Na edição de 22 de julho último, Zero Hora publicou uma entrevista do jornalista Paulo Anunciação, sobre o Arquivo Vasili Mitrokhin, em particular sobre as atividades do escritor Josué Guimarães como agente nos anos 70. Chama a atenção que, no título da entrevista, foi recortado o trecho que o jornalista enunciou na primeira frase da resposta à última pergunta do entrevistador. O que ele disse, como consta do texto na íntegra, é que “o documento que faz referência a Josué Guimarães não diz que ele era espião ou agente contratado ou que recebeu dinheiro dos soviéticos. Apenas diz que foi incluído na rede da agência (KGB) em Lisboa.” Não é necessário ser um estudioso de espionagem para saber que alguém que foi incluído na “rede da agência” era, no mínimo, um colaborador da KGB, o que é o mesmo que afirmar que desempenhava algum tipo de atividade de espionagem. Pensar diversamente é incorrer em vício de confusão. Mas, como disse, a entrevista segue e trata de elucidar o tema.
Para reforçar a conclusão de que Josué, digamos, no mínimo, colaborava com a KGB, basta ler o prosseguimento da entrevista. Entre 1976 e 1980, segundo Anunciação, o escritor manteve 42 reuniões com os agentes Novikov, Budyakin a Bykov em três cidades/países diferentes. Não é pouco e, certamente, não se tratavam de reuniões literárias. Anunciação esclarece que Josué, de acordo com a nota transcrita por MItrokhin, ”conhecia bem a forma de trabalhar dos serviços secretos soviéticos, nomeadamente quanto às noções de segurança, conspiração e meios pessoais ou impessoais de comunicação.” Convenhamos, é um bom acervo de habilidades. E o próprio jornalista português arremata, de modo impositivo: “... a informação transmitida por Josué Guimarães era tida em alta consideração pelos soviéticos, pois se não fosse assim não teria tido tantas reuniões.”
Zero Hora merece um elogio pela iniciativa da entrevista, depois que repercutiu a reportagem do jornalista Vitor Vieira, do site Videversus. O jornal confirmou, entre outras coisas, que um ícone da literatura do Rio Grande servia à KGB e a um regime criminoso. Este fato não é nada abonatório. Ao final de suas declarações, Anunciação ainda avisa que segredos que os brasileiros gostariam de manter enterrados para sempre estão contidos no Arquivo Mitrokhin. Há muito material desclassificado sobre a América Latina à disposição de pesquisadores. Seria de esperar que Zero Hora se dispusesse a enviar algum profissional até Cambridge para fazer uma investigação sobre qual era o alcance da rede de espionagem soviética no Brasil. Sabemos que Josué Guimarães somente foi incluído na matéria de Anunciação porque o escritor, nos anos 70, vivia e atuava em Portugal.
A intranquilidade causada pela revelação sobre as atividades secretas de Josué Guimarães é compreensível e previsível, na medida em que todos os seus amigos integram um grupo cultural orientado por posições esquerdistas. O que não pode ser mais desconsiderado é que o próprio Josué confessou sua adesão ao comunismo ainda em 1952, quando escreveu Muralhas de Jericó, um diário de sua viagem à URSS e à China ocorrida naquele mesmo ano. Josué tinha, então 31 anos e trabalhava para a Última Hora, do Rio de Janeiro. O livro era inteiramente dedicado à exaltação das conquistas soviéticas e chinesas nos campos das relações de trabalho, inovação industrial, educação, liberdade e cultura.
Tudo mentira e propaganda. A publicação, que se deu apenas em 2001, pela L&PM, de Muralhas, tinha o objetivo de homenagear o escritor quando ele completaria 80 anos. Mas terminou configurando um depoimento definitivo sobre o quanto um jovem intelectual pode prostrar-se diante de uma ideologia facínora por razões inconfessáveis, uma vez que, em 1952, já era inteiramente conhecida do Ocidente a barbárie stalinista e o estado de terror genocida em que vivia a União Soviética. Stálin, que morreu em 1953, exterminou mais de 70 milhões de pessoas durante sua tirania e parte dos seus crimes seria denunciada, em 1956, por Nikita Krushov, no XX Congresso do Partido Comunista da URSS.
