• Thomas Giulliano
  • 24 Outubro 2016


(Publicado originalmente em historiaexpressa.com.br)

Muito escutei nas aulas universitárias que participei. Lá se falou de tudo. Principalmente de todas as sociologias que justificam todas as supostas opressões. Há de concordar comigo, quem conhece alguma coisa sobre essas coisas, que se ignorou muito a cicrana coerência e o beltrano paradoxo de querer salvar o mundo sem saber sequer usar o banheiro. Como sei disso? Simples, fui aos diferentes banheiros dos prédios de humanas. De vários cursos e faculdades – as que têm os seus tronos pagos com impostos e até as pagas com a mais-valia.

Conto o caso que não é causo – singular apenas por circunstância textual: uma vez, no intervalo de uma fatídica aula ou em uma escapada (sempre necessária) durante alguma lição sobre alguma opressão, realmente não me recordo, mas lembro-me bem que antes de qualquer ato biológico, deparei-me com diversas imoralidades dos combatentes da moral, intoxicados de verborragias, incapazes de notar o brotar particular de seus stálins apaixonados, simbolicamente materializados em seus reparados papéis usados por todos os cantos – (alguns amarronzados), fazendo do banheiro público uma espécie de decoração de interior inspirada em qualquer DCE.

Algumas das pessoas que limpam o banheiro são negras (informação relevante apenas no tocante à hipocrisia crítica dos que criticam até a crítica). Há também, agora em tom de conclusão, coisas que se tornam quase um exagero crítico ao se mencionarem, tais como as torneiras escorrendo, portas quebradas e as sempre críticas pichações. Sobre isso nada mais quero escrever. Só quis com estas linhas dizer que os homens de pensamentos críticos merecem a crítica de tornarem o banheiro a materialização de seus pensamentos teóricos, pois, querem transformar o mundo, gritando verborragias sobre as desigualdades ou achando que as suas opiniões são relevantes, desconsiderando os seus gestos de pequenos imitadores da higiene de Mao Tsé-Tung.

Aos apressados, aponto que há banheiros de outros cursos sujos tal qual, entretanto com menos verborreia canhota.

 

*Professor de História
 

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  • Guilherme Fiuza
  • 24 Outubro 2016

 

(Publicado originalmente em O Globo 21/10/2016)


Com a impunidade de Cunha, você podia até defender Lula e Dilma numa boa, por mais que eles roubassem o Brasil


A prisão do companheiro Eduardo Cunha deixou aturdidos os heróis da resistência democrática. Como vão explicar isso em casa?

Cunha era o grande vilão do golpe, a mente perversa que arquitetou a destituição da mulher honesta para entregar o poder aos brancos, velhos, recatados e do lar. A impunidade do Darth Vader do PMDB era o lastro da lenda, a prova de que estava tudo armado para arrancar do governo os quadrilheiros do bem. Mas eis que Sérgio Moro, esse fascista que só persegue os bonzinhos, prende Cunha. E agora?

É grave a crise. Eduardo Cunha era a reserva moral do PT. E do PSOL, da Rede e seus genéricos. Com a impunidade dele, você podia até defender Lula e Dilma numa boa, por mais que eles roubassem o Brasil na sua cara: bastava dizer que era contra o Cunha — o fiador do golpe, o homem do sistema. Mas que sistema é esse que põe seu articulador no xadrez? Ficou confuso. Melhor tomar uma água de coco, que o sol está forte.

Os juros começaram a cair depois de quatro anos. A inflação de outubro é a menor em sete anos, e ano que vem o desemprego começa a baixar. Isso não é mágica, é governo. Temer faz parte da mobília antiga do PMDB, e não tem nenhuma bandeirinha simpática para acenar. Se aparecer em alguma negociata, adeus. Mas, ao assumir o Planalto, resolveu escalar os melhores para tomar conta do dinheiro. Banco Central, Tesouro, Fazenda, BNDES, Petrobras — todos sendo desinfetados pelos melhores cérebros, mundialmente reconhecidos.

Por que Michel Temer fez isso, e não simplesmente substituiu os parasitas esganados do PT pelos velhacos do PMDB? Não interessa, perguntem a ele.

A vida no Brasil vai melhorar, e isso é muito grave. O que será daquelas almas puras que gritam “fora Temer” e se tornam instantaneamente grandiosas? O que será dos corações valentes que ficam bem na foto denunciando a entrega do país ao bando do Cunha? Talvez só uma Bolsa Psicanálise para fazer frente a tanto sofrimento.

