• Roberto de Oliveira Campos
  • 15 Maio 2017

NOTA DO EDITOR: O professor Ricardo Bergamini oferece à reflexão dos leitores este excelente texto de Roberto Campos sobre empresas estatais (1985). Chamo a atenção para a sabedoria da explicitação do que sejam, na vida real, os setores público e privado.


"A coisa mais importante para os governos não é fazer as coisas que os indivíduos já estão fazendo, ou fazê-las um pouco melhor ou pior; e sim fazer aquelas que no presente ninguém possa fazer" (Lord Keynes).

Para o começo de conversa precisamos de uma revolução semântica. A expressão "setor privado" inspira uma conotação de egoísmo e apropriação. A expressão "setor público" transmite a ideia de generosidade. Isso é injusto e inadequado. Mais correto seria, como sugere o economista paulista Rafael Vechiatti, chamarmos o setor público de "setor coercitivo", e o privado de "setor voluntário".

Sempre que se fala em desestatização, surge logo a indagação: de onde virão os recursos para o setor voluntário comprar as empresas do setor coercitivo? Uma resposta complexa é explicar que: 1) o governo não gera recursos e sim administra os recursos hauridos do setor voluntário por tributação ou tarifas; 2) que a poupança do governo é hoje negativa e que seu déficit é coberto mediante sucção da poupança privada; 3) que, na medida em que o Governo corte suas despesas, liberando a poupança privada, esta poderia comprar as empresas do "setor coercitivo". Estas, aliás, não nasceram do nada e sim de tributos pagos pelo "setor voluntário". A velocidade de geração de recursos para a privatização dependeria assim apenas da velocidade da redução do déficit público e da liberação das poupanças do setor voluntário.

Num sentido fundamental, entretanto, o problema é simples e não exige qualquer despesa. Basta uma revolução conceitual, que pode ser feita por definição legal. O importante, num primeiro estágio, é separarmos o conceito de propriedade, do direito de gestão, diferenciando-se "ações de propriedade" de "ações de gestão". O Governo é gestor das despesas públicas. Mas não precisa ser seu proprietário. As empresas públicas devem ser do público.

É esse o objetivo do projeto de lei número 139 que apresentei ao Senado Federal, em junho de 1983, e que há dois anos ali dorme o sono dos justos, pois as ideias simples são em princípio escandalosas. Nesse projeto se prevê que o governo devolva aos cidadãos a propriedade das poupanças deles arrecadadas, mediante a transferência gratuita de ações integralizadas – boas ou más – que sejam de propriedade da União, suas autarquias e entidade públicas, a um grande fundo de repartição de capital. Todos nós, contribuintes do INPS ou IPASE ou Funrural receberíamos gratuitamente frações ideais desse fundo. Os dividendos eventualmente resultantes seriam creditados aos cotistas, vale dizer, ao universo dos contribuintes, cujos impostos financiaram originalmente a criação dos elefantes estatais. As ações ficariam em custodia num organismo central, que poderia ser a Caixa Econômica Federal, ou qualquer outro órgão suficientemente computadorizado, que manteria escrituração da carteira de ações dos beneficiários. Enquanto mantidas em custódia, essas ações seriam de propriedade, porém não de gestão. O poder de voto e de gestão continuaria, como no presente, nas mãos dos administradores governamentais, até que essas ações doadas se transformassem em ações vendidas ou negociadas, através dos mecanismos normais de Bolsas de Valores ou de licitação de ações. O projeto de lei acima citado prevê que a alienação das ações ou a retirada da custodia se faça gradualmente (à razão de 5% ao ano), a fim de na se congestionar o mercado de valores.

Se a privatização da propriedade pode ser resolvida, resta o problema da privatização da gestão, indispensável para aumento da produtividade global do sistema. Esta continuaria a ser buscada através dos programas correntes de desestatização, por venda em bolsa ou licitação. O importante seria abandonarmos a ideia – usada pelos estatizantes para sabotar a desestatização – de que o Governo tem que reaver integralmente o capital investido. Em muitos casos, os investimentos foram superdimensionados, com custos financeiros tornados proibitivos pela lerda execução, de sorte que seria irrealista esperar vendê-las senão pela rentabilidade real ou esperada do patrimônio, aferida segundo as regras do mercado.

