Prof. Valdemar Munaro
Este nobre e generoso espaço de Percival Puggina me dá a possibilidade de render singela homenagem ao dom e serviço intelectuais prestados a todos, especialmente a nós brasileiros, pelo nosso querido Olavo de Carvalho, recentemente falecido.
O panteão dos escritores e dos intelectuais reúne, segundo Allam Bloom, gigantes e anões. É na garupa daqueles que estes podem vislumbrar coisas impossibilitadas de ver por suas estaturas. Os gigantes, quando tais, se assemelham a desbravadores abrindo sendas nas selvas a fim de outros trilharem caminhos antes não percorridos. Gigantes intelectuais não são muitos, nem frequentes, por isso devemos amá-los, estudá-los, auscultá-los, perscrutá-los e agradecê-los, pois, nos fazem transcender da miopia que nos faz ver bem o perto, mas mal o longe a fim de enxergarmos o que nossa mediocridade impossibilita.
Olavo, como muitos disseram, inclusive nosso presidente, está, certamente, entre os poucos pensadores brasileiros gigantes. Sua obra ultrapassa os limites das paixões, opiniões e/ou modismos que normalmente nos aprisionam. Pode-se dizer que ele foi e é uma surpresa intelectual brasileira, um milagre, pela mesma razão de estarmos imersos e acostumados às mediocridades culturais rotineiras que são incapazes de gerá-lo. Inegável dizer que sua atividade educativa e filosófica soergueu nossa qualidade investigativa racional e abriu brechas nas nossas discussões e pensamentos há muito cristalizados. Nisso, foi um autêntico autor de nosso tempo, polêmico, sim, mas, em vista de nossa condição 'cativa', ele sacudiu o hábito no qual nos havíamos acostumado ante o invernoso e sombrio território educacional instaurado em nosso país.
Sabemos que todos os grandes escritores contêm uma parcela de substancialidade e outra de acidentalidade. Os elementos acidentais, no entender de Aristóteles, são aqueles penduricalhos ou aspectos que só existem enquanto estiverem enxertados na substância que os sustenta. Os acidentes são como sobras de banquetes, bagaços de ofício; são reais, mas não têm vida própria, subsistem e existem na medida em que estão unidos à substancialidade. De tal forma que, na obra de Olavo, por exemplo, há um lado ou aspecto jornalístico e político que pertence à sua atividade mais acidental e diz menos sobre o seu núcleo substancial. Este se localiza nas suas obras mestras e nas veias do seu trabalho elaborado através dos cursos que ministrou ao longo dos seus últimos vinte anos.
Nenhum autor, assim como nenhuma pessoa humana é admiravelmente integral, perfeita, completa. Mesmo nas obras de Dante, Tomás de Aquino, Shakespeare, Cervantes, Balzac, Dostoievski, Tolstoi, Machado de Assis e de tantos outros, podemos encontrar sabugos, palhas e não só grãos. Neles também temos flashes de literatura secundária, embora a substância esteja lá, pois sempre o substantivo é que dá existência aos adjetivos, não o contrário. 'Até o grande Homero tinha cochilos', justificou certa vez S. Jerônimo quando abordado sobre a leitura que fazia das obras heréticas de Orígenes. Olavo tinha o lado polêmico e irreverente, mas isso não fazia a parte central do conteúdo de sua obra.
Dotado de inteligência viva, sagaz e de prodigiosa memória, Olavo possuía um conhecimento vastíssimo sobre quase tudo o que constitui saber humano. Seu processo formativo percorreu etapas de autodidatismo, disciplina e método de estudo, leitura e investigação extraordinárias e pessoais. Buscou lugares onde pudesse encontrar conhecimento e sabedoria. Quem o ajudou inicialmente não foram as universidades, mas o padre Stanislavs Ladusãns, nascido na Letônia e jesuíta, membro da Academia Brasileira de Letras, que ministrava cursos livres de filosofia no Rio de Janeiro. Isso indica outra coisa: não sempre são as universidades que formam intelectuais e cientistas. Na Idade Média, por exemplo, não foi a Universidade de Paris que formou ou elevou Tomás de Aquino ou Duns Scotus ao patamar de grandes filósofos e mestres, mas foram justamente Tomás de Aquino e Scotus que elevaram o nível e a fama daquela universidade. As personalidades humanas normalmente se enchem mais de sabedoria e ciência não em espaços e lugares de algazarra e publicidade, mas no recôndito silêncio da própria cela ou casa. Os exemplos são inúmeros para assegurar que nem sempre as universidades são lugares de formação e geração de 'intelectuais' e ilustres escritores.