Na época do Plano Real foi igualzinho. Na privatização da telefonia, que libertou a população dos progressistas retrógrados de sempre, esses mesmos que gritam contra o golpe (ou seus ancestrais) estavam lá nas barricadas — apedrejando quem chegava para os leilões. Eram os heróis da resistência democrática contra a ganância capitalista. Aí a privatização se consumou, a vida de todo mundo melhorou, e os heróis foram combinar a próxima narrativa — pelo celular.

A eleição no Rio de Janeiro, terra de Eduardo Cunha, apresenta um fenômeno surpreendente. No primeiro turno, a cidade confirmou a sua vocação de oposição a si mesma. No segundo turno, Marcelo Crivella disparou. Como pode? Gente esclarecida, eleitores de candidatos respeitáveis como Fernando Gabeira e que jamais votariam num bispo da Igreja Universal, cogitando votar em Crivella?

Talvez a resposta seja simples: Marcelo Freixo é o candidato contra o golpe. O bom entendedor fez suas contas: o discurso que cultiva a mística de esquerda, à prova de vida real, é exatamente o que destruiu o país nos últimos 13 anos.

Freixo surgiu muito bem na vida pública. Fez um trabalho corajoso de denúncia das milícias, num tempo em que muitos as viam como justiceiras contra os traficantes. Se tornou personagem real de “Tropa de elite”, clássico extraído do trabalho excepcional de Luiz Eduardo Soares — acadêmico de esquerda que jamais sujeitou sua honestidade intelectual às místicas lucrativas. Já Freixo preferiu se tornar o personagem de si mesmo. Seria ótimo, se fosse de verdade.

Falar a verdade dá trabalho. O próprio Gabeira correu o risco do suicídio político algumas vezes, para não trair suas convicções. Primeiro a fazer a crítica da luta armada ainda em plena ditadura, apoiou a privatização da telefonia pelo governo FH — e na época era difícil ao eleitorado de esquerda ver aquilo como o melhor para a coletividade, e não uma traição neoliberal. Depois desembarcou da base de Lula no auge, ao enxergar a putrefação do governo pré-mensalão: “sonhei o sonho errado”.

As viúvas do governo que caiu de podre 13 anos depois disso ainda tentam ver em Dilma (se lembram dela?) uma vítima inocente da direita: preferem embelezar o pesadelo a parar de sonhar.

No Rio, o sonho errado ainda rende um bom mercado eleitoral. Na ânsia de cultivar essa mística revolucionária, Freixo estimulou protestos violentos (nega, mas estimulou) — logo ele, que denunciou as milícias sanguinárias. Apoiou sindicalistas que bloquearam o trânsito e engessaram a cidade. Para vender o seu peixe humanista, ele prende e arrebenta — como diria o general Figueiredo.

Infelizmente, ainda há quem escolha candidato pelo crachá de progressista ou conservador (no sentido de moderno ou retrógrado). Então vamos lá, sem crachá: quem põe em risco seus votos para defender o bem comum, como fez Gabeira, é progressista; quem põe em risco o bem comum para defender seus votos, como faz Freixo, é conservador.

E não adianta botar o Cunha no meio, porque agora ele está ocupado.

 

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  • Merval Pereira
  • 24 Outubro 2016

 

(Publicado originalmente em O Globo, 22/10/2016)

  Os equipamentos de rastreamento de escutas telefônicas também executavam as escutas, e a atuação da Polícia Legislativa fora do Senado, protegendo as casas particulares dos senadores em Brasília e também em seus Estados, passou a ser uma rotina. A Polícia Legislativa do Senado tinha virado uma polícia particular e apartidária, uma espécie de milícia para a proteção dos senadores, segundo a definição corrente em Brasília.

         Prestavam serviços pessoais aos senadores e familiares, desde fazer uma ronda de segurança em uma residência, até livrar filhos e parentes de senadores que se metessem em confusão nas noites brasilienses (brigas, dirigir embriagado).

        Essa promiscuidade acabou servindo para que a Polícia do Senado atuasse também fora da capital, indo aos Estados quando senadores passavam por algum problema que envolvesse segurança, desde escutas clandestinas - evitavam algumas, faziam outras - a ações políticas mais amplas.

