(Publicado originalmente em www.institutoliberal.org.br)
Chamou minha atenção um artigo recente da Foxnews que dava destaque ao esforço do candidato “de centro” (pero no mucho) à presidência da França, Emmanuel Macron, em busca de votos de moradores de áreas rurais daquele país – os quais, conforme costuma mostrar a experiência prática, favorecem candidatos mais à direita (ao menos em comparação com aqueles residentes em capitais e circunvizinhanças).
Este fenômeno, em verdade, não é uma particularidade adstrita à França, visto que, nas eleições americanas realizadas em 2016, Donald Trump também amealhou votos especialmente de eleitores do countryside, isto é, residentes em condados do interior, ao passo que Hillary Clinton foi favorecida principalmente por eleitores de cidades situadas em regiões litorâneas, grandes centros urbanos e suas cercanias. É claro que, no episódio em questão, os autoproclamados intelectuais não perderam tempo e logo rotularam os primeiros de caipiras e “red necks” ignorantes e desprovidos de cultura – este tipo de preconceito, aparentemente, não provoca “microagressões” que possam sensibilizar o povo politicamente correto.
E como esquecer que, no mesmo sentido, foram os ingleses que não vivem na capital Londres que garantiram a vitória do Brexit? Ou que os votos do interior do país definiram a vitória do “não” no plebiscito da Colômbia que rejeitou o “acordo de paz” com as FARC?
Quais fatores seriam, pois, os responsáveis por esta notória discrepância em termos de preferências políticas em função da localização geográfica, que também costuma ser observada em diversos outros cantos do planeta – e não apenas dentro dos estados ou províncias, mas também quando se traça um paralelo entre diferentes regiões dos países?
Antes de dar início ao estudo de caso, é bom esclarecer que considera-se esquerda e direita como visões dinstintas essencialmente por “defenderem mais ou menos intervenção estatal na sociedade, na economia e na vida de cada indivíduo; verem o estado como a locomotiva da sociedade, seu ente de razão, seu guia para um futuro glorioso e “progressista”, ou acreditarem que a evolução social é feita pelos indivíduos com sólidas bases morais e livres para buscar trocas mutuamente benéficas com outros indivíduos, com a menor participação estatal possível no processo, num sistema que se retroalimenta das informações que nascem destas transações e que se sofistica, portanto, de baixo para cima, do individual para o coletivo, organicamente”, conforme ensina Flávio Morgenstern.
O mais importante dos fatores a serem considerados, por certo, é o fato de que os residentes nas grandes cidades encontram-se, via de regra, mais afastados dos processos produtivos que permitem que haja comida em sua mesa, roupas em seu closet, material de higiene em seu banheiro, e assim por diante. Por outro lado, os habitantes das cidades interioranas (ainda que adjacentes a grandes cinturões urbanos) estão mais próximos das plantações, dos silos, e da maioria das empresas de beneficiamento e transformação.
Em decorrência desta conjuntura, aqueles acabam por esquecer, com o passar do tempo e o suceder das gerações, o quão complexa, intrincada e dependente da iniciativa humana é a cadeia de produção que torna possível que os bens de consumo que possibilitam seu conforto lhes sejam disponibilizados. Esses, a seu turno, conseguem ver com mais facilidade que nada cai do céu, que pão não dá em árvore, que o boi não pula dentro da bandeja de carne voluntariamente. Esta realidade é narrada na canção “Cio da Terra”, de Milton Nascimento:
Debulhar o trigo
Recolher cada bago do trigo
Forjar no trigo o milagre do pão
E se fartar do pão
Decepar a cana
Recolher a garapa da cana
roubar da cana a doçura do mel
Se lambuzar de mel
Afagar a terra
Conhecer os desejos da terra
Cio da terra propícia estação
E fecundar o chão
Ou seja, os cosmopolitas tendem a, paulatinamente, olvidar-se da importância do sistema de troca voluntárias para sua subsistência e para a geração de tudo aquilo que torna sua vida muito mais digna que a de seus antepassados. E passam, por consequência, a serem muito mais facilmente convencidos de que possuem direito a uma fração qualquer do valor gerado a partir do empenho diuturno de outras pessoas. São, portanto, alvos preferenciais de propagadores de teorias socialistas, segundo as quais sempre houve uma dada quantidade de riqueza imutável no mundo, e que nos basta reivindicar nossa fatia para que tudo seja mais “justo”.
