• Rodrigo Constantino
  • 27 Novembro 2016


            "A força mais enérgica não chega perto da energia com que alguns defendem suas fraquezas", disse com sua fina ironia Karl Kraus. O mundo é mesmo repleto de pessoas que acumulam verdadeiras fortunas e concentram absurdo poder apenas em cima de suas fraquezas declaradas. Ou explorando a miséria alheia, claro, que se tornou um gigantesco e lucrativo negócio.

É aquilo que Guilherme Fiuza tem chamado, em suas colunas, de "império do oprimido". E esse é justamente o título que deu ao seu novo livro, um romance que prova que a arte, muitas vezes, imita a vida. Trata-se de uma história fascinante de uma jovem bonita e rica que rompe o relacionamento com os pais assim que um partido de esquerda chega ao poder.

Ela decide que quer participar dessa revolução progressista. Numa idade em que é normal detonar os pais mesmo, Luana resolve radicalizar: abandona a vida de princesa e vai vagar pelo mundo, até parar numa ONG voltada para a assistência social. Lá se encanta com a ideologia socialista, e galga degraus até chegar ao topo do poder, no epicentro do novo governo.

Fiuza desenvolve essa história com maestria no ambiente da era lulopetista. Os ilustres personagens estão todos lá, facilmente identificáveis: Lula, Dirceu, Marcos Valério, Marcelo Freixo, Palocci, Márcio Thomas Bastos, JEC etc. A quadrilha chega ao poder com um discurso populista e encanta a população, com a ajuda inestimável dos artistas e "intelectuais" formadores de opinião, muitos sob recebimento de mesadas, como prostitutas.

Inúmeros fatos assombrosos dos últimos anos entram na narrativa, de uma forma muito criativa. Estão lá o mensalão, o petrolão, o assassinato de Celso Daniel, a casa das prostitutas em Brasília, os black blocs, o Mais Médicos, a tentativa de censurar a imprensa e muito mais. Tudo sob o controle indireto do Guia, o intocável, santificado pelas massas, identificado como o homem do povo que chegara para fazer justiça, acabar com a exploração centenária pelas elites.

Tudo balela, naturalmente. E Fiuza entra dentro da mente desses vilões, com a liberdade que só um livro de ficção permite, mostrando como o poder rapidamente sobe à cabeça ou, mais precisamente, como bandidos gananciosos exploram o discurso altruísta para chegar ao poder e por lá permanecer, ficando milionários no processo.

A forma pela qual uma jovem rica e mimada acaba sendo seduzida pelos "progressistas" também é retratada com perfeição. Sufocada pelas regras morais burguesas, pela hipocrisia que enxerga no mundo real quando suas fantasias infantis desmoronam, Luana era o alvo perfeito dos "gigolôs da bondade", que conseguem colocá-la contra o próprio pai. O encanto pelo professor esquerdista descolado ajuda bastante.

"Governo de uma gente cada vez mais poderosa, rica e coitada. É o crime perfeito", constata um dos personagens. Basta ver como mesmo depois de toda a podridão que veio à tona essa turma continua bancando a vítima para verificar como o fenômeno é impressionante. E foi um crime impune por muitos anos, com a conivência de muita gente, o silêncio cúmplice de vários, que surfavam na onda do mesmo populismo.

Fiuza dissecou o período mais nefasto da história de nossa democracia, e fez isso de uma forma muito divertida. O livro, com final surpreendente que não posso revelar, daria um baita filme, destino que outras obras do autor já tiveram. É leitura simplesmente imperdível, uma espécie de doce vingança de alguém que tentava alertar desde o início, quase sozinho, sobre o sonambulismo da população brasileira, vivendo sob o "império do oprimido" e aplaudindo a própria desgraça, reverenciando aquele que era seu maior algoz. E que, para revolta de muitos, continua solto, longe da prisão, seu destino merecido.


*Rodrigo Constantino, economista e jornalista, é presidente do Conselho do Instituto Liberal.
 

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  • Josias de Souza
  • 27 Novembro 2016

(Publicado originalmente em http://josiasdesouza.blogosfera.uol.com.br/)


Na segunda-feira, o PSOL protocolará na Câmara um pedido de impechment contra Michel Temer. Em nota, o partido informou que “a peça terá como base as denúncias do ex-ministro Marcelo Calero, nas quais ele afirma que o presidente da República interveio em favor dos interesses do ministro Geddel Vieira Lima, para liberar uma obra em Salvador”. A iniciativa do PSOL é natimorta. A principal dificuldade do governo não está no Congresso. O que ameaça Temer é o mesmo fenômeno que fez dele presidente da República: a oposição extraparlamentar.

