(Publicado originalmente na Tribuna da Internet)
Renan Calheiros é o presidente de uma instituição que um dia decidiu criar uma guarda para... Para quê mesmo? De acordo com a Resolução nº 59/2002, é para cuidar da segurança do presidente da Casa e dos demais senadores "nas dependências do Senado Federal". E ainda, "em qualquer localidade do território nacional e no exterior, quando determinado pelo Presidente do Senado Federal".
Renan acha que um "juizeco de primeira instância" não tem a prerrogativa de molestar policiais do Senado que exorbitam o limite legal de sua atuação ao desarmar grampos determinados por algo como a Operação Lava Jato.
Ou seja: o juizeco não pode parar o processo de obstrução judicial patrocinado pelo senadorzinho. Mas o senadorzinho pode tudo. Inclusive mandar varrer a casa de um deputado que todos sabem quem é e podem imaginar por que foi destinatário de tão dileto favor.
GUARDA PRETORIANA – Não importa que a proteção da guarda pretoriana de Renan Calheiros se estenda para muito além dos detentores de mandato senatorial, como José Sarney, ou alcance até quem jamais tenha sido integrante da Câmara Alta, caso de Cunha. A guarda é de Renan, o dono do Senado, que faz dela o que bem entender. E ai de quem reclamar.
Se alguém como o ministro da Justiça ousa defender a legalidade e a legitimidade da atuação da outra polícia, esta sim uma polícia de verdade, a Polícia Federal, então não será mais ministro pleno, e sim um ministro eventual, temporário, prestes a ser derrubado pelo Comandante-em-Chefe da Polícia do Senado. Hoje, para ser ministro no Brasil, é preciso ter o aval de Renan Calheiros, e também obedecê-lo. Só a vontade do Presidente da República não é suficiente.
José Eduardo Cardozo resistiu durante anos ao mesmo tipo de campanha coativa. O PT queria derrubá-lo porque não controlava a Polícia Federal, que seguia engaiolando petistas. Agora é a vez do PMDB de Renan assacar contra a corporação, ou quem supostamente está ali para controlá-la e livrar a ele e aos companheiros em perigo do risco iminente da prisão e do vexame das conduções coercitivas. Sinal de que os peemedebistas estão pestes a tomar o lugar desonroso dos petistas nas próximas etapas da Lava Jato ?
GENERAL DAS ALAGOAS – Deve ser uma perspectiva realmente assustadora. Ocorre que, para defender seus arroubos napoleônicos, o General das Alagoas acha que pode dispor de suas tropas como bem lhe aprouver, sem limites de nenhuma natureza. É o que Renan gostaria que o Ministério da Justiça fizesse por ele e seus companheiros em dificuldade perante o Poder de juizecos como Sérgio Moro, que também é um reles magistrado de primeira instância.
Mas o que Renan consegue no comando de sua pequena guarda pretoriana, nenhum ministro da Justiça conseguiria da PF. Até porque aquela é uma instituição do Estado, não um apêndice de um governo. Ou: A Polícia Federal não é a Polícia Legislativa que está sob ordens de Renan.
E os súditos devem entender o faniquito do conterrâneo de Deodoro e Teotônio como normal porque, dentro de seu sistema de valores, o Estado é para isso mesmo — para ser usado e usurpado por quem tem poder político, caso de Renan Calheiros. É a isso que alguns recalcados chamam de patrimonialismo.
EM FRANCO DECLÍNIO – Ocorre que esse padrão de comportamento desprovido de limites, que leva alguém a se julgar dono de guardas pretorianas, de polícias federais inteiras, do Estado e do dinheiro de todos os cofres públicos está em franco declínio, como nos lembra Curitiba diariamente. Não fosse pela resistência de áulicos das práticas passadas como o senadorzinho, o dono do mundo, o General da polícia legislativa, ninguém mais neste País iria ouvir falar em tentar controlar a PF ou a guarda do Senado, em proteger de grampos legais gente como o próprio Napoleão do Senado ou seus acólitos.
