Percival Puggina
05/07/2026
Percival Puggina
“Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”
Em minha escrivaninha, entre papéis contendo anotações que não sei quando irei reler, há um pequeno pote metálico, cilíndrico, com seis linhas de furos paralelos. Ele percorreu um longo caminho do design à vitrina onde minha mulher o viu, gostou e comprou. Dentro dele, uma dúzia contada de diferentes canetas, na maioria com tinta seca pelo desuso. Sobre elas, ergue-se um velho lápis de madeira, ponta feita e nunca refeita.
Aquela extremidade aguçada atrai atenção quando sento para escrever. Ela me faz pensar numa época em que pensamento e sofrimento não rimavam toscamente numa mesma frase. Hoje, porém, meu amigo jornalista Júlio Ribeiro convidou-me para seu programa na Rádio +Brasil propondo uma pergunta que se ouve como um gemido de dor: “Por que tudo da direita vira drama e na esquerda nada pega?”
Olho para meu lápis que está ali, conceitual, íntegro, perfeito em conteúdo e forma, símbolo de um tempo no qual escritores escreviam desenhando palavras. Hoje, apertam teclas, digitam. Abandono, então, o lápis e lanço sobre a tela estes pensamentos que julgo responder à pergunta, embora rimem com os sofrimentos que causam.
1. Ninguém se espanta ou surpreende com o que é comum e rotineiro. A história dos governos de esquerda é recheada por sucessivos escândalos que vão das tesourarias aos abusos de poder, sigilos centenários, blindagens e jurisprudências politizadas. É a banalização do mal. Surpreender-se com isso é como se escandalizar com o mercantilismo do Centrão.
2. Numa eleição, parcela expressiva da direita examina os candidatos sob a lente de seus princípios. Corretíssimo. Ante a menor suspeita lançada sobre seu candidato, porém, muitos desses cidadãos se juntam ao coro dos próprios adversários, sem pensar nos danos. “E isso é um erro?”, talvez indague o leitor. Sim! Em pleitos bipolares, se o oponente representar a continuidade do mal banalizado que descrevi acima, esse é um equívoco óbvio, uma irresponsabilidade, cujas más consequências se perpetuarão, no mínimo, por mais quatro anos.
3. Tanto isoladamente quanto em conjunto, as redes sociais não são articuladas, como a palavra “rede” parece sugerir. Ao contrário, são fragmentadas e caóticas. O predomínio da direita nesse espaço, após o impacto de sua estreia na eleição de 2018, é insuficiente para enfrentar a função orgânica da velha imprensa, principalmente quando articulada com o Estado. É por isso que você quase nada assiste ou lê nesses veículos sobre o ativismo judicial, o desastre da Educação em nosso país, a irresponsabilidade dos milhões de omissos em pleitos anteriores, os escândalos proporcionados pelos poderes que se blindam. É longa a lista das matérias congeladas no silêncio dos dispendiosos necrotérios de aluguel junto às redações.
4. As ruidosas redes sociais, com o passar do tempo, disputam espaço no mercado publicitário com a velha mídia. Os dois sistemas se tornaram antagônicos. Se as redes são majoritariamente de direita, a velha imprensa busca parceria e recursos no oficialismo estatal, onde, sublinhe-se, obtém resultados mensuráveis e monetizáveis.
Caríssimos leitores, eu os adverti, de início, sobre pensamentos e sofrimentos. No entanto – e por isso penso e resisto – tudo vale a pena se a alma não é pequena, como aprendi de Fernando Pessoa.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
26/06/2026
Percival Puggina
“Guias cegos! Coam um mosquito, mas engolem um camelo.” (Mateus 23:24)
Pelas razões de sempre, é muito provável que a imensa maioria de nossos jovens nunca tenham ouvido falar na Primavera de Praga. No entanto, aquele acontecimento primaveril contra o qual o inferno comunista brutalmente arremeteu, entrou para a história e para o vocabulário político. A Tchecoslováquia era um daqueles belos países invadidos por Hitler em 1939 e transformados em despojos de guerra pelo comunismo soviético em 1945. Bota azar nisso! Já haviam transcorridos 23 anos quando, em 1968, o chefe de Estado tcheco, Alexander Dubcek, influenciado pelas ideias liberais de Ota Sik, mobilizou a população por reformas que ele mesmo cuidou de implantar. Ao arrepio das regras impostas por Moscou para todas as nações atrás da Cortina de Ferro, ele acabou com a censura, reabilitou os presos do regime e promoveu liberdades políticas e econômicas.
