Artigos do Puggina
Percival Puggina
21/02/2026
Percival Puggina
"Jurei sobre o altar de Deus, hostilidade eterna contra todas as formas de tirania sobre a mente do homem." — Thomas Jefferson, em carta a Benjamim Rush.
Vocês que selecionaram o que noticiar ou não noticiar, explicaram o absurdo, riram da desgraça alheia, louvaram a impiedade, aplaudiram a censura, justificaram o descumprimento da lei, o que pretendem agora e o que pensam de si mesmos? Pergunto porque chegamos ao fundo do alçapão que há no fundo da toca que tem no fundo da arapuca que há no fundo do poço. E a verdade não mais se cobre com tintas nem com fantasias. É hora, então, de ouvir vocês, que ecoavam os silêncios de quem devia explicações, que se fartaram com os excessos do poder e se regozijaram ante os desabrigados da justiça dos homens. Que dizem vocês, agora?
Pois é, chegamos a este ponto e se faz dever de consciência proclamar, como cidadão, que isso é bom. Há proveito e virtude quando uma nação se vê assim, diante do espelho, longe do narcisismo dos donos do poder e dos auditórios pegajosos e lisonjeiros que cortejam as cortes e seus cortesãos.
Foram anos difíceis, estes que se seguiram à malfadada experiência das eleições de 2018 e 2022. Enquanto uns construíam e aclamavam o mito Bolsonaro, outros, paradoxalmente, numa espécie de antropofagia tupinambá, que devorava o inimigo para absorver o seu poder, faziam dele um mito reverso, objeto de cotidiana malhação. A figura do ex-presidente na situação clínica e psicológica atual e o nível de concentração de poder assumido pelos novos protagonistas da política parecem, mas apenas parecem, concretizar o referido ritual.
O problema é que ao contrário do que previa a cultura tupinambá, a prisão do mito, seus problemas de saúde e os direitos humanos que perdeu coincidem com uma redução do poder político dos ministros do STF. Em poucas semanas, o grupo que comanda a instituição contabiliza deserções e boa parte da velha mídia dá claros sinais de que os compromissos, se os havia, já foram cumpridos. Que cada um cuide de si e vivas ao furo de reportagem, cumprindo seu papel de expor falsos profetas e escrutinar os cantos escuros de salões que, para Alberto Pasqualini, deveriam ter paredes de cristal.
Resultado: lembram do velho desejo de “controlar a mídia”, que sempre animou o petismo quando no poder e, recentemente, se deslocou para as redes sociais? Pois é. Voltou. Voltou e nos recorda a necessidade de retomar o básico, com o Barão de Montesquieu: “Não há tirania mais cruel do que aquela que se exerce à sombra das leis e sob o pretexto da justiça”.
O alvoroço destes dias só pode ser instigante para quem, como eu, crê que democracia, sendo forma e valor, não convive com a inércia das coisas ocultas.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
17/02/2026
Percival Puggina
Foi complicado assistir pela TV ao desfile da Escola de Samba que homenageou Lula na Sapucaí. Qual era, mesmo, o canal da Globo? Minha mulher – graças a Deus! – também não fazia a menor ideia. Há tantos anos não sintonizávamos essa emissora que precisei sair atrás, de canal em canal. Quando pensei ter encontrado, percebi, instantes depois, que estava na tal Globo News. Continuei buscando no sentido decrescente até topar com a RBSTV em rede com a Globo na transmissão.
Não vou analisar a letra do samba-enredo homenageando o enredado presidente. Aliás, samba-enredo de homenagem a Lula é piada pronta. Foi como ouvir discursos de petistas numa sessão da Câmara dos Deputados. Muito barulho de prato e pouca comida.
A sete meses da eleição, com um ilícito eleitoral em cada verso e em cada alegoria para o mundo assistir ao vivo, a inusitada homenagem concede ao TSE tempo para julgar o assunto quando for mais oportuno. E aí se instala uma situação cada vez mais comum em nossos tribunais superiores: oportuno para quem? Infelizmente, todos sabemos a resposta. Na corte onde missões dadas são cumpridas e onde os manés perderam, questões de natureza política ou com reflexos políticos têm sido decididas conforme as cortes considerem melhor para si mesmas. E isso pode representar, no caso do showmício da Sapucaí, desde uma tênue multa até uma prolongada inelegibilidade.
