• Dagoberto Lima Godoy
  • 14 Agosto 2026

 

Dagoberto Lima Godoy

           A Conferência Internacional do Trabalho adotou, em junho deste ano, a Convenção nº 193, dedicada ao trabalho decente na economia de plataformas, iniciativa que deverá influenciar o debate brasileiro sobre a matéria. Trata-se da primeira norma internacional do trabalho voltada especificamente para esse novo universo de relações econômicas.

A questão que lhe deu origem é real: como disciplinar relações novas, nas quais tecnologia, prestação de serviços e autonomia individual se combinam de modo diferente do emprego tradicional. O ponto decisivo, porém, está em não recair na velha presunção de que o trabalhador é necessariamente a parte hipossuficiente da relação e, por isso, precisa ser tutelado pelo Estado.

Motoristas, entregadores e demais prestadores devem ter informações claras sobre remuneração, funcionamento das plataformas e condições de contratação, além de meios eficazes para exigir o cumprimento do que foi livremente pactuado. Devem também conhecer os critérios algorítmicos que afetem seu acesso ao trabalho e poder contestar decisões relevantes. A própria Convenção avança nessa direção. Isso é muito diferente, porém, de submetê-los, por princípio, ao protecionismo da legislação trabalhista tradicional.

O trabalhador de plataforma não é necessariamente empregado. A própria Convenção nº 193 reconhece essa distinção ao abranger trabalhadores independentemente de sua classificação e ao determinar que se verifique corretamente a existência ou não de relação de emprego conforme os fatos de cada situação.

Muitos escolhem essa atividade precisamente porque podem decidir quando e por quanto tempo trabalhar e, muitas vezes, atuar em mais de uma plataforma. Transformar essa autonomia, por força de lei, em uma relação cercada pelas obrigações do emprego convencional pode significar impor proteção ao preço daquilo que o trabalhador mais procurava: liberdade.

Justiça, nesse campo, deveria significar adequada distribuição de responsabilidades. A plataforma deve responder pela transparência de seus critérios de remuneração, pelas decisões algorítmicas que afetem o trabalhador e pelos riscos que crie ou controle em sua atividade. O trabalhador efetivamente autônomo assume os riscos próprios de sua atividade e deve conservar ampla liberdade para organizá-la e para estruturar sua proteção previdenciária e securitária. O usuário deve pagar o preço real do serviço, sem pretender tarifas artificialmente baixas sustentadas pela precarização de quem o presta. E ao Estado cabe assegurar regras claras, coibir abusos, simplificar a tributação e evitar que sua voracidade fiscal o transforme em mais um sócio da atividade.

Há alternativas melhores do que simplesmente acrescentar encargos trabalhistas a cada corrida ou entrega. Contas individuais de previdência, planos de aposentadoria e saúde e seguros contra acidentes, invalidez e perda temporária de renda podem oferecer proteção sem destruir a flexibilidade. A plataforma pode participar do financiamento de alguns desses instrumentos sem que isso implique, por si só, vínculo empregatício. A proteção social deve acompanhar o trabalhador, e não aprisioná-lo a uma empresa ou a uma forma contratual.

É preciso lembrar uma verdade elementar: nenhum direito criado por lei é gratuito. Um novo encargo imposto à plataforma será absorvido por sua margem, transferido ao usuário, descontado direta ou indiretamente da remuneração do trabalhador ou distribuído entre os três. Além disso, se o preço aumenta, a demanda pode cair. O resultado pode ser paradoxal: maior proteção nominal por corrida e menor renda para quem trabalha.

O verdadeiro desafio é proteger sem aprisionar. O trabalho por plataformas criou novas oportunidades justamente porque rompeu com estruturas rígidas de horário, local e subordinação. Seria um retrocesso fazê-lo caber integralmente no molde do emprego do século XX. Uma legislação sábia deve reconhecer uma categoria de autonomia protegida, fundada em liberdade contratual, transparência, proteção contra abusos, seguros e poupança previdenciária portáteis, tributação simples e adequada distribuição de responsabilidades.