        As varreduras nos gabinetes de senadores e mesmo em suas residências oficiais não caracterizam uma interferência nas investigações, mas, segundo o Ministério Público Federal, a situação foge do legal quando os endereços que passaram pela vistoria são de pessoas investigadas pelo Supremo Tribunal Federal devido ao foro privilegiado, e é utilizado dinheiro público para financiar as ações desses policiais, que recebiam diárias e passagens para atuar em outros Estados, fora da área permitida, que deveria ser restrita aos imóveis oficiais na Capital.

        Mesmo assim, já houve abusos, como quando membros da Polícia do Senado tentaram impedir que a Polícia Federal entrasse no apartamento da Senadora Gleisi Hoffman para fazer busca e apreensão de objetos do maruido da senadora, o ex-ministro Paulo Bernardo, que acabou preso. Havia ainda atividades mais corriqueiras, como ajudar senadores e seus parentes a desembaraçar a bagagem no aeroporto, por exemplo.

        É preciso que venham a público os "fatos gravíssimos" apontados pelo juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara Federal de Brasília ao acatar o pedido de prisão contra os policiais legislativos do Senado, que também levaram o ministro da Justiça, Alexandre de Moares, a afirmar que os agentes "extrapolaram suas funções".

        Só assim saberemos se a polícia do Senado estava agindo fora da lei para proteger alguns senadores da Operação Lava Jato, ou se a Polícia Federal foi que abusou de sua prerrogativa, numa disputa corporativa com os agentes do Senado.

        Não faz bem à democracia que exista uma polícia atuando paralelamente para a proteção do Legislativo, assim como não é aceitável que a Polícia Federal possa se aproveitar de uma investigação de repercussão nacional para cercear a atividade de segurança normal do Senado.

         A história da polícia do Senado, no entanto, não favorece a versão de que agiam dentro do estrito cumprimento da lei. O Chefe do grupo, Pedro Ricardo, considerado pela Polícia Federal como líder de uma "associação criminosa armada", faz parte de uma tradição de agentes que sempre serviram aos senadores para além de suas atividades institucionais, especialmente o presidente da Casa.

        O que agrava a situação do senador Renan Calheiros é que no mesmo dia em que a Polícia Federal pôs em xeque a atuação da Polícia Legislativa, seu nome aparece em delações premiadas como receptador de propinas vindas de diversas fontes. De acordo com reportagem da revista Época, os repasses a Renan Calheiros e Jader Barbalho, relatados aos Procuradores da Lava Jato por Felipe Parente, o homem da mala do PMDB se referem às empreiteiras Queiroz Galvão e UTC, e a uma empresa de afretamento de navios Teekay Norway, que chegou a dispor de sete embarcações de transporte de petróleo em alto mar exclusivamente contratadas pela Transpetro.

        Sua ligação era Iara Jonas, assessora do Senado, que apanhava malas cheias de dinheiro em restaurantes do Rio de Janeiro. Também Sérgio Machado, indicado para dirigir a Transpetro por Renan, afirmou em sua delação premiada que era requisitado pelo presidente do Senado para dar mensalmente quantias para sustentar a atuação política do senador e seu grupo.

 

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  • Gilberto Simões Pires
  • 23 Outubro 2016

(Publicado originalmente em pontocritico.com 21/10/2013)

CAMPANHA DE SAÚDE PÚBLICA

Mais do que sabido há, no Brasil todo, uma exaustiva e continuada campanha de esclarecimento público, promovida pelo Ministério da Saúde, chamando atenção da enorme importância que tem para o país o combate ao mosquito -aedes aegypti-, um terrível inseto que transmite TRÊS DOENÇAS diferentes: dengue, febre chikungunya e vírus zika.

TECIDO DESTRUÍDO

Pois, diante do reconhecido e preocupante estado de saúde da economia brasileira como um todo, que destruiu grande parte do tecido social, cabe ao Ministério da Fazenda lançar uma forte campanha chamando atenção para a necessidade de combater as graves doenças que foram transmitidas pela MATRIZ ECONÔMICA PETISTA-BOLIVARIANA.

PARA MANTER VIVO

Para estancar a forte hemorragia dos GASTOS PÚBLICOS, o governo está empenhado em aprovar a PEC 241, ou PEC do TETO. Ainda que tal providência deva ser aplaudida e incentivada, é importante que todos saibam que tal aprovação nada mais é do que a condição para que o paciente -Brasil- se mantenha vivo. Atenção: permanece vivo, porém respirando por aparelhos.

