Percival Puggina

30/01/2026

 

 

Percival Puggina

         Imagine uma bolha cósmica que se tivesse formado no momento na Criação. O Universo e sua bolha. Nele, a energia, a luz, a vida; nela, na bolha, as trevas ainda encobrindo a superfície de seus abismos. De repente, algo lhe perfura o invólucro e ela, forasteira na realidade exterior, passa a ver e sentir o que todos viam e sentiam.

O leitor destas linhas, que é esperto, já entendeu que estou falando da bolha em que, desde 2019, a Rede Globo e suas parceiras no Consórcio Goebbels de Comunicação haviam fixado residência. Passado o primeiro impacto ante a novidade e gravidade de coisas mais do que sabidas, há um corre-corre, um lufa-lufa nas redações. É preciso atualizar o entendimento, reconhecer fatos, interpelar atores. Há uma nova ordem global a estabelecer! Avante companheiros!

É inevitável que alguém tenha feito a pergunta essencial: “Que diabos está acontecendo?”. A resposta então balbuciada numa continuidade que não se dispersa ainda pode ser ouvida: “É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria! É preciso estancar a sangria!”. Faz muito sentido, porque se a sangria não cessar, o poder, exangue, não se sustenta.

Essa frase entrou para a história quando a corrupção da Nova República já atingira níveis letais. A palavra sangria, na frase de Romero Jucá em conversa gravada pelo diretor da Transpetro, Sérgio Machado, em 2016, significava “vazamentos que adviriam com a continuidade das delações premiadas na Lava Jato”.

É uma adesão importante, a do Consórcio Goebbels, que já causou desequilíbrio emocional em gente de equilíbrio frouxo. As maltratadas redes sociais e mídias alternativas fazem o que podem, mas nada substitui as grandes máquinas jornalísticas quando algo as obriga a furar a bolha onde se tenham abrigado.

Tudo estaria muito bem se essa ruptura cósmica não correspondesse a uma estratégia de sobrevivência. Afinal, em nosso país, tudo é feito para autenticar este disparate entranhado em mentes paranoides: é dever das instituições de Estado impedir o crescimento da direita política. Não se trata de salvar a esquerda de sua paranoia, mas de salvar a paranoia da esquerda.

Na semana anterior, acompanhei pela TV, dia-a-dia, a caminhada do deputado Nikolas Ferreira rumo à Capital Federal. No domingo dia 25, enquanto assistia aquela multidão chegando à Praça do Cruzeiro, sob e sobre as águas da chuva, tomei emprestado os versos de Paulinho da Viola. Aquilo “foi um rio que passou em minha vida e meu coração se deixou levar”! E lavar.

Por isso, quero submeter uma conduta ao juízo de meus leitores: não aceitemos que se estanque a sangria com algum torniquete enjambrado ou com desajeitado malabarismo jurídico. Nem que nos sirvam algum bode expiatório. A nação quer justiça e nada menos do que Justiça.

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

25/01/2026

 

Percival Puggina      

         Viver numa democracia é privilégio cada dia mais raro. Minha geração cresceu bebendo democracia à americana, de canudinho, como Coca-Cola ou saboreando à europeia, como barrinha de chocolate suíço. Europa Ocidental do pós-guerra e Estados Unidos eram as referências culturais e políticas. Hoje, o Ocidente oferece sua cultura, tradição, princípios, valores e convicções em sacrifício no altar do multiculturalismo, do globalismo e os EUA só não estão fazendo o mesmo porque Trump não está deixando. O balaio de renúncias descarta, igualmente, a Verdade e o Bem. Vá e veja. Informe-se e saiba.

Em 2019, ano que marcou o fim de uma era no Brasil, as poucas virtudes nacionais foram jogadas num corredor polonês como resíduos da “ultradireita”. Observe, nestes dias, a conduta de quantos – quantos! – racharam os dedos aplaudindo os excessos no uso do poder do Estado, mesmo quando aplicado com voluntariedade de causar arrepios à mais prosaica letra da mais corriqueira lei. O que antes era defendido com unhadas e dentadas retóricas em qualquer microfone ou mesa de bar, agora é afastado com fingido desprezo, que parece extraído de uma página de Esopo: “Não estou acompanhando”. Uvas maduras da hipocrisia...