Se o Brasil vier a ratificar e regulamentar a Convenção nº 193, o legislador não deve transformar o autônomo em empregado contra a sua vontade, nem permitir que a simples denominação de autônomo esconda uma verdadeira relação de emprego. Deve preservar ambas as possibilidades: reconhecer como empregado quem efetivamente o seja e permitir que o verdadeiro autônomo continue autônomo sem ficar desprotegido.

Protegido, sim — sem perder a liberdade que o levou a escolher o trabalho autônomo.

*       O autor, Dagoberto Lima Godoy, é ex-conselheiro da Organização Internacional do Trabalho

 

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 14 Agosto 2026

 

Dartagnan da Silva Zanela

                      O finado Papa Bento XVI, em uma de suas preleções, nos chamava a atenção para a importância de procurarmos cultivar uma admiração particular por um santo, de sermos devotos de uma pessoa que procurou, com todas as forças de sua alma, amar a Deus e tomar o Evangelho como farol de sua vida.

E, ao recomendar isso, ele não estava nos dizendo para termos pôsteres de um santo no quarto e andarmos com camisetas e broches dele como se fôssemos um adolescente fã de uma banda, nada disso. Se somos devotos de um santo, deveríamos, em suas palavras, procurar nos tornar familiares a ele, buscando conhecer a sua vida, as suas obras e o seu pensamento para, desse modo, aprendermos a crescer em espírito e verdade com ele.

Bento XVI, por sua deixa, era devotíssimo de São José e de Santo Agostinho, o rochedo de Hipona. Não apenas isso: deste segundo, além de devoto, era um grande estudioso de sua obra; talvez um dos maiores do século XX.

Quando li isso, há mais ou menos umas duas décadas, meu coração encheu-se de júbilo — hum, que chique —, ao saber que Joseph Ratzinger tinha uma longa história de devoção com o referido Santo Doutor da Igreja, tendo em vista que este intrépido esculhambador da língua portuguesa também tem uma história com o autor das Confissões. Uma história muitíssimo mais modesta, diga-se de passagem, mas, ainda assim, uma história.

Nos meus tempos de juventude, como boa parte dos jovens que viveram seus verdes anos entre as décadas de 80 e 90 do século passado, eu era cheio de marra. E, depois que comecei a estudar umas coisinhas com um tantinho mais de profundidade, já comecei a me achar o bichão e, como tal, virei minhas costas para Deus e para a Igreja.

Bah! É incrível como somos capazes de ser presunçosos em nossa juventude. Basta que o nosso ego seja massageado só um tiquinho para que, do nada, a gente se ache "o protagonista". Na verdade, nem precisa massagear muito.

Em tenra idade, somos campeões em nos perder de nós mesmos só para discordar daqueles que são mais velhos do que nós porque — cê sabe — os adultos sempre ousam nos tratar como jovens e, como tal, sempre querem nos advertir, corrigir e ensinar algumas coisas que, sim, é necessário que sejam aprendidas.

Certíssimo estava Oscar Wilde quando dizia, com o seu jeitão, que não era tão jovem para ter, assim, tanta certeza a respeito de tudo; como também está certo por demais Ortega y Gasset que, de forma cirúrgica, analisou os conflitos que sempre se orquestram entre a nova geração e a geração adulta — e destas duas com os idosos —, porque, como ele mesmo nos lembra, essas três gerações têm perspectivas distintas que convivem, juntas e misturadas, na mesma época e no mesmo lugar.

Nesta fase da vida, perdido como estava, muitas foram as pessoas que me ajudaram em meu, como direi, caminho para Damasco; e uma delas foi, sem dúvida alguma, Santo Agostinho. Primeiramente, não pela sua obra, mas por sua vida pregressa; depois, principalmente pela sua obra, que corrigia a vida precedente sem a negar.

Ora, era natural que um sujeito de vida torta como eu, ao conhecer a vida dele, simpatizasse com sua pessoa e se identificasse com seus dramas; e era inevitável que um rapaz curioso e vaidoso se encantasse com sua obra volumosa [lá ele de novo]. Através da sua vida, eu pude, como o filho pródigo que sou, reencontrar o caminho para a casa do Pai.

Por isso, quando vejo adultos adulando jovens, chamando-os de "protagonistas e trelelé", fico pra lá de cabreiro, pois lembro de mim mesmo quando estava nessa idade, e vejo o quão perverso isso pode ser. Afinal, esse tipo de lisonja, ao invés de apontar o caminho para a morada da verdade, apenas envenena - e como envenena! - os corações juvenis.

