• Bruno Garschagen
  • 21 Julho 2016

(Publicado originalmente em http://www.mises.org.br/)


Certo dia, um conhecido me revelou, com um ar de superioridade, que a solução para acabar com a corrupção era "criar novas leis".
Imediatamente espantei-me com seu desconhecimento da máxima de Tácito, que já dizia que "quanto mais corrupto o estado, maior o número de leis". Mas decidi entender melhor seu raciocínio.
Perguntei a ele onde ocorria a corrupção, se na esfera estatal ou na iniciativa privada? Triunfantemente, ele soltou a resposta que julgava definitiva: "acontece dentro da esfera estatal, mas quem corrompe é sempre a iniciativa privada".
Foi então que decidi vestir uma daquelas ridículas roupas gregas da época, colocar uma barba postiça, pegar no braço de meu interlocutor, e levá-lo para uma caminhada regada por um diálogo baseado no método socrático.
E comecei as perguntas:
— Qual origem da corrupção?
— O capitalismo.
— Quem corrompe?
— Os empresários que querem assaltar o dinheiro público.
— Quem são os corrompidos?
— Os corruptos que trabalham para ou dentro do estado.
— Quem são esses corruptos passivos?
— Políticos, membros do governo, servidores, membros do partido no poder nomeados para cargos comissionados, integrantes do judiciário etc.
— Quer dizer então que os corruptos passivos estão entranhados na estrutura do estado, dificultando a sua identificação individual, ao passo que os corruptores são perfeitamente identificáveis?
— Sim.
— E quer dizer que os corruptos entranhados na estrutura do estado, além da dificuldade de serem identificados, ainda contam com a estrutura do próprio estado para não serem identificados? E, caso sejam identificados, provavelmente conseguirão a proteção daqueles a que estão vinculados?
— Sim, mas, veja bem ...
— Então quer dizer que você considera mais perniciosos os corruptores ativos, os quais podem ser facilmente identificados, e que só conseguem agir assim por causa dos incentivos formais e informais decorrentes da ação daqueles corruptos passivos entranhados na estrutura do estado, os quais são responsáveis diretos por construir esse ambiente que estimula e potencializa a corrupção e do qual são beneficiários?
— Sim, mas, veja bem...
— Então quer dizer que, sob o aspecto moral, você hierarquiza aqueles que criam o ambiente institucional e legal para dele se beneficiarem e coloca no topo da sordidez aqueles que agem como corruptos ativos porque se aproveitam desse ambiente criado pelos corruptores?
— O assunto é bem mais complexo do que você quer fazer parecer...
— Diga-me como é possível, se é possível, você defender o combate à corrupção ao mesmo tempo em que defende mais poderes para aqueles mesmos agentes que operam dentro do estado e que constroem todo um ambiente legal e institucional que os beneficia e que os permite transferir a responsabilidade da corrupção aos agentes artificialmente ativos da corrupção?
— É tudo uma questão de elegermos as pessoas certas...
— Volto a perguntar: por que há corrupção?
— Por causa da ganância dos empresários e dos maus agentes políticos.
— Bom, agora, além dos empresários, você responsabiliza os agentes políticos qualificados de forma negativa?
— Sim. Eles também são culpados.
— Vamos então partir para um exemplo prático: o que foi o Petrolão?
— Um grupo de empreiteiros pagou propina para políticos para serem eles, os empreiteiros, os escolhidos para fazer obras superfaturadas para a Petrobras.
— E de onde veio o dinheiro da propina paga pelos empreiteiros aos políticos?
— Da própria Petrobras, que, ao pagar pelas obras superfaturadas, garantiu um trocado extra para os empreiteiros, os quais então utilizaram esse trocado extra para "agradecer" aos políticos, que são conhecidos como seus "operadores".