O programa de "repartição do capital" inauguraria imediatamente o capitalismo do povo. O programa de "desestatização" aumentaria gradualmente a eficiência de gestão, além de trazer receitas, que o Governo utilizaria para sanar aflitivas carências básicas – analfabetismo, endemias e epidemias, desnutrição e insuficiência dos serviços básicos de infraestrutura. Não faz sentido o governo ter postos de gasolina quando não tem postos de saúde, ou competir na fabricação de computadores quando não tem dinheiro para cuidar da malária...

Se há hoje uma constatação universal é a da falência do Estado-empresário. Até mesmo os regimes socialistas estão sentindo a rigidez e o desperdício dos sistemas centralistas. No universo das estatais brasileiras, o julgamento da eficiência é dificultado porque, contrariamente ao previsto no Art. 170, Parágrafo 20 da Constituição Federal, elas desfrutam de privilégios de mercado ou vantagens fiscais inacessíveis às empresas privadas. A Petrobrás, por exemplo, é lucrativa, mas desfruta de um monopólio que impede a aferição de eficiência. O Banco do Brasil é lucrativo, mas recebe recursos trilionários da Conta de Movimento do Tesouro a juros simbólicos, e coleta depósitos compulsórios de entidades públicas, sem ter que pagar os altos custos de captação. A Vale do Rio Doce e Usiminas, que operam superavitariamente e sem subsídio, em mercados competitivos, figuram talvez entre as únicas empresas sobre cuja eficiência não pairam dúvidas. Os grupos Telebrás e Eletrobrás não podem ser julgados porque operam em condições monopolísticas, caso em que o lucro pode resultar de manipulação tarifária e não eficiência competitiva.

O importante é acentuar que o Ministro Dornelles e Roberto Gusmão, que pregam a privatização por sentirem na carne os abusos dos elefantes enlouquecidos do setor coercitivo, não precisam se preocupar inicialmente com a carência de recursos para a privatização. Podemos privatizar imediatamente a propriedade por transferência gratuita, e, mais gradualmente, o voto e a gestão, pela venda convencional das ações à medida que o mercado as absorva. Mas mesmo o primeiro passo tem consequências psicológicas importantes. Sentindo-se proprietário, ainda que em frações minúsculas, das empresas públicas, os contribuintes se interessariam em fiscalizá-las, na esperança de algum dividendo, e para isso se organizariam em associações civis, a fim de se manifestarem nas assembleias gerais. Os gestores, sentindo-se também coproprietários, ainda que microscópios, talvez deixassem de considerar os dinheiros públicos um bem de ninguém. E o lucro da empresa passaria a ser considerado o que realmente é, um prêmio do desempenho e não uma secreção de cupidez capitalista. É uma perfeita imbecilidade dizer-se que não se pode privatizar as estatais porque elas são "patrimônio do povo". Precisamente por isso é que devem ser privatizadas, na forma indicada no projeto de lei número 139. Para que sejam do povo. Hoje são dos tecnocratas, que às vezes delas abusam, ou dos políticos, que as desfiguram. O povo não tem vez....


*Defensor apaixonado do liberalismo. Economista, diplomata e político também se revelou um intelectual brilhante. De sua intensa produção, resultaram inúmeros artigos e obras como o livro A Lanterna na Popa, uma autobiografia que logo se transformou em best-seller. Foi ministro do Planejamento, senador por Mato Grosso, deputado federal e embaixador em Washington e Londres. Sua carreira começou em 1939, quando prestou concurso para o Itamaraty. Logo foi servir na embaixada brasileira em Washington, e, cinco anos depois, participou da Conferência de Bretton Woods, responsável por desenhar o sistema monetário internacional do pós-guerra. 

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  • Alfredo Marcolin Peringer
  • 15 Maio 2017


O presidente Temer, junto com seu braço direito, o ministro Henrique Meirelles, arrogantemente, falam em aumentar impostos, visando ao aumento da receita tributária, desconhecendo que isso não é só impossível, como está fora da realidade econômica no estágio atual em que se encontra a economia brasileira.

Avaliando as Receitas e Despesas, a equipe de governo afirma que estão faltando R$ 58,2 bilhões no Orçamento de 2017, para o cumprimento da meta de déficit de R$ 139 bilhões para este ano. Segundo Henrique Meirelles, ministro responsável pelo equilíbrio orçamentário, o governo buscava entre R$ 14 bilhões e R$ 18 bilhões em processos judiciais para tapar o buraco, mas reduziu as necessidades para R$ 17 bilhões.

