Artigos do Puggina
Percival Puggina
21/03/2026
Percival Puggina
Embora a edição em português tenha sido publicada em 1991, ainda hoje encontro fãs da autora, Ayn Rand, empolgados com o livro “A virtude do egoísmo”. Não sei se convenci algum, mas sei que jamais, qualquer desses interlocutores esclareceu o seguinte ponto: se, ao buscar o interesse próprio, o ser humano está cumprindo sua finalidade, por que raios devem os políticos renunciar a ele e se dedicar ao bem dos outros?
No coração do poder político, é preciso ser muito distraído em relação às oportunidades para não encontrar, a cada momento, algum interesse pessoal mais conveniente do que o bem alheio... É assim, exatamente assim, no subterrâneo dos interesses, que negligenciam a corrupção, matam a anistia, a dosimetria, as CPIs, a liberdade e a paciência dos cidadãos, e dão por virtuosos os vícios institucionais.
Qualquer pessoa com bom senso também sabe que nosso sistema eleitoral proporcional está mal pensado. Infelizmente, ele só é bom para quem faz a lei e acaba privilegiando a representação dos grupos de interesse. No viés oposto, e na linha do que expus no parágrafo anterior, esse sistema reduz a representação do cidadão comum (chefe de família, trabalhador, pagador de impostos ou um “ninguém por si”, desempregado). Até o último bilhão de reais, cabe ao cidadão pagar o custo da varredura interesseira que o sistema não perde ocasião de transformar em elite dirigente!
Há quarenta anos escrevo e falo sobre a superioridade técnica do voto distrital com recall, para que o parlamentar mais votado seja o representante de todos os cidadãos de seu distrito, assim como o governador é governador de todos os eleitores de seu Estado. No voto distrital, o deputado deve prestar contas a todos por suas ações e omissões, e está sujeito à revisão do mandato (recall).
Há muitas coisas erradas, sim. Nenhuma delas, porém, nem as urnas sem impressora, são motivo para não votar. Ao contrário, são uma soma de razões para comparecermos à sessão de votação e escolhermos pessoas capazes e virtuosas para o importante trabalho que a nação requer.
Estou acompanhando com muita preocupação as primeiras pesquisas sobre as eleições majoritárias que se avizinham (governadores e senadores). Alinham-se nos partidores, os nomes entendidos como preferenciais do eleitorado e o que leio me causa apreensão. É evidente a força dos partidos que se desfiguraram nas más experiências de um regime que transformou a política em feira de negócios. Tanto rebento de árvores genealógicas das dinastias regionais ponteando preferências não me deixam otimista. Não agora, não com esses dados. A Associação de Corruptos pela Democracia deve estar gostando dessas pesquisas.
O futuro precisa de uma elite da melhor qualidade. E ela existe! Pressionar os partidos, escrutinar suas nominatas, empurrar essas pessoas às urnas, enchê-las de votos, é uma tarefa para os meses vindouros. As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O cardápio será o que for escolhido nessas reuniões. E eis aí outra vulnerabilidade de nossa democracia em frangalhos.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
18/03/2026
Percival Puggina
Saudades de vocês, meninos!
Vasculhando a nuvem, encontrei imagens do encontro do MBC (Movimento Brasil Conservador), ocorrido em Camaquã no mês de novembro de 2021. Então, éramos felizes e sabíamos, porque se sucediam, pelo país inteiro, em auditórios lotados, as oportunidades de convívio, de reconhecimento e apreço aos bens culturais do Ocidente. Os territórios conflagrados da Cultura e da Educação, parafraseando Thomas Sowell, se haviam convertido na política por outros meios. Havia uma guerra pela Cultura.
Esse antagonismo somou-se às causas da censura que não tardaria em sair das máscaras e vacinas para derrubar a própria máscara e assumir seu rosto real no plano da política e da eleição que se avizinhava. A noite do regime estava chegando e reservava seu riso para a desgraça alheia. Tanto mais se divertia quanto mais gente houvesse para multar e prender.