Infelizmente o passado teima em não passar. A não ser pelo histrionismo das reações, pouco se pode perceber algum avanço no campo que deveria estar a pautar as relações da República — o da ética, da moralidade e da impessoalidade. Mas esse é um mundo completamente novo para gente como o senadorzinho da Polícia do Senado. E talvez eles tenham mesmo dificuldade em entender o que está acontecendo ao seu redor.
Pelo visto, os apuros de Lula, que outro dia mesmo era santo, e a longa prisão de Marcelo Odebrecht ainda não produziram todos os seus efeitos. Mas eles virão, queira Renan ou não, queira Sarney ou não, queira Eduardo Cunha — ou não!
(Publicado originalmente no Estadão)
Renan apela para autonomia dos Poderes para defender abuso de autoridade de arapongas sob suas ordens.
Na sexta-feira 21 de outubro, cumprindo ordens do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Criminal Federal de Brasília, a pedido do Ministério Público Federal (MPF), agentes da Polícia Federal (PF) prenderam o diretor da Polícia Legislativa (PL), Pedro Ricardo de Araújo Carvalho, vulgo Pedrão, e mais três subordinados dele. A ação deu início à Operação Métis, palavra grega que significa habilidades e deu nome à deusa da prudência, saúde, proteção, astúcia e virtudes, chamada pelos romanos de Minerva. O objetivo é buscar e apreender provas de um crime grave do qual eles passaram a ser acusados. Segundo o ex-agente da mesma instituição Paulo Igor Bosco da Silva, o órgão estaria sendo usado para fazer varredura de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça em dependências particulares de nobres varões e damas da República.
A acusação é pesada e tornou-se ainda mais grave depois que o colaborador da Justiça acima citado denunciou, em entrevista exclusiva ao Estadão da segunda-feira 24, uma varredura de grampos em telefones do ex-presidente da República e do Senado José Sarney (PMDB-AP) em Brasília. Para piorar, segundo ele garantiu ao repórter Erich Decat, a missão, realizada em julho de 2015, partiu de uma ordem oculta, "não numerada". Se isso for verdade, ela revela a reprise do escárnio dos 300 atos administrativos sigilosos que favoreciam os próprios parlamentares e vários de seus parentes, contrariando o preceito constitucional de publicidade das resoluções do Congresso. Entre estes, a exoneração de um neto do então presidente da Casa, o mesmo José Sarney, tornada secreta para a sociedade não tomar conhecimento do descumprimento de regras contra o nepotismo postas em vigor no ano anterior pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Da tribuna o venerado chefe político garantiu que não sabia "o que é ato secreto". Mas dois meses depois foi obrigado a admitir que sabia, sim, ao reagir à confirmação da informação, publicada no Estadão (que valeu um Prêmio Esso), pelo ex-diretor da Casa Ralph Siqueira.
Ao novo escândalo o sucessor do maranhense na presidência da Mesa da Casa, à qual cabe dirigir os atos da dita PL, Renan Calheiros (PMDB-AL), reagiu com ferocidade. A pretexto de defender a autonomia do Poder Legislativo, "ultrajado" pelos outros dois – o Executivo, ao qual é subordinada a PF, e o Judiciário, a que pertence o juiz federal, sem contar ainda o procurador-geral da República, Rodrigo Janot –, Calheiros soltou os cachorros em nota oficial. "A Polícia Legislativa exerce atividades dentro do que preceitua a Constituição, as normas legais e o regulamento do Senado", disparou. Mas omitiu quais dispositivos dão aos agentes, tratados como capangas, autorização para atuar na prática como operadores de "contrainteligência", usando o palavrão mais adequado para definir a lambança à qual respondem agora os ditos cujos perante a lei.
Pouco se sabe da Polícia Legislativa e serão bem-vindas as informações que a PF, o MPF e a Justiça Federal vierem a obter na investigação da Operação Métis. O que já se sabe, aliás, não aparenta corroborar a função de guarda pretoriana das prerrogativas de suas nobres excelências legisladoras. Por exemplo, uma tentativa de impedir uma ação de busca e apreensão empreendida pela PF na Casa da Dinda, residência do ex-presidente deposto e atual senador Fernando Collor de Mello, que a usou como quartel-general no período em que ficou afastado da Presidência até o Congresso aprovar seu impeachment. Nela um confronto entre PF e PL quase acabou em desforço físico ou coisa pior.
