• Ruy Castro
  • 31 Outubro 2015


FOLHA DE SP - 30/10

Foi o pior aniversário de Lula desde os tempos em que, de calça curta e dedo no nariz em sua Garanhuns (PE) natal, ele torcia pelo Vasco e matava aula para caçar calango. Com um agravante: hoje, aos 70 anos, Lula deve ter menos amigos para lhe soprar velinhas do que aos 10, em 1955.

Em compensação, ninguém tem uma lista mais ilustre de ex-amigos, vivos ou mortos: Hélio Bicudo, Chico de Oliveira, Cristovam Buarque, Fernando Gabeira, Vladimir Palmeira, Plínio de Arruda Sampaio, Marina Silva, Erundina Silva, Chico Alencar, Cesar Benjamin, Francisco Weffort, Paulo de Tarso Venceslau, Beth Mendes, Airton Soares. Juntar esse time a seu favor foi uma façanha; fazê-lo desertar em massa, outra. Sem contar os que, por terem se tornado cadáveres políticos, ele abandonou, como José Dirceu.

Em lugar deles, Lula poderia ter convidado para sua festa os empreiteiros, banqueiros e pecuaristas com quem se dá tão bem. Mas boa parte estava impedida de comparecer, por cumprir temporada em Curitiba ou estar reunindo ou apagando documentos. É compreensível também que, subitamente, muitos não queiram ser vistos ao seu lado. O jeito, para fazer quorum, seria Lula convidar antigos aliados, como Sarney, Collor, Maluf –mas estes bem sabem quando e com quem devem se aliar.

Diante dessa evasão humana, só restou a Lula passar o aniversário com seus filhos, noras, sobrinhos e irmãos, com a recomendação de que eles não levassem os amigos, os quais, por coincidência, têm estreitos laços comerciais entre si e com órgãos da administração pública. Devido a esse caráter de festa íntima, não fazia sentido fechar um restaurante de luxo ou mesmo uma churrascaria –o feudo do Instituto Lula era suficiente.

E quem esteve lá pode ter presenciado um fato histórico: a última vez que Dilma e Lula foram vistos juntos.

 

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  • Carlos I. S. Azambuja
  • 31 Outubro 2015


(Publicado originalmente em www.alertatotal.net)

Um artigo intitulado “Ameaça à Soberania”, publicado em 14 de outubro de 2007 pelo Correio Braziliense, assinalou que o governo venezuelano, através de um grupo de diplomatas, municia uma organização – Círculos Bolivarianos - para transformar o Brasil em uma democracia socialista. Todavia, a infiltração ideológica do então presidente Hugo Chávez no Brasil vai muito além do lançamento e distribuição às universidades e escolas do livro “Simon Bolívar – o Libertador”. Ele é apenas a ponta do iceberg do projeto político de Chávez.

O trabalho de campo foi articulado pelo venezuelano Maximilian Arvelaiz, assessor de política internacional de Chávez. Arvelaiz. no segundo semestre de 2007 percorreu várias capitais brasileiras, com a missão de coordenar os Círculos Bolivarianos, o que culminaria com a realização da I Assembléia Bolivariana Nacional.

O Movimento Bolivariano tem um hino, um símbolo e uma bandeira. “Ousar Lutar, Ousar Vencer. Pátria Socialismo ou Morte! Venceremos!” Essas são as palavras de ordem utilizadas.

Aurélio Fernandes, militante do PDT, conseguiu unificar todas as organizações similares existentes no Rio, como o Círculo Bolivariano Che Guevara, que reúne universitários. Para isso, teria recebido o apoio do Cônsul da Venezuela, embaixador Mario Guglielmelli Vera.

O Rio é o Estado com maior número de unidades bolivarianas: 7. O DF, PE, SC, SP, BA e AM também possuem unidades bolivarianas. A Casa Bolivariana, no Rio, funciona na Praça da República 25-3º andar (prédio da Federação das Associações de Favelas do Rio de Janeiro), local onde, em novembro de 2006 foram realizadas diversas conferências bem como um ato público em favor da reeleição de Hugo Chávez.

Os chavistas brasileiros se aproximaram da Federação das Favelas e fazem palestras para líderes comunitários locais. Nesses encontros foi exibido o documentário “A Revolução não Será Televisionada”, que mostra os bastidores do golpe que tentou tirar Chávez do Poder.

João Claudio Pitillo, líder do Círculo Bolivariano Che Guevara, estudante de História na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, era o encarregado da ligação do Movimento com as favelas, segundo reportagem da revista Época de 11 de dezembro de 2007.

Antes disso, em outubro de 2003, foi realizada em São Paulo uma reunião de um Grupo de Trabalho, preparatória para o Congresso Bolivariano dos Povos, realizado em Caracas em 20/23 de novembro de 2003. Esse Congresso foi antecedido por uma outra reunião do Grupo de Trabalho, em Caracas, dias 28 a 30 de agosto de 2003, que aprovou a criação de uma Secretaria Provisional do Congresso e de Comitês Nacionais, em um encontro preparatório para a realização do Congresso, em novembro de 2004.

