Artigos do Puggina
Percival Puggina
01/11/2026
Percival Puggina
Oh, mia patria sì bela e perduta!
Oh, membranza sì cara e fatal!
Giuseppe Verdi, na ópera Nabucco (informal hino italiano)
Levei dois dias inteiros sem conseguir escrever uma linha sequer sobre o que aconteceu no dia 25 de outubro. Repetidas vezes tentei reunir o Gabinete de Crise que me atende nessas encrencas, mas meus botões nem saíram de suas casas. Já não reconhecia o meu país – “Oh, lembrança tão querida e fatal!” ... Via-me exilado bíblico em terra estranha, Babilônia distópica, onde se consumira minha liberdade.
Nos primeiros minutos da proclamação do resultado, afirmei aos meus botões ainda bons ouvintes: será bem-feito que os crentes nas bravatas de Lula e os carentes que compraram, com voto, o escandaloso e multibilionário pacote das ilusões vendidas paguem pelo erro que cometeram! Quanta decepção os aguarda! Teriam sido também sete, os minutos dessa raivosa reflexão? Terão eles transcorrido simultaneamente com a expedição da ordem a Flávio Bolsonaro para entregar passaportes? Em seguida, porém, lembrei-me dos injustiçados, dos presos políticos, dos exilados, dos foragidos, dos heróis e das vítimas do arbítrio e dos abusos. E rezei por todos para que tenham força na longa travessia.
Enquanto as horas fluíam, eu ouvia insistentes questionamentos sobre o resultado das urnas. Onde se escondia a verdade? As sociedades convivem muito mal com a imprevisibilidade e, convenhamos, isso é meritório. A previsibilidade é fator de segurança e a insegurança tem preço. Pode custar muito caro, e o inesperado vem de todo lado. Um dia, a inesperada paradinha na contagem de votos, que alguns já aguardam olhando o relógio; no outro, a esticadinha. Um dia, decisão autorizando a censura em nome da verdade; no outro, decisão autorizando a mentira em nome da liberdade. Um dia, o STF se intromete em decisões de competência do TSE; no outro, o que vale para alguns não vale para todos. E vice-versa.
Em fins dos anos 80, quando coordenei a assessoria à bancada do PFL na Assembleia Legislativa do RS, procurei promover palestras sobre temas de democracia liberal. Com esse intuito, precisava agendar o uso de uma das salas de comissão existentes no prédio do parlamento gaúcho. Sabe o leitor qual era a dificuldade? Conseguir qualquer uma que a bancada do PT já não tivesse, antecipadamente, agendado para seu uso. O partido reunia constantemente a militância segundo suas várias correntes internas ou em grupos com interesses e pautas específicas.
Nos anos seguintes, esse ativismo produziu sucessos eleitorais surpreendentes para uns, mas previsíveis por outros. Após quatro vitórias consecutivas em eleições à prefeitura de Porto Alegre, entre 1998 e 2004, o partido foi derrotado. Lembro que logo após, em declaração à imprensa, um dirigente recomendou a seus companheiros e camaradas que voltassem a ler a obra de Antonio Gramsci. Essa leitura leva ao que já tinha acontecido e ao que veio depois: tomar o ambiente cultural, mobilizar multidões, disseminar narrativas, destruir reputações e instrumentalizar a máquina pública. Refiro-me, em especial, às carreiras de Estado, ao imenso aparelho educacional do país, ao movimento sindical, aos movimentos sociais, à ampla parcela de minha amada Igreja Católica cativada pela Teologia da Libertação. Não há movimento conservador ou liberal capaz de algo minimamente próximo a isso.
O que acabei de descrever basta para justificar a radical reversão de previsões, cientificamente elaboradas pelos institutos de pesquisa? De onde saíram tantos milhões de lulistas em apenas três semanas? É uma pergunta séria, com respostas difíceis de sustentar ou contestar. A máquina é ruidosa ou silenciosa segundo a própria conveniência. Assim como não há previsibilidade, não há credibilidade, pois esta última se autodestruiu ao inutilizar os meios que poderiam ser usados para esclarecer, com autoridade, quaisquer dúvidas supervenientes.
A esquerda releu Gramsci e foi para a eleição. Usou, uníssona, todos os coelhos de sua cartola de anomalias. A direita ouviu falar dele e só aprendeu a culpá-lo, em vez de aproveitar do que, de realmente importante, ele ensinou sobre construção da hegemonia! Quantos dos nossos líderes partidários leram Olavo de Carvalho? Quantos levaram a sério o dever de casa? Quantos olharam além da primeira cerca? Agora, a direita parece dividir-se mais um pouco e põe em risco a futura presidência do Senado.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
29/10/2026
Percival Puggina
“Estou vendendo um realejo.
