• Fernando Schüler - Revista Época
  • 21 Favereiro 2017

 

 

 

Enquanto em São Paulo o prefeito João Doria anuncia o “maior projeto de privatização” do Brasil e ninguém faz drama, no Rio de Janeiro a venda da Cedae ameaça virar (mais) um fiasco


O que impressiona, no debate carioca, é o tom. A exaltação. O evidente conflito de interesses envolvido na discussão. Tudo isso, alguém poderia dizer, é previsível em um debate envolvendo a privatização de uma empresa pública. Não acho. Uma boa democracia precisa saber separar a lógica dos grupos de pressão do interesse difuso dos cidadãos. A conversa fiada ideológica da argumentação racional.

Leio um artigo do deputado Marcelo Freixo dizendo que a Cedae “vale entre R$ 10 bilhões e R$ 14 bilhões” e que os membros do governo estadual dizem valer R$ 4 bilhões. Na contabilidade do deputado, a companhia, com seu bilionário passivo trabalhista, situa-se entre as 40 ou 50 empresas mais valiosas do país. O dado mais curioso, porém, é uma empresa possuir um valor “teórico” distinto do que alguém esteja efetivamente disposto a pagar por ela numa concorrência pública. Alguém poderia explicar ao deputado Freixo que preços se definem no mercado. É por isso que se fazem leilões para vender uma empresa estatal, e o melhor a fazer é exigir o máximo de transparência nesses processos.

O argumento mais esquisito que li veio inspirado pelo papa Francisco. O sujeito citava a encíclica Laudato si e chegava à surpreendente tese segundo a qual, sendo o acesso à agua um “direito humano essencial, fundamental e universal”, a Cedae não pode ser privatizada. Inútil lembrar que, por esse argumento, também o acesso à comida não poderia ser “submetido às leis do mercado”. Mais esquisita ainda é a ideia ainda presente em nosso debate público, segundo a qual o que é “essencial” deve ser “público”, e o que é público deve ser “estatal”.

Para além da retórica ideológica, há boas razões para ter cuidado com o tema da privatização de serviços de água e saneamento. Os críticos do modelo partem do fato de que sistemas de água e saneamento são monopólios naturais e, nessa condição, exigem muito investimento, não permitem concorrência e carregam um amplo leque de obrigações sociais e ambientais. Logo, deveriam ser administrados pelo governo. Empresas privadas tenderão a encontrar brechas na legislação para investir menos em áreas mais pobres, desconsiderar efeitos negativos de sua atividade sobre o meio ambiente e, pior, tenderão a usar seu poder econômico para “capturar” seus reguladores, estejam eles no governo ou em agências independentes.

Tudo isso é possível. Não passa de retórica vazia imaginar que a simples troca de gestão do governo para o setor privado vai melhorar um serviço de natureza monopolística. Os resultados vão variar imensamente segundo as regras do jogo, a qualidade dos contratos e do controle público. É sobre esses pontos que deveria estar concentrado o debate sobre a privatização da Cedae, no Rio de Janeiro.

A experiência global no tema diz o seguinte: serviços privados de água e saneamento podem funcionar bem e atender os mais pobres. Há mais de 2 mil empresas privadas nesse setor, operando nos Estados Unidos, atendendo mais de 70 milhões de pessoas. O Chile tem sido um bom modelo de gestão privada de abastecimento, mantido pelos governos socialistas. A cidade de Indianápolis recentemente privatizou seu serviço de águas para uma organização privada sem fins lucrativos. Há exemplos distintos. Cidades como Atlanta e Buenos Aires voltaram atrás e retomaram a gestão estatal de seus sistemas de abastecimento.

Um estudo interessante, e com certeza útil para o debate brasileiro, foi realizado pelo economista argentino Sebastian Galiani, hoje professor na Universidade de Maryland. Galiani mediu o impacto da privatização dos serviços de água sobre a mortalidade infantil na Argentina. Crianças são mais vulneráveis a doenças transmitidas por água contaminada e falta de condições básicas de saneamento. Pois bem: na Argentina dos anos 1990, 30% dos municípios privatizaram seus sistemas de água. Um ótimo contexto para comparar os modelos. Os números mostraram o seguinte: na primeira metade da década, não houve diferença nos resultados entre a gestão estatal e privada. Na segunda metade, no entanto, a partir da consolidação do novo modelo, a redução da taxa de mortalidade nos municípios que fizeram a privatização foi 8% maior do que as que mantiveram o modelo estatal. Nas comunidades mais pobres, a diferença foi a 26%. O grande diferencial foi a expansão do investimento. Áreas mais pobres, antes sem cobertura, foram integradas às redes de abastecimento.