A experiência da modernidade mostra que, fora dos controles, o poder age como o álcool sobre o alcoólatra de quem demanda doses crescentes do vício com o qual se perdeu. O título deste artigo reproduz o título de um livro importante, ao qual o autor acrescentou subtítulos que informam sobre o conteúdo abordado nessa contradição em termos do título principal: Natureza e origens; e Psicopatologia e Psicologia Social. 

Tive o privilégio de desfrutar, durante vários anos, do convívio frequente e da amizade do saudoso José Antônio Giusti Tavares, autor de Democracia Totalitária. Ele era doutor em Ciência Política, destacado professor, escritor de inúmeras outras obras e um incansável garimpeiro da verdade. Nessa bateia encontrou à fé dos Apóstolos.

Publicado em 2015, o livro entrega seu produto, também, à posteridade. Ao relê-lo, passada uma década da primeira leitura, percebo que a competência do amigo Tavares se revela ainda mais contundente, como se o escrevesse mirando o Brasil de 2026. Quando escrutina as características das sociedades de massa e as consequentes perdas da individualidade, Tavares aponta as dificuldades inerentes à compreensão da democracia por pessoas simples, levando-as a preferir líderes e regimes totalitários, que reduzem os riscos e as incertezas inerentes ao exercício da liberdade. Páginas adiante, salta aos olhos do leitor de hoje o retrato falado do líder paranoico, missionário de uma causa para cujo êxito “deve eliminar inimigos perigosos, que conspiram contra ele num conflito do qual resultará como único sobrevivente” ...

Por isso, numa sociedade de massa, em que as misérias cultural, material e moral caminham lado a lado, aos tropeços, em meio à mistificação e autoritarismo, mais do que nunca, esclarecer é preciso. A marcha firme, corajosa e virtuosa de Nikolas Ferreira é um exemplo de quanto podem um homem e sua fé.

*       Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

19/01/2026

 

 

Percival Puggina     

            Cuba, Venezuela e Irã são exemplos desafortunados, cuja história transcorre sob nossos olhos sem que aproveitemos quanto nos ensinam sobre poderes que podem tudo. Em 1959, Cuba, a hoje miserável Cuba do paraíso caribenho, estava entre os cinco países mais prósperos da América Latina e o Brasil não era um deles. Em 1999, a Venezuela, com apenas 24 milhões de habitantes, era prenunciada como a Arábia Saudita do continente, com um PIB total inferior apenas aos do Brasil e México. Em 1979, mesmo sob uma monarquia autocrática, o Irã era um país para o qual jamais se preveria o futuro que hoje o descreve. O fanatismo religioso e misógino dos Aiatolás, financiador do terrorismo e a ganância da elite militar escureceram sua sociedade como o flagelo do chador cobre de preto suas belas mulheres.

Essas três realidades, tão presentes no noticiário internacional, deveriam mostrar quanto é nociva a falta de liberdade e quanto mal fazem aqueles que, investidos de poder, se sentem com a prerrogativa de “empurrar a história” sem qualquer delegação para isso. Os que exercem tal poder, se valem de uma força que não é moral, nunca é obtida mediante o voto popular nem corresponde àquilo que os romanos chamavam auctoritas (a autoridade que vem do respeito, do prestígio e do reconhecimento social). Empurram a história através do poder de que dispõem sobre os aparelhos de repressão do Estado. Veem a perda do próprio poder como o grande perigo e, para evitar tão amargo fim, são impelidos a um uso cada vez mais excessivo dos meios de que dispõem. Assim, vai-se a liberdade, levando pauladas num longo e tenebroso “corredor polonês”.

Firmei a convicção de que há um problema no parágrafo único do artigo 1º de nossa Constituição de 1988. Ele diz: “Todo poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição”. Mas como pode cumprir essa representação um parlamento intimidado, acuado sob pressões e ameaças explícitas ou implícitas? Como pode realizar isso um parlamento destituído de sua independência? Sem liberdade, a representação se manifesta de modo incoerente com o querer dos representados e costumam ser poucos os representantes que não se deixam intimidar.