Destinatário do pedido do PSOL, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, avisa que não tem vocação para Eduardo Cunha. Mas ainda que Maia quisesse tocar fogo no circo dirigido por Temer, o impedimento do substituto constitucional de Dilma Rousseff seria sufocado pela maioria parlamentar que acaba de aprovar na Câmara a emenda constitucional do teto dos gastos. Dilma cutucava o Legislativo com o pé para ver se os congressistas mordiam. Temer se jacta de tocar um governo semiparlamentarista.

Em setembro de 2015, quando começou a se insinuar como candidato ao trono, o então “vice-presidente decorativo” Michel Temer declarou que ''ninguém vai resistir três anos e meio com esse índice baixo'' de 7% de aprovação. Antes, ele já havia afirmado que o Brasil precisava de alguém que tivesse “a capacidade de reunificar a todos''. Dilma, de fato, não sobreviveu à revolta provocada pela junção de duas crises: a ética e a econômica. Hoje, Temer é um presidente impopular. Mas dá de ombros: “Não estou preocupado com popularidade.”

Temer resume assim o seu sonho de ex-presidente: “O povo olhar pra mim e dizer: ‘Esse sujeito aí colocou o Brasil nos trilhos. Não transformou na segunda economia do mundo, mas colocou nos trilhos’.” Para atingir o sonho, Temer oferece aos brasileiros um pesadelo. Decidido a restabelecer a racionalidade econômica, afirma que o Brasil não sairá da “recessão profunda” em que se afundou com a adoção de “medidas doces”.

O presidente tem razão. Mas a tese da socialização dos sacrifícios perde o nexo no instante em que as principais autoridades da República, entre elas o próprio Temer, transformam a vista milionária de um apartamento de luxo de um ministro palaciano em prioridade do governo. De resto, a aceitação de remédios amargos fica mais difícil quando a plateia percebe que o pedaço político do gabinete de Temer vai virando farelo na usina de processamento de desvios éticos da Lava Jato.

Temer compôs um ministério paradoxal. Na área econômica, técnicos respeitados. Na seara política, amigos e aliados contestados. O tapete da administração peemedebista revela-se tão grande quanto o da gestão petista. O problema com as coisas varridas para baixo do tapete é que os presidentes continuam governando em cima do tapete. E os acobertados cheiram mal e se mexem muito. Descobertos, desmoralizam a presunção dos governantes de que comandam uma nação de idiotas.

O brasileiro nunca se importou com a imbecilidade. Mas já não admite ser tratado como imbecil. Sob Dilma, reaprendeu o caminho da rua. Esbaldou-se. Sob Temer, as ruas voltaram para casa. Mas começam a entrar em ebulição. Agendam para o dia 4 de dezembro um ronco contra a corrupção. Hoje, qualquer cidadão com um computador pode fazer chegar a sua raiva aos destinatários. Um ministro de Temer contou ao blog que sente diariamente o hálito quente da internet.

Na trincheira virtual, relatou o ministro, o combate é implacável e desleal. Escondidos atrás de pseudônimos, os descontentes lançam mão de toda a retórica capaz de insultar o interlocutor. O ministro é frequentemente mandado para lugares desagradáveis. Mandam-no, por exemplo, à presença da pessoa que, tendo exercido a profissão de prostituta, lhe deu à luz.

A oposição extraparlamentar não é ideológica. Para esse opositor que grita rente ao meio-fio ou xinga atrás da tela do computador, o problema não é de esquerda ou de direita. O problema é a sensação de que, seja quem for o presidente, haverá sempre meia dúzia por cima, prescrevendo remédios amargos, e milhões por baixo, tendo que engolir o purgante na marra.

Ou Michel Temer enxerga esse novo ator da política ou sua impopularidade será tão intensa que logo começarão a surgir os traidores no Congresso. Se quiser, o presidente pode emitir um sinal de que acordou ao nomear o substituto de Geddel Vieira Lima. Basta que examine bem as circunstâncias, para não confundir um certo homem com um homem certo.

