• Gilberto Simões Pires
  • 26 Junho 2017

 

(Publicado originalmente em pontocritico.com)

"Está tudo sob controle, a democracia consolidada e as instituições funcionando".

SIM, SIM, CLARO.
A propósito, Puggina completou com absoluta certeza dizendo: - "Sim, sim, claro. E eu quero saber onde caiu a minha chupeta, pois está na hora de nanar."

RECEIO DAS INSTITUIÇÕES
Pois, passados mais de um ano a frase já está muito gasta de tanto que é usada. E justamente porque as INSTITUIÇÕES ESTÃO FUNCIONANDO é que fico cada vez mais preocupado. Sim, porque pouco ou quase nada do que as INSTITUIÇÕES estão promovendo me faz confiar e/ou acreditar no nosso empobrecido Brasil.

PARA BOIS E BRASILEIROS DORMIR
Melhor dizendo: exatamente por -CONFIAR- que as nossas INSTITUIÇÕES PÚBLICAS não mostram mínimo interesse em atacar os graves problemas que o Brasil enfrenta, estou cada dia mais convencido de que o -ESTAR TUDO SOB CONTROLE- e que -A DEMOCRACIA ESTÁ CONSOLIDADA- não passa de conversa mole para bois e brasileiros dormir.

ATUALÍSSIMO
Observem que o artigo escrito por Puggina, em 01/2016, mesmo depois de passados quase 18 meses cabe como uma luva para os dias de hoje. E, pelo andar da carruagem, vai continuar atualíssimo para amanhã e para os próximos 1000 anos ou mais.

TEXTO
Eis mais um trecho do texto do Puggina, que vale para TODAS AS INSTITUIÇÕES PÚBLICAS:
Não somos crianças. Falem sério! Está tudo sob controle de quem? Como ousam chamar democracia o ambiente onde agem essas pessoas que se acumpliciaram para dirigir a República? A única ideia correta na citação acima é a que se refere às instituições. Elas estão funcionando, mesmo. O Brasil que temos, vemos e padecemos é produto legítimo e acabado do seu funcionamento. Acionadas, produzem isso aí. Sem tirar nem pôr.

Eis o motivo pelo qual os figurões do governo frequentemente sacam de sua sacola de argumentos a afirmação de que as coisas sempre foram assim. De fato, embora não no grau superlativo alcançado nos últimos 13 anos, o modelo institucional republicano tornou crônicos os mesmos males. Em palestras, refiro-me a isso mediante uma analogia.

NATUREZA DA SEMENTE
Instituições, digo, são como sementes. Uma vez plantadas, germinam, ou seja, funcionam e produzem conforme determinado pela natureza da semente. É o nosso caso. À medida que a urbanização nos tornou sociedade de massa e o Estado empalmou o poder (vejam só!) de definir os valores, a verdade e o bem, decaiu o padrão cultural e moral médio, inclusive, claro, dos membros dos poderes de Estado. Eu assisti isso. Mas a sedução do modelo aos piores vícios, a destreza com que gera crises e a inaptidão para resolvê-las é exatamente a mesma ao longo do período republicano.

 

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  • Bolívar Lamounier
  • 23 Junho 2017

 

(Publicado originalmente no Estadão)


O debate sobre a reforma política arrasta-se desde a Constituinte (1987-1988) e do plebiscito de 1993 sobre o sistema de governo, com resultados práticos assaz limitados. Todo ano, aí por volta de abril, o Congresso Nacional ressuscita a questão, para gáudio do jornalismo político e dos cultores acadêmicos da matéria.

Esquematicamente, creio poder afirmar que esse ciclo anual se repete com uma notável falta de clareza quanto ao que precisa ser reformado e aos objetivos mais amplos, direi mesmo estratégicos, de uma eventual reforma. Ao longo do tempo, essas duas carências foram agravadas por um retrocesso na discussão do modus faciendi – ao “como” da reforma. Em nome do realismo, convencionou-se que a reforma haveria de ser “fatiada”, minimalista, conceito válido enquanto referência às dificuldades de aprovação no Congresso, mas que obviamente prejudica a reflexão de substância quanto ao “quê” e ao “para quê” reformar. Sem esquecer que mesmo as finas fatias que começaram a ser cogitadas desde a segunda metade dos anos 1990 não percorreram com a suavidade esperada o trato digestivo dos senhores senadores e deputados.

