• Ricardo Bordin
  • 13 Julho 2018

 

Uma acusação de neonazismo aqui, uma crítica ao “nacionalismo exacerbado” ali, e pronto: a Croácia, finalista da copa do mundo de futebol a duras penas?—?sobreviveu a três prorrogações e venceu duas disputas de pênaltis?—?, virou a representante oficial da extrema-direta no torneio, em mais um episódio de pura distorção e omissão de fatos históricos que ajuda a entender porque a credibilidade da grande mídia despenca a cada dia.

Até 1991, quando recuperou sua condição de nação independente, a Croácia, juntamente com Bósnia e Herzegovina, Macedônia, Montenegro, Sérvia e Eslovênia, fazia parte da República Socialista da Iugoslávia, um leviatã comunista formado logo após o desfecho da segunda guerra mundial. O povo croata reconquistou sua liberdade às custas de muito derramamento de sangue durante embates contra o governo central, e sua saída do bloco marxista-leninista seria o estopim para a total dissolução posterior, em 2003.

Imperdoável: os croatas foram responsáveis diretos pela queda de um regime coletivista, marcado pelo dirigismo estatal. Aqui já dá para começar a entender a ira da imprensa tradicional com o pequeno país do Leste Europeu.

Mas não é só isso.

Cerca de 87% dos croatas são católicos romanos batizados. Como em qualquer lugar tomado por comunistas, a fé cristã foi alvo de perseguições e restrições estatais durante quase meio século.

Em 1946, o ditador iugoslavo Josip Broz “Tito” introduziu a “Lei dos Livros de Registro do Estado”, que permitiu o confisco de registros da igreja e outros documentos similares. Em 1952, foi proibida toda a educação religiosa em escolas públicas. Naquele ano, o regime também expulsou a Faculdade Católica de Teologia da Universidade de Zagreb, o qual não foi restaurada até as mudanças democráticas no inícios da década de 1990.

E não é difícil de compreender este notável antagonismo: ora, o catolicismo representa um obstáculo à implantação da agenda revolucionária. A título de exemplo, 20 mil pessoas marcharam contra o aborto na Croácia em 2017, protestando contra uma lei que permite o assassinato de bebês no útero materno até a décima semana de gestação, a qual foi aprovada, vejam vocês, em 1978, pela ditadura comunista.

Mas tem mais caroço neste angu.

O adversário da Croácia na final do campeonato mundial é a “multicultural” França, uma equipe formada por um sem número de estrangeiros naturalizados?—?para delírio daqueles que defendem a total abertura das fronteiras nacionais.

Sabedora dos efeitos nefastos da imigração em massa?—?Suécia, Alemanha, Inglaterra e a própria França experimentam graves elevações em todos os índices de criminalidade e aumentaram substancialmente seus gastos com bem-estar social?—?, a Croácia, a seu turno, tem tomado precauções contra a entrada de imigrantes ilegais desde 2015.

Ou seja, a decisão da copa da FIFA será entre um time “fofo acolhedor de refugiados” contra um selecionado branco feito papel: tudo leva a crer que uma eventual vitória da Croácia será considerada “racista e xenófoba”, como ocorreu após a Inglaterra eliminar a Colômbia?—?sim, acredite; Paul Joseph Watson narrou a reação histérica da Europa na ocasião.

A corrupta FIFA, sob influência de entidades globalistas, não vai descansar enquanto um país sem tradição alguma no esporte ganhar a taça do mundo?—?já há propostas para incluir 48 seleções em 2026. Seria a criação de “cotas” nas finais o próximo passo para mudar esta realidade onde apenas “impérios colonialistas” decidem o torneio?

E não acabou por aí: Logo depois das quartas de final, o zagueiro Demogoj Vida e o assistente técnico Ognjen Vulkojevic apareceram em vídeos dizendo “Slava Ukraini”, expressão que pode ser traduzida como “Glória à Ucrânia”. É claro que o episódio foi suficiente para que militantes disfarçados de jornalistas caracterizassem a referência como “ultranacionalista”, e até mesmo punições e advertências foram aplicadas pela FIFA.