Infelizmente, por conveniência ou ignorância econômica, o Ministro ameaça que pode ter que recorrer ao aumento dos tributos para tapar o buraco. Quanta presunção! Esquecem as regras de Frederic Bastiat. Elas mostram que, em economia, há sempre dois fatores em jogo: um que se vê e outro que não vê. O bom economista, diz, conhece os dois. O mau, só o primeiro.

De fato, qualquer operação comercial dentro da economia, sempre tem dois componentes. Por exemplo, na compra/venda de uma mercadoria, há o preço e a quantidade. O vendedor pode controlar o preço, mas então não controlará as quantidades vendidas. Se o preço for aquém do vigente no mercado, venderá mais; se o preço for além do vigente no mercado, venderá menos. Os impostos funcionam de forma igual. Ou se controla a alíquota que recai sobre um bem ou serviço, ou as quantidades vendidas e, com ela, a arrecadação governamental.

Já dei ênfase aqui que Arthur Laffer, economista americano, membro da equipe de Reagan, levou essa lei para o mundo fiscal, mostrando que, da mesma maneira que preço-quantidade, se o governo aumentar as alíquotas tributárias, reduzirá as quantidades vendidas/consumidas dos bens e serviços, afetando, com isso, a sua arrecadação.
Infelizmente, os homens de governo, a exemplo dos maus economistas, só enxergam o primeiro efeito, o da alta dos tributos: o efeito que se vê. Não conseguem enxergar o efeito oculto: o da queda da atividade econômica e, consequentemente, da arrecadação tributária, numa segunda etapa.

Essa ignorância econômica tem sido a causa das dificuldades financeiras do governo brasileiro nos últimos tempos e é responsável pela crise atual que assola o País. Os homens do governo não levam em conta que o ganho imediato que possam obter na receita, com a alta dos tributos, corresponderá a uma perda maior logo adiante. Ignoram, da mesma forma, o efeito perverso que isso ocasiona na produção e nos empregos da economia. Quo usque tandem abutere, Catilina, patientia nostra?
 

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  • Ruth de Aquino, revista Época.
  • 14 Maio 2017

 

Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. Boicotam um filme no Festival de Cinema de Pernambuco. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam o cineasta maldito, matam o contraditório, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho na sala escura, rouba o projetor e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.

É uma paródia do poema “No caminho com Maiakóvski” (1968), de Eduardo Alves da Costa. Ajuda a ilustrar a pataquada de diretores de sete filmes que retiraram seus curtas do festival. Começaria no dia 23 de maio para celebrar 21 anos de vida. O motivo maior do boicote foi um documentário de 81 minutos, O jardim das aflições, sobre o filósofo de direita Olavo de Carvalho. Os revoltados afirmaram, em nota, que a escolha “favorece um discurso partidário alinhado a grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016”. O festival foi adiado por causa da debandada. A seleção era de nove filmes. Não seria isso o que se chama diversidade?

“Não é possível ter debate, só entre esquerdistas”, me disse o diretor Josias Teófilo. Ele revelou que sua vida ficou “insustentável” em Brasília depois de resolver filmar Olavo de Carvalho. “Grandes festivais disseram que eu não era bem-vindo e que nunca mais eu conseguiria dirigir nada. Esse documentário foi feito com crowdfunding porque seria impossível tentar a Lei Rouanet. Vivemos a tirania da coletividade sobre o indivíduo. Quem está fora desse establishment de esquerda só encontra má vontade no campo do cinema.”

A patrulha, de esquerda ou de direita, não é só burra, primária e insuportável. É perigosa. Favorece o obscurantismo, a ignorância. Na chamada esquerda brasileira, há grupos numerosos, especialmente no PT, que fazem distinção entre “a censura do bem” e a “censura do mal”. “As ditaduras do bem”, como Cuba e Venezuela, e “as do mal”, de direita. É de uma insensatez frenética e fanática a forma como tantos intelectuais relativizam prisões, torturas, arbitrariedades, corrupção, censura, preconceito sexual, força do Estado... desde que o regime seja de esquerda.