Com grande repercussão internacional, a situação se tornou intolerável para Leonid Breznev, líder soviético de então, que mandou meio milhão de soldados e tanques russos trazerem de volta ao cativeiro a desafortunada nação. A Primavera de Praga, porém, foi tão marcante que acabou dando nome “Primavera” a eventos libertários anteriores e posteriores, como a rebelião húngara de 1956, ocorrida 12 anos antes, à Primavera Árabe, iniciada em 2010 com consequências em países do Norte da África e Oriente Médio, ao movimento popular chinês de 1989, vitimado pelo massacre da Praça da Paz Celestial e até aos recentes protestos cubanos encerrados a pauladas no ano de 2021.
Faço este preâmbulo porque preciso dele para dar ênfase ao tema deste artigo num país onde a História é muito mal contada, manipulada e cheia de lacunas. Temos diante de nossos olhos as razões e, no calendário, o devido tempo para promovermos, no dia 5 de outubro, uma necessária Primavera Brasileira.
O simples fato de você, leitor, ter severas dúvidas sobre a possibilidade de que isso venha a acontecer fornece a prova da necessidade de que aconteça. Estão muito erradas as coisas em um país onde as pessoas perderam a confiança no Estado. Um país onde, em troca, o Estado não confia nas pessoas e não esconde o desejo de limitar a expressão das opiniões para manipulá-las mediante argumentos infames.
Foi nessa maré que se produziu a fragorosa derrota de uma nação pela falsa revolução dos omissos de 2022, militantes no cativeiro do sofá. Entregaram a própria casa – a Pátria que herdamos de nossos antepassados – para quem lhes é adversário em tudo que importa. Parecem feitas à medida deles as palavras de Jesus em João, capítulo 10, versículo 12, sobre aqueles que fogem quando vem o lobo para as roubar e dispersar.
Foi assim que o Brasil se tornou, em pouco tempo, o país dos escândalos seletivos, dos guias cegos e das blindagens. Uma nação protetora de suas prósperas organizações criminosas e tóxica em relação aos bens não materiais, apreciados, até mesmo, pelos revolucionários do mau humor, na prisão domiciliar dos sofás. Sai daí, cara! Quando o inverno acabar, vamos extrair desta eleição a Primavera do Brasil.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
21/06/2026
Percival Puggina
Há alguns anos fui convidado, por um grupo católico, a falar sobre liberdade econômica e prosperidade social. A abordagem que fiz aproveitava o ensinamento proporcionado pelas trágicas experiências da Cortina de Ferro e do Muro de Berlim. Aquelas linhas divisórias, traçadas nas reuniões de Yalta e Potsdam após a Segunda Guerra Mundial, evidenciaram ao mundo as diferenças no curto, médio e longo prazo entre economias estatizadas e economias livres. O caso alemão era o mais didático por envolver o mesmo povo e a mesma cultura. De um lado, partido único, opressão e economia centralizada; de outro, Estado de Direito, democracia, liberdades políticas, civis e econômicas. Na primeira fila do auditório, um senhor, adepto da Teologia da Libertação, contrariado, se agitava na cadeira.
Enquanto eu falava, veio-me a ideia de ilustrar a mensagem com um exemplo que era presença cotidiana em todos os lares. Falei sobre as panelas alemãs. Expliquei que, finda a guerra, era preciso fabricar panelas para uma nação bombardeada. No lado ocidental, algum empreendedor instalou sua fábrica e passou a vender o produto. Perguntei ao auditório: “Quanto terá ele cobrado por unidade?”.