Olavo discorria com desenvoltura e segurança sobre quase todas as áreas do conhecimento humano. Abordava temas, prolixos ou não, relacionados à literatura, à ética, à filosofia, à religião, às ciências em geral, à história, à teologia, ao cinema, às artes e à estética, à política, à economia, à psicologia, aos problemas relacionados à ordem mundial, a autores vivos ou mortos do cenário contemporâneo, etc...
Nem mesmo em grandes autores da história da filosofia como Fraile, Reale, Copleston, Abbagnano, Urdanoz, E. Brehier, Gilson e outros, encontrei tanta lucidez e síntese compreensiva para entender o pensamento dos filósofos mais representativos de cada período quanto encontrei nas preleções apresentadas por Olavo em sua História Essencial da Filosofia e em outros seus textos relacionados a ela. Olavo também esmiuçou, sobretudo dos modernos e contemporâneos, um quadro de contradições e enganos que muitas das doutrinas daqueles autores contêm. Ousou, sem medo, denunciar vigarices e charlatanices de pensadores e/ou filósofos como R. Descartes, Lutero, Hobbes, Maquiavel, Rousseau, Kant, Hegel, Darwin, Newton, Marx, F. Engels, Freud, Nieztsche, Augusto Comte, Antônio Gramsci, M. Foucault, Heidegger, os membros da escola de Frankfurt (Lukács, Marcuse, Horkheimer, Adorno, Habermas, E. Fromm), Wittgesntein, Derrida, Deleuze, Sartre, Noam Chomsky, Richard Dawkins e muitos outros. Na atualidade, tornou-se o maior estudioso e intérprete do marxismo, pois dedicou particularmente parte de sua vida para ler e analisar a obra completa de Marx, de Lenin e de todos os seus principais asseclas.
Entretanto, sua maior, mais contundente e mais impactante provocação, entre nós, foi a denúncia pública do estado medíocre e apodrecido com que a vida intelectual brasileira se encontra tanto no interior das universidades quanto nas fontes editoriais e nos seminários de formação teológica e filosófica de muitas de nossas instituições eclesiais. Não sabíamos ou não tínhamos noção do quadro doloroso em que vivíamos em nossa vida cultural e formativa. Seu foguete demolidor dirigiu-se em primeiro lugar à turma representada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Basta, para se ter uma ideia, conferir a polêmica com os editores da revista 'Ciência Hoje' no livro 'Aristóteles em Nova Perspectiva'. Sua denúncia nos mostrou que o ensino da filosofia e de outras áreas do saber está integralmente preso ao ditame político ideológico esquerdista presente e atuante em quase todas as faculdades 'humanistas' do Brasil, especialmente da USP (cf. Jardim das Aflições), da PUC de SP e do RJ (leia-se O Imbecil Coletivo I e II). A mesma denúncia mostrou quão envergado e deprimente está o quadro de nossas universidades, de nossas escolas, de nossos meios editoriais, de nossos jornais e meios de comunicação, quase totalmente contaminados de marxismo e, sobretudo, de desonestidades intelectuais. Nem mesmo a teologia ficou livre desse imbróglio. Impregnada de 'libertação', penetrou a alma de nossos estudantes, futuros prelados e pastores. Segundo ele, essa teologia, com raízes no Vaticano II, tornou-se prisioneira da mesma vertente. Exemplos são os mais conhecidos teólogos brasileiros desse período: Leonardo Boff e Frei Betto. Por muito tempo foram inquestionados, mas Olavo os desqualificou sob o ponto de vista intelectual e reafirmou sua tese de que o estrago causado por essa teologia para a Igreja ainda não foi avaliado nem suficientemente medido.
Em razão de sua atividade como escritor e professor, pudemos, por meio do seu estímulo, ter acesso a obras antes sequer mencionadas nos meios editoriais e universitários. Temos hoje a chance de ler autores como Eric Voegelin, Mortimer Adler, Russel Kirk, Roger Scruton, Leopol Szondi, Nortrop Frye, Bernanos, Newman, I. Conrad, Victor Frankl, Andrew Lobaczewski, René Girard, Thomas Sowell, Xavier Zubiri, A. D. Sertillanges, Chesterton, Theodore Dalrymple, Louis Lavelle, B. Lonergan, Mário Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux, Vicente Ferreira dos Santos, Ângelo Monteiro, Meira Penna, Gustavo Corção, Leo Strauss e muitíssimos outros. Em seus cursos, Olavo chamou-nos a atenção para o valor atualizado da filosofia encontrada nas obras de Aristóteles, Platão, Agostinho, Tomás de Aquino, S. Boaventura, Duns Scotus, Husserl, Leibniz, Schelling (e outros muitos), dos grandes autores da literatura e historiadores (como Walter Scott), escritores contemporâneos e modernos, sejam eles do Brasil ou do mundo. Nosso país estava fechado à vastíssima obra de valiosos escritores simplesmente desconsiderados porque não eram, nem são de esquerda.