“Esses cineastas que boicotaram o Festival de Pernambuco conseguem ser piores que Mao e Hitler, que assistiam aos filmes antes de censurar. Leonid Brejnev proibiu um filme de Tarkovski, mas assistiu antes. Esse grupo aí não viu e não gostou”, disse o diretor Josias Teófilo. “O jardim das aflições é muito mais metafísico que político. Fala de Aristóteles e Platão. O documentário traz uma mensagem a favor da individualidade. Discorre sobre a morte. Não tem motivo esse desespero todo. Mandei mensagens simpáticas aos colegas revoltados, agradecendo pela divulgação. Eu não podia pagar assessoria de imprensa.”

Olavo de Carvalho tem 70 anos, vive hoje em Petersburg, uma cidade americana de 30 mil habitantes com 80% deles negros. Dá curso on-line de filosofia para 3 mil alunos. É apontado como um dos mentores do conservador Movimento Brasil Livre (MBL), embora recuse esse título e critique “a direita emergente”. É fervoroso opositor do PT e de Dilma. E crítico do governo Temer, que considera ilegítimo. “Como vice, Temer não tem rabo preso, ele é um rabo preso”, disse ao repórter João Fellet, da BBC Brasil, em sua casa.

Militou no Partido Comunista durante a ditadura, foi amigo de José Dirceu, escondeu armas. Já se envolveu com esoterismo e astrologia. Mas se aproximou da Igreja Católica. Hoje, reza antes de dormir. Mantém uma espingarda sobre a cama para defesa pessoal e tem 30 rifles de caça. Olavo de Carvalho é um provocador, um polemista, a favor da “democracia plebiscitária”.

Uma das diretoras que se retiraram da mostra em Pernambuco, Gabi Saegesser, do curta Iluminadas, disse que “O jardim das aflições vai contra qualquer possibilidade de diálogo”, ao falar sobre “um dos maiores representantes do conservadorismo de direita”. Para a cineasta, a presença do título na programação “é como se o festival desrespeitasse a visão política e social de outros filmes”. Não é só Olavo o alvo do boicote. Há outro filme, o longa de Rodrigo Bittencourt sobre as origens do Plano Real. Entre os diretores rebelados, estão Savio Leite, Cíntia Domit Bittar, Eva Randolph, Leo Tabosa.

Na arte, como na política e na vida, o Brasil passa por um momento delicado de torcidas e patotas que urram a favor e contra, distorcem a realidade e tentam calar o outro com discurso de ódio ou de vitimização. Tapar os ouvidos e os olhos a quem discorda de você é um atestado de fraqueza e autoritarismo. Você pode ou não acreditar que Lula não tem nenhuma influência sobre o PT. A cabeça é sua ainda. A aflição também.

 

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  • Editorial do Estadão
  • 13 Maio 2017

 

Sempre achamos um exagero que o senhor Lula da Silva fosse por alguns alcunhado de “o apedeuta”, por sua profissão de fé na ignorância e por sua confessa indisposição para a leitura, que ele sempre, orgulhosamente, assumiu como contraponto aos “doutores” das “elites”. O depoimento que o senhor Lula da Silva prestou, na condição de réu, ao juiz federal Sérgio Moro demonstrou que estávamos errados: o líder petista comprovou de viva voz, com o que disse na oitiva, que não é ignorante apenas a respeito das coisas da cultura e da ilustração. Pelo que declarou em juízo, Lula é um completo ignorante. Não sabe de nada. Desconhece absolutamente tudo.

Do depoimento depreende-se que o senhor Lula da Silva desconhecia tudo o que fazia sua falecida mulher Marisa Letícia. Segundo o ex-presidente, foi a ex-primeira-dama quem quis comprar o triplex no Guarujá que, diz a acusação, foi adquirido e inteiramente reformado por um empreiteiro camarada para servir como propina ao ex-presidente. Na versão do senhor Lula da Silva, nem as visitas de Marisa Letícia ao apartamento nem a negociação para a reforma eram de seu conhecimento. Quando Moro pediu que ele explicasse melhor a relação da falecida mulher com o apartamento e com o empreiteiro camarada, o senhor Lula da Silva, depois de praticamente incriminá-la, disse que para ele era “muito difícil” ouvir o juiz Moro falar sobre Marisa Letícia “sem ela poder estar aqui para se defender”.

Conclui-se, pelo depoimento, que Marisa Letícia mandava no senhor Lula da Silva em todos os planos de sua vida – pessoal, doméstico, familiar, político e administrativo. A menos, é claro, que o viúvo, além de mentiroso, seja daqueles tipos que não consideram vício de caráter atribuir a autoria de ilícitos à própria mulher, desde que ela esteja morta e, portanto, calada.

