• Dartagnan da Silva Zanela
  • 13 Dezembro 2023



Dartagnan da Silva Zanela 
         O poeta Manoel de Barros dizia que ela gostava, mesmo, das coisas úteis quando elas se tornavam imprestáveis. Claro, ele não disse isso nesses termos xucros não; o poeta das "pré-coisas" confessou-nos esse gosto, daquele jeito que apenas ele sabia fazer.

No caso, foi assim: "prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores".

Há outras passagens na obra do poeta em que ele nos chama a atenção para a belezura, para a importância singular daquilo que não tem serventia alguma neste mundo escravizado pela batuta das funcionalidades mil, mas, confesso: essa é uma das minhas prediletas.

Bem, independente de todas as sutilezas captadas pelo poeta, e de todos os xucrismos rasurados pelo escrevinhador, verdade seja dita: quando a utilidade é elevada à condição de suprema categoria, tomando o lugar da beleza, da bondade e da verdade, a vida, inevitavelmente, torna-se uma estrovenga, uma tranqueira maquinal sem igual, porque tudo aquilo que preenche a vida de sentido e plenitude não pode ser reduzido para caber direitinho na caixinha das utilidades sem valia alguma.

Seguindo por essa trilha, penso que o filósofo Miguel de Unamuno colocou o dedo na ferida quando, de forma provocante, nos chama a atenção para os perigos que pairam sobre os corações que procuram colocar as utilidades vazias no centro da vida.

Dizia ele, no comecinho do século XX, que ao ver um bondinho passar, sabia muito bem qual era a sua serventia: levá-lo até a casa da sua mulher amada. Quanto a sua amada, ele sabia que ela não tinha utilidade alguma. E não tinha porque ele a amava com toda intensidade da sua alma. Se tivesse alguma utilidade, não seria sua musa, não seria a senhora do seu coração, mas apenas um brinquedinho que ele usaria, desumanizando-a, quando bem deseja-se, para obter algum prazer egoísta eventual.

E vejam como são as coisas: quantas e quantas vezes nós desprezamos algo, ou alguém, por considerarmos que essa informação, ou aquela pessoa, não teriam nenhuma serventia aparente em nossa porca vida. Infelizmente, tal atitude, é mais frequente do que gostaríamos de admitir e, por isso, não é à toa, nem por acaso, que a nossa capacidade de discernimento vem, dia após dia, ficando cada vez mais embotada.

Quando a categoria da utilidade toma o lugar da verdade, da bondade e da beleza, a poesia e a literatura tornam-se instrumentos políticos de qualidade duvidosa, a filosofia e as tradições religiosas viram meras ferramentas ideológicas de manipulação, e o amor acaba sendo tão somente um palavreado meloso e mal intencionado, usado por almas sebosas para servir-se maliciosamente do próximo.

Tendo isso em vista, o filósofo Byung-Chul Han nos lembra que uma sociedade obcecada pela utilidade das coisas, e das pessoas, é incapaz de compreender o que significa uma vida vivida com plenitude e intensidade; por isso, não nos impressiona nem um pouco ver como a sensação de cansaço e tédio encontra-se estampada nos olhos de muitos, que seguem suas vidas de forma sorumbática e num passo claudicante.

Dito de outro modo, de tanto reduzirmos a vida a categoria da serventia, acabamos por perder o real contato com as pessoas e terminamos, de quebra, por perder a proximidade conosco mesmo, com nossa humanidade.

É engraçado – na verdade não é – vermos as pessoas atarantadas, preocupadas em não perder seu precioso tempo, ao mesmo tempo que matam, sem dó, todo o tempo livre que dispõem dedicando-se a "utilíssimas preocupações".

Ninguém tem tempo para brincar com uma criança porque todos nós estamos ocupados com algo supostamente importante. Poucos são aqueles que realmente param para ver um filme, sem ficar dando aquela olhadela marota, para verificar as últimas atualizações das nossas redes sociais. Raras são as pessoas que tem disposição para ver um pôr do sol, em silêncio, com a pessoa amada, com os filhos ou com os amigos, porque estamos todos muito ansiosos com tudo aquilo que não começamos e nem iremos terminar. E assim, bem desse jeitão, matamos nosso tempo e, de brinde, a nós mesmos, destruindo o que há de mais precioso na vida.