Já os provincianos, por colocarem a mão na massa com muito mais frequência que seus conterrâneos dos grandes conglomerados urbanos, tendem a compreender melhor o esforço contíguo e a extensa cadeia de trabalho que são necessários para dar origem aos produtos e serviços que, hoje, parecem (só parecem) ter sempre estado por aí disponíveis a todos – mesmo aqueles de mais baixa renda. Destarte, vira tarefa bem mais árdua convencer esse pessoal de que alguém além deles mesmos pode melhorar a qualidade de suas vidas.
Outro fator fundamental a ser considerado nesta análise é a diferença de importância conferida à família lá e cá: não há dúvida de que os provincianos dão muito mais valor aos laços de parentesco, uma vez que costumam viver mais próximos uns dos outros e, devido ao relativamente maior isolamento a que são submetidos, a conservar hábitos e costumes – até mesmo pedir “a bênção, pai”.
Além disso, em decorrência de maior escassez de recursos em comparação com regiões metropolitanas, eles tendem a precisar apoiar-se uns nos outros com bem mais frequência, a precisar contar com aqueles em quem confiam – e, nestas horas, nada melhor do que um ser humano consanguíneo (ou que comungue de laços similares) para pedir socorro.
Muitos dos cosmopolitas, entretanto, não apenas olham com profundo desdém para núcleos tradicionais (muito embora nenhum deles, até onde se sabe, tenha sido criado em chocadeira), como também acreditam que haja uma boa dose de “opressão” nas relação familiares – sob forte influência do ambiente intelectual “progressista” destas localidades.
Alexandre Borges, em artigo publicado pelo Instituto Liberal ainda em 2013, ao abordar o sucesso de um programa de TV americano intitulado “Os Robertsons” (uma espécie de reality show protagonizado por uma típica família do interior da Luisiana), foi direto ao ponto quando afirmou:
O sucesso estrondoso de gente como os Robertsons são um pesadelo para qualquer um que trabalha por uma sociedade tutelada pelo estado, com o povo prestando juramento a líderes carismáticos e marchando nas ruas em paradas comemorando o aniversário da revolução. A família é a maior célula de resistência contra o estado e é por isso que é alvo dos ataques dos totalitários há mais de 100 anos. Hitler dizia que não ia se casar porque era “casado com a Alemanha”, por exemplo. Num tipo de estado como o sonhado por socialistas e fascistas, você deve se casar com o estado e tanto os Robertsons quanto os valores que representam são um inimigo a ser derrotado.
Precisa falar mais sobre este aspecto? Não creio.
Por último, mas não menos importante, há o fato de que os cosmopolitas tendem a experimentar menos contato humano direto (tanto no trabalho quanto em sua folga), e a comunicar-se com outras pessoas preferencialmente pela via digital, reduzindo suas vidas a uma espécie de confinamento ideológico, uma bolha virtual. Assim sendo, os problemas da vida real ficam reduzidos a abstrações, tão palpáveis quanto o sofrimento do personagem da novela.
A partir daí, escancarar as fronteiras para “imigrantes” ou sair soltando bandidos na rua como quer a globalista ONU passam a parecer boas ideias – quando observadas, claro, a partir de posições encasteladas, do alto da comodidade da vida moderna, sem precisar imaginar (ou sentir na pele) as verdadeiras consequências de tais medidas (não, pelo menos, até o dia em que a realidade chutar a porta do idealismo; até lá, dá pra brincar de ser a favor do desarmamento e contra a redução da maioridade penal).