Segundo Olavo, o pensamento brasileiro e mundial contaminou-se do que Julien Benda designou 'traição', isto é, de emoção política que penetrou a mente de nossos intelectuais e deu vazão ao 'leimotiv' estampado na filosofia de Marx: 'o mundo não é para ser conhecido e contemplado, mas, antes, para ser transformado'. Assim, o terreno das ciências deixou de ser laboratório de pesquisas e de conhecimentos para se tornar um campo de batalha política. Nossa vida educacional foi engolida pela ansiedade primária de 'transformação' do mundo social, político, cultural, econômico e religioso. Estamos, pois, encharcados de 'anseios revolucionários'. Por causa disso, segundo Olavo, não há mais, entre nós, possibilidades de debates intelectuais honestos e científicos já que as paixões embotaram e distorceram nossa razoável racionalidade, terminando por prevalecer sobre a objetividade dos fatos e resultados. As discussões ligadas à política estreitamente ligada à sua militância, se locupletaram e substituíram-se à busca honesta, livre e amorosa pelo saber. Estamos entre os últimos lugares do mundo nos rankings educacionais. Tal é a tragédia que se abateu sobre a educação brasileira, sobre nossas universidades, sobre nosso mundo político, religioso e intelectual. Para servir de exemplo, foi recente a observação de um professor que avaliou o trabalho de conclusão de curso (feito a partir das obras de Olavo de Carvalho) de um estudante de filosofia: sua pesquisa não deveria ter sido feita sobre esse autor porque o mesmo não pertence ao quadro dos professores da academia filosófica universitária vigente. Ora, o argumento é fajuto, rasteiro e desonesto. Com efeito, se fosse correto, deveríamos excluir filósofos que não foram professores universitários, entre eles, K. Marx, Engels, Rousseau, Saramago, Gabriel Marcel, Kierkegaard.... e muitos outros. Como se conclui, prevalece ainda aqui e alhures a militância sobre a lógica, a verdade e a racionalidade.
Se o conteúdo central do trabalho de Olavo é a afirmação da unidade do conhecimento na unidade da consciência humana, resulta que esse princípio unitário essencial, é a condição sem a qual seríamos ou estaríamos desintegrados de nós mesmos e do mundo em que habitamos. A desintegração de nosso ser, portanto, começa na ausência da verdadeira percepção de nosso eu e da realidade na qual ele está inserido. Em outras palavras, toda vez que elaborarmos conhecimentos, doutrinas ou ideias nas quais nós mesmos não estivermos dentro delas, significa então que nos colocamos fora da própria doutrina que geramos e, dessa forma, instauramos em nossa atividade intelectual aquilo que Olavo designou 'paralaxe cognitiva', isto é, um conhecimento ou filosofia ficcional que conduz o próprio pensador que a produz (com seus discípulos, por consequência), à esquizofrenia de si mesmo, à loucura, à estupidez, à psicopatia. O que pode salvar nossas mentes das loucas ficções é sempre o esforço honesto e sincero de retorno à observação do mundo real das coisas e do nosso eu real. A nossa inteligência é que se alimenta do ser e não o inverso. Todos os idealismos são ficcionais e terminam por levar seus condutores e protagonistas a tentativas de forçosa e violenta implementação dos mesmos, na vida das pessoas. As experiências mostram que tais idealismos conduziram seus agentes e vítimas a experiências tristes, terríveis e chocantes que os totalitarismos históricos do último século testemunharam. Como disse Eric Voegelin, o 'iletramento espiritual' das elites intelectuais do mundo moderno e contemporâneo engendrou e legitimou o advento de psicopatas que, alçados a algum poder, foram capazes de, sem escrúpulos e remorsos morais, matar e ferir aqueles que bem quisessem. O homem que eliminar Deus da sua existência terminará por colocar-se no seu lugar e agirá como se divino fosse.
