Percival Puggina
26/04/2026
Percival Puggina
Alguns ministros do STF afagam o próprio ego com a ideia de que as redes sociais, “antes das quais eram felizes e não sabiam”, respondem pela pequena estima de que desfrutam. Por isso, as sempre intimadas e intimidadas plataformas se tornaram alvo permanente de investidas contra a liberdade das múltiplas e contraditórias opiniões que nelas se expressam.
Enganam-se Suas Excelências. As redes sociais são caóticas por natureza. Os fios de que são feitas não conferem unidade ao conjunto, não articulam entre si os pontos que as compõem. Seus usuários, em imensa maioria, não são profissionais da comunicação social, não dominam as técnicas e não dispõem dos meios para confrontar a eficiência orgânica dos grandes veículos do jornalismo contemporâneo. O apoio do jornalismo formal que a Corte obteve e, prudentemente, tem cultivado, supera com enorme vantagem os prejuízos que advenham da maioria descontente nas redes sociais.
O problema do STF é outro e bem mais grave. Em excessos de filho pródigo, sua atual configuração gastou a reputação e a confiança – patrimônios intangíveis da Instituição – acumulados ao longo de sucessivas gerações de ministros!
Aqui no Rio Grande do Sul, conheci alguns deles. Lembro-me de Carlos Thompson Flores, João Leitão de Abreu, José Néri da Silveira, Paulo Brossard, Eros Grau, Teori Zawaski. Tinham em comum o abundante atendimento das exigências constitucionais do cargo – notável saber jurídico e reputação ilibada – e mais um elenco de virtudes que inspiravam consideração e respeito. Eros Grau, por exemplo, fora do PCB, preso e torturado; chegou ao Supremo, mas não pretendeu impor suas convicções à Constituição e às leis em atos explícitos e sem tarja, como têm feito alguns que vieram depois...
Como consequência dessas virtudes, não eram falastrões, não buscavam a luz dos holofotes nem os brilhos da fortuna, não se viam como “os supremos” nem como “poder moderador”, nem como “editores de um país inteiro”, nem como construtores de uma “obra civilizadora”. Menos ainda, claro, como justiceiros ou políticos de ocasião.
Os mais antigos viajavam em “avião de carreira”, como chamávamos, então, os voos comerciais. Quando vinham ao Sul, eram buscados no aeroporto por familiares ou pegavam taxi. Passavam despercebidos. Eram seres humanos. Não eram deuses nem semideuses, nem simulacros de deuses. Não se faziam acompanhar por seguranças. Eram vistos nas salas de espera dos cinemas, nos restaurantes, sempre em boas companhias.
A Constituição de 1988 aumentou as atribuições da Corte. O neoconstitucionalismo dominou o ambiente acadêmico. O ativismo prosperou. O Brasil emburreceu. O Congresso se debilitou e desqualificou. Tudo isso é verdadeiro, mas não justifica que o Supremo precise inspirar medo para obter algo constrangedoramente parecido com o respeito que sempre teve.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
19/04/2026
Percival Puggina
Há alguns anos, enquanto almoçávamos, minha mulher e eu, numa esquina da Praça do Comércio, em Lisboa, perguntei ao garçom sobre onde poderia adquirir tickets para o transporte urbano. Ele se postou atrás de mim e apontou para um ponto junto à praça: “Naquele autocarro vermelho ali, senhor.” Eu procurei, em vão, qualquer veículo grande e vermelho. Depois, busquei qualquer coisa vermelha na direção indicada. Nada. O garçom, sempre solícito, inclinado sobre a mesa, atrás de mim, insistiu apontando: “Ali, senhor!”, como se o diabo do autocarro estivesse entrando pela janela. Depois de alguns instantes nessa conversa inútil, pondo os óculos, tirando os óculos, ele desistiu: “Bem..., se o senhor não vê, é porque ali não está!”. Tudo não passava de uma troça. Rimos os três, ele me deu a orientação necessária e foi embora.
Lembro-me disso quando leio e ouço declarações de nossos ministros do STF sobre as cristalinas evidências da institucional devoção do STF ao Estado de Direito e à Democracia. Segundo tais manifestações, não existe, no estado brasileiro, poder fora do controle e vivemos o esplendor da ideia de Justiça como virtude do Estado...