Questões comuns, nesse debate, parecem ser as seguintes: taxas tendem a subir logo após processos de privatização? A resposta é sim, em geral devido a longos períodos de ausência de investimento e “gestão política” de preços. Manter tarifas artificialmente baixas para todos significa apenas que os contribuintes como um todo estão subsidiando o consumo de quem eventualmente pode pagar. Estimulando, por vezes, o consumo irresponsável. Outra questão: o governo, em um sistema privatizado, pode subsidiar a oferta de água para os mais pobres? Sim, com a vantagem de saber exatamente quem está sendo subsidiado e a que custo. E sem comprometer a eficiência da gestão.

A comparação internacional, nesse tema, é útil para evitar erros e fazer as perguntas certas, mas não responde à questão central: é melhor um sistema estatal ou privado? Por certo, sociedades com tradição de meritocracia, transparência e profissionalismo no setor público e governos com capacidade de investimento tendem a tornar mais plausível a alternativa estatal. Pergunta rápida: é esse o caso brasileiro? É esse particularmente o caso do estado do Rio de Janeiro?

O ex-governador de Nova York Mário Cuomo costumava dizer que “garantir a prestação de um serviço não implica sua execução pelo governo”. A frase é simples. Ela convida a pararmos, de uma vez por todas, de confundir o “público” com o “estatal” no debate brasileiro. Nos convida a um certo realismo. Precisamente o que parece estar faltando no debate hoje em curso no Rio de Janeiro.

 * O autor é cientista política, doutor em Filosofia, professor do Insper e curador do ciclo de debates Fronteiras do Pensamento.

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  • Ênio Meneghetti
  • 21 Favereiro 2017

 

 

A denúncia contra Lula pelo sítio em Atibaia será uma das mais arrasadoras da Lava Jato. Quem avisa é a revista Época. A denúncia está demorando porque trará informações que constam das delações premiadas da Odebrecht e do ex presidente da OAS, Oldemario Pinheiro Neto, o Léo Pinheiro, que junto com a Odebrecht, teria sido quem pagou pela mega remodelação que transformou o sítio de lazer em uma sucursal da Ilha da Fantasia.

Entrementes, Tarso Genro foi ouvido como testemunha de defesa de Lula no caso do outro imóvel, o triplex do Guarujá.

Confesso que ao ouvir a notícia de que Tarso seria ouvido, pensei: que raios Tarso poderá dizer em defesa de Lula? Tarso declarou que não conhece a vida financeira privada do Lula. Mas afirmou solenemente que “tenho conhecimento suficiente dele, da sua postura como político, como presidente da República, que ele jamais aceitaria qualquer beneficio indevido, decorrente de intercâmbio a partir das suas funções presidenciais”. Ah, tá!

Tarso não perde o jeito.

Quando ele era vice prefeito de Olivio Dutra em Porto Alegre, um brigadiano foi degolado com um golpe de foice na garganta, desferido por um membro do MST, durante uma manifestação no centro da capital gaúcha. O assassino fugiu e foi homiziar-se na prefeitura. A imprensa correu até lá e Tarso os recebeu. Saiu em defesa do agressor, que assim como os demais companheiros que o acompanharam na fuga portavam foices com longos cabos de madeira. Ao ouvir que o assassino e seus colegas do Movimento dos Sem Terra estavam “armados”, Tarso rebateu: As foices não eram armas. Eram “instrumentos de trabalho”. Esse é Tarso.

           Ele também contou que logo após assumir o Ministério da Justiça, o chefe da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda, lhe avisou que ocorreria uma diligência, a pedido pelo Ministério Público, na casa de Vavá, irmão de Lula. Vavá estava sendo investigado por possível tráfico de influência. Tarso foi avisado e teria perguntado ao subordinado: “Está tudo regular? Tem ordem escrita? Tem orientação? Então que se proceda.’”

           Em seguida, “cumprindo minhas obrigações como ministro, avisei o presidente Lula”:

           – Presidente, queria lhe informar que amanhã cedo vai ocorrer uma diligência na casa do seu irmão.

           Lula perguntou: “Está tudo legal, tudo regular?”