A despeito de todas as opiniões divergentes quero expressar minha gratidão pelas páginas que Olavo escreveu e pela intrepidez com que levou adiante a defesa de valores e princípios nutrientes daquelas almas que desejam crescer e viver na retidão, na sabedoria, na verdade. Muitos brasileiros encontraram em Olavo o alimento intelectual que as universidades não ofereciam. Ele os nutriu e os ajudou a viver melhor. Vinculada à grande tradição metafísica de Aristóteles, de Tomás de Aquino e às fontes judaico-cristãs, a filosofia de Olavo de Carvalho guarda pilares da sabedoria que já fora cultivada e buscada pelos gregos, mas que foi encontrada na grande herança cristã. Seus textos e preleções contêm aqueles valores e princípios que sustentaram as nobres e grandes civilizações. Nesse sentido colaborou muito para o bem do nosso Brasil e do mundo. O Brasil não é só futebol, carnaval, samba ou outra marca. Agora, sobretudo, é também Olavo Luiz Pimentel de Carvalho. Dele nos orgulhamos.
O grande africano Agostinho iniciou suas 'Confissões' com a célebre frase referindo-se a Deus: "Fecisti nos ad te e inquietum est cor nostrum, donec requiescat in te". Traduzida significa "Fizeste-nos para ti e inquieto está nosso coração enquanto não descansar em Ti". A afirmação de Agostinho é que Deus não nos fez para o abismo intragável e niilista, mas para estarmos com Ele. Nossa origem será, portanto, também nosso destino. Carregamos em nossa alma a fonte de nossa origem, por isso sabemos qual será nosso destino. Olavo tinha consciência de sua origem e sabia do seu destino. Em recente entrevista disse não temer a morte. Obrigado Olavo, pela confiança que nos transmitiu e pelo bem que nos fez. Que o Cristo Ressuscitado o tenha para sempre na sua companhia.
Santa Maria, 10/02/2022.
* O autor é professor de Filosofia na UNIFRA.
Dra. Débora Balzan
Após dezesseis anos de atuação em Promotoria de Justiça de Execução Penal em Porto Alegre, onde testemunhei toda a sorte de benevolência com criminosos por parte da legislação leniente e ativismos mais diversos, no início de janeiro deste ano assumi como promotora de justiça titular com atuação no juizado do torcedor e grandes eventos de Porto Alegre. Já desde outubro de 2021, vinha atuando como substituta em jogos de futebol com público presente. Sem precisar, mas no primeiro ou segundo deles, na partida entre o Internacional e o Corinthians, no Beira-Rio, já enfrentei o que penso ser o calcanhar de Aquiles: a violência associal que pode estar presente nas torcidas organizadas. Inexperiente na matéria, mas não na área criminal, os envolvidos não me foram estranhos ao que eu estava acostumada. Sem saber sequer o “modelo” jurídico de um pedido de suspensão de torcida organizada, mas com muita atenção aos fatos, imediatamente fiz pedido em audiência dentro do estádio, de suspensão cautelar de duas torcidas envolvidas, que foi acolhido pelo juiz. Tudo ocorreu há alguma distância do estádio, quando as torcidas passavam próximo ao shopping Praia de Belas.
Fiz essa narrativa porque agora instada por alguma demanda que chegou à imprensa do Ministério Público para que eu me manifeste sobre a liberação de bebidas alcoólicas dentro dos estádios quando das partidas de futebol.
O óbvio precisa ser dito: não sou médica ou legisladora, sou promotora de justiça com 26 anos de atuação em promotorias criminais do estado e em Porto Alegre, ou seja, com forte atenção na busca de punição efetiva já que estamos num país onde há um desprezo pelos fatos concretos e onde há enorme discrepância entre crime e castigo. Não há proporcionalidade no tratamento vítima e criminoso, sem contar a mentira do encarceramento em massa (a propósito, a quem quer saber da verdade sobre o tema a leitura obrigatória é: O Mito do Encarceramento em Massa, do Promotor de Justiça, Dr. Bruno Carpes).
Nesse enfoque, no que concerne à venda de bebidas alcoólicas dentro dos estádios, ao que parece, o que se pretende é a segurança do torcedor. Pois bem, fique muito claro, de forma alguma desconheço os efeitos deletérios que o álcool pode causar.
Também existem discussões envolvendo constitucionalidade e o próprio Estatuto do Torcedor. Nesse ponto, parece que a proibição do estatuto é geral, pois não é explícito ao referir bebidas “alcoólicas”.