Para implementar as propostas acima foram aprovadas por unanimidade e decidido designar os integrantes da Secretaria Provisional: Círculos Bolivarianos, da Venezuela; Comitês de Defesa da Revolução, de Cuba; FMLN, de El Salvador; Movimiento al Socialismo, da Bolívia, Movimiento Piquetero Bairros de Pie, da Argentina, e MST, do Brasil.

Participaram do Congresso Bolivariano dos Povos: MST, Instituto de Estudos Políticos Mario Alves, do PCBR, representando por Bruno Costa de Albuquerque Maranhão, coordenador do MLST e do Grupo Brasil Socialista (que atua dentro do PT), além de representantes da UNE e MR8.

Em dezembro de 2006 foi fundado no Rio o Partido da Revolução Bolivariana do Brasil, com 109 assinaturas de eleitores de 11 Estados. O PRBN diz-se nacionalista e defensor da economia de mercado “com presença forte do Estado”.

Em setembro de 2007, integrantes do IV Seminário Internacional de Luta contra o Neoliberalismo, realizado na sede do jornal Inverta, editado pelo Partido Comunista Marxista-Leninista (PCML), decidiram lançar, no Rio de Janeiro, o Capítulo Brasil da Coordenadora Continental Bolivariana, um espaço de coordenação progressista que projeta sua atividade face a consolidação de uma estrutura ampla e democrática. Estiveram presentes ao evento 59 pessoas, a maioria absoluta militantes do PCML.

Finalmente, a Coordenadora Continental Bolivariana realizou seu II Congresso entre os dias 23 e 27 de fevereiro de 2008, em Quito com a presença de militantes do PCML representando a Coordenadora Continental Bolivariana – Capítulo Luiz Carlos Prestes.

Segundo a devassa que vem sendo feita nos computadores de “Raúl Reyes” (terrorista morto no Equador em março de 2008), um correio de 7 de fevereiro de 2007, de “Ivan Márquez Rios” (Luciano Marin Arango) – membro do Comando das FARC – dava detalhes sobre esse Congresso. Segundo esse correio, a Coordenadora foi criada em 2003 pela guerrilha e é controlada por ela em detalhes. Essa nota de “Ivan Márquez Ríos” revelava o local e o programa do II Congresso que viria a ser realizado em Quito em 23 de fevereiro. Esse fato revela a influência das FARC na organização da Coordenadora Continental Bolivariana.

Mensagem de 14 de novembro de 2007, de “Ivan Márquez”, localizada no computador de “Raúl Reyes”,morto em março de 2008 nas selvas do Equador, revela que não apenas os movimentos radicais se aproximaram das FARC. Esse documento indica que o Ministro do Interior da Venezuela, Ramon Rodríguez Chacin, “se interessou sobre possibilidades de que lhes transmitamos nossa experiência em guerra de guerrilhas, a qual eles chamam de guerra assimétrica”. Os e-mails encontrados no computador de “Raúl Reyes” revelam que desde 2002, quando o presidente Uribe assumiu o Poder, as FARC vêm lançando mão de militantes, supostamente refugiados, para montar núcleos de apoio ideológico, financeiro e logístico.

Esse esquema teria propiciado às FARC a montagem de uma rede de cerca de 400 organizações no continente, desde partidos políticos legais até organizações revolucionárias clandestinas.

Observe-se que os computadores de “Raúl Reyes” continham cerca de 600 gigabytes de dados, entre os quais 37.872 documentos escritos, 451 folhas de cálculo, 210.888 imagens, 22.481 páginas web, 7.989 endereços eletrônicos, 10.537 arquivos multimídia (de som e vídeos) e 983 fichários cifrados. Algumas mensagens:

“Osvaldo, chefe do Partido Pátria Livre [do Paraguai] informa de 300 mil dólares nossos em seu poder, cobrados em um resgate em trabalho conjunto FARC-PL (...) No Paraguai existem boas condições para trabalhos financeiros conjuntos”.

Recordamos que no Brasil também foi constituído o Partido Pátria Livre, em 21 de abril de 2009, tornado legal pela Justiça Eleitoral em 3 de outubro de 2011, que não passa da nova denominação do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR8). Seu presidente é Sérgio Rubens de Araujo Torres, militante do MR8 durante a luta armada, participante de várias ações armadas.

Dois membros da Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional de El Salvador pedem ajuda para sua campanha em 2003. “Podemos pedir que eles façam a inteligência sobre um alvo econômico de 10 ou 20 milhões no Panamá para fazê-lo em conjunto e dividir as utilidades em partes iguais”.

Segundo outros correios eletrônicos, encontrados no computador de um guerrilheiro preso na Colômbia (Gustavo Arbelaiz – “Santiago”),as FARC receberam em 2007, armas procedentes da Nicarágua. Treze mensagens do computador informavam sobre esse envio de armas e munições. Essas mensagens foram expedidas entre 8 de janeiro e 28 de abril de 2008. Em outra mensagem, “Santiago” informa que chegaram 15 mil tiros de AK-47 e 300 de ponto 50. Algumas mensagens falam do “justiçamento” de guerrilheiros por temor que entreguem seus chefes.