— Ou seja, na prática, todo o dinheiro era da estatal, por isso a Petrobras ficou descapitalizada.
— É...
— Então você próprio admite que o que está dando sustento à corrupção é o dinheiro de uma estatal.
— Sim, mas, veja bem...
— Permita-me outra pergunta: você concorda que só há corrupção porque há uma entidade com o poder de decidir e de escolher ganhadores e perdedores, e que essa entidade, por ter dinheiro em abundância (dinheiro esse expropriado das riquezas produzidas por essa sociedade), se torna um verdadeiro pote de ouro?
— Sim, mas, veja bem...
— Permita-me interrompê-lo para seguirmos adiante. Você diria que uma entidade que concentra o poder de escolher ganhadores e perdedores, que possui o poder final de decisão sobre aquilo que se pode ou não fazer, e que obtém uma fonte intermitente de dinheiro porque expropria riquezas da sociedade, é uma entidade extremamente visada?
— Sim, mas é possível limitar o acesso a essa entidade.
— Como?
— Votando nas pessoas certas.
— Tá, permita-me prosseguir: você diria que aqueles agentes privados que são, de uma forma ou de outra, seduzidos por esse poder descomunal e se tornam agentes ativos da corrupção, são mais ou menos nefastos do que os próprios políticos corruptos?
— Mais nefastos.
— Como é possível estabelecer uma hierarquia que determine que estes entes são mais nefastos do que aqueles que estão dentro do estado?
— É possível sim porque o estado nos representa! E aqueles que trabalham para o estado defendem a sociedade, a coisa pública!
— Mas se o estado nos representa e aqueles que trabalham para o estado defendem a sociedade e a coisa pública, como é que podem estimular a corrupção, serem dela beneficiários e assim serem menos nefastos?
— Ah, estou sacando o seu jogo. Você está querendo me confundir e fazer sua propaganda anti-estado!
— Não quero lhe confundir nem nada. Quero entender como funciona uma mentalidade estatista.
— Você está me ofendendo...
— Imagina!
— Afinal, qual é o seu ponto?
— Meu ponto é que, quanto maior e mais poderoso um governo, quanto mais leis e regulamentações ele cria e quanto mais obras públicas ele faz, mais os empresários poderosos e com boas conexões políticas irão se aglomerar em torno dele para obter privilégios à custa dos concorrentes e da população como um todo.
Por meio de favores pessoais ou de propinas, estes empresários não apenas conseguirão licitações favoráveis (sendo pagos com dinheiro público), como também conseguirão se isentar de seguir as leis e regulamentações criadas pelo estado ao mesmo tempo em que defenderão a imposição destas leis e regulamentações sobre seus concorrentes.
— Sim, mas esse jogo sujo é a essência do capitalismo!
— Não, esse arranjo é a essência do mercantilismo, do "privilegismo", do compadrio. Aliás, esta é exatamente a característica precípua de um regime fascista, no qual tudo deve estar dentro do estado e nada deve estar fora do estado. Desnecessário dizer que essa é a antítese do livre mercado.
— Bruno, afinal, o que você defende?
— A redução máxima do estado, deixando de lhe reconhecer autoridade política sobre várias atividades que hoje ele exerce. Esse é o caminho para se lutar contra a corrupção, contra os grupos de interesse e contra os lobbies empresariais. Por outro lado, com um estado grande, intervencionista e ultra-regulador como esse que temos, lobbies, grupos de interesse e subornos empresariais sempre serão a regra. E isso não será mudado apenas "elegendo as pessoas certas".
— Bruno, você é um reacionário neoliberal fascista!

