NOTA DO EDITOR: este artigo presta justíssima homenagem a três grandes prefeitos de Porto Alegre. Pessoalmente, incluo o próprio autor do texto entre os grandes prefeitos da capital gaúcha, em tempos que não voltam mais.
(Publicado originalmente no Jornal do Comércio)
Diga-se aqui, seria impossível contar os feitos desses três personagens lendários de Porto Alegre. De fato, são novas avenidas e ruas, obras viárias, viadutos, túneis, saneamento das finanças, dentre outros. Não é esse o objetivo. O que é possível se dizer é que seus feitos fazem parte de uma das mais importantes renovações urbanas ocorridas na capital gaúcha. Uma fotografia da época mostra um homem, alto e forte, vestido de terno branco e usando chapéu. Está na orla do Guaíba, contemplando-o como quem olha para o futuro - mirando o imenso infinito. Saindo da fotografia, lá vai ele, passos firmes, confiante, destemido - suave, mas capaz de bater a mão fechada com força em cima da mesa ao tomar uma decisão complicada. Loureiro da Silva foi uma grande figura humana. Uma lenda. Um homem que se hoje existisse seria capaz de governar até mesmo um país triste - como o Brasil!
Outro técnico e político lendário também pode ser visto em fotografias da época, ele conferindo, com entusiasmo e vigor, suas grandes obras - sem as quais Porto Alegre não seria Porto Alegre. Thompson Flores foi um extraordinário administrador, que sempre será lembrado. Terminou seus dias na capital catarinense - provavelmente tentando esquecer seus desgostos político-partidários.
Outra figura humana lendária notável que muito fez por Porto Alegre foi João Antônio Dib. Cuidadoso, focou sua administração em diversos setores da Capital - com boas obras, contudo não se descuidando dos pequenos problemas. Aqueles que originam os grandes problemas de uma cidade. Aqueles que afligem o dia a dia dos cidadãos. Dib fora discípulo e amigo dos citados mestres, porém nunca os esquecendo. Homenageando-os. Ademais, sempre foi um homem de palavra, que sempre fora algo sagrado para ele. Um exemplo para as novas gerações políticas - onde alguns provam que não aprenderam nada. Lástima! Há algo mais em comum com essas três lendas: a honestidade.
Economista e ex-prefeito de Porto Alegre
O Brasil, entre todos os países do mundo, é aquele onde não existe DILEMA. O povo, diante de uma situação difícil, na qual é preciso escolher entre duas alternativas contraditórias, antagônicas ou insatisfatórias, se atira de cabeça naquela que oferece maior probabilidade de sair mais prejudicado.
ESCOLHA
Esta conclusão, peço que os leitores entendam, não é fruto de uma manifestação irônica. Nada disso. Quem retrata fielmente esta triste realidade é o número imenso de ABERRAÇÕES, que só existem no nosso pobre país por exclusiva vontade do povo, que concede poderes ilimitados (através do voto) aos seus representantes, tanto profissionais (sindicatos e corporações) quanto políticos (em todos os níveis), para decidirem o que bem entendem.
CONJUNTO DA OBRA
Pelo conjunto da obra, ou do excessivo número de ABERRAÇÕES ECONÔMICAS, (apenas estas) se tem uma clara ideia do quanto o povo não diferencia CAUSA de EFEITO. Ou seja, quando o sapato aperta, o responsável é o fabricante, que produziu uma peça defeituosa, e não o crescimento do pé.
COMEMORANDO
Vejam, por exemplo, que o povo, fortemente influenciado pela mídia, está comemorando a queda da inflação sem dar importância devida para a brutal recessão, cujo resultado aí está: um cruel encolhimento de quase 9% do PIB brasileiro apenas nos últimos três anos (2014/2015 e 2016). De novo: enquanto as CAUSAS permanecem intactas, os representantes do povo atacam as CONSEQUÊNCIAS. Pode?
CARGA TRIBUTÁRIA
Como bem lembra o pensador Ricardo Bergamini, no Brasil a composição da Carga Tributária tem como base 48,46% de sua arrecadação incidindo sobre a Renda, Lucro, Ganho de Capital, Folha Salarial e Propriedade (classes privilegiadas da nação brasileira) e 51,54% incidindo sobre Bens e Serviços (arroz, feijão, remédios transportes e educação). Com uma Carga Tributária total de 32,4% do PIB.