Arrancando risos, adiantou-se o tal sujeito na resposta: “Como explorador do trabalho alheio, deve ter cobrado o máximo que o povo estava disposto a pagar”. “Exatamente”, respondi. E acrescentei: “Ganhou tanto dinheiro que, logo, surgiram outros fabricantes para se beneficiar de uma fatia daquele mercado. Novas fábricas, novos empregos, mais gente vendendo e preços em queda por força da concorrência.”
Prossegui a exposição sobre o que de fato aconteceu no lado ocidental, falando na geração das panelas de aço inoxidável, fáceis de limpar, nas panelas de aço com fundo triplo, nas panelas de pressão, nas cerâmicas, nas válvulas reguláveis, nas variedades de design, nos materiais de cabos e alças, nas tampas de cristal, nas cores, nas panelas que apitam. Cada vez mais fábricas, mais operários, mais panelas criando a necessidade de buscar mercados e exportar volumosos excedentes de produção.
No lado oriental, submetido ao comunismo, as fábricas se transformaram em Empresas de Propriedade do Povo (VEB em alemão) e produziam espessas panelas de alumínio, desatualizadas, feias, mas feitas para durar gerações. Demanda atendida e decrescente. Em toda parte, pobreza e miséria se instalando pela ausência de fatores e motivações essenciais ao desenvolvimento econômico. O muro se tornou inevitável para conter o êxodo.
Ao final da palestra, dirigindo-me ao incomodado interlocutor da primeira fila, disse: “De cima do Muro de Berlim, durante três décadas, as donas de casa da Alemanha Oriental, olhavam as panelas usadas por suas irmãs e primas, tão próximas quanto inalcançáveis, e pensavam em quanto não dariam pelo privilégio de possuir ao menos uma em suas cozinhas. Certamente pagariam um preço ainda maior do que o ‘explorador do trabalho alheio’ havia cobrado pelas primeiras panelas que fabricou. Para entender o monumental efeito desses contrastes entre os dois modelos, ponderem que eu falei apenas em ... panelas.” Regime tirano, nação pelo cano.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
14/06/2026
Percival Puggina
Quase 80% dos atuais eleitores brasileiros tinham menos de 18 anos em 1988 e não sabem, portanto, o que representava viver sob as condições nacionais daquela época. A moeda era o Cruzado, a inflação chegou a 980% e bateu em 2.000% no ano seguinte! Em pouco tempo, o Cruzado virou Cruzado Novo (1989-1990), foi substituído pelo Cruzeiro (1990-1993), que se converteu em Cruzeiro Real. A transição para Real aconteceria em 1º de julho de 1994. Cinco moedas em seis anos.
Quanto aqueles anos foram pedagógicos e favorecem a compreensão dos riscos envolvidos num desmonte institucional como o que está em curso no nosso país! E não refiro apenas aos ataques cotidianos à disciplina monetária, à responsabilidade fiscal e à liberdade dos cidadãos. Sob um governo que é um delivery de desgraças, incluo e sublinho o deslocamento do eixo do poder político para o topo do Judiciário, porque loucura política com sintomas iguais nunca houve antes.
São densas as camadas ideológicas que sustentam tantas leviandades e não foi por outro motivo que iniciei este texto mencionando 1988. No ano de nascimento da atual Constituição, o comunismo soviético já fizera todo estrago possível no Leste Europeu. A prosperidade do lado ocidental do Muro de Berlim embaraçava o esquerdismo infiltrado nas democracias liberais do lado de cá. Muito escrevi e falei sobre isso naqueles anos porque o PT nascera em 1980 e defendia muitas daquelas ideias e regimes. Foram elas que inspiraram a atuação dos petistas na Constituinte eleita em 1986.
Chegou-se, então, ao ano de 1989 e à queda do Muro de Berlim no dia 9 de novembro. O contraste entre a próspera liberdade ocidental e a cativa miséria do Oriente comunista era tal que os gritos do povo funcionaram como as trombetas de Josué sobre as muralhas de Jericó. As pedras do Muro foram, contudo, as primeiras cartas a cair. O que sobreveio é tão ou mais impressionante, como se verá a seguir.