 

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  • Carlos I. S. Azambuja
  • 20 Julho 2016


(Publicado originalmente em www.alertatotal.net)


Quando alguém examina livros, revistas e folhetos comunistas verifica m fato surpreendente. Em nenhuma parte da interminável verborréia que pretende abordar o político-social, se encontra qualquer referência ao indivíduo. Página após página, encontramos os termos massas, proletariado, burguesia, mercenários do capitalismo, reformistas, revisionistas, renegados, e sempre, em toda parte, referências à vanguarda revolucionária. Isto é, ao Partido (com maiúscula).
Sempre que se refere a qualquer membro do Partido, ele é esterilizado psicologicamente e tirada sua individualidade. É convertido no kamarada ou quadro.

Não é por acidente que o ser humano está ausente dos escritos dos comunistas. O indivíduo não tem cabimento na teoria e no programa dos partidos comunistas. A ideologia só se interessa pelo homem como membro de uma classe e, no que se refere ao programa, os indivíduos são manejados como massa.

Na medida em que o indivíduo siga sendo ele mesmo, diz-se que está animado por esperanças e interesses pessoais; é sensível às dúvidas e ao otimismo; é capaz de ser tocado pelo mistério da vida; é imprevisível e capaz de ater-se às suas próprias opiniões.

As mesmas qualidades que fazem dele um indivíduo o desqualificam para os fins partidários. Tende demasiado a não ser facilmente convencido, a mostrar-se cético, a aborrecer-se pelas reiteradas abstrações próprias da ideologia comunista, a duvidar do método, a manter uma opinião ainda mesmo depois de ter sido convertido alinha partidária e a simpatizar ou antipatizar com seus semelhantes sem permissão do Comitê Central. Em conseqüência, não é confiável. Necessita ser desenvolvido e integrado à massa, a fim de que o Partido cumpra sua missão histórica.

De conformidade com a doutrina comunista, todos os aspectos do ser humano que não se prestem à sua politização são burgueses.

*Historiador
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O texto acima foi transcrito de um dos capítulos do livro "A Hidra Vermelha", editado em 1985, e reeditado em 2016 por um grupo de amigos.

 

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  • Jenifer Castilho
  • 20 Julho 2016

 

(Publicado originalmente pelo Instituto Liberal)

Resolvi escrever esse texto devido às inúmeras mentiras que tenho visto circular na internet sobre o Projeto Escola Sem Partido. É o desespero dos doutrinadores. Alguns, apenas distorcem as palavras do projeto e divulgam. Outros, nem o leram e passam as mentiras adiante. Típico de internet.

Estudei em colégio particular e público, universidade particular e pública também, e durante minha vida acadêmica, os professores só me mostraram um lado da moeda. Aquele clássico: o capitalismo é malvado, o socialismo é bonzinho, a necessidade da luta de classes, e o sócio-construtivismo. E por isso, durante grande parte da minha vida, eu odiava os Estados Unidos sem saber o porquê, também achava que o capitalismo era a raiz de todos os males e, quando entrei na universidade, comecei a achar que a religião, inclusive a minha, era o ópio do povo.

Como aluna de pedagogia, fui muito criticada quando defendi o ensino tradicional, pois todos os professores só concordavam e aceitavam a abordagem construtivista. Sabendo dessa lavagem cerebral que acontece dentro das salas de aula é que o projeto Escola sem Partido afirma que deve haver “o reconhecimento da vulnerabilidade do educando como parte mais fraca na relação de aprendizado”. Afinal, o aluno ainda está formando seu caráter, e o professor não pode se “aproveitar da audiência cativa dos alunos para promover seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.”

Sei que a maioria dos brasileiros, apesar de gostar de discutir sobre política, não tem o hábito de ler leis, a maioria nunca nem tocou na constituição, e existem alunos de Direito que não sabem em que ano ela foi escrita. Mas, diante da minha indignação, venho aqui para mostrar a verdade sobre o Projeto.

Eu, como participante da faculdade de educação da UERJ, já presenciei dos meus colegas argumentos como: “o projeto ameaça nossa profissão”, “é a lei da mordaça”, “não tem como lecionar sem apresentar ideologias”. Mas o que é ideologia, afinal? Ideologia é a reunião das certezas pessoais de um indivíduo, de um grupo de pessoas e de suas percepções culturais, sociais, políticas, etc. Então, de acordo com o projeto, eu, como professora cristã, não poderei ensinar a um aluno espírita que minha religião é melhor que a dele, por exemplo. E isso é errado? Claro que não! Meu dever não é de evangelizar em sala de aula, não é de converter o aluno a um lado ou outro. Esse é um papel da família.

Outro argumento que ouvi foi: “O projeto é contra o senso crítico e debates de assuntos polêmicos.” O Projeto defende a neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado, neutralidade política não significa que o projeto é contra o senso crítico; pelo contrário, ele quer que seja apresentado e discutido os dois lados da moeda: “ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade – as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito da matéria.” O professor pode ser de esquerda ou de direita, mas não pode impor o que ele pensa como verdade absoluta, nem prejudicar o aluno caso ele não concorde com sua posição política: “o professor não favorecerá, não prejudicará e não constrangerá os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.”

Afinal, o que tem de tão assustador no projeto para ter tanta mobilização contra ele?
A resposta está no livro Maquiavel Pedagogo de Pascal Bernardin. O autor reúne documentos e pesquisas que mostram que a doutrinação que acontece na educação atual é decorrente de uma revolução pedagógica proposital com a finalidade de mudar os valores das pessoas e implantar uma nova sociedade.