Neste ano da graça de 2017, a discussão retorna envolta em espessas nuvens escuras. Seu objeto já não é a uma conjuntura de instabilidade institucional considerada em abstrato, mas uma instabilidade real batendo às nossas portas. Tampouco se trata de uma situação de ineficácia governamental crônica – de “ingovernabilidade”, no jargão dos cientistas políticos –, considerada em tese, mas dos graves danos infligidos ao País pelo governo da senhora Dilma Rousseff, da inacreditável perda de tempo exigida pelo impeachment e dos riscos que se perpetuam em razão da debilidade do governo Temer. Quase três anos de recessão e o assustador aumento do número de desempregados parece ainda insuficiente para os dirigentes políticos e os quadros formadores da opinião nacional encararem com seriedade a questão da reforma.

Reformar o quê? Depois da tragicomédia do impeachment de Dilma Rousseff e do mero fato de se haver cogitado da antecipação das eleições de 2018, parece-me fora de dúvida que o cerne da questão é o sistema presidencialista de governo. O traço essencial desse sistema é, como sabemos, a rigidez. Do ponto de vista institucional, o Legislativo e o Executivo, eleitos em separado, com base em princípios distintos, nada devem um ao outro. Salvo o amargo remédio do impeachment, que inevitavelmente envolve o processo político num cipoal jurídico apenas acessível aos especialistas, um Poder não tem como influir sobre o outro. Inexiste base constitucional para tanto. Assim, seja qual for o tamanho do desastre causado por qualquer dos dois, ou por ambos, eventuais crises só podem ser superadas pela passagem do tempo. Não por ações e negociações políticas, mas pelo estrito formalismo do calendário nacional. O resto é golpe.

Essa, exatamente, é a situação em que o Brasil se encontra e que, a rigor, teve início já nas primeiras semanas do segundo mandato da senhora Rousseff. No sistema parlamentarista, o chefe de governo (primeiro-ministro) que não disponha de apoio congressual para governar pode ser afastado a qualquer tempo, tenha ou não cometido crime de responsabilidade. E a recíproca é verdadeira. Uma legislatura que se recuse a colaborar com o Executivo, aprovando em tempo razoável medidas de alta relevância para a sociedade, pode ser dissolvida, com a convocação de eleições parlamentares antecipadas. O Executivo dispõe, portanto, de uma alavanca poderosa para resolver impasses, evitando que os congressistas transformem diferenças razoáveis de avaliação num jogo estéril, num desperdício de tempo que o país não pode tolerar.

Deixei propositalmente de lado o problema do chamado “presidencialismo de coalizão”. Num quadro como o nosso, de proliferação partidária desordenada, é praticamente nula a chance de o Executivo formar uma base de apoio com duas ou três agremiações; se o maior partido dispõe de apenas cerca de 20% das cadeiras legislativas, o presidencialismo será inevitavelmente “de coalizão”. Os absurdos que tal condição implica aí estão, à vista de todos. Idealmente, portanto, a eventual adoção do parlamentarismo deve associar-se a uma freada enérgica na proliferação. Mas não concordo com a afirmação de que o conserto da estrutura partidária seja uma precondição para a mudança do sistema de governo. De fato, é comum ouvir que o parlamentarismo não pode ser implantado “com esse Congresso”, ou “com essa estrutura partidária fragmentada”. Ora, nas condições brasileiras, o que torna as alavancas parlamentaristas necessárias e urgentes é justamente o fato de termos “esse Congresso” e “esses partidos”, travas que o sistema presidencialista não tem como romper.