OMISSÃO, COVARDIA OU CONIVÊNCIA
Observem que dentre os países analisados o Brasil é aquele que possui a mais INJUSTA, IMORAL, CRIMINOSA, DESUMANA e REGRESSIVA CARGA TRIBUTÁRIA. Uma vergonha internacional que certamente continuará tendo o silêncio de todos: por omissão, covardia ou conivência.
ABERRAÇÕES....
A aberração do emprego público no Brasil (Fonte IBGE)
Em relação aos recursos humanos, de 2005 para 2015, o percentual de servidores municipais passou de 2,6% para 3,2% da população do Brasil. O número de pessoas ocupadas na administração direta e indireta municipal era de 6.549.551 em 2015, o que corresponde a um crescimento de 37,4% em relação a 2005 (4.767.602). A parcela de servidores municipais na administração direta passou de 94,3% (4.494.154) em 2005 para 95,0% (6.224.235) em 2015. Na administração indireta, esse percentual passou de 5,7% (273.448) em 2005 para 5,0% (325.316) em 2015.
E MAIS ABERRAÇÕES...
A aberração da orgia de gastos com pessoal no Brasil (Fonte MF)
Em 2002 os gastos com pessoal consolidado (união, estados e municípios) foi de 13,35% do PIB. Em 2015 foi de 15,31% do PIB. Crescimento real em relação ao PIB de 14,68% representando 46,88% da carga tributária que foi de 32,66%. Para que se avalie a variação criminosa dos gastos reais com pessoal, cabe lembrar que nesse mesmo período houve um crescimento real do PIB Corrente de 37,80%, gerando um ganho real acima da inflação de 58,03% nesse período. Nenhuma nação do planeta conseguiria bancar tamanha orgia pública.
A aberração de um país sem passado, presente e futuro (Fonte IBGE)
Cerca de um em cada quatro (22,5%) jovens de 15 a 29 anos não frequentava escola nem trabalhava na semana de referência em 2015, os chamados “nem-nem”, sendo que essa proporção cresceu 2,8 pontos percentuais frente a 2005 (19,7%). O grupo de 18 a 24 anos apresentou o maior percentual de “nem-nem” em 2015, com 27,4%.
A aberração da imoral e desumana Previdência Social no Brasil (Fonte MF)
- Em 2016 o Regime Geral de Previdência Social (INSS) destinado aos trabalhadores de segunda classe (empresas privadas) com 100,6 milhões de participantes (70,1 milhões de contribuintes e 30,5 milhões de beneficiários) gerou um déficit previdenciário da ordem de R$ 149,7 bilhões (déficit per capita por participante de R$ 1.488,07).
- Em 2016 o Regime Próprio da Previdência Social destinado aos trabalhadores de primeira classe (servidores públicos) – União, 26 estados, DF e 2087 municípios mais ricos, com apenas 9,9 milhões de participantes (6,3 milhões de contribuintes e 3,6 milhões de beneficiários) gerou um déficit previdenciário da ordem de R$ 155,6 bilhões (déficit per capita por participante de R$ 15.717,17).
- Resumo do resultado previdenciário de 2016 do RPPS (servidores públicos): União (civis e militares) déficit previdenciário de R$ 77,1 bilhões; governos estaduais déficit previdenciário de R$ 89,6 bilhões e governos municipais superávit previdenciário de R$ 11,1 bilhões. Totalizando déficit previdenciário do RPPS da ordem de R$ 155,6 bilhões.
- Em 2016 a previdência social brasileira total (RGPS E RPPS) gerou um déficit previdenciário total de R$ 305,3 bilhões, cobertos com as fontes de financiamentos (COFINS e CSSL, dentre outras pequenas fontes) que são uma das maiores aberrações e excrescências econômicas e desumanas já conhecidas, visto que essas contribuições atingem todos os brasileiros de forma generalizada, mesmos os que não fazem parte do grupo coberto pela previdência, tais como: os desempregados e os empregados informais sem carteira de trabalho assinada, contingente composto de quase a metade da população economicamente ativa. Esses grupos de excluídos estão pagando para uma festa da qual jamais serão convidados a participar.
A aberração do imoral déficit fiscal nominal do Brasil (Fonte BCB)
Segundo o Banco Central do Brasil o déficit fiscal nominal de 2015 foi de R$ 613,0 bilhões (10,38% do PIB). Esse déficit retrata uma apuração contábil em regime de competência, ou seja: todos os compromissos do governo, mesmo os não vencidos, bem como os refinanciados estão apurados da forma (pro-rata/ano) dentro desse resultado.