No livro, é apresentado o documento publicado pela UNESCO com o nome A Modificação das Atitudes. Nele estão listados os seguintes objetivos: realizar uma transformação profunda na sociedade, modificar as atitudes na educação para conseguir uma reconversão ou uma reeducação dos valores, manipular a cultura, entre outros, ou seja, é uma reforma cultural. E para conseguir chegar nesses objetivos, os métodos que a UNESCO descreve ser necessário usar são:

– Buscar auxilio político, midiáticos dos formadores de opiniões, ou seja, usar blogueiros, artistas, políticos;

– Ampliar o poder e influência de ação de grupos, pois grupos separados são vistos como algo bom para a revolução cultural enquanto que a família é vista com efeito negativo sobre a criança;

– Programas de ações desenvolvidas para os pais, para conseguir que eles façam parte da revolução e não atrapalhem o trabalho da escola;

– Formação ativa e direcionada para os professores, para que os professores aprendam a doutrinar.

A UNESCO afirma que para que essas mudanças sejam implantadas na sociedade é preciso bloquear outros canais de transmissão de valores, como a família, ou seja, segundo eles, deve-se tirar o poder de educar dos pais e transferir para o Estado. E perceba que é exatamente contra isso que o Escola Sem Partido está lutando quando afirma: “O professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.”

A revolução busca submeter o indivíduo ao Estado tanto em seu comportamento quanto em seu psiquismo e ser, ou seja, aumentando a permanência da criança na escola, a influência do professor e o poder do Estado sobre a escola, o Estado conseguirá controlar os valores das pessoas e seus comportamentos. É o admirável mundo novo de Aldous Huxley.

O Escola Sem Partido, como o nome mesmo diz, é apartidário e por isso causa tanto medo naqueles que tem como objetivo de transmitir somente suas ideias políticas e doutrinadoras aos alunos. Você não precisa ser de direita para concordar com o projeto, precisa apenas ser honesto.

*Jenifer Castilho é estudante de Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
 

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  • Genaro Faria
  • 18 Julho 2016

 

    O site O ANTAGONISTA publicou, há poucos dias, uma nota sobre a missão de um diplomata encarregado pelo Itamaraty. O emissário diplomático teria ido a Havana para explicar a Raul Castro, ditador cubano, a deposição lenta e gradual da "presidenta" pelo povo e o Congresso Nacional, com a supervisão do Poder Judiciário, na forma prevista pela Constituição e legislação infraconstitucional.

   Sinto uma pena enorme desse diplomata enviado para cumprir uma missão impossível. Ao retornar, ele deveria ser agraciado com a comenda do Cruzeiro do Sul. Um herói.

   Que droga de governo é este? Rebaixar-se a um ditadura sanguinária e cinquentenária porque seu tirano nos acusa de golpistas? Que escândalo mais ignominioso!

   Esse episódio vergonhoso deve servir de advertência para uma realidade que engana pelas aparências: ainda há muito chão pela frente. Chão que precisamos palmilhar com determinação e humildade.

Em 1964, com a deposição de João Goulart na esteira de uma crise política e institucional, o novo governo apressou-se a enviar embaixadores para justificar, perante as democracias da Europa e dos Estados Unidos, aquela ruptura constitucional com o argumento de que ela não fora ensejada por militares sequiosos de instalar um regime ditatorial. Mas que seria, ao contrário, a última instância para preservar nossa democracia ameaçada por um governo populista que traria de volta a ditadura varguista fincada em nosso solo pátrio sob uma inspiração fascista. Et non plus ultra - (E nada além disso).

Era compreensível. Todo país que se preza quer e precisa ser aceito no concerto da civilização. Esta é uma imposição que transcende em muito os interesses comerciais e a confiabilidade imprescindível às relações internacionais. Vão além da moeda sólida e da segurança jurídica a estabilidade política e institucional fundamentada na legitimidade dos governos e o caráter nacional. Pois estes são a base daquelas.

E tudo isso os governos do PT quiseram roubar de nós, muito mais do que os cofres onde eles meteram sua gazua ideológica.

Pergunte a si mesmo, você que me leia, suposto leitor. Terá sido por incompetência, por irresponsabilidade fiscal, por desonestidade que os governos do PT, em apenas treze anos, sem construir nenhuma Brasília, nenhuma Itaipu, nenhuma ponte Rio-Niterói, nenhuma rodovia Transamazônica ou mesmo um novo aeroporto internacional afundaram o Brasil na pior crise econômica de sua história? Ou será que essa crise foi deliberada para reduzir nosso país a uma Venezuela, que possui a maior reserva petrolífera do mundo, uma riqueza que faz os países árabes esbanjar fortunas incomensuráveis?