Sem abordar temas cientificamente já demonstrados como o alcoolismo tampouco as questões jurídicas envolvendo a liberação ou não, muito menos com relação ao preço praticado, a minha opinião será sobre o ponto segurança, a de que dentro dos estádios de futebol, o ambiente na imensa maioria das vezes é seguro, por conta do aparato de segurança e organização. Não sou contra a liberação da venda do álcool dentro dos estádios. Parece-me que o torcedor comum, que vai com amigos, esposa, filhos, não será quem colocará em risco os demais por ter acesso ao álcool. O pai de família e trabalhador quer apenas algumas poucas horas de diversão não se podendo presumir que vá se transformar ou puni-lo em nome de uma causa embora real, abstrata, pois não existem dados que comprovem que fatos graves deixaram de acontecer por conta da proibição, muito embora ocorrências de vulto menor e que eventualmente fazem parte do contexto podem decorrer. O meu exemplo do Colorado e Corinthians mostra isso. Penso estar potencialmente o perigo à segurança da maioria dos torcedores, pacata e famílias, em quem tem rivalidade clubística e com maior chance fazem parte de organizadas, e quem já vai para o evento com ânimo de confusão e pode embriagar-se até o portão de entrada, sendo a bebida apenas um potencializador ao seu intuito, e o fará sendo liberada ou não a venda dentro do estádio.
O tema é polêmico – a própria Brigada Militar já se manifestou contra a venda, colegas que me antecederam, o juiz, mas eu não sou contra. Pode ser algo que eu não tenha alcançado, mas não vi em lugar nenhum estudo sobre essa relação direta. O estudo que se tem é o abstrato e geral, sobre os freios inibitórios, por exemplo; no entanto, não há estudo ou dados sobre a relação concreta e direta da venda de álcool dentro dos estádios e o aumento da violência. O álcool é vendido fora, de fácil alcance a qualquer encrenqueiro. Ainda, consumir álcool, estar embriagado e provocar violência são três situações diferentes. De qualquer modo, não vou levantar nenhuma causa seja de que lado for porque não é o meu trabalho, e já tenho o suficiente. Mas registro meu posicionamento.
Muito pertinente ao tema e aos problemas que mais assolam os eventos de esportes coletivos e que causam paixão desmedida é a obra do Promotor de Justiça, Dr. Diego Pessi, Hooliganismo no Brasil – Violência e Disputa, um Estudo Criminológico, do qual transcrevo pequeno trecho da Apresentação, pelo também Promotor de Justiça, Dr. Leonardo Giardin de Souza, página 21:
“...Dentro desse contexto de escalada, a sanha dos mais ousados e violentos contagia os de personalidade fraca, e a crescente de belicosidade e agressividade torna o futebol em si mesmo mero pretexto para disputas de outra ordem e, paralelamente, vasto campo para o exercício do controle comportamental por parte do poder público compelido a tomar providências, controle que atinge todo contingente de torcedores em nome da tentativa muitas vezes vã de conter a minoria violenta (...) toda a sorte de controle - alguns eficazes, muitos imprestáveis para os objetivos propostos - são idealizados e postos em prática...”(grifei).
Esse artigo não faz apologia ao uso do álcool. Está patente isso, mas sempre é bom alertar os mais distraídos.
Adriano Marreiros
Release the Krakens
Parafraseando
Fúria de Titãs.
Atrasei a crônica. Passei o dia tentando corrigindo o token. Não o Tolkien: esse não tem o que ser corrigido: a luta dele é contra o mal! Um tal de token que permite que eu use “mais um programa da séria série” dedique o dia inteiro ao desencarceramento em massa ou, lembrando Fúria de Titãs: Release the Kraken. E num tempo em que há Krakens demais e Perseus de menos... Muitas Andrômedas morrerão sem socorro...
Talvez eu esteja errado: é claro que isso é sempre possível e até provável... Mas, quando vemos que se está tentando criar um modelo rígido e ...light de fixação de penas para vincular juízes e se centraliza o controle de toda a execução penal do país em quem acredita em soltar criminosos como a política de combate ao crime: é mais provável que, ao menos desta vez, eu tenha acertado...
É melhor que seja uma daquelas crônicas bem curtas. Já falei mais que devia e sobre temas geradores de censura: crítica ao “garantismo” penal, descrença no dogma do “encarceramento em massa”, opinião conservadora e temas da Cultura Ocidental... Estou brincando com um Kraken e sem contar com a cabeça da Medusa para petrificá-lo...