Aliás, há uma cena no último episódio da série "The Ranch" (se não me falha a memória), da Netflix, onde o patriarca da família, Beau Bennett, está com um álbum de fotografias nas mãos dizendo para o seu filho, Colt Bennett, que não havia uma única foto naquela álbum de família onde ele estivesse junto com eles. Em todas as ocasiões especiais da família ele estava resolvendo alguma coisa "importante". Tão importantes que ele não lembrava de nenhuma. E ele perdeu tudo o que era especial em sua vida por coisas que ele não sabia o que eram, mas que receberam dele uma atenção descabida.

Enfim, por essas e outras que "prefiro as máquinas que servem para não funcionar: quando cheias de areia de formiga e musgo – elas podem um dia milagrar de flores", porque vida vivida de forma maquinal pode ser muitas coisas, com mil e uma utilidades, mas nunca será uma existência digna de ser chamada de vida plenamente vivida.

*      O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Mestre em Ciências Sociais Aplicadas. Autor de "A Bacia de Pilatos", entre outros livros.

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 11 Dezembro 2023

 

Alex Pipkin, PhD
        Participei de programa de rádio em que uma das temáticas abordadas foi referente aos reflexos da vitória de Milei na Argentina.

Confesso que sou mais pessimista do que a grande parte dos liberais. Espero que Milei, com a efetiva implementação de reformas estruturantes, consiga fazer com que a mentalidade peronista - uma mistura de nacional-socialismo com fascismo - tenha, pelo menos, o início de seu fim.

No sonho peronista, o Estado é a fonte provedora pela qual todos tentam viver às custas de todos os outros.

Os inimigos de Milei, são poderosos; todos aqueles que ululam contra o “famigerado” sistema capitalista.

Primeiro devo esclarecer que o “capitalismo” que vemos, por exemplo, na Argentina e no Brasil, está longe de ser, genuinamente, capitalismo, sistema econômico que visa ao lucro, e que se suporta na propriedade privada e nos mercados livres. É o sistema econômico onde ocorre a transformação econômica por meio do processo de destruição criativa, em que empreendedores criam novos produtos ou novas formas de produzir que florescem e suplantam o “antigo”, menos produtivo.

Para que haja incentivos para a geração de inovações, é condição “sine qua non” que os mercados sejam livres, a fim de prosperar a concorrência.

Qualquer sujeito com quantidade razoável de estudo e discernimento sabe que não há capitalismo sem mercados livres e sem a proteção e o estímulo à propriedade privada.

O que se vê na atualidade - e o que não se vê - é a existência de “empresas capitalistas”, porém, é o Estado grande que dita aos proprietários dos meios de produção, como esses devem utilizá-los.

Como se pode aludir ao capitalismo, quando o que mais se tem, pragmaticamente, são políticas econômicas intervencionistas, que regulam absurdamente, por exemplo, o que se pode comprar e/ou vender, a definição de políticas de preços, o estabelecimento de contratos entre empregadores e empregados? No Brasil, a segurança jurídica não só é lamentável, é vergonhosa.

O intervencionismo estatal é um dos maiores cânceres de países latino-americanos!

Por aí passam a “eleição” de empresas campeãs nacionais, subsídios sem fim, protecionismo comercial, incentivos a um sindicalismo retrógrado, e uma miríade de programas e regulamentos governamentais.

Inexiste liberdade econômica, tanto no Brasil quanto na Argentina, há ainda factualmente monopólios estatais - glorificados pelos mamadores da grande mãe Estado - e, sobretudo, a inexistência da virtude capitalista maior: a concorrência no mercado. Logicamente, é essa que força a adaptação e a melhoria empresarial.

É impressionante - e escandalosa - a retórica e a presença de planos e de estratégias governamentais grandiosas, que entregam mais legislação, e que vão de encontro ao empreendedorismo e a inovação.

Em mercados livres, a soberania do consumidor é quem julga quem deve ter sucesso ou quem deve fracassar nos mercados.

Milei terá um desafio hercúleo pela frente. Terá que baixar dos céus a taxa de inflação e privatizar estatais ineficientes. Mas terá que realizar muito mais do que isso. Precisará desregulamentar os mercados, reduzir impostos, e cortar e reduzir os gastos abissais do governo argentino.

Ele, objetivamente, necessitará dessocializar o país, e romper com o correspondente Estado regulatório, que impede que produtos e serviços sejam comercializados, e que impossibilita as inovações.

Milei demonstra clara ojeriza pelo Estado, prometendo tornar protagonistas os indivíduos e as empresas.