São recorrentes ocasiões em que tenho pena dos fatos, maltratados fatos. Sofro o abandono das notícias descartadas, espanta-me a esquizofrenia das manchetes indo para um lado e os textos para outro, e me solidarizo com o pouco jornalismo que nos resta. A lógica de uma sociedade livre e democrática precisa da informação plural, aberta ao campo das opiniões. Quem não quer ser criticado mantenha suas mãos distantes da política. A nação é infantilizada e desrespeitada quando o Estado lhe mostra “autocarros vermelhos”, filtra e privatiza a verdade, sonegando-a ao conhecimento de todos, notadamente em matérias de dispendioso interesse social. Para conveniência de alguns, o Brasil está virando um cemitério de verdades.
Encena gracinhas de garçom português quem, investido de autoridade, faz afirmações hostis aos fatos, antípodas dos fatos, como se um mundo de cabeça para baixo as tornasse incontestáveis.
As cadeiras em que sentam são apenas cadeiras. Nada há de místico nessas peças de mobiliário. Elas não proporcionam transubstanciação e não alteram a natureza de seus ocupantes. No Estado Democrático de Direito, os membros de um poder não se fundem nem confundem com a Instituição através da qual devem servir à nação sob o farol e o freio da Constituição. Se um poder, a toda hora, se impõe aos outros dois, não há mais independência nem harmonia.
***
Enquanto escrevo, há fila no microfone de apartes do Senado para clamar contra ameaças a senadores e interferências do STF em temas de competência do Legislativo. Oradores repudiam os estranhos inquéritos sendo abertos contra oposicionistas. Ao largo, governistas apreciam a cena. Entende-se: longe dali, nas bases estaduais, mal de uns, bem de outros, certo? Vem eleição aí. Na Corte, Calíope, a musa da eloquência, ergue a voz e Têmis, deusa da Justiça, saca a espada. Juntas contra um mesmo lado.
* Imagem gerada por I.A. ChatGPT
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
11/04/2026
Percival Puggina
Considero impossível uma derrota da oposição na eleição presidencial. Com cinco mandatos entre os seis deste século, Lula e os seus são os únicos responsáveis pelo empobrecimento e endividamento dos brasileiros. Desse pacote de prejuízos faz parte a atual configuração do STF, que atinge, ao lado do presidente, o ápice de seu desprestígio.
Há poucos dias foi informado que o loroteiro de Garanhuns teria aconselhado Dias Toffoli a cair fora e, agora, tenta descolar sua imagem da pessoa de Alexandre de Moraes, recomendando-lhe não manchar a própria biografia. Para a conta de Lula vão, também, os muitos desserviços à nação proporcionados pelos presidentes das duas casas do Congresso. Não, não há no Brasil, número suficiente de eleitores manipuláveis ao ponto de reeleger alguém como Lula.
Por isso, enquanto tantos se preocupam com a sucessão presidencial, iludidos pela mitificação que cerca o presidencialismo, eu me preocupo com a eleição dos novos senadores. Aqui, a necessidade parece ser superior à oferta. Os 54 que saírem das urnas terão oito anos de mandato e apenas dentro de quatro anos será possível alterar um terço da composição da Casa. É uma escolha de longo prazo entre liberdade e servidão, entre democracia e tirania.
Eis-nos, então, diante de um paradoxo: por que a eleição majoritária dos senadores poderá não refletir o que se antevê para a eleição majoritária do presidente? Tal fenômeno se deve à gritante desproporção na representação da população no Senado Federal. Enquanto, por exemplo, a região Nordeste tem um senador para cada 2,1 milhões de habitantes, a região Sudeste tem um senador para cada 7,4 milhões de habitantes. Essa desproporção, que se reproduz em todas as regiões, afasta quaisquer simetrias entre os votos para presidente e para senador.