           – Sim, está tudo correto. – respondeu o ministro. Lula então teria respondido:

           – Que se proceda essa diligência, agradeço por me informar.’”

           Tá bem. Será que Lula não avisou o irmão? Será que o irmão ficou aguardando calmamente, sem nenhuma ação ou providência, como se nada tivesse acontecido?

           Acredito.

          Bem, o fato é que enquanto a batata continua assando, volta e meia surgem novas pesquisas apontando Lula como muito bem posicionado para a corrida presidencial de 2018.

          Ora, mesmo que ele esteja solto em outubro de 2018 e cometa a bobagem de concorrer, Lula não tem chance alguma. Os índices que apresenta são os fanáticos que ainda o acompanham e meia dúzia de alienados que votariam nele mesmo que fizesse campanha vestido como a bruxa malvada. Seus índices de rejeição são incontornáveis. Não há como Lula ganhar. Isso com o que se sabe até hoje. Fora o que ainda falta ser revelado e o será em breve.

          Já imaginaram Lula em um debate? Os vídeos dele andando na rua e sendo destratado pela população? Como ele colocaria os pés na rua?

            A possibilidade de Lula concorrer é remota. Se concorrer, tomará uma lavada.

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  • José Padilha
  • 21 Favereiro 2017

 

Vinte e sete enunciados sobre a oportunidade de desmontar o mecanismo de exploração da sociedade brasileiral.

1) Na base do sistema político brasileiro, opera um mecanismo de exploração da sociedade por quadrilhas formadas por fornecedores do Estado e grandes partidos políticos. (Em meu último artigo, intitulado Desobediência Civil, descrevi como este mecanismo exploratório opera. Adiante, me refiro a ele apenas como "o mecanismo".)

2) O mecanismo opera em todas as esferas do setor público: no Legislativo, no Executivo, no governo federal, nos estados e nos municípios.

3) No Executivo, ele opera via superfaturamento de obras e de serviços prestados ao estado e às empresas estatais.

4) No Legislativo, ele opera via a formulação de legislações que dão vantagens indevidas a grupos empresariais dispostos a pagar por elas.

5) O mecanismo existe à revelia da ideologia.

6) O mecanismo viabilizou a eleição de todos os governos brasileiros desde a retomada das eleições diretas, sejam eles de esquerda ou de direita.

7) Foi o mecanismo quem elegeu o PMDB, o DEM, o PSDB e o PT. Foi o mecanismo quem elegeu José Sarney, Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff e Michel Temer.

8) No sistema político brasileiro, a ideologia está limitada pelo mecanismo: ela pode balizar políticas públicas, mas somente quando estas políticas não interferem com o funcionamento do mecanismo.

9) O mecanismo opera uma seleção: políticos que não aderem a ele têm poucos recursos para fazer campanhas eleitorais e raramente são eleitos.

10) A seleção operada pelo mecanismo é ética e moral: políticos que têm valores incompatíveis com a corrupção tendem a ser eliminados do sistema político brasileiro pelo mecanismo.

11) O mecanismo impõe uma barreira para a entrada de pessoas inteligentes e honestas na política nacional, posto que as pessoas inteligentes entendem como ele funciona e as pessoas honestas não o aceitam.

12) A maioria dos políticos brasileiros tem baixos padrões morais e éticos. (Não se sabe se isto decorre do mecanismo, ou se o mecanismo decorre disto. Sabe-se, todavia, que na vigência do mecanismo este sempre será o caso.)

13) A administração pública brasileira se constitui a partir de acordos relativos a repartição dos recursos desviados pelo mecanismo.

14) Um político que chega ao poder pode fazer mudanças administrativas no país, mas somente quando estas mudanças não colocam em xeque o funcionamento do mecanismo.

15) Um político honesto que porventura chegue ao poder e tente fazer mudanças administrativas e legais que vão contra o mecanismo terá contra ele a maioria dos membros da sua classe.

16) A eficiência e a transparência estão em contradição com o mecanismo.

17) Resulta daí que na vigência do mecanismo o Estado brasileiro jamais poderá ser eficiente no controle dos gastos públicos.

18) As políticas econômicas e as práticas administrativas que levam ao crescimento econômico sustentável são, portanto, incompatíveis com o mecanismo, que tende a gerar um estado cronicamente deficitário.

19) Embora o mecanismo não possa conviver com um Estado eficiente, ele também não pode deixar o Estado falir. Se o Estado falir o mecanismo morre.