A entrada da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul registra em bronze a afirmação que dá título a este artigo, atribuída a Bento Gonçalves da Silva, líder da Revolução Farroupilha. Não é diferente a situação de um povo cujo parlamento nacional existe, mas perdeu a própria liberdade por ameaças e pressões exercidas sobre seus membros. Há mais de seis anos, inquéritos profetizados como “do fim do mundo” intimidam e parecem ter na inatividade sua principal atividade. Tão curiosa condição, é tratada como normal pelo jornalismo que engorda no pasto, permitindo que a história seja empurrada segundo um script estranho e do agrado de quem, mesmo?    

Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

12/01/2026

 

Percival Puggina   

            Certa vez, telefonou-me uma professora. Lera algo que eu escrevi e me escalou para seu desabafo. Ia mudar de atividade. Estava cansada da agressividade dos alunos, do desinteresse dos pais, das carências materiais, de um cenário desesperador.

Respondi a ela que a escola não era diferente do que se via nas famílias, no trânsito, na política, nas relações empresariais, no futebol dentro e fora do campo, nas relações internacionais. A Escola é parte, não é a causa nem a consequência. A causa é a humanidade construindo seu pequeno paraíso particular, ignorando a existência de uma Lei Natural inscrita na natureza humana. De algumas décadas para cá tornou-se impróprio mencionar Deus entre intelectuais. Que geração vaidosa!

Para quantos não sabem e para quantos recusam a Lei Natural, lembro ser a ela que se referiu Thomas Jefferson quando iniciou a Declaração de Independência dos Estados Unidos mencionando as “Leis da natureza” e o “Deus da natureza” para, em seguida, afirmar as palavras poderosas que tantos, mundo afora, sabem de cor: “Consideramos estas verdades como autoevidentes, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes são vida, liberdade e busca da felicidade”. Um ignorante, esse Jefferson.

Os seres inanimados seguem leis da Física, não cogitam de condutas alternativas. Já os seres humanos somos responsáveis por nossas ações e, toda hora, nos confrontamos com as decorrências da nossa liberdade. É conosco, é com o homem, que a liberdade entra na História. Ela é um atributo nosso. É um atributo tremendo, tão potencialmente glorificante quanto destruidor.

De fato, somos livres e queremos; queremos, mas, por vezes, não devemos querer; queremos, mas, outras tantas vezes, não obtemos. Queremos, é bom, mas, em muitos casos, sabemos que não faz bem. É perante a liberdade que ganha conteúdo a responsabilidade moral. Somos moralmente responsáveis pelas opções que fazemos em ambiente de liberdade de decisão. Já os animais não fazem escolhas morais. Seguem a ordem do instinto. Nós, perante o apetite, o vício, a cobiça do alheio e as pulsões, podemos escolher. Não somos macacos mais bem qualificados.

Em 2011, o STJ resolveu uma pendenga que rolava havia algum tempo. Os chimpanzés em cativeiro têm direito a habeas corpus? Estamos muito preocupados com o respeito à dignidade dos animais e, ao mesmo tempo, há gente fazendo o possível para animalizar o ser humano!

Liberdade, portanto, não consiste em se fazer o que se quer. A excelência da liberdade está, precisamente, no fato de que, para realizar a nobreza de seu objetivo, ela exige de nós o controle da vontade para submissão a uma ordem moral.

Fácil compreender: quem só faz o que quer, acaba escravo de suas fraquezas. Aqueles que mais apaixonadamente clamam por um utópico fim do Estado, para instituir uma epifania da liberdade, deveriam ser os mais interessados em afirmar a natureza da ordem moral que sobre ela se impõe e fazer o possível para que tenha mais apelo racional e emocional do que as leis do Estado.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

11/01/2026

 

Percival Puggina

               O autoritarismo sempre quer impor a história do futuro para navegar nele longe das incertezas. A Nova República morreu disso.