Criada em 1950 como secretaria, esta incorporou departamentos que vão além da função original de proteger o patrimônio da Casa, ganhando atribuições extraordinárias principalmente sob o comando de Sarney e Renan, ambos do PMDB. O salário inicial de um agente é de R$ 16 mil, mais do que o dobro de um policial federal (R$ 7 mil), quatro vezes o de um PM (R$ 4 mil) ou o triplo de um membro da Polícia Civil estadual (variável por Estado, mas no máximo R$ 6 mil). Para prover a proteção pessoal do presidente do Senado ela adquiriu recentemente 31 equipamentos de "contrainteligência". Entre eles, duas maletas Oscor Green, que custam mais de R$ 100 mil cada, e mais dois aparelhos de reconhecimento de espionagem telefônica, a R$ 60 mil a unidade. Conforme um especialista, tais utensílios servem para grampear, não para fazer varredura, que é muito mais simples. Segundo o depoimento desse usuário de aparelhos do gênero (a serviço da lei), a chamada espionagem ambiental pode ser feita com eficácia por aparelhos minúsculos colocados no ambiente, em canetas, chaveiros ou numa caixa de fósforos. Estes custam cerca de R$ 600 cada, podem ser encontrados em lojas de equipamentos eletrônicos e vendidos sem necessidade de registro. As maletas, usadas por detetives particulares ou em espionagem industrial, são aptas a grampear telefones celulares ou mensagens, além de gerenciar escutas ambientais.
As observações acima servem apenas para mostrar que medidas como tetos de gastos não impedem que o dinheiro público seja usado com prodigalidade incomum quando se trata de blindar a imagem pública e o sigilo telefônico de senadores, acima ou abaixo de qualquer suspeita. Por mais que se queira configurar como arbitrárias a busca e a apreensão feitas por autorização de um juiz de primeira instância em escritórios de parlamentares, a Operação Métis flagrou, no mínimo, o uso abusivo da obra de Montesquieu. O teórico da independência dos poderes republicanos como forma de exercer freios e balanços foi usado como pretexto para justificar a ação do cangaço, exercida por arapongas (ou capangas) de Sarney, Renan e Lobão e da patota deles na Câmara dita Alta.
Este episódio já permitiu que se revelasse o cinismo supremo que paira sobre o Legislativo: a nota oficial exarada por Gleisi Hoffmann para reconhecer um pedido de arapongagem explícita, dirigido ao presidente da Mesa da Casa e assinado pela própria papisa da prerrogativa de foro. "Logo após a operação de busca e apreensão realizada em minha casa (sic) em Brasília e em Curitiba, com a prisão de meu marido, Paulo Bernardo, solicitei ao Senado que a Polícia Legislativa, dentro de suas atribuições legais, fizesse uma verificação e uma varredura eletrônica nas residências. Fiz o pedido formalmente. Tem (sic) processo no Senado com autorização formal pra isso", ela escreveu em vernáculo deplorável. Inócuo dizer que, tal como a autoridade que mandou fazer, em sigilo, a varredura pedida, ela não se deu ao trabalho de relacionar os dispositivos constitucionais, legais e regimentais que a autorizam a usar dinheiro público cobrado em impostos de pobres cidadãos, mais empobrecidos pela ação solerte e predadora dos políticos profissionais que se protegem da lei usando o erário, que eles mesmos têm ajudado a dilapidar em proveito próprio. A tentativa de documentar o delito assemelha-se à de um arrombador que reclamasse de sua inocência apresentando à autoridade a nota fiscal do pé de cabra usado no arrombamento. Ou à de um pistoleiro que exigisse ser inocentado por ter autorização para portar arma.
E Michel Temer, que nem para apoiar as justas posições a respeito do imbróglio assumidas por seu ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, e pelo diretor da PF, Leandro Daiello, deu, como seria dever de ofício, o ar da graça de uma fala sua direto do trono? Faz como quadro de Cristo em prostíbulo: a tudo assiste e nada fala.