Reformar para quê? Aventuro-me a afirmar que a instabilidade do regime constitucional, risco intensamente considerado pelos constituintes de 1987-1988, já não é uma ameaça grave no Brasil. Muito mais séria é a ineficácia ou baixa eficiência do processo decisório (o risco da “ingovernabilidade”) – como o evidencia o sofrido andamento das reformas trabalhista e previdenciária no Congresso. Nunca é demais lembrar que o Brasil é um dos países aprisionados no que os economistas chamam de “armadilha da renda média”. Refiro-me aqui a países que chegaram até com certa facilidade ao patamar de 10 mil ou 12 mil dólares de renda anual por habitante, mas não conseguem pular para os 20 ou 25 mil, nível ainda modesto, característico dos países mais pobres da Europa, como Grécia e Portugal.


*Sócio-diretor da Augurium Consultoria e autor do livro Liberais e Antiliberais: a luta ideológica do nosso tempo” (Companhia das Letras, 2016)

 

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  • Daniel Greenfield
  • 23 Junho 2017

 

(Reproduzido de http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino)

Se você quiser saber quem tem privilégios em uma sociedade, vá atrás da raiva.
Há pessoas nos EUA que podem expressar a raiva com segurança. E há pessoas que não podem. Se você está com raiva porque Trump venceu, sua raiva é socialmente aceitável. Se você está com raiva porque Obama venceu, ela não é.

A raiva de James Hodgkinson era socialmente aceitável. Ela continuou sendo socialmente aceitável até ele extrapolar e chegar ao homicídio. E ele não está só. Existe Micah Xavier Johnson, o assassino de policial do Black Lives Matter de Dallas, e Gavin Long, o assassino de policiais do Black Lives Matter em Baton Rouge. Se você é negro e sente raiva da polícia, sua raiva é festejada. Se você é branco e sente raiva pelo bloqueio de viagens do Terror, pela rejeição ao tratado do clima de Paris, ou por qualquer causa da esquerda, você está do lado dos anjos raivosos.

Mas se você é branco e sente raiva porque seu emprego está indo para a China ou por ter escapado por um triz de ser morto por um muçulmano suicida com bombas, sua raiva é inaceitável.

Se você é um esquerdista raivoso, seu líder partidário, Tom Perez, vai gritar e xingar ao microfone, e sua aspirante a candidata à presidência, Kirsten Gillibrand, vai xingar junto, para canalizar a raiva da base. Mas se você é um conservador raivoso, então Trump canalizar sua raiva é “perigoso” porque você não tem permissão para sentir raiva.

Nem toda raiva é igual. Alguma raiva é raiva privilegiada.

A boa raiva consegue uma boquinha de comentarista na CNN. A má raiva faz você ser expulso do seu emprego. A boa raiva não é, de forma alguma, descrita como raiva. Em vez disso, ela é linguisticamente transformada em “passional” ou “corajosa”. A má raiva, entretanto, é “preocupante” e “perigosa”. Os militantes esquerdistas raivosos “clamam”; os militantes de direita raivosos “ameaçam”. A boa raiva é de esquerda. A má raiva é de direita.

Demonstrações de raiva socialmente aceitáveis, do Occupy Wall Street aos distúrbios do Black Lives Matter até as marchas contra Trump e os furiosos protestos nos campus universitários, são invariavelmente esquerdistas.

A raiva da esquerda pela eleição de Bush e de Trump foi santificada. A indignação da direita pela vitória de Obama foi demonizada. Agora, a raiva da esquerda levou um voluntário de Bernie Sanders a abrir fogo em um evento beneficente republicano, um treino de beisebol. E a mídia hesita em admitir que talvez os dois lados devam moderar a retórica. Antes de listar exemplos que tenham tendência à direita como o “Prende ela”.

Por que slogans como o “Prende ela” são desmedidos, mas os gritos de “o chefe na cadeia” da era Bush não são? Por que os comícios do Tea Party eram “ameaçadores”, mas a última marcha “Nós Odiamos Trump” é corajosa? Por que matar Trump no palco é a forma mais maneira de encenar Shakespeare enquanto um palhaço de rodeio que usou uma máscara de Obama foi massacrado por todos, do vice-governador do Missouri até a NAACP?

