• Alex Pipkin, PhD
  • 05 Novembro 2019

 

Fui assistir ontem o "Coringa". Gostei, especialmente se a proposta de valor do diretor Todd Phillips era deixar para o público assistente, a missão de construir teses e identificar as "reais" mensagens da película.

Saí do cinema pensando se a ficção dentro da ficção, não passou-se meramente de um sonho na cabeça - tresloucada e ressentida - do personagem Arthur Fleck, o coringa.

O diretor, a bem da verdade, deixa quase tudo em aberto. É possível interpretar e especular de várias maneiras sobre as mais diversas temáticas abordadas. Isso é legal?!

Prato cheio para psiquiatras, psicanalistas e assistentes sociais!

Se não me equivoco, é um filme muito mais psicológico do que relacionado com política. Tanto Arthur Fleck, como também o Joker, são dois em um de uma mente doentia, sofrida e ressentida com o seu notório fracasso; um criminoso doentio que se delicia com a crueldade e o sadismo de seus próprios atos.

Mas como o filme permite divagações-mil, especulo e opino sobre alguns pontos.

Arthur Fleck é alguém que não possui nenhuma referência moral, um tipo de niilista que não acredita em nada. Talvez tenha apenas alguma obrigação quanto ao cuidado de sua mãe, mas após descobrir que ele é adotado e sistematicamente espancado pelos namorados desta, mata-a "com grande prazer".

Diga-se de passagem, o diretor Todd Phillips incorre em "grave erro da verdade", quando tipifica o suposto pai de Arthur, Thomas Wayne, com um "capitalista sem escrúpulos", desprovido de virtudes morais - pelo menos em relação àquilo que se sabia sobre a família Wayne!

Na ficção, Arthur não se apega a necessária ficção para a vida na realidade, baseada em princípios religiosos, morais e/ou propósitos sociais. Enfim, não tem nada a perder!

A corrente do politicamente correto poderia interpretá-lo como uma vítima da sociedade, distintamente do indivíduo que utiliza tal narrativa do "tudo é permitido" para extravasar seu ódio, ressentimento e inveja, dando vazão as suas emoções, impulsos e reflexos de sua doença.

O problema é que, como quase todos sabemos, seus sentimentos desprovidos de qualquer tipo de princípios e moral, servem de sustentáculo para uma massa de irresponsáveis convulsionarem e explodirem uma espécie de revolução social.

A massa encontra uma face - doentia - para se apoiar e justificar o injustificável. Todos sentem-se literalmente no direito de agirem de forma inconsequente.

A tese é por demais conhecida: o mundo é injusto e perverso conosco e, por isso podemos, ao bel-prazer, rebelarmo-nos contra ele.

A linha divisória imaginária entre homens e crianças, parece-me, é aquela que está umbilicalmente ligada ao nosso ser racional, moral, social e relacional no sentido de respeitar e se ajustar ao comportamento aceitável e necessário para a vida em sociedade.

A capacidade de imaginar aquilo que os outros sentem e pensam, por meio do espectador imparcial, é o que impede que todos nós despejemos no contexto social a "loucura" que todos nós temos! Loucura e estupidez humana, como atesta a história da humanidade, existem de verdade!

O louco age como um louco desimpedido, em especial, após se auto reconhecer "fortalecido" com seus ataques mortais, e é seguido por uma manada na qual os membros do grupo se comportam criminosa e irresponsavelmente, transformando suas emoções e vontades em verdades absolutas.

Apesar disso, como não me considero cegado por crenças políticas...

Há uma passagem no filme que me fez pensar na importância do papel do Estado. Na verdade, essa cena evidencia a incompetência do Estado na gestão de serviços necessários para a estabilidade e a própria sobrevivência de uma vida "mais saudável" em sociedade.

A passagem demonstra visivelmente os organismos burocráticos de assistência social, que verdadeiramente não prestam o serviço de apoio e assistência adequados aos debilitados.

Sou crítico do Estado "provedor", contudo, o "Coringa" traz a tona a prudência e a importância do que chamo de Estado "necessário".