20) A combinação destes dois fatores faz com que a economia brasileira tenha períodos de crescimento baixos, seguidos de crise fiscal, seguidos de ajustes que visam conter os gastos públicos, seguidos de novos períodos de crescimento baixo, seguidos de nova crise fiscal...

21) Como as leis são feitas por congressistas corruptos, e os magistrados das cortes superiores são indicados por políticos eleitos pelo mecanismo, é natural que tanto a lei quanto os magistrados das instâncias superiores tendam a ser lenientes com a corrupção. (Pense no foro privilegiado. Pense no fato de que apesar de mais de 500 parlamentares terem sido investigados pelo STF desde 1998, a primeira condenação só tenha ocorrido em 2010.)

22) A operação Lava-Jato só foi possível por causa de uma conjunção improvável de fatores: um governo extremamente incompetente e fragilizado diante da derrocada econômica que causou, uma bobeada do parlamento que não percebeu que a legislação que operacionalizou a delação premiada era incompatível com o mecanismo, e o fato de que uma investigação potencialmente explosiva caiu nas mãos de uma equipe de investigadores, procuradores e de juízes, rígida, competente e com bastante sorte.

23) Não é certo que a Lava-Jato vai promover o desmonte do mecanismo. As forças politicas e jurídicas contrárias são significativas.

24) O Brasil atual está sendo administrado por um grupo de políticos especializados em operar o mecanismo, e que quer mantê-lo funcionando.

25) O desmonte definitivo do mecanismo é mais importante para o Brasil do que a estabilidade econômica de curto prazo.

26) Sem forte mobilização popular, é improvável que a Lava-Jato promova o desmonte do mecanismo.

27) Se o desmonte do mecanismo não decorrer da Lava-Jato, os políticos vão alterar a lei, e o Brasil terá que conviver com o mecanismo por um longo tempo."

 

* José Padilha é jornalista.

 

NOTA DO EDITOR
O que o jornalista brilhantemente denomina neste artigo publicado em O Globo como o "mecanismo", pode ser desarticulado pela Lava Jato. Mas retornará ali adiante se não houver uma substanciam reforma de nosso modelo institucional. A apropriação do Estado e da Administração pelo Governo e seus partidos é a usina onde opera o "mecanismo" opera.
Percival Puggina
 

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  • Autor desconhecido
  • 19 Favereiro 2017

 

Primeiro dia de aula, o professor  entrou na sala e a primeira coisa que fez foi perguntar o nome a um aluno que estava sentado na primeira fila:
- Qual é o seu nome?
- Chamo-me Nelson, senhor.
- Saia de minha aula e não volte nunca mais! - gritou o desagradável professor.
Nelson ficou desconcertado. Quando voltou a si, levantou-se rapidamente, recolheu suas coisas e saiu da sala.Todos estavam assustados e indignados, porém, ninguém falou nada.
- Agora sim, vamos começar! Para que servem as leis? - Perguntou o professor.
Os alunos ainda estavam assustados, porém, pouco a pouco, começaram a responder sua pergunta:
- Para que haja uma ordem em nossa sociedade.
- Não! - respondia o professor.
- Para cumpri-las.
- Não!
- Para que as pessoas erradas paguem por seus atos.
- Não! Será que ninguém sabe responder esta pergunta?
- Para que haja justiça - falou timidamente uma garota.
- Até que enfim! É isso, para que haja justiça. E agora, para que serve a justiça?
Todos começaram a ficar incomodados pela atitude tão grosseira. Porém, seguiam respondendo:
- Para salvaguardar os direitos humanos...
- Bem, que mais? - perguntava o professor.
- Para diferenciar o certo do errado, para premiar a quem faz o bem...
- Ok, não está errado. Porém, respondam esta outra pergunta: Agi corretamente ao expulsar o Nelson da sala de aula?
Todos ficaram calados, ninguém respondia.
- Quero uma resposta decidida e unânime!
- Não! - responderam todos a uma só voz.
- Poderia dizer-se, então, que cometi uma injustiça?
- Sim!
- E por que ninguém fez nada a respeito? Para que queremos leis e regras se não dispomos da vontade necessária para praticá-las? Cada um de vocês tem a obrigação de reclamar quando presenciar uma injustiça. Todos. Não voltem a ficar calados, nunca mais!
E continuou:
- Eu vou buscar o Nelson. Afinal, ele é o professor, eu sou aluno de outro período!
 