Quem vai levar? Quem vai levar? Quem vai levar?
Já vendi tanta alegria, vendi sonhos a varejo.
Ninguém mais quer hoje em dia acreditar no realejo (...)”.
Chico Buarque, em Realejo
Quem diria, não é mesmo? Em 1967, ano dessa composição, os realejos ainda rodavam nas praças. Hoje, vender sonhos e ilusões é tarefa para um certo jornalismo militante que também entrega, de cambulhada, narrativas, utopias, mentiras e mistificações. Ora ele ganha requintes acadêmicos nas redações onde os fatos, recebidos “in natura”, são reciclados em conteúdo e forma; ora é singela construção artesanal para posterior distribuição através dos assim chamados exércitos de ativistas, como a gigantesca infantaria comandada pelo general Janones.
Os tocadores de nossos realejos quotidianos desenvolveram uma semântica astuciosa em que adjetivos como negacionistas, genocidas, fascistas, terraplanistas são usados para significados aquém e além daqueles para os quais existem e nunca com o intuito de serem entendidos no sentido original. Delírios de linguística orwelliana! Veneno em poção verbal e visual. O mercado de veneno atrai ilustrados e apedeutas.
Uns e outros, para combater a divergência que merecem, recriaram um “antifascismo” sempre pronto a causar dano. Visto de perto, porém, não passa do velho fascismo com estrela vermelha. A Segunda Guerra Mundial ainda não acabara e as nações tomadas da Alemanha pelo Exército Vermelho já amargavam a tirania soviética que dizia combater o fascismo supostamente nelas infiltrado.
O realejo que hoje toca o dia inteiro no Brasil tem como público cativo o cidadão do sofá, previamente descerebrado e anatomicamente formado por corpo, membros e almofadas. Pode haver certa má vontade minha, mas sempre achei mais fácil acreditar em Terra plana do que na Globo, por exemplo. Ademais, querer convencer pela repetição, como acontece no Brasil, desrespeita o público. É assim no adestramento usado por humanos para controlar animais – e nunca ao contrário. Pelo amor de Deus, nunca ao contrário, nunca por animais para controlar seres humanos!
* Imagem ChatGPT
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
24/10/2026
Percival Puggina
Domingo, 25 de outubro de 2026. Para o bem ou para o mal, um dia que jamais esqueceremos. Converge para ele mobilização intensa dos cidadãos. Enquanto se nacionalizam disputas locais, antagonismos nacionais chegam aos bairros. É a política em teses e antíteses tão rudimentares quanto essenciais. A realidade mostra os dentes. Utopias sacodem as nuvens onde habitam e, entre raios e trovões, regam fantasias. Há uma incerteza no ar: a história projeta a perenidade do passado ou um futuro que estende os braços para resgatar a nação dos sofrimentos do tempo presente?
Domingo tem eleição. Enquanto as horas passam em direção a ela, presenciamos o dispersivo vendaval das mentiras e a atividade febril na usina de narrativas. Uma e outra, mentiras em estado bruto e narrativas produzidas com engenhosa mistificação, nos arrastam ao inevitável dilaceramento de laços de confiança preciosos ao convívio social.
A história, contudo, tem vértices. As linhas que a orientam têm pontos de encontro além dos quais não existe continuidade sem mudança. Após esta eleição, a tirania ou tira a roupa e se assume de modo escrachado e despudorado ou cai, para que a soberania popular se afirme, a liberdade abra as asas sobre nós e a democracia seja reconstruída.
Observe a realidade destes dias. Os mesmos que tudo fazem para desacreditar a atividade política e provocar hostilidade entre as pessoas de bem e o processo eleitoral, voltam às ruas após longo e envergonhado retiro para estimular seus próprios eleitores. Tudo fizeram para impor silêncio às ruas, censurar a divergência e restringir nossas liberdades. Transformaram a rede de ensino do país em fabriquetas de militantes, emburreceram o ambiente cultural, saquearam a população por meios diretos e indiretos.
Domingo tem eleição. Não fique em casa. Quem governou o país em cinco das seis eleições deste século nos trouxe ao fundo do poço das possibilidades e a este miserável ponto de ruptura. Dê seu voto à mudança. Aposte na esperança.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
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