Assim como o IPVA, o IPTU é um pagamento de "locação" ao poder público travestido de imposto sobre propriedade. É lógico que quando se trata de aluguel, há um motivo: você usa a propriedade de outro e paga um valor ajustado para esse fim. Porém, se o bem já é seu, por que pagar pelo uso? Alguns defendem que o IPTU seria uma espécie de "taxa de condomínio", mas isso não convence ninguém, já que há taxa de iluminação e coleta de lixo, além de conta de água e esgoto. Então, a solução seria a extinção do imposto? Bem que eu gostaria, mas somente o Congresso Nacional - e não um vereador - poderia fazer isso.
A chamada "justiça tributária" é o principal argumento usado pela prefeitura para justificar o aumento de arrecadação que vem por aí. Além de eu ser contra a elevação, a própria alíquota progressiva, que faz parte do projeto encaminhado pelo governo, é uma punição a quem, com muito suor, adquiriu uma propriedade. Pense num cidadão que comprou sua casa há 40 anos, pagou parcelas durante uma vida toda, mas hoje vê seu bairro desenvolvido e valorizado: teve ganho de patrimônio, mas não necessariamente aumentou sua renda. Ou seja, patrimônio e renda não crescem juntos, logo o aumento não é justo.
A busca por arrecadar mais através da revisão do IPTU fica clara neste exemplo: se hoje João paga R$ 600,00 e José, com um imóvel de mesmo valor, paga R$ 200,00, o projeto, ao invés de propor que os dois quitem R$ 400,00, aumenta ambos para R$ 650,00 ou R$ 700,00. Se a questão fosse só de equalização, não deveria haver crescimento de arrecadação.
Considerando a retirada das isenções dos clubes, que acrescentaria um projetado aumento arrecadatório de R$ 14 milhões anuais, proponho a reflexão: o governo teria interesse em que esse valor fosse reduzido do que é cobrado dos demais cidadãos? Infelizmente, como está, não nos resta dúvidas de que o projeto não trata de "justiça tributária", mas de "aumento de impostos" para acomodação de despesas.
* Publicado originalmente no Jornal do Comércio
** O autor é vereador do Partido Novo em Porto Alegre
(Publicado originalmente em Ponto Crítico)
CORROMPO
Por todos os problemas criados, e acumulados ao longo de muitas décadas, no nosso triste Brasil, mais ficamos parecido com a ilha chamada Corrompo, onde Jonas Gullible, personagem do livro -As Aventuras de Jonas, o Ingênuo-, de Ken Shcoolland, vive uma notável -Odisseia rumo ao Conhecimento-.
A propósito: quem ainda não leu a magnífica obra sugiro que o faça, urgentemente. Mais: providencie para que seus filhos e amigos leiam.
CAPÍTULO 8
Para abrir o apetite desta leitura -obrigatória-, e com isso gerar maior interesse pela comparação daquilo que Jonas viu e acompanhou em Corrompo, publico um Capítulo (8) que escolhi, aleatoriamente, com o título FABRICANDO DINHEIRO. Eis:?
CLIQUE CLAQUE
Jonas, o Ingênuo, ao entrar num dos portões de Corrompo, uma ilha por ele até então desconhecida, onde seu pequeno barco atingido por um forte temporal foi levado, ouviu um ruído -clique claque- de máquinas, que parecia ser de impressoras, que vinha do segundo andar de um predio de tijolos vermelhos.
CASA DA MOEDA
Talvez seja o jornal da cidade, pensou. Que bom! Assim posso ler tudo sobre esta ilha e o seu povo. Talvez até descubra um jeito de voltar para casa. Procurando a entrada do prédio Jonas se deparou com um casal e perguntou onde ficava a entrada do jornal. A senhora sorriu e disse: - Esta é a Casa da Moeda, não é o jornal. É o órgão mais importante da cidade, pois se trata da fonte da felicidade. As pessoas que aí trabalham imprimem montanhas de dinheiro com o propósito de fazer as pessoas felizes.