Já os provincianos, por passarem, em média, menos tempo nestes enclausuramentos cibernéticos e mais tempo praticando atividades no mundo físico (sejam elas lúdicas ou laborais), tendem a encarar com bem mais ceticismo certos delírios multiculturalistas e outros devaneios do gênero. Eles passam, portanto, a preferir o familiar ao desconhecido, preferir o tentado ao não tentado, o fato ao mistério, o real ao possível, o limitado ao ilimitado, o próximo ao distante, o suficiente ao superabundante, o conveniente ao perfeito, a felicidade presente à utópica – como diria Michael Oakeshott.
Eis porque candidatos de esquerda costumam precisar suar a camisa para angariar alguns míseros votos do pessoal interiorano. Outros fatores, em especial a formação cultural de um povo, também influenciam sobremaneira neste processo (às vezes, inclusive, revertendo esta expectativa), mas são basicamente os três supracitados que costumam alinhar cosmopolitas à esquerda e provincianos à direita – especialmente ao conservadorismo.
Para se ter uma noção deste fenômeno em nosso território nacional (muito embora ele não se manifeste com tanta força por aqui quanto em outras nações mais politizadas), basta comparar, por exemplo, o desempenho do PT e seus partidos satélites no Rio de Janeiro e no Sul do Brasil (excetuando-se o Rio Grande, cuja herança do Positivismo de Comte deixou um legado assistencialista e paternalista que até hoje perdura). Quem conhece o Paraná e Santa Catarina, e leu este texto com atenção, vai entender e concordar.
Outro dia vivi uma cena hilária: questionei duas senhoras, no interior de Santa Catarina, as quais estavam criticando a crise econômica que atravessamos, se preferiam a volta de Dilma ao poder, ao que responderam em uníssono: “Deus o livre, homem!”. É a indestrutível sabedoria daqueles tidos como capiaus por alguns esnobes do asfalto. Pois sim!
E o que vai acontecer na França? Difícil prever, mas ainda é possível que o “homem comum esquecido”, que já se fez ouvir na América ano passado, fale mais alto na Europa também… (texto escrito na véspera da eleição francesa)
"A América Latina se desapontou com o capitalismo antes de praticá-lo". (Roberto Campos)
O capitalismo nasce da acumulação de capitais, sobretudo dos valores mobiliários. As grandes fortunas constituem excedentes de riqueza, isto é, capitais que podem ser aplicados em atividades lucrativas. A atual sociedade capitalista caracteriza-se por três formas de capitalismo: comercial, financeiro e industrial.
O capitalismo já existia na Antiguidade – Oriente, Grécia e Roma – porém em forma incipiente. No mundo antigo, a riqueza estava representada, sobretudo, pela propriedade imobiliária (terras, casas), os instrumentos de produção, as mercadorias e os escravos. A riqueza se achava em mãos de duas classes: nobres e sacerdotes. Não existia uma grande indústria: a economia era doméstica.
No Império Romano, as classes ricas moravam nas suas propriedades rurais, que – com a escravatura – desempenhavam o papel preponderante nesta economia natural. Havia manifestações capitalistas (sociedades financeiras, bancos, cambistas de moedas), mas em pequeno grau. A vida urbana tinha pouca importância; e são as cidades, justamente, as que vão permitir, mais tarde, o desenvolvimento do grande capitalismo.
Durante a Idade Média, a riqueza esteve em poder dos senhores feudais (grande nobreza e alto clero). A igreja se opunha ao empréstimo com juros, ao comércio do dinheiro, à especulação sobre câmbio e títulos de valores. (Estes pontos de vista serão alterados pelo individualismo econômico do século XVI e pela Reforma, sobretudo de Calvino).