O desenvolvimento econômico, indutor do social, é alcançado no livre mercado, através da livre e sadia concorrência, premiando o mérito daqueles que alcançam os melhores resultados para a sociedade. É genuinamente por meio da eficiência econômica que se consegue gerar mais empregos, renda e riqueza, permitindo o aumento e a melhoria das condições sociais da população.

No entanto, o Estado desempenha um papel crucial no acolhimento fundamental via fornecimento de saúde, assistência, remédios e outras questões ligadas a construção de uma "rede de proteção mínima" para os comprovadamente mais carentes e necessitados, aqueles sujeitos a completa vulnerabilidade social e abandono. No Brasil, nem se fala...

Evidente que há formas muito mais profissionais e inteligentes de se ofertar tais serviços, distintas daquelas estatais e burocráticas evidenciadas na película.

Bem, após ver e refletir sobre o joker, ratifiquei minha costumeira visão de que na inexistência de uma "régua moral", sinalizadora dos limites da "liberdade" individual e grupal (apesar da estupidez de muitos), fica extremamente azeitado o caminho para todos os tipos de extremismos e imposições primitivas de crenças políticas tanto a esquerda quanto a direita! Minha leitura!

Alex Pipkin, PhD

 

Continue lendo
  • Alex Pipkin, PhD
  • 31 Outubro 2019

 

O "homo brasilis", brasilis tal qual uma espécie "insciente", é aquele que derivou do homo sapiens europeu, especialmente português, por volta do século XVII.

O "homo brasilis", creio eu, ainda se caracteriza por um "certo" respeito àquela criação humana denominada de Estado. Até quando... muito complicado estimar!

Afinal, essa instituição instada no século XVI, visava exatamente a coordenar os vários e distintos interesses e objetivos individuais, por vezes conflitantes, a fim de possibilitar a convivência harmônica em sociedade.

Cabe enaltecer que a razão primordial da existência do Estado, dá-se por conta do provimento e da manutenção da ordem social, objetivando conter os naturais impulsos e pulsões humanas. Mas isso é coisa do passado; cultura censuradora!

Os humanos se diferenciam dos animais e das plantas, justamente por suas capacidades cognitivas, utilizadas por meio da linguagem, permitindo-os produzir e transmitir informações e, desse modo, impelindo-os a essencial cooperação entre estranhos.

Essa integração e cooperação, resultado do avanço civilizacional, possibilitou-nos o alcance de um maior desenvolvimento econômico e social, inquestionável.

De fato, o progresso dos homens, de alguma maneira dos brasileiros, ocorreu por conta da capacidade de pensar e agir, racionalmente, na direção da construção daquilo que pode ser visto a olhos nus: máquinas, equipamentos, estradas, escolas e tudo mais, ou seja, os símbolos e emblemas visíveis do progresso econômico e social.

Entretanto, o crescimento é indissociável da criação de normas formais como a lei e, em especial, de normas e crenças invisíveis, ficções e mitos, capazes de unir as pessoas, aumentando a colaboração e impulsionando a criatividade. Cooperação por meio da interação entre ideias, imagens, conceitos e imaginação!

Dentre tais ficções, tristemente, a mais devastadora dos verdadeiros sonhos do progresso verde-amarelo, é a ideologia "vermelha", aquela da perfectibilidade humana! Como tal utopia se enraizou profundamente em solos latino-americanos, especialmente por aqui?

Desde muito, mas sobretudo a partir dos anos 90, vem sendo gestado o "homo brasilis"...

Como? Pelo aparelhamento das "grandes" instituições nacionais, aparelhadíssimas, em que seus "líderes" discursam bondosamente, penetrando nas mentes brasileiras a falácia do tudo é permitido e as mentiras da pós-verdade contemporânea.

A ditadura do pensamento esquerdizante nas universidades brasileiras exerceu com brilhantismo seu "papel"! Jovens foram induzidos a supervalorizar suas inteligências - escassez de realidade, experiências e maturidade - tentando impor seus sentimentos e emoções, tal qual uma certeza subjetiva acerca daquilo que sentem; isso é inequivocamente o "real, verdadeiro e justo"! Deve ser imposto. Pior, acreditam que aquilo que sentem é um princípio válido para suas ações "sociais".