Um problema ainda mais grave me traz aflição em relação às reformas institucionais sem as quais estaremos em muito maus lençóis. Refiro-me ao fato de, em pleno século XXI, partidos brasileiros brotarem como fungo à sombra dos recursos públicos e ainda terem chefes e chefetes nacionais e regionais. São eles que, nestes dias, notadamente entre os cinzentos e mornos partidos do Centrão, estão montando as chapas majoritárias e as nominatas para as eleições de deputados. Parece que retornamos ao Segundo Império, quando, sob o telhado do Partido Republicano, surgiram suas muitas versões regionais. Aqui no RS, foi muito ativo o PRR (Partido Republicano Riograndense); em São Paulo, o PRP; no Rio, o PRFluminense, e assim por diante.
Ao autorizar a ida de Bolsonaro para prisão domiciliar, o ministro Alexandre de Moraes lhe impôs sanções adicionais de natureza política. Foram proibidas concentrações a menos de um quilômetro de sua residência e ele só recebe visitas dos médicos, advogados e membros do mais estreito círculo familiar! Em outras palavras, está impedido de manifestar apoio ou rejeição a nada e a ninguém.
Com disfarce de conduta humanitária, o óbito político de Bolsonaro foi a cereja judicial no bolo da eleição. Nos partidos que se poderiam beneficiar de uma vitória presidencial da oposição, as estratégias para montagem das chapas majoritárias ficaram inteiramente ao gosto dos caciques. Valdemar Costa Neto (PL), Gilberto Cassab (PSD), Antonio Rueda (União Brasil) e Marcos Pereira (Republicanos), ao longo dos últimos anos, puxando cordéis, desacreditaram politicamente o Senado. E é exatamente isso que estão fazendo e buscando reproduzir.
O Brasil precisaria muito, hoje, de eleitores com uma consciência política que quase ninguém cuidou, ajuizadamente, de formar.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
05/04/2026
Percival Puggina
Fazer política exige alguns talentos especiais. Não é por acaso que pessoas competentes, vencedoras em outros setores de atividade, são mal sucedidas quando, convocadas à atividade política, se apresentam ante o eleitorado.
A partir do momento em que por ampla maioria, a atual configuração do STF formou trincheira no teatro das operações políticas e abriu o arsenal dos meios jurídicos de que dispunha, suas decisões produziram as consequências que todos pudemos ver e lastimar. Num rápido sumário: oposição intimidada, redes sociais amordaçadas, população silenciosa, ministros parecendo usufrutuários do Supremo, e militância de redação recebendo poderosa parceria para acabar com as pretensões políticas de conservadores e liberais. Nas refregas quotidianas, era comum ver estúdios que lembravam barraca de campanha onde, entusiasmados jornalistas, diante do mapa dos fatos, recebiam do STF, por celular, mensagens transmitidas como se vindas do Alto Comando de uma guerra contra a direita.
Alijado assim, o povo – aquele povo de onde, se não me falha a memória, a Constituição diz emanar todo o poder – se descobria desabrigado na noite da História. A democracia, de hábito ruidosa, foi sendo silenciada. No vocabulário dos antigos, em meio a tanta truculência, a divergência foi sendo “exemplada”. A cada opinião ou movimento, levava um “para-te quieto”. A harmonia entre os poderes de Estado tinha lado para existir. Palácio do Planalto e STF eram a goiabada e o queijo ou o “baião de dois”, como disse certa vez alguém referindo-se a uma situação semelhante.
Assim como se sucedem as fases da Lua, o tempo passa e o calendário eleitoral comanda o andar dessa história. Na lua minguante de outubro, haverá eleições. Ao longo do ano, tem pesquisa, tem candidatos na rua, há conversas reservadas, há notícias a dar e objetivos a alcançar.
Não é por acaso que a rejeição ao presidente da República coincide com a avaliação negativa do Supremo Tribunal Federal, superando os 50%!
Trata-se de uma consequência inevitável da truculência verbal e judicial, e da inaptidão para a política como ela deve transcorrer num regime democrático. Ao tratar a divergência como inimiga, os donos da cena construíram o passado, sim, mas construíram, também, o futuro. Impor sigilos, brigar com certos fatos e ocultar outros nunca foi boa política. Ufanismo sem causa, agressividade explícita, maus tratos à opinião pública, censura, ânimo vingativo, injustiça explícita e abuso de poder não combinam com voto. Presidência da República e Supremo Tribunal Federal são, agora, os principais cabos eleitorais da oposição brasileira.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
03/04/2026
Percival Puggina
Durante os primeiros três séculos do cristianismo, a crucifixão de Jesus era vista como algo tão infame que os cristãos não se identificavam pela cruz, mas pelo esquemático desenho de um peixe. Foi com Constantino que ela se afirmou como símbolo cristão. E, mesmo assim, apenas a cruz, não o crucifixo. Outros séculos transcorreram até surgir a representação do crucificado, mas em forma gloriosa, reinando do alto da cruz. E um milênio inteiro decorreu entre agonia do Calvário e as primeiras representações gráficas do sofrimento humano de Cristo.