*       O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "NAS ENTRANHAS DO LEVIATÃ", entre outros livros.

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  • Claudio Apolinário
  • 13 Agosto 2026

 

Claudio Apolinario

                     O Brasil gasta em saúde quase o mesmo que países ricos — mas quem paga a diferença é o cidadão. Quem não tem plano espera 2 anos por uma cirurgia. Isso não é falta de recurso. É escolha.

O Brasil tem uma das maiores redes de saúde pública do mundo. E uma das maiores filas também.

Em 2024, mais de um milhão de brasileiros aguardavam na fila do SUS por cirurgias eletivas. Procedimentos que não são emergência — mas que doem, que limitam, que impedem de trabalhar. Essa fila cresceu 26% em relação a 2023. O tempo médio de espera é de 2 anos e 4 meses.

Dois anos e quatro meses esperando por uma cirurgia.

O Brasil e os países ricos gastam no total percentuais parecidos em saúde — em torno de 9% da economia. A diferença está em quem paga essa conta. Nos países ricos, o Estado banca 70% do total gasto. No Brasil, o estado banca apenas 45%. A diferença é paga pelo cidadão — quem pode paga plano, quem não pode espera na fila. O Estado brasileiro entra com menos e transfere a diferença para o bolso do cidadão.

E o impacto é direto: o Brasil gasta apenas US$ 1.573 por pessoa em saúde por ano. Os países ricos gastam US$ 4.986. Menos de um terço.

Menos de 25% dos brasileiros têm plano de saúde — cerca de 53 milhões de pessoas. Os outros 160 milhões dependem exclusivamente do SUS.

No andar de cima, quem tem plano agenda consulta com especialista em dias, faz exame na semana, é operado em semanas. No andar de baixo, quem depende do SUS espera meses por uma consulta, meses por um exame, anos por uma cirurgia. São os mesmos impostos pagos. São resultados completamente diferentes.

E o custo dessa espera não aparece só na fila. Aparece no trabalhador que perde emprego enquanto aguarda uma cirurgia que poderia tê-lo recuperado em semanas. Aparece na criança que deixa de ir à escola porque a mãe não tem com quem deixá-la durante as consultas intermináveis. Aparece no idoso que piora enquanto espera o diagnóstico. A fila do SUS não é só inconveniente. É um gerador silencioso de pobreza.

Esse não é um problema sem comparação. Um estudo sobre eficiência dos sistemas de saúde na América Latina mostrou que o Brasil figurou de forma consistente entre os países menos eficientes da região — ao lado de países que gastam proporcionalmente menos e entregam mais. Chile e Colômbia, que investem percentuais menores do PIB em saúde pública, aparecem entre os sistemas mais eficientes da região. A diferença não está em quanto se gasta. Está em como se gasta — e em quem responde pelo resultado.

E não é um problema novo. O Estado brasileiro sempre transferiu para o cidadão uma fatia maior da conta do que os países desenvolvidos fazem. Não é de hoje.

ão décadas de escolhas orçamentárias que priorizaram outras despesas e deixaram o sistema público funcionando abaixo do que a população precisa.

Cada vez que um orçamento é aprovado com menos dinheiro para a saúde do que o necessário, alguém decide que a fila pode esperar. Cada vez que um gestor não é cobrado pelo resultado do sistema que administra, a fila cresce.

O Brasil não precisa de mais discurso sobre saúde. Precisa de menos tolerância com a fila. Quem tem voz — quem vota, quem debate, quem influencia — tem uma responsabilidade concreta: parar de aceitar 2 anos e 4 meses como resposta normal.

Quando uma espera absurda vira aceitável, ela vira permanente.

Porque 2 anos e 4 meses esperando por uma cirurgia não é inevitável. É consequência da escolha de quem controla o sistema.

*         O autor, Claudio Apolinario, é articulista e analista político.