Segundo o Banco Central do Brasil o déficit fiscal nominal de 2016 foi de R$ 562,8 bilhões (8,93% do PIB). Esse déficit retrata uma apuração contábil em regime de competência, ou seja: todos os compromissos do governo, mesmo os não vencidos, bem como os refinanciados estão apurados da forma (pro-rata/ano) dentro desse resultado.
A aberração do subemprego no Brasil (Fonte IBGE)
A taxa composta de subutilização da força de trabalho (que agrega a taxa de desocupação, taxa de subocupação por insuficiência de horas e da força de trabalho potencial) ficou em 22,2% no 4º trimestre de 2016.
A aberração da carga tributária no Brasil
De 1990 até 2015 a carga tributária brasileira teve um aumento real em relação ao PIB de 37,75%.
Aumento da carga tributária federal no período – 38,88%.
Aumento da carga tributária estadual no período – 23,40%.
Aumento da carga tributária municipal no período – 120,00%.
(Publicado originalmente no www.alertatotal.net)
Este é um tema que pode ser abordado de várias maneiras. A seguir uma síntese das idéias que se combinam na teoria marxista da revolução.
Inicialmente, o caráter opressor da sociedade capitalista, assentada, segundo Marx, em uma economia baseada na exploração do homem pelo homem, sujeita a crises cíclicas e cm tendência ao declínio, é uma economia que deve ser suprimida.
Em segundo lugar, a definição de que a luta de classes é o motor da História, pois a História, desde os primórdios da civilização nada mais tem sido do que o relato da luta de classes; que o sujeito revolucionário fundamental, o proletariado, não obterá uma melhoria global e definitiva de suas condições de vida e trabalho a não ser pela supressão do capitalismo.
Pelos seus interesses históricos objetivos e pela sua força social, a classe operária foi definida por Marx como osujeito revolucionário fundamental, capaz de emancipar-se e a toda a humanidade.
Outro aspecto da teoria marxista revolucionária é o que se refere ao Estado na sociedade capitalista, que Marx definiu como um aparato a serviço da burguesia, que não pode ser reformado, transformado ou utilizado pelo proletariado. Tem que ser destruído pela revolução proletária, que construirá outros organismos – administração pública, órgãos policiais, Forças Armadas e aparelhos ideológicos do Estado – que permitam o exercício do Poder pelos trabalhadores e conduzam à passagem do capitalismo ao socialismo. Esse novo Estado foi definido por Marx como uma ditadura revolucionária do proletariado, do mesmo modo que no capitalismo o Estado é uma ditadura da burguesia.
Uma questão central na teoria marxista da revolução proletária é a necessidade da construção de um partido revolucionário que introduza, desde fora, no proletariado, a consciência de classe.
Eis a concepção de Marx do que seria a sociedade comunista: uma sociedade sem classes, sem Estado, sem divisão social do trabalho, onde este deixaria de ser um meio de ganhar a vida para tornar-se fonte de realização dos indivíduos.
Resumindo: a teoria marxista da revolução proletária define como necessidade objetiva a supressão da sociedade capitalista, a ser realizada por uma revolução proletária, dirigida por um partido revolucionário, que dará origem a um Estado de novo tipo e iniciará a construção da sociedade socialista.
Após mais de um século da publicação do Manifesto Comunista, nenhuma revolução socialista tornou-se vitoriosa nos países capitalistas. E mais: nesses países, o modo capitalista de produção foi sedimentado e a classe operária – o sujeito revolucionário fundamental, de Marx – obteve constantes e sensíveis melhorias em suas condições de vida e trabalho, está organizada em sindicatos e não tem perspectivas revolucionárias.
Porém, o fato mais inquietante e questionador das idéias de Marx, é o de que, onde quer que o capitalismo tenha sido suprimido – sempre pela força das armas, como ocorreu em Cuba, e não pela força dos argumentos da doutrina -, não se seguiu a chamada democracia operária, imaginada por Marx, e nem, pelo menos, um processo de construção do socialismo que avançasse em direção a ela. O tal partido revolucionário do proletariado expropriou o proletariado do poder político, a burocracia apoderou-se do partido do proletariado e dos meios de produção, e passou a impedir qualquer progresso no sentido do socialismo.