Dois meses após a queda do Muro, ao longo de todo o glorioso ano de 1990, desabou o comunismo institucionalizado no Leste Europeu. Em 1º de janeiro, foi extinta a Securitate, temida polícia secreta romena. Em 24 de fevereiro, o Partido Comunista foi vencido nas eleições da Lituânia. Em 26 de fevereiro, com a Checoslováquia no auge da Revolução de Veludo, Gorbachev anunciou a retirada de suas tropas de ocupação. Em 11 de março, o Parlamento da URSS revogou artigo 6º da constituição, que assegurava o monopólio do poder ao Partido Comunista. Em 11 de março, o Conselho Supremo da Lituânia assinou o Ato de Restauração da Independência. Em 2 de maio, o dissidente Arpad Goncz foi eleito presidente da Hungria. Em 4 e 8 de maio, respectivamente, a Letônia e a Estônia se declararam independentes. Em 20 de maio a Romênia teve suas primeiras eleições democráticas desde 1937. Em 29 de maio, derrotando o candidato do Partido Comunista, Boris Ieltsin foi eleito presidente da Federação Russa. Em junho, a Bulgária teve sua primeira eleição democrática. Em dezembro, a Polônia elegeu o sindicalista Lech Walesa presidente com 75% dos votos. No mesmo ano, a Albânia cedeu aos protestos estudantis e abriu-se ao pluralismo partidário. Dois meses antes, acontecera a reunificação da Alemanha.
O esquerdismo latino-americano entrou em pânico. Os acontecimentos libertadores ainda seguiam seu curso quando, entre os dias 1º e 4 de julho, 48 partidos e organizações de esquerda, em vários tons de vermelho, se reuniram em São Paulo. Haviam sido convocados pelo PT brasileiro e pelo PC Cubano. Por Lula e Fidel Castro. Era preciso salvar aqui o que estavam perdendo lá.
Passaram quase quatro décadas daquela reunião. Depois de semear miséria sem apresentar um único bom exemplo, o Foro de São Paulo é sombra do que já foi. Fidel e Chávez morreram. Cuba estertora. Maduro está preso. As revoluções partiram para o narcotráfico. Mas o Brasil, senhores, deu cinco mandatos ao radicalismo esquerdista do PT. E nosso país está em pandarecos. Se você é chefe de família, coroa, sênior, pai, tio, avô, cumpra sua missão orientadora entre os mais jovens.
* Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
06/06/2026
Percival Puggina
Na perspectiva da extrema esquerda que nos afeta, a decisão dá causa a intensa indignação: ianques estão querendo se meter com o CV e o PCC. Estão intervindo em nossa soberania... As duas organizações são coisa nossa (“Cosa nostra!”, diriam sicilianos de Palermo). É uma orientação política que só vamos encontrar lá onde a picada termina; para ir em frente, há que roçar muito mato.
Os Estados Unidos, no uso da autonomia deles, declararam, para efeitos internos deles, que as duas organizações, que também atuam criminosamente por lá, são terroristas. O esquerdismo brasileiro reage com orgulho, sacode o pó do “lábaro estrelado” verde e amarelo e proclama (melhor seria dizer que confessa): “Aqui, no Brasil, temos uma lei sobre organizações criminosas e ela não inclui terrorismo!”. Entende-se, na perspectiva da extrema esquerda, terrorismo político é algo romanticamente revolucionário e, portanto, objeto de necessária proteção. Nossa história foi marcada por um período em que tivemos quase mais organizações terroristas do que times de futebol. Parte da elite política hoje de cabelos brancos foi militante do MR-8, da Ação Libertadora Nacional, da VAR-Palmares, da VPR e de tantas outras organizações! E esse pessoal nutre reverência e sentimento nostálgico em relação a dois Carlos – o Marighella e o Lamarca.