Vou botar a barba de molho... já começaram a invadir igrejas: se fazem isso com a Casa do Senhor, o que não farão com a choupana deste pobre pecador... Encerro aqui, invocando a Proteção de Deus... (da tua casa não há de se acercar nenhum flagelo – Salmo 91)
“Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal nos ares”. Efésios 6:12
[1] Sim: no presente. Ele está vivo em sua obra.
Crux Sacra Sit Mihi Lux / Non Draco Sit Mihi Dux
Vade Retro Satana / Nunquam Suade Mihi Vana
Sunt Mala Quae Libas / Ipse Venena Bibas
* Publicado originalmente no excelente portal Tribuna Diária e enviado ao site pelo autor.
Roberto Motta
Carinho inesperado de filho. Dinheiro esquecido na roupa. Cheiro de comida antes de abrir a porta de casa. Sono que vem quando se precisa. Uma solução que surge de repente. Alguém elogiando você, sem saber que você escuta. Alguém elogiando seu filho. A febre que baixa. Um guichê sem fila. Vaga na porta. Um voo tranquilo. Cigarras. O vento do mar. O mar.
Quando o avião pousa. Quando o pai chega. Quando a dor passa.
Quando rola um beijo. Quando assinam o contrato. Quando o abraço aperta.
Quando o amigo se cura. Quando a foto sai boa. Quando o sono vem.
Quando a mesa é posta para o almoço de família no domingo.
Quando o depósito entra. Quando dá praia. Quando alguém liga.
Quando o livro é bom. Quando sobra grana.
Quando o neném ri. Quando falam o seu nome. Quando a poltrona é na janela.
Quando chega o outono.
Quando o médico diz: “Foi só o susto”.
Quando o sol se põe no mar.
Quando o pão está quentinho. Quando é música italiana. Quando a mulher passa a mão nos cabelos.
Quando você achava que era tarde, mas descobre que ainda é cedo, muito cedo.
Fiquem em paz.
* Publicado originalmente na página do autor no Facebook
Academy of Ideas
(Tradução e adaptação de Aramis de Barros)
Falando sobre obediência e o despertar do autoritarismo, o psicólogo americano Rollo May, escreveu em 1953 (Man's Search for Himself):
"O autoritarismo, seja na religião, na ciência e na política, tem se tornado crescentemente aceito não porque a maior parte das pessoas creem nele abertamente, mas porque elas se sentem individualmente ansiosas e enfraquecidas. Assim, o que mais podem fazer... senão seguir o líder político das massas ... ou a autoridade nos costumes, na opinião pública e nas expectativas sociais?"
A existência de políticos psicologicamente perturbados e sedentos de poder que anseiam por controle total não é o que torna a nossa situação hoje em dia particularmente precária, pois tais indivíduos sempre existiram na história. Antes, nossos problemas repousam sobre o fato de que muito poucas pessoas demonstram a virtude que pode mudar o jogo na direção da liberdade: a virtude da coragem.
Soljenitzen alertou (A World Split Apart), em 1978:
"No Ocidente, o declínio da coragem talvez seja o aspecto mais surpreendente que o observador de fora nota nestes dias... Pode-se ressaltar que, desde os tempos antigos, o declínio da coragem é considerado o [elemento que denota o] começo do fim..."
A “hiperconformidade” e a obediência cega infectaram o Ocidente e, neste processo, eliminaram a cultura da coragem. A covardia disseminada em larga escala está permitindo a ascensão do autoritarismo. O renascimento da coragem é o antídoto para a nossa difícil situação política.
A conformidade social patológica que afeta o Ocidente vem de muitas gerações e é o resultado de uma confluência de fatores. É motivada por um sistema de valores no qual a validação social exerce uma posição de proeminência, e é impulsionada pelo uso das mídias sociais e pelo fato de que o sucesso nessas plataformas é obtido pela sinalização de virtudes e pela conformidade ao sabor moral do momento. É também o produto de um sistema educacional que deifica o ideal democrático e promove os direitos da coletividade em detrimento dos direitos individuais.
Estes fatores, associados a outros, produziram uma sociedade "hiperconformista". Rollo May explica (Man's Search for Himself):
"O oposto da coragem ... particularmente em nossa geração, é a conformidade autômata".
Um dos modos pelos quais o homem ocidental manifesta a conformidade é por meio da obediência cega e da necessidade patológica de seguir fielmente as regras [estatais]. Muitas pessoas creem que ser um bom cidadão significa ser alguém conformado às regras e obediente àqueles em posição de poder e aos lacaios da grande mídia e do showbiz.