Fui entusiasta da Nova República, nascida em 1985. Voraz por liberdade e democracia, atirei-me aos livros. A política readquiria importância e a bibliografia brasileira de então, sobre o tema, era toda de esquerda. Durante três anos só li em inglês, enchi prateleiras e gastei dicionários até ficar fluente na leitura. Duas décadas antes, adolescente, tivera uma experiência com política estudantil, período em que conheci a esquerda e evitei suas más companhias. Em seguida, veio 1964 e dali para a frente, o cardápio político brasileiro ficou bem curtinho: oferecia revolução pela esquerda e autoritarismo pela direita.

Para esta, para a direita, democracia era impedir a revolução sonhada pela esquerda; para a esquerda, democracia era preparar a revolução como a viam servida em Cuba. Reverenciavam Che Guevara, Fidel e Marx, nessa ordem, e comemoravam a Revolução de Outubro de 1917. O que eu chamava democracia, eles chamavam “democracia burguesa”. Odiavam a burguesia como se saudável, mesmo, fosse o trabalho artesão. Anos depois, quando fui conhecer o regime cubano, olho no olho, descobri um país de “artesãos” muito ocupados nas tarefas de pôr para funcionar com as próprias mãos, precariamente, cacarecos do tempo em que havia produção industrial e era viável importar. Cacarecos funcionando eram caríssimos...

Retomando o fio do texto. Em 1985, a vitória de Tancredo Neves e a derrota do candidato do regime na eleição indireta foram o grito de independência do Congresso Nacional. Depois de duas décadas de futuro com script obrigatório, acabava ali o autoritarismo. O Legislativo retomava a representação que deve expressar a soberania popular. A democracia se reinstalava, nova constituição estava sendo deliberada e a Nova República precisava do consenso democrático de um povo livre. Oh, Liberdade! Quanta dignidade pesa sobre tuas asas. Não as deixes cair.

Tinha 41 anos e passei a exercer intensa atividade política. Porque vivi o período, posso dizer como é a vida numa democracia, sistema que tem, no povo, a fonte dos poderes que institui, sistema no qual todos estão sujeitos às mesmas regras, com foco em elevadas virtudes sociais. Ela é bem diferente do autoritarismo na versão atual, por exemplo, quando, mais uma vez, ninguém tem dúvidas sobre quem é que manda. De excepcionalidade em excepcionalidade, retornamos ao cotidiano dos antigos regimes de exceção.

Infelizmente, a Constituinte de 1988 preservou os vícios do modelo político anterior, que prosseguiram favorecendo a instabilidade da vida pública nacional. Três anos mais tarde, Collor sofria impeachment mobilizado pelo esquerdismo juvenil dos caras-pintadas.

Muito escrevi alertando sobre isto durante a Constituinte: com presidencialismo e voto proporcional para os parlamentos, estavam sendo preservadas as causas dos populismos e dos surtos autoritários que marcaram a maior parte de nossa história republicana, desde Deodoro e Floriano. Repetindo erros, voltamos ao ponto de partida. É preciso restaurar o poder do voto e da representação popular! Quem julga não pode ter estratégias políticas, não pode ter lado no jogo que apita e não pode virar esponja das prerrogativas dos outros poderes. Tampouco pode estabelecer censuras, indicar temas interditos e ser afoito em silenciar a divergência com vistas à autoproteção. O futuro, por fim – e por princípio – não pode ter redatores sem voto. Aliás, nem as tiranias garantem a própria estabilidade, como nos mostra o Irã.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras

 

Percival Puggina

08/01/2026

 

Percival Puggina

         A história da república brasileira, sempre exposta à tentação autoritária, pode ser estudada em cinco períodos: Velha República (1891-1930), Era Vargas/Estado Novo, República da Constituição de 1946, Regime Militar de 1964 e a Nova República, nascida no fervor cívico causado pela redemocratização de 1985. A transição para um novo período de autoritarismo ainda não foi suficientemente registrada. No entanto, ela é efetiva e a estou denominando de Sexta República.

Nesse novo regime, além do autoritarismo, preponderam os poderes sem voto. Sua atividade passou a ser chamada “papel contramajoritário do STF”, com a instituição valendo-se de uma doutrina jurídica, o neoconstitucionalismo, para abrir portas ao próprio protagonismo na cena política.