Nem toda raiva é igual. A raiva, como qualquer outra coisa, é ideologicamente codificada. A raiva esquerdista é boa porque os fundamentos ideológicos são bons. A raiva da direita é má porque a ideologia é má.

O que torna a raiva boa ou má não é o nível, a intensidade ou a natureza ameaçadora.

E é por isso que a esquerda recorre à violência com tanta facilidade. Todos os fins ideológicos dela são bons. Portanto, significa que desde fome maciça, gulags, distúrbios e tirania, tudo tem de ser bom. Se eu furar seus pneus por causa do seu adesivo favorável ao Obama, eu sou um monstro. Mas se você arranhar o meu carro por causa do meu adesivo favorável ao Trump, você está combatendo o racismo e o machismo. Suas táticas podem ser equivocadas, mas seu ponto de vista não é.

Não há padrões universais de comportamento. A civilidade, como tudo o mais, é limitada ideologicamente.

A teoria interseccional não desaprova a expectativa de comportamento civilizado vinda de manifestantes “oprimidos”. Pedir que os estridentes manifestantes dos campus não berrem ameaças na sua cara é “policiamento de tom”. A filha de um afro-americano milionário em Yale está lutando pela própria “existência”, diferente de um mineiro de carvão da Pensilvânia, do oficial de polícia de Baltimore e da florista cristã cujas existências estão realmente ameaçadas.

O policiamento de tom é o que protege a raiva dos esquerdistas privilegiados, enquanto a frustração das vítimas deles é suprimida. A existência do policiamento de tom como um termo específico de proteção das demonstrações de raiva da esquerda exibe o colapso da civilidade sugada pelo privilégio da raiva. A civilidade foi substituída por uma prerrogativa política à raiva.

A esquerda se orgulha de ter uma superioridade moral não conquistada (“Quando eles descem, nós subimos”) reforçada pela própria câmara de eco enquanto ela se torna incapaz de controlar os próprios acessos de raiva. O chilique nacional depois da vitória de Trump quase conseguiu calar o governo, transformou todos os veículos de mídia em alimento inesgotável de teorias de conspiração e disparou protestos que logo chegaram à violência urbana.

Mas a Síndrome da Irracionalidade de Trump é um sintoma de um problema da esquerda que existia desde antes de ele nascer. A esquerda é um movimento raivoso. Ela é animada por uma indignação pomposa cuja superioridade moral se desdobra em desumanização. E o maquinário cultural da esquerda dá glamour a essa raiva. A mídia enfeita a raiva borbulhante de modo a que a esquerda nunca tenha de encarar o próprio Hodgkinson no espelho.

A esquerda está mais raivosa do que nunca. Os distúrbios nos campus e os atentados contra políticos republicanos não são nenhuma novidade. O que está mudando é que os adversários estão começando a se igualar em raiva. A esquerda ainda se agarra à mesma raiva que tinha quando era um movimento teórico com planos, mas pouco impacto no país. A indignação contra a esquerda não é mais ideológica. Há milhões de pessoas cujos planos de saúde foram destruídos pelo Obamacare, cujo direito à livre expressão foi retirado, cuja terra foi confiscada, cujos filhos foram doutrinados contra eles e cujos meios de vida foram destruídos.

A esquerda raivosa ganhou muito poder. Ela usou esse poder para destroçar vidas. Ela está conspirando ansiosamente para privar cerca de 63 milhões de pessoas de seus votos pelo uso de seu poder entrincheirado no governo, da mídia e do terceiro setor. E ela está blindada demais pela própria raiva pelo resultado da eleição para reconhecer a raiva dos próprios abusos de poder no atacado e nos chiliques privilegiados.

Mas o monopólio da raiva só funciona em estados totalitários. Em uma sociedade livre, espera-se que os dois lados controlem a raiva e encontrem termos nos quais possam debater e resolver as questões. A esquerda rejeita a civilidade e se recusa a controlar a raiva. O único termo que ela vai aceitar é o poder absoluto. Se uma eleição não dá um resultado que lhe agrade, ela vai derrubar o resultado. Se alguém a ofende, tem de ser punido. Ou haverá raiva.