O "homo brasilis" foi instigado, passando a exigir todos os seus direitos naturais, a la Rousseau, sem qualquer tipo de avaliação racional de suas correspondentes responsabilidades! Que legítima regressão nas virtudes e capacidades humanas ligadas a moral e a prudência!

De fato, suas "abissais" capacidades cognitivas não são suficientes para que ele não pense confusamente na relação presente entre liberdade e responsabilidade.

O relativismo moral é, talvez, aquela marca que melhor representa o "homo brasilis", já que o mundo começou ontem; nada do que foi construído e resistiu ao teste dos tempos importa. Só os prazeres do presente em detrimento de um futuro mais próspero.

Hábitos de comportamento, tradições e costumes são sinetes do passado repressor, portanto, devem ser destruídos! Tudo deve obedecer aos desejos, impulsos e vontades humanas. Viva a virtude humana!

Esse "homo brasilis" é o começo do fim do homem brasileiro!

Ele simboliza, de fato, a involução das capacidades cognitivas nacionais, fruto de enormes mutações morais, e o ferrenho apego a ficção ideológica da superioridade moral, estampadas em nossas pobres instituições! O reflexo aí está: completo desarranjo e conflitos profundos entre os três poderes, alimentados pelas obtusas pretensões ideológicas, visões de mundo e interesses próprios e/ou corporativos.

Será porque o inteligente e (ir) racional "homo brasilis" é tão visionário e preditor da certeza futura, aquela em que ele não precisará depender da razão humana individual, já que "máquinas inteligentes", resultado do extraordinário desenvolvimento das tecnologias digitais, pensará e agirá por ele?!

 

 

Continue lendo
  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 31 Outubro 2019


JORNAL NACIONAL
Como profissional que atua na área da comunicação desde 1986 (lá se vão 33 anos) confesso que estou pasmo com a maneira que a rede Globo resolveu, nesses últimos anos, praticar o que, neste momento, só ela está classificando de JORNALISMO SÉRIO, DE QUALIDADE, como referiu, ontem, o âncora do Jornal Nacional, Wiliam Bonner.


PERDA DA CREDIBILIDADE
Nunca imaginei como possível que o JN, que galgou o posto de principal telejornal brasileiro como sinônimo de credibilidade jornalística, fosse capaz de colocar no ar uma matéria falsa, asquerosa e, principalmente criminosa, como fez na última 3ª feira, quando tentou induzir seus telespectadores para que acreditassem que o presidente Bolsonaro estava envolvido na morte da vereadora Marielle Franco. Um horror.


EDIÇÃO DE ONTEM
Pois, o que me deixou ainda mais pasmo, embora nada surpreso, é que na edição de ontem do JN, mesmo depois da confirmação de que a notícia do envolvimento do presidente Bolsonaro, como suspeito da operação que resultou na morte da vereadora, era totalmente FALSA e IMPROCEDENTE, os âncoras Wiliam Bonner e Ana Paula Araújo (substituindo Renata Vasconcellos) não recuaram um milímetro no sentido de tentar corrigir o erro grosseiro.


DISPOSIÇÃO FIRME
Mais: as fisionomias do Bonner e da Ana Paula/Renata deixaram bem claro que continuarão com a firme disposição de seguir atacando o presidente do Brasil, como de resto acontece, com total transparência, em todos os programas produzidos pelas organizações Globo, desde o momento em que Jair Bolsonaro resolveu se candidatar ao cargo de presidente.


ATOS RELEVANTES
No meu claro entender faço questão de afirmar que o presidente erra quando afirma que vai dificultar a renovação da concessão das emissoras de rádio e TV da Globo, em 2022. Isto soa como uma atitude ditatorial e de perseguição totalmente inadmissível. Entretanto, o presidente acerta -na mosca- ao cortar as VERBAS DE PUBLICIDADE do governo e das estatais. Afinal, publicidade governamental só cabe para divulgar ATOS RELEVANTES.


SEM TRÉGUA
Aliás, a bem da verdade e dos fatos, a atitude -porca- das organizações Globo tem uma reposta clara e inconfundível: enquanto permanecer o corte da magnífica VERBA DE PUBLICIDADE, certamente não haverá espaço para uma mínima trégua.