Mesmo assim, o editor de Josué Guimarães, Ivan Pinheiro Machado, ele próprio oriundo do Partido Comunista Brasileiro, com passagem pela Dissidência Leninista e, depois, pelo Partido Operário Comunista, não hesitou em fazer a homenagem ao companheiro, com o apoio financeiro do Instituto Estadual do Livro, administrado, à época, pelo governo marxista de Olívio Dutra. O fato mais assustador é que bem antes de 1952, três dos maiores documentos denunciando o totalitarismo comunista já haviam sido publicados e amplamente cobertos pela imprensa ocidental. Eram documentos literários que qualquer intelectual tinha o dever de conhecer: O zero e o Infinito (1940) de Arthur Koestler, Do fundo da noite (1941) de Jan Valtin e Eu escolhi a Liberdade (1946) de Victor Kravchenko. Seria interessante repassar estas informações para os amigos de Josué Guimarães, entre eles aqueles que rotularam as informações publicadas por Vitor Vieira sobre a reportagem de Anunciação como “balela” e “boatos”.
Josué Guimarães morreu sem arrepender-se de suas atividades comunistas e sem inutilizar Muralhas de Jericó. Agora sabemos o porquê. Seus editores da L&PM, propriedade da dinastia dos Pinheiro Machado, uma editora assumidamente esquerdista - cujo patriarca, o falecido Antônio Pinheiro Machado Netto, atreveu-se a escrever, em 1985, um elogio em livro ao Muro de Berlim- também não imaginavam que viriam à tona os segredos de Josué Guimarães arquivados em Cambridge. Agora não é possível mais tentar erguer um véu de desdém ou de silêncio sobre o assunto, como pretenderam fazer Luiz Fernando Veríssimo, Flávio Tavares e David Coimbra. Ao contrário, o Arquivo Mitrokhin está lá na Inglaterra, disponível para pesquisa.
O caso ainda renderá muitas investigações sérias e , naturalmente, novas reportagens.
É difícil entrar sob a pele de próximo, mesmo com a melhor das intenções, sem nos despirmos de nossa própria pele. Como poderá um adulto, por exemplo, que nem consegue voltar a ser a criança que um dia foi, entrar sob a pele de outra criança que ele nunca foi?
No entanto, muito mais do que o nosso intelecto superior, esse exercício é que nos torna humanos. É ele que nos confere a dignidade da criação à imagem e semelhança do Criador. Um privilégio que há muitos anos vem sendo, impiedosamente, excluído da nossa herança divina.
Como nos defendermos desses assaltantes de nossa alma? Que nos espreitam há milênios?
A cada um, seu quinhão. A parte que me coube, humilde e antipática, foi o dom da ironia. Mas também é aquela que exige o menor sacrifício para desicumbir-nos do dever de prestar uma colaboração a serviço do bem.
Ironizar é jogar no mesmo campo do adversário. E nisso eu me julgo um privilegiado. Sinto que o campo é inclinado e, no sorteio, meu time joga a montante. Nada pode ser mais fácil do que meter bola no gol do adversário. Que só pode chutar a bola pro mato porque o jogo vale ponto no campeonato.
Ridicularizar um comunista é quase covardia. É como empurrar um bêbado ladeira abaixo. Como foi que os comunistas nos aplicaram uma goleada e nos empurraram ladeira acima? O que poderia ser mais surpreendente, tão irracional?
A política, é claro. Que está varrendo para a sarjeta seus profissionais, dos quais os comunistas se tornaram cúmplices na arte de nos enganar. Mas não deixaram de brigar na hora de diviir o butim.
Ridículos? Não. Como disse Fernando Pessoa: "Toda carta de amor é ridícula. Mas ridículo mesmo sou eu, que não recebo nenhuma carta de amor".
Nós é que somos carentes de quem nos represente. Ridículos somos nós.
(Publicado originalmente em http://www.bonde.com.br/)
De 1959 para cá, os cidadãos de Cuba que tentam fugir do paraíso socialista para o inferno capitalista (utilizem a tecla SAP de ironia, por favor) são chamados pelo regime de "gusanos". Para quem quiser ter uma noção sobre como é a vida de um gusano, sugiro a leitura de dois livros: "Filho da Revolução", de Luis Manuel Garcia, e "Antes que Anoiteça", de Reinaldo Arenas. Só para começar.