TRÊS REFORMAS

Tomando por base o difícil quadro de saúde da economia brasileira, o Ministério da Fazenda deveria enfatizar, nesta sugerida campanha de esclarecimento público, que sem a realização de, no mínimo, TRÊS REFORMAS (Previdenciária, Fiscal e Trabalhista), o Brasil está condenado à morte por DOENÇAS MÚLTIPLAS.

O MOSQUITO É OUTRO

O que está levando a economia e o social do nosso doente Brasil a definhar, mostrando um quadro tétrico de continuado desânimo, não é um mosquito. Aí, vale a pena esclarecer, o inseto é outro: são as corporações, que pregam aos quatro ventos que as REFORMAS são prejudiciais ao país, quando, na mais pura verdade, só produzem saúde, em forma de justiça social, menor custo para a sociedade e mais eficiência nos gastos públicos.

PISO INTACTO

Pelo que se lê e ouve nos meios de comunicação, as corporações tem se mostrado, de forma desesperada, contrárias às REFORMAS. Sem exceção. No caso da PEC 241 o que mais tem feito é bombardear o necessário teto dos gastos públicos alegando, sistematicamente, que isto vai levar a saúde e a educação ao caos.
Ora, o que deveriam saber, e entender, é que, ao fixar um TETO NOS GASTOS, o governo mantém o PISO, que permanece absolutamente intacto.

UBER, O SÍMBOLO

Mudando de assunto, não posso deixar de mencionar a última estupidez que foi promovida, ontem, pela maioria dos vereadores de Porto Alegre: ao votar a regulamentação do UBER, foi aprovada a existência de uma quota de 20% de mulheres na composição da frota. Pode?
Creio que as mulheres deveriam protestar contra tal medida, pois além de ridícula não leva em conta que em nenhum momento o UBER discriminou quem queira aderir ao que determina o aplicativo. É DURO, GENTE, VIVER EM PORTO ALEGRE! 

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  • David Coimbra
  • 23 Outubro 2016

 

(Publicado originalmente em Zero Hora, 22/10/2016)

Durante toda a minha vida, ouvi o mesmo discurso de amigos e conhecidos. A mesma queixa, feita num tom entre o amargo e o irônico, entre o resignado e o enojado: o problema do Brasil era a impunidade, os poderosos jamais pagariam por seus crimes e tudo ficaria para sempre como sempre foi. O Brasil não tinha jeito.

Esses meus amigos, muitos deles intelectuais, jornalistas, advogados, políticos, quase todos "de esquerda", esses meus amigos suspiravam pelos países mais desenvolvidos, onde não havia tolerância com quem descumprisse a lei. Pois bem. Houve uma mudança no Brasil. Poderosos que descumprem a lei estão sendo investigados, processados e punidos. E aqueles meus amigos agora vão a público para reclamar... da punição.

O juiz Sergio Moro é o grande alvo desses intelectuais. Tenho lido e ouvido todo gênero de invectivas contra Moro, egressas inclusive de pessoas que eu admirava intelectualmente (sim, está no passado: admirava).

A má intenção das análises é compreensível: é fruto do dogma partido, das ilusões perdidas, das convicções abaladas.

Já a desinformação é imperdoável, sobretudo quando propagada por profissionais da informação. Moro é tratado por esses intelectuais como justiceiro. Bem. Mesmo que ele quisesse ser um justiceiro, não conseguiria. Moro é juiz de primeira instância, não tem poder suficiente para fazer o que seus críticos acham que faz.

Ontem, conversava sobre isso com o desembargador Eduardo Delgado, meu amigo, também ele perplexo com as reflexões absolutamente equivocadas cometidas por alguns de meus colegas. Eduardo lembrou que as decisões de Moro são revistas por no mínimo outros SEIS juízes, três desembargadores do TRF de Porto Alegre e três ministros do STJ. Isso se o caso não for parar no STF. Quer dizer: são TRÊS INSTÂNCIAS depois de Moro. Três instâncias que podem mudar tudo o que ele determinar. Moro não manda nada.