Mas a muito conveniente ignorância do viúvo é abrangente. Questionado pelo juiz Sérgio Moro se em algum momento, como grande líder do PT, pediu ao partido que investigasse o envolvimento de correligionários no esquema de corrupção detalhado posteriormente pela delação de executivos das empreiteiras e da Petrobrás, o viúvo disse que em 2014, quando vieram à tona as denúncias da Lava Jato, ele era apenas um ex-presidente, comparável a um “vaso chinês”. Moro insistiu em que, mesmo na condição de ex-presidente, o depoente tinha evidente influência no PT, ao que o chefão petista respondeu, para espanto geral: “Eu não tenho nenhuma influência no PT”.

Aquele cujos seguidores julgam ser o melhor presidente da história do País também afirmou que não tinha como saber da corrupção na Petrobrás cometida por executivos por ele nomeados e por empreiteiros com os quais tinha relações pessoais. “Quem monta cartel para roubar não conta para ninguém. O presidente da República não participa do processo de licitação da Petrobrás, de tomada de preços da Petrobrás. É um problema interno da Petrobrás”, justificou o senhor Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro.

A propósito das declarações do ex-diretor da Petrobrás Renato Duque, apadrinhado pelo PT, segundo as quais o senhor Lula da Silva mandou que ele destruísse provas da existência de contas secretas no exterior abastecidas com o dinheiro do petrolão, o ex-presidente teve de confirmar o encontro – mas, é claro, tem uma outra versão para os fatos. “A pergunta que eu fiz para o Duque foi simples: tem matéria nos jornais, tem denúncias de que você tem dinheiro no exterior, está pegando da Petrobrás. Eu falei: ‘Você tem conta no exterior?’ Ele falou: ‘Não tenho’. Eu falei: ‘Acabou’.” Simples assim: além de viúvo, é amigo fiel e confiante.

O senhor Lula da Silva parece apostar que todos os brasileiros são tão ingênuos e inocentes quanto ele tentou parecer diante do juiz Sérgio Moro. Mas o depoimento do petista em Curitiba teve o efeito contrário: com exceção da mirrada claque arregimentada pelos sindicatos para lhe dar apoio, o País finalmente pôde ver o senhor Lula da Silva por inteiro, exatamente como ele é. E o que se viu, não fosse repugnante, seria apenas de dar dó.

 

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  • Arthur Xexéo
  • 12 Maio 2017

 

NOTA: O autor deste texto, publicado em O Globo, no dia 27 de março do ano passado, foi um dos muitos, dos milhares de jornalistas, que, com suas opiniões, empurraram o PT para o poder. Não são poucos os que caíram em si, perceberam o equívoco e produziram textos que gosto de divulgar. Nem todos desembarcaram, em definitivo, da esquerda. Xexéo talvez seja um destes, mas sua crônica, aqui, merece ser lida. (Percival Puggina)


Ando sensível. Acho que já contei isso aqui. Choro à toa. Antes era com comercial de margarina, cenas de novela, trechos do filme. Agora, é lendo jornal. Cada notícia da Lava-Jato, de início, me enche de indignação. Em seguida, fico triste. É aí que choro. Ando tendo vontade de chorar também em discussões com amigos. Gente que tempos atrás dividia comigo a mesma ideologia hoje se comporta como inimiga. Ou sou eu o inimigo? De qualquer maneira, num mundo que derrubava muros, de repente, um muro foi erguido para me separar desses amigos. Tento explicar como vejo o trabalho de Sergio Moro e nunca consigo terminar o raciocínio. No meio da discussão, me emociono, fico com vontade de chorar e prefiro interromper o pensamento. “Coxinha”, me xingam nas redes sociais. Bem, se o mundo está obrigatoriamente dividido entre coxinhas e petralhas, não tenho como fugir: sou coxinha!

Leio na internet que “coxinha” é uma gíria paulista cujo significado se aproxima muito do ultrapassado “mauricinho”. Mas, desde a reeleição de Dilma, esse conceito se ampliou. Serviu para definir de forma pejorativa os eleitores de Aécio Neves. Seriam todos arrumadinhos, malhadinhos, riquinhos e votavam em seu modelo. Isso não tem nada a ver comigo. Mas, nesta briga de agora, estou do lado que é contra Lula, logo sou contra os petralhas, logo sou coxinha.