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  • Eliane Cantanhêde
  • 18 Favereiro 2017


Quanto mais os políticos esperneiam contra a Lava Jato, mais são obrigados a recuar

Quanto mais o Congresso tenta avançar contra a Lava Jato e a favor da impunidade, mais é obrigado a recuar, pela pressão dos órgãos de investigação e daquele ator político que, a partir de junho de 2013 e da valorização das redes sociais, está cada dia mais forte: a opinião pública brasileira, ou seja, o senhor, a senhora, você. Foram ao menos cinco recuos históricos, e estridentes, nos últimos meses.

Dois deles, na quarta-feira. No Senado, o ex-ministro e atual líder do governo, Romero Jucá, lançou uma proposta para blindar os presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo e, horas depois, teve de recuar. Na Câmara, o plenário incluiu familiares de políticos na nova rodada de repatriação de recursos não declarados no exterior, na chamada “Lei Cláudia Cruz”, e teve de voltar atrás, também horas depois, numa segunda votação.

E por que senadores e deputados tiveram de dar o dito pelo não dito, o votado pelo não votado? Simples. Porque a gritaria foi ensurdecedora. A lei da repatriação é para perdoar de certa forma a sonegação fiscal e engordar os cofres da Receita. Mas a suspeita, no caso dos políticos, é de que muitos deles cometeram crimes muito mais graves do que sonegação – como corrupção, por exemplo – e usaram contas de mulheres, filhos e irmãos no exterior para esconder enriquecimento ilícito.

Ontem, novo revés. Depois de uma liminar de novembro do STF, o Senado devolveu para a Câmara uma batata quente: o projeto que deveria ser de dez medidas contra a corrupção e virou um monstrengo para garantir a impunidade dos políticos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ficou desolado: “Como faço agora?”. Boa pergunta. Que tal ressuscitar as dez medidas do MP, que tiveram mais de dois milhões de assinaturas?

Outra surpresa desagradável foi a recente votação de urgência para um projeto retirando o poder da Justiça Eleitoral de impor sanções para partidos que descumprirem a lei e não tiverem suas contas aprovadas. Na prática, seria acabar com qualquer responsabilidade partidária. Uma festa! A opinião pública deu um pulo, a Justiça chiou. O resultado é que a urgência não valeu e o projeto está trancado a sete chaves na Câmara, gritando: “Esqueçam que eu existi!”

O quinto recuo é também inacreditável: foi depois da votação, na calada da noite, de um projeto que simplesmente anistiava o caixa dois de campanha, hoje tipificado como crime eleitoral. Foi uma iniciativa muito polêmica e com uma peculiaridade: sem pai, sem mãe, sem autoria assumida. Ninguém teve coragem para tanto. Sendo assim, subiu no telhado e de lá não saiu até hoje.

É assim que o Brasil vive um círculo vicioso – ou virtuoso? A Lava Jato avança, o Congresso reage com ideias mirabolantes, a sociedade resiste a elas por voz, palavras e gestos e no final os políticos são obrigados a engolir em seco e voltar atrás. Algo parecido com o que ocorre após a morte do ministro Teori Zavascki: quanto mais os citados e envolvidos na Lava Jato imaginam que “o pior passou”, mais o Supremo e a força-tarefa dão sinais de que eles estão redondamente enganados.

Aliás, o PMDB e o Senado tiveram a audácia de eleger o senador investigado Edison Lobão para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que vai, por exemplo, sabatinar Alexandre de Moraes para ministro do Supremo. Pois não é que o filho dele, Márcio Lobão, acaba de sofrer busca e apreensão na Operação Leviatã? Deve ter sido só coincidência…
 

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  • Rodrigo Constantino
  • 18 Favereiro 2017

(Publicado originalmente em rodrigoconstantino.com)

A imigração foi “o” tema da eleição que levou Donald Trump ao poder. E se Trump acusa a mídia de desonestidade, não há tema em que isso fica mais escancarado do que nesse. São muitas inverdades, omissões e manipulações por parte da grande imprensa, que parece se recusar a lidar com o assunto com a honestidade que ele merece, dado o enorme potencial de mudança que ele tem na América que conhecemos hoje.