A equação em que a maioria esquerdista do Supremo funciona como o X político e o neoconstitucionalismo como Y jurídico, é a goiabada e o queijo da Sexta República. Com  reforço nos eventos do 8 de janeiro, o novo regime avançou. Alargou suas prerrogativas e impôs, com mão pesada, ameaças, sanções e censuras; controlou a expressão das opiniões e desmantelou o sistema constitucional de freios e contrapesos. Hoje, todo mundo sabe quem manda e até quem lhe proporcionou integral apoio, interna e externamente já clama por autocontenção. O novo regime guarda semelhança meramente formal com uma verdadeira democracia. Nele, convicções ou princípios pessoais dos ministros do STF adquirem força constitucional e o Direito se confunde com a vontade de seus intérpretes, deixando de ser um limitador de todos os poderes. Péssimo isso.

Todos os dias, milhões de empreendedores, empregadores dos mais variados portes, homens e mulheres, beijam os filhos, saem de casa e vão à luta manter ativos seus negócios e suas empresas. Todos os dias, um número bem maior de trabalhadores e trabalhadoras, beijam os filhos e vão bater ponto em seus empregos onde conquistam, com o suor de seus rostos e a fadiga de seus corpos e mentes, o alimento que os sustentará. Todos os dias, milhões de crianças e jovens enchem as salas de aula do país cumprindo o roteiro de um processo de formação que os deveria habilitar a uma vida plena e produtiva.

Só que não. A nação faz sua parte, mas a coisa toda não está funcionando! Com a impertinência do não saber, uma Educação de péssima qualidade compromete as gerações futuras. O Estado gasta e tributa como se o produto nacional viesse de um saco sem fundo, anda em más companhias, perde posição no ranking das maiores economias e não se percebem melhoras no nosso Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Quem veio ao Brasil para a COP 30 formou uma boa ideia disso que gritam os indicadores.

A culpa não é das empresas nem dos trabalhadores brasileiros. Salta aos olhos de todos que nossos males têm suas causas instaladas nos poderes de Estado e nos correspondentes aparelhos públicos. Se há uma “luta de classes” no Brasil ela se trava entre o “público” e o “privado”. E o privado está perdendo feio. Em meio à já longa tragédia cultural, educacional, moral, econômica e social do país, a Sexta República viu subir a régua dos escândalos. Milhão é troco.

Não quero encher este texto com dados depressivos. Para provar o que afirmo, basta-me um. Desde 1989, para medir a competitividade das principais economias mundiais, o International Institute of Management Development (IMD) afere um amplo conjunto de indicadores, em quatro grupos principais: Desempenho Econômico, Eficiência Governamental, Eficiência Empresarial, Infraestrutura. Em 2025, o IMD mediu esses indicadores em 69 países e o Brasil conseguiu apenas o 58º lugar. Se no conjunto nosso resultado é ruim, convém saber que no quesito “Eficiência Governamental” conquistamos o penúltimo lugar! Só ganhamos da ... Venezuela.

A soberania da Venezuela era a soberania do ditador capturado em Caracas, fraudador de eleição, bufão interlocutor de passarinho, narcoterrorista, criminoso internacional. A soberania desta Sexta República é a soberania de poderes sem voto. Acompanhada pelo silêncio que gosta de impor, já identificada até por quem, durante seis anos, aplaudiu seus excessos, em outubro vai para seu segundo encontro com as urnas. Na Nova República era diferente.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

31/12/2025

 

Percival Puggina

         Houve época, nas cidades medievais, em que as catedrais com suas torres e os campanários com seus relógios eram seus principais símbolos estéticos e dinâmicos. Na catedral batia o coração mesmo das comunidades, seu colossal orgulho; o relógio organizava o cotidiano e os sinos marcavam os tempos, seculares e religiosos, chamavam à oração e aos sacramentos, sonorizavam a alegria, o pesar e o perigo.

