direção e com qual critério.
No Brasil, essa decisão foi sendo tomada ao longo de décadas, longe dos pais, longe do debate público e longe de qualquer cobrança de resultado. E o produto dessa decisão está em sala de aula hoje.
Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica, nos anos finais do Ensino Fundamental, quase 40% das turmas não possuem professores com formação compatível para lecionar em suas disciplinas. Quase 4 em cada 10 turmas estão sendo ensinadas por professores sem formação específica na matéria que lecionam. Um professor de história ensinando ciências. Um pedagogo cobrindo matemática. Não por má vontade — por falta de profissionais formados nas áreas certas.
Porque as áreas certas não eram a prioridade.
Em Singapura — país que ocupa o primeiro lugar no PISA 2022 nas três disciplinas — apenas um em cada oito candidatos é aprovado para a carreira docente. Os aprovados passam por formação rigorosa, recebem salários competitivos e têm grande valorização social. O currículo tem ênfase intensa em matemática, ciências e tecnologia — conteúdo objetivo, mensurável, com cobrança de resultado.
O Brasil fez escolhas diferentes. A Pedagogia brasileira reserva espaço central para filosofia da educação, sociologia, antropologia e correntes pedagógicas — disciplinas que formam a visão de mundo do professor antes de formar o especialista na disciplina que vai ensinar.
Isso não é crítica à teoria. É crítica ao desequilíbrio. Um professor que domina a filosofia da educação mas não domina o conteúdo da disciplina que leciona não falha por falta de esforço. Falha porque foi formado com outra prioridade.
Em 2023, um Projeto de Lei apresentado no Senado Federal propôs proibir questões com viés ideológico no ENEM, alegando que a prova passou a trazer conteúdo que "condiciona o que é ensinado nas escolas para os anos seguintes, colocando em risco todo o sistema educacional."
O projeto revelou o que já era visível para quem olhava: o principal exame de acesso ao ensino superior tornou-se campo de disputa entre o que se ensina e o que se quer que o jovem pense.
O mecanismo é direto. O ENEM define o que as escolas ensinam. O que cai no ENEM é o que quem controla a prova prioriza. O que é priorizado entra no currículo. E o currículo, por sua vez, reflete as escolhas de quem decide o que o ENEM deve medir. É um ciclo fechado — e quem está dentro dele define o produto final.
Estudos comparativos entre Brasil, Singapura e Finlândia identificam com precisão o que diferencia sistemas educacionais de alto desempenho dos demais: foco em conhecimentos essenciais, sequência lógica, base científica e ligação íntima entre currículo, material didático, formação de professores e avaliação. Nos países que lideram o ranking, o que o aluno aprende e como isso é medido são decisões técnicas, não políticas.
No Brasil, essa fronteira foi sendo apagada — deliberadamente. Quando o critério de seleção de conteúdo deixa de ser "o aluno precisa saber isso para pensar com autonomia" e passa a ser "o aluno precisa pensar dessa forma", o ensino muda de natureza. Não forma quem pensa. Forma quem concorda.
O produto final não é mistério. É o jovem que sai da escola sem conseguir interpretar um texto simples, sem calcular o troco, sem entender uma bula de remédio — mas que domina os termos que alguém decidiu que ele precisava conhecer.
Isso não é falha. É escolha. E a pergunta é: quem escolheu?
A pergunta que cada pai deveria fazer não é "meu filho passou de ano?" É mais simples e mais importante: "o que ele está aprendendo a pensar — e quem decidiu isso?"
Porque quem forma o que uma geração pensa, forma o país que essa geração vai construir.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.
Dartagnan da Silva Zanela
Um querido ex-professor, em suas aulas, sempre procurava nos advertir que tudo nesta vida tem segundas intenções, mesmo um gentil "bom-dia"; o que não significa, necessariamente, que elas precisem ser más.
Pensando nisso, lembrei-me de uma passagem da obra "Ortodoxia", de G. K. Chesterton, onde o autor nos conta uma historieta muito sugestiva, conhecida popularmente como "a parábola do poste".