Pense mais um pouco. Será que Cuba, Nicarágua, El Salvador, Bolívia, Coreia do Norte, dentre outros correlatos, países governados por "progressistas" como Lula e companheiros, derraparam em algum "ponto fora da curva" para um destino ignorado e indesejável por seus governantes? Ou seria mais razoável conjecturar que esse destino era o sonhado por esses revolucionários?

Se convergimos na mesma conclusão, que me parece óbvia demais, então eu retorno à pergunta: Que droga de governo é este? Que antes de pedir a bênção de um ditador não repele sua acusação desonesta, infundada e estapafúrdia de que cumprir a Constituição do Brasil é dar um golpe de estado? Que o diabo o carregue.

Concluindo: Nenhuma democracia nos cobrou explicação para o processo legítimo de impeachment de Dilma Rousseff. Por que nos justificarmos com uma ditadura como Cuba?

Logo o Brasil, que tem um presidente interino professor e autor de livros de Direito Constitucional?

Como diz o senador Magno Malta: "Mamãe, me acuda. Aqui só falta chover pra cima.".

 

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  • Pedro Henrique Mancini de Azevedo
  • 18 Julho 2016



Estava eu passando de canais na TV, quando me deparei com um programa na Globo News que discutia a saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara. Nele participavam Manuel Galdino, diretor-executivo da Transparência Brasil, e Roberto Romano, professor da Unicamp. Depois de alguns pontos colocados por ambas as partes, Roberto Romano diz que sua maior preocupação com o atual cenário político é a radicalização do Congresso, alertando para um possível regime autoritário.

Não é de se espantar para ninguém que a Unicamp é infestada de esquerdistas. Mas me espanta como a esquerda considera qualquer discurso diferente que não reza a sua cartilha como algo radical. Já perceberam isso?

Se alguém apresenta uma pauta voltada para o mercado, com menos impostos, menos burocracia e com um Estado mais enxuto, a esquerda o acusa de ultraliberal a favor dos empresários que quer destruir as "conquistas" dos trabalhadores. Se alguém defende valores tradicionais da família e da religião, a esquerda o acusa de conservador retrógrado que é contra as minorias. Se alguém defende o fortalecimento das fronteiras – uma das funções clássicas do Estado - visando proteger e dar segurança aos cidadãos do país, então a esquerda o acusa de xenófobo de extrema direita. Tudo isso é radicalismo para a esquerda. Mas os radicais populistas, os radicais oprimidos e os radicais anti-imperialistas, esses a esquerda não fala nada. Já que é assim, vamos um breve retrospecto comparativo entre as alas radicais.

A América Latina viveu uma verdadeira farra populista desde o início do século, com Lula, Hugo Chávez, Evo Morales e os Kirchners. O Brasil e a Venezuela vivem a pior crise econômica das suas histórias; a Bolívia continua como um dos países mais miseráveis do mundo; e a Argentina ainda está tentando se recuperar da desgraça deixada pela casal K. Em contrapartida, Chile, Colômbia, Peru e México, que foram na contramão dos países do Mercosul, adotando uma postura mais voltada para o mercado, vão muito bem, obrigado.

Na Europa, Grécia, França, Espanha e Inglaterra, seguiram a linha populista europeia, que eles chamam de progressismo. O resultado foi uma crise sem tamanho, uma das piores da história. Os dois últimos países alteraram suas pautas e se recuperaram muito bem da crise. Já os dois primeiros dobraram a aposta. A Grécia vive em uma crise profunda, e a França só não tem mais greve do que o Brasil. Ah sim, quase ia me esquecendo. A Alemanha, com sua austeridade criticada pelos progressistas, foi o país da União Europeia mais imune a crise de 2008. Crise essa causada pela bolha imobiliária americana que foi iniciada pelo progressista Bill Clinton ainda na década de 1990. Mas isso é só um detalhe. Vamos adiante.