Tanto no país hermano, como aqui, os empreendedores são taxados tais quais sujeitos espertos e exploradores, “a la” Hobbes.

Milei terá pela frente a missão de inverter tal conotação, limitando o Estado argentino e, precisamente, transformando o empreendedor em um ser visionário, legítimo criador de riqueza.

 

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  • Sílvio Lopes
  • 10 Dezembro 2023

 

Sílvio Lopes

         Consultado por amigos e clientes sobre qual a melhor escolha econômica hoje, no Brasil, sou obrigado a concordar com o Nobel de Economia (1992), o estadunidense Gary Becker. Argumentou ele, num de seus notáveis trabalhos sobre Economia Comportamental: "Antes de agir, o criminoso avalia os custos e benefícios do crime. Quando os benefícios são altos e os custos baixos, os crimes são compensadores e crescem". E complementa: " Crime é uma escolha econômica e pessoal".

Perfeito! Nada mais claro e factual para definir o que hoje contemplamos em nosso Brasil! Reproduzimos, no presente, o pior de Sodoma e Gomorra dos tempos bíblicos, chafurdadas que foram na lama da podridão ética e moral de  ua classe dirigente (nossa atual) e, por isso, tendo sofrido a implacável destruição divina por fogo e enxofre. Que tristeza ver um país como o Brasil sendo devorado em suas vísceras e alma pelo emporcalhamento moral de suas instituições! Absorvemos o pior do passado e isso nos condena, inexoravelmente, ao mais degradado presente e funesto futuro.

Se lembrarmos da história, o grande pecado imputado à Babilônia é que a todas as nações deu a beber do vinho da ira da sua prostituição, perversão sexual e degradação moral. Essa taça de veneno que ela ofereceu ao mundo representa, hoje em dia, as falsas e diabólicas doutrinas que absorveu e que foram resultantes da união ilícita com os poderosos da terra (como ocorre presentemente).

Um país sob essas condições, que já abdicou de nos garantir o direito à vida (exceto aos criminosos) e está, tiranicamente, amordaçando nossas liberdades, de que jeito irá nos assegurar o legítimo sonho da busca da felicidade? Nem pensar. Que tragédia!

*        O autor, Sílvio Lopes, é jornalista, economista e palestrante sobre Economia Comportamental.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 10 Dezembro 2023

 

Gilberto Simões Pires         

UTOPIAS

Da mesma forma como é UTÓPICO o que propõe a canção IMAGINE, escrita e interpretada pelo consagrado músico John Lennon, a qual leva seus embevecidos apreciadores a IMAGINAR UM MUNDO DE PAZ, SEM FRONTEIRAS, SEM PAÍSES E SEM RELIGIÃO, além de considerar a vã possibilidade de que o foco da humanidade deveria estar em VIVER UMA VIDA DESAPEGADA DE BENS MATERIAIS, a tal da DEMOCRACIA que o -populista- presidente Lula prega, defende e propõe, só prospera na pobre IMAGINAÇÃO de seus apaixonados seguidores.

A INFALÍVEL FRASE DE ABRAHAM LINCOLN

Entretanto, como é absolutamente infalível e verdadeira a célebre frase atribuída a Abraham Lincoln : -É POSSÍVEL ENGANAR ALGUMAS PESSOAS TODO O TEMPO; IGUALMENTE É POSSÍVEL ENGANAR TODAS AS PESSOAS POR ALGUM TEMPO; MAS É IMPOSSÍVEL ENGANAR TODAS AS PESSOAS TODO O TEMPO-, a IMAGINAÇÃO -utópica- acaba cedendo o lugar para um claro e evidente sentimento de FRUSTRAÇÃO e/ou ENGANAÇÃO.

IPEC E DATAFOLHA

Pois, para comprovar o quanto a frase é infalível, duas novas pesquisas -IPEC e DATAFOLHA-, publicadas hoje na Gazeta do Povo, dão conta que UM TERÇO DOS BRASILEIROS DESAPROVA o terceiro governo do presidente Lula, com uma avaliação RUIM OU PÉSSIMA CRESCENTE -DESDE O INÍCIO DO ANO- (11 meses de gestão do petista). Na pesquisa IPEC, por exemplo, a AVALIAÇÃO RUIM OU PÉSSIMA SALTOU DE 24% EM MARÇO PARA 30% EM DEZEMBRO, enquanto que o DATAFOLHA  apurou uma oscilação de 29% para 30%.