Em lugar da liberdade e da fonte de realização dos indivíduos, estamos diante da terrível realidade dos Gulags e dos hospitais psiquiátricos.
*Historiador
(Publicado em http://sensoincomum.org)
A soltura do goleiro Bruno de Souza causou uma das raras unanimidades no país cada vez mais bipolarizado: direita e esquerda acharam um absurdo que o ex-goleiro do Flamengo, acusado de planejar e encomendar o assassinato de Eliza Samudio, ex-atriz pornô que engravidou do goleiro e queria dar à luz à criança e que o jogador pagasse pensão do filho. Seu corpo nunca foi encontrado, mas provavelmente foi espancada até a morte e posteriormente esquartejada, tendo suas mãos comidas por Rottweillers.
Como o presidente do PT Rui Falcão e o petista Alex Solnik consubstanciam à perfeição, um assassino frio que não demonstra o menor arrependimento ou qualquer sentimento de culpa ou remorso pelo assassinato, como o goleiro Bruno, só volta às ruas graças aos ditames do pensamento de esquerda.
É a esquerda que possui “teses” ou, na verdade, frases de efeito e cacoetes verbais como “cadeia não resolve”, “o importante é ressocializar”, “polícia mata”, “legalize o aborto”, “meu corpo, minhas regras” e outros bordões repetidos acerebralmente pela militância em 140 caracteres. É a esquerda que acredita que leis penais, mormente quanto a temas que envolvam crimes de sangue e correlatos, têm apenas o fito de “criminalizar os pobres” (em sua visão, todos criminosos), como o ex-favelado goleiro Bruno.
É o que se chama de coitadismo penal: a idéia do Direito Penal Abolicionista (pregada por Juarez Cirino dos Santos, advogado mais óbvio do ex-presidente Lula), ou do Direito Penal Mínimo como meio para se atingir o Abolicionismo (o Direito Penal Mínimo como fim, a separação extrema de penas entre crimes brancos e de sangue, é defendido, por exemplo, pela doutora Janaína Paschoal). Toda uma cultura baseada na idéia estúpida de que criminosos, incluindo assaltantes, seqüestradores e assassinos, são coitadinhos. A culpa seria da sociedade, e não dos criminosos.
A simples materialização de suas próprias teses, atacadas pela direita todo santo dia, faz com que a esquerda se indigne. Não com seu próprio discurso, mas com a injustiça absurda de um homicida que mata uma mulher para não pagar as contas do filho (preferia que Eliza Samudio o abortasse), negando-se a cumprir seu papel de pai de família.
Preferindo o prazer fácil, o hedonismo irresponsável e negando a “família tradicional”, o goleiro Bruno seguiu pari passu o que a esquerda prega, mas quando feministas, esquerdistas e progressistas viram o próprio Frankenstein que criaram, tão lindo e defensável em abstrato, tão absolutamente horrendo, fétido, abissal e sulfúrico quando adquire carne e osso nas tessituras da realidade concreta.
Assim que viram seu monstro, esquerdistas abandonaram o discurso do “crime é culpa do social” e de “cadeia deve reeducar” e exigiram o retorno do goleiro Bruno à prisão – não em busca de “reeducação”, mas de simples punição por seu crime, como qualquer pessoa dotada do super-poder de enxergar o óbvio quando esfregado no nariz sabe que é a função primordial de uma cadeia ao lidar com um homicida. Foi-se a defesa do aborto, a crítica à família tradicional, a noção transfigurada de que justiça é soltar criminosos, e não prendê-los: acreditando que “esquerda” e “feminismo” são o contrário do que são, todas passaram a defender o que a direita sempre defendeu, sem palavrinhas chics para universitários se sentirem “intelectuais”.
A esquerda, que tem sua revelação com um livro sobre juros, e hoje se refugia nas ciências sociais e na crítica literária, é hoje pura estética: palavras que geram uma reação imediata (daí seu vocabulário ora hiperbólico, como “fascista”, ora pornograficamente eufemístico, como “interrupção da gravidez”). Esquerdistas adoram o palavreado do coitadismo penal, mas são de todo incapazes de formar conceitos de suas palavras, extrair idéias de seus vocábulos, organizá-los em silogismos para repudiar idéias que soem verdadeiras, como “desigualdade social”, sem precisar concretizá-las à custo de sangue alheio.