 

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  • Ipojuca Pontes
  • 25 Novembro 2016

(Publicado originalmente em www.midiasemmascara.org)

A calhordice da mídia amestrada pelo ativismo esquerdista não se mede aos palmos: incomensurável, ela não pode ser medida por número inteiro ou fracionário. Para se ter uma idéia do abismo, nos Estados Unidos jornais como o New York Times e o Washington Post, manipulados por profissionais da empulhação engajada, há décadas distorcem os fatos mais evidentes ao sabor de suas taras ideológicas, na pretensão mórbida de transformar a verdade na deslavada mentira, e a mentira deslavada, na paralaxe dos homens.

O ativismo roxo que se aboletou nas redações é formado por exércitos de fanáticos que operam noite e dia na distorção criminosa dos fatos, fazendo do ato de informar um instrumento da desinformação (ou contra-informação, conforme o caso) em escala estratosférica. Na prática, para subverter a realidade e construir um “novo senso comum”, a corja ativista batalha na tarefa doidivanas de pensar, sentir e falar pelo leitor, tratando-o como simples cobaia ou manuseável massa de manobra. Um horror.

(Se quer saber, essa canalha não faz jornalismo, faz militância rasteira e, como tal, deveria ser execrada em praça pública ou multada e presa por fraude, sonegação da verdade e propaganda enganosa).

Em âmbito interno, Folha de São Paulo e O Globo, notadamente, lideram o rol de jornalões e jornalecos que procuram embotar a cabeça do leitor, na corrida frenética pela distorção preconcebida dos fatos.

Neste ano de 2016, entretanto, eles estão se ferrando de verde-amarelo, a começar pela cobertura do referendo que tratava da permanência - ou não - do Reino Unido na União Européia, entidade parasitária da burocracia socialista que levou o “velho mundo” ao atual quadro de insolvência. Suas redações torceram adoidadas pelo “sim” – e deu, como previsível, um rotundo “não”, o voto pelo Brexit.

Outra derrota contundente da mídia militante se deu com o famigerado “acordo de paz” tramado em Havana pelos irmãos Castro para livrar a cara das Farc, braço armado do Partido Comunista que há mais de cinco décadas explora o narcotráfico, sequestra, mata, rouba, ocupa terras, cobra pedágio e aterroriza o povo colombiano. Que, naturalmente, em resposta, votou pelo “não” no plebiscito arranjado, pois ele, como sabem todos, guarda fundo horror aos comunistas e seus asseclas narcotraficantes.

Fato também vergonhoso se deu na cobertura tendenciosa dos veículos da Globo durante as eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro. Nela, a militância global resolveu demonizar o candidato Crivella e promover o psolista Freixo, profissional da parolagem revolucionária, referência número um entre integrantes dos black blocs, bando encapuzado que leva o terror às ruas do Rio, responsável, entre inúmeros delitos, pela morte do cinegrafista Santiago Andrade, da TV Bandeirantes. Para influenciar o eleitor, O Globo, no dia da votação, tascou em manchete: “Crivella cai e Freixo sobe nas intenções de voto”.

Resultado: o pastor desmoralizou o ativismo global e ganhou as eleições por mais de meio milhão de votos.

O ativismo da mídia esquerdista atingiu o paroxismo, aqui e lá fora, no embate eleitoral dos Estados Unidos. Numa campanha sórdida, em favor da pusilânime Hillary Clinton (uma Dilma Rousseff de 5ª categoria), a “cumpanheirada de viagem” vendeu ao leitor indefeso a imagem de Trump como um racista xenófobo, populista misógino e isolacionista que poria em risco a estabilidade do mundo (imaginado por ela, claro).

Resultado: deu Trump na cabeça, conforme esperado por qualquer mente livre que se preze. A grande imprensa – televisões, jornais e seus institutos de pesquisas fajutos - foi fragorosamente derrotados pelo misógino que recebeu 66% dos votos femininos e o xenófobo maçiçamente votado por mexicanos, mulçumanos e minorias raciais.

