Percival Puggina
No dia 16 de março de 2016, numa intercepção telefônica realizada durante a operação Java Jato, foi gravada uma conversa entre a presidente Dilma e o ex-presidente Lula. Dilma pergunta: “Messias, tá aí? (...) Eu tô te mandando o ‘Bessias’ junto com o papel, o papel pra gente ter ele, e só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse”. Perante uma possível prisão imediata de Lula, Dilma pretendeu deixar em mãos do ex-presidente um documento mostrando ter ele foro privilegiado como ministro do governo, não podendo ser preso por ordem de um juiz federal de primeira instância. Naquele episódio, o personagem Jorge Messias, portador do “papel”, tornou-se nacionalmente conhecido.
Ontem, decorridos 10 anos, o atual ministro-chefe da AGU, foi portador de outra mensagem a Lula. Desta feita, coube ao Senado valer-se de Jorge Messias, vulgo ‘Bessias’, para comunicar a Lula e, por tabela, ao STF, que não aceitaria o pisoteio de suas competências constitucionais. Não daria ao petismo e ao esquema de poder montado com o Supremo mais um ministro por trinta anos. Pela primeira vez, em mais de um século de existência da instituição, uma indicação do governo àquela Corte foi rejeitada pelo Senado Federal.
A noite de 29 de abril de 2026 vai entrar para a história como a noite da insônia. Em Brasília, muita gente graúda transitou em claro por esta madrugada (escrevo na manhã de quinta-feira, 30 de abril), ruminando o resultado da sessão deliberativa cujo ato final assisti de pé, diante da tela da TV. A primeira figura que vi, enquanto os alto-falantes rugiam a comemoração do plenário, foi a do senador Rogério Marinho, braços erguidos festejando a vitória da oposição. Após amargar tantas derrotas; após tantas estratégias furadas; após tanta renúncia do parlamento ao próprio poder; após a democracia e a liberdade tanto padecerem sob a truculência imperante no STF, associada à regência pusilânime do Centrão, eu bebi com gosto no cálice daquela vitória. Não importa se colhida no constrangido anonimato do voto secreto.
Tornou-se evidente, ontem, o quanto necessitamos de uma reforma institucional que não impeça a igualdade de todos perante a lei, devolva independência ao Congresso Nacional e proporcione à nação uma Justiça de unhas aparadas, manicuradas.
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.