Ontem eu tive a honra de ser chamado de gusano em português. Para quem não sabe, verme. Sim, uma indignada militante feminista, suposta ex-aluna da USP, chamou-me de "verme" porque escrevi contra a doutrinação ideológica nas escolas. Receber tal xingamento é a prova de que estou no caminho certo.
Na minha coluna do último sábado — texto mais lido no ranking da Folha naquele dia —, afirmei que uma minoria militante quer transformar as escolas brasileiras em campos de concentração mental. Nada mais natural, para a militante Maria Dolores Zetkin, do que se referir a um adversário ideológico utilizando um termo de guarda de campo de concentração. "Verme" é como os prisioneiros eram chamados nos campos comunistas e nazistas — afinal, inimigos da esquerda merecem ser "extirpados da face da Terra", no dizer de Saul Alinsky, guru de Hillary Clinton.
Por sinal, Zetkin tem toda pinta de ser um pseudônimo, a não ser que a militante seja descendente de Clara Zetkin, militante comunista agraciada com a Ordem de Lênin em 1932, já na ditadura de Stálin. Por sinal, o caixão de Clara Zetkin foi carregado pelos camaradas Stálin, Molotov, Voroshilov e Ordjonikdze — tudo gente boa. Alguém que se apresenta como Dolores Zetkin é mais ou menos como se eu assinasse Antônio Fidel Dzerzhinsky. Ou Paulo Guevara Alinsky.
Não me espanto que os militantes escolares estejam desesperados e pedindo a minha cabeça a cada quatro palavras. A crônica "Seu filho corre perigo", tanto na Folha quanto no Bonde (onde saiu com o título "A esquerda quer doutrinar nossos filhos"), esteve entre os meus textos mais lidos no jornal até hoje, perdendo apenas para o perfil do delegado Gerson Machado, pai da Lava Jato. Alguns Zetkins atacam o colunista, mas em número incomparavelmente os leitores compartilham e recomendam o texto. Professores, estudantes e pais de família sérios ainda são a grande maioria, e não aceitam a doutrinação ideológica nas escolas. Aliás, doutrinação é um termo muito fraco: o que existe hoje é um projeto de engenharia social à custa da saúde mental de nossos filhos.
Quando a verdade vem à tona, o militante esquerdista vai à loucura. Nem sequer uma celebridade acadêmica como Marilena Chauí consegue manter a linha: acaba dizendo que Sérgio Moro é um "agente do FBI" e por aí abaixo. Ela conseguiu ser pior do que seu companheiro Sibá Machado, que pelo menos delirou citando o órgão correto, a CIA. Daqui a pouco Sibá vai dar aula na USP.
Essa turma precisa urgentemente carpir uma data. Ou — para usar o gênero neutro, como eles gostam — carpir uma datx. É ridículx.
Porto Alegre abrigou, em 2005, o II Fórum Mundial de Teologia da Libertação - evento vinculado à realização do Fórum Social Mundial. Uma palestra parece ter chamado a atenção do público: a do já falecido Otto Maduro. O filósofo venezuelano conclamou - com uma abordagem "crítica" inclusive dos regimes socialistas-comunistas - uma espécie de "atualização" da teologia revolucionária, e exigiu:
"Uma teologia ousadamente libertadora tem que envolver o tema da homossexualidade e da homofobia" [1].
A Teologia da Libertação, não é segredo para mais ninguém, não é propriamente uma "teologia", mas uma arma comunista de conquista política [2]. Por isso, no discurso de Otto Maduro, a "homossexualidade" e a "homofobia" estão aparentemente em primeiro plano; a questão principal, contudo, é a transformação da sexualidade em "causa" - claro, dentro da chave da "luta de classes", do conflito entre "oprimido", "excluído" e "opressor", como se faz com o "povo", com o "trabalhador", "operário", "indígena", "sem-terra", "sem-teto", e tantos outros tipos modelados com "vitimização" para criar mais uma força mobilizadora e útil para o movimento revolucionário. É nesta perspectiva que se costura a bandeira LGBT-gayzista.
O método de ação é conhecido: inocular a "causa" dentro da Igreja Católica com agentes em todos os setores e níveis - comprometidos diretamente ou como "companheiros de viagem" - distorcer a fé e instrumentalizá-la, construindo uma plataforma de promoção de lideranças e de disseminação de propostas de engenharia social e comportamental, enquanto, simultaneamente, a moral cristã, um dos pilares de resistência e oposição, é corrompida.