“Santiago”, um dos mais importantes chefes da guerrilha, foi detido em abril de 2008 em Buenaventura, Pacífico colombiano. “Santiago” responde a 27 processos, entre os quais o seqüestro de 11 deputados posteriormente assassinados pelas FARC, como aconteceu com “Ivan Ríos” (Luciano Marín Arango), morto por seus homens.


* Historiador.
 

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  • Miguel Nagib
  • 31 Outubro 2015

 

(Publicado originalmente em escolasempartido.org)

No último domingo, enquanto milhares de pessoas denunciavam o despudorado viés ideológico das questões do ENEM, o músico Roger Moreira chamava a atenção, no Twitter, para um problema ainda mais grave e preocupante: “Ganham zero [as] ideias que desrespeitem os direitos humanos. Ué? Não é prova de redação? Ou é controle do pensamento?”

Roger se referia à exigência de que o candidato elabore, na redação, uma proposta de intervenção para o problema abordado, “respeitando os direitos humanos”. Segundo o INEP, é necessário que o candidato “não rompa com valores como cidadania, liberdade, solidariedade e diversidade cultural”, sob pena de zerar na redação.

Ao impor esse requisito, porém, o próprio INEP desrespeita claramente os direitos humanos, já que as liberdades de pensamento, opinião e expressão, além de garantidas pela Constituição Federal, estão previstas na Declaração Universal dos Direitos Humanos. Condicionar o acesso de um estudante ao ensino superior a que ele possua ou expresse determinada opinião sobre o que quer que seja configura, sem sombra de dúvida, uma forma acintosa de cerceamento àquelas liberdades.

Para piorar a situação, os candidatos e os corretores das provas não estão familiarizados com a legislação brasileira sobre direitos humanos ? o que de resto não é exigido pelo INEP. Assim, o mais provável é que todos considerem como “direitos humanos” um punhado de clichês politicamente corretos consagrados na academia e nos meios de comunicação. É o que sugere aliás o INEP, ao falar vagamente em “cidadania, solidariedade e diversidade cultural”, expressões que remetem de forma inequívoca ao discurso da esquerda.

Este ano, mais de 7 milhões de estudantes tiveram de escrever uma redação sobre a violência contra a mulher na sociedade brasileira. Cuidava-se, é claro, de uma provocação ideológica, e é de supor-se que muitos candidatos tenham ficado temerosos de expressar seu pensamento.

E com razão. Basta pensar no possível desfecho das seguintes situações: o candidato A sustenta, em sua redação, que a proibição do aborto é uma forma de violência contra as mulheres; e apresenta como proposta de intervenção a descriminalização dessa prática. Já o candidato B relativiza o problema da violência contra as mulheres; identifica, entre suas causas, o comportamento das próprias mulheres; e propõe como solução a mudança desse comportamento.

Como serão corrigidas essas redações? Se a legislação brasileira fosse aplicada, o candidato A deveria receber zero, pois a Convenção Americana sobre Direitos Humanos estabelece que o direito à vida deve ser protegido pela lei “desde o momento da concepção". Mas, se prevalecerem os clichês do politicamente correto, não só isso não vai acontecer, como quem pode acabar levando zero é o candidato B, embora sua proposta de intervenção não desrespeite a legislação relativa aos direitos humanos.

Ora, nenhum dos candidatos deveria ser punido ou beneficiado por possuir ou expressar sua opinião. Ninguém pode ser obrigado a dizer o que não pensa para poder entrar numa universidade. O exemplo demonstra, em todo caso, que, além de ferir a liberdade de consciência e de crença dos candidatos, a exigência do INEP, na prática, transforma a prova de redação do ENEM num imenso filtro ideológico de acesso ao ensino superior.

No fim das contas, Simone de Beauvoir era apenas o boi de piranha do ENEM.

Aguardemos para ver se o Ministério Público Federal vai tomar alguma providência contra mais essa afronta à Constituição perpetrada pelo governo petista.

 

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  • Prof. Dr. Juan I. Koffler Anazco
  • 29 Outubro 2015

 

Quando deflagramos em 1964 a revolução que iria varrer do mapa a ameaça comunistoide desses grupelhos celerados de criminosos travestidos de políticos, nunca pensamos que teriam coragem de voltar à cena política nacional. Mas, paradoxalmente, voltaram e são os mesmos que, a exceção do covarde Lula, foram responsáveis pela canalhice que ceifou vidas, assaltou cofres públicos e privados e desestabilizou nossa grande nação, na década de 60. Que grosseira e ridícula situação de contrassenso! Quem entende uma sociedade como a nossa?