Conta-nos ele que, em uma cidadezinha qualquer, havia um poste de luz que seria removido pelas autoridades públicas e, para tanto, foi feita uma grande campanha para "esclarecer" a população sobre a importância da remoção deste trambolho barroco que atrapalhava a via pública e que, de acordo com os mesmos, era muito antiquado, desalinhado e, por isso, não ornava com os novos tempos.
Papo vai, papo vem, e a galera galerosa estava toda muito animada com a remoção do dito-cujo e, em meio a toda essa empolgação, eis que apareceu um frade franciscano, com seu surrado hábito cinza.
Ele se inscreveu para parlar. As autoridades, respeitosamente, lhe concederam a palavra. Então, ele foi até o púlpito e lembrou a todos que, antes de retirarmos o poste e destruí-lo, seria de fundamental importância que procurássemos refletir a respeito da luz. O que é a luz?
Ao ouvirem isso, as autoridades, os cidadãos presentes — e alienígenas que não foram convidados — começaram a vaiar o frade, enxotando-o dali, pois eles não tinham tempo para refletir sobre o que seria a luz, ou o que quer que fosse; e, após a sua retirada, o poste foi colocado abaixo, o que levou a galera ao delírio.
Passado algum tempo, as pessoas começaram a perceber que os maiores defensores da retirada do poste estavam interessados em ganhar algum com a venda do bronze que havia nele. Outros queriam que as ruas não mais fossem iluminadas para poderem, ao ar livre, praticar atos libidinosos e cometer crimes e delitos com maior tranquilidade.
Enfim, todos se tocaram de que realmente era necessário que tivessem parado para refletir a respeito da natureza da luz; e agora eles o farão, porém, irão fazer isso no escuro por ignorarem as tais das segundas intenções.
Bem, por isso, perguntamos: o que é a educação? O que ela é? Durante todo o correr do século XX, foram feitos incontáveis experimentos com base em teorias "inovadoras", com o intento de melhorá-la e, em grande medida, quanto mais inovações foram sendo introduzidas (lá ele...), estranhos resultados foram sendo obtidos em médio e longo prazo.
Experimentos esses que continuam sendo empreendidos no século XXI, onde se chegou a realizar a façanha de a atual geração — os zoomers — ter um QI médio inferior ao da geração anterior; o chamado efeito Flynn reverso. Tudo isso, em grande medida, graças às teorias inovadoras que justificam e embasam as inúmeras decisões que foram e são tomadas por burocratas tão presunçosos quanto bem-intencionados — sempre bem-intencionados.
Boas intenções que nos levam a recordar o livro "As fronteiras da técnica", de Gustavo Corção, onde o autor nos diz que a bomba nuclear não o assustava — nem um pouco. O que enchia o seu coração de medo era a caneta de um burocrata.
Pois é. Quantas e quantas insanidades foram perpetradas por uma caneta azul nas mãos de um burocrata bem-intencionado? Infelizmente, não foram poucas; e o estado em que se encontra a educação — e a deterioração da autoridade docente — apenas confirma esse medo, não é mesmo?
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.
Claudio Apolinario
O Brasil gasta mais e aprende menos. Isso não é acidente.
Entre 2003 e 2014, o Brasil triplicou o gasto público por aluno na educação básica. Mesmo descontando a inflação, o aumento real foi de 65%. O resultado? A posição do Brasil no ranking mundial de educação ficou entre os 20% piores do mundo.
Mais dinheiro. Resultado ruim. Isso por si só deveria ser um escândalo nacional.
Em 2022, o PISA — avaliação que mede o conhecimento de jovens de 15 anos em 81 países — colocou o Brasil na 65ª posição em matemática, na 63ª em ciências e na 59ª em leitura. Atrás de Chile, Uruguai e Colômbia.
Mas o dado mais perturbador não é a posição. É que desde 2009, os resultados brasileiros não mudaram nas três disciplinas. Mais de quinze anos parado no mesmo patamar. Metade dos jovens brasileiros de 15 anos não consegue interpretar um texto simples. Apenas 2% atingem alto desempenho em leitura.
Pense nisso. Metade dos jovens que hoje votam, trabalham e tomam decisões não conseguem ler um contrato, entender uma notícia ou saber o que estão assinando.