A esquerda raivosa exige que todos reconheçam a absoluta retidão da sua raiva como base do seu poder. Esse privilégio da raiva, como o policiamento de tom, é frequentemente apresentado em termos de grupos oprimidos. Mas a raiva da esquerda não desafia a opressão, ela busca a opressão.

O privilégio da raiva é usado para silenciar a oposição, para fazer cumprir postura ilegais e para tomar o poder. Mas o monopólio da raiva da esquerda é cultural, não político. A indústria do entretenimento e a mídia podem fazer cumprir as normas do privilégio da raiva através da humilhação pública, mas a difamação não pode deter as consequências do colapso da civilidade na vida pública. Não existe monopólio de emoção.

Quando a raiva se torna a base do poder politico, ela não vai parar com Howard Dean ou Bernie Sanders. Foi isso o que a esquerda descobriu na última eleição. O falso horror da esquerda foi uma reação às consequências da própria destruição da civilidade. A reação da esquerda à demonstração de raiva dos conservadores e dos independentes foi o agravamento do conflito. Em vez de se apresentar como oposição, a esquerda se tornou a “resistência”. Trump se tornou simultaneamente Hitler e traidor. Os republicanos se tornaram feras malignas.

James Hodgkinson absorveu tudo isso. A esquerda alimentou a raiva dele. E, finalmente, ele surtou.
A raiva tem de escoar.

A esquerda gosta de pensar que a própria raiva é boa raiva porque é raiva contra as tribulações de estrangeiros ilegais, terroristas muçulmanos, banheiros transgêneros, a falta de aborto na Carolina do Sul, o salário mínimo no Taco Bell, os cortes de orçamento, os cortes tributários, as prisões pela polícia, os ataques com drones e todos os outros modos em que a realidade seja diferente da utopia. Mas tanta raiva não leva a um mundo melhor, mas leva ao ódio e à violência.

Milhões de esquerdistas como Hodgkinson ouvem todo dia que os republicanos são responsáveis por tudo de errado na vida deles, no país e no planeta. Apesar de tudo o que eles fazem, de todas as petições que eles assinam, das marchas a que comparecem, dos donativos, das cartas raivosas, das arengas nas mídias sociais, os republicanos continuam a existir e até são eleitos para cargos públicos. Pra onde vai tanta raiva?

Ou nós temos um sistema politico baseado nas leis em vigor e nas normas de civilidade, ou teremos um baseado em golpes e na raiva populista da esquerda. E eles já existem aos montes ao sul das nossas fronteiras.

A raiva da esquerda é uma bolha privilegiada de arrogância que estoura eleição sim, eleição não. A opção é tentar entender o resto do país ou intimidar, censurar e oprimir, chegando, enfim, a matar os outros.

James Hodgkinson escolheu a segunda opção. A revolução esquerdista pessoal dele acabou, como todas as outras revoluções esquerdistas acabam, em sangue e violência. A esquerda pode se desfazer do próprio privilégio à raiva e examinar a própria arrogância.

Ou a violência que vem dela será o nosso futuro.

* Publicado originalmente no FrontPage Magazine, em tradução livre de Claudia Costa.
 

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  • Gilberto Simões Pires
  • 23 Junho 2017


Enquanto o Brasil do SETOR PRIVADO, que realmente produz e faz com que a nossa economia siga respirando, ainda que por aparelhos, um outro Brasil, GOVERNAMENTAL, ou SETOR PÚBLICO, que além de não produzir coisa alguma ainda precisa ser alimentado, de forma descomunal e obrigatória pela escorraçada sociedade PAGADORA DE IMPOSTOS.


SUFOCO
Ora, diante do peso excessivo, confirmado pelo avantajado tamanho do SETOR PÚBLICO, todos aqueles que produzem e consomem (pagadores de impostos) se veem obrigados a RENUNCIAR a muitos de seus desejos, tanto de consumo quanto de investimentos, para satisfazer a insaciável fome GOVERNAMENTAL.