Em 2003, um conluio nacional criminoso abriu novamente espaço àqueles que haviam nos infernizado a vida na década de 60. E voltaram mais fortes, graças às leis ignaras e prostituídas que tutelam nossa pátria, permitindo que criminosos de toda e qualquer espécie se locupletem diuturnamente com as benesses do poder - central e periférico. No mesmo diapasão e na mesma época, países como Argentina, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela (apenas para ficar nos mais ostensivos), além do nosso Brasil, passaram a ser governados por facínoras que visavam (e assim continuam) se locupletar impunemente, chafurdando nas benesses dos cargos públicos em todas as instâncias e em todos os níveis da administração nacional, manchando de maneira indelével nossa imagem internacional e nosso sagrado "pendão da esperança", tão festejado pelo imortal Olavo Bilac.

Sedentos por vingança, cegados pela ignorância que naturalmente os tipifica, ansiosos para assaltar, literalmente, os cofres públicos, esses homúnculos energúmenos se assenhoraram do poder e iniciaram um processo irreversível de destruição da nossa pátria. Com o beneplácito - saliente-se - dos poderes Legislativo e Judiciário, que foram criminosamente estruturados com membros dessa ideologia-seita raivosa, asquerosa, destrutiva, criminosa. Para tanto, concorreram toda a sociedade alienada, alheada e prostituída no processo eleitoral; nossas gloriosas Forças Armadas, manietadas e amordaçadas, silentes e coniventes ao permitirem tão infame sucessão de crimes de lesa-pátria; nossos sindicatos, comprados a peso de ouro; nossa indústria, ansiosa para também se locupletar com os bilionários projetos megalômanos que nunca saíram do papel e apenas exauriram e endividaram os cofres públicos; enfim, uma verdadeira hecatombe nacional, "nunca antes vista neste país" - como gosta tanto de reverberar o grosseiro e intragável mentor de toda essa balbúrdia institucionalizada.

Curiosa e paradoxalmente, os tímidos e inócuos movimentos em contra dessa avalanche de desprezo pela pátria, sequer tiveram qualquer reação social à altura e com a necessária, convincente e enérgica ação que detivesse, in continenti, essa sucessão de crimes de lesa-pátria. Esmolas (ao estilo tipicamente comunista de "programas" tipo "bolsa-família", "bolsa-escola", "minha casa, minha vida", apoio ao homossexualismo, defesa ostensiva de criminosos, aparelhamento estatal superdimensionado, "mais médicos", etc.) resultaram na vitória continuada desse grupelho de apátridas, mantendo-os no poder por estes últimos doze anos, mas com vistas (e intenções insanas) de se perpetuarem no poder por mais 50, 100 anos, enquanto seus "líderes" e respectivas famílias enriquecem a olhos vistos, com a mais descarada e "angelical" face da inocência. Que grotesco paradoxo!

Indivíduos destemidos e honrados, em esforços isolados, surgiram (a exemplo do Juiz Federal Sergio Moro, apenas para citar o de maior proeminência e visibilidade) como raros combatentes sem quartel, com a cara e a coragem de quem sabe defender sua pátria, com a valentia às raias do quixotesco, enquanto essa turba de destruidores da pátria riem e se lambuçam com os gordos resultados do butim expropriado da sociedade brasileira. Sem vergonha, sem censo de responsabilidade, sem arrependimento, sem qualquer sentimento minimamente patriótico, rumo à "venezuelização" brasileira. Que espécie de homúnculos aloprados são esses, afinal?

Mas o que mais causa espécie é a inusitada e compactuadora postura subserviente das nossas gloriosas FFAA e dos seus respectivos comandantes. Não há explicação para essa atitude passiva, às raias do covarde ou do condescendente ao extremo. Mesmo muitos dos seus ilustres oficiais membros de alta patente tendo sido execrados, vilipendiados, massacrados por essa infame, mentirosa, grosseira e virulenta "Comissão da [meia] Verdade" (sic), nada parece lhes afetar, enquanto a sociedade chora a mais amarga, deprimente e destrutiva crise (de valores, de sentimentos, de ética, de moral, econômica, laboral, existencial). Em que se transformou nossa pátria, afinal?

Enquanto esse dantesco cenário cresce e se perpetua como o mais violento, grosseiro, criminoso status quo infernal, festejam-se com foguetórios jogos de futebol, finais de campeonato, festerês de toda e qualquer espécie, olimpíadas e seus bilionários custos, como se estivéssemos vivendo o período mais profícuo, mais benfazejo, mais alvissareiro, mais prometedor de todos os tempos, neste quinhentos anos de vida. Afinal, em que tipo de país se transformou nosso amado Brasil? No mais ostensivo motivo de troça do planeta? Na asquerosa latrina do mundo? Num bizarro país da marginalidade institucionalizada?

Rezo diuturnamente para que o destino me leve deste asqueroso mundo. Não é o meu lugar nem o daqueles que ainda cultuam a ética, a moral, o respeito pela pátria, os bons costumes, a verdadeira cidadania, a solidariedade, o respeito pelo próximo. Não desejo ver a destruição do meu país. Não desejo vê-lho ajoelhado perante mentes insanas, grotescas, indignas de serem tidas como pertencentes a um ser humano. Me penitencio profundamente por estar fazendo parte de uma herança maldita aos meus filhos e netos. Não mereço ser infeliz por condição imposta por esses homúnculos desvairados, aloprados, alienados, criminosos da pior espécie (pois que o fazem para destruir sua própria pátria), cujo lugar de insofismável merecimento é o mais cruento e inimaginável inferno!