 

Continue lendo
  • Anonymous
  • 25 Outubro 2019

 

Nota do Editor: O leitor atua no Poder Judiciário, identifica-se, e pede para permanecer anônimo. Sabendo como andam as coisas no STF, concedo-lhe o anonimato e o felicito pelo texto

Ao se fazer uma leitura direta do inciso constitucional do inciso 57 do artigo 5°, tiram alguns ministros do STF a ideia de que a culpa exige o trânsito em julgado, e assim, a prisão só então é adequada. É inconstitucional, portanto, atribuir-se culpa antes de esgotados todos os recursos.

Ora, a noção de prisão cautelar ou preventiva já não pressupõe a culpabilidade? Alguém é preso cautelarmente por representar perigo manifesto, ou pela possibilidade de destruir provas, intimidar testemunhas, etc. Já está pressuposto nesses casos o juízo antecipado de culpabilidade – que é INTRÍNSECO à própria conceituação de medida cautelar. Faz parte de sua semântica, de sua lógica interna. Se não é perigoso (se não tem provável culpa de ter agido com violência); se não há provas que o incriminem para destruir, ou testemunhas para coagir ou comprar; por que iria preso antecipadamente?

O sentido de uma prisão provisória ou temporária pressupõe, ainda, dessa forma, que não ocorre uma mudança de estado de um absoluto ao outro, de absolutamente inocente a absolutamente culpado. É parte da lógica elementar de um processo penal, é a sua inteligibilidade fundamental, as quais o ideal constitucional não tem como anular e seu intérprete não tem como varrer par debaixo do tapete.

Se a ministra Rosa Weber se apega ao sentido linguístico direto do inciso constitucional, faça o mesmo com o sentido de prisão cautelar. O que se está fazendo, ao se resguardar a prisão cautelar é, de modo sub-reptício, re-introduzir a culpabilidade com outro nome, com o pretexto de que serve, de modo instrumental, ao bom andamento do processo. Mas esse é um deslocamento incrivelmente falacioso. O preço da coerência, é, assim, eliminar-se toda a prisão cautelar. Mas nesse momento a realidade fora do mundo perfeito dos imperativos categóricos (aos quais se refere com tanta eloquência o ministro Lewandovsky), faz-se presente, e esse preço ninguém aceita pagar.

O imperativo categórico é um elemento da teoria moral kantiana. Embora seja um princípio muito interessante de avaliação da moralidade, quem tenha estudado o tema sabe que sobram casos em que sua aplicação irrestrita resulta em paradoxos e todo tipo de consequência estapafúrdia. É óbvio que o dispositivo constitucional não pode ser lido sem considerar-se as situações paradoxais em que ele cai quando interpretado sem o peso de outros princípios, sob o risco de se gerarem graves injustiças, e sob o risco de fundar o sistema legal do país em um non-sense esquizofrênico.
 

Continue lendo
  • Olavo de Carvalho
  • 25 Outubro 2019

 

Diário do Comércio, 8 de maio de 2015

Giambattista Vico ensinava que nada conhecemos tão bem quanto aquilo que nós mesmos inventamos. O sr. Marco Antonio Villa ilustra essa regra com perfeição.

Após declarar, em artigo do Globo, que, "na política é indispensável, ao enfrentar um adversário, conhecê-lo" – abertura triunfal que realiza às mil maravilhas o ideal literário do Conselheiro Acácio -, ele inventa um PT à imagem e semelhança da sua própria estreiteza mental e o enfrenta até mesmo com certa bravura.

No seu entender, o PT nada tem de comunista. É apenas "um mix original que associa pitadas de caudilhismo, com resquícios da ideologia socialista no discurso — não na prática —, um partido centralizado e a velha desfaçatez tupiniquim no trato da coisa pública, tão brasileira como a caipirinha que seu líder tanto aprecia".

Desprovido de todo aparato marxista e de toda conexão com o movimento comunista mundial e suas tradições, reduzido a um fenômeno folclórico local sem nenhuma retaguarda estratégica, o partido governante está pronto para ser demolido na base de puras notícias de TV, sem o menor combate ideológico ou sondagem das suas conexões internacionais.