Agora, após a derrota, temerosa de que Trump esvazie o corrupto welfare state dos obamacares eleitoreiros (fonte do pior populismo) e isole os EUA da praga social-democrata representada por tipos funestos como François Hollande ou confronte o terceiromundismo da falida ONU e detone, entre outras mazelas, o terrorismo islâmico financiado pelo petróleo asiático, a camarilha midiática pretende acuar o novo presidente. Histérica, quer que Trump traia o seu vitorioso eleitorado e adote a agenda “politicamente correta” da derrotada Hillary – vale dizer, a liberação da droga, a descriminalização do aborto, a permissividade gay e a avalanche do multiculturalismo para triturar os princípios da civilização ocidental e cristã inspirados nos conceitos de Deus, pátria e família.

Só no inferno!

Ipojuca Pontes cineasta, jornalista, e autor de livros como 'A Era Lula', 'Cultura e Desenvolvimento' e 'Politicamente Corretíssimos', é um dos mais antigos colunistas do Mídia Sem Máscara. Também é conferencista e foi secretário Nacional da Cultura.

 

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  • Francisco Ferraz
  • 23 Novembro 2016


Até que ponto o roteiro do sistema político dos EUA funcionará com o presidente eleito?

(Publicado originalmente no Estadão, em 23/11/2016)

A eleição de Donald Trump contrariou, mais que expectativas, a certeza sobre a vitória de Hillary Clinton, que havia ficado evidenciada nas pesquisas, na aparente solidez do pensamento politicamente correto, nos temores das minorias, na estupefação de lideranças das principais nações, na perplexidade dos comentaristas políticos.

A vitória de Trump tem sido majoritariamente descrita como a antessala do desastre, a necessidade de “absorver o impossível”, o “anúncio do caos iminente”, a “tragédia americana”.

Sem dúvida, há fortes razões para preocupações, incertezas, medo, insegurança e até mesmo angústias. Trump fez uma campanha agressiva e até irresponsável, prometendo medidas que não poderá cumprir; apresentando soluções simplórias e irrealistas para problemas complexos; dando a entender que vai se intrometer na política externa, na economia e nas ações sociais do governo como um rinoceronte numa loja de cristais.

Com esse comportamento, Trump plantou aqueles sentimentos durante a campanha. Eles se apresentam, agora, para a colheita, junto com os frutos da vitória. Trump tornou-se, então, um enigma. Cabe, então, fazer algumas perguntas sobre aspectos de sua campanha que causaram tantas incertezas.

Estas são perguntas que usualmente não são feitas em eleições presidenciais nos EUA. Há um amplo consenso político sobre a presidência e o presidente que se encarrega de acomodar os traços mais idiossincráticos do novo presidente dentro de moldes socialmente legitimados. Cada um é diferente de todos os outros e cada um é semelhante a todos.A surpresa e a reação de espanto com a vitória de Trump se devem ao fato de que ele até agora contrariou aquela equação: ele é diferente de todos e não é semelhante a nenhum.

1) Como caracterizar Trump politicamente?
Os termos usuais para caracterizar um político são inadequados para descrever Trump. Dizer que é um republicano não basta. Dizer que é um empresário é insuficiente.

Dizer que é um conservador, um reacionário, não corresponde a um político tão agressivo e populista, que fez sua carreira sem hesitar em correr riscos elevados. Dizer que é um demagogo não o torna muito diferente de Hillary. Na realidade, Trump é um outsider. É um estranho ao “clube” político que passou a integrar. Nunca disputou eleições, nunca aprendeu as regras de comportamento que a participação na vida partidária, parlamentar, executiva sujeita seus membros. Em consequência, não foi socializado naquele amplo consenso, em grande parte tácito, que define o que se deve ou não se deve fazer; o que se pode e não se pode fazer na dinâmica da política.

2) Por que Trump fez uma campanha tão ameaçadora?
Sendo um outsider, seu desafio era forçar sua entrada no “clube”.
Sendo um bilionário, podia bancar sua campanha, sem prestar contas a ninguém.
Sendo um vendedor de enorme sucesso, sabia que precisava oferecer aos compradores potenciais (eleitores) o que eles queriam sem fazer concessões ao partido, à mídia e ao politicamente correto.
Sendo um outsider, foi subestimado pelo establishment.Outsiders na política americana sempre ocupavam a terceira candidatura, e invariavelmente perdiam. Nesta eleição, entretanto, o outsider concorria para ser o candidato do partido republicano.

Subestimado em sua vaidade, orgulho e qualidades pelo partido, não lhe restou outra alternativa senão aceitar a aposta. Sua campanha foi um repto àqueles que o subestimaram.