Ardam nele por toda a eternidade e, mesmo assim, ainda não será suficiente para que paguem suas monstruosas penas!

* Cientista Jurídico-Social, Professor-Orientador Mestrado & Doutorado
 

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  • Hermes Rodrigues Nery
  • 28 Outubro 2015


(Publicado originalmente em FratresInUnum.com)

“O mandato vem de Cristo, as incumbências e os deveres vêm de Cristo, as chaves foram entregues por Cristo e não pelo povo. Aí está o engano, o perigo, a ilusão da chamada ‘descentralização’. O caminho da Igreja começa por escutar a Cristo e não o povo. A missão de Pedro vem de Cristo e não do povo. Cristo é o que está ‘elevado, acima de todos’, pois ‘nada podereis fazer sem Mim’”.

De volta a Roma, ainda uma semana antes de encerrar o Sínodo da Família, o clima constatado era de apreensão, especialmente entre os bispos e cardeais, que se empenharam na defesa da sã doutrina sobre matrimônio e família, conforme o ensinamento de Nosso Senhor Jesus Cristo, coerentemente defendido pelo Magistério da Igreja, ao longo dos séculos. Tendo estado com D. Robert Sarah, um dos signatários da carta ao papa Francisco, sabíamos da necessidade de mais vozes se somarem em favor da sã doutrina católica. Por mais que muitos dissessem que a doutrina não será alterada, a preocupação era patente após o pronunciamento de Francisco, na Sala Paulo VI, no sábado, 17 de outubro, quando explicitou categoricamente sua disposição por uma “conversão do papado”, dizendo sentir a necessidade da “descentralização”.

Caminhando com um prelado pelas colunas da Praça de São Pedro, à noite, vimos a Basílica toda iluminada, cuja majestade encanta os olhos, especialmente com as fontes também acesas, com águas em profusão. Ao longe, avistamos a loggia de onde Francisco apareceu pela primeira vez ao mundo, em 13 de março de 2013, curvando-se ao povo, naquele gesto inusitado e impactante, indicando logo naquele início todo o propósito do seu pontificado. “Começamos aqui um novo caminho”, proferiu à multidão de fiéis na Praça, naquela noite fria e chuvosa.

“Não se trata de alterar a doutrina” – explicou-me o prelado, enquanto avistava o Palácio Apostólico desocupado, lembrando-me ainda antes que nem Bento XVI nem Francisco ocupam os aposentos papais, pois o primeiro está recluso no Matter Eclesia, o segundo, ativíssimo na Casa de Santa Marta, junto aos demais bispos e cardeais.

“Eles não teriam como alterar a doutrina”, repetiu, voltando-se em direção ao outro lado, à Porta de S. Ufficio, pela entrada de acesso à Congregação para a Doutrina da Fé. E continuou em sua análise, enquanto seguimos pela Via della Conciliazione.

“Mas poderão recorrer à retórica, às sutilezas semânticas e subterfúgios sofisticados para dubiedades e ambigüidades que permitam afrouxar as exigências da fé, e então o rebanho poderá ficar confuso, especialmente se os conteúdos da fé forem diluídos pelo relativismo. Não irão alterar a doutrina, estamos todos certos disso, mas os problemas começam quando os pastores passam a dizer meias-verdades, a minimizar os efeitos do pecado, a olhar demais somente para a humanidade, deixando de lado a dimensão soteriológica.”

Da Via della Conciliazione era possível ver, ao longe, o castelo de Santo Angelo, com a imagem de São Miguel Arcanjo, no cume da histórica edificação.

“Eles não teriam como fazer isso, ao menos como muitos querem, há décadas. Então, se utilizam de artifícios e estratégias, muito bem calculadas, como num jogo político. Enquanto muitos dizem que não irão alterar a doutrina, abrem brechas para flexibilizações e permissividades, muitas delas justificando aceitar o que era até então inimaginável. ‘Mas os tempos mudaram, as coisas evoluem, e a Igreja não é museu’, repetem com empolgação. Antes, o relativismo não tinha como avançar, quando o sim era sim, e o não era não, com inteira clareza. Agora, os tempos são outros, mais leves, com ‘o espírito e o método’ de um Igreja mais horizontal e igualitária.”

Passamos pela embaixada do Brasil, onde paramos e de onde podíamos ainda avistar a Basílica de São Pedro, ao fundo, iluminada.
E prosseguiu o prelado com as suas considerações:
“O que se teme não é isso, mas a abordagem e a metodologia utilizada, recorrendo também à retórica e ao eufemismo para que muitos desinformados não se dêem conta das brechas que poderão abrir com a estratégia usada. Trata-se de uma questão de método, de um método revolucionário. E Bergoglio confirmou, em sua fala, estar mesmo disposto a fazer tal revolução”.