O sociólogo Marcos Rolim lamentou o infortunado amigo e seu ex- assessor parlamentar Plínio Zalewski. Então militantes do PT, Plínio cheio de dúvidas filosóficas, se empanturrava de Marx a Arendt e ambos anelavam o socialismo democrático no mundo que ruía.
Ao correr do tempo as garras revolucionárias de Plínio foram arrefecendo ante a realidade até acomodar-se no PMDB. Neste evoluiu como funcionário da Assembléia Legislativa. No embate eleitoral em que comandava o PMDB viu-se flagrado em desvio de função pelo adversário. Coisa comum entre funcionários de Assembléias Legislativas. Mas Plínio era homem honrado; envergonhou-se e deprimiu-se. Uma exceção. Sua tragédia serviu ao senhor Rolim para desdobrar-se em paráfrases sentimentais e caluniosas aos adversários, culpando-os pela morte de Plínio. Vezo próprio do esquerdismo caboclo: caluniar e eternizar-se no poder.
O estalinismo, a revolução chinesa, a cubana, Coréia do Norte, Venezuela bolivariana são apanágios seus no Brasil. A violência é válida pra galgar o poder ou garanti-lo. A Lei constitucional não se aplica à esquerda no poder. FHC ao transmitir a presidência foi emotivo e cavalheiro. Lula respondeu com “nós e eles, as elitis, a herança maldita, a direita exploradora”.
A senhora Dilma, coagida por força constitucional a deixar a presidência, convocou à luta contra o golpe. Em pleno Palácio o MST prometia incendiar o país. Hoje, acuado em vários processos por assalto aos cofres públicos em associação criminosa com os maiores empreiteiros do país, Lula enxovalha a Justiça e acusa o STF de covardia. As senadoras vermelhas histericamente impedem as falas dos opositores aos berros. Irmanado a tal companhia o sociólogo Rolim classifica de “fascistas” seus adversários, anunciando seu voto tisnado por calúnia. Erra o alvo. Tigres fascistas são os sicários que agrediram a jornalista Yoni Sánches, os mascarados que vandalizam nas ruas propriedades pública e particular, os salteadores do MST, eram os nazis do nacional socialismo de Hitler. Os democratas e liberais recorrem à Justiça a favor de suas causas.
(Publicado originalmente no Jornal da Tarde, em 03/09/98)
Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.
O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.
Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria – a supressão, em suma, da personalidade.
É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação – literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo miméticode que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.
Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.
Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.
(Publicado no Estadão, 24/10/2016)
Eduardo Cunha não foi o primeiro nem será o último político de destaque a ser preso pela operação Lava Jato. Sequer pode ser apontado como aquele que maior poder e/ou volume de informações reuniu na República. As presenças de José Dirceu e Antônio Palocci em Curitiba – chefões da era em que o PT mandava (e principalmente desmandava) no País – dão por si tal testemunho.
Pode ser que ele venha a fazer uma delação devastadora que comprometa do baronato ao cardinalato da política? Pode ser que haja vida em Marte. No terreno das possibilidades criam-se, entre outras coisas, fantasmas. Tudo é possível embora nem tudo seja provável. Para dirimir quaisquer dúvidas, o melhor método é o exame das condições objetivas.
A principal delas esteve registrada no placar eletrônico da Câmara no dia 12 de setembro último, quando o então deputado afastado de suas funções legislativas pelo Supremo Tribunal Federal teve o mandato cassado por 450 votos a favor e 10 contra.
No início, quando o processo foi aberto no Conselho de Ética, a avaliação preponderante era a de que Eduardo Cunha sairia ileso. Segundo essa versão, teria poderes ilimitados para impedir o andamento dos trabalhos e um embornal de informações a respeito de seus pares tóxico o suficiente para garantir votos a favor da manutenção de seu mandato.
No campo da suposição, isso parecia fazer sentido. Mas a realidade tem componentes menos esquemáticos. No caso, a opinião pública, a revelação de novas e cada vez mais contundentes acusações, o comportamento excessivamente ousado de Cunha, a decisão do STF de afastá-lo do cargo, a impossibilidade de contar com ajuda do governo, o instinto de sobrevivência eleitoral dos deputados, uma série de fatores que desmontou a presunção inicial e produziu um resultado surpreendentemente desfavorável a ele.