No famoso caso do Banestado, muitas das decisões de Moro foram revisadas pela mesma segunda instância que as apura hoje, o Tribunal Regional Federal, sediado em Porto Alegre. Moro condenou muita gente, naquele episódio, e a maioria de suas sentenças foi reformada. É provável que ele tenha aprendido com a experiência, porque, hoje, o índice de aprovação das suas decisões é de 96,4%. Considere que os advogados de defesa são alguns dos melhores do Brasil, e não há como não chegar à conclusão de que, pelo menos tecnicamente, esse é um juiz corretíssimo. Mas é erro grave acreditar que Moro é o único neste processo de transformação do Brasil.

Há outros juízes, promotores, policiais e funcionários públicos envolvidos, todas "pessoas comuns", nenhum deles poderia ser definido como um dos "poderosos" dos quais reclamavam meus amigos antigamente. São homens como eu e você, profissionais que estão fazendo apenas o que todos tentamos fazer: eles estão fazendo o seu trabalho. Estão fazendo a coisa certa. Mesmo assim, são criticados por esses intelectuais. E é isso que mais entristece, na situação do Brasil de hoje.

É descobrir que os que criticavam a impunidade dos poderosos não combatiam a impunidade: combatiam "aqueles" poderosos.

Porque hoje, quando os poderosos são amigos deles, ou estão no mesmo lado, eles anseiam pela impunidade, eles criticam a punição. Lembro desses meus amigos, colegas e conhecidos, tempos atrás. Como poetou Belchior e cantou Elis, na parede da memória, essa lembrança é o quadro que dói mais. Minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos. E vivemos como nossos pais.
 

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  • Cristóvam Buarque
  • 23 Outubro 2016

 

(Publicado originalmente no Diário do Poder)

O Brasil tinha todos os recursos para se transformar em imenso edifício, mas se esqueceu de construir a base sobre a qual edificaria seu futuro. Entre as muitas causas dessa fragilidade está a falta de base educacional e de credibilidade financeira. A conquista de credibilidade é condição básica para construir o edifício Brasil.

É nesse sentido que o país debate a decisão radical de impor constitucionalmente um limite nos gastos do setor público. Pode-se discutir se o teto deve ser reajustado apenas pela inflação ou levar em conta parte do aumento da receita de um ano para o outro, seja por melhor eficiência na arrecadação, pelo crescimento do PIB ou por aumento de impostos, mas, com a falência financeira do setor público e o descrédito de décadas de irresponsabilidade e inflação, a proposta de considerar a aritmética financeira é condição necessária para retomar a credibilidade e, em consequência, o crescimento do emprego.

Caso a regra já existisse, talvez não tivéssemos feito milagres econômicos, mas teríamos um edifício Brasil sólido, diferente do instável no qual vivemos e que deixaremos para nossas crianças. Além disso, o teto forçará debates sobre quais são as prioridades que a sociedade define, fazendo surgir os conceitos de “direita” e “esquerda” na escolha do destino dos recursos públicos limitados e sem a ilusão da inflação.

No lugar da mentira de aumentar gastos em todos os setores, sem disputas, como nos acostumamos, a política “cairá na real” e demonstrará quem escolhe os gastos sociais, dentro das possibilidades de uma economia eficiente, sem ilusões, acomodamento ou desperdícios, e com finanças equilibradas.

Mas o teto poderá impedir a construção da base educacional necessária se o Congresso não for capaz de agir para elevar as despesas no setor, graças à redução de outros gastos supérfluos ou injustos. Dependendo de força política, o teto não bloqueia mais recursos para saúde ou educação nem impede a continuação de obras faraônicas ou as políticas de subsídios a setores industriais ineficientes, nem evita privilégios salariais a marajás.

Tudo dependerá da força política. Será possível descobrir quem estará a favor da educação, porque agora precisará ficar contra gastos em outros setores. Os recursos limitados induzirão também quem é capaz de fazer mais, com menos gastos, graças à maior eficiência.

Não se deve esquecer que esse teto poderá ser mais um fracasso se se limitar às despesas sem ao mesmo tempo impedir a avassaladora pressão que existe, inclusive na Constituição, por mais gastos; e se não transferirmos para o setor privado os investimentos que não exigem exclusividade estatal.

Sem essas ações, em poucos anos, a PEC se esgotará e exigirá nova reforma da Constituição para liberar os gastos, aceitar a inflação e a crônica falta de credibilidade. Nesse caso, a crise fiscal se transformará em crise constitucional: será a crise do teto.

Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF.

 

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