Escrevo este artigo no dia 30 de dezembro e não lembro de um ano novo tão pouco esperançoso. É de se perguntar: como tocarão os sinos à meia noite de amanhã? Soarão como sinos da esperança ou como repiques de alarme, num país desolado ante as visíveis comorbidades de suas instituições?

Viajante do século XIV, passando por uma cidade envolvida com a construção de sua catedral, deteve-se a visitar o atelier onde trabalhavam os escultores das imagens que integrariam a estética da obra. Em posição de destaque no canteiro dos artesãos, coberto de poeira, operava o mestre escultor, esmerando-se no acabamento de uma estátua. Curioso, perguntou sobre o local para onde estava designada aquela grande peça. A resposta o surpreendeu: “Este é apenas um dos doze apóstolos que serão colocados externamente no topo de cada arcobotante da nossa catedral”. O visitante saiu para a rua, tentou observar a extremidade superior daquelas estruturas, que estimou a 70 metros do chão, e voltou a interrogar o escultor: “Mestre, saí para ver se entendia, mas não consegui. Por que tanto zelo e detalhes num conjunto de peças que, de longe, ninguém conseguirá ver?” A resposta veio em duas palavras: “Deus verá.”

Como foi que perdemos essa dimensão da fé? Quem, e a troco de quê, a tomou de nós? Por que não vemos a nós mesmos – a nós mesmos! – como aquele escultor via sua estátua? Se nos víssemos assim, não passaríamos o recibo do silêncio ante o que está em curso em nosso país e não gratificaríamos o mal com a nossa omissão.

Eu lembro do réveillon do ano 2000 que tive a graça de viver aos 56 aninhos recém-feitos. Quanta esperança naquela ruidosa noite em que se misturavam os fogos de artifício, os sinos, as músicas da TV ligada, as palavras amorosas que trocávamos e as orações com que agradecíamos tantas e tão imerecidas graças. Sim, um novo milênio, inteiro, para o que desse e para quem viesse.

Se alguém lhe dissesse naquela noite, caro leitor, que no correr do quarto de século seguinte, o PT venceria cinco das seis eleições presidenciais que seriam disputadas, qual teria sido sua reação? Você teria imaginado a ruina institucional e moral a que chegamos? Teria previsto que nosso povo se habituaria, em modo cubano, à censura e à autocensura e que a isso acrescentaria os institutos dos sigilos por todo o século, dos segredos e dos respectivos vazamentos seletivos?

Quando iniciarem os sons do ano novo, lembre-se de que você é infinitamente mais amado por Deus do que a estátua tão zelosamente trabalhada pelo escultor medieval; lembre-se de que o ruído que ouvir é o dos alarmes, indicando os perigos que rondarão a política e as eleições de outubro. Faça, também nisso, o melhor de si. 

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

26/12/2025

 

Percival Puggina

         Tenho saudade das panelas que batiam no silêncio da noite. Tenho saudade das multidões que trocaram o clamor cívico nas praças pela calada alienação dos sofás. Tenho saudade da graça e risos do humor político, substituídos pelo salvo-conduto à corrupção e à incompetência. Tenho saudade do insubstituível e querido amigo Olavo de Carvalho, pois, como bem sabíamos, ele tinha razão.

O vaidoso mundo acadêmico dos institutos e departamentos de humanidades desprezava aquele instigante intelectual pelos palavrões que usava para semear verdades às almas endurecidas. Quantos iluministas de obras opacas não veem sequer os próprios pés cravados na lama da corrupção que sustentam, já em quinta versão, bilionária, ao coro de “O amor voltou”? Olavo, porém, fez milhares de discípulos em todo o país! Centenas de livros sobre os mais variados temas humanos continuam a ser colhidos como frutos de seus cursos de filosofia. Parte do que há de melhor no Congresso Nacional, assembleias legislativas e câmaras municipais, bebeu dessa fonte.

Numa entrevista de 2016, Olavo fala em vídeo sobre infiltração, ocupação e dominação comunista e, lá pelas tantas, entre um cigarro e outro, diz que o movimento comunista não foi um instrumento da União Soviética, mas esta foi um instrumento daquele. Por isso, quando a URSS se extinguiu, o movimento adquiriu diversas versões nos cinco continentes.