Todo bom policial sabe, porém, que PCC e CV inspiram um sentimento de medo nas sociedades onde se enraízam. Quem leu algo sobre Ciência Política sabe que provocar medo é uma forma poderosa de controle social. Sabia-o Machiavel quando afirmou ser mais confiável ao Príncipe inspirar medo do que suscitar amor. Thomas Hobbes sabia quanto o medo leva os homens a entregar sua liberdade ao Estado. Michel Foucault sabia quanto o pavor causado pelos malfeitores serve ao Estado para a expansão de seus mecanismos de opressão. Mundo afora, eram graduados nessas especialidades líderes que nosso esquerdismo inclui nas suas venerações: Lênin, Stalin, Mao, Pol Pot, Kim Il-sung, Fidel, Guevara.
Não surpreende, pois, que os mesmos figurões da política que denominaram terroristas os desorganizados manifestantes da praça deserta no dia 8 de janeiro se recusem a enquadrar como terroristas as duas principais organizações criminosas do país. Como papagaios de pirata dos fatos, fazem o mesmo teatro os jornalistas adestrados que gastaram papel e tinta repetindo esse discurso diante de idosas senhoras e suas Bíblias. Uns e outros assim procedem, confiantes na ignorância dos leitores e eleitores que não percebem o abismo instalado entre o discurso e a vida de quem fala, nem a distância que tantas vezes separa a racionalidade das motivações individuais.
Como em tantas outras ocasiões, é irônico observar, mais uma vez, o mesmo fenômeno. Tudo que possa garantir mais segurança à população ganha oposição imediata e cega do governo, de seus aliados nos demais poderes da República e, claro, no mundo do crime.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
31/05/2026
Percival Puggina
Diante dos bilhões que as instituições da República passariam a disponibilizar a seus protegidos nos anos seguintes, os números do mensalão (Ação Penal 470) parecem contabilidade de quermesse escolar. Naquele caso, para garantir maioria ao primeiro governo Lula, R$ 104 milhões de reais saídos da publicidade oficial haviam sido fracionados, ao longo de dois anos, como mesadas para parlamentares, à base de R$ 30 mil por cabeça... Banqueiros, publicitários, lideranças políticas e congressistas da envergadura de José Dirceu, José Genoino, Roberto Jefferson, Valdemar Costa Neto, Pedro Correa, João Paulo Cunha (ex-presidente da Câmara dos Deputados), após 53 sessões de julgamento, foram para trás das grades. Por poucas semanas, é verdade, mas foram. O Banco Rural, que operava o esquema, teve dirigentes também presos e foi liquidado pelo Banco Central.
A ideia, porém, nunca foi essa. E continua não sendo essa. As coisas no Brasil não funcionam assim, como se sabe. Por isso, o 27 de fevereiro de 2014 foi o pior dia de Joaquim Barbosa como ministro do STF e como relator da AP 470. Naquela sessão plenária, embargos infringentes apresentados pelos advogados dos réus obtiveram apoio da maioria formada com o ingresso dos novos ministros Teori Zavascki (2012) e Roberto Barroso (2013). Foram excluídas as condenações pelo crime de formação de quadrilha, reduzidas as penas e afastado o cumprimento em regime fechado...
No final daquela sessão, o relator profetizou:
“Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que esse é apenas o primeiro passo. É uma maioria de circunstância que tem todo o tempo a seu favor para continuar sua sanha reformadora". Depois, acrescentou: "Essa é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal. Com argumentos pífios, foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012”.
A esquerda adota uma política de "cancelamento" da divergência em todo o Ocidente, numa extensão que vai do Parlamento Europeu até as salas de aula aí onde você vive. Essa prática recebe, internacionalmente, o nome de "cordão sanitário". Isolado pelos colegas, três meses depois, Barbosa deixou o Supremo.