E tem um dado que assusta ainda mais. Segundo o INAF 2024 — pesquisa coordenada pela Ação Educativa com apoio de UNESCO e UNICEF — 29% dos brasileiros entre 15 e 64 anos são analfabetos funcionais. Sabem ler, mas não conseguem interpretar o que leram. Não conseguem preencher um formulário, entender uma bula de remédio ou calcular o troco. São 40 milhões de pessoas. E o mais revelador: 17% de quem terminou o ensino médio ainda é analfabeto funcional. A escola não garantiu nem o básico.
Isso não é falta de recurso. Colômbia e México gastam menos por aluno do que o Brasil e têm resultados melhores (dados OCDE). O problema não é quanto se gasta. É o que se faz com esse dinheiro.
E aqui está a pergunta que ninguém quer responder: se o gasto triplicou e o resultado não mudou, para onde foi o dinheiro?
Essa pergunta incomoda porque a resposta também incomoda. Um sistema inteiro vive desse orçamento — com avaliações que medem mas raramente geram consequência real para quem não entrega.
Não é novidade que há décadas o conteúdo objetivo — matemática, leitura, ciências — tem cedido espaço para outros objetivos dentro da sala de aula. Quando formar opinião política vira prioridade e ensinar a calcular e ler vira secundário, o resultado aparece nos dados. Uma escola que transforma criança em militante ao invés de ensiná-la a interpretar um texto não está falhando por acidente. Está executando um método.
Doutrinação não é falha de gestão. É uma escolha. E esta escolha tem um custo — pago pelas próximas gerações.
O Brasil mede. Mas não age na altura de corrigir o que está errado.
O IDEB — Índice de Desenvolvimento da Educação Básica — existe desde 2007 e mapeia o desempenho de cada escola e município do país. A meta nacional era atingir, em 2022, o nível de qualidade dos países desenvolvidos. Não foi atingida. Em 2019, apenas 23% dos municípios cumpriram a meta. Nenhuma escola fechou por isso. Nenhum gestor perdeu o cargo.
O Brasil sabe onde está falhando. E continua igual.
A incompetência produz resultados ruins por acidente. O que o Brasil tem é diferente: estagnação, aumento constante de orçamento, nenhuma mudança real de cobrança de resultado. Isso não é desorganização. É um sistema feito para quem vive nele, não para o aluno que depende dele.
Coreia do Sul, Japão e Cingapura têm algo em comum: cobram resultado. Professor é avaliado. Escola é avaliada. Aluno é avaliado. Quem não entrega resultado é obrigado a mudar o que está fazendo. São países que estão no topo do ranking mundial em educação. Não por acaso.
No Brasil, o debate sobre educação raramente chega na pergunta mais simples de todas: o aluno aprendeu? Em vez disso, discute-se tudo menos isso. E o ponteiro do PISA não se move desde 2009.
Uma escola que não ensina a ler, a calcular e a pensar não está cumprindo sua função. Não importa a metodologia. Não importa o orçamento. O que importa é se está ou não dando o resultado. O resultado do Brasil é estar na 65ª posição entre 81 países.
Quinze anos parado. Quanto tempo falta para sermos os últimos?
Quem já entendeu isso tem uma responsabilidade concreta. Antes de votar é preciso perguntar: qual é a meta de aprendizagem? Como será medida? O que acontece se não for atingida?
Cobrar o resultado de quem prometeu, antes de renovar o voto, é o mínimo que o eleitor consciente pode fazer. E explicar a realidade para quem ainda não viu que mais dinheiro não trouxe mais aprendizado. Isso é desperdício com dinheiro do contribuinte.
A próxima geração está sendo formada agora. E o que ela vai saber depende das perguntas que fazemos hoje e das ações que tomamos agora.
* O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.