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  • Afonso Pires Faria
  • 12 Agosto 2026

 

Afonso Pires Faria

                  No início do século passado, um empreendedor, mesmo tendo pouco estudo, poderia obter sucesso nos seus empreendimentos. Naquele tempo, isso dependia muito de sua perspicácia. Pessoas que tinham mais estudos e conhecimentos geralmente eram guindadas a cargos mais importantes. Existiam também aqueles que já herdavam fortunas ou cargos e, por isso, não lhes era exigido muito esforço para se manterem bem estabelecidos. Os tempos evoluíram e hoje dificilmente uma pessoa com poucos conhecimentos consegue obter sucesso nos negócios. O conhecimento é imprescindível para que se faça a boa administração de uma empresa.

Na política não era diferente. Os vereadores, prefeitos, deputados e senadores muito dificilmente não tinham conhecimentos bem acima da média da população. Mas estas exigências parecem não fazer mais sentido na nossa realidade. Começamos por ver vereadores sendo eleitos por serem figuras folclóricas e até louvadas por seu pouco conhecimento, mas de "boa paz". Eram elevados ao cargo e conseguiam se manter por terem alguém com mais conhecimentos que os assessorava. Não demorou muito e estes personagens obtiveram cargos mais importantes: prefeitos, deputados e, em estados menos civilizados, até a senadores chegaram.

Um presidente da República, para ser eleito, deveria preencher certos requisitos para se habilitar ao cargo: qualidades e conhecimentos bem acima daqueles que ele vai governar. Um rei não é eleito. Não precisa demonstrar ao povo que tem condições de exercer o cargo. Este é herdado; portanto, independentemente de ter ou não conhecimentos atinentes ao cargo, lá ele estará se for o herdeiro. Não precisa, portanto, se esforçar para isso. D. Pedro II falava vários idiomas, conhecia botânica, física e estudava muito. Traduzia obras clássicas, como a Odisseia, do grego para o português; fazia comparações com outras traduções do francês ou alemão.

E daí eu pergunto: como foi que conseguimos involuir a tal ponto de termos, como governantes, pessoas que não dominam corretamente sequer a língua pátria? E, se a própria ignorância não fosse o suficiente para nos causar constrangimento, temos que ver este fato ser exaltado como virtude. O orgulho que tínhamos dos nossos governantes foi agora substituído pelo culto à ignorância. Ao contrário do magnetismo, em que os opostos se atraem, na política o efeito é o inverso. Sabendo disso, os nossos governantes tratam de multiplicar os que com eles se parecem. Infelizmente para o nosso país, esta é a regra que está sendo seguida. Pior: com estrondoso sucesso. Mário Ferreira dos Santos, em sua obra "Invasão Vertical dos Bárbaros", já alertava. Pena que em vão.

PS. "Desvalorização da inteligência", é o subtítulo da parte II, pag. 91 da obra supracitada.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 11 Agosto 2026

 

Gilberto Simões Pires

SLOGAN PREOCUPANTE

Mais do que sabido, na semana passada, na reunião que manteve com seu marqueteiro, Raul Rabelo, o ministro da Secom, Sidônio Palmeira, o vice-presidente Geraldo Alckmin e um seleto grupo de apoiadores e colaboradores, o presidente Lula aprovou o PREOCUPANTE SLOGAN -O BRASIL PRONTO PRA MAIS- que deverá de nortear a campanha eleitoral que tem como propósito a sua reeleição. 

 JUSTIFICATIVAS ABSOLUTAMENTE RACIONAIS

Aqui entre nós e o mundo, a expressão -PREOCUPANTE- que usei para definir o slogan -O BRASIL PRONTO PRA MAIS- tem mais de mil justificativas, todas absolutamente racionais. Mais do que sabido, até aqueles que não conseguem desenvolver um RACIOCÍNIO LÓGICO são testemunhas da péssima administração que o GOVERNO LULA impôs, por exemplo:

1- às ESTATAIS, QUE REPETEM À EXAUSTÃO ROMBOS E MAIS ROMBOS;

2- às CONTAS PÚBLICAS -SEMPRE DEFICITÁRIAS-;

3- ao INCRÍVEL AUMENTO DAS -TAXAS DE JUROS-;

4- ao ENDIVIDAMENTO PÚBLICO RECORDE;

5- ao ENDIVIDAMENTO DAS FAMÍLIAS E EMPRESAS -JAMAIS VISTOS NO NOSSO EMPOBRECIDO BRASIL-; e

6- ao ESCANDALOSO ÍNDICE DE INADIMPLÊNCIA ...

