Alex Pipkin, PhD
Não foi uma manchete na “grande mídia” que me trouxe até esta conclusão. Foi a experiência própria. Foi o tempo. Foi o desgaste silencioso de quem descobre, na prática, que entre ter um direito e vê-lo reconhecido existe um abismo, e que esse abismo se chama sistema.
A justiça brasileira não é apenas lenta. Tornou-se faz tempo estruturalmente ineficiente, operacional e eticamente. Ineficiente na operação porque não entrega o que promete. Processos atravessam anos mesmo quando a jurisprudência já pacificou o tema. Devedores se escondem atrás de formalidades previsíveis. Cartas são enviadas para endereços onde ninguém jamais é encontrado. Cumpre-se o protocolo. Enterra-se o resultado.
Sabe-se o que precisa ser feito, mas faz-se o que protege o rito, os interesses internos e a zona de conforto de uma corporação que aprendeu, há muito tempo, a se defender de qualquer ameaça externa. Ineficiente eticamente porque uma instituição falha quando passa a proteger e acobertar sua própria ineficiência e, por vezes, até eventuais ilícitos, mais do que os direitos que deveria resguardar.
Justiça que não chega não está atrasada. Está sendo negada. O sistema se blinda em uma muralha de juridiquês, carimbos e liturgias que parecem existir menos para garantir direitos e mais para impedir que a realidade atravesse a porta dos tribunais.
Enquanto isso, mantém-se uma elite pública praticamente inalcançável. Têm-se salários extraordinários, estabilidade absoluta, ausência de métricas reais de desempenho e, pior, privilégios inimagináveis para qualquer cidadão que paga essa conta. Comparativamente a iniciativa privada, é assombroso. Além disso, na iniciativa privada, resultado é condição de sobrevivência. Ali, tornou-se um mero detalhe.
Grande parte do trabalho é carregada e empurrada para assessores, estagiários e estruturas paralelas que sustentam a engrenagem. E, não raramente, o conforto de quem deveria estar na linha de frente da atividade-fim.
O mais perturbador é que quase ninguém se surpreende mais. Do alto de uma retórica barroca, aqueles que deveriam prestar contas à sociedade repetem, sem constrangimento, que tudo “funciona perfeitamente”. Funciona para quem?
Há momentos em que certas declarações soam menos como convicção e mais como deboche. É como se bastasse afirmar a existência da justiça para que ela, por mágica, estivesse sendo praticada. Mas não se trata apenas de irritação cívica. Trata-se de algo ainda mais grave; normalizamos o absurdo. Aceitamos que a burocracia pese mais que o direito. Que o processo valha mais que a verdade. Que o tempo corroa aquilo que deveria ser protegido com urgência.
Uma sociedade não desmorona apenas quando suas leis falham. Ela começa a ruir quando seus cidadãos passam a esperar pouco, e a tolerar tudo. O que ameaça um país não é só a injustiça. É o costume com ela.
Chegou a hora de abandonar a resignação confortável e recuperar a exigência mais básica de uma sociedade que se pretende séria. É preciso reagir e exigir uma justiça que funcione, que responda e que respeite o cidadão. Respeito ao cidadão não é apenas uma exigência legal, é, antes de tudo, um dever moral.
Quando a legalidade se transforma em abrigo para o que fere o senso mais elementar de justiça, algo essencial já se rompeu. E, se o deboche alcança as estruturas que deveriam proteger o cidadão, o silêncio já não é prudência. Passa ser mesmo cumplicidade.
Dartagnan da Silva Zanela
O ditado popular afirma que, em terra de cego, quem tem um olho é rei; porém, há quem desconfie de que, em terra de cego, quem tem um olho pode ser tido na conta de maluco. Bem, diante das duas possibilidades, algo me diz que a segunda seja a mais razoável.
Compreender qualquer coisa com um mínimo de profundidade sempre nos traz uma sensação de satisfação, porque dissipa as brumas que até então turvavam o nosso entendimento a respeito de um determinado assunto; mas também, de lambuja, projeta sobre nós a impressão de que uma fatia significativa das pessoas irá nos olhar de soslaio, como se fôssemos uma figura esquisita, para dizer o mínimo. E está tudo bem.