Foi nisso que se especializou o sr. Villa, e ele desempenha essa tarefa pelo menos tão bem quanto o faria qualquer aprendiz de jornalismo.

Dos que temem que na sua atitude haja um excesso de presunção otimista ele se livra com meia dúzia de petelecos, rotulando-os de "exaltados e néscios", proferidores de "puras e cristalinas bobagens", culpados de "absoluto desconhecimento político e histórico", de restaurar "o rancoroso discurso da Guerra Fria", de usar "conceituações primárias que não dão conta do objeto" e de retirar do baú da História o anticomunismo primário", isso quando alguns deles não chega mesmo a ser, como ele disse na TV, um "astrólogo fascista embusteiro metido a líder político".

Tendo assim alcançado um recorde jornalístico de insultos por centímetro de coluna, ele se sente preparado para provar cientificamente a ausência de comunismo no PT. E eis como ele se desincumbe da tarefa: "O petismo impôs seu 'projeto criminoso de poder'... sem que tivesse necessidade de tomar pela força o Estado. O processo clássico das revoluções socialistas do século XX não ocorreu. O 'assalto ao céu' preconizado por Marx foi transmutado numa operação paulatina de controle da máquina estatal no sentido mais amplo, o atrelamento da máquina sindical, dos movimentos sociais, dos artistas, intelectuais, jornalistas, funcionando como uma correia de transmissão do petismo."

Quem quer que tenha estudado o assunto, ao menos um pouquinho, entende, logo ao primeiro exame, que isso que o sr. Villa acaba de descrever é a aplicação fiel, milimetricamente exata, da estratégia de Antonio Gramsci para a conquista do poder pelos comunistas.

Nada de tomar o Estado pela força, nada de "assalto aos céus". Em vez disso, a lenta e quase imperceptível "ocupação de espaços", ou, nos termos do sr. Villa, "o atrelamento da máquina sindical, dos movimentos sociais, dos artistas, intelectuais, jornalistas".
Faz quase seis décadas que o movimento comunista internacional em peso adotou essa estratégia, por ser ela a única compatível com a política de "coexistência pacífica" entre a URSS e as potências ocidentais, preconizada por Nikita Kruschev no discurso que proferiu em 1956 no XX Congresso do Partido Comunista soviético.

Ou seja: a prova cabal de que o PT não é um partido comunista é que ele faz exatamente o que todos os partidos comunistas do Ocidente fazem há sessenta anos.

Não é de tapar a boca de qualquer astrólogo fascista embusteiro?

O sr. Villa mostra-nos um bicho de pele grossa, orelhas grandes, seis toneladas de peso e duas presas de marfim, mas se lhe dizemos que é um elefante ele sobe nas tamanquinhas e diz que são "conceituações primárias".

Como exemplo do que deveria ser uma conceituação mais sofisticada, ele reconhece que o PT é leninista, mas só "na estrutura, não na ação".

Precisamente: leninista na estrutura, gramsciano na ação. Como o próprio Gramsci recomendava. Mas pensar que isso é comunismo é "pura e cristalina bobagem", não é mesmo? Especialmente para quem, nada sabendo de Gramsci e muito menos das longas discussões entre intelectuais gramscianos que prepararam e preparam cada decisão do PT, descreve o gramscismo sem saber que é gramscismo e jura, de mãos postas, que o PT jamais teve outro estrategista senão Macunaíma, nem outra inspiração senão a caipirinha.

"Como falar em marxismo se Lula sequer leu uma página de Marx?", pergunta o sr. Villa. Bem, no tempo em que eu andava com os comunistas só vi dois deles lendo Marx. O terceiro era eu. Os outros liam exemplares de A Voz Operária e as resoluções do Comitê Central. O próprio Rui Falcão mal conhecia o Manifesto Comunista.

Mas isso é só uma curiosidade. O fato é que o sr. Lula não leu talvez uma só página de Marx, mas o sr. Frei Betto leu muitas, além de um bocado de Gramsci, e há décadas exerce as funções de cérebro do ex-presidente. Ou o sr. Frei Betto, coautor da Constituição cubana, co-fundador do Foro de São Paulo e mentor reconhecido de um gratíssimo sr. Lula, não é ele próprio comunista?