O Fórum Social Mundial é dado como um "contraponto" ao Fórum Econômico de Davos; porém, ele é um braço do Foro de São Paulo [3]. A Teologia da Libertação, tida como "teologia" genuinamente latino-americana, é na verdade um engodo inventado para assaltar a Igreja Católica. Fórum Social Mundial e Teologia da Libertação têm em comum o caráter "instrumental": são criações dos comunistas para favorecerem o seu amplo e ambicioso esquema de poder.
O vínculo do Fórum Mundial de Teologia da Libertação com o Fórum Social Mundial é ainda mais forte. Quem o assume é Leonardo Boff, celebre "apóstolo" da teologia revolucionária e do Foro de São Paulo [4]:
[...] "Nos anos 70 se organizaram os primeiros Fóruns Mundiais de Teologia da Libertação" [...] "Com o surgimento dos Fóruns Sociais Mundiais a partir de 2001 encontrou-se o espaço público para a continuação destes encontros globais" [5].
Os "apóstolos" da Teologia da Libertação tiveram uma atuação conhecida nas revoluções culturais e sexuais de décadas passadas. Para os "descrentes", que viram nisso somente atos de "rebeldia", a declaração de Otto Maduro, em Porto Alegre, é uma amostra de compromisso efetivo - agora com a militância LGBT-gayzista. Uma iniciativa estratégica, dentro de uma organização integrada ao Fórum Social Mundial - um centro de planejamento e ação de "movimentos" ditos "sociais", que têm vários núcleos pelo país. Passados mais de dez anos, qualquer um com um mínimo de percepção e discernimento é capaz de reconhecer o amadurecimento daquela proposta como questão comportamental - quem sabe dentro da sua própria paróquia [6]. Como ferramenta especificamente política, não é preciso muito empenho, basta ver como "homossexualidade" e "homofobia" estão sendo utilizadas até mesmo para defender o mandato da Presidente petista e fantoche do Foro de São Paulo, Dilma Rousseff. Uma das "trincheiras" é a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, comandada por um "apóstolo" da Teologia da Libertação [7].
REFERÊNCIAS.
[1]. "Teologia gay é tratada no Fórum Mundial de Teologia da Libertação", Adital, 25 de Janeiro de 2005 [http://www.adital.com.br/site/noticia2.asp?lang=PT&cod=15127].
[2]. Cf. PACEPA, Ion Mihai. "A KGB criou a Teologia da Libertação" [http://b-braga.blogspot.com.br/2015/01/a-kgb-criou-teologia-da-libertacao.html]. Tradução do Capítulo "Liberation Theology" (15), que é parte do livro "Disinformation": former spy chief reveals secret strategis for undermining freedom, attacking religion, and promoting terrorism (WND Books: Washington, 2013); "As raízes secretas da teologia da libertação". Trad. Ricardo R. Hashimoto. Mídia Sem Máscara, 11 de Maio de 2015 [http://www.midiasemmascara.org/artigos/desinformacao/15820-2015-05-11-05-32-01.html]; "A Cruzada religiosa do Kremlin". Trad. Bruno Braga [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/04/a-cruzada-religiosa-do-kremlin.html]; "Ex-espião da União Soviética: Nós criamos a Teologia da Libertação", ACIDigital, 11 de Maio de 2015 [http://www.acidigital.com/noticias/ex-espiao-da-uniao-sovietica-nos-criamos-a-teologia-da-libertacao-28919/]; Departamento de Estado dos Estados Unidos. Washington. D.C. "Ações ativas soviéticas: The Christian Peace Conference". Trad. Bruno Braga. [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/07/christian-peace-conference-disseminacao.html]; NORRIS, Brian. "Crítica do "Christian Peace Conference". Trad. Bruno Braga [http://b-braga.blogspot.com.br/2013/07/critica-do-christian-peace-conference.html].
[3]. Cf. "Fórum Social Comunista 2016" [http://b-braga.blogspot.com.br/2016/01/forum-social-comunista-2016.html].
[4]. Cf. "Os 'apóstolos' do Foro de São Paulo" [http://b-braga.blogspot.com.br/2016/06/os-apostolos-do-foro-de-sao-paulo.html].