E está tudo bem porque conhecer não é repetir aquilo que nós e nossos semelhantes já sabemos. Aliás, fazer isso é apenas reforçar o senso comum que cultivamos e partilhamos com os demais. Conhecer é expor-se ao risco de equivocar-se e, equivocando-se, sentir-se obrigado a corrigir-se ou ser corrigido; e, como todos nós muito bem sabemos, esse é um trem danado de desconfortável.
Todo aquele que se esforçou para aprender algo sabe muito bem quantas e quantas vezes nós temos que, humildemente, repetir um exercício; quantas e quantas vezes precisamos reler um texto para realmente compreender algo com um mínimo de maestria. Como dizem os antigos, a repetição é a mãe do aprendizado. Ou, dito de outro modo: a insistência é a mãe dos bons hábitos, a perseverança é o pai da autodisciplina e, juntas, elas forjam o nosso conhecimento e, consequentemente, formam o nosso ser; pois, como os escolásticos nos ensinam, quanto mais eu sei, mais eu sou.
Tendo isso em vista, podemos dizer que a substancialidade do conhecimento que construímos em nosso ser é a medida do nosso caráter — ou da falta dele. Não tem lesco-lesco.
Detalhe importante: quando falamos que o nosso conhecimento é a medida do nosso ser, não estou me referindo à quantidade de títulos e diplomas que ostentamos; refiro-me, sim, àquilo que se encontra integrado à nossa personalidade e que transparece em nosso modo de agir.
Sim, eu sei — todos sabemos — o quanto nós, brasileiros, damos importância para os títulos, diplomas e canudos e, ao mesmo tempo, ignoramos soberbamente o conhecimento. Essa idolatria bacharelesca que impera nestas terras brasílicas, desde a aurora de nossa triste nação, fala mais a respeito da alma que anima a nossa cultura — ou a precariedade dela — do que qualquer outra métrica atualmente utilizada para avaliar os resultados obtidos pelo nosso sistema educacional.
No fundo — e não é tão fundo assim —, somos uma nação de diplomados iletrados que cobiçam vantagens, benesses e cargos, mas que raramente cogitam cortejar o conhecimento unicamente pelo valor intrínseco que ele tem. Por isso, em nossa sociedade, não são muitos os que ousam olhar para além dos olhos de nossos concidadãos e dos olhares dos nossos semelhantes.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.
Gilberto Simões Pires
NOTÍCIA MENTIROSA
Antes de tudo, a título de INFORMAÇÃO VERÍDICA E INQUESTIONÁVEL, no início desta semana, tão logo o IBGE informou que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu 0,33% em janeiro, e com isso, no acumulado de 12 meses, a inflação passou a 4,44%, -TODOS os veículos de comunicação - os mesmos que -juram de pés juntos- que não divulgam FAKE NEWS-, noticiaram -MENTIROSAMENTE- que a ALTA DE PREÇOS FOI PUXADA PELOS COMBUSTÍVEIS, que subiram 2,14%, -destaque para gasolina (+ 2,06%), o etanol (+ 3,44%), o óleo diesel (+0,52%) e o gás veicular (+0,20%)-.
A BEM DA VERDADE
Pois, a BEM DA VERDADE, A -ALTA DO IPCA DE JANEIRO- NÃO DEVE NEM PODE, EM HIPÓTESE ALGUMA, SER ATRIBUÍDA AOS PREÇOS DOS COMBUSTÍVEIS. O VERDADEIRO E ÚNICO -VILÃO DA INFLAÇÃO DE JANEIRO- TEM NOME E SOBRENOME: O ESTÚPIDO AUMENTO DA ALÍQUOTA DO ICMS SOBRE GASOLINA, DIESEL E GÁS DE COZINHA, IMPOSTO CRIMINOSAMENTE PELOS GOVERNOS ESTADUAIS NO INÍCIO DE 2026.
DECLARAÇÃO ESTRANHA...