No entanto, se o argumento do sr. Villa não vale para o caso do sr. Lula, vale para o do próprio sr. Villa. Ele definitivamente não é comunista, já que não leu Marx. Se tivesse lido, não teria escrito esta lindeza: "Quando Lula chegou ao Palácio do Planalto, o partido só tinha de socialista o vermelho da bandeira e a estrela. A prática governamental foi de defesa e incentivo do capitalismo. Em momento algum se falou em socialização dos meios de produção."

Pois Marx ensinava, precisamente, que a socialização dos meios de produção não seria possível antes de totalmente desenvolvidas as forças produtivas do capitalismo.

O processo, dizia ele, poderia levar décadas ou até séculos. Para um partido comunista que chegue ao poder por via democrática, numa nação capitalista, o único caminho possível para o socialismo, sobretudo desde 1956, é desenvolver as forças produtivas do capitalismo ao mesmo tempo que as atrela ao Estado por meio de impostos e regulamentos e vai aos poucos – invisivelmente, dizia Antonio Gramsci – conquistando a hegemonia e neutralizando as oposições.

É precisamente o que o PT faz. Já me expliquei um pouco a esse respeito um ano atrás, neste mesmo jornal (leia aqui).

Mas nem o próprio Lênin, que subiu ao poder nas ondas de uma revolução armada e tinha todos os instrumentos para governar pelo terror, saiu logo falando em estatizar. Fez como o PT: deu um incentivo ao capitalismo enquanto montava o sistema de poder hegemônico, tomando gradativamente dos burgueses os meios de ação política enquanto os mantinha anestesiados por meio de vantagens financeiras imediatas.

Foi isso o que ele resumiu na máxima: "A burguesia nos venderá a corda com que a enforcaremos". Nem mesmo em teoria Lênin pensou em estatização imediata. Ao contrário. Dizia ele: "O meio para esmagar a burguesia é moê-la entre as pedras da inflação e do imposto."

Se o PT faz exatamente isso, é a prova cabal, segundo o sr. Villa, de que ele não é um partido comunista de maneira alguma.

O sr. Villa fala ainda contra o conceito de "bolivarianismo" quando aplicado ao PT.

Nisso ele tem razão, mas não pelos motivos que alega. Ele investe contra o termo "bolivarianismo", porque, no seu entender, Hugo Chávez só escolheu Simon Bolívar como símbolo da sua revolução por achar que "a crise do socialismo real tinha chegado ao seu ponto máximo e não havia mais nenhuma condição de ter como referência o velho marxismo-leninismo".

Isso é absolutamente falso.

Em primeiro lugar, adotar a máscara nacionalista, populista ou coisa que o valha não foi, como sugere o sr. Villa, um arranjo de última hora, uma alternativa de emergência adotada no ponto extremo de uma crise do marxismo, mas é um dos hábitos mais velhos e constantes do movimento comunista, que desde os anos 30 do século passado veio se camuflando como "progressismo", "terceiromundismo", "movimento dos não-alinhados", "antifascismo", "anticolonialismo", "teologia da libertação", "filosofia da libertação", "pan-africanismo" etc. etc. etc.

Segundo: O próprio sr. Villa qualifica o bolivarianismo de "fachada", mas parece ignorar que toda fachada é fachada de alguma coisa. Como em 2010 Hugo Chávez, reeditando a célebre confissão tardia de Fidel Castro, admitiu publicamente sua condição de marxista, já não é preciso nenhum esforço divinatório para saber o que se escondia por trás do "bolivarianismo".

Terceiro: No Brasil o termo "bolivarianismo" tem servido sobretudo como subterfúgio eufemístico para evitar a palavra proibida, "comunismo", que o sr. Villa quer proibir ainda mais.

