Artigos do Puggina
Percival Puggina
30/01/2026
Percival Puggina
Imagine uma bolha cósmica que se tivesse formado no momento na Criação. O Universo e sua bolha. Nele, a energia, a luz, a vida; nela, na bolha, as trevas ainda encobrindo a superfície de seus abismos. De repente, algo lhe perfura o invólucro e ela, forasteira na realidade exterior, passa a ver e sentir o que todos viam e sentiam.
O leitor destas linhas, que é esperto, já entendeu que estou falando da bolha em que, desde 2019, a Rede Globo e suas parceiras no Consórcio Goebbels de Comunicação haviam fixado residência. Passado o primeiro impacto ante a novidade e gravidade de coisas mais do que sabidas, há um corre-corre, um lufa-lufa nas redações. É preciso atualizar o entendimento, reconhecer fatos, interpelar atores. Há uma nova ordem global a estabelecer! Avante companheiros!
É inevitável que alguém tenha feito a pergunta essencial: “Que diabos está acontecendo?”. A resposta então balbuciada numa continuidade que não se dispersa ainda pode ser ouvida: “É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria!”. Faz muito sentido, porque se a sangria não cessar, o poder, exangue, não se sustenta.
Essa frase entrou para a história quando a corrupção da Nova República já atingira níveis letais. A palavra sangria, na frase de Romero Jucá em conversa gravada pelo diretor da Transpetro, Sérgio Machado, em 2016, significava “vazamentos que adviriam com a continuidade das delações premiadas na Lava Jato”.
É uma adesão importante, a do Consórcio Goebbels, que já causou desequilíbrio emocional em gente de equilíbrio frouxo. As maltratadas redes sociais e mídias alternativas fazem o que podem, mas nada substitui as grandes máquinas jornalísticas quando algo as obriga a furar a bolha onde se tenham abrigado.
Tudo estaria muito bem se essa ruptura cósmica não correspondesse a uma estratégia de sobrevivência. Afinal, em nosso país, tudo é feito para autenticar este disparate entranhado em mentes paranoides: é dever das instituições de Estado impedir o crescimento da direita política. Não se trata de salvar a esquerda de sua paranoia, mas de salvar a paranoia da esquerda.
Na semana anterior, acompanhei pela TV, dia-a-dia, a caminhada do deputado Nikolas Ferreira rumo à Capital Federal. No domingo dia 25, enquanto assistia aquela multidão chegando à Praça do Cruzeiro, sob e sobre as águas da chuva, tomei emprestado os versos de Paulinho da Viola. Aquilo “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”! E lavar.
Por isso, quero submeter uma conduta ao juízo de meus leitores: não aceitemos que se estanque a sangria com algum torniquete enjambrado ou com desajeitado malabarismo jurídico. Nem que nos sirvam algum bode expiatório. A nação quer justiça e nada menos do que Justiça.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
25/01/2026
Percival Puggina
Viver numa democracia é privilégio cada dia mais raro. Minha geração cresceu bebendo democracia à americana, de canudinho, como Coca-Cola ou saboreando à europeia, como barrinha de chocolate suíço. Europa Ocidental do pós-guerra e Estados Unidos eram as referências culturais e políticas. Hoje, o Ocidente oferece sua cultura, tradição, princípios, valores e convicções em sacrifício no altar do multiculturalismo, do globalismo e os EUA só não estão fazendo o mesmo porque Trump não está deixando. O balaio de renúncias descarta, igualmente, a Verdade e o Bem. Vá e veja. Informe-se e saiba.
Em 2019, ano que marcou o fim de uma era no Brasil, as poucas virtudes nacionais foram jogadas num corredor polonês como resíduos da “ultradireita”. Observe, nestes dias, a conduta de quantos – quantos! – racharam os dedos aplaudindo os excessos no uso do poder do Estado, mesmo quando aplicado com voluntariedade de causar arrepios à mais prosaica letra da mais corriqueira lei. O que antes era defendido com unhadas e dentadas retóricas em qualquer microfone ou mesa de bar, agora é afastado com fingido desprezo, que parece extraído de uma página de Esopo: “Não estou acompanhando”. Uvas maduras da hipocrisia...
A experiência da modernidade mostra que, fora dos controles, o poder age como o álcool sobre o alcoólatra de quem demanda doses crescentes do vício com o qual se perdeu. O título deste artigo reproduz o título de um livro importante, ao qual o autor acrescentou subtítulos que informam sobre o conteúdo abordado nessa contradição em termos do título principal: Natureza e origens; e Psicopatologia e Psicologia Social.
Tive o privilégio de desfrutar, durante vários anos, do convívio frequente e da amizade do saudoso José Antônio Giusti Tavares, autor de Democracia Totalitária. Ele era doutor em Ciência Política, destacado professor, escritor de inúmeras outras obras e um incansável garimpeiro da verdade. Nessa bateia encontrou à fé dos Apóstolos.