Gostaria de falar em nome da democracia. Mas não posso. A democracia agora é direito exclusivo dos meus amigos que estão do outro lado do muro. Só eles podem falar em nome dela. Então, como coxinha assumido, deixo uma pergunta. Vocês acharam muito normal o ex-presidente Lula incentivar os sindicalistas para os quais discursou esta semana a irem mostrar ao juiz Sergio Moro o mal que a Operação Lava-Jato faz à economia brasileira? Vocês acreditam sinceramente nisso? O que a Operação Lava-Jato faz? Caça corruptos pelo país. Não importa se são pobres ou ricos. Não importa se são poderosos. Não era isso o que todos queríamos, quando estávamos todos do mesmo lado, quando ainda não havia um muro nos separando, e fomos às ruas pedir Diretas Já? Não era no que pensávamos quando voltamos às ruas para gritar Fora Collor? E, principalmente, não era nisso que acreditávamos quando votamos em Lula para presidente uma, duas, três, quatro, cinco vezes!!! Não era o Lula quem ia acabar com a corrupção? Ele deixou essa tarefa pro Sergio Moro porque quis.

Como, do lado de cá do muro, me decepcionei com o ex-líder operário, o lado de lá deu pra dizer que sou de direita. Se for verdade, está aí mais um motivo para eu estar com raiva de Lula. Foi ele quem me levou pra direita. Confesso que tenho dificuldades de discutir com qualquer petralha que não se irrita quando Lula diz se identificar com quem faz compras na Rua 25 de Março. Vem cá, já faz tempo que os ternos de Lula são feitos pelo estilista Ricardo Almeida. Será que Ricardo Almeida abriu uma lojinha na rua de comércio popular de São Paulo? Por mim, Lula pode se vestir com o estilista que quiser. Mas ele tem que admitir que o discurso da 25 de Março ficou fora do contexto. A gente não era contra discursos demagógicos? O que mudou?

Meus amigos petralhas dizem que é muito perigoso tornar Sergio Moro um herói. Que o Brasil não precisa de um salvador da pátria. Mas, vem cá, não foi como salvador da pátria que Lula foi convocado para voltar ao governo? Não é ele mesmo quem diz que é “a única pessoa” que pode incendiar este país? Não é ele mesmo quem diz que é a “única pessoa” que pode dar um jeito “nesses meninos” do Ministério Público? Será que o verdadeiro perigo não está do outro lado do muro? Não é lá que estão forjando um salvador da pátria?

Há muitas décadas ouço falar que as empreiteiras brasileiras participam de corrupção. Nunca foi provado. Agora, chegou um juiz do Paraná, que investigava as práticas de malfeito de um doleiro local, e, no desenrolar das investigações, botou na cadeia alguns dos homens mais poderosos do país. Enfim, apareceu alguém que levou a sério a tarefa de desvendar a corrupção que há muitos governos atrapalha o desenvolvimento do país. E, justo agora, quando a gente está chegando ao Brasil que sempre desejamos, Lula e seus soldados querem limites para a investigação. Pensando bem, rejeito a acusação de ser coxinha, rejeito ser enquadrado na direita, rejeito o xingamento de antidemocrata, só porque apoio o juiz Sergio Moro e a Operação Lava-Jato. Coxinha é o Lula que se veste com Ricardo Almeida e mantém uma adega de razoáveis proporções no sítio de Atibaia. E, para encerrar, roubo dos petralhas sua palavra de ordem: sinto muito, mas não vai ter golpe. Sergio Moro vai ficar.
 

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  • Ricardo Bordin
  • 11 Maio 2017

 

(Publicado originalmente em www.institutoliberal.org.br)

Chamou minha atenção um artigo recente da Foxnews que dava destaque ao esforço do candidato “de centro” (pero no mucho) à presidência da França, Emmanuel Macron, em busca de votos de moradores de áreas rurais daquele país – os quais, conforme costuma mostrar a experiência prática, favorecem candidatos mais à direita (ao menos em comparação com aqueles residentes em capitais e circunvizinhanças).

Este fenômeno, em verdade, não é uma particularidade adstrita à França, visto que, nas eleições americanas realizadas em 2016, Donald Trump também amealhou votos especialmente de eleitores do countryside, isto é, residentes em condados do interior, ao passo que Hillary Clinton foi favorecida principalmente por eleitores de cidades situadas em regiões litorâneas, grandes centros urbanos e suas cercanias. É claro que, no episódio em questão, os autoproclamados intelectuais não perderam tempo e logo rotularam os primeiros de caipiras e “red necks” ignorantes e desprovidos de cultura – este tipo de preconceito, aparentemente, não provoca “microagressões” que possam sensibilizar o povo politicamente correto.