PROVA DAS CONTAS PÚBLICAS
O grande e inquestionável atestado desta fome insaciável do SETOR PÚBLICO, que não demonstra mínima vontade de fazer qualquer regime de emagrecimento, está estampado, com absoluta transparência e clareza, nas ALTAMENTE DEFICITÁRIAS CONTAS PÚBLICAS, não só do país como de vários Estados e Municípios.


PROVA DO PIB
Já no que diz respeito a real, espetacular e preocupante renúncia do consumo e, consequentemente, de investimentos na produção, está registrada através do péssimo desempenho do PIB brasileiro, que nos últimos anos só experimentou quedas pra lá de lamentáveis.


CORRUPÇÃO
Como se este quadro de incompetência -propositada- já não bastasse para levar, literalmente, o Brasil para dentro do abismo, sem saber se o buraco tem fundo ou se trata de algo infinito, a CORRUPÇÃO ganhou proporção incomensurável e tudo indica que levará muito tempo para ser desvendada.


SETOR PÚBLICO
Pois, diante deste quadro complicado e de difícil solução vê-se, claramente, dois tipos de comportamento:
1- grande parte do SETOR PÚBLICO, bafejado pelas forças sindicais, não aceita, em hipótese alguma, a perda de privilégios, a realização de reformas e a necessária diminuição da elevada taxa de desemprego. Para tanto rejeitam as reformas que poderiam estimular algum crescimento econômico, ainda que tímido.


SETOR PRIVADO
2- o SETOR PRIVADO, por sua vez, ao invés de entrar em campo para apoiar e/ou exigir as reformas que levem a uma abertura do caminho e da confiança para produzir e consumir de acordo com a sua vontade e interesse, só tem se apresentado para lamentar. Com isto, as corporações, que sequer são ameaçadas, vêm colhendo vitórias em cima de vitórias.

 

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  • Flavio Morgenstern em Senso Incomum
  • 22 Junho 2017

(Publicado originalmente em sensoincomum.org)

O apresentador Rodrigo Hilbert terá de depor por exibir o abatimento de uma ovelha. E se fosse um aborto? Ou o amor de Lula por cabritas?

O apresentador de programas de culinária Rodrigo Hilbert será intimado a prestar depoimento na 14ª Delegacia de Polícia, no Leblon, para se explicar por ter cometido o hediondo crime de… abater uma ovelha em seu programa, que, segundo o Estadão, “mostrava a realidade dos produtores rurais em Santa Catarina”.

A situação transita perigosamente entre a comicidade e a morbidez totalitária, ainda mais em se tratando de um programa que mostra, justamente, a realidade dos produtores rurais. Afinal, quanto ainda podemos punir as pessoas por se apegarem à realidade, ao invés de viver em um safe space protegido por uma bolha de vácuo?

O caso de Rodrigo Hilbert parece alguma piada a ser comentada rapidamente na internet, mas reflete uma tendência muito maior e perigosa no Brasil e no mundo: a proibição do que possa ser “ofensivo”. Como se estar ofendido fosse sinônimo de estar certo. Ou, ainda pior, de estar sofrendo uma injustiça – basta pensar no que qualquer político diz ao ser pego com a boca na botija para entender o tamanho do problema.

A idéia de levar às autoridades (gerando jurisprudência e, posteriormente, costumes e leis) qualquer “ofensa” esconde ainda um perigo ainda maior, e nem por isso mais lento: a contemporânea proibição de falar a verdade. Rodrigo Hilbert, ao mostrar justamente a realidade da vida e do trabalho de produtores rurais, que alimentam o país inteiro e põem mistura no prato de cada pobre que pode comer um bife no país. Como alguém precisa depor por mostrar como se abate uma ovelha?

O apresentador foi denunciado por uma ONG de defesa de “direitos dos animais”. Uma petição na internet pediu o cancelamento do programa, sob esta justificativa (e esta é uma citação verdadeira):
“Porque ele assassinou ao vivo uma ovelha filhote, assassinou sorrindo, mostrando como é psicopata, monstruoso. Relatos de crianças que assistiram e não param de chorar, e perderam o apetite, e adultos também.”