Ucrânia e Croácia viveram à sombra das dominações russa (na União Soviética) e sérvia (na Iugoslávia). A afinidade é, portanto, natural: os nacionalismos croata e ucraniano são uma questão de sobrevivência de suas culturas?—?idioma, costumes, referências históricas, e por aí vai.

Afirmação de identidade, aos olhos de quem “analisa” os fatos já com a pauta pronta, vira “fascismo”. Matérias com este teor servem ainda, por óbvio, como cutucadas indiretas em políticos como Donald Trump, Jair Bolsonaro ou qualquer outro agente político “ultraconservador” que cogite rejeitar a nova ordem mundial.

Para fechar com chave de ouro a opressão croata na Rússia, a presidente da Croácia é uma linda loira (para desespero das feministas cuja inveja da beleza alheia insuflou a organização da copa a proibir que mulheres bonitas sejam mostradas pela geração de imagens das partidas), que paga do próprio bolso seu ingresso para assistir aos jogos, banca suas próprias despesas e ainda abriu mão do salário durante o período?—?totalmente ao contrário de Dilma Roussef, que costumava hospedar-se em suítes presidenciais de hotéis caríssimos jogando a conta para os pagadores de impostos.

Ah, ela ainda presenteou Trump com uma camiseta personalizada da Croácia e tirou uma foto com ele. Só faltou perguntar aos esquerdistas de plantão: “como posso te irritar mais hoje?”.

Então ficamos assim: o ideal seria não misturar esporte e política, mas isso iria contra os princípios de ação da estratégia dos neomarxistas. Eles precisam problematizar tudo, dividir a sociedade a todo instante, e não nos deixam em paz nem na hora de ver um futebolzinho. Esta “copa da lacração”, onde até mesmo palhaçadas de turistas bêbados viraram crime e beijo na bochecha virou estupro, é um marco na história do movimento revolucionário, pois o entretenimento foi deixado de lado em nome da imposição de temas caros aos “progressistas”.

IDI HRVATSKOJ?—?VAI, CROÁCIA!!!!!!

 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 13 Julho 2018

 

O SOFRIMENTO DA INICIATIVA PRIVADA

Enquanto o setor privado do nosso empobrecido Brasil, responsável direto pelo PIB, luta com todas as suas forças para deixar o índice no campo positivo, o setor público, irresponsavelmente, segue a sua trajetória, secular, de sugar o máximo que pode do oxigênio que resta nos ambientes que fazem acontecer a produção, o consumo, a propriedade e a renda.

LUTA DESIGUAL

Esta luta -desigual e injusta-, onde o Estado, através de altíssima e sempre crescente -CARGA TRIBUTÁRIA- simplesmente se APROPRIA DE GRANDE PARTE DO PRODUTO BRASILEIRO, é resultante de uma gravíssima doença, que o mundo todo conhece e reconhece como -EXCESSO DE ESTADO NA ECONOMIA-.

CONSCIÊNCIA SUFOCADA

A impressão que deixa este mau comportamento que é emanado pela maioria daqueles que atuam no setor público é de nele só será admitido aquele que se propuser a passar pelo rigoroso processo de SUFOCAMENTO DA CONSCIÊNCIA, que acaba de vez com qualquer sentimento de justiça e/ou honestidade.

LUTO DOS INGÊNUOS

Vejam que enquanto grande parte do povo brasileiro ainda segue chorando a desclassificação do Brasil na Copa do Mundo, os nossos parlamentares se aproveitam do LUTO DOS INGÊNUOS para aprovar, para si próprios, o máximo possível de regalias e intermináveis privilégios. Além de medidas absurdas, que só elevam o já desastroso Déficit das Contas Públicas.