Creio que esse dado serve para explicar, em parte, o profundo impacto causado pelo filme de Mel Gibson. A pintura e a escultura jamais puderam comunicar, de modo perceptível à sensibilidade humana, a flagelação e a agonia de Jesus. Só com o cinema surgiria o conjunto dos instrumentos de comunicação necessários. E foi preciso ao próprio cinema vencer todo o século XX para chegarmos à uma Paixão de Cristo que alcançasse o realismo e a intensidade atingidos pela obra de Mel Gibson. Se tivermos que buscar um único mérito no filme – e ele tem muitos outros – certamente será este: pela primeira vez em quase dois mil anos, o sofrimento de Jesus encontrou uma representação real, compreensível aos olhos humanos.
Vitorio Messori, num texto que tive a oportunidade de ler, cita São Tomás de Aquino, quando este adverte que não se deve representar a verdade com argumentos irrisórios. A meditação que Gibson faz sobre a Paixão (o filme é isso) por certo não incorre nesse equívoco. Martela, com extraordinário vigor, a mensagem essencial da paixão, morte e ressurreição. Cristo não fez essa trajetória por culpa dos judeus que pediram sua condenação, ou dos romanos que o flagelaram e crucificaram. Foi pelos pecados da humanidade inteira que Ele assumiu a cruz, do alto da qual pediu ao Pai que perdoasse aqueles que o faziam padecer porque eles não sabiam o que faziam. E não sabiam mesmo.
O filme nos põe na cena dos fatos, junto a Maria e João, com uma espada de dor atravessada no peito. Comove e move. Vale à pena submeter-nos à crueza das imagens? Se apenas comover pela dor, não. Se mover pelo amor, sim.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
02/04/2026
Percival Puggina
O governador do Rio Grande do Sul se encarregou de ilustrar, por conta própria e sem entender a causa, o que acontece com o debate político brasileiro. Apresentando-se como vítima, ele atacou seu alijamento da campanha presidencial como se fosse consequência dos polos a que se refere.
Vamos imaginar que Eduardo Leite tivesse razão. Suponhamos que os dois polos, intrometidos e igualmente malvados como parece vê-los, não entendam quanto andaríamos melhor de mãos dadas. Já pensou? A canção “Imagine” na Praça dos Três Poderes! Coroa de flores na cabeça, “all the people” unido num único “centro democrático”, “liberal”, comprometido com a “conciliação” e com a “construção de soluções reais”, etc.?
Certamente ele não está falando no Centrão dos negócios, feirão de votos parlamentares, nem nos partidos sem cor nem sabor que se aglutinam representando a maior parte do aparente sincretismo político brasileiro. Pergunto: e se não for à turma da esquerda, nem à da direita, nem à do Centrão, que se refere o governador gaúcho? Quantos votos têm as pessoas com as quais ele vem conversando e tanto apoio diz lhe terem prestado?
Há algo ainda mais intrigante na tese de Eduardo Leite. Ele teve oito anos consecutivos de mandato. Teve todo o tempo do mundo para aplicar sua harmoniosa plataforma no Rio Grande do Sul. Andou disciplinadamente no Centro e muitos o viram como frequentador habitual do topo do muro. Por afinidade, era muito mais fácil para ele do que para qualquer outro trabalhar junto com o PT. No entanto, para governar, precisou articular-se com a direita, com os conservadores do PP gaúcho. Por quê? Porque o PT jamais dá as mãos ou aceita proximidade com quem senta na cadeira que ele pretendeu ocupar e à qual deseja retornar.