Ao agir em obediência cega, o “hiperconformista” falha em fazer a devida distinção entre moralidade e legalidade, permanecendo assim voluntariamente ignorante ao fato de que as regras de Estado podem eventualmente ser imorais e movidas pela corrupção, preparando, assim, o caminho para a ruína do indivíduo e da sociedade.
Rollo explica:
"Nosso problema particular nesses dias ... é a esmagadora tendência à conformidade ... nos tempos atuais, a ética tende a ser cada vez mais confundida com a obediência. O indivíduo é considerado "bom" na medida em que obedece aos ditames sociais ... ou seja, quanto mais cegamente ele obedece, melhor ele é... Mas, o que realmente há de ético na obediência? Se o objetivo de alguém é apenas obedecer, poder-se-ia treinar um cão para cumprir perfeitamente as exigências..."
Ver pessoas que exercem juízo independente, responsabilidade própria e autodependência, perturba a crença do “hiperconformista” no valor da obediência cega, ameaçando assim o seu próprio senso moral.
Não é o caso do hiperconformista obedecer cegamente [aos ditames estatais] enquanto permite que os outros exerçam a sua liberdade de escolha. Ao contrário, como explica Stanley Feldman (Enforcing Social Conformity: A Theory of Authoritarianism):
"... aqueles que valorizam a conformidade social ... [geralmente] apoiam o Estado quando este deseja aumentar o controle sobre o comportamento social e punir a não conformidade ... valorizar a conformidade social aumenta a motivação por restrições de comportamento ... o desejo por liberdade social torna-se, então, subserviente à imposição de normas e regras sociais. Destarte, grupos tornar-se-ão alvo de repressão posto que desafiam a conformidade social".
Quando a maioria advoga pela imposição estatal de uma conformidade social, a sociedade se coloca numa posição que o psicólogo Ervin Staub chama de "Continuum de Destruição". Quando o Estado usa de força e coerção para punir a minoria não conformista, a maioria [hiperconformista] justifica seu apoio às tais medidas autoritárias por meio da demonização dos não conformistas, levando assim à medidas governamentais ainda mais severas.
Ervin Staub (Psychology of Good and Evil) explica:
"Uma consequência psicológica do dano [causado aos outros] é a depreciação das vítimas ... as pessoas tendem a presumir que as vítimas mereceram o sofrimento que tiveram, seja por suas ações ou por seu caráter."
Em vários países ao longo do séc XX, tais como União Soviética, Turquia, Alemanha, Camboja e China, as medidas [autoritárias] de Estado, tais como o banimento de grupos minoritários de restaurantes, bares, cafés e outros espaços públicos, imposição de toques de recolher, perda do emprego, imposição de multas e restrição da liberdade de movimento e reunião, funcionaram como os primeiros passos do "continuum de destruição" que terminou na criação de bodes expiatórios, encarceramento em larga escala e extermínio de massa.
Staub explica o mecanismo psicológico que produz o "Continuum de Destruição" (Psychology of Good and Evil):
"Como o comportamento destrutivo torna-se norma [moral e social]? Causar dano a uma boa pessoa ou testemunhar tal coisa passivamente é inconsistente com a consciência de uma responsabilidade [moral] pelo bem-estar dos outros e a crença em um mundo justo. Essa inconsistência nos incomoda. Minimizamos tal incômodo reduzindo a nossa preocupação com o bem-estar dos outros que danamos ou daqueles que permitimos que sofram. Nós os desvalorizamos de modo a justificar seus sofrimentos em função de sua [suposta] natureza maligna ou por [nossos supostos] ideais excelsos. A mudança no olhar sobre as vítimas muda a atitude para com o seu sofrimento..."
Para contrapor o "continuum de destruição" que é fruto de muita conformação e força estatal, mais pessoas precisam agir com coragem moral. Coragem moral implica o desejo de enfrentar riscos por desafiar ordens imorais, rejeitar o controle de um Estado controlador e posicionar-se contra o desaparecimento de valores ligados à verdade, liberdade e a justiça.
Rushworth Kidder explica (Moral Courage):
"Onde não há perigo, não há coragem... Qualquer um pode ‘suportar’ a segurança e o bem-estar. Os verdadeiros desafios... aparecem diante do perigo... Assim, é com coragem moral que o perigo é enfrentado por amor a uma entrega total à consciência, aos princípios e aos valores fundamentais."