Rui Falcão e Alex Solnik sabem o que fazem, e sabem que só usam um discurso para proteger seus cupinchas usando a militância como peões. Já os militantes, acham que têm o poder de fogo de um Rui Falcão ou Alex Solnik, mas são apenas buchas de canhão e peões cuja maior glória na vida é serem substituídos por peças que interessem mais a quem está jogando o xadrez a sério.
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* Flavio Morgenstern é escritor, analista político, palestrante e tradutor. Seu trabalho tem foco nas relações entre linguagem e poder e em construções de narrativas. É autor do livro "Por trás da máscara: do passe livre aos black blocs" (ed. Record). No Twitter: @flaviomorgen
(Publicado originalmente na Folha)
Os governos de esquerda que se disseminaram pela América Latina, Brasil inclusive, fracassaram. No caso do Brasil (e também da Venezuela), o fracasso não é apenas das políticas adotadas mas também do ponto de vista ético.
Não, não é a análise de algum direitista empedernido mas de ninguém menos que o maior ícone do marxismo, talvez o último marxista relevante ainda existente no planeta, depois que o colapso da União Soviética sepultou todos os demais sob os escombros do Muro de Berlim.
Chama-se Noam Chomsky, linguista, filósofo e ativista político, que completará 90 anos em 2018.
Eis o que disse Chomsky em entrevista para "Democracy Now", programa diário de "notícias independentes", como se pode ler no seu sítio na internet:
Depois de reconhecer que houve conquistas, ressalva que "os governos de esquerda fracassaram em usar a oportunidade disponível para tentar criar economias sustentáveis e viáveis. Quase todos –Venezuela, Brasil, outros, Argentina– dependeram da alta de preços das commodities, que é um fenômeno temporário. O preço das commodities de fato subiu, principalmente por causa do crescimento da China. Por isso houve aumento no preço do petróleo, da soja e assim por diante".
Prossegue: "Em vez de tentar desenvolver uma economia sustentável com manufaturas, agricultura etc, eles simplesmente apoiaram-se nas commodities –matéria prima que podiam exportar".
Neste ponto, Chomsky enfia o dedo na ferida com mais força:
"Isso [a dependência das commodities] é muito daninho, é um modelo daninho de desenvolvimento, porque, quando você exporta grãos para a China, digamos, eles exportam bens manufaturados para você, o que mina suas indústrias manufatureiras".
A análise de Chomsky está longe de ser uma novidade. Uma penca de analistas cansou de fazer a mesma avaliação sobre os governos de Lula e Dilma, para ficar só no caso do Brasil.
O que há de novo é que alguém de esquerda enfim abre os olhos e diz o rei está nu, coisa que nenhum intelectual de esquerda o fez até agora no Brasil.
Apenas frei Betto apontou, mais de uma vez, o fato de que os governos do PT reproduziram políticas de governos anteriores e não introduziram reformas estruturais (se me escapou algum outro analista de esquerda que tenha feito análises parecidas, me avise, leitor).
Mas Chomsky não se limita à crítica no campo da economia. Ataca também a corrupção, nos seguintes termos:
"Como se não bastasse [o modelo daninho de desenvolvimento], houve enorme corrupção. É simplesmente doloroso ver que o Partido dos Trabalhadores no Brasil –que implantou medidas significativas– simplesmente não pôde manter as mãos fora da caixa registradora. Juntaram-se à elite extremamente corrupta, que está roubando o tempo todo, tomou parte [no esquema] e desacreditou-se".
Ao contrário da esquerda brasileira, que continua endeusando Lula como se fosse o único político honesto na face da Terra, Chomsky preconiza a escolha de novas lideranças.
Pede "forças mais honestas que, primeiro de tudo, reconheçam a necessidade de desenvolver a economia de uma maneira que tenha um alicerce mais sólido, não apenas baseado na exportação de matérias primas, e, em segundo lugar, sejam honestas o suficiente para desenvolver programas decentes sem roubar o público ao mesmo tempo".
Quando é que a intelectualidade que se acha de esquerda vai ter a decência básica de dizer o que seu ícone maior está dizendo agora? Até um cardeal petista já admitiu que seu partido "lambuzou-se" (pena que ele próprio esteja na lista dos suspeitos de se ter lambuzado).
Não adianta nada elaborar manifestos com projetos para o país se não se disser que, com a corrupção que corroeu o principal partido da esquerda, não há desenvolvimento possível e, portanto, são necessárias "forças mais honestas".