Segundo Werner Sombart, a acumulação dos capitais começou a ser realizada, frequentemente, por pessoas que arrecadavam os impostos, as taxas eclesiásticas e as rendas dos grandes proprietários. Mas a organização capitalista, na Idade Média, é ainda esporádica e embrionária. Durante séculos, sobretudo desde a época de Carlos Magno, a economia é quase unicamente rural; as cidades não passam de refúgios e fortalezas, e as corporações impedem a existência do capitalismo industrial, no sentido moderno. Por outra parte, o comércio medieval – afirma Sombart – tem lucros pequenos.
As Cruzadas e as diversas guerras (dos Cem Anos, das Duas Rosas) arruinaram grande número de senhores feudais, o que facilitou a emancipação dos servos. Muitos destes passaram a viver em “burgos”, onde se dedicaram à pequena indústria e contribuíram para a formação da burguesia.
A expansão do comércio internacional – sobretudo desde o século XIII, após as Cruzadas – deu início à formação do Capitalismo Comercial. O capitalismo comercial surgiu principalmente na Itália (Gênova, Pisa, Veneza) e nos Países Baixos. O comércio marítimo com o Oriente permitiu às repúblicas italianas a acumulação de grandes capitais. Por sua vez, os Países Baixos constituíram o principal empório entre o Oriente e o Norte da Europa.
Prosperaram, então, as famosas feiras internacionais (onde apareceu a ”letra de feira” e, mais tarde, a “letra de câmbio”). As feiras acabaram sendo substituídas pelas “Bolsas”, onde os novos valores mobiliários (os “papéis”) adquiriram a supremacia econômica.
Este novo capitalismo, os descobrimentos marítimos de portugueses e espanhóis (afluxo de mercadorias e de metais preciosos), os progressos do crédito público, o câmbio (indispensável, por causa da diversidade de moedas), o desenvolvimento dos bancos – provocaram o aparecimento do Capitalismo Financeiro.
Intensificaram-se, então, as especulações financeiras: empréstimos a juros, prática do câmbio, compra de bens prediais, hipotecas lucrativas. Os comerciantes e capitalistas eram, sobretudo, burgueses. Foram eles que financiaram as viagens dos descobrimentos, conquistas e colonizações. Surgiu, assim, o poderio econômico da burguesia, o qual foi emparelhado com a da nobreza (aristocracia rural) e tornou-se dominante após a Revolução Francesa.
* Economista
(Publicado originalmente em Zero Hora)
O que distingue uma nova geração da outra não são os novos problemas, mas as novas soluções que traz para os velhos problemas. Esses que a geração dos que possuem a vivência institucional exigida pelo ministro Gilmar Mendes não consegue resolver. Está claro que, se forem mantidas as mesmas atitudes, adotados métodos idênticos e defendidas as propostas de sempre, haverá pouco a avançar e muito a decepcionar num país refém da improbidade e da corrupção político-administrativa. Eles sabem, tanto quanto os ministros proclamam por autoridade, e os cidadãos aceitam por obediência, que o Supremo é, sim, a cúpula do Poder Judiciário. Mas que longe está de ser absoluto. Há outros dois e um só acima de todos, que é o do povo que representa (CF, art. 1º,V, par. único).
E, se a não submissão a pressões é sua condição de independência, sintonizar-se com a sociedade é sua condição de legitimidade e, pois, de sobrevivência. Mesmo que haja a percepção de que ministros são irremovíveis, vitalícios e de salários irredutíveis, fomos nós que os fizemos assim. E, pois, quando ocorre um divórcio entre a sua cúpula e as demandas e aspirações da base de todos os poderes, é da natureza do sistema representativo que estes proponham novas leis ao Congresso para que mudem o rumo das suas decisões. Mais na direção do bem comum de todos, e menos na dos privilégios individuais de alguns.