Alguns atos de coragem moral são acompanhados de riscos mínimos, tais como, ser ridicularizado, insultado ou ostracizado. Rollo explica (Ibdem):
"O marco da coragem em nossa era de conformidade é a capacidade de posicionar em prol de suas convicções".
Eventualmente, os atos de coragem moral são acompanhados de riscos mais graves, incluindo a perda de emprego, penalidades físicas ou financeiras, encarceramento e, em alguns casos, até mesmo a morte.
Rushworth Kidder [A1] afirma:
"Dentre todos os dilemas agonizantes que a humanidade enfrenta, poucos são mais dolorosos que a escolha entre o que é certo para o mundo e o que é certo para você e sua família".
Carl Jung chama aqueles que enfrentam grandes perigos para desafiar a tirania de "os verdadeiros líderes da humanidade".
É necessário entender que, quando alguém não se posiciona em favor da liberdade de outros, não pode esperar que os outros se posicionem pela sua própria. E, quando ninguém faz nada a esse respeito, todos estão condenados [à perda de suas liberdades].
A não ser que mais pessoas reúnam coragem moral para renunciar à conformidade em favor da luta pela liberdade, pelo que é certo e, em último caso, para dar a sua parcela de contribuição ao combate contra a tirania, a sociedade Ocidental continuará rumando em direção àquilo que Ayn Rand chamou de "O Estágio da Inversão Final".
Rand avisa (Capitalism: The Unknown Ideal):
"Estamos nos aproximando rapidamente do estágio de inversão final, o estágio no qual o Estado estará livre para fazer o que bem entender e no qual os cidadãos só poderão agir por meio da concessão [estatal]; este é o estágio dos períodos mais sombrios da história humana, o estágio do governo pela força bruta."
Dagoberto Lima Godoy
O que está acontecendo conosco, os habitantes da Mãe-Terra?
Pessoas aturdidas pelos vaivéns dos protocolos impostos pelas autoridades, as oscilantes orientações da Organização Mundial da Saúde e as opiniões contraditórias nas redes sociais, tudo amplificado pela mídia eufórica: usa e não usa (máscaras), fica e não fica (em casa), fecha e abre (o comércio); faz e não faz (tratamento precoce); proíbe e não proíbe (festas, espetáculos, formaturas) ... Quando parecia que a coisa estava melhorando, veio a nova polêmica da exigência do “passaporte de vacinação”, levando a protestos de multidões e até greves de caminhoneiros.
Com tamanha confusão somada ao ambiente de terror realimentado constantemente pelos meios de comunicação e pela politização da pandemia, além de suspeitas de interesses ocultos por trás da desgraça toda, não é de estranhar o importante aumento registrado nos distúrbios de comportamento e neuroses, em geral. E isso já seria outro motivo para a preocupação de todo mundo.
Mas, e se não fosse só isso? E se houvesse mais que uma pandemia como tantas outras que ocorreram na história da humanidade? Fique calmo e acompanhe meu raciocínio.
Você de certo sabe bem da técnica de “lavagem cerebral” utilizada para obter confissões e até conversões dos inimigos de ditaduras ou, segundo alguns, por certas seitas religiosas ou místicas para obter conversões e curas milagrosas. Pois bem, o mesmo famoso Ivan Pavlov que descobriu os reflexos condicionados utilizados na “lavagem”, desvendou também os efeitos da “estimulação incoerente”: a mudança de comportamento não se deveria ao conteúdo político ou religioso da doutrinação, mas sim ao efeito acumulado de estimulações contraditórias, aplicadas com fluxo cuidadosamente planejado.
Depois de Pavlov, outros pesquisadores foram adiante até concluírem que, para reduzir um homem a uma obediência canina, não seriam necessários discursos gritados (como os de Hitler ou Mussolini) ou quilométricos (como os de Fidel), nem de torturas físicas ou mentais. Bastaria regular o fluxo de informações contraditórias para levar o sujeito à mutação súbita de suas convicções, especialmente se as informações fossem ministradas de forma silenciosa e discreta, de preferência, subliminarmente -- a vítima nem perceberia. E, ainda mais, os resultados seriam mais rápidos se a técnica fosse aplicada coletivamente, em situações em que as pessoas sentissem cortadas as suas raízes sociais e afetivas!
Então, já percebeu a relação (que estou sugerindo) com o que está acontecendo, no mundo todo, desde o surgimento da Covid-19?
* O autor é engenheiro civil, mestre em Direito, empresário e escritor.