Gilberto Simões Pires
Na semana passada, o jornalista Felipe Vieira compartilhou uma ANÁLISE CONTUNDENTE, produzida pela RC CONSULTORES, comandada pelo economista e ex-presidente do IBGE e do BNDES Paulo Rabello de Castro, ALERTANDO sobre o cenário econômico brasileiro. Com o título -O ABISMO ESTÁ MAIS PERTO-, o relatório da RC CONSULTORES avalia que as expectativas para -INFLAÇÃO, JUROS E CRESCIMENTO- vêm se deteriorando rapidamente, aumentando os riscos para a economia nos próximos anos. Eis:
INFLAÇÃO
No relatório, os economistas destacam a sequência de REVISÕES PARA AS PROJEÇÕES DE INFLAÇÃO E O IMPACTO DESSE MOVIMENTO SOBRE AS EXPECTATIVAS DE MERCADO. Segundo a avaliação, a inflação projetada para o fim de 2026 alcançou 5,35%, avanço significativo em relação aos 3,87% estimados em fevereiro deste ano. De acordo com a consultoria, a mudança ocorreu em um período relativamente curto. Em apenas QUATRO MESES, a expectativa para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou quase um ponto e meio percentual, refletindo uma percepção crescente de dificuldade para o controle da inflação. A análise aponta que o efeito dessa deterioração também aparece nas projeções para a taxa básica de juros. Em março, o mercado trabalhava com a expectativa de que a Selic encerraria 2026 em torno de 12% ao ano. Agora, segundo o levantamento citado pela RC Consultores, a previsão já se aproxima de 14%.
JUROS REAIS
Outro ponto destacado é o comportamento dos JUROS REAIS, considerados um dos mais elevados do mundo. Segundo o relatório, o juro real implícito para 2026 ultrapassa 8,6% ao ano, patamar que, na avaliação da consultoria, dificulta investimentos de longo prazo, reduz a expansão do crédito e aumenta os custos para empresas e famílias.
Embora as projeções para o Produto Interno Bruto (PIB) tenham apresentado leve melhora, com expectativa próxima de 2% para 2026, a RC Consultores considera que esse desempenho é sustentado principalmente pela expansão dos gastos públicos. Na avaliação da empresa, esse impulso pode não ser suficiente para garantir crescimento sustentável nos anos seguintes.
POLÍTICA FISCAL
A preocupação maior, no entanto, está concentrada em 2027. O relatório observa que as projeções já apontam desaceleração da atividade econômica, com crescimento estimado em torno de 1,66%, cenário que refletiria os efeitos prolongados de juros elevados e de um ambiente econômico menos favorável para investimentos privados. Os economistas da consultoria atribuem parte desse quadro à POLÍTICA FISCAL do governo federal. Segundo a análise, o aumento das despesas públicas teria contribuído para elevar a percepção de risco dos investidores, pressionando as expectativas de inflação e reduzindo a eficácia da política monetária conduzida pelo Banco Central.
O documento conclui defendendo uma mudança de rumo na condução econômica do país. Para a RC Consultores, sem medidas capazes de recuperar a confiança fiscal e reduzir as incertezas sobre as contas públicas, o Brasil poderá enfrentar um período mais prolongado de crescimento baixo, juros elevados e inflação resistente. A avaliação da consultoria reforça um debate que vem ganhando espaço entre economistas, investidores e agentes do mercado financeiro: o desafio de equilibrar crescimento econômico, controle da inflação e sustentabilidade das contas públicas em um cenário marcado por incertezas internas e externas.
Vanderlino H. Ramage
Qualquer semelhança não é mera coincidência!
“Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”!
No ano de 2005 estive na Colômbia, e naquela ocasião estava chegando às livrarias a biografia de Pablo Escobar, o mega narcotraficante do chamado Cartel de Medellin. Impressiona a semelhança do que vivenciava aquele país, nos anos 80 e 90 do século passado, com o Brasil de hoje, com os níveis de violência, como decorrência do narcotráfico.
A biografia é um depoimento contundente e sem firulas, dado por Jhon Jairo Velásquez Vásquez, conhecido no mundo do crime como “Popeye”, à jornalista colombiana Astrid Maria Legarda Martínez. “Popeye” era o segundo na hierarquia do Cartel de Medellin, abaixo apenas do super “capo”, Pablo Escobar. “Popeye” sobreviveu ao Cartel de Medellin, e deu estes depoimentos a partir de 1998, na prisão em Bogotá, Colômbia.