Feito este necessário esclarecimento, uma outra notícia que merece ser comentada e/ou opinada, diz respeito à seguinte -DECLARAÇÃO MAIS DO QUE ESTANHA- proferida ontem pelo presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante painel na CEO Conference do BTG Pactual: -O BANCO CENTRAL É UM TRANSATLÂNTICO E NÃO UM JET SKI.
TITANIC
Ora, em meio a grande TURBULÊNCIA SEM FIM, promovida pelos sérios desdobramentos da QUEBRA BILIONÁRIA DO BANCO MASTER, que o próprio Banco Central, POR RAZÕES AINDA NÃO ESCLARECIDAS, ADIOU -IRRESPONSAVELMENTE A DECRETAÇÃO DA LIQUIDAÇÃO EXTRAJUDICIAL-, o que me veio imediatamente à lembrança é que o TITANIC TAMBÉM ERA UM TRANSATLÂNTICO. E, como todos sabem, FOI À PIQUE NA SUA VIAGEM INAUGURAL EM ABRIL DE 1912, RESULTANDO EM CERCA DE 1500 mortes, além de enormes e incalculáveis prejuízos econômico/financeiros.
Alex Pipkin, PhD
Toda sociedade é, em silêncio, organizada por uma escolha vital. Ouve-se os que descrevem o mundo ou se confia naqueles que o sustentam.
De um lado estão os engenheiros do discurso, mestres da interpretação, hábeis em nomear injustiças, rápidos em distribuir responsabilidades e sempre prontos a oferecer soluções cuja execução quase nunca repousará sobre seus próprios ombros. Do outro estão os construtores da realidade, menos visíveis, porém indispensáveis. São os homens e mulheres que assumem riscos concretos para que a vida coletiva continue a avançar factualmente.
A distância entre esses dois grupos não é somente ideológica, é uma distância de experiência concreta.
Os que mais falam em defesa dos trabalhadores quase nunca carregaram a responsabilidade de garantir o trabalho de alguém. Nunca olharam uma folha de pagamento como quem encara um compromisso moral inadiável. Nunca atravessaram a noite revendo cálculos para assegurar que, ao amanhecer, uma empresa permaneceria aberta.
Existe uma verdade simples, incômoda e pragmática: é impossível proteger aquilo que você nunca teve de sustentar.
Forjados, em grande medida, em estruturas protegidas, tais como sindicatos, aparelhos partidários, burocracias estáveis, muitos intérpretes “progressistas” da economia acostumaram-se a enxergar o setor produtivo como uma abstração resistente, sempre capaz de absorver mais encargos, mais regulações, mais intervenções.
Mas empresas não são abstrações. São organismos vivos mantidos por um equilíbrio exigente, onde decisões mal calibradas não apenas comprimem resultados. Essas suspendem contratações, estreitam horizontes e, por vezes, eliminam futuros antes mesmo que tenham a chance de começar.
Gerar riqueza está entre as tarefas mais difíceis da experiência humana. Não é um exercício de linguagem, mas um pacto permanente com a realidade.
Só compreende uma economia viva quem já decidiu antes da certeza, quem já contratou antes do conforto, quem já avançou quando recuar parecia mais sensato. São aqueles que, de fato, correm riscos, arriscando a própria pele.
Empreender é aceitar viver sem corrimão.
Talvez por isso seja tão fácil falar em opressão e desigualdade. Mas o difícil é compreender a arquitetura do progresso. O progresso raramente faz barulho. Ele se ergue no silêncio das responsabilidades assumidas por aqueles que entenderam que prosperidade não se anuncia, constrói-se.
Convém lembrar uma verdade antiga, frequentemente ignorada nessa “res pública” verde-amarela. A maior política social já concebida chama-se crescimento econômico. Quando ele é vigoroso, o trabalho deixa de ser escasso, a renda ganha densidade e a autonomia deixa de ser promessa para se tornar destino.
Nenhum discurso produz esse fenômeno.
O risco começa quando aqueles sem intimidade com o mundo produtivo passam a desenhar os limites de quem o sustenta. Ao tentar proteger, sufocam. Ao buscar justiça imediata, comprometem o amanhã. Penaliza-se o risco. Suspeita-se do lucro, como se prosperar fosse uma falha moral, e não a evidência de que algo valioso foi criado.