[5]. Cf. referência [3], nota II.
[6]. Cf. "A Teologia da Libertação e o 'apostolado' gayzista" [http://b-braga.blogspot.com.br/2015/07/a-teologia-da-libertacao-e-o-apostolado.html]; "Fátima, Nossa Senhora do Carmo e o 'ministério gayzista'" [http://b-braga.blogspot.com.br/2016/07/fatima-nossa-senhora-do-carmo-e-o.html].
[7]. Cf. "Estratégia comuno-petista" [http://b-braga.blogspot.com.br/2016/06/estrategia-comuno-petista.html]; "CDHM: 'Padre' do PT comanda 'trincheira' comuno-petista" [http://b-braga.blogspot.com.br/2016/06/cdhm-padre-do-pt-comanda-trincheira.html].
Postado por Bruno Braga às 11:16 PM
Se a sua resposta for positiva permita-me, em primeiro lugar, recomendar que não perca tempo comigo. Pare de ler este texto imediatamente. Porque eu não sou nem tenho a menor pretensão de ser um profeta. Confesso minha cabal ignorância do tempo futuro. Se mal sei do presente e do passado, o que poderia dizer sobre o futuro? Sobre esse tempo que apenas aos revolucionários é dado conhecer na palma da mão?
Mas você, um revolucionário, decerto movido por uma curiosidade científica, continua a ler este texto? Faz bem, nossa curiosidade é recíproca e verdadeira. Eu faria o mesmo - e já o fiz tantas vezes! - para tentar descortinar o futuro graças ao dom da profecia, desculpe-me,
à genialidade dos revolucionários.
Falta-me, no entanto, esse lampejo da inteligência que é um predicado natural dos gênios. Esse brilho que incendiou Robespierre, Marx, Lênin, Stálin, Mao e Pol Pot. E iluminou todo este mundo com fagulhas que libertaram Cuba, Nicarágua e Venezuela, que suscitaram Fidel Castro, Daniel Ortega e Hugo Chávez.
Que inveja eu sinto de você, meu caro revolucionário. Fosse eu um homem de fé, como é você, despojaria de todos os meus mesquinhos pertences e o seguiria como fiel discípulo. O que somos nós, afinal, senão passageiros de uma viagem que não desejamos chegar ao ponto
do destino, que a cada dia nos parece aproximar-se mais rapidamente? Como resistir a esse fascínio que é viver no futuro pelo intelecto, como quem estende a mão para colher um fruto que o alimenta?
Essa inveja, no entanto, não é pecaminosa. Melhor seria dizer que o admiro. Ou seja, eu gostaria de ter a sua convicção num futuro que não cabe na palma de minha mão. Talvez eu não passe, no fundo, lá no fundo, de um cético. Que implora por sua condescendência. Não me trate como um infiel. Um inimigo da sua fé, digo, da sua convicção. Em meu desfavor, confesso que sou um conservador. Mas nunca dei calote em ninguém, jamais deixei de ajudar alguém que me pediu auxílio e sempre segui, ou pelo menos tentei seguir os ensinamentos que aprendi com meus pais católicos. E com Jesus Cristo, que dividiu o calendário ocidental em antes e depois do seu nascimento, numa revolução que só derramou Seu próprio sangue.
Queira me perdoar, então, por preferir acreditar nesse reino intangível que Ele nos revelou além da física. E que confirma os profetas, os sábios e os cientistas que teceram a trama fio por fio, de nossa civilização. E sempre respeitaram os limites do mistério que habita o inefável muito além dos segredos que eles desvendavam.
Você, porém, conhece o futuro, meu caro revolucionário. E parece que é tudo que você conhece. O que não seria pouco se não fosse uma grande cretinice. Imaginar que a utopia não seja uma manifestação saudável do espírito, mas uma ciência da matéria biológica - como defendeu Karl Marx em sua filosofia que você provavelmente desconhece - tem tudo a ver com a insanidade, a libertinagem e a selvageria contra nossos próprios semelhantes.
Você é um revolucionário? Então procure saber o que é ser um revolucionário. Estude os revolucionários. Não perca seu tempo comigo. Ganhe seu tempo para você.