Os talentosos Paulo Souza, Augusto Pacheco e Bismark Fugazza são exemplos vivos do mau humor de um regime que dizia “salvar a democracia” enquanto, entre outros pecados, acabava com a liberdade de expressão e tentava proscrever a opinião pública. Muitos jogaram a toalha do desalento, colocaram o livre pensar numa gaiola e se recolheram ao cárcere virtual do “sofá com celular”.
Se, por um lado, graças ao trabalho de Olavo de Carvalho e outros, a produção do ideário conservador e liberal no Brasil entrou num fluxo quantitativo e qualitativo ascendente, suplantando pela primeira vez a produção esquerdista, por outro lado, os meios culturais e educacionais se valeram, e ainda se valem, da hegemonia política imposta pelo regime para desqualificar intelectualmente os recursos humanos do país desde o interior das salas de aula.
Por isso, vencer a eleição presidencial não significa derrotar o regime. Essa vitória virá com a recuperação do trabalho de base, interrompido pela repressão instaurada em 2019 e com maioria parlamentar nas duas casas legislativas, a partir de 2027.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
14/03/2026
Percival Puggina
Dezenas de milhões de brasileiros arrendaram a consciência ao senso moral do Estado, desse Estado a que chegamos. Exclamará o leitor: “Impressionante! E a que preço? Qual o valor desse arrendamento?”. Pois então: trata-se de mercadoria alienada a preço vil. A consciência desses cidadãos não vale um centavo mais do que o senso moral do Estado que tenham como senhor de seus bolsos e almas.
Se estas são palavras duras, a realidade que todos veem e sentem deveria cortar como lâminas do mais puro aço alemão a couraça de quantos não percebem a malignidade do patrão a que se submetem – o Estado que virou feitor da sociedade. Abriram mão da liberdade de pensar, malgrado os milhares de alertas com que Millôr Fernandes, ao longo dos anos, carimbava suas páginas afirmando que “Livre pensar é só pensar”. E ele não falava na liberdade do pensamento irrelevante, da coisa à toa, sem valor ético nem estético.
Para usar uma expressão da moda que não significa coisa alguma, a exemplo de tantos outros modismos como a estampa das meias, os cidadãos a que me refiro abriram mão de seu “lugar de fala”. Como cidadãos, podem e devem falar, mas o Estado em que vivemos, esse Estado a que chegamos, esvaziou em sala de aula os pneus do pensamento, substituído por maus sentimentos contra qualquer um que ouse pensar fora da esparrela mental em que foram capturados. Só quem já observou a naturalidade com que vandalizam seus próprios ambientes e os assistiu, como que em matilha, expulsando deles, aos gritos de “Recua, fascista, recua!” quem tem a ousadia de pensar, sabe do que e de quem estou falando. E sabe quanto essa conduta faz lembrar um regimento da Hitlerjugend, a juventude hitlerista.
Sucessivas décadas de domínio esquerdista do ambiente educacional garantiu a esses moços a condição de face visível do Estado a que chegamos. Refiro-me a um Estado que considera totalmente ociosa a opinião pública. Em si e por si, ele detém o “notável saber”, sendo motivo de escândalo que alguém expresse um pensamento ou um argumento. Aliás, para esse Estado em que vivemos, o cidadão é, sobretudo, um chato, indesejável, de quem se espera e a quem se recomenda o silêncio eterno.
Quando se acumulam os escândalos, esse Estado a que chegamos investiga e inferniza a vida do denunciante. Ele interroga quem formula perguntas e se cobre de misteriosos segredos. Enquanto expõe quem incomoda, impõe sigilo sobre o incômodo que causou...
Em outubro haverá eleições. É o último recurso disponível para nos resgatar dos abusos do Estado, desse deplorável Estado a que chegamos. Sigamos o bom ânimo inaciano que nos indica trabalhar como se fôssemos a democracia com que sonhamos e tudo dependesse de nós, mas vamos rezar colocando os resultados nas mãos de Deus.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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