De nada adiantou Eduardo Leite se alinhar com o polo esquerdista em questões bem específicas como o “fecha tudo” da Covid e a anistia. Foi o PP gaúcho, de direita, quem lhe deu o apoio de que precisava ao longo de oito anos. É por ideias e ações que se estabelece o antagonismo político. Os dois polos não existem para aborrecer Eduardo Leite, mas por absoluta necessidade do momento. Vejam o Brasil! O petismo e seus coadjuvantes, seus escândalos e desastres, suas práticas e maus costumes precisam ser confrontados! Ainda bem que, com a inesperada liderança original de Bolsonaro, a direita parou de perder por W.O., rompeu o teatro das tesouras e se alinhou como polo oposto. Isso foi e continua sendo historicamente oportuno e necessário. Há que preservar o que subsiste e retomar o bem que se perdeu nos últimos 40 anos.
Eis o motivo pelo qual o governador gaúcho fala num centro democrático, liberal e conciliador, sem mencionar a palavra “conservador” e sem nenhum registro sobre o valor da tradição e da fé. Se depender dele, a guerra cultural que confronta o Ocidente já tem perdedor e essa posição exige oposição.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
28/03/2026
Percival Puggina
Se alguém tinha dúvida sobre a natureza política da prisão de Bolsonaro e tantos outros, o ministro Alexandre de Moraes acaba de escancarar a realidade a quem tem olhos de ver.
Essa incerteza jamais me acometeu. Sempre vi como insanidade o fervor com que a esquerda se converteu em cortesã da Suprema Corte. Desde a indulgência plenária concedida por ela ao mestre Lula, os seguidores do profeta de Garanhuns repicavam sinos, tocavam clarins e gargalhavam felizes ante qualquer canetada dos ministros impondo restrições e penas a seus adversários. Era muita alegria de um lado só.
Sempre havia uma urgência incomum: salvava-se a democracia. Em cada invasão de privacidade, em cada direito humano abalroado, em cada trambolhão dado às boas práticas, salvava-se a democracia. As imposições de silêncio se transformaram em produtos refinados de uma ação civilizatória. Festejada com vivas e urras dos companheiros, elas cortavam a voz oposicionista como a guilhotina, ao som de urras e vivas, cortava pescoços na Place de la Concorde em 1789. O medo, leitores, pode ser tão silencioso quanto os cemitérios.
Por isso, não me espantou a decisão de autorizar a prisão domiciliar temporária de Bolsonaro. Ela não só liberava um pouco de vapor da panela de pressão em que se convertera o STF (ministros mais duros já estariam amolecendo) como criava oportunidade para ampliar as restrições impostas ao ex-presidente. Novo paradeiro, novas regras. E isso, convenhamos, era bastante oportuno. Além das visitas familiares, Bolsonaro tivera autorizadas 15 visitas de políticos no seu período em prisão.
Ora, para quem o quer fora do jogo, é altamente recomendável que ele não mantenha contato algum com pessoas desse ambiente. Está em curso a janela de transferência entre partidos e em tempos de organização de chapas majoritárias. Seguem-se a elaboração das listas proporcionais, as negociações que antecedem as convenções, etc. Quanto mais Bolsonaro estiver desaparecido ou dado por politicamente morto, melhor para o governo. Melhor, também, para os ministros e todos que ainda acreditam na narrativa do “funcionamento virtuoso das instituições” (credo!), mesmo que elas pareçam destroçadas por um inexorável vandalismo interno.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
21/03/2026
Percival Puggina
Embora a edição em português tenha sido publicada em 1991, ainda hoje encontro fãs da autora, Ayn Rand, empolgados com o livro “A virtude do egoísmo”. Não sei se convenci algum, mas sei que jamais, qualquer desses interlocutores esclareceu o seguinte ponto: se, ao buscar o interesse próprio, o ser humano está cumprindo sua finalidade, por que raios devem os políticos renunciar a ele e se dedicar ao bem dos outros?
No coração do poder político, é preciso ser muito distraído em relação às oportunidades para não encontrar, a cada momento, algum interesse pessoal mais conveniente do que o bem alheio... É assim, exatamente assim, no subterrâneo dos interesses, que negligenciam a corrupção, matam a anistia, a dosimetria, as CPIs, a liberdade e a paciência dos cidadãos, e dão por virtuosos os vícios institucionais.