Falando nos EUA, os americanos estão vivendo um verdadeiro inferno devido a questões raciais. A turminha do beautiful people de Hollywood, juntamente com o New York Times, passaram anos acusando os brancos, sobretudo os policiais, de fascistas e racistas (soa familiar?). Com dados distorcidos e estatísticas mentirosas – algo muito comum da esquerda, como dissecou George Orwell em "A Revolução dos Bichos" -, os progressistas inflaram a população negra a ponto da Miss Alabama, uma negra, considerar o homem, também negro, que matou cinco policiais a sangue frio em Dallas um mártir! Lembrando que o presidente dos EUA há oito anos é negro. Adiantou alguma coisa? Será que essa velha postura marxista de considerar os brancos opressores e os negros oprimidos, colocando uns contra os outros deu certo? E no Brasil? Deu certo proteger os pequenos e grandes marginais oprimidos contra a opressora sociedade burguesa? A criminalidade certamente não diminuiu. O Rio de Janeiro, cidade das Olimpíadas, é terra de ninguém. Esta semana uma menina de sete anos viu a mãe morrer na sua frente após ter sido esfaqueada no pescoço. Mas a esquerda defende esses oprimidos da sociedade.

E o que falar da postura da esquerda quando se trata de combater os anti-imperialistas? Para eles, basta que algum grupo grite "morte a América" para que eles relativizem qualquer atrocidade. Os "revolucionários" decapitam, matam a sangue frio, e tudo que a esquerda faz é pedir respeito as diferenças culturais. A França, como sempre, é porta voz desse discurso. Até porque a França é muito cool para entrar em uma guerra; os franceses são intelectuais demais para lutarem. O resultado disso é que a França sofreu três grandes atentados terroristas nos últimos dois anos! Será que é xenofobia mesmo querer proteger fronteiras e lutar contra terroristas muçulmanos? Os EUA, por sua vez, após ficarem 15 anos sem um ataque terrorista, graças ao trabalho dos "fascistas" da CIA, voltaram a sofrer um ataque dentro de suas terras. Aparentemente, a postura pusilânime do esquerdista Obama de praticamente passar todo seu mandato pedindo perdão pela "opressão" americana ao Oriente - como se eles já não vivessem em guerra centenas de anos antes dos EUA mesmo existirem -, e de fazer acordos com países como o Irã, não adiantou muito.

Enfim, a esquerda vestiu uma nova roupa, adaptou o seu discurso e recebeu uma nova chance, após o colapso da União Soviética. E o resultado foi igual ao de sempre – crises econômicas, autoritarismos, e caos civil. Em outras palavras, o mundo governado pela esquerda está de cabeça para baixo, como sempre. E porque eles continuarão recebendo novas chances? Pelo fato deles continuarem colocando na cabeça da sociedade que há uma ameaça totalitária nos "discursos radicais" da direita. É assim que a esquerda cria um monopólio das boas intenções. Só cai nessa quem quer.
 

* MBA, PMP
 

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  • Fernão Lara Mesquita
  • 17 Julho 2016


Há outra política dentro dessa em que o lulismo transformou a nossa. O Brasil que não se alinha ao crime volta a ter no que se agarrar e isso faz muita diferença.

(Publicado originalmente no Vespeiro.com)

Lula matou a política, Eduardo Cunha tratava de enterrá-la. Um era a exata contrapartida do outro e a remoção do último, na sequência da quase remoção do primeiro, completa a reversão do desvio mortal em que o Brasil entrou. Está reaberto o caminho para a volta da política sem a qual não se vai a lugar nenhum.

Essas mudanças são como as manobras dos grandes navios. O acionamento dos comandos não vence imediatamente a inércia. Está aí, ainda, o cirquinho "silogístico" de tortura ao senso comum e escárnio à inteligência nacional do PT sob a batuta de José Eduardo Cardozo, Gleisi Hoffmann e cia., par perfeito do "regimentismo" bandalho de Eduardo Cunha; está aí, ainda, aquele STF que solta e arrebenta legalizando para si mesmo, em plena Lava Jato, o duto das "palestras" para partes nos litígios que julga, como as de Lula à Odebrecht, e garantia de segredo para o valor do mimo recebido. Mas tudo isso, depois da votação de quinta-feira, deslocou-se para mais perto da porta do passado.

Entrou ar. E onde entra ar qualquer infecção volta a ter chance de cura. Há outro STF dentro daquele STF; há outra política dentro dessa em que o lulismo transformou a nossa. O Brasil que não se alinha ao crime volta a ter no que se agarrar e isso faz muita diferença.

Sem ilusões, porém.