DATAFOLHA ENTREGOU OS PONTOS?

Vale lembrar que dados apurados e publicados pelo DATAFOLHA, instituto que sempre vendeu a ideia da tal DEMOCRACIA IMAGINADA POR LULA E PELOS COMUNISTAS QUE O CERCAM, levou muita gente a desconfiar que suas pesquisas têm compromisso de agradar a esquerda. Pois, a considerar o que revela a recente pesquisa, até mesmo a DATAFOLHA se inseriu no final da frase de Lincoln, que diz, claramente, que é IMPOSSÍVEL ENGANAR TODAS AS PESSOAS TODO O TEMPO. 

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 07 Dezembro 2023


Dartagnan da Silva Zanela

        Uma das minhas músicas favoritas é "Stairway To Heaven" do Led Zeppelin. Gosto especialmente na interpretação que foi apresentada no Kennedy Center Honors, em 2012, onde os integrantes da banda foram homenageados. A canção foi executada por Ann e Nancy Wilson, juntamente com diversos músicos, uma orquestra e um magnífico coral. Robert Plant e os demais integrantes do Led Zeppelin assistiam a tudo e mal conseguiam segurar as lágrimas durante a apresentação. Se você não sabe do que estou falando, acesse o You Tube e confira.

Sim, eu sei, divaguei já no primeiro parágrafo. Me perdoem e sigamos em frente. O filósofo argentino José Ingenieros, em seu livro "As forças morais", nos adverte dizendo que todo aquele que fala, o tempo todo, a respeito dos nossos direitos, sem procurar, com a mesma insistência, nos recordar dos nossos deveres, está atraiçoado a justiça e maculando a nossa alma.

Detalhe: justiça não enquanto uma instituição formatada pela letra constitucionalmente moribunda, mas enquanto o que ela é: uma virtude cardinal, que está acima de todas as togas vaidosas e além das tribunas soberbas.

Ora, como todos nós sabemos, a referida virtude é tida como sendo a rainha de todas, enquanto a prudência é considerada como sendo a mãe. Dito de outro modo, não temos como agir com justiça se não procuramos considerar com a devida prudência o que intentamos fazer, como também é verdade dizer que não há prudência alguma se não temos como finalidade a conquista da coroa da justiça.

Aliás, é muito comum vermos pessoas acovardadas ocultando sua pusilanimidade sob o manto da prudência, quando o senso de justiça se faz ausente no coração dos indivíduos.

Também podemos dizer que não é incomum vermos pessoas disfarçando a sua inclinação para a tirania com a toga da justiça, quando a prudência é sufocada pelo desejo de impor uma visão de mundo que é considerada por alguns como sendo um trem superior a todas as virtudes.

Quando voltamos às nossas vistas para o mundo contemporâneo, infelizmente, vemos boleiras de pessoas indignadas, batendo no peito, dizendo a que suas famílias, a sociedade e toda a humanidade lhes são devedoras de algo. Não são poucas as pessoas que portam-se assim, dando seu urro de protesto aos quatro ventos, do alto dos telhados e, muitas vezes, nós somos uma dessas pessoas. Por isso mesmo, podemos perguntar, na sombra e no silêncio do nosso coração: afinal, o que nós fazemos por nossas famílias, por nossa comunidade, pela sociedade e, é claro, pela humanidade, para que tudo e todos estejam nos devendo tanto?

Se realmente formos justos, diante do tribunal da nossa consciência, de forma prudente, e com a devida medida, iremos constatar, em dois palitinhos, que tudo aquilo que consideramos um rugido audacioso, não passa de uma série de ecos vindos do esgoto da grande mídia, das fossas das redes sócias, dos círculos de fofoqueiros cívicos e das rodas dos futriqueiros militantes que ficam, noite e dia, reverberando toda ordem de remorsos e rancores em seus corações para que ecoem nos átrios e ventríloquos do nosso peito.

A respeito disso, nos lembra Gustavo Corção - em uma belíssima crônica publicada nos anos 60 - que, infelizmente, nós não paramos para refletir sobre a quantidade de bens que nos são regalados por pessoas que nós, diga-se de passagem, não fazemos a menor ideia de quem sejam e, principalmente, que não teríamos como agradecer pessoalmente e, muito menos, recompensá-las.