SESSÃO DE DERRUBADA

Nesta madrugada, para quem ainda não se tocou, os nossos valorosos deputados e senadores, reunidos no plenário do Congresso, concluíram a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2019, DERRUBANDO A PROIBIÇÃO A REAJUSTES para os servidores públicos em 2019. Pode?
Mais: não satisfeitos, os parlamentares também DERRUBARAM a proibição para criação de cargos públicos, como constava no texto-base. Que tal?

CUSTEIO

Não consegui ver o prazer que destilava do rosto dos parlamentares enquanto aprovavam, sem dó nem piedade, o AUMENTO DO CUSTO BRASIL, que não foi pouca coisa. Aliás, até nas despesas de custeio o corte, que no texto-base era de 10%, foi reduzido para 5%. Uau!

UM VIVA AO BRASIL DO CAOS!

Pois é, meus caros leitores: enquanto o setor produtivo pena tentando manter o PIB no positivo, os nossos parlamentares fazem de tudo para aumentar ainda mais o já exagerado GASTO PÚBLICO.
Isto enseja um grande e sonoro -VIVA O BRASIL DO CAOS!
 

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  • Editorial Estadão
  • 12 Julho 2018

 

A tentativa de membros do PT de obter ilegalmente a soltura do seu cacique Lula da Silva evidenciou desespero e irresponsabilidade, além de completo menosprezo pelo Estado de Direito. Ao longo do domingo passado, os brasileiros observaram, atônitos, uma manobra canhestra que, não fossem a prudência da Polícia Federal, que não deu cumprimento a uma ordem manifestamente ilegal, e a prontidão de alguns membros do Judiciário, que afinal desfizeram os atos de um desembargador desatinado, poderia ter conduzido o País a uma confusão maior do que a já reinante.

Os três autores do pedido de habeas corpus, em seu açodamento, esqueceram-se de que o réu, noutro habeas corpus impetrado por terceiro, havia desautorizado “qualquer forma de representação judicial ou extrajudicial em seu nome, que não seja através de seus advogados legalmente constituídos para representá-lo e defender os seus interesses”. Não podiam, portanto, pedir a liberdade de Lula.

Mas o plano mequetrefe de soltar o ex-presidente petista, burlando o juiz natural do caso, foi adiante pois estava de plantão - grande coincidência, para quem acredita nisso - o desembargador Rogério Favreto. Com vínculos biográficos com o PT, ele teve o descaramento de expedir o ilegal alvará de soltura para Lula.

Como afirmou o presidente do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), Carlos Eduardo Thompson Flores, o desembargador plantonista não tinha competência para atuar no caso, pois não existia nenhum fato novo que pudesse, de alguma forma, justificar decisão de urgência. Além disso, o Supremo Tribunal Federal (STF) já havia concluído pela constitucionalidade da prisão de Lula. Após a condenação em segunda instância, não há impedimento para que o réu comece a cumprir a pena. Que um juiz petista, num domingo de manhã, pudesse desfazer tudo o que foi feito até aqui era um acinte à ordem institucional e a qualquer resquício de bom senso.

Sendo a ordem de soltura manifestamente ilegal - e para isso já havia alertado o juiz Sérgio Moro -, fizeram muito bem os agentes da Polícia Federal em averiguar se quem mandava soltar tinha, de fato e de direito, poderes para tanto. Cabe aos agentes da lei distinguir o que é ordem jurídica e o que é malandra carteirada, mesmo sendo de desembargador plantonista tentando soltar réu amigo.

Além de ser incompetente para interferir no processo de Lula e de desrespeitar decisão prévia do STF, o desembargador Favreto afrontou, como poucas vezes se viu, o bom Direito. Ao justificar a ordem de soltura de Lula da Silva pelo fato de o réu se apresentar como pré-candidato, o plantonista amigo do PT demonstrou a extensão de uma ignorância que só pode ser superada por má-fé. Em primeiro lugar, porque a tal pré-candidatura já é idosa. Em segundo lugar, porque pré-candidatura não é figura jurídica alguma e, se fosse, não constituiria motivo para a emissão de alvará de soltura para condenado que cumpre pena. Além disso, condenado em segunda instância por crime de corrupção não dispõe do exercício regular de seus direitos políticos, como determina a Lei da Ficha Limpa.