Há uma dimensão percebida dos nossos vícios, e outra que já é cultura e nos move por baixo do nível da consciência. Para a primeira tornam-se mais favoráveis as perspectivas. Antes de mais nada, porque não há alternativa para o caminho certo. É agir ou morrer. E logo. Rodrigo Maia tem formação econômica. Sabe que a alternativa fácil não dobra a esquina. É o homem certo no lugar certo para reger esse debate. Michel Temer, que se apruma com essa vitória, também passa a poder, mais que antes, agir certo, em vez de apenas falar certo. Assim alterado o clima, o comando da Comissão de Impeachment bem pode, também, passar a olhar antes para o Brasil que se esvai manietado e a resistir com alguma galhardia às manobras espúrias que vem engolindo sem engasgar, pois até para o STF será mais complicado, agora, dançar fora da nova batida do bumbo. Se o Brasil deixar claro que é o que quer, todo mundo se afina, ao menos no discurso. Ou não foi assim que o País inteiro virou "Lava Jato desde criancinha" e a votação de quinta-feira deu no que deu?

A outra dimensão é que é mais difícil de lidar. O lulismo foi a chegada do primeiro produto P.O. ("puro de origem") do peleguismo getulista ao posto mais alto da Nação. Ao fim de quase 80 anos de uso contínuo dessa droga de tão potente efeito necrosante não há brasileiro que, direta ou indiretamente, não tenha sido mutilado por ela. A maioria de nós – o próprio Lula notoriamente – nem sequer tem consciência de como foi afetada. Simplesmente não sabe como é viver de outro jeito.

É juntar três ou quatro amigos, fundar um "sindicato" que o Estado se encarregará de impor a um dos lotes do condomínio nacional do trabalho onde não se entra sem alvará e fincar na veia o cateter do imposto sindical. Para o resto da vida, tudo o que há a fazer depois disso é não permitir que algum aventureiro o arranque do seu braço, o que é fácil de garantir desde que as "eleições" se deem por "aclamação", sempre arrancável pela intimidação, seja pela negação de trabalho, seja pela violência física. Daí para a política. É essa a escola.

Para esmagar resistências ao longo do caminho, para garantir esse "eu sou, mas quem não é?" em que tudo se dissolve sempre no debate político nacional desde o "mensalão", acrescentou-se à receita a socialização da corrupção por essa "justiça trabalhista" que sustenta a legião de profissionais do achaque encarregada de moer a consciência da Nação soprando diuturnamente, de ouvido em ouvido, o mantra sinistro: "Minta, traia, falseie que o governo garante"...

E lá se foi o Brasil se dessensibilizando até admitir que o método fosse estendido a todos os níveis do seu sistema representativo – partidos políticos, associações de classe, ONGs, etc. – e parecesse nada mais que lógico e natural impô-lo, afinal, como o regime político mesmo da Nação à força de decretos presidenciais e remendos judicantes sob a égide do "excesso de democracia" à venezuelana.

É essa a feição "moderna" que assumiu o absolutismo monárquico à brasileira que a Republica nunca superou depois que entregou intactos os poderes do Imperador sem mandato aos novos imperadores com mandato. O abacaxi que Michel Temer e o Congresso de Rodrigo Maia têm de descascar é velho como o Brasil de dom João VI e os miasmas que dele emanam são fortes o bastante para levar até o "dream team", em questão de semanas, a passar das juras de amor eterno ao controle dos gastos públicos ao namoro com mais um porre de impostos, só que sorvido aos "golinhos". É que, por baixo das diferenças manifestas nos extremos mais distorcidos do "Sistema" derrotados quinta-feira, eles continuam sendo, antes e acima de tudo, "A Corte"; uma casta para a qual há leis especiais, tribunais especiais, regimes de trabalho, salários e aposentadorias especiais, até juros bancários especiais extensíveis a quem quer que um de seus "excelentes" pares houver por bem resgatar deste vale de lágrimas. E, de cunhas a grazziotins, "A Corte" reage sempre com unanimidade monolítica quando o que está em jogo é montar nas nossas costas para aliviar as próprias.

É disso que se trata mais uma vez agora. Tornar as suas prerrogativas um pouco menos "especiais" para que, explorados e exploradores, sigamos todos com os narizes 1 cm acima da linha d'água é o melhor que, em sã consciência, se pode esperar desses brasileiros dispensados de viver no Brasil que eles próprios criam. Mais só quando o Brasil se der conta de que é ele que manda e adotar finalmente a democracia, obrigando-os a viver no mesmo país em que vivemos nós, sujeitos às mesmas leis, aos mesmos ventos e às mesmas tempestades. Aí, sim, eles tratarão de consertá-lo.
 

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