 OBSERVAÇÕES INQUESTIONÁVEIS

Ora, a partir dessas poucas observações inquestionáveis, o fato do presidente LULA afirmar que -caso seja reeleito- (tomara que os eleitores que estão propícios a votar em candidatos do PT e partidos aliados abram os olhos) o -BRASIL ESTÁ PRONTO PRA MAIS-, é algo mais do que PREOCUPANTE. É SIMPLESMENTE TENEBROSO. Mesmo assim, em meio à -TRAGÉDIA ANUNCIADA- o que ainda pode deixar os RACIONAIS um pouco mais tranquilos é o FATO de que os ESCOMBROS ACUMULADOS ATÉ AGORA podem servir como ESCUDOS DE PROTEÇÃO DE ALGO MUITO PIOR...    

 

 

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  • Francisco Carneiro Júnior
  • 11 Agosto 2026

 

Francisco Carneiro Júnior

Os impactos para a sociedade brasileira de guerras que não declaramos: Frota fantasma russa, por exemplo, trouxe R$ 6,2 bilhões em diesel sancionado para o Brasil

           O navio se chamava Prosperity, nome de bom agouro para quem carrega mentira na proa. Atracou no Rio de Janeiro em junho de 2023, no terminal da Refit, com uma carga de nafta e uma certidão de nascimento falsa: os papéis diziam Houston. Mais de quinhentos registros de posicionamento — a própria voz eletrônica do navio, que ele não pôde calar — contam outra biografia. Prosperity nunca chegou perto do Texas. Saiu da Rússia, cruzou o Báltico, contornou a Europa como quem foge de casa pela porta dos fundos, atravessou o Atlântico e entrou pelo Brasil por Maceió antes de se apresentar ao Rio como se nada tivesse acontecido. Dois anos depois, seu nome constaria nas listas internacionais da Frota Fantasma. O Brasil, que jura não estar em guerra nenhuma, deu guarida ao petroleiro que mentia sobre onde tinha nascido. E colabora , assim, com o esforço de guerra russo.

Não foi gentileza isolada. Ao longo do conflito ucraniano, o país importou 26 bilhões de dólares em combustíveis russos; 1,2 bilhão desse total tinha etiqueta de sanção, transportado por 32 navios em 68 viagens que descarregaram principalmente em Santos, Paranaguá e Manaus. A frota que os carrega — entre seiscentos e mil petroleiros, segundo o monitoramento da EOS Risk — vive de trocar de bandeira como quem troca de disfarce, de estruturas societárias que ninguém consegue abrir e de documentação que finge origens que a rota desmente. O Brasil não integrou o cerco. Comprou o desconto que a Rússia oferecia a quem não perguntava demais, e chamou isso de soberania comercial.

É preciso um esforço de honestidade para admitir o óbvio: um país pode se declarar neutro e ainda assim ser instrumento. A neutralidade formal — a recusa em aderir a sanções, a preservação de relações comerciais com Moscou como se a guerra fosse assunto alheio — não isentou o Brasil de figurar na engrenagem. Isentou apenas de constrangimento diplomático. O petróleo que chegou disfarçado de americano não perguntou licença a ninguém antes de entrar no sistema de refino nacional; a omissão brasileira foi condição, não acidente, para que a Frota Fantasma encontrasse porto seguro do outro lado do mundo. Enquanto Washington reforça, sob a atual administração, a lógica de que sancionar sem fiscalizar é teatro — e pressiona compradores terceiros a escolherem lado —, o Brasil trata o tema como curiosidade de reportagem, não como decisão de Estado.

A história, ensinada com paciência, já mostrou este roteiro. Todo embargo cria seu contrabando; toda sanção gera sua frota-fantasma; todo conflito redesenha, por vias que a diplomacia oficial finge não ver, o mapa de quem vende e de quem finge não comprar. A diferença, desta vez, é a velocidade: o rastreamento por satélite que expôs o Prosperity é tecnologia nova aplicada a um vício antigo — o de nações que preferem a ambiguidade lucrativa à clareza moral. O Brasil não inventou esse vício. Apenas o praticou com a desenvoltura de quem tem costume.