3) Como conseguiu transitar da periferia do sistema político para o seu núcleo?
Conseguiu pela oportunidade que o sistema de prévias lhe dava de consolidar apoios e, vencendo-as, ocupar o espaço de líder de seu partido nesta eleição. Em outras palavras, conseguiu, usando as prévias, passar de outsider para insider, mas atenção: sem fazer concessões no seu comportamento, ideias, discurso, debates e estratégia. Ao vencer, Trump logrou se transformar num insider com a independência de um outsider rico.

4) Como deverá se portar como presidente eleito, não mais como candidato?
De agora até a posse, duas pressões convergentes vão se verificar: a) pressão do sistema político para “converter” Trump, incorporá-lo ao grande consenso (“clube”), o que deverá aparar suas arestas mais cortantes; e b) pressão de Trump sobre o sistema político para revestir-se de legitimidade, para conquistar alguma independência das expectativas dos seus eleitores, para poder incorporar a imagem de presidente de todos os americanos, e comprovar, por seu comportamento e palavra, que está à altura da “grandeza” do cargo.

Se, no primeiro caso, são os titulares dos papéis centrais do sistema político que tomam a iniciativa de se aproximar dele, no segundo é Trump que, ao responder favoravelmente àquela iniciativa, é premiado com o reconhecimento de sua autoridade, com o respeito devido a um superior e com a aceitação dos eleitores que votaram em Hillary.

Este processo de cooptação consentida já está em curso desde o momento em que sua vitória foi tornada pública.

Concluída esta fase, o candidato rebelde e agressivo deverá se apresentar mais palatável, equilibrado, moderado em plena caminhada rumo ao próximo ato: a escolha da sua equipe de governo, seu discurso de posse e sua entronização como estadista.

O sistema político americano sempre foi capaz de cooptar até mesmo os mais rebeldes e radicais presidentes eleitos para a adesão aos princípios e regras do exercício do poder, transformando os imprevisíveis em previsíveis e, quando a necessidade assim exigiu, usando do poder legal para removê-los do poder.

A grande interrogação trazida por esta eleição é até que ponto este roteiro funcionará com um outsider que por força própria tornou-se chefe dos insiders.


*Professor de ciência política, ex-reitor da UFRGS, pós-graduado pela Universidade de Princeton,é criador e diretor de Política para Políticos (www.politicaparapoliticos.com.br)

 

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  • Alexandre Garcia
  • 23 Novembro 2016

 

(Publicado originalmente em http://www.sonoticias.com.br/)

Dois ex-governadores do Rio de Janeiro juntos na penitenciária de Bangu não é mera coincidência. É um desfecho esperado depois de quase 20 anos de influência dos dois na política fluminense do arruinado Estado do Rio. O que fizeram é bem um retrato do Brasil. Garotinho é mentor do mais escarrado descumprimento da Constituição, que estabelece que o serviço público precisa obedecer a impessoalidade e a moralidade. Depois dele veio a mulher, Rosinha e ainda elegeu a filha Clarissa deputada. Quando Rosinha se elegeu prefeita de Campos, o nomeou secretário de governo, onde estava ao ser preso. Mostrando hipertensão, foi internado em hospital público, mas quis sair para um hospital privado, já que a família Garotinho não cuidara bem do público. O juiz não topou. E o mandou para Bangu. Ele resistiu ao entrar na ambulância, demonstrando um preparo físico inusitado para um hipertenso já que exerceu um literal jus sperniandi.

Sérgio Cabral, segundo o Ministério Público, começou a cobrar propina no primeiro dia de governo e continuou mesmo depois de deixar o governo para seu vice, Pezão. Fez fortuna com as empreiteiras que faziam obras no estado, inclusive a reforma do Maracanã. Sua mansão em Mangaratiba, é de cair o queixo. Só em obras de arte na parede deve ter uma fortuna bem emoldurada nos 220 milhões de reais de ilegalidades que os promotores somaram. Um anel da mulher dele custou 800 mil reais. Ela fazia uma advocacia acumplicada com o marido. O casal tem uma lancha de 5 milhões, em nome de laranja. As mesadas de empreiteiras rendiam 350 mil e 500 mil.