Alguém precisa estar realmente doente para chamar um abate de “assassinato”, ou achar que tornar um animal em alimento é psicopatia. Estas pessoas não teriam a comida que receberam amorosamente da vovó e a capacidade de fazer sinapses tão longes de um silogismo se seus antepassados não tivessem comido ovelhas abatidas e muita proteína animal em um mundo selvagem e hostil. E alimentar famílias certamente é um motivo para sorrir. Votar em quem faz suruba financeira com dinheiro alheio via Friboi e JBS é que não é.

E adultos chorando por que Rodrigo Hilbert mostrou como se mata uma ovelha antes de se ter costelinha no supermercado? Já sugerimos aqui neste Senso Incomum na época da transmissão: que tal filmar um aborto? Podemos apostar de 10 contra 1 que os hipersensíveis que mandarão o apresentador para a delegacia por fazer o que é preciso ser feito para alimentar este país certamente são favoráveis ao aborto. Vamos filmar um aborto para ver se as criancinhas e adultos sorriem? Ou isso não seria “psicopatia”?

Pessoas apregoam o aborto livremente, e ninguém é obrigado a depor em delegacias por psicopatia. Para não falar em Maria do Rosário. Bastaria um único vídeo mostrando um aborto, ainda que indiretamente, e a discussão acabaria no país. Ou mesmo os vídeos da Planned Parenthood, a instituição à qual Hillary Clinton prometia mais verbas do pagador de impostos americanos em seus debates, cujos funcionários negociavam abertamente partes de fetos abortados.

Mas se a ONG de “direitos dos animais” quer fazer Rodrigo Hilbert ir à delegacia por transformar uma ovelha em alimento, desfrutado por 99% dos brasileiros, poderia exigir que um outro cidadão tenha de enfrentar a força da lei pelos maus tratos aos animais. Trata-se de Luiz Inácio Lula da Silva, que em entrevista à Playboy em 1979 defendeu alguns hábitos sexuais que não citou em suas campanhas by Duda Mendonça:
Playboy – Com que idade você teve sua primeira experiência sexual?

Lula – Com 16 anos.

Playboy – Foi com mulher ou com homem

Lula (surpreso) – Com mulher, claro! Mas, naquele tempo, a sacanagem era muito maior do que hoje. Um moleque, naquele tempo, com 10, 12 anos, já tinha experiência sexual com animais… A gente fazia muito mais sacanagem do que a molecada faz hoje. O mundo era mais livre…

Hoje, só a surpresa em dizer que não é gay é que causaria asco à militância. Provavelmente sua defesa apaixonada, romântica e de bom selvagem pelo “mundo mais livre” da bestialidade fosse chamada de “transespecismo” ou algum outro nome acadêmico chic do gênero. E os críticos seriam pechados como transespeciofóbicos. Com hashtag e tudo.

Basta cotejá-la a uma notícia também curiosa: um restaurante vegano espanhol proibiu uma mãe de amamentar o filho com uma mamadeira por ser um produto de origem animal. Novamente, é o tipo de notícia na qual os Social Justice Warriors (SJW) não podem pensar por muito tempo ou tentar extrair um princípio, ou terão de escolher entre feministas e vegans, e sua noção de justiça é apenas a de que ambos estão sempre certos.

Além de exigir dispêndio com a lei por simplesmente filmar a realidade, proibir cada vez menos lentamente que se fale a verdade e criar busílis com algo inócuo (e mesmo necessário) em um país com problema de fome e 60 mil homicídios por ano (boa parte deles graças às políticas de Lula), a hipersensibilidade seletiva de nossos Social Justice Warriors só mostra o quanto estão afastados justamente da realidade que Rodrigo Hilbert mostrou in true colours. E do que preocupa de fato o brasileiro de carne e osso, assassinado por psicopatas e com horror ao genocídio infantil do aborto.