E como esquecer que, no mesmo sentido, foram os ingleses que não vivem na capital Londres que garantiram a vitória do Brexit? Ou que os votos do interior do país definiram a vitória do “não” no plebiscito da Colômbia que rejeitou o “acordo de paz” com as FARC?

Quais fatores seriam, pois, os responsáveis por esta notória discrepância em termos de preferências políticas em função da localização geográfica, que também costuma ser observada em diversos outros cantos do planeta – e não apenas dentro dos estados ou províncias, mas também quando se traça um paralelo entre diferentes regiões dos países?

Antes de dar início ao estudo de caso, é bom esclarecer que considera-se esquerda e direita como visões dinstintas essencialmente por “defenderem mais ou menos intervenção estatal na sociedade, na economia e na vida de cada indivíduo; verem o estado como a locomotiva da sociedade, seu ente de razão, seu guia para um futuro glorioso e “progressista”, ou acreditarem que a evolução social é feita pelos indivíduos com sólidas bases morais e livres para buscar trocas mutuamente benéficas com outros indivíduos, com a menor participação estatal possível no processo, num sistema que se retroalimenta das informações que nascem destas transações e que se sofistica, portanto, de baixo para cima, do individual para o coletivo, organicamente”, conforme ensina Flávio Morgenstern.

O mais importante dos fatores a serem considerados, por certo, é o fato de que os residentes nas grandes cidades encontram-se, via de regra, mais afastados dos processos produtivos que permitem que haja comida em sua mesa, roupas em seu closet, material de higiene em seu banheiro, e assim por diante. Por outro lado, os habitantes das cidades interioranas (ainda que adjacentes a grandes cinturões urbanos) estão mais próximos das plantações, dos silos, e da maioria das empresas de beneficiamento e transformação.

Em decorrência desta conjuntura, aqueles acabam por esquecer, com o passar do tempo e o suceder das gerações, o quão complexa, intrincada e dependente da iniciativa humana é a cadeia de produção que torna possível que os bens de consumo que possibilitam seu conforto lhes sejam disponibilizados. Esses, a seu turno, conseguem ver com mais facilidade que nada cai do céu, que pão não dá em árvore, que o boi não pula dentro da bandeja de carne voluntariamente. Esta realidade é narrada na canção “Cio da Terra”, de Milton Nascimento:


Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão

E se fartar do pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
roubar da cana a doçura do mel

Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra propícia estação
 E fecundar o chão

Ou seja, os cosmopolitas tendem a, paulatinamente, olvidar-se da importância do sistema de troca voluntárias para sua subsistência e para a geração de tudo aquilo que torna sua vida muito mais digna que a de seus antepassados. E passam, por consequência, a serem muito mais facilmente convencidos de que possuem direito a uma fração qualquer do valor gerado a partir do empenho diuturno de outras pessoas. São, portanto, alvos preferenciais de propagadores de teorias socialistas, segundo as quais sempre houve uma dada quantidade de riqueza imutável no mundo, e que nos basta reivindicar nossa fatia para que tudo seja mais “justo”.

Já os provincianos, por colocarem a mão na massa com muito mais frequência que seus conterrâneos dos grandes conglomerados urbanos, tendem a compreender melhor o esforço contíguo e a extensa cadeia de trabalho que são necessários para dar origem aos produtos e serviços que, hoje, parecem (só parecem) ter sempre estado por aí disponíveis a todos – mesmo aqueles de mais baixa renda. Destarte, vira tarefa bem mais árdua convencer esse pessoal de que alguém além deles mesmos pode melhorar a qualidade de suas vidas.

Outro fator fundamental a ser considerado nesta análise é a diferença de importância conferida à família lá e cá: não há dúvida de que os provincianos dão muito mais valor aos laços de parentesco, uma vez que costumam viver mais próximos uns dos outros e, devido ao relativamente maior isolamento a que são submetidos, a conservar hábitos e costumes – até mesmo pedir “a bênção, pai”.