Lembrei-me do que Elizabetta Piqué conta o que disseram dele: “além de pastor, é um homem de mando, muito capaz, tecnicamente, um animal político”. E mais: “os dois aspectos fortes da sua personalidade são, por um lado, sua proximidade, seu interesse pelos outros, e, ao mesmo tempo, é um homem de condução, de mando. Isso percebe-se mesmo na sua relação com o clero”. Aos sacerdotes de Buenos Aires, Piqué ressalta o que diz Poirier sobre Bergoglio: ele “sempre deixava bem claro quem mandava”, mencionando ainda o que disse José Ignácio Lopez: “além de despojado e de vida espiritual, o cardeal é um homem do poder, que sabia onde colocar suas fichas”.

As fichas agora foram colocadas em seu desejo de “descentralização”, que havia sido acenado na exortação apostólica Evangelii Gaudium, mas afirmado com veemência no pronunciamento de 17 de outubro, como que determinando o tom e a saída política que parece pretender oferecer aos impasses que não pôde resolver durante os dois Sínodos (tanto do ano passado, quanto deste ano). Então, a solução seria mesmo política, bem ao gosto do estilo descrito por Piqué, delegando tão graves decisões, num primeiro nível, às igrejas particulares e, num segundo nível, de modo especial, às conferências episcopais.

Ainda próximo de mais algumas Pontifícias Academias, que ficam quase ao início da Via della Conciliazione, prosseguimos na reflexão:

“É isso que tememos” – completou o prelado – “pois sabemos que muitos organismos das igrejas particulares estão aparelhados, muitos deles ideologizados e serão instrumentalizados para favorecer o relativismo. Com isso, a doutrina corre o risco de ser interpretada ao gosto da base, na conveniência dos interesses locais, sem que Roma possa intervir para salvaguardar os desvios.” E continuou: “Isso, de uma certa forma, já ocorre, em muitos casos e em muitas regiões, mas não com o beneplácito explícito de quem deve ser o primeiro e principal guardião da fé. Isso realmente preocupa”.

Tendo chegado ao início da Via della Conciliazone, quase à esquina da Via S. Pio X, entrando no lungotevere, com vista do rio Tibre, continuamos a conversar.

Lembrei a ele que no Brasil, por exemplo, isso já ocorre, tendo em vista que muitos conselhos paroquiais e diocesanos estão aparelhados ideologicamente, tendentes às muitas expressões da Teologia da Libertação, com padres que apoiam descaradamente partidos políticos abortistas, etc., e, de fato, por estarem aparelhados muitos desses conselhos, a fé ideologizada passa a desconsiderar muitos aspectos essenciais da sã doutrina.

“É preciso reconhecer que há um grave equívoco nesta questão de método, pois trata-se de um método revolucionário, que se volta contra a sã doutrina, contra a identidade católica, contra a própria instituição do papado, diluída e totalmente enfraquecida e, portanto, destituída de suas prerrogativas no cumprimento da sua missão na defesa da Igreja. A descentralização atinge em cheio as prerrogativas do ministério petrino, que foram dadas pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo [Tú és Pedro…] , pois é o mandato que vem de Cristo, as incumbências e os deveres vêm de Cristo, as chaves foram entregues por Cristo e não pelo povo. Aí está o engano, o perigo, a ilusão da chamada ‘descentralização’. O caminho da Igreja começa por escutar a Cristo e não o povo. A missão de Pedro vem de Cristo e não do povo. Cristo é o que está ‘elevado, acima de todos’, pois ‘nada podereis fazer sem Mim’, Ele dissera, como ainda sabemos por Ele, que os ramos que não estiverem enxertados na Videira não produzirão bons frutos”.

Na questão de método, na lógica das sutilezas semânticas e da retórica, um “mas” torna-se bem perigoso, no desvio do que se diz inicialmente, a exemplo do que foi afirmado no pronunciamento de 17 de outubro, quando se disse que “Jesus constituiu a Igreja, colocando no seu vértice o Colégio Apostólico, no qual o apóstolo Pedro é a ‘rocha’ (cf. Mt 16, 18), aquele que deve ‘confirmar’ os irmãos na fé (cf. Lc 22, 32). Mas nesta Igreja, como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base.” O prelado chamou-me a atenção sobre isso, de que aqui havia o problema, a lógica da “pirâmide invertida” que coloca a instituição do papado “abaixo da base”, em que “só na medida em que estes organismos permanecerem ligados a ‘baixo’ e partirem do povo, dos problemas do dia-a-dia, é que pode começar a tomar forma uma Igreja sinodal”.

“É o próprio Rousseau que ressoa naquele discurso – continuou observando – e sabemos no que deu Rousseau.” E acrescentou: “Mais enfático Francisco não poderia ter sido quando afirmou: ‘não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’”. Agora, é aguardar a exortação pós-sinodal, pois esta é a hora em que Francisco poderá usar sua força de mando para impor a todos o que quer, o programa que deseja desde o primeiro instante, quando propôs a todos um caminho novo, na loggia da Basílica, ao lado de Cláudio Hummes e Godfried Daneels.