O livro mais influente sobre o assunto, que teve grande impacto nas urnas, foi Adios, America!, de Ann Coulter. Foi com base nele que escrevi a coluna da Gazeta do Povo desta semana. Mas, por falta de espaço, fiz apenas uma breve introdução, sem mergulhar a fundo nos inúmeros dados que a autora traz à tona e que o leitor, em geral, desconhece (por culpa da imprensa que não informa). Vamos, então, listar alguns desses fatos abaixo:

1. Falam em 11 milhões de imigrantes ilegais nos Estados Unidos hoje, mas estimativas mais realistas, e ainda assim conservadoras, apontam para 30 milhões, a imensa maioria de hispânicos. Os imigrantes hispânicos legais votam 8 para 2 em democratas contra republicanos. Alguma surpresa de a bandeira da “anistia” ser de esquerda?

2. A imprensa fala, como se fossem boas notícias, que os imigrantes usam “apenas” 18% mais de “welfare” estatal do que os nativos, mas imigrantes que imediatamente já precisam de esmolas estatais deveriam ser aceitos? Os pagadores de impostos não conseguem sustentar nem os locais, e vão receber mais gente dependente do governo? Em geral, 60% dos imigrantes – legais e ilegais – recebem assistência governamental, contra menos de 40% dos americanos. Se o fardo já está pesado para manter os próprios americanos nesse sistema paternalista, por que trazer ainda mais gente nessa condição.

3. Se no passado os imigrantes vinham em busca de oportunidades e respeitando os principais valores americanos, hoje muitos chegam dependendo do estado e ainda por cima cuspindo na América, tida como “racista, sexista, homofóbica e preconceituosa”. Em 1915, Louis Brandeis, que seria ministro da Suprema Corte depois, deu um discurso no 4 de julho alegando que o imigrante deveria abraçar os valores americanos. Em 2014, a Suprema Corte sustentou o direito de uma escola da Califórnia banir camisetas com a bandeira americana para não “ofender” imigrantes mexicanos celebrando o Cinco de Maio. Por que, então, os americanos deveriam abrir suas fronteiras para receber quem odeia tudo aquilo que a América representa historicamente?

4. Há uma campanha em curso, endossada pela esquerda e por libertários como Ron Paul, para substituir o termo “ilegal” por imigrante “não-documentado”, eufemismo tosco que serve para suavizar um crime no país que foi criado com base no império das leis. A justificativa é que usar o termo “ilegal” pode acabar “desumanizando” esses pobres indivíduos.

5. A mudança estrutural ocorreu na década de 1960, sob o comando de Teddy Kennedy, quando as fronteiras foram escancaradas. A regra do “anchor baby” permitiu que milhões de mexicanos atravessassem a fronteira apenas para ter filhos “americanos”, muitas vezes em hospitais públicos, com tudo pago pelo tax payer americano. Depois, em nome da “reunificação familiar”, parentes de todo tipo, como primos, avós e tios, foram aceitos no país. Não passa pela cabeça da esquerda que a reunião familiar poderia se dar… do outro lado da fronteira, em seu país de origem? O que um típico “jeitinho” desses acaba fazendo com um país acostumado a respeitar as regras?

6. Segundo um estudo de Robert Rector, da Heritage Foundation, o americano com terceiro grau completo paga $29 mil a mais de imposto todo ano do que recebe de volta em serviços do governo, enquanto os imigrantes legais com mesma formação, na média, recebem $4 mil a mais em serviços do que pagam em impostos. Os imigrantes com diploma de segundo grau recebem $15 mil a mais, e aqueles sem diploma coletam impressionantes $37 mil extras!

7. “A América é a terra dos imigrantes”, dizem os defensores da política atual. Mas ignoram que o grosso era formado por europeus em busca de trabalho, com forte predominância do que se chama WASP. Todos os presidentes eram protestantes, à exceção de JFK, católico. A descendência britânica, em parte, sempre esteve presente na Casa Branca de alguma forma. O respeitado professor de Harvard, Samuel Huntington, questiona: “A América seria a América de hoje se nos séculos 17 e 18 tivesse sido civilizada não por protestantes britânicos, mas por católicos franceses, espanhóis e portugueses?” E responde: “Certamente que não”. Edmund Burke, o “pai do conservadorismo”, destacou a influência britânica e a protestante como fatores fundamentais pela paixão dos americanos pela liberdade. Como negar, então, que a crescente latinização da América poderá torná-la mais parecida com os demais países latino-americanos? E isso não deveria preocupar aqueles que amam o que a América representa?