A prisão menos de quarenta dias depois provocou alvoroço, não obstante fosse algo esperado, líquido e certo. Fez-se o silêncio em Brasília. Pudera, dizer o quê? Lamentar, comemorar? O governo e mundo político em geral não poderiam fazer uma coisa nem outra. Até o PT se manteve discreto, dada sua impossibilidade de falar de corda em casa de enforcado.
Enquanto na capital federal a palavra de ordem era não passar recibo, no restante do País estabeleceu-se a gritaria em torno dos presumidos efeitos de uma delação premiada. Por ora apenas um fantasma nessa ópera composta pela operação Lava Jato. Não que seja um equívoco supor que Cunha faça delação e provoque com ela uma devastação em massa. Mas é preciso medir e pesar as circunstâncias. E estas não lhe são necessariamente favoráveis.
Não é ele quem dita as regras muito menos o rumo dos acontecimentos como, de resto, já ficou demonstrado. A faca e o queijo estão nas mãos do Ministério Público e da Justiça. Ainda que o ex-deputado tenha disposição de delatar não significa que os procuradores se interessem pela contrapartida ou que as condições estabelecidas em lei para a obtenção de benefícios se apliquem a Eduardo Cunha.
A força tarefa da Lava Jato trabalha há mais de dois anos, período em que reuniu uma montanha de informações a respeito das quais seguramente o País ainda não sabe da missa a metade. De onde é possível que o ex-deputado não tenha dados que os investigadores considerem novos e/ou necessários ao esclarecimento dos fatos. Se não pôde controlar seu destino quando presidente da Câmara nem se utilizar do arsenal intimidador de maneira eficiente, não será preso que Eduardo Cunha terá êxito no manejo da figura de assombração.
Ademais, terá de ter muito cuidado com o que disser para não piorar sua já sofrível situação.
(Publicado originalmente por institutoliberal.org.br)
Tudo começou com uma constatação inequívoca do perfil no Twitter “Editora Humanas”: praticamente toda pessoa que publicava posts manifestando posição contrária ao impeachment de Dilma, criticando os Bolsonaro, pregando o socialismo, tremulando a bandeira do feminismo, pedindo votos em Marcelo Freixo, clamando pela legalização dos entorpecentes (enfim, bancando o idiota útil da Esquerda), já havia, em algum momento de seu passado (ou até na mesma postagem), maldito os próprios pais ou queixando-se de sua ausência em suas vidas, por meio de alguma mídia social. O percentual de casos verificados com esta coincidência foi tão significativo que acabou gerando um “spin-off” daquele perfil, o @meupaiausente. Só que tal ocorrência, infelizmente, não se trata tão somente de uma surpreendente casualidade, mas sim do resultado prático de décadas de doutrinação marxista, a qual, por meio de diversos instrumentos ideológicos, ataca a família tradicional incessantemente. O cenário atual no Brasil não poderia, pois, ser diferente.
Que a ausência dos pais pode comprometer a saúde emocional dos filhos não é novidade alguma. O que impinge aqueles que buscam o agigantamento do aparato estatal a usarem estas pessoas carentes como ferramentas, em busca de seu propósito máximo, é que precisa ser elucidado. Marilena Chauí nos fornece algumas pistas quando assevera que aqueles que defendem a família são “bestas”, e que os pais são “déspotas de sua prole”. Se ela assim afirma, é sinal de que a família representa um obstáculo para o arranjo social que ela gostaria que fosse implantado. Mais do que isso: a estrutura familiar é o último sustentáculo da civilização ocidental, e já não é mais possível prever por mais quanto tempo poderá resistir ao empuxo “progressista”.
O amadurecimento do indivíduo passa, necessariamente, por uma fase de dependência familiar, onde ele ainda não possui maturidade suficiente para fazer escolhas por conta própria. Neste período, portanto, ele não deve dispor da liberdade para traçar os próprios rumos, e deve subordinar-se às decisões tomadas por seus pais, com um grau mínimo de ingerência própria. Com o avanço da idade, é natural que a pessoa, por meio da experimentação e do acúmulo de conhecimento prático, desconecte-se, gradativamente, da “barra da saia” da mãe, passando a assumir as consequências por seus erros e a auferir os louros de suas conquistas.