Para aqueles sensíveis ao tema, estudiosos, sociólogos, professores de direito, administradores públicos, empresários etc, enfim todos aqueles que sabem, de que não há efeito sem causa, e sobretudo acreditam no nosso país, recomendo que leiam “El Verdadero PABLO, Sangre, traicion y muert...”, mutatis mutandis, concluirão de que o Brasil de hoje se encaminha (ou já vive) à Colômbia de ontem.
É inacreditável, mas Pablo Escobar, com seu Cartel de Medellin, chegou a dominar um país inteiro. O Estado Colombiano, foi posto de joelhos, ficou à mercê do traficante. Dominou o Congresso Nacional, chegando ao ponto de mudar a legislação que permitia extradita-lo para os EUA. Entretanto para atingir este nível de dominação, amedrontou a nação através da “droga” e do terror.
É necessário ressaltar, que Pablo angariava a simpatia de parte da população, que via nele um salvador, um benfeitor. Na realidade era um populista bandido, que sabia como poucos manipular as pessoas e os anseios das populações humildes e carentes. Um Robin Hood às avessas, do século XX. Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência.
No auge do seu poder e na luta titânica para não ser extraditado, para os EUA, Pablo Escobar aliou-se a terroristas dos grupos guerrilheiros ETA, das FARCs, do ELN, do M-19 etc, para as quais fornecia drogas em troca de armamento e treinamento operacional militar. É interessante, nesse relato biográfico, a evidência da simbiose do narcotráfico com as esquerdas latinas, os Sandinistas da Nicarágua, o General Noriega do Panamá, e os donos de “La Isla Paradiso” Cuba. Pablo tinha a simpatia os ditos “movimentos da sociedade organizada”, do “indigenismo”, dos “direitos humanos” e até do “ambientalismo fundamentalista” etc, etc.
As FARCs (Forças Armadas Revolucionárias Colombianas) brasileiras têm outros nomes, mas são bem conhecidas, tem apelidos camuflados como “Movimentos Sociais”, inclusive ONGs. Daí talvez, se possa começar a entender porque os “direitos humanos” nunca acodem as vítimas, os policiais assassinados ou seus familiares, mas se apiedam sempre do bandido!
No final de sua vida, Pablo com seu Cartel de Medellin, entre outros recordes, contabilizava a morte de 1500 policiais, o assassinato de 03 candidatos à presidência da república, 02 ministros da justiça, 01 senador, 01 procurador da república, um avião com 107 passageiros abatido em pleno voo, mais de 250 atentados com dinamite, morte de mais de 1000 jovens das comunidades, centenas de civis inocentes, sequestros de empresários, jornalistas, políticos etc. E finalmente a proeza de ter acabado com a cúpula do judiciário colombiano de uma tacada só, incluindo a morte de mais de 100 pessoas num único atentado. Foi aí que a nação começou a acordar!
No caso do Brasil a situação é mais grave, pois contabilizamos quase 50.000 assassinatos por ano, em grande parte, como decorrência do consumo de drogas ilícitas, narcotráfico e seus desdobramentos. Incluindo as mortes no trânsito (50.000 por ano), chegamos a um número apocalíptico, de mais de 1.000.000 de mortes violentas em 10 anos. E ainda não acordamos!
É uma guerra das mais devastadores de todos os tempos. E o custo social, psicológico? Medo, incerteza, descrença, insegurança. E o custo financeiro? Quanto custa aos contribuintes deste país pagar esta guerra fratricida?
Entretanto, o mais inverossímil foi o debate político das últimas eleições sobre o tema, quase nada. A preocupação relevante orbitava sobre a questão LGBT, casamento gay, homofobia etc, temas que passaram a ser prioridades nacional, uma questão de Estado. Aliás, continuam como prioridades no Congresso Nacional. Enquanto isso a nação sangra!
Nas questões estratégicas, que realmente interessam ao futuro do nosso país, o Brasil virou o “samba do criolo doido”: Na TV o herói é do UFC, violência que faz do boxe um esporte para os fracos; do “BIG Brother”, da “novela das oito”, e para fechar a semana, o herói da “Dança dos famosos”.