Enquanto Corção escrevia, sempre olhava para as prateleiras com seus livros, para sua escrivaninha com seus papéis, lápis, para tudo que estava ao seu redor, que lhe trazia conforto e permitia que ele pudesse trabalhar como artífice da palavra. Coisas que, obviamente, foram pagas por ele, mas mesmo assim o deixavam na condição de devedor diante do tamanho benefício que elas lhes propiciavam.

Se voltarmos nossos olhos para os móveis da nossa casa, para os eletrodomésticos, roupas, alimentos, água encanada, remédios, filmes, livros e tudo o mais que dispomos, perceberemos que todos esses bens, que tornam nossa vida mais leve, são produzidos por pessoas desconhecidas por nós.

Não apenas isso. Nós não sabemos praticamente nada a respeito da forma como essas coisaradas são produzidas, não sabemos nada a respeito de praticamente tudo aquilo que torna a nossa vida relativamente mais confortável.

Detalhe importante: ao constatarmos isso, não estamos dizendo que não há nada para ser melhorado no mundo e, por conseguinte, em nossas vidas. O que Corção está nos chamando a atenção é para o fato de que, muitas e muitas vezes, nós não somos melhor que a sociedade que criticamos e, bem provavelmente, não conseguiríamos dar um jeito nela com nossa presunçosa [e suposta] superioridade moral de pessoas "de bem", ou "do bem".

É mais ou menos isso que o filme "Luta pela Fé - A História do Padre Stu" (2022), dirigido por Rosalind Ross nos chama a atenção, para essa nossa soberba inconfessável. A referida película narra a vida de Stuart Long, um boxeador que abandonou o ringue para se tornar padre, que é interpretado por Mark Wahlberg. Cada cena do filme é um convite para uma reflexão profunda a respeito da gratidão e da sua relação estreita com a justiça e a prudência e, é claro,  não tem como não chorarmos um tantão e, por isso mesmo, é uma ótima oportunidade para revermos nossos conceitos, ou a falta deles.

Desculpem-me, mais uma vez, pela divagação. Voltemos ao ponto

Bem, e se não podemos fazer isso, retribuir a todos aqueles que somos devedores, podemos tentar ser generosos para com todos os outros, além da medida do nosso senso de gratidão.

Na verdade, é mais ou menos isso que o Leão XIII, em sua Encíclica RERUM NOVARUM nos convida a realizar, com base no princípio da subsidiariedade que, em resumidas contas, nos lembra que quem melhor pode resolver um problema é aquele que está mais próximo daqueles que sofrem com ele.

E vejam só como são as coisas. Quando alguém tem a petulância de nos lembrar que a gratidão deve ter uma base mais larga do que aquela que é proporcionada pela mera indignação ideologizada, mais do que depressa, ecoa nos átrios do nosso coração, uma voz dizendo que isso tudo não passa de alienação, ou algo similar.

Oxi! Mas há alienação maior que a ingratidão? Pois é, se o nosso senso de justiça está avacalhado e a nossa prudência servilmente acovardada, é mais do que natural que cheguemos apenas e unicamente a esse tipo de conclusão que, infelizmente, apenas nos distancia da escadaria que nos eleva aos céus e nos aproxima da larga estrada da perdição.

*         "O autor é professor, escrevinhador e bebedor de café. Mestre em Ciências Sociais Aplicadas. Autor de `A Bacia de Pilatos´, entre outros livros".

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  • Amauri Meireles
  • 06 Dezembro 2023

 

Amauri Meireles

 

        O narcotráfico e as narcomilícias, antes localizados em setores da cidade do Rio de Janeiro, proliferam em outras cidades fluminenses e irradiam-se para várias regiões brasileiras.

A angustiante sensação de insegurança, localmente e, de resto, em todo o país, transportada pela ilusão de isotopia, deteriora a qualidade de vida dos brasileiros.

Em razão de a sociedade clamar por providências efetivas, em Mar23, o Ministério da Justiça e Segurança Pública relançou o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – um fiasco proporcional ao eufemismo – que foi desativado pela presidente Dilma. O PRONASCI 2 – que acentua o disfemismo “violência estrutural da Polícia” – deve ir para o mesmo destino, ainda que, no morde e assopra, distribua bolsa-formação para policiais.

Em 02Out23 foi lançado o Programa de Enfrentamento a Organizações Criminosas – ENFOC – cujos pilares seriam a inteligência e a investigação.