Instala-se, então, um dos paradoxos mais destrutivos de uma economia, passando-se a “defender” o trabalhador enquanto se estreita o espaço para que o trabalho exista.
No fundo, há apenas duas maneiras de encarar a prosperidade. A primeira acredita na força organizadora das palavras, da retórica bom-mocista. A segunda confia na coragem de quem constrói mesmo quando o terreno ainda é incerto e repleto de riscos.
Sociedades não começam a empobrecer quando lhes faltam recursos.
Começam a empobrecer quando passam a ouvir mais os intérpretes do mundo do que aqueles que aceitam o risco de carregá-lo.
Porque economias não avançam pela eloquência.
Avançam pela coragem, a de sustentá-las, de carregá-las quando o peso aumenta, de cair e se levantar sempre que a realidade cobra seu preço.
Toda a vez que o discurso tenta substituir a experiência, não é apenas o crescimento que perde força.
Não, é a própria liberdade de prosperar que, quase sempre em silêncio, começa a ficar lejos atrás.
Ao cabo, a pergunta que permanece é singela: você quer apenas explicar o mundo, ou ter a coragem de sustentá-lo?
Gilberto Simões Pires
TRISTE REALIDADE
Mais do que sabido, pouquíssimas pessoas compreendem e/ou se interessam por -notícias, comentários e opiniões- sobre o que acontece no complicado ambiente econômico do nosso empobrecido Brasil. Some-se aí o fato -marcante- de que a maioria dos jornalistas escalados para cobrir o noticiário econômico confunde -sistematicamente- CAUSA com EFEITO, o que resulta em desinteresse e/ou desconhecimento ainda maior.
OTIMISMO SEM CAUSA
Pois, enquanto milhões de brasileiros EMBALADOS PELO -OTIMISMO- acreditam piamente que combatendo os EFEITOS as CAUSAS DESAPARECEM, aqueles que, COM BASE REAL E CONSCIENTE, veem o crescimento de ADVERSIDADES INCONTESTÁVEIS, que implicam em BAIXO CRESCIMENTO ECONÔMICO, acabam sendo criticados e/ou rotulados como PESSIMISTAS, do tipo que não merecem ser ouvidos, lidos ou assistidos.
PARTICIPAÇÃO NO PIB MUNDIAL
Dentro desse clima de desinteresse motivado pelo -PREGUIÇOSO OTIMISMO SEM CAUSA-, pouquíssimos brasileiros são capazes de entender que o BRASIL TEM PERDIDO PARTICIPAÇÃO NA ECONOMIA MUNDIAL NAS ÚLTIMAS DÉCADAS, segundo informaram, com farta base numérica, alguns especialistas que foram consultados pelo CNN MONEY, onde TODOS apontam que -ENTRAVES FISCAIS, BAIXA PRODUTIVIDADE E O ELEVADO CUSTO DO ESTADO- AJUDAM A EXPLICAR POR QUE O PAÍS VEM ENCOLHENDO NO PIB GLOBAL.
BAIXA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO
FATO: segundo dados do BANCO MUNDIAL, entre os anos 1980 e 1990, a -PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA NO PIB MUNDIAL- saiu de 2,96% para mais de 3,5%. Nos anos seguintes, o indicador praticamente não avançou, oscilando entre 3,2% e 3,4%. Entretanto, em 2023, a FATIA DO BRASIL NO PIB GLOBAL DESPENCOU PARA 2,08%.
Um dos principais fatores por trás desse desempenho é a BAIXA PRODUTIVIDADE DO TRABALHO. Segundo Lucas Ferraz, ex-secretário de Comércio Exterior do governo, o BRASIL CORRE O RISCO DE VER A RENDA PER CAPITA ESTAGNAR OU ATÉ RECUAR SE NÃO CONSEGUIR PRODUZIR MAIS COM A MESMA FORÇA DE TRABALHO.