O narcotráfico já mantém muitas áreas “liberadas” em cidades brasileiras, e está na gênese da maior parte da violência deste país. As medidas para extirpar esta chaga, tomadas pelas autoridades, são de uma candura de fazer chorar o mais insensível dos mortais.
Vejamos: como se trata de uma guerra, o problema escapa a soluções meramente policiais. Todos sabem de onde vem as drogas, por onde entram no nosso país, por onde entram as armas que dão suporte bélico e quem são os respectivos fabricantes.
Portanto as UPPs, “Unidades Pacificadoras”, tão celebradas como soluções em algumas grandes cidades brasileiras, são apenas respostas políticas de candidatos eleitoreiros. Na prática, servem de mortes anunciadas de policiais que morrem, no cumprimento inglório do dever.
De outra parte, as campanhas antidrogas se revelam de um cinismo que despreza a capacidade cognitiva e a sensibilidade do ser humano. Se restringem ao “CRACK”, o “genérico” das drogas. O “crack” incomoda ao grande traficante e a sensação que se tem é de que o narcotráfico já controla setores da mídia, dada as investidas para “legalizar” a maconha. Qualquer estudante do segundo grau sabe que a maconha é a porta de entrada para as drogas mais pesadas. O tabaco e o álcool destroem o corpo, o narcótico destrói a alma.
Causa espanto que os bilhões de reais, movimentados pelo narcotráfico, escapem ao controle das autoridades fazendárias deste país. Pois, qualquer brasileiro que já viveu a experiência de movimentar o montante de R$ 100.000,00 sabe, que tem um órgão chamado COAF, que controla as movimentações financeiras desse porte. E mais, o dinheiro do tráfico necessita ser “lavado”, e não é feito em lavanderias convencionais. Todos sabem onde eles são “lavados” para legitima-los.
Há muitos anos, na época da inflação galopante, ouvi alguém dizer: “Sabem por que a inflação não acaba? Porque alguém lucra com ela, pois se a sociedade inteira, sem exceção, perdesse, ela acabaria no dia seguinte”.
Este raciocínio vale para o narcotráfico. Além dos narcotraficantes, alguém mais lucra, alguém ou alguns muito poderosos, e dá para inferir quais sejam?!
Poderia continuar este raciocínio usando a lógica capitalista. O narcotráfico existe porque existe mercado. Como o maior mercado consumidor do mundo, continua sendo o mercado norte americano, não seria ali, também, que o problema teria que ser atacado prioritariamente?
Num país como o Brasil, onde ocorrem perto de 50 mil assassinatos por ano, esta questão continua não sendo tratada como prioridade nacional. Convenhamos, vivemos numa sociedade doente, um paroxismo sem fim!
Lembro-me de uma amiga, que teve seu único filho assassinado num latrocínio. Esta mãe teve que lutar, como só uma mãe o faz, para conseguir prender e manter o assassino na cadeia. Passado algum tempo, alegando insegurança, este facínora conseguiu a transferência de um presídio de segurança máxima para um presídio de segurança mínima, no interior do Estado do RS. Esta mãe, periodicamente, se dirigia àquela cidade para conferir se o “seu bandido” ainda estava lá encarcerado. Como já se passaram muitos anos, “a progressão da pena”, a Lei que autoriza bandidos a continuarem praticando novos delitos, já deve ter colocado este assassino no convívio da sociedade.
Os exegetas do Direito dirão: são conquistas da civilização! E, quem pensa diferente, os “esquerdopatas” logo rotulam de autoritário, direitista e fascista.
Arrematando, disse-me aquela mãe: a sociedade brasileira silencia e o silêncio a faz conivente.
Silencia o Executivo, silencia o Judiciário, silencia o Legislativo!
Dizem que “A história se repete duas vezes, a primeira como farsa, e a segunda como tragédia”. A farsa é a pseudodemocracia que vivenciamos, a tragédia é o que virá depois!
“Isto não é o fim do mundo, é o fim do Brasil, apenas”!
OBS: Este texto foi escrito há mais de 20 anos, infelizmente continua atual!
* O autor, Vanderlino H Ramage, é Oficial Veterano da Aer/Administrador