A hostilidade ao PT cresceu nos últimos anos não em razão de preconceito contra o partido, e sim por ter ficado clara a brutal incompetência administrativa dos petistas
É muito conveniente, para os petistas, atribuir suas previsíveis dificuldades eleitorais neste ano, especialmente em São Paulo, ao tal "ódio ao PT" que eles tanto vivem a denunciar. O melancólico, mas merecido, quarto lugar do prefeito Fernando Haddad na pesquisa do Datafolha de intenção de voto à Prefeitura parece dar razão aos estrategistas de sua campanha que querem descolar o alcaide da desastrosa imagem de seu partido – estigma que, segundo esse raciocínio, excita na classe média paulistana seu atávico antipetismo. No entanto, essa é, como de hábito, uma desculpa esfarrapada: a hostilidade ao PT realmente cresceu nos últimos anos e acentuou-se mais recentemente, mas não em razão de preconceito contra o partido, e sim por ter ficado clara a brutal incompetência administrativa dos petistas, não apenas no Município de São Paulo, mas na gestão federal.
É por esse motivo que está cada vez mais difícil encontrar eleitores que se dizem petistas ou que tenham alguma boa vontade com o partido. As últimas eleições mostraram que o grosso do voto na sigla construída por Lula da Silva começa a se concentrar onde a pobreza e o atraso limitam o senso crítico dos eleitores. Especialmente nas regiões metropolitanas, antigo reduto do Partido dos Trabalhadores, o definhamento da legenda se acelerou – a pesquisa do Datafolha mostra que a simpatia pelo PT em São Paulo, por exemplo, caiu de cerca de 25% há quatro anos para 11% agora. O PT ainda é o partido que tem mais eleitores cativos na capital paulista, mas nem de longe apresenta o vigor dos tempos, nem tão distantes, em que o lulopetismo se arrogava o privilégio de ditar os termos da história.
Quando questionados sobre o fenômeno, os petistas têm uma explicação na ponta da língua: trata-se do resultado de uma gigantesca orquestração promovida para difamar o PT. E tudo, é claro, para impedir que o chefão Lula vença as eleições presidenciais de 2018. Como escreveu o presidente do PT, Rui Falcão, em texto publicado pelo partido no dia 18, a "insidiosa campanha da mídia monopolizada" e a "perseguição implacável de autoridades parciais" visam a "infligir uma derrota acachapante ao PT nas eleições municipais" e a frustrar a eventual candidatura de Lula, "liderança inquestionável" nas pesquisas.
Entre os conselheiros de Haddad, o discurso é o mesmo. Já há quem diga, aqui e ali, que o prefeito, se quiser se reeleger, terá de encontrar meios de lidar com a carga da impopularidade da presidente afastada Dilma Rousseff e do PT, sem falar na do próprio Lula, que em São Paulo enfrenta grande rejeição. Isso seria, na opinião desses assessores, o maior obstáculo de Haddad.
Assim, com a desfaçatez habitual, os petistas vão construindo a fantasia segundo a qual o problema eleitoral do PT está no eleitor – instigado pela "mídia monopolista" e pela "elite golpista" a odiar os petistas – e não no próprio partido, cujos delírios de uma revolução social financiada pelo Estado resultaram na maior crise econômica da história recente, sem falar na desmoralização da política pela via da institucionalização da corrupção.
Seria realmente espantoso se a esta altura, com a exposição escancarada da incompetência dos companheiros Haddad e Dilma, os eleitores não manifestassem repúdio ao modo petista de governar. É provável que entre os que reprovam o prefeito e a presidente ora afastada haja mesmo muitos antipetistas convictos, desses que escolhem o candidato pelo potencial para derrotar o PT. Mas é evidente que, diante do descalabro dos governos de Dilma e de Haddad, com desemprego, recessão, contas no vermelho, ruas esburacadas, ciclovias improvisadas, saúde em pandarecos, educação vergonhosa e muitas, mas muitas promessas grandiosas não cumpridas, a decisão de desalojar o PT do poder o quanto antes seja a mais racional a ser tomada na hora de votar.
A própria Dilma reconheceu isso, ainda que por obra de evidente ato falho. Em evento em uma universidade do ABC, depois de ter sido criticada por um dos presentes, a petista, sem querer, explicou por que foi afastada da Presidência: "Uma das constatações que temos que fazer é que algo não deu certo, tanto é que eles estão lá, e nós, aqui". Bingo.