8. A esquerda fala muito em “diversidade” como sinônimo de força. Mas vejamos alguns casos em que a diversidade significou, na prática, o caos e até a guerra civil: a Irlanda com os católicos e os protestantes em constante guerra; Israel e palestinos na Cisjordânia; as facções em constante briga na Índia, no Sri Lanka, na China, no Iraque e na antiga Checoslováquia, nos Balcãs, na Chechênia. Vários países europeus estão com maior diversidade agora que muçulmanos dominaram bairros inteiros, adotando até a sharia. A Europa melhorou com esse fluxo dos países islâmicos? E claro: o Brasil costuma ser citado como o melhor exemplo de “melting pot”, uma completa mistureba, onde não poderia haver mais diversidade. E quem vai festejar o resultado? Será que “diversidade”, por si só, é algo positivo e que deve ser almejado como meta?

9. A América já absorveu mais de um quarto da população total mexicana, de acordo com o Pew Research Center. Os Estados Unidos possuem mais hispânicos do que qualquer outro país do mundo, exceto o próprio México. A população hispânica representa 47% do total em New Mexico, 39% do total na Califórnia, 38% no Texas, 30% no Arizona e 27% em Nevada. Trata-se de uma mudança impressionante e bem rápida: em 1980, quando a Califórnia ainda oferecia presidentes republicanos ao país, ela abrigava 4,5 milhões de hispânicos, contra 14 milhões hoje – oficialmente. Los Angeles sozinha gasta mais de $1,6 bilhão por ano com imigrantes ilegais. Será que o país terá que admitir todos os 120 milhões de mexicanos como imigrantes até que a esquerda pare de falar em “xenofobia”?

10. Antes da mudança com as leis de imigração ocorrida na década de 1960, sete países forneciam 5% ou mais do total de imigrantes, cada um: Itália, Alemanha, Canadá, Reino Unido, Polônia, União Soviética e México. Em 2000, o México era o único país fornecendo mais de 5% do total de imigrantes, correspondendo a quase um terço do total! Isso é o que a esquerda entende por diversidade?

11. Em 1970, havia menos de 10 milhões de estrangeiros nos Estados Unidos, e 75% era da Europa; em 2010, havia 40 milhões, e apenas 13% da Europa.

12. Em poucos anos Minnesota deixou de ser 99% de alemães, holandeses, finlandeses, dinamarqueses e poloneses para ter 20% de africanos, incluindo ao menos cem mil “refugiados” da Somália. Os índices de criminalidade subiram no local, com relatos de tráfico humano, roubos, estupros, ataques com machados e prostituição infantil. O “multiculturalismo” pode não ser tão belo na prática. Mas o politicamente correto ainda fala mais alto: a Universidade Católica de St. Thomas instalou quartos para rezas islâmicas para demonstrar, de acordo com seu reitor, que a escola é “diversa”. A prefeita de Minneapolis, Betsy Hodges, apareceu vestindo um hijab completo em encontros com somalis. Quem precisa se adaptar, pelo visto, são os que recebem os imigrantes, não o contrário.

13. Inúmeros relatos de crimes envolvendo imigrantes são abafados pela imprensa. Ann Coulter mostra vários deles, e prova como os jornalistas fizeram de tudo para omitir a origem do criminoso quando imigrante. Em casos chocantes, não faltaram americanos de esquerda para “justificar” tais atos tenebrosos com base nas “diferenças culturais”, mesmo com as ocorrências em solo americano. Um professor de antropologia da State University of New York, por exemplo, testemunhou em defesa de pais muçulmanos que mataram a própria filha, por ela namorar um negro, alegando que “todos que cresceram no Oriente Médio sabem que morrer é uma consequência possível por desonrar a família”. Mas eles não estão no Oriente Médio!

14. As estatísticas sobre crimes cometidos por imigrantes são obscuras, o governo esconde muita coisa. Mas, em 2011, o Government Accountability Office reportou que a América tinha encarcerados ao menos 351 mil imigrantes criminosos. E essa estimativa ultraconservadora exclui todos aqueles em prisões locais estaduais, prisioneiros cujos certificados de nascimento não puderam ser determinados, imigrantes que foram naturalizados e crianças nascidas de imigrantes ilegais em solo americano. Os dados existentes sugerem que a taxa de criminalidade entre imigrantes é astronômica. O Department of Homeland Security lançou um relatório indicando que há ao menos o dobro de estrangeiros criminosos em relação à estimativa do GAO. Se essa estimativa do DHS estiver certa, então quase um terço dos 2 milhões de presos em cadeias americanas é de estrangeiros.