Mas o petróleo disfarçado é só a metade visível do problema. A outra metade chega sem navio nenhum, escondida dentro de um saco de adubo. Longe do Rio de Janeiro, no interior da Bahia, a Mosaic desligou em 8 de julho de 2026 a fábrica de fertilizantes de Candeias e demitiu trinta pessoas; no pacote nacional que incluiu Paraná, Goiás e Minas, o número passou de quinhentas. A empresa não disfarçou o motivo, como se disfarça a origem de um petroleiro: escreveu, com todas as letras, que não conseguia mais importar enxofre por causa do conflito no Oriente Médio e das restrições no Estreito de Ormuz. A margem bruta da companhia no Brasil caiu de 69 para 22 dólares por tonelada em um ano; o segmento nacional saiu de lucro operacional de 98 milhões de dólares, no primeiro trimestre, para prejuízo de 422 milhões. Araxá foi posta em desmobilização. A mineração de Patrocínio, suspensa.

O mecanismo é simples e por isso mesmo cruel: são necessárias quatro toneladas de enxofre para produzir dez de MAP ou DAP, os adubos fosfatados que sustentam a lavoura brasileira. O Brasil tem a rocha — o fosfato dorme abundante no subsolo —, mas não tem o enxofre, subproduto do refino de petróleo e do processamento de gás, que sai majoritariamente do Golfo Pérsico. E o Golfo, em 2026, tornou-se propriedade de fato do Irã de Mojtaba Khamenei: a Guarda Revolucionária ataca navios mercantes dentro do Estreito de Ormuz, já matou ao menos dezessete marinheiros e mantém cerca de seis mil presos em quatrocentas embarcações, segundo a Organização Marítima Internacional. Quem quiser atravessar, atravessa pela rota que Teerã autoriza — e Teerã não autoriza de graça.

O MAP e o DAP, os dois fosfatados que dão corpo à lavoura brasileira, nascem do mesmo casamento químico — amônia mais ácido fosfórico, este último tributário do enxofre que falta — e se distinguem apenas no grau de compromisso com o nitrogênio: o MAP, fosfato monoamônico, carrega um único íon de amônio preso ao fosfato, entrega cerca de 11% de nitrogênio e 52% a 54% de fósforo, e chega ao solo levemente ácido, qualidade que o torna preferido na linha de semeadura, junto à raiz, sem embate com outros nutrientes; o DAP, fosfato diamônico, duplica esse íon, inverte a proporção para cerca de 18% de nitrogênio e 46% de fósforo, e se apresenta alcalino, o que libera around da semente uma amônia livre passageira, tolerável em solos que já não pecam por acidez. A diferença, vista de perto, é quase administrativa — uma questão de dosagem, de pH, de que nutriente se quer entregar primeiro à terra —, mas a semelhança, essa sim, é o que importa: os dois dependem da mesma cadeia estrangulada, do mesmo ácido fosfórico que só existe porque existiu enxofre para fazê-lo, e é essa dependência comum, não a diferença de fórmula, que decide se a fábrica de Candeias liga ou desliga.

O cerco não é só iraniano. A Turquia proibiu temporariamente a exportação de enxofre. A Rússia estendeu sua cota de fertilizantes e suspendeu a licença de nitrato de amônio. A China apertou ureia e ácido sulfúrico. Três Estados, três motivos distintos — guerra, sanção, protecionismo interno —, um único insumo estrangulado, e o resultado converge sobre o mesmo país que insiste em não estar em guerra nenhuma. Entre janeiro e abril de 2026, o Brasil importou 4% menos fertilizante nitrogenado e fosfatado e pagou 16% a mais por ele — o volume caiu de 7,7 para 7,4 milhões de toneladas, e o desembolso subiu na direção contrária, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil.