Por fim, a Venezuela, sobre a qual a esquerda toda silencia: Chomsky não hesita em descobrir o óbvio, ou seja que está em "situação realmente desastrosa".
Além da economia continuar dependente do petróleo, "certamente mais do que no passado", há "a corrupção, a roubalheira, que tem sido extrema, sob e especialmente depois da morte de Chávez". Termina dizendo que as promessas dos primeiros dias do chavismo "têm sido significativamente perdidas".
Até quando a esquerda brasileira vai continuar sócia do imenso fracasso que é o socialismo do século 21 e da promiscuidade com uma empreiteira que confessou, de público, um lote impressionante de maracutaias?
*
Repórter especial.
(Publicado originalmente em institutoliberal.org.br, em 14/02/2014)
Num post anterior, fiz uma lista de pensadores liberais que talvez tenha causado a estranheza de alguns. Não foi descuido e nem obra do acaso. Aquele post tenta mostrar que o movimento liberal é bem maior do que alguns supõe. O liberalismo se caracteriza por sua defesa de três pontos: liberdade individual (respeito ao estado de direito), defesa da propriedade privada, e apoio a um sistema de preços de livre mercado. Todos que defendem esse conjunto de ideias são liberais. Contudo, entre os liberais existem divergências. Dessas divergências temos a formação de vários grupos dentro do movimento liberal. Grupos esses que estão entre os liberais clássicos (conservadores) e os ultra-liberais (libertários).
Num mundo que começasse do zero, certamente conservadores e libertários estariam separados, talvez até em pontas opostas. Contudo, o mundo já existe. Hoje, no Brasil, em termos operacionais, existe apenas uma única diferença importante entre liberais e conservadores: a descriminalização da maconha. Os conservadores são contra, os liberais são a favor. A rigor, os libertários pregam a descriminalização de todas as drogas. Contudo, em termos operacionais, me parece bem pouco provável que a liberação do crack e da heroína tenham espaço político para prosperar nas próximas duas décadas.
Vejamos a questão dos impostos. Eu, enquanto conservador, gostaria de manter a carga tributária ao redor de 20% do PIB. Os libertários são contra impostos obrigatórios, logo defendem uma carga tributária obrigatória de 0%. Suponha que um libertário vença as eleições, por acaso será possível reduzir a carga tributária brasileira dos atuais 36% do PIB para 0%? Óbvio que não, uma sociedade, para manter o estado de direito, não pode sofrer mudanças repentinas dessa magnitude. Logo, tanto um conservador quanto um libertário trabalhariam em conjunto para, gradativamente, irem reduzindo a carga tributária. Acredito que, em 2 décadas, sejamos capazes de reduzir a carga tributária para algo em redor de 20% do PIB. Só a partir desse ponto é que haveria discussão entre os libertários (que pressionariam por mais redução) e os conservadores (satisfeitos com o patamar tributário).
Vejamos a questão da propriedade privada e do sistema de preços via mercado. Novamente, hoje, em termos operacionais, não existe uma única grande diferença entre libertários e conservadores. Quando olhamos as discussões políticas que são feitas, os arranjos econômicos feitos pelos que estão no poder, e as propostas que tramitam no Congresso, fica evidente que a agenda libertária é extremamente similar a agenda conservadora. No Brasil atual não faz o menor sentido um conservador ser atacado por um libertário, ou vice-versa. Libertários e conservadores são, no Brasil atual, aliados óbvios. É simplesmente burrice desperdiçarmos o pequeno espaço que temos brigando entre nós mesmos. Ganharíamos muito mais com uma convivência pacífica, e lutando contra os movimentos contrários a sociedade aberta, do que brigando por questões que, no Brasil atual, sequer estão na agenda ou no espectro de possibilidades.
Para uma ideia ser boa não basta a mesma ser boa, ela precisa ser operacionalmente viável. No Brasil atual a única questão operacionalmente viável que separa liberais de conservadores é a liberação da maconha (que aliás é defendida por todos os partidos de esquerda). Vale a pena essa briga? Vale a pena dividirmos nosso pequeno efetivo para apoiar uma causa que, além de polêmica, só tende a fortalecer os inimigos da sociedade aberta? Não peço aos conservadores que apoiem a liberação da maconha. Não peço aos libertários que sejam contra a liberação da maconha. Peço apenas para que enxerguemos um espectro político maior: no Brasil atual nós somos nossos únicos aliados. Deixemos nossas brigas para, com sorte, daqui 20 anos.