Lembremos. Nos meses seguintes à queda do Muro de Berlim (9 de novembro de 1989), desmontou-se a URSS. Peça por peça, Lituânia, Estônia, Hungria, Checoeslováquia, Romênia, seguiram o caminho da Alemanha Oriental e romperam as correntes do jugo. Pelo viés oposto, arregimentadas por Lula e Fidel Castro no papel de catadores de lixo ideológico (tudo no mesmo ano de 1990), já nos primeiros dias de julho, 62 organizações comunistas de 22 países da América Ibérica, fundaram o Foro de São Paulo para recuperar aqui o que se perdera lá.

Com experiência, Olavo ensina que infiltração faz parte da natureza desse movimento que assedia o Brasil há quase um século. A infiltração nunca é percebida. Ela é necessariamente invisível e assim mantida até ser atingida a ocupação, fase a partir da qual passa a ser exercida a dominação. 

Hoje, podemos ver com os próprios olhos as políticas de cancelamento da divergência proporcionadas pela dominação. É todo um cardápio que inclui coerção, reprovação, constrangimento, prisão, controle das opiniões, restrições de direitos. Têm o intuito de eliminar toda possibilidade de ascensão e poder a quem se oponha às ideias e estratégias do estamento ideológico dominante. Esse foi o longo percurso que entregou o ambiente cultural brasileiro e o poder político nacional ao movimento comunista festejado por Lula na versão macunaímica que vai entrar o ano de 2026 com os dois pés enfiados na jaca.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

19/12/2025

 

Percival Puggina

 

         Por volta de 1950, eu já suspeitava de que o tal Papai Noel fosse uma grande lorota quando, certa noite, meus pais e tios se reuniram na sala de estar e fecharam a porta onde, como sagaz detetive mirim, colei o ouvido para receber a má notícia: Papai Noel não existia e meu desejado carrinho de pedais não estava em cogitação.

Papai Noel é um mito da infância. Representa-o um aposentado gordo e simpático buscando graninha extra para o próprio Natal ou um parente bem disfarçado, com touca vermelha de pompom branco, sumido nas recordações infantis referentes ao 25 de dezembro. E o Menino Jesus vai embora junto, como parte do elenco? Ignorá-lo nesse dia, nesse período do ano, notadamente numa família cristã, é colocar no barquinho de papel do politicamente correto o maior acontecimento histórico da aventura humana. É transformar uma data marcante da Fé e da humanidade numa festa pagã e comemorar, como em tempos remotos, o Yule no solstício de inverno nórdico.  Convenhamos!

É sobre esses êxitos que avança o batalhão cristofóbico da guerra cultural, forçando qualquer expressão socialmente percebida de religiosidade cristã a um recuo para a vida privada e impondo sua gradual interdição nos espaços públicos. Neles, os fatos da realidade podem ser escrutinados por opiniões de ateus, materialistas, comunistas, agnósticos, juristas, filósofos, antropólogos, consumidores, empreendedores, sindicalistas, seja em que condição for. Pode-se dar palpites a propósito de temas morais e sociais com qualquer fundamento e, mesmo, sem fundamento algum. Mas não se ouse abrir o bico se algo, naquilo que se diz, puder ser identificado como tendo semelhança ou raiz em algum princípio da moral ou da fé cristã. Já é coisa sabida que isso seria politicamente incorreto.

Então, o Natal virou símbolo, também, de incorreção política. Papai Noel é politicamente correto. O Menino Jesus, não. E, por isso, sumiu Ele do seu próprio Natal. O trenó é politicamente correto; o presépio, não. A árvore de Natal é politicamente correta; a manjedoura, não. A ceia da noite de 24 de dezembro é politicamente correta; a Sagrada Família, não. Felizmente, Deus me concedeu a graça de rejeitar essa barganha sem sentido, que leva a um feriado ou feriadão pagão, cujo motivo não pode ser explicitado. A mesma irrazão leva a uma troca de lembrancinhas sem algo que lhe dê causa e a algo que morre quando longe de sua seiva cristã.

Feliz Natal do Menino Jesus!

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.