Os cidadãos podem, sim — e devem ! —, influenciar novas indicações de ministros e até mudar, via Congresso Nacional, o formato institucional do Supremo, reduzir — ou aumentar — o número dos seus integrantes ou retirar-lhes o caráter vitalício (Joaquim Falcão — "O Supremo" Ed. Janeiro/ FGV). Se é verdadeiro que o poder originário de julgar deriva da sociedade que os seus ministros representam, e a autoridade de que estão investidos reside no poder de interpretar a lei, sempre que ela se fizer com desvio de finalidade, a sociedade se inquieta. Eis aí o mais autofágico dos desvios. Porque a justificativa para a blindagem de detentores de privilégios se escamoteia, ora na transferência da responsabilidade para as deficiências da instâncias inferiores do próprio poder — o que resulta miná-lo de total descrédito —, ora na busca do constrangimento de funções que, como o Ministério Público, são essenciais à Justiça — o que resulta paralisá-la (CF, cap. IV).
Há muitos anos, um membro da Suprema Corte norte-americana, Antonin Scalia, visitando o Brasil dos anos 70, observou que "...um juiz cujas convicções sejam indiferentes aos anseios de uma sociedade deve pedir para se afastar dessa sociedade". Eis um conselho eterno...
* Subprocurador-geral da República aposentado
O audiência em Curitiba que colocará frente a frente Sérgio Moro e Lula será mais que um duelo entre o juiz federal decidido a cumprir a lei e o demagogo amoral que até outro dia se julgava condenado à perpétua impunidade. O encontro de 10 de maio vai escancarar o contraste entre o país revigorado pela Operação Lava Jato e um Brasil que estrebucha com o que Nelson Rodrigues comparava a arrancos de cachorro atropelado.
Uma sala de tribunal na capital paranaense servirá de cenário para o confronto entre a luz e a treva, a bravura e a bravata, a razão e o delírio, a verdade e a mentira. Para saber-se quem está certo, basta contemplar atentamente - e, sobretudo, tentar ouvir - o olhar de cada um. Só os olhos de quem mente falam. E confessam em estridente silêncio o que a voz tenta em vão esconder.
(Publicado originalmente em http://ricamconsultoria.com.br)
Imagine um país em que não haja limitações à terceirização do trabalho nem de atividades meio, nem de atividades fim.
Imagine que, nele, homens e mulheres só possam se aposentar após os 67 anos de idade e que, depois de aposentados, recebam em média menos da metade do que ganhavam enquanto trabalhavam. Meia entrada para idosos não existe lá.
Imagine que neste país não existam 30 dias de férias remuneradas. Imagine que os empregados têm de negociar com os patrões quanto tempo terão de férias e se elas são remuneradas ou não. Adicional de férias não existe por lá.
Imagine que 13º salário também não existe.
Imagine que mulheres grávidas só tenham direito a 12 semanas de licença maternidade e que durante o período de ausência elas não são remuneradas.
Imagine que os patrões possam negociar com os empregados se eles vão trabalhar em finais de semanas ou feriados nacionais. Adicional noturno, por horas extras, trabalho em finais de semana ou feriados não existem.
Imagine que não existem faculdades gratuitas, nem meia entrada para estudantes em cinemas, shows, teatro ou outros espetáculos.
Imagine um país onde ninguém tem estabilidade no emprego, nem os funcionários públicos.
Imagine um país onde não existe FGTS, muito menos adicional de 40% em caso de demissão sem justa causa.
Imagine que nele os trabalhadores não tenham um limite no número de horas que podem trabalhar. Seus patrões e eles podem combinar o que quiserem.
Imagine que o salario mínimo por lá fique 11 anos sem nenhum reajuste.
Imagine que não exista carteira de trabalho, nem Justiça Trabalhista.
Quem iria querer trabalhar e morar em um país assim? Quase todo o mundo. Este país existe. Ele se chama Estados Unidos e seu presidente está se esforçando para impedir a entrada de milhões e milhões de trabalhadores de outros países que a cada ano querem ir trabalhar lá.