A manobra teve explícito caráter político. Nessa óptica enviesada, que faz troça da Justiça, os impetrantes do PT tentaram uma vez mais transformar o juiz Sérgio Moro no algoz de Lula. A burla, no entanto, é patética, sem apoio nos fatos. Como lembrou o Ministério Público, “não há ato ilegal que possa ser imputado ao Juízo da 13.ª Vara Federal de Curitiba, aqui apontado como coator, uma vez que o paciente está recolhido à prisão por determinação desse tribunal”. Novamente ficava explícita a ilegalidade da ordem do desembargador Favreto: um plantonista tentando monocraticamente reverter decisão colegial de seu próprio tribunal.

O golpe teve a exata dimensão moral, política e profissional de quem o engendrou: inábil, barulhento e incompetente. Frustrou-se diante da serenidade dos desembargadores Gebran Neto e Thompson Flores, que fizeram prevalecer o bom Direito. Em consequência, o sr. Lula da Silva continua preso. Ao contrário do que pretendiam os impetrantes do habeas corpus, o Poder Judiciário assegurou que as decisões judiciais são ainda cumpridas. Mas é preciso constante vigilância, pois sempre há aloprados dispostos a subverter o regime das leis.
 

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  • Alexandre Garcia
  • 10 Julho 2018

 

Milhões de brasileiros estão unidos por um pensamento. Deixar o país. Sair para viver e trabalhar, principalmente nos Estados Unidos e Portugal. É resultado de uma pesquisa do Datafolha, divulgada há poucos dias. A maior parte, jovens entre 16 e 24 anos. Nessa faixa etária, 60% dos jovens pesquisados gostariam de ir embora. Entre 25 e 34 anos, metade dos brasileiros ouvidos gostariam de abandonar o país. Entre 35 e 44 anos, 44% sonham em deixar o Brasil. De 45 a 59 anos, um em cada três pesquisados pensam em ir embora. Entre os acima de 60 anos, um em cada quatro. Como se nota, na medida em que a idade avança, em que as pessoas têm mais compromissos familiares, empresariais, laborais - raízes, enfim - o percentual diminui. Mas entre os jovens que buscam oportunidades, seis em cada dez gostariam de ir embora.

As razões dessa idéia de tanta gente são muitas. Jovens que já estudaram no exterior e experimentaram mais segurança, mais valorização ao conhecimento e a ciência, mais oportunidades de melhores salários, voltam e ficam chocados. Brasileiros que passaram a viajar mais para o exterior, ficaram conhecendo ambiente mais organizado, mais seguro, mais previsível. Os de mais idade fazem planos para uma aposentadoria longe de assaltos, balas perdidas, trânsito caótico; em lugares onde possam passear, sair à noite, ir a restaurantes e a espetáculos com mais frequência. Todos dizem que fora do Brasil e vida é mais barata e, óbvio, mais segura.

As gerações mais jovens são o maior patrimônio de uma nação; elas são a garantia de sobrevivência, de continuidade, de futuro. Por isso, uma país como Portugal, nossa matriz, abre as portas para jovens com conhecimento. Com 11 milhões de habitantes e natalidade baixa, Portugal incentiva a vinda de jovens bem formados, que vão ser cidadãos úteis e produtivos para o país. Nossa pátria-mãe tem noção de algo que o Brasil parece ter perdido. Interessante que haja milhares de brasileiros ilegais nos Estados Unidos - calculam em mais de 100 mil - que fugiram do país cheio de leis trabalhistas para buscarem emprego no país que não tem leis trabalhistas.