Há uma terceira frente, e essa não chega em navio-tanque nem em saco de adubo: chega no frete. Em 20 de julho de 2026, os houthis anunciaram bloqueio marítimo contra embarcações ligadas à Arábia Saudita no estreito de Bab el-Mandeb — resposta direta ao retorno dos ataques americanos contra alvos ligados a Ormuz, elo que amarra as duas pontas do mesmo conflito num só nó. Os grandes armadores globais já haviam desviado suas rotas para o Cabo da Boa Esperança, somando entre dez e quinze dias e milhares de quilômetros a cada travessia entre Ásia e Europa; o desvio consome mais combustível, mais tripulação, mais prêmio de seguro contra guerra, e cada uma dessas linhas soma-se, discretamente, à tarifa final do contêiner. Cerca de 30% da carga containerizada do comércio mundial cruza o Canal de Suez — a soja e o milho brasileiros, embarcados majoritariamente em graneleiros, escapam por ora do gargalo mais agudo, mas o café, a carne processada e os manufaturados que dependem de contêiner não escapam: pagam o frete mais caro de um mundo que reaprendeu, em poucos meses, o preço de uma rota insegura.

Duas leituras fáceis disputam este ponto, e ambas mentem por omissão. A primeira leitura, a oficial, é a da política externa como escudo: o Brasil não se envolve, o Brasil não escolhe lado, o Brasil observa de longe as guerras alheias e colhe apenas efeitos indiretos de mercado. É a leitura que a tradição diplomática brasileira gosta de repetir como quem reza um terço — envolvimento militar direto é remoto, a vocação é o diálogo. A segunda leitura, a que os números obrigam a fazer, é a de que não existe mais efeito puramente indireto numa economia que importa 93% do adubo que planta e boa parte do combustível que queima. Neutralidade política e dependência material são coisas diferentes, e a segunda desmente a primeira todos os dias, silenciosamente, no preço da soja e no preço do frango.

Porque o frango, hoje, ainda não pagou a conta. Ele custou, em maio de 2026, R$ 4,68 o quilo vivo — 2,1% menos que um ano antes —, porque a ração, que responde por 63% do custo de produção, recuou 6,6% em doze meses. Essa ração veio da safra passada, plantada com adubo comprado antes do estrangulamento do enxofre. A safra que se planta em setembro, e se colhe em 2027, é que vai carregar o preço novo — e a Aprosoja estima que de 30% a 40% desse fertilizante ainda nem foi comprado. A conta está sendo montada agora, diante de todo mundo, e ninguém a vê porque ela ainda não chegou à gôndola. É a modalidade mais brasileira de crise: a que já aconteceu, mas ainda não dói.

Não é fatalidade climática, coisa que cai do céu sem endereço de remetente. Tem endereço, e são três: Ancara, que fechou a torneira por cálculo interno; Moscou, que a fechou como arma de guerra; e, sobretudo, Teerã, que fechou o próprio mar. A firmeza com que potências ocidentais — os Estados Unidos à frente, num momento em que Washington voltou a tratar contenção marítima e pressão sobre exportadores hostis como instrumento de política, não como gesto simbólico — vêm respondendo à beligerância iraniana no Golfo contrasta, de modo desconfortável, com a passividade brasileira diante de sua própria exposição. O Brasil não fecha portas a navios de origem forjada, não constrange fornecedores que financiam a guerra que depois lhe cobra o adubo, e trata a política externa como um exercício de manter as mãos limpas enquanto os bolsos se esvaziam.

A síntese, portanto, foge do conforto de um país isolado que apenas sofre efeitos colaterais de conflitos distantes: revela um país que terceirizou sua segurança energética e alimentar a regimes e rotas que não respondem a Brasília, e que chama essa terceirização de autonomia. O petroleiro que mentiu sobre Houston e a fábrica que apagou em Candeias são, vistos de perto, o mesmo fenômeno com sotaques diferentes: a guerra do outro lado do mundo não pede licença para entrar pela alfândega brasileira, seja disfarçada de nafta americana, seja disfarçada de aumento sazonal no preço do adubo.

Fica, ao final, o princípio que sobrevive a qualquer conjuntura: nação que não produz o que come nem refina o que queima não é neutra — é refém com sotaque de soberana. A guerra que o Brasil insiste em não declarar já está lançada, silenciosa, dentro de cada saco de MAP que ainda não foi comprado para setembro. Quando a conta chegar à gôndola, em 2027, ninguém vai lembrar do nome Prosperity. Vai lembrar apenas do preço do frango — e vai chamar isso, como sempre, de destino.

 

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