Qualquer pessoa com bom senso também sabe que nosso sistema eleitoral proporcional está mal pensado. Infelizmente, ele só é bom para quem faz a lei e acaba privilegiando a representação dos grupos de interesse. No viés oposto, e na linha do que expus no parágrafo anterior, esse sistema reduz a representação do cidadão comum (chefe de família, trabalhador, pagador de impostos ou um “ninguém por si”, desempregado). Até o último bilhão de reais, cabe ao cidadão pagar o custo da varredura interesseira que o sistema não perde ocasião de transformar em elite dirigente!
Há quarenta anos escrevo e falo sobre a superioridade técnica do voto distrital com recall, para que o parlamentar mais votado seja o representante de todos os cidadãos de seu distrito, assim como o governador é governador de todos os eleitores de seu Estado. No voto distrital, o deputado deve prestar contas a todos por suas ações e omissões, e está sujeito à revisão do mandato (recall).
Há muitas coisas erradas, sim. Nenhuma delas, porém, nem as urnas sem impressora, são motivo para não votar. Ao contrário, são uma soma de razões para comparecermos à sessão de votação e escolhermos pessoas capazes e virtuosas para o importante trabalho que a nação requer.
Estou acompanhando com muita preocupação as primeiras pesquisas sobre as eleições majoritárias que se avizinham (governadores e senadores). Alinham-se nos partidores, os nomes entendidos como preferenciais do eleitorado e o que leio me causa apreensão. É evidente a força dos partidos que se desfiguraram nas más experiências de um regime que transformou a política em feira de negócios. Tanto rebento de árvores genealógicas das dinastias regionais ponteando preferências não me deixam otimista. Não agora, não com esses dados. A Associação de Corruptos pela Democracia deve estar gostando dessas pesquisas.
O futuro precisa de uma elite da melhor qualidade. E ela existe! Pressionar os partidos, escrutinar suas nominatas, empurrar essas pessoas às urnas, enchê-las de votos, é uma tarefa para os meses vindouros. As convenções partidárias ocorrerão entre 20 de julho e 5 de agosto. O cardápio será o que for escolhido nessas reuniões. E eis aí outra vulnerabilidade de nossa democracia em frangalhos.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.
Percival Puggina
18/03/2026
Percival Puggina
Saudades de vocês, meninos!
Vasculhando a nuvem, encontrei imagens do encontro do MBC (Movimento Brasil Conservador), ocorrido em Camaquã no mês de novembro de 2021. Então, éramos felizes e sabíamos, porque se sucediam, pelo país inteiro, em auditórios lotados, as oportunidades de convívio, de reconhecimento e apreço aos bens culturais do Ocidente. Os territórios conflagrados da Cultura e da Educação, parafraseando Thomas Sowell, se haviam convertido na política por outros meios. Havia uma guerra pela Cultura.
Esse antagonismo somou-se às causas da censura que não tardaria em sair das máscaras e vacinas para derrubar a própria máscara e assumir seu rosto real no plano da política e da eleição que se avizinhava. A noite do regime estava chegando e reservava seu riso para a desgraça alheia. Tanto mais se divertia quanto mais gente houvesse para multar e prender.
Os talentosos Paulo Souza, Augusto Pacheco e Bismark Fugazza são exemplos vivos do mau humor de um regime que dizia “salvar a democracia” enquanto, entre outros pecados, acabava com a liberdade de expressão e tentava proscrever a opinião pública. Muitos jogaram a toalha do desalento, colocaram o livre pensar numa gaiola e se recolheram ao cárcere virtual do “sofá com celular”.
Se, por um lado, graças ao trabalho de Olavo de Carvalho e outros, a produção do ideário conservador e liberal no Brasil entrou num fluxo quantitativo e qualitativo ascendente, suplantando pela primeira vez a produção esquerdista, por outro lado, os meios culturais e educacionais se valeram, e ainda se valem, da hegemonia política imposta pelo regime para desqualificar intelectualmente os recursos humanos do país desde o interior das salas de aula.
Por isso, vencer a eleição presidencial não significa derrotar o regime. Essa vitória virá com a recuperação do trabalho de base, interrompido pela repressão instaurada em 2019 e com maioria parlamentar nas duas casas legislativas, a partir de 2027.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.