Nos dias que correm, o ministro Mendonça já vive isolamento semelhante. Nunes Marques, no TSE, vai pelo mesmo caminho. Os desconfortos se agravarão caso a eleição dos novos senadores no pleito de outubro não conceda sólida maioria à atual oposição. O futuro Senado deve promover uma reforma institucional, colocar cada poder no seu quadrado, restaurar o Estado de Direito e restituir aos brasileiros a liberdade que lhes tomam as canetadas brasilienses.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
24/05/2026
Percival Puggina
Você sabia que nos totalitarismos o Estado aplica força punitiva menor contra alguém que fez algo do que contra coletividades inteiras, apenas por serem o que são? Independentemente de qualquer conduta individual, Robespierre perseguia membros da nobreza, clérigos, monarquistas e girondinos. Lênin e Stalin, cada um a seu turno, faziam o mesmo com intelectuais, empresários e produtores rurais. Hitler eliminava judeus por serem judeus. Mao Tse Tung eliminava professores, cientistas e, claro, líderes religiosos e minorias. Fidel e Che Guevara perseguiam gays, intelectuais e padres.
Quebrados os ovos mais pavorosos da história para fazer trágicos omeletes e com bem nutrido poder, eles derrubavam todos os marcadores, todas as balizas e invadiam a vida privada. Sob o peso de seu braço, nunca houve direito contra a vontade do Estado. Nenhuma dissidência ou divergência era tolerada. Para assegurar-se disso, o aparato estatal protagonizava coerção, disseminando terror na sociedade.
Se você, assim como eu, sofre física, moral e espiritualmente com o padecimento dos injustiçados, com a dor dos perseguidos, e se indigna ante o evidente desejo de perenizar os meios de dominação, chegou a hora da autossuperação! Haverá eleição nacional dentro de quatro meses. Os que jogam com as cartas dessa eleição sabem que a mais importante é a dos novos 54 senadores que se somarão aos 27 remanescentes do pleito de 2022. Não haverá democracia, nem liberdade, nem bom direito, nem boa política, enquanto o poder sem voto continuar sua sanha persecutória contra “bolsonaristas” e “direitistas”, a usar o Direito como estratégia e a redigir a Lei com as próprias mãos.
Na primeira travessia do Delta do Jacuí, há uma parte levadiça para passagem de embarcações. Quando isso acontece, formam-se extensas filas nas pistas de entrada e saída da capital. Certa manhã, fui detido durante operação dessa ponte. Ao retomar a viagem, com os veículos se deslocando lentamente até encontrarem espaço para acelerar, percebi um hiato no fluxo da pista em sentido contrário e avistei, mais adiante, grande concentração de veículos. Passei observando o que detivera o trânsito e o quadro era bem incomum. Havia um motorhome parado no meio das duas pistas; por ambos os lados, alguém tentara passar, mas não conseguira espaço suficiente e deteve quem vinha atrás de si e assim, sucessivamente, todos foram parando. O motorista do motorhome, reclinado no banco, parecia dormir. Fui em frente, rindo do que vira, mas logo deixei de rir ao dar-me conta da lição que ali se proporcionara a todos: uma pessoa parada pode deter uma multidão. Logo, uma pessoa que se mova pode mobilizar uma multidão.
Desculpe-me, caro leitor, mas a hora o exige. O Brasil não aguenta mais quatro anos disso que nos está imposto. Escolha dois bons candidatos a senador, comprometidos não só com seu Estado, mas com a liberdade dos brasileiros e com o fim da tirania das canetas que saíram de todo controle. Trabalhe para eleger esses dois senadores (são dois votos e a liberdade precisa de ambos). Já, agora, mexa-se!
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
17/05/2026
Percival Puggina
Na semana passada, um surto moralista acometeu parcela significativa da sociedade brasileira. Emergências lotadas reportavam casos graves de hipertensão arterial, dispneia, taquicardia, sudorese, distúrbio de sono e por aí vai. A imaculada esquerda brasileira sente-se mal perante a simples menção à palavra escândalo, seja de quem for. Todo fiel da seita criada pelo monge de Garanhuns tem esse compromisso com a santidade e horror a toda forma de pecado.
Se o Brasil tem uma dívida com Lula e seu partido é a régua moral proporcionada por uma vida franciscana, partilhada no convívio seleto com os bons entre os melhores, no Brasil e pelo mundo afora.