15. Em 1925, quando a população era de 100 milhões, havia cerca de cem mil pessoas na prisão; em 1970, quando a população americana dobrou para 200 milhões, a população carcerária também dobrou, para algo como 200 mil; aí, de repente, justo quando as leis de imigração mudaram, a população carcerária explodiu. Se a taxa se mantivesse constante, haveria umas 310 mil pessoas presas hoje, não mais de 2 milhões. Claro que a imigração sozinha não explica isso. Há a guerra contra as drogas, o “welfare state”, a degradação de valores morais. Mas como negar alguma influência da imigração descontrolada?

16. Outros indícios de elevada participação de imigrantes, especialmente hispânicos, na criminalidade podem ser obtidos com a lista de “mais procurados” de 2015 da LAPD (polícia de Los Angeles): Jesse Enrique Monarrez (assassinato); Cesar Augusto Nistal (abuso infantil); Jose Padilla (assassinato); Demecio Carlos Perez (assassinato); Ramon Reyes (roubo e assassinato); Victor Vargas (assassinato); Rubem Villa (assassinato); Antonio Villaraigosa (fraudes gerais). Algum denominador comum? Por que não há um Smith nessa lista? Metade dos nomes nas listas dos xerifes é de hispânicos. Em 2010, 1.258 de cada 100 mil hispânicos homens estavam na prisão, comparado a 459 de cada 100 mil homens brancos.

17. Se os hispânicos estão super-representados nas prisões americanas em termos de sua população, nas Forças Armadas eles estão sub-representados. A quantidade de recrutas por população é de 1,06 para brancos, 1,08 para negros, e apenas 0,65 para hispânicos. O patriotismo, um valor tão caro aos americanos, não parece despertar a mesma empolgação nos latinos.

18. A gravidez precoce é um convite a problemas sociais e criminais, como toda pesquisa aponta. Nos Estados Unidos, as hispânicas apresentam sete vezes mais chances de ter um filho entre as idades de 10 e 14 (1,4 por mil) do que as brancas (0,2 por mil), de acordo com o Centers for Disease Control. Há um fator cultural também. Gloria Trevi, a popstar conhecida como “Madonna mexicana”, afirmou que uma menor é uma menor nos Estados Unidos, mas no México é diferente, e o sexo com uma menor é aceito lá. De fato, em 32 estados mexicanos, a idade de consentimento para sexo é apenas 12 anos. Os americanos não devem se preocupar em importar tais “valores” para seu país?

19. O Pew Research Center estima que em 35 anos a população americana será de 438 milhões, sendo 100 milhões de imigrantes. Uma transformação tão abrupta não deveria suscitar um debate mais aberto e sincero, sem tantos rótulos de “xenofobia” e “preconceito” a quem tenta questionar certas coisas?

20. Um dos maiores jornais americanos, o NYT, é também um dos mais ativos na campanha pela imigração descontrolada. Mas nem sempre foi assim. Há editoriais de apenas poucos anos atrás pedindo cautela, alertando.O que mudou? Simples: em 2008, quando a crise quase levou o jornal à falência, Carlos Slim apareceu para salvá-lo, comprando seu controle. Slim é ninguém menos do que o sujeito mais rico do mundo e… mexicano! Sua fortuna vem do “capitalismo de laços” em seu país, dos esquemas monopolistas, dos conluios com o governo na privatização sem concorrência. Algo como 40% das empresas listadas na bolsa mexicana pertence ao magnata. E eis o que ajuda muito a aumentar sua fortuna: a quantidade enorme de imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, mandando dinheiro de volta para os familiares, gerando consumo, fazendo ligações com taxas absurdas da Telmex. Por que ninguém questiona o claro conflito de interesses do NYT nessa questão tão fundamental para o futuro da América?

Como o leitor pode ver, há muito o que não é dito nos “debates” sobre imigração, pois a mídia faz de tudo para ocultar tais dados e rotular os críticos do modelo atual. Os ricaços de esquerda ganham babás e jardineiros com salários baixos, Carlos Slim ganha mais alguns bilhões, a elite culpada ganha a sensação de superioridade moral por defender a “diversidade” e os “oprimidos”, os democratas ganham votos, e quem paga a conta é o americano trabalhador de classe média.

 

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