Quando este processo é interrompido ou sequer tem início, há grande chance de esse indivíduo procurar esta referência paternal em alguma outra figura abstrata ou concreta. E já que o governo não pode ver ninguém sofrendo que já fica alvoroçado, é claro que ele vai se oferecer para “tomar conta” desses pobres coitados, assumindo a função de “babá”. Só que esta pessoa adotada pelo Estado precisa entender que este papai tem muitos outros filhos órfãos sob sua tutela, e, portanto, ela deve submeter-se ao interesse coletivo de todos os demais desamparados recolhidos.
Ademais, ele não deve almejar sua independência jamais, pois tal ato de rebeldia colocaria em risco a subsistência dos demais maninhos. Caso insista na pirraça, deverá ser castigado, como medida pedagógica, emitindo um aviso aos demais membros da grande família estatal. Assim, todos devem trabalhar em prol da comunidade, sob a orientação do generoso padrasto, permitindo que ele esquadrinhe cada aspecto de sua vida, determinando desde sua alimentação até o que ele vai assistir na TV. Sim, é exatamente o que parece: o totalitarismo encontra forte resistência na família, e a forma mais eficaz de subjugá-la é, na verdade, tomando seu lugar e assumindo suas funções. Não à toa, no livro 1984, de George Orwell, o indivíduo é criado pelo estado, e a família serve apenas para procriação.
Ou seja, a destruição do modelo de família tradicional é o primeiro passo para instalar a desordem social que servirá de base para esta revolução cultural – e isso já está acontecendo bem diante de nossos olhos. Karl Marx, em seu medonho Manifesto Comunista, considera o núcleo da “família burguesa” uma instituição que precisa ser abolida, pois, segundo consta, ela seria baseada somente no capital – homens exploram mulheres, pais exploram crianças. Interessante notar que, vendo a questão por este ângulo, os marxistas simplesmente desconsideram que tais pessoas permanecem ligadas por laços afetivos. Será que Marx também ficaria famoso no @meupaiausente se houvesse twitter aquela época? Bem provável.
Assim sendo, não basta aos revolucionários catarem somente os frutos que caem da árvore; isto é, não é suficiente cooptar para seu exército de desocupados apenas aquelas pessoas que, por motivos de ordem diversa, não possuem vínculos familiares sólidos. Não mesmo. Eles precisam atacar também aquelas que são membros de famílias estáveis e felizes (até então), e voltá-las contra seus irmãos e genitores. Desta forma, o “monopólio da generosidade” fica na mão do Estado.
Entenda: se eu precisar de socorro financeiro, por exemplo, posso recorrer a algum dos meus parentes; mas se eu mal olho na cara deles, quando vier a atravessar uma situação de penúria, precisarei aceitar ajuda estatal (bolsa família, seguro-desemprego, subvenções para cursar faculdades e adquirir moradia, e por aí vai). Extrapolando os efeitos desta lógica para todas as situações da vida em que demandamos auxílio de terceiros, passa a ser aceito com naturalidade que o Estado cresça até níveis insuportáveis pelos pagadores de impostos – sempre em nome do “social”, que nada mais é do que socorrer pessoas em necessidade, como descrito no exemplo. Quando a família não mais pode prover abrigo material e psicológico para seus entes (ou mesmo existir), os camaradas surgem como o último recurso, a mão estendida, o ombro amigo. E pense em um ombro caro.
Como provas do sucesso parcial alcançado por este pessoal “gente boa” que quer prestar serviços terceirizados de caridade, estão aí o aumento do número de divórcios; o avanço dos defensores do assassinato de bebês; o crescente número de idosos abandonados; a ridicularização, em filmes e seriados, do homem ocidental como provedor da família; a ideologia de gênero ganhando terrenX; o feminismo cada vez mais convencendo mulheres de que seus maridos são seus inimigos, que seus filhos (quando são gerados) são estorvos em suas vidas, e que colecionar parceiros sexuais em profusão faz parte da luta pela libertação feminina; os “educadores” estatais declarando descaradamente que cabe a eles decidir o que deve ser ensinado a nossas crianças – e lecionando, claro, tudo o que consta em sua agenda enviesada politicamente; o vício em drogas destruindo famílias como um verdadeiro tsunami.