Num Estado de Direito, a lei se impõe igualmente a todos. Quando a Justiça faz política, é seu querer que se impõe a todos.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
15/02/2026
Percival Puggina
Quem quisesse saber como se sentem os cidadãos de uma nação que perdeu o senso de justiça, a noção de certo, errado, limites, ética e compostura, agora já sabe. Quem tem juízo, olha a realidade e observa os personagens que nos pretenderam lecionar sobre vida civilizada. Ouviu que “empurravam a História” ... Sentiu os trambolhões e os maus jeitos de uma Justiça com inusitadas estratégias políticas, praticando excessos e fazendo vítimas.
Há uma parcela demograficamente ponderável do povo brasileiro que consegue conviver com escândalos sucessivos; com revelações de mesadas que, se repartidas por cabeça, fariam felizes populações inteiras de vários municípios brasileiros; com o arrogante controle da política por quem não tem voto; com o desrespeitoso silêncio de quem tem explicações a dar; com argumentos falaciosos que nem jeito de argumentos têm; com os constrangimentos internacionais pelos quais o Brasil vem passando; com a obsessão do Executivo e do Judiciário em controlar a liberdade de expressão. É o produto de cinco mandatos presidenciais petistas e de políticas sociais viciantes. Deliberadamente, criam dependência e escravizam enquanto a ação do governo se restringe a distribuir dinheiro ou bens de consumo, ou crédito, para suprir demandas de dezenas de milhões que não trabalham.
Sinceramente, conheço pouquíssimos eleitores que correspondam a essas descrições. Os eleitores de esquerda que conheço são cidadãos com causas, embora não entenda como conciliam tais causas com a atuação dos governos que elegem. Preferem qualquer desastre nacional a um governo de direita.
Contudo, não foram os dois grandes grupos mencionados nos parágrafos anteriores – os dependentes e os militantes – que deram a Lula o mandato presidencial obtido em 2022. Não é a esses grupos de lulistas fieis que Lula deveria agradecer a presidência da República, mas aos mais de 30 milhões de eleitores que se deram ao luxo de ficar em casa nos dias da eleição. Decisiva omissão! Numa disputa que contou 60 milhões de votos para Lula e 58 milhões para Bolsonaro, a leviandade dos 30 milhões de ausentes entregou o Brasil em mãos que, de modo compulsivo, destroem tudo em que tocam!
Eu sei, muitos leitores destas linhas podem estar pensando nas “excepcionalidades” que viraram rotina na arbitragem da campanha eleitoral de 2022, na criminalização da direita, que nunca mais saiu do vocabulário dos tribunais superiores, na censura, nas palavras proibidas e na pressão sobre as plataformas. Nada disso, porém, superaria a presença de uma parcela, pequena que fosse, daquele tipo de cidadão que ficou em casa por razões do tamanho de sua casca de noz mental. Esse tipo de pessoa, tão autossuficiente que se permite dispensar a política, só pode situar-se ideologicamente do centro para a direita. A esquerda ou é dependente do Estado ou é militante. Eleitor da esquerda não se ausenta de eleição.
Se você passar uma lupa no que tem sido expresso pelo lado direito em conversas de rua ou nas redes como opinião vulgar, popular, perceberá impressões digitais, pegadas e farelos mentais da mesma convicção e da mesma atitude em relação ao pleito deste ano. A omissão dos milhões de cidadãos do sofá, povo da bolha, volta a ser esperança maior da esquerda e de Lula para a eleição deste ano. Não façam isso com o Brasil!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Outros Autores
Por ação de uns e inação de outros, o Brasil está "fora da casinha". Ideias sobre o pleito de outubro.
Dois péssimos sintomas do estado de saúde de nossa pobre democracia.
Estourou a bolha do Consórcio Gobbels e a esquerda corre para estancar a sangria.
À exemplo do que acontece em todo Ocidente, nossa melhor experiência democrática virou alvo da guerra cultural, política, moral e ideológica.
O mais tradicional conselho dos pais, vale para as nações e seus eleitores.
Autoritarismo é um regime onde o roteiro do futuro é escrito por um ou por alguns, independentemente da livre representação da vontade popular pelo Congresso Nacional.