Aliás esse é um dos fenômenos linguísticos mais lindos de todos os tempos, uma conspiração de duas forças antagônicas que colaboram para silenciar o óbvio.
Os comunistas não querem que ninguém fale de comunismo porque, na estratégia de Antonio Gramsci, a revolução comunista só pode prosperar sob o manto da mais confortável invisibilidade (exemplo, os dezesseis anos de silêncio geral sobre o Foro de São Paulo).

Os anticomunistas também não querem que se fale de comunismo porque precisam que todo mundo acredite que saíram vencedores na Guerra Fria, sepultando o comunismo de uma vez para sempre.

O sr. Villa alista-se decididamente nesta segunda facção: "Considerar o PT um partido comunista revela absoluto desconhecimento político e histórico... Não passa de conceder sentido histórico ao rançoso discurso da Guerra Fria. O Muro de Berlim caiu em 1989 mas tem gente em Pindorama que ainda não recebeu a notícia."Talvez o sr. Villa, que não chegou a 1956, tenha saltado direto para 1989, mas é seguro que não chegou a 2000, quando o filósofo Jean-François Revel, num livro de sucesso mundial (La Grande Parade, Paris, Plon, 2000), fez a pergunta decisiva: Como tinha sido possível que o movimento comunista, desmoralizado na URSS, em vez de desaparecer por completo, crescesse até proporções gigantescas na década seguinte?

As explicações eram muitas: adoção da estratégia gramsciana, troca da antiga estrutura hierárquica por uma organização mais flexível em "redes", fuga generalizada ante a responsabilidade pelas atrocidades do regime comunista etc. etc.

Mas essas respostas não vêm ao caso, já que o sr. Villa não percebeu nem a pergunta.
Não se vende remédio a quem não sabe que está doente.

Que o sr. Villa está doente, não se discute. A estreiteza do seu campo de visão é decididamente anormal. É um tipo de glaucoma intelectual. Só que o doente de glaucoma fisico se queixa quando o seu ângulo visual diminui, ao passo que o sr. Villa se gaba e se pavoneia.

"Estou pouco me lixando para o Foro de São Paulo", declarou ele na TV tempos atrás, mostrando que, do alto da sua infinita superioridade, uma coisinha de nada como a maior organização política que já existiu no continente não merecia o dispêndio de uma gota sequer dos seus prodigiosos dons intelectuais.

Nós, os primários, os embusteiros, os fascistas, admitimos que nada podemos compreender do PT se o encaramos como um fenômeno estritamente local, fazendo abstração tanto das suas raízes (que remontam à criação da "teologia da libertação" por Nikita Kruschev; leia aqui), quanto das verbas estrangeiras que o alimentaram por décadas ou dos compromissos e conexões internacionais que determinam cada passo na consecução da sua estratégia.

Mas essas coisas são grandes demais para o campo visual do sr. Villa. Ele simplesmente as suprime e, fingindo desprezo ao que ignora, despeja insultos sobre quem as conhece.

Não desejo mal ao sr. Villa. O PT minúsculo que ele enxerga é uma parte do PT real, e ele até que faz o possível para trazer algum dano a esse pedacinho.

O cão de pastor que em defesa do redil se atraca com o lobo não há de achar ruim se um rato, pisoteado por acaso na confusão da luta, inventa de roer o dedão do invasor.

          

Continue lendo
  • Alex Pipkin, PhD
  • 25 Outubro 2019

 

A crise moral e ética em que o Brasil está mergulhado é avassaladora. Não é por acaso. Em um cenário turbulento de ambiguidades, valores morais são, cada vez mais, confrontados e discutidos. Crise agravada ainda por uma burocracia estatal associada a desfaçatez de pseudo empresários.

Seres humanos são seres sociais e morais. Há sempre no homem um ideal moral, impessoal e universal e, ao mesmo tempo, uma motivação utilitária que visa o conquista de sua própria individualidade.

É a moral que define sobre o que é certo ou errado, aquilo que é permitido ou proibido, representando um conjunto de regras e valores adquiridos por meio da cultura, educação e costumes de um contexto social. A ética refere-se à visão interna do indivíduo quanto ao certo e errado, enquanto que a moral serve para restringir seus instintos egoístas, visando nutrir vínculos sociais na vida em sociedade.