O presidente do PMDB disse que o partido não está envolvido nisso. Como se Cabral não fosse uma das grandes lideranças do PMDB. O governo Temer lava as mãos como Pilatos. Dilma chegou a expedir uma nota lembrando que Cabral apoiou Aécio. Confiam, ambos, na falta de memória do brasileiro. Quando Lula indicou Dilma para sucedê-lo, o PMDB quase pôs Cabral como seu companheiro de chapa, sob o argumento de que seria mais popular que Temer. Ainda ouço o presidente Lula afirmar que o povo precisa de gente como Sérgio Cabral. E será que ninguém mais lembra de todas as fotos reunindo Cabral, Lula e Dilma, besuntados de petróleo em comemorações políticas do pré-sal? Agora se percebe o simbolismo daquelas imagens com a negra lama do petróleo.

Como pode ter durado tanto tempo esse deboche aos eleitores, aos contribuintes, aos cidadãos? Antes de Roberto Jefferson denunciar o mensalão e Youssef ser preso num lava-jato, campeava a impunidade, o arquivamento de processos, a pressão política para manter os corruptos fora da cadeia. Vigorava o escárnio. Cabral chegou a festejar no ultraluxuoso Hotel Ritz Paris a convivência com os empreiteiros, naquela dança do guardanapo, a que todos assistimos. A foto do Ritz contrasta com a de Cabral com uniforme da prisão. Agora dá vontade de inverter a fala final da fábula de Esopo/La Fontaine: “Dançavas? Pois canta agora!”.

 

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  • Ricardo Orlandini
  • 22 Novembro 2016

(Publicado originalmente em http://www.ricardoorlandini.net/)

Quando eu era pequeno, se posso dizer assim, um piá ou guri, escutava dos adultos nosso orgulho de não termos uma guerra em nosso território há muito tempo. O Brasil vivia em Paz com seus vizinhos, sem grandes problemas internos e não tínhamos terremotos, maremotos, furacões e outros fenômenos da natureza que nos castigassem de alguma maneira.

Tudo continua como antes?

Não, tudo mudou e para pior, muito, mas muito pior mesmo.

Vivemos em um estado de guerra não declarado, em várias frentes de batalha, que procuramos varrer para baixo do tapete e fingir que nada acontece.

Morrem por dia no Brasil, em nossa guerra não declarada, mais de 300 pessoas.
Mais de 40 mil pessoas são mortas na frente do trânsito, local em que as baixas são crescentes desde os anos 70 do século passado (XX), quando já constatávamos que morriam mais pessoas no trânsito brasileiro do que na sangrenta Guerra do Vietnã.

Já na outra frente de batalha, a das cidades dominadas pela bandidagem, pelo crime organizado, são outras 100 mortes por dia.

Se adicionarmos a estes 300, também os mortos pelo descaso do Estado com a saúde pública, bom aí ganhamos da soma de todas as guerras no planeta.

Se alguém pensa que estou exagerando, está enganado. Os números estão aí, são públicos, são reais.
O que não tínhamos, ou pelo menos não queríamos ter ou ver, eram números para comparar com os nossos.
No mundo todo, morrem na Guerra do Trânsito, cerda de 3.250 pessoas por dia, sendo que 200 são no Brasil, algo como 6% do total mundial.

Já nas guerras de todo o mundo, morrem em média por dia 470 pessoas, por aqui, em nosso lindo país tropical são mais de 100 mortos por dia, o equivalente a 21% de todas as mortes violentas em guerras no mundo inteiro.
Chegou a hora de levantar o tapete e enfrentar de frente esta guerra não declarada.
A violência tomou conta de nossas cidades e o Estado brasileiro está perdendo essa guerra.

Falta de investimento, falta de ação, conivência com o crime organizado, e aí vai uma série de políticas incompetentes que resultaram nesse desastre.

Para nós gaúchos que imaginávamos estar longe também da Guerra do Rio, já vivemos realidade similar em várias regiões da Grande Porto Alegre.

A Guerra no Rio de Janeiro continua cada vez pior, como assistimos nos últimos dias, mas nossa capital, Porto Alegre, está entre as mais violentas do mundo, e não é invenção minha, é fato.

Outro dia uma pessoa que trabalha para minha mãe não apareceu no trabalho. No dia seguinte chegou apavorada pois tinha visitado sua irmã em Porto Alegre e não consegui voltar para sua casa em Viamão pois os traficantes declararam “toque de recolher”.

É Porto Alegre gente, não é Rio de Janeiro nem Síria.

Até quando?

 

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