“Com a descentralização, estará desferindo assim um duro golpe à instituição do papado, com consequências bastante imprevisíveis. É isso o que tememos, pois não sabemos até que ponto ele está ou não disposto, e em que proporções. Ele próprio disse sentir a necessidade disso. Portanto, agora é aguardar e rezar”.
 

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  • Paulo Vasconcelos Jacobina
  • 28 Outubro 2015

 

Um exame que foi pensado como mero indicador de qualidade acadêmica transformou-se num forte instrumento de controle, inclusive ideológico, de acesso ao ensino superior. E já está sendo usado para consolidar a ideologia de gênero.
 (ZENIT.org)

Nunca houve, na história do Brasil, um instrumento potencialmente tão completo, em termos de dominação ideológica do país, como o ENEM. De fato, ele é, hoje, basicamente a única porta de acesso a todo o ensino superior e a toda a estrutura de pós-graduação no país – vale dizer, quem não estiver preparado para demonstrar não somente qualidade acadêmica, mas também afinação com os pressupostos ideológicos que regem os elaboradores e corretores do exame está condenado a não obter vaga nas universidades, ou ao menos privar-se das universidades de maior qualidade e dos cursos mais procurados.

Não se trata de discutir se o ENEM é ou não um instrumento pedagógico tecnicamente bom. Possivelmente ele é, e isto não diz nada em seu favor: são exatamente os instrumentos bons os que são mais aptos de produzir danos enormes quando mal utilizados. Uma faca extremamente afiada é um instrumento soberbo para um bom churrasco, mas é também uma arma letal nas mãos de um assassino. Há uma confusão básica – também no campo da educação – entre ética e técnica, como se o avanço técnico da ciência pudesse influir diretamente, ou mesmo determinar, as fronteiras da ética.

Neste ponto, há que se frisar: nenhum governo autoritário do Brasil jamais dispôs de um instrumento tão completo, abrangente e eficaz, no plano do controle ideológico, como é o ENEM. Para o bem ou para o mal. Trata-se, como disse, de condicionar o acesso a todo o ensino superior à porta única de entrada que é este exame. E que, é claro, submete-se (potencialmente ao menos, senão em ato) a um grande controle ideológico sob o ângulo de certos consensos acadêmicos e midiáticos que estão bem estabelecidos, hoje, no nosso país e no mundo.

Dou um exemplo: há uma grande discussão, hoje, sobre a verdadeira noção de “identidade sexual”. Tradicionalmente, sempre se entendeu que a “identidade sexual” do ser humano é binária: somos homens e mulheres, e as exceções clínicas, raríssimas, somente confirmavam a regra. Há, é claro, (e tradicionalmente se entendia assim) o campo das tendências, inclinações, desejos e opções sexuais, mas estes não faziam parte da própria identidade sexual, da substância da pessoa humana, senão do campo dos condicionamentos e das escolhas,

das opções e vivências culturais e pessoais, na riqueza da sexualidade humana. Compreendia-se que havia homens e mulheres, e que havia diversas maneiras e modos de se viver na prática a sexualidade, sem que tais maneiras e modos passassem a integrar a própria noção de identidade sexual. É assim que a Declaração Universal de Direitos Humanos, já nos seus “consideranda”, fala em “dignidade e valor do ser humano e na igualdade de direitos entre homens e mulheres”, ou em vedação de “distinção de sexo”, já no seu artigo 2º. É assim, também, que no seu art. 16, reconhece-se que “Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução”. Para a Declaração Universal dos Direitos Humanos, portanto, a questão de uma “identidade sexual” diversa do sexo das pessoas nem sequer se colocava. Éramos, e sempre fomos, homens e mulheres. Ponto. Todo o resto estava no campo dos condicionamentos, das escolhas, das tendências e desvios, alguns publicamente reprimidos, como a pedofilia, alguns simplesmente tolerados, como a promiscuidade, outros estimulados, em função do seu interesse para todos, como a formação de famílias complementares e fecundas. E as coisas foram assim até pelo menos os anos setenta.

O advento da ideologia do gênero.
De repente, embalados por estudos pretensamente científicos e suas interpretações filosóficas ou pseudoéticas, de pensadores como Wilhelm Reich, Marcuse, Simone de Beauvoir, Foucault, Shulamith Firestone ou Judith Butler, só para citar alguns, a “identidade sexual” passou a incorporar em si não somente a condição de homens e mulheres, mas as próprias tendências, escolhas, condicionamentos ou desvios, fazendo com que o lado estritamente subjetivo da sexualidade humana prevalecesse sobre a objetividade da convivência pública, e inserindo no campo da dignidade da pessoa humana a ser tutelada pelo Estado aquilo que, anteriormente, estava no âmbito da estrita variabilidade pessoal, com todo o grau de conforto ou desconforto que as situações concretas determinavam.