Publicado em 2015, o livro entrega seu produto, também, à posteridade. Ao relê-lo, passada uma década da primeira leitura, percebo que a competência do amigo Tavares se revela ainda mais contundente, como se o escrevesse mirando o Brasil de 2026. Quando escrutina as características das sociedades de massa e as consequentes perdas da individualidade, Tavares aponta as dificuldades inerentes à compreensão da democracia por pessoas simples, levando-as a preferir líderes e regimes totalitários, que reduzem os riscos e as incertezas inerentes ao exercício da liberdade. Páginas adiante, salta aos olhos do leitor de hoje o retrato falado do líder paranoico, missionário de uma causa para cujo êxito “deve eliminar inimigos perigosos, que conspiram contra ele num conflito do qual resultará como único sobrevivente” ...
Por isso, numa sociedade de massa, em que as misérias cultural, material e moral caminham lado a lado, aos tropeços, em meio à mistificação e autoritarismo, mais do que nunca, esclarecer é preciso. A marcha firme, corajosa e virtuosa de Nikolas Ferreira é um exemplo de quanto podem um homem e sua fé.
* Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
19/01/2026
Percival Puggina
Cuba, Venezuela e Irã são exemplos desafortunados, cuja história transcorre sob nossos olhos sem que aproveitemos quanto nos ensinam sobre poderes que podem tudo. Em 1959, Cuba, a hoje miserável Cuba do paraíso caribenho, estava entre os cinco países mais prósperos da América Latina e o Brasil não era um deles. Em 1999, a Venezuela, com apenas 24 milhões de habitantes, era prenunciada como a Arábia Saudita do continente, com um PIB total inferior apenas aos do Brasil e México. Em 1979, mesmo sob uma monarquia autocrática, o Irã era um país para o qual jamais se preveria o futuro que hoje o descreve. O fanatismo religioso e misógino dos Aiatolás, financiador do terrorismo e a ganância da elite militar escureceram sua sociedade como o flagelo do chador cobre de preto suas belas mulheres.
Essas três realidades, tão presentes no noticiário internacional, deveriam mostrar quanto é nociva a falta de liberdade e quanto mal fazem aqueles que, investidos de poder, se sentem com a prerrogativa de “empurrar a história” sem qualquer delegação para isso. Os que exercem tal poder, se valem de uma força que não é moral, nunca é obtida mediante o voto popular nem corresponde àquilo que os romanos chamavam auctoritas (a autoridade que vem do respeito, do prestígio e do reconhecimento social). Empurram a história através do poder de que dispõem sobre os aparelhos de repressão do Estado. Veem a perda do próprio poder como o grande perigo e, para evitar tão amargo fim, são impelidos a um uso cada vez mais excessivo dos meios de que dispõem. Assim, vai-se a liberdade, levando pauladas num longo e tenebroso “corredor polonês”.
Firmei a convicção de que há um problema no parágrafo único do artigo 1º de nossa Constituição de 1988. Ele diz: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Mas como pode cumprir essa representação um parlamento intimidado, acuado sob pressões e ameaças explícitas ou implícitas? Como pode realizar isso um parlamento destituído de sua independência? Sem liberdade, a representação se manifesta de modo incoerente com o querer dos representados e costumam ser poucos os representantes que não se deixam intimidar.
A entrada da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul registra em bronze a afirmação que dá título a este artigo, atribuída a Bento Gonçalves da Silva, líder da Revolução Farroupilha. Não é diferente a situação de um povo cujo parlamento nacional existe, mas perdeu a própria liberdade por ameaças e pressões exercidas sobre seus membros. Há mais de seis anos, inquéritos profetizados como “do fim do mundo” intimidam e parecem ter na inatividade sua principal atividade. Tão curiosa condição, é tratada como normal pelo jornalismo que engorda no pasto, permitindo que a história seja empurrada segundo um script estranho e do agrado de quem, mesmo?
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Outros Autores
Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
23/01/2026
Estourou a bolha do Consórcio Gobbels e a esquerda corre para estancar a sangria.
À exemplo do que acontece em todo Ocidente, nossa melhor experiência democrática virou alvo da guerra cultural, política, moral e ideológica.
O mais tradicional conselho dos pais, vale para as nações e seus eleitores.
Autoritarismo é um regime onde o roteiro do futuro é escrito por um ou por alguns, independentemente da livre representação da vontade popular pelo Congresso Nacional.
Anistia tem nada a ver com Justiça, mas com política feita por políticos, sem interferências na liberdade de consciência assegurada aos parlamentares.
A democracia é representativa. Se a representação é intimidada e se omite ou se submete, a democracia já era.