O que está havendo conosco? Que desânimo é esse? O que perdemos ou o que nos tiraram? Já que estamos em Copa do Mundo, lembro do tricampeonato no México, em 1970. Eu tinha quase 30 anos e testemunhei o entusiasmo do “Pra Frente Brasil”, do “80 Milhões em Ação”, que ajudou a fazer o Milagre Econômico: o país cresceu, por três anos consecutivos, à média de 11,2% ao ano - um crescimento chinês. Não havia desemprego. Atividade econômica plena. Por puro entusiasmo, que mandava os que pegaram em armas para implantar aqui uma ditadura socialista(como conta um deles, Fernando Gabeira), irem embora: “Brasil, ame-o ou deixe-o” dizia o plástico nos vidros de grande parte dos automóveis. Pois agora querem deixar o país aqueles que o amam. Uma tragédia.

 

* Publicado originalmente em http://www.sonoticias.com.br/coluna/o-nosso-desanimo
 

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  • Filipe G. Martins
  • 10 Julho 2018

 

Em seu esforço de criar um novo homem, tudo o que a modernidade conseguiu foi inventar jovens sem heroísmo e sem coragem; velhos sem sabedoria e sem maturidade; mulheres sem caridade, sem beleza e sem graciosidade; e homens sem virilidade, sem honra e sem senso de dever.

Os modernos criaram uma vida sem vitalidade e sem propósito, produzindo uma sociedade adoentada e incapaz de transcender o animalismo sensorial mais rasteiro.

Se nascemos nesta época de degeneração e decadência, no entanto, não nos cabe lamentar ou nos refugiar em algum tipo de saudosismo lamurioso, mas sim agir e viver como quem compreende que a grandeza da civilização tem muito menos a ver com as riquezas que ela legou aos nossos antepassados do que com os esforços que nossos antepassados fizeram para enriquecê-la — se algum dia nossa decadência for revertida, certamente não será pela ação de políticos ou de instituições, mas pela virtude das personalidades e pela revigoração das famílias, por meio da grandeza do coração materno, da força da honra paterna, da exuberância do espanto juvenil e da indispensável ajuda divina.

• Reproduzido de http://www.olavodecarvalho.org/filipe-g-martins/
 

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  • Paulo G. M. de Moura
  • 07 Julho 2018

 

Disrupção significa a quebra ou descontinuidade de um processo estabelecido. O termo está em voga para caracterizar o impacto das novas tecnologias sobre a vida cotidiana, o mundo do trabalho e a economia. Mas, se todas essas dimensões da vida humana estão mudando sob impacto das novas tecnologias, como imaginar que a política ficaria imune à mudança?

Vamos, portanto, tentar iluminar algumas dimensões do que se passa na política brasileira para demonstrar que o sistema político tradicional, os analistas acadêmicos e os comentaristas políticos da mídia, em sua maioria, não estão entendendo o que se passa e, consequentemente, perderam a capacidade de antecipar cenários e agir estrategicamente.

Comecemos listando algumas categorias que costumam organizar o pensamento e/ou a ação desses analistas ou atores políticos. São elas:

• Presidencialismo de Coalisão: pressuposto de que a única forma de vencer eleições e governar o Brasil é através da formação de amplas coligações eleitorais, e, após a vitória; da cooptação da maioria do parlamento através do loteamento do governo;

• Governabilidade e consenso social: pressuposto segundo o qual somente é possível governar sob uma conjuntura de estabilidade política, social e financeira, em que o poder executivo pode exercer plenamente as suas atribuições a partir da formação de consensos sociais mínimos que limitam o que é possível fazer como governo;

• Regras eleitorais: pressuposto de que tempo de TV e acesso ao fundo partidário são centrais para determinar a força política de um candidato;

• Estruturas e articulações: pressuposto de que coligações; palanques regionais; presença em governos; bancadas de apoio oferecem preponderância e vantagem competitiva aos candidatos; e,

• Direita-Centro-Esquerda: pressuposto segundo o qual seria possível entender o comportamento dos eleitores e dos atores políticos a partir de parâmetros ideológicos;

• "Lua de Mel" com o eleitorado: pressuposto segundo qual o recém-eleito terá o primeiro ano de governo como período em que desfrutará de apoio popular para implementar reformas estruturais impopulares.