Assim, ser, digamos, somente para exemplificar, um pedófilo, um estuprador, um heterossexual promíscuo, ou mutilar-se física e hormonalmente com o fito de simular um sexo biológico diverso daquele que sua pessoa recebeu pelo nascimento, dentre outras tendências sexuais possíveis, tudo isto transportou-se de onde estava originalmente (do plano das tendências, dos condicionamentos e das escolhas comportamentais) para o campo da própria identidade sexual substancial da pessoa humana, a ser pretensamente tutelada pela legislação que protege a dignidade da pessoa humana. E sob as penas de criminalizar-se como homofóbico o pensamento de quem insiste na concepção histórica e consentânea com a própria Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU de que a identidade sexual, quanto à substância da pessoa humana, diz respeito apenas à condição de sermos homens e mulheres. Tudo o mais tem, é certo, reflexos importantes na tutela da pessoa humana, mas não definiria, conforme sempre se pensou até a instalação hegemônica do pensamento contrário no âmbito de um certo “consenso acadêmico” e “jurídico”, identidade substancial de ninguém.

Quais as consequências sociais dessa ideologia.
As consequências práticas estão aí, e tornam impossível adotar a postura do “viva e deixe viver” que a maior parte dos pais, educadores, operadores e mesmo pessoas religiosas estão adotando. Não se trata de dizer: “ora, se você não concorda com isso, viva a sua vida e deixe que os outros vivam, afinal esta é uma sociedade democrática e plural”. Não é tão simples assim: definir que tendências e inclinações sexuais definem a própria identidade sexual para fins de tutela da dignidade da pessoa humana significa dizer, entre outras coisas, que os banheiros públicos já não terão mais, como critério de uso, a fisiologia dos usuários, mas a sua “identidade sexual” definida pela “tendência” ou “inclinação” que ele escolhe ou encontra em si mesmo. Assim, em vez de usar um banheiro público conforme a sua fisiologia, ele o usará conforme a sua “identidade sexual”, num grande quiproquó: o banheiro não será mais espaço de atendimento de necessidades fisiológicas determinadas pela biologia, mas espaço de afirmação de tendências ou inclinações sexuais elevadas ao grau de dignidade da pessoa humana. Não se trata, pois, de construir mais banheiros, digamos, terceiros ou quartos banheiros, para aqueles cuja escolha identitária sexual não coincide com a fisiologia, por nascimento ou por mutilação cirúrgica, mas de compelir a todos, mesmo aqueles que ainda acreditam no texto original da Declaração dos Direitos Humanos da ONU, a dividir o banheiro não pelo critério da conformação fisiológica, mas da tendência ou inclinação sexual, inclusive e principalmente quando esta não coincidir com a fisiologia. A proposta, portanto, é de reeducação global impositiva estatalmente, inclusive por meios criminais, para tornar hegemônico aquilo que certo consenso acadêmico e jurídico vê como avanço social e civilizatório, tornando impossível sequer manifestar opinião contrária. Que seria, segundo eles, afrontosa aos direitos humanos e à dignidade da pessoa, e portanto, uma opinião que até outro dia fazia parte do próprio texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU passa a ser quase uma opinião bandida.E banida.

Os reflexos práticos das opções estatais nas liberdades públicas.
Imaginemos, agora, uma ação judicial coletiva que vise forçar as escolas confessionais do país inteiro a permitir, ou mesmo a impor, que suas crianças, meninos ou meninas, dividam o banheiro com pessoas adultas cuja “inclinação” ou tendência” não coincida com a respectiva fisiologia. Isto simplesmente inviabilizaria, no limite, a própria existência de espaços confessionais abertos ao público, remetendo a religiosidade humana exatamente para onde estes mesmos ideólogos sempre propuseram que ela deveria estar: no âmbito do estritamente privado e fechado. E onde estamos? Basicamente calados.

Ora, o que se vê, mesmo, digamos, em certos âmbitos educacionais e confessionais, não é simplesmente uma preparação para conviver – e formar nossos filhos para conviver – com uma sociedade majoritariamente adversa. Trata-se de estar muitas vezes cegos para o que parece ser um discurso de “direitos humanos” e “militância” social, ou mesmo empolgados com tais perspectivas, promovendo-as até mesmo como deveres para um cristão, jovem ou idoso. E vemos educadores católicos, padres, bispos e entidades religiosas promovendo, orgulhosos, encontros, debates e passeatas para promover a defesa destas posições como se fossem a defesa de “oprimidos e marginalizados”, numa postura pouco coerente. Mas parece que ainda vivemos uma época, mesmo em certos âmbitos religiosos institucionais, em que palavras de ordem valem mais do que a Bíblia e o Catecismo. Não há nada mais importante do que ter critérios. E é exatamente de critérios que estamos nos tornando paupérrimos.

Voltemos então para o ENEM. Não é de estranhar que Simone de Beauvoir tenha sido tema no último exame. Nem quero imaginar o que ocorreria com os estudantes que ousassem lê-la, na prova, de maneira diversa dos tais “consensos acadêmicos”. Muito poucos, é certo, conseguiriam, porque já foram devidamente doutrinados para fazer o exame, e nem sequer sabem que há a possibilidade de uma leitura diversa daquela que o Exame espera deles. Mas e quanto aos que pensam diversamente? Dobram-se à ideologia vigente ou estão fora do mundo do ensino superior de qualidade. É uma arma poderosa.
 

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