CONSELHO DOS LORDES
Jonas imaginou, imediatamente, que ali poderia estar a solução para sair da ilha. Poderia comprar, quem sabe, uma passagem em algum navio. Ainda surpreso disse ao casal: - Isso parece ser uma grande ideia. Talvez eu possa imprimir algum dinheiro e...
Ah, não - censurou o homem, de dedo em riste: - Isso é impossível. Qualquer um que imprima dinheiro sem ter sido incumbido disso pelo Conselho dos Lordes é condenado por falsificação e jogado atrás das grades. Quando os falsificadores imprimem dinheiro e gastam-no, o dinheiro deles invadem as ruas e tira o valor do dinheiro das outras pessoas, arrematou.
GENEROSOS
Jonas franziu a testa e disse: - pensei que o senhor havia dito que imprimir montanhas de dinheiro torna as pessoas felizes.
Sim, é verdade, respondeu a mulher - contanto que seja impressão oficial de dinheiro. O homem, mostrando a sua carteira recheada, completou: se isto for oficial, então não é falsificado. Quando o dinheiro é oficial, aqueles que o emitem não são ladrões. Na verdade, os que gastam o dinheiro são os membros do nosso Conselho dos Lordes. E eles são muito generosos, pois gastam o dinheiro em projetos para as pessoas leais que gentilmente votam neles.
MUITO SATISFEITOS
Olhando para Jonas peguntaram, em coro: - Você não votaria neles? Sem responder Jonas perguntou: - O que acontece com os salários, as economias e as aposentadorias de todo mundo? Vocês tinham dito que diminui quando mais dinheiro é impresso. Isto também acontece quando é o governo que imprime dinheiro? E todos ficam satisfeitos com isso?
É claro que ficamos sempre muito satisfeitos quando os Lordes têm mais dinheiro para gastar conosco. Há tantas necessidades prementes a serem satisfeitas... as necessidades dos trabalhadores, dos desfortunados e dos idosos.
AZAR E O CLIMA
Prosseguindo, a mulher explicou que "Os Lordes são muito escrupulosos em busca das origens dos nossos problemas na Ilha. Eles concluíram que as principais causas das nossas dificuldades são o AZAR E O CLIMA. Sim, o azar e o clima são a causa dos aumentos de preços e da queda do padrão de vida. Mais: não esqueça dos estrangeiros, Principalmente os estrangeiros. A nossa ilha é rodeada por inimigos que tentam arruinar a nossa economia com os elevados preços das coisas que vendem. O elevado preço da querosene deles certamente será a nossa ruína".
Ou os preços baixos, acrescentou. Eles estão sempre tentando nos vender alimentos e vestuário a preços prejudicialmente baixos. Ainda bem que o nosso Conselho dos Lordes trata-os com rigor.
SORTE
Sorte que temos um Conselho sábio para decidir o que é bom para nós, disse a mulher, satisfeita. Espero que nos desculpe, meu jovem. Temos um compromisso com o nosso gerente de investimentos, no banco. Seríamos tolos se perdêssemos a atual onda de entusiasmo com os negócios de compra de terra e metais preciosos. Coitados dos pobres que não aproveitaram o boom como nós aproveitamos.
Que tal?
Interessar-me por política, desde os 14/15 anos, abriu-me uma dupla perspectiva que resultou em uma visão privilegiada dos homens públicos por mais de setenta anos.
Deveria ser pelos anos 1943/1944 que o Reitor do Colégio Anchieta nos visitava em aula, na Semana da Pátria, cumprindo a imposição de elogiar o Ditador e seu governo. Fazia-o a contragosto e seco… Em casa, passando essa orientação, à mesa com os meus, eram constantes e azedas as discussões com meu avô.
Por essas razões, e talvez por alguma disposição própria, não mais abandonei esse exame da política, embora só para uso interno, dada a vedação profissional/constitucional.