Salvo algum lapso, esses são os parâmetros que pautam o comportamento tático-estratégico dos atores políticos tradicionais e, da mesma forma, o viés das análises políticas de acadêmicos e comentaristas políticos. Afirmar, portanto, que essa é uma eleição disruptiva implica em aventar a hipótese de que o comportamento dos eleitores não obedecerá aos limites em que se imagina possível encarcerá-los com o fim de entender suas condutas e vencer a eleição a partir desses pressupostos.
A primeira grande interrogação que põe em xeque essas categorias provém da estranheza e incerteza que esses mesmos atores e analistas políticos tradicionais revelam ao falarem sobre a conjuntura política e tentarem seus prognósticos eleitorais.
A segunda interrogação provém da incerteza sobre o peso que a campanha na internet terá nessa eleição em comparação com as anteriores em que as mídias tradicionais ainda foram dominantes.
E, finalmente, a terceira interrogação provém do pouco analisado potencial mobilizador das forças sociais que operam no tabuleiro político para além dos partidos, sindicatos e organizações sociais e políticas tradicionais.

Quais seriam, então, os indicadores de que esta será uma eleição disruptiva?

As eleições fora de época no Amazonas e Tocantins revelaram índices recorde de não-voto (soma de abstenções, nulos e brancos), da ordem de cerca de 40% no primeiro turno e 50% no segundo turno. Esses índices coincidem com as projeções de todos os institutos de pesquisa sobre os índices de não-voto das próximas eleições.

Pesquisas qualitativas feitas pelos partidos revelam um eleitor desalentado, descrente, cético, desconfiado e com raiva da classe política, mas, também, da instituição do Judiciário, percebido com conivente, senão cúmplice, da corrupção, notadamente do caso do STF.

Os dois candidatos que lideram as pesquisas de todos os institutos com Lula fora da eleição, Jair Bolsonaro e Marina Silva, ainda que não sejam outsiders, são percebidos como "não políticos", ou, pelo menos, como não comprometidos com os esquemas políticos tradicionais.

Nenhum dos nomes lançados ao tabuleiro das especulações e balões de ensaio como possíveis candidatos do establishment, vulgo "centro", consegue decolar nas pesquisas eleitorais ou mesmo empolgar demais partidos tradicionais para formar alianças ao velho estilo, percebidas por esses atores como fundamentais para viabilizar um projeto eleitoral.

O presidente da República, ainda que se movimente como articulador, melhor fará para viabilizar alguma candidatura do estabilshment se desaparecer da cena eleitoral. Ainda que a caneta presidencial possa operar a favor de algum dos nomes de sua simpatia, tudo indica que esse "cabo eleitoral" terá muito menos relevância do que já teve em qualquer outra eleição após o governo Sarney.

Quais são as novidades no cenário eleitoral:
1 – As mídias sociais deslocaram o poder das organizações tradicionais para as mãos de indivíduos e movimentos cívicos de novo tipo, que nada têm em comum com os ativistas e "movimentos sociais" do passado, todos cooptados pelo Estado ao longo dos 13 anos de governos petistas.

As estratégias de segmentação da comunicação nas mídias digitais, notadamente através dos dark posts no Facebook e a troca de mensagens no Whatsapp, são muito difíceis de ser percebidas para quem está fora das redes sociais reais do ativismo. Esse é um ingrediente causador de surpresas e que introduz enorme imprevisibilidade ao comportamento dos eleitores.

2 – O fim do imposto sindical desidratou os cofres dos sindicatos abalando fortemente a capacidade de financiamento eleitoral dos partidos de esquerda. Ciro Gomes cresce em densidade buscando aliança com o PSB e conquistando a adesão de franjas dos partidos tradicionais – especialmente no nordeste – na expectativa de herdar os votos de Lula com seu discurso de esquerda. Mas, o PT trava nessa eleição uma luta de vida ou morte e não pode deixar Ciro "roubar" "seu" eleitorado.