A propagação do relativismo moral e a flexibilização dos sensos de justiça e de honra contribuem para erigir um império de conflito e agitação, propício para aqueles que buscam corromper a ordem natural das coisas e lançar por terra tudo o que tirou a humanidade da barbárie do período pré-civilizatório. Roger Scruton, em artigo recentemente publicado, abordou essa necessidade de desapego do mundo real na busca pelo igualitarismo:
“Dessa forma, para Žižek (stalinista), o pensamento cancela a realidade, quando o pensamento está “à esquerda”. O que você faz importa menos do que o que você pensa estar fazendo, dado que o que você pensa estar fazendo tem o objetivo principal de emancipação – de égaliberté, como colocou o teórico marxista Étienne Balibar. O objetivo não é igualdade ou liberdade no sentido qualificado em que você ou eu entendemos esses termos. É a igualdade absoluta (com um pouquinho de liberdade, se você tiver sorte), que, por sua natureza, só poderá ser atingida por meio de um ato de total destruição. Buscar esse objetivo também pode significar reconhecer sua impossibilidade – não é a isso que equivalem esses projetos “totais”? Não importa. É precisamente a impossibilidade da utopia que nos prende a ela: nada pode macular a pureza absoluta do que jamais será testado”.
Sendo a família considerada a mais importante célula da sociedade, já que através dela que aprendemos a perceber o mundo e a nele nos situarmos, formando nossa identidade e dando início ao processo de socialização do indivíduo, ela não poderia deixar de ser a primeira vítima daqueles que buscam subverter ostatus quo. Ataque-a, e tudo o mais virá abaixo, facilitando o trabalho dos inimigos dos valores e princípios conservadores. Russell Kirk costumava afirmar que uma sociedade amoral é uma sociedade caótica, e que“independentemente do sistema político vigente, uma sociedade em que homens e mulheres conheçam as normas e respeitem as convicções de “certo” e “errado”, sempre será uma boa sociedade. Entretanto, seres humanos voltados apenas para a “gratificação de seus apetites”, produzirão uma sociedade ruim”.
Adulterar as fases do amadurecimento do indivíduo tem se mostrado, até então, uma das estratégias mais eficientes adotadas com este intuito de convulsionar a sociedade. Expondo crianças ao sexo precoce em sua infância, e privando-lhes, destarte, de uma etapa essencial de seu desenvolvimento emocional, verdadeiro alicerce do ser humano que será formado ali na frente, torna-se improvável que ele venha a reunir condições de constituir uma família.
O resultado que se costuma observar são pessoas buscando eternamente esta etapa perdida de suas vidas, sem conseguir portarem-se como adultos, e, claro, sem demonstrar a estrutura psicológica necessária para responsabilizar-se pelo bem estar de outras pessoas – exatamente em que consiste ser arrimo de família. Adicionem-se neste caldo os filhos de adolescentes (alguns deles gerados dentro da escola – literalmente), advindos dessa mesma deturpação de padrões e costumes, e está pronto o preâmbulo de tantas histórias de “pai ausente” em nosso país. Ainda bem que a “creche estatal” sempre mostra-se solícita em acolher estas eternas crianças que sentem falta dos pais, não é mesmo? Essa indústria de massa de manobra é a única no Brasil que não sofre os efeitos da crise…
Sobre o autor: Atua como Auditor-Fiscal do Trabalho, e no exercício da profissão constatou que, ao contrário do que poderia imaginar o senso comum, os verdadeiros exploradores da população humilde NÃO são os empreendedores. Formado na Escola de Especialistas de Aeronáutica (EEAR) como Profissional do Tráfego Aéreo e Bacharel em Letras Português/Inglês pela UFPR. Também publica artigos em seu site:https://bordinburke.wordpress.com/