Recordo, saudoso, a campanha eleitoral de 45/46, e a profunda tristeza com a derrota do brigadeiro Eduardo Gomes no pleito em que o ex-Ministro da Guerra da ditadura -- clone criado por Vargas (ah, Dilma…) --, foi eleito Presidente pelo voto popular. Mais adiante, o “Queremos Getúlio!”, visando o retorno de Vargas.
Digo tudo isso porque figuras como Vargas, Tancredo, Ulysses, Lacerda ou Sarney passaram por mim no devido tempo.
Vamos pensar um pouco: hoje, Temer é fruto de uma concepção e vivência políticas. Getúlio e Temer, quanta argúcia; Tancredo e Temer, quanta negociação; Sarney e Temer, quanta duplicidade; Ulysses e Temer, quanta determinação; Lacerda e Temer, quanta competitividade…
Vargas, na surdina, as reformas saindo, uma a uma; o denodo de Ulysses ultrapassando barreiras que o populismo barato opunha e os corporativismos míopes não admitiam. FHC (“Diários da Presidência”) assentou (1995) que a reforma mais urgente seria a da Previdência, mas teria a enfrentar o radicalismo corporativo! A cena se repete. Nada surpreende.
O texto que o eventual leitor acabou de ler veio a propósito da obra “O Homem que pensou o Brasil”. Agora, depois de três décadas, a reforma trabalhista, aprovada pelo Congresso, adotou os temas de projetos propostos pelo homem que pensava o Brasil, e que foram rejeitados na década de oitenta. Refiro-me a Roberto de Oliveira Campos.
Hoje, o tempo e a economia oferecem a sua conta implacável.
*Desembargador aposentado do TJ/RS
(Transcrito do Instituto Mises Brasil)
Em uma pequena cidade, há um padeiro famoso por fazer saborosos pães dos quais todo o povo da cidade gosta. Mas o próprio padeiro não se delicia com seus pães. Em vez disso, ele os vende para, em troca, obter o dinheiro que irá utilizar par comprar de terceiros tudo aquilo que ele realmente quer.
Todas as outras pessoas desta cidade fazem o mesmo: elas se especializam em produzir aquilo que os outros — inclusive o padeiro — desejam e demandam; em troca, utilizam a renda oriunda da venda destes seus produtos e serviços para comprar aquilo que lhes satisfaz, inclusive o pão do padeiro.
Esta rede de trocas e de produção especializada visando à satisfação de terceiros é exatamente a essência do mercado. Ela cria uma comunidade de produtores interdependentes cujos interesses estão alinhados de uma maneira geral: todos eles, conjuntamente, aumentaram seus esforços produtivos ao ofertarem, individualmente, um único bem ou serviço que está em alta demanda; e, ao agirem assim, melhoraram o bem-estar de todos.
Todos se beneficiam deste arranjo, uma vez que seus esforços produtivos são direcionados para aquilo que fazem melhor, visando a satisfazer as demandas de terceiros.
Porém, toda a harmonia deste arranjo é afetada quando há uma transgressão aos direitos de propriedade. Por exemplo, quando um ladrão invade a padaria e rouba vários bens do padeiro, ele está afetando negativamente a oferta de pães na cidade. Mais: ele também faz com que o padeiro fique incapaz de efetivamente demandar bens e serviços de terceiros.
Isso afeta várias pessoas, não só o padeiro: afeta todos aqueles que queriam comprar pão, mas agora não podem (pois a oferta de pães sumiu); e todos aqueles que esperavam vender seus bens e serviços para o padeiro, que agora está descapitalizado e não mais poderá comprar.
Tudo isso mostra que, sob um arranjo de livre interação e transação, é do interesse de todos que ninguém seja espoliado e fraudado. Afinal, a vítima do criminoso pode ser tanto um ofertante (estabelecido ou potencial) de bens e serviços que você deseja, ou um consumidor (assíduo ou potencial) dos bens e serviços que você produz.
Todos estão juntos, e todos são afetados se algo de ruim ocorrer com um deles.