Além disso, em decorrência de maior escassez de recursos em comparação com regiões metropolitanas, eles tendem a precisar apoiar-se uns nos outros com bem mais frequência, a precisar contar com aqueles em quem confiam – e, nestas horas, nada melhor do que um ser humano consanguíneo (ou que comungue de laços similares) para pedir socorro.

Muitos dos cosmopolitas, entretanto, não apenas olham com profundo desdém para núcleos tradicionais (muito embora nenhum deles, até onde se sabe, tenha sido criado em chocadeira), como também acreditam que haja uma boa dose de “opressão” nas relação familiares – sob forte influência do ambiente intelectual “progressista” destas localidades.

Alexandre Borges, em artigo publicado pelo Instituto Liberal ainda em 2013, ao abordar o sucesso de um programa de TV americano intitulado “Os Robertsons” (uma espécie de reality show protagonizado por uma típica família do interior da Luisiana), foi direto ao ponto quando afirmou:

O sucesso estrondoso de gente como os Robertsons são um pesadelo para qualquer um que trabalha por uma sociedade tutelada pelo estado, com o povo prestando juramento a líderes carismáticos e marchando nas ruas em paradas comemorando o aniversário da revolução. A família é a maior célula de resistência contra o estado e é por isso que é alvo dos ataques dos totalitários há mais de 100 anos. Hitler dizia que não ia se casar porque era “casado com a Alemanha”, por exemplo. Num tipo de estado como o sonhado por socialistas e fascistas, você deve se casar com o estado e tanto os Robertsons quanto os valores que representam são um inimigo a ser derrotado.
Precisa falar mais sobre este aspecto? Não creio.

Por último, mas não menos importante, há o fato de que os cosmopolitas tendem a experimentar menos contato humano direto (tanto no trabalho quanto em sua folga), e a comunicar-se com outras pessoas preferencialmente pela via digital, reduzindo suas vidas a uma espécie de confinamento ideológico, uma bolha virtual. Assim sendo, os problemas da vida real ficam reduzidos a abstrações, tão palpáveis quanto o sofrimento do personagem da novela.

A partir daí, escancarar as fronteiras para “imigrantes” ou sair soltando bandidos na rua como quer a globalista ONU passam a parecer boas ideias – quando observadas, claro, a partir de posições encasteladas, do alto da comodidade da vida moderna, sem precisar imaginar (ou sentir na pele) as verdadeiras consequências de tais medidas (não, pelo menos, até o dia em que a realidade chutar a porta do idealismo; até lá, dá pra brincar de ser a favor do desarmamento e contra a redução da maioridade penal).

Já os provincianos, por passarem, em média, menos tempo nestes enclausuramentos cibernéticos e mais tempo praticando atividades no mundo físico (sejam elas lúdicas ou laborais), tendem a encarar com bem mais ceticismo certos delírios multiculturalistas e outros devaneios do gênero. Eles passam, portanto, a preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica – como diria Michael Oakeshott.

Eis porque candidatos de esquerda costumam precisar suar a camisa para angariar alguns míseros votos do pessoal interiorano. Outros fatores, em especial a formação cultural de um povo, também influenciam sobremaneira neste processo (às vezes, inclusive, revertendo esta expectativa), mas são basicamente os três supracitados que costumam alinhar cosmopolitas à esquerda e provincianos à direita – especialmente ao conservadorismo.

Para se ter uma noção deste fenômeno em nosso território nacional (muito embora ele não se manifeste com tanta força por aqui quanto em outras nações mais politizadas), basta comparar, por exemplo, o desempenho do PT e seus partidos satélites no Rio de Janeiro e no Sul do Brasil (excetuando-se o Rio Grande, cuja herança do Positivismo de Comte deixou um legado assistencialista e paternalista que até hoje perdura). Quem conhece o Paraná e Santa Catarina, e leu este texto com atenção, vai entender e concordar.

Outro dia vivi uma cena hilária: questionei duas senhoras, no interior de Santa Catarina, as quais estavam criticando a crise econômica que atravessamos, se preferiam a volta de Dilma ao poder, ao que responderam em uníssono: “Deus o livre, homem!”. É a indestrutível sabedoria daqueles tidos como capiaus por alguns esnobes do asfalto. Pois sim!

E o que vai acontecer na França? Difícil prever, mas ainda é possível que o “homem comum esquecido”, que já se fez ouvir na América ano passado, fale mais alto na Europa também… (texto escrito na véspera da eleição francesa)
         

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