Agora, bem..., agora falemos sério. Só há um motivo para a esquerda brasileira se dedicar com tal intensidade à infamante tarefa de destruir a reputação de seus adversários sempre que há uma campanha eleitoral. E eu já acompanhei muitas e posso assegurar, sem medo de errar, que o motivo é este: eles sabem que o eleitor conservador, de direita, diferentemente do eleitor de esquerda, é intransigente com a corrupção. Como regra geral, abalada a confiança, arranhado o cristal, vão-se o vinho, a taça e os votos. Com Lula, passa-se o oposto. Ele só é presidente pela terceira vez e postula a quarta eleição por ser de esquerda. Fosse de direita teria encerrado atividades em 2006.
Flávio Bolsonaro não disse que não está falando com jornalistas e não procurou se blindar. Antes, cobra investigação. Tenho certeza de que, neste caso, não haverá pacotes lacrados nem investigações proibidas, mas muita transparência e muito barulho. Perceberam? Viveríamos numa democracia se fosse sempre assim!
Então, de escândalos em escândalos, chegamos ao que considero o maior da história republicana brasileira. Refiro-me ao que a esquerda fez com nossas instituições! Isso, realmente, causa hipertensão arterial, dispneia, taquicardia, sudorese, distúrbio de sono, indignação, emigração ou êxodo, e por aí vai. O Brasil esquerdista está fazendo, em 24 anos, o que Cuba levou 67 anos para produzir, tornando-se um país em pandarecos. Nada escapa às consequências do aparelhamento pela esquerda! Veja a OAB, a ABI, a ABL, a CNBB. Olhe a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o governo da União, o STF, o TSE. Por fim, observe para quem a corrupção bilionária distribui suas merrecas em forma de milionárias mesadas.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
10/05/2026
Percival Puggina
Há poucos dias, numa entrevista, indagado sobre o encerramento do inquérito dito “do fim do mundo” ou das “fake news”, o ministro Gilmar Mendes afirmou que esse inquérito “vai acabar quando terminar”. Salientou que a investigação segue necessária e “não deve ser encerrada antes do período eleitoral”, pois “o STF tem sido vilipendiado”.
A propósito, há que sublinhar, mais uma vez, que os membros de um poder não são a instituição a que pertencem. As pessoas dos ministros não são o Supremo, como as pessoas dos senadores não são o Senado. Não surpreende que tantos cidadãos não façam essa distinção se os próprios ministros, reiteradamente, incorrem no mesmo erro. E há que reconhecer, também, os dois fatores que dão causa às reações da sociedade. Refiro-me aos excessos que, para salvar a democracia, a tornaram irreconhecível e o silêncio que envolve seriíssimas ocorrências nas entranhas do poder.
Esquece-se, o ministro, de que o inquérito em questão é um concentrado de anomalias: foi instaurado de ofício; viola o sistema acusatório; desrespeita o juiz natural (o relator foi designado e não sorteado); seu objeto é indeterminado e tem servido para uma devassa genérica; não há como incluir a quase totalidade dos investigados num foro (o do STF) cuja natureza é especial por prerrogativa de função.
O leitor destas linhas, que não é bobo, deve ter percebido uma falácia lógica (um non sequitur) na afirmação reproduzida no primeiro parágrafo. O que têm a ver o encerramento de um inquérito e o período eleitoral com o fato de estar, o Supremo, sendo vilipendiado? Nada! A menos que a intenção seja usar o inquérito como instrumento no período eleitoral. Toda essa história é uma narrativa de tragédias pessoais, de pressões psicológicas, de críticas amordaçadas, de interdições, de mandados de busca e apreensão que, recolhendo telefones e computadores, equivalem, em tempos modernos, a mutilação dos investigados. O produto eficaz desse instrumento é a difusão do medo para obter, dos cidadãos, um silêncio de cemitério.
De fato, a violência sofrida por uns intimida os demais. Os danos sofridos por uns estendem seus efeitos para além das vítimas diretas, afetando a população civil e produzindo submissão. Muitos cientistas políticos, sem hesitar, classificariam como terrorismo de Estado a relação entre o instrumento – inquérito – e a finalidade descrita.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.