O PT é o segundo partido com maior acesso ao fundo eleitoral. Lula, segundo as pesquisas, pode alavancar Haddad como seu candidato ao patamar de 11%, acima de Ciro Gomes que pontua com cerca de 7%, e encostando em Marina, que não tem partido (a Rede é um gelatina que desanda na eleição), não tem fundo partidário e nem tempo de TV e não usa as mídias digitais de modo profissional. Todos esses fatores recomendam que não se deva menosprezar o potencial eleitoral do PT.

3 – A presença do ativismo de viés liberal-conservador é muito mais forte nas mídias sociais do que a tradicional militância de esquerda. E, o envolvimento da esquerda com a corrupção sob os governos petistas empurrou essas forças para a defensiva.

O ativismo liberal-conservador que derrubou o governo petista saiu das ruas, mas está vivo, ativo e mobilizado nas mídias digitais e em atividades de reflexão e formação política. Opinião pública não é estatística de pesquisa publicada; é resultado de um jogo de forças mobilizadas. Esse é um fator que pesará na definição da eleição presidencial e que está fora do radar dos analistas acadêmicos e da mídia, por uma simples razão: a maioria desses analistas e comentaristas é de esquerda e não tem conexão com as redes sociais desse novo ativismo. Logo, não o compreende e não consegue antecipar seus movimentos.

4 – As características da comunicação nas mídias digitais anteriormente referidas e essa postura cética, desconfiada e raivosa dos eleitores em relação ao sistema político tradicional conferem alto grau de imprevisibilidade ao curso da eleição.

Nos casos do Brexit, da eleição de Trump e do recente plebiscito sobre o acordo de paz com as FARC na Colômbia os eleitores fizeram questão de contrariar as "análises" predominantes na mídia, que é nitidamente enviesada à esquerda.

Um eleitor com esse tipo de sentimento tende a manter distância e frieza diante da eleição, mas está atendo e crítico para escolher seu candidato na última hora, criando um movimento massivo e rápido de convergência em direção ao escolhido. Nesse contexto, o ativismo digital da rede real dos seguidores de Bolsonaro, cujo discurso está em sintonia com esse sentimento do eleitor é um ativo que nenhum dos demais competidores têm, ainda que contratem as melhores agências de publicidade para fazer suas campanhas nas mídias digitais em cima da hora, como não se deve fazer, mas, como estão fazendo.

5 – Jair Bolsonaro é o candidato que possui os maiores índices de engajamento nas mídias sociais. Seus 13% de manifestações espontâneas de voto nas pesquisas de todos os institutos constituem-se numa força organizada, monolítica e descentralizada mais poderosa de qualquer partido político. Bolsonaro vem operando bem, também, na dimensão tradicional da política (coligação com tempo de TV, articulação com parlamentares individualmente; alianças e articulações com evangélicos e outras forças sociais, conquista da confiança de setores do empresariado).

Em janeiro desse ano eu mesmo aventei a hipótese de que Bolsonaro tivesse batido no seu teto e pudesse vir a cair nas pesquisas. Não foi o que aconteceu. As análises tradicionais partem do pressuposto de que, quando começar a campanha na TV, o candidato do centro (quem?) crescerá e Bolsonaro, devido ao seu discurso e postura, não apenas não crescerá em direção ao centro, como perderá parte dos eleitores no segmento que está além dos 13% de seu voto espontâneo. Todos os argumentos aqui listados sugerem que há grandes chances de esse tipo de análise dar com os burros n'água.

6 – Por fim, o eleito, seja quem for; supondo-se cerca de 50% de não-voto no segundo turno, será eleito, em tese, com uma maioria efetiva de cerca de 25%+1 dos votos válidos. Ou seja, terá baixa legitimidade para governar num cenário de crise fiscal grave que demanda reformas estruturais que necessariamente terão de contrariar fortes interesses organizados. "Lua de Mel"?

* Paulo G. M. de Moura é Cientista político
 

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