Com regras assim, como tanta gente arrisca a vida e tantos outros se mudariam para lá neste exato segundo se pudessem? Talvez, porque por estas e outras razões, os preços e a inflação são muito menores do que aqui, a taxa de desemprego é um terço da nossa e as pessoas ganham, em média 7 vezes mais do que aqui? Talvez…
Ricardo Amorim, autor do bestseller Depois da Tempestade, apresentador do Manhattan Connection da Globonews, o economista mais influente do Brasil segundo a revista Forbes, o brasileiro mais influente no LinkedIn, único brasileiro entre os melhores palestrantes mundiais do Speakers Corner e ganhador do prêmio Os + Admirados da Imprensa de Economia, Negócios e Finanças de 2016.
(Publicado originalmente na Folha de São Paulo)
Charge da página 2 da Folha, no dia 28 de abril, intitulada "Planeta dos malandros", mostrava um grupo de pessoas, carregando placas favoráveis à greve, indo em direção a uma carteira de trabalho gigantesca, em parte afundada na areia.
Não fosse pelo título, a charge de Claudio Mor poderia assemelhar-se ao final do filme "O Planeta dos Macacos" (1968), quando Charlton Heston vê a Estátua da Liberdade semienterrada na areia.
Analisando o movimento das centrais de sindicatos que levou um pequeno número de pessoas às ruas -a maior parte delas com atitudes antidemocráticas ou de vandalismo, o que impediu a esmagadora maioria da população de exercer o sagrado direito de ir e vir livremente, assegurado pela Constituição-, a greve não foi o sucesso que esperavam seus organizadores, que escolheram a véspera de um feriado para estimular adesão daqueles que gostariam de desfrutá-lo mais prolongadamente.
Fosse um sucesso, como foram as manifestações públicas de 2015 e 2016, em que o povo rebelou-se contra os governantes e não precisou de violência para se impor, teriam adotado a mesma atitude democrática de protesto daqueles milhões de pessoas que foram às ruas.
As cenas de TV mostraram tais aspirantes de ditadores, mascarados, como quaisquer facínoras, queimando pneus para impedir empregados de trabalharem, destruindo bens alheios, depredando ônibus, numa demonstração de que todos esses cidadãos não estão preparados para viver num país democrático. São apenas baderneiros ou defensores de privilégios próprios, mais do que de direitos de terceiros.
Creio que a grande maioria dos poucos que participaram das manifestações nem sequer conhece o que estava defendendo. É difícil acreditar que alguém apoie aposentadoria para pessoas com pouco mais de 50 anos, uma vez que não há como fechar as contas previdenciárias com os deficits bilionários que o sistema atual gera.
É de se lembrar a elevada carga tributária do Brasil, sem contrapartida em serviços, que supera a da maior parte dos países desenvolvidos e emergentes, como Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul, Suíça e México.
Defende-se o indefensável, embora os líderes grevistas não ignorem que somente com mais tributos, mais juros, maior endividamento, mais desemprego -além de poucos investimentos e nenhum desenvolvimento- pode-se manter tão esdrúxulo sistema.
Sempre tenho dito que a ignorância é a homenagem que a estupidez presta ao populismo.
O fracasso real dos governos anteriores mostra a necessidade de duas reformas essenciais, as trabalhista e previdenciária, como primeiro passo para o Brasil sair da crise. Caso contrário, estaremos a caminho do mesmo desastre protagonizado pelo governo Nicolás Maduro na Venezuela, tão prestigiado pelos governos anteriores.
"Alea jacta esto". Creio seja esta a melhor forma, pois do imperativo deve ter Júlio César se utilizado ao dizer a famosa frase; não do indicativo "alea jacta est".
"Lançada a sorte", vejamos se o Brasil está realmente a caminho da democracia que todos desejamos ou se Roberto Campos, cujo centenário comemorou-se em 17 de abril deste ano, tinha razão ao dizer que, com esta mentalidade, o Brasil não corre nenhum risco de melhorar.