De fato, parece que o único jeito de lidar com ovelhas sem “ofender” nenhuma ONG na qual ninguém votou para definir o que deve ser proibido e o que deve ser livre é se as comermos vivas. Com amor e camisinha.

 

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  • Editorial do Estadão
  • 19 Junho 2017

 

O PT mente com tamanha determinação e energia que, mesmo sendo o principal responsável pela crise econômica, política e moral que o País hoje enfrenta, consegue aparecer, pasme o leitor, como a vanguarda da luta contra um governo em cuja testa pregou o estigma de “corrupto” e “inimigo do trabalhador”. Se há algo que o governo de Michel Temer poderia aprender com os aguerridos petistas, é justamente o vigor com que eles se dedicam à tarefa de fazer prevalecer sua versão dos fatos, mesmo que esta, no caso petista, contrarie frontalmente a realidade. Tivesse metade dessa garra ao defender as reformas que encaminhou e ao denunciar o descalabro que herdou da trágica era lulopetista, certamente o presidente Temer estaria em melhor situação.

É certo que a mentira frequenta certos círculos políticos, mas, numa época em que, infelizmente, a verdade aparenta importar cada vez menos, o PT parece ter entendido muito bem o poder do discurso que seja apenas “lógico”, isto é, que faça “sentido”, embora não guarde relação nenhuma com a realidade. Se é de uma batalha que se trata, travada entre a realidade e a “pós-verdade” – termo que designa as circunstâncias em que as crenças pessoais são mais importantes do que os fatos objetivos –, o PT está claramente muito mais bem preparado para ela do que seus adversários.

Para um partido que foi dado como praticamente aniquilado depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff e da grande derrota nas eleições municipais de 2016, o PT ainda consegue atrapalhar, e muito, o necessário debate nacional. Basta que seu chefão, Lula da Silva, empunhe um microfone para que os grandes dilemas e desafios nacionais se reduzam a um confronto pueril entre o bem – representado pelos petistas, naturalmente – e o mal, encarnado no “resto”, em especial nos “golpistas” alinhados a Temer, na mídia e nos empresários gananciosos.

É claro que, deflagrada nesses termos, tal batalha exige muito mais do lado de quem precisa governar, isto é, lidar com os fatos da vida real, do que daqueles que não têm nenhuma responsabilidade. Enquanto Lula da Silva grita por aí que “voltou a ter criança pedindo esmola” e que “nós sabemos como fazer a economia crescer, como criar emprego, como aumentar salário”, o presidente Temer e sua competente equipe econômica precisam articular politicamente apoio a medidas de austeridade que são, por sua própria natureza, impopulares. Não é difícil imaginar quem sairá mais lanhado desse embate.

Queixar-se de que Lula está a desferir golpes abaixo da linha da cintura e tentar desmentir cada uma de suas patranhas, como se a verdade pudesse dessa maneira prevalecer, é justamente o que o demiurgo petista pretende. Os petistas em geral, e Lula em particular, têm certeza de que uma parte do eleitorado prefere acreditar nas suas mentiras delirantes, pois elas são um confortável refúgio ante o desafio de reconstruir o País à custa do sacrifício de todos. É perda de tempo, portanto, chamar os petistas à responsabilidade, porque eles nunca se dispuseram a colaborar efetivamente para a melhora da vida nacional, dado que estão preocupados apenas com seu projeto de poder, que está na gênese de toda essa crise.

O governo Temer faria melhor se viesse a público com a mesma determinação de seus tinhosos adversários petistas e defendesse de forma mais enfática as reformas econômicas de que o País tanto necessita. Também faria melhor se demonstrasse, ao mesmo tempo, o mal que o PT causou ao Brasil. Em situações normais não é elegante que um governante fique a justificar suas dificuldades citando a “herança maldita” de seu antecessor, mas definitivamente não vivemos tempos normais.

Nada garante que essa estratégia assegurará um triunfo completo sobre as mentiras de Lula e sua turma, mas pelo menos arregimentará, para o governo, um apoio mais vibrante do Brasil decente, que sabe muito bem o que o PT fez ao País e o que é preciso fazer para sair da crise.
 

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