Num primeiro momento, um certo alívio, que desaparece quando se observa que os eixos de suprimento (logístico e financeiro) dos criminosos não são os alvos prioritários. Por ora, não se tem informações sobre andamento desse programa.

Agora, o governo decretou, em 01 Nov, uma paliativa GLO, a ser realizada em alguns portos e certos aeroportos.

Uma decepção, um verdadeiro Parto da Montanha!

Para a extensão e a profundidade elevadas que o problema tomou, esperavase por um Plano Estratégico Nacional, que seria operacionalizado através integração de esforços, federais, estaduais e municipais, minimamente, dos segmentos fazendários, de inteligência, de TI e dos que exercem a polícia investigativa e a ostensiva, que poderia, inclusive, evidenciar a necessidade de um específico Sistema Nacional de Contenção do Crime Organizado, trabalhando no modelo Polícia 4.0.

A área de atuação seria no território brasileiro, daí porque não caberia decretação de GLO, que somente pode ser realizada em áreas restritas.

Lembre-se que os mecanismos de proteção, as Defesas, realizados por Forças Públicas Federais (FPF) e Estaduais (FPE), devem ser compatíveis com as variações da Ordem, as quais, numa escala crescente de conflito, confronto, violência generalizada e ameaça à soberania vão de Normalidade, Alteração, Perturbação, Grave Perturbação, Gravíssima Perturbação, Luta Interna até as Crises Internacionais Político Estratégicas (CIPE).

Nos três primeiros casos, o protagonismo é das FPE porque as ações são de Defesa Social, ou seja, as vulnerabilidades e as ameaças podem afetar o povo e/ou trechos do território. A Grave Perturbação da Ordem (GPO) caracteriza uma faixa cinzenta onde, de início, atuam as FPE. Esgotada a capacidade dessas e/ou tendo em vista o interesse nacional, evoluindo o quadro para Muito Grave Perturbação da Ordem (MGPO), o protagonismo na condução da Defesa passa a ser das FFAA. Isso é regra nas demais variações, tendo em vista o comprovado esgotamento da capacidade das polícias estaduais e/ou ficar evidente o interesse nacional.

Entende-se que o avançado grau de Desordem, decorrente do crescimento do crime organizado, caracteriza, hoje, o estágio de GPO, mas não o de MGPO, o que, por ora, não ensejaria o emprego das FFAA no combate ao crime organizado.

É que esse esgotamento ainda não está comprovado, o que permite depreender-se ter havido açodamento na decretação de GLO. A falha não está nas polícias estaduais, que não atuam em portos e aeroportos e nem na autoridade portuária e aeroviária, aquela através da relegada Guarda Portuária (que faz polícia ostensiva) e esta com os Guarda e Segurança (GSGS) da Aeronáutica.

O Ministério de Portos e Aeroportos foi criado em Jan23 e o atual ministro anunciou que está trabalhando um Plano Nacional de Segurança para Portos e Aeroportos. Ou seja, além de açodamento, atravessamento?

Ficam nítidos dois erros que comprometem todo o esforço de minimização e mitigação do crime organizado: o primeiro, a indefinição (ou incorreta estruturação) do problema, o que impede sua necessária e efetiva sistematização, fundamentalmente apoiando-se nas áreas da inteligência e da investigação; o segundo, um gravíssimo e genérico problema político-econômico continua sendo tratado como um específico problema policial.

Logo, a realização de “ações preventivas e repressivas” (como previsto na GLO) configura, tão somente, atuação na causalidade – vértice para onde fluem causas e refluem os efeitos da criminalidade.

Ora, isso é muito pouco! Não sendo priorizadas ações incisivas sobre as causas e sobre os efeitos, o que temos é um aumento no efetivo para encher o Tonel das Danaides.

Se o objetivo é conter a expansão da criminalidade e reduzi-la paulatinamente, aumentar o efetivo federal, pontual e temporariamente, para atuar, com mais intensidade, como polícia ostensiva, é absolutamente insuficiente para atingi-lo.

Enfim, uma questão estratégica, que exige esforços permanentes e contínuos, não pode ser conduzida com ações eventuais e intermitentes no nível operacional, apenas.

No oceano, em que se transformou a criminalidade organizada, montar um dispositivo para pescar piaba, chega a ser grotesco.

*O autor, Amauri Meireles, é Coronel Veterano da Polícia Militar de Minas Gerais. Foi Comandante da Região Metropolitana de BH.

**Reproduzido do jornal eletrônico Inconfidência, edição nº 326.

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