A CAUSA É O ESTADO
Na real, a despeito do que pensam os OTIMISTAS, o ESTADO É IMENSO E CAUSA UMA DISTORÇÃO TRIBUTÁRIA ENORME. Se uma EMPRESA QUER CRESCER, PAGA MUITO IMPOSTO E FICA DIFÍCIL ABSORVER MELHOR TECNOLOGIA, diz Fabio Kanczuk, diretor de Macroeconomia do ASA e ex-diretor do Banco Central. Mais: a AGENDA FISCAL PESA DEMASIADAMENTE SOBRE O DESEMPENHO ECONÔMICO. A ampliação de BENEFÍCIOS SOCIAIS, O CUSTO DO SISTEMA PREVIDENCIÁRIO E O PESO DOS JUROS estão entre os fatores que elevam os GASTOS FEDERAIS, PRESSIONAM A DÍVIDA E MANTÉM OS JUROS EM PATAMAR ELEVADO, O QUE DESESTIMULA INVESTIMENTO E REDUZ A COMPETITIVIDADE DO PAÍS.
Esse ciclo ajuda a explicar por que outras economias avançaram mais rapidamente. Nos últimos 25 anos, a CHINA viu seu PIB crescer 518%. Países como Vietnã, Índia e Bangladesh registraram expansão superior a 200% no mesmo período. Até o Cazaquistão, entre os últimos do grupo, teve crescimento de 183%.
ABISMO
O que mais impressiona é que o presidente LULA ainda quer acabar -rapidamente- com a ESCALA 6 X 1, mantendo os salários intactos. Com isso, certamente, o BRASIL VAI CORRER AINDA MAIS RÁPIDO EM DIREÇÃO AO ABISMO. Que tal?
Dartagnan da Silva Zanela
Diante dos dilemas que a vida nos apresenta, podemos reagir de inúmeras maneiras, dependendo do nosso temperamento, da disposição do nosso espírito, da nossa força de vontade e, é claro, dos valores que norteiam a nossa caminhada por esse mundão de meu Deus. Mas penso que podemos agrupar todas as reações humanas possíveis e pensáveis diante dos perrengues em três tipos de atitude, as quais poderíamos chamar de: ativa, passiva e alternativa. Pouco importa qual seja o quadro; esses são os três balaios nos quais, penso eu, podemos reunir as diversas formas de conduta diante dos entreveros que pintam em nosso caminho.
Para explicar as três atitudes possíveis frente à vida, convido o amigo leitor a imaginar-se em uma canoa, navegando no remanso de um rio qualquer e, lá pelas tantas, eis que as águas mudam de temperamento, tornando-se uma corredeira. Para a nossa infelicidade, temos nossa vista invadida pela imagem borbulhante de uma cachoeira que, de forma inclemente, quer porque quer nos engolir. Imaginou? Beleza, então vem comigo para o próximo parágrafo.
Diante dessa situação, podemos, furiosamente, remar contra a correnteza e contra toda a desesperança para evitarmos a tragédia que se apresenta como inevitável. Bem, esse é um exemplo de atitude ativa. Se não somos daqueles que gostam de lutar batalhas perdidas, podemos então, estoicamente — ou não —, deitar calmamente no fundo da canoa, cruzar os braços sobre o peito e deixar que as águas nos levem para muito além do reino das Águas Claras, abraçando assim o nosso destino. Essa, por óbvio e por certo, seria a atitude passiva.
Por fim, teríamos a atitude alternativa. Lá está o caboclo em sua canoa, diante da cachoeira e, ao invés de lutar pela vida até o último suspiro ou de abraçar sem temor a ferocidade do seu destino, ele fica em pé na canoa e, furiosamente, começa a xingar a força das águas, os céus, tudo e todos, como se tal atitude tivesse algum valor.
Quando voltamos nossas vistas para os desafios que vicejam no mundo contemporâneo e paramos para refletir um cadinho a respeito das inúmeras incertezas que nos assombram — e sobre as muitas certezas aterradoras que nos circundam —, brota em alguns momentos em nosso peito um sentimento de impotência e desesperança. E é bem aí que o trem desanda, tal qual na cena hipotética da canoa que é tragada pela cachoeira, porque a realidade exige uma resposta de nós e, para ser sincero, espero que a sua, amigo leitor, não seja uma resposta alternativa. Até mais.
* O autor, Dartagnan da Silva Zanela, é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "O SEPULCRO CAIADO", entre outros livros.