Os valores e imperativos morais emergem de uma evolução histórica e do processo de interação social. Eles são transformados pela relação dialética entre a sociedade e a moralidade dos indivíduos que a constituem.

No entanto, é ingênuo pensar que mudanças morais estejam imunes as relações de poder existentes dentro de uma determinada moldura política, social e econômica.

Desde a colonização portuguesa – sem demérito aos irmãos – aqui sempre se pensou sobremaneira em apropriar-se de recursos e capacidades em detrimento da criação e desenvolvimento destes.

Por conta das estruturas de poder construídas e expandidas ao longo do curso das mudanças na sociedade brasileira, o arcabouço jurídico foi "evoluindo" ligado a tais interesses e demandas.

O Estado interventor – castrador da liberdade – foi criando leis segundo sua "moral", ou seja, de uma minoria interessada em legislar em causa própria. Em tese, a normatização deveria refletir a moral da grande sociedade brasileira.

Uma vez que o arcabouço legal não reverbera o comportamento moral e respectivos interesses e demandas das pessoas em geral, este não ressoa no cotidiano. Quando leis não são consideradas corretas e válidas para todos, essas passam (naturalmente) a ser burladas. Indivíduos sentem-se, de alguma forma, moralmente permitidos a ludibriar leis "imorais". A cultura estatista agradece e se perpetua.

A implementação de leis que não são moralmente aceitas por todos, resulta em um contexto de sistemática trapaça que corrói o tecido social. Fronteiras entre o certo e o errado ficam, cada vez mais, tênues e o efeito devastador é longitudinal, arrastando-se por gerações e gerações.

Nos Estados Unidos, por exemplo, cada estado legisla em razão dos interesses "morais" de seus cidadãos, que diferem de estado para estado.

Caso um indivíduo não esteja de acordo com a "moral" de determinada área geográfica, é possível verter para outra geografia americana.

A mesma moral faz os new yorkers admirarem e respeitarem a polícia local com similar fascínio a artistas hollywoodianos. Evidências se espalham nos pequenos varejos ao longo de ruas como a famosa sétima avenida, com seus souvenirs da NYP.

O Estado e seus representantes deveriam, justamente, representar o que é vantajoso para os cidadãos que os alavancaram a tais posições, servindo a sociedade ao invés de servir a interesses pessoais e egoístas. Assim, é necessário ampliar o acesso às informações e projetos da classe política, além de elevar a pressão por mais eficiência e menos privilégios.

A crise é moral. Moral por conta da falta de moralidade pelo esquecimento do "outro", da alteridade e da construção de um melhor bem-estar para todos.

O Estado "benfeitor" atua fortemente vinculado aos interesses de uma minoria, alijando o bem-comum e impregnando o tecido social do mesmo veneno da individualidade e da dualidade quanto aquilo que é certo e errado. Têm-se muitos códigos morais – leis – e pouca ética para regular relações sociais.

A reversão desse maligno quadro é caminho longo e tortuoso. Há várias pedras - e rochedos - no meio do caminho.

Priorização e investimentos pesados em educação são imperiosos e urgentes. Sem isso, não há caminho. Educação que produza maior capacidade de consciência e discernimento. Decerto que por meio da educação, pavimenta-se terreno para o surgimento de ideais morais autotélico, muito além do propósito instrumental, da moral vinculada a obediência – ou não - à lei.

No tema legal, são necessárias adequações no sistema jurídico brasileiro e, notadamente, uma maior capacidade de fazer cumprir leis dotadas de "força moral". Menos leis com maior legitimidade moral.

Percebe-se que uma mudança de rumo é por demais complexa. Envolve o aperfeiçoamento das instituições, o que infelizmente, estamos ainda muito longe para enxergar! Pessimismo? Não, realismo pragmático.

Com o Estado interventor brasileiro, fica distante algum progresso moral. Mandatório haver abandono estatal de atividades sabidamente não vocacionadas e o investimento, consistentemente, em uma educação básica de qualidade para todos.

Indivíduos mais educados, fazendo cada um a sua parte em direção ao bem-comum, podem se constituir em um passo importante para o arrefecimento da popular "Lei de Gerson".


Alex Pipkin, PhD
 

Continue lendo