Não é de se estranhar, portanto, quando vemos como, ao longo da história, as cidades se organizavam espontaneamente para lidar com a criminalidade. Roubar o padeiro era uma atitude que envolvia não só um ladrão e sua vítima; era um ataque sobre toda a comunidade. O assaltante, por meio de seus próprios atos, optou por não participar das interações espontâneas e voluntárias da comunidade. Ou seja, ele escolheu ser um pária.
A ordem de mercado e a civilização
Para se beneficiar deste arranjo de livre mercado, você tem de se engajar em atividades produtivas voltadas a satisfazer terceiros. Você não apenas tem de saciar as demandas presentes, como você também tem de saber antecipar corretamente as demandas futuras. Caso seja bem-sucedido, você terá acesso a todos os bens e serviços produzidos por terceiros para satisfazer você.
Como resultado, as transações comerciais aumentam nossa compreensão tanto dos membros da nossa comunidade como também dos estrangeiros com os quais transacionamos (seja de outra cidade ou de outro país). Este arranjo nos faz constatar que as outras pessoas são como nós. Mesmo falando outro idioma e seguindo outros costumes e tradições.
Esta é a essência da Lei da Say, também chamada de Lei dos Mercados, a qual diz que, no mercado, produzimos para satisfazer terceiros e, assim, podermos utilizar a renda auferida com essa transação para satisfazer nossos próprios desejos. Em outras palavras, nossa demanda por bens e serviços é possibilitada por nossa oferta de bens e serviços ao mercado. Para efetivamente satisfazer os desejos de outras pessoas, não apenas temos de saber nos comunicar com elas, como também temos de entendê-las. Caso contrário, estaremos desperdiçando nossos esforços produtivos e esperando resultados aleatórios.
A maioria das pessoas (exceto keynesianos e marxistas) consegue entender esta simples constatação sobre o mercado, e como ela contribui para a civilização e para as interações pacíficas. A rede de transações voluntárias alinha os interesses das pessoas.
Sob este arranjo de mercado, um eventual ladrão não está apenas roubando, espoliando ou enganando uma única pessoa ou família; ele está, com efeito, atacando toda uma comunidade de produtores interdependentes e toda uma rede ofertantes e consumidores.
Os efeitos do estado agigantado e assistencialista
Com a fulminante ascensão dos estados social-democratas ocorrida nos últimos cem anos, essas ligações — criadas pelo mercado — entre as pessoas foram arrebentadas.
Com o estado crescendo, empregando cada vez mais pessoas (com estabilidade e salário garantido), assumindo funções assistencialistas e redistributivas, e até mesmo escolhendo quem irá prosperar no mundo empresarial, um número crescente de indivíduos descobriu que é perfeitamente possível ganhar a vida e ser bem-sucedido sem ter de servir aos outros.
Em outras palavras, o estado tornou possível viver parasiticamente à custa daquilo que outras pessoas produzem — sem ter de, em troca, contribuir para a satisfação dos desejos e necessidades de ninguém.
À medida que cada vez mais pessoas não mais precisam de utilizar suas habilidades para satisfazer os desejos de terceiros, elas ficam desobrigadas de entender os outros: elas não mais têm nenhum incentivo para tentar aprender quais são os desejos e necessidades de terceiros, e não têm nada a ganhar com esse esforço. Em outras palavras, não há mais nenhuma interdependência.
Consequentemente, há menos motivos para se manter longe de comportamentos destrutivos. No setor público, a corrupção se torna rotineira e a certeza do "direito adquirido" se torna patológica; no assistencialismo, a inércia impera, também junto à sensação do direito adquirido; no mundo empresarial ligado ao governo, a ineficiência vira a regra.
É exatamente isso o que temos visto nas últimas décadas à medida que um estado crescentemente burocrático substituiu a sociedade civil por sistemas centralizadores, e definhou o livre mercado em prol do poder. E o problema é que, quando as pessoas param de aprender sobre as outras e param de tentar satisfazer terceiros, torna-se muito mais fácil recorrer ao conflito do que à cooperação.
Torna-se mais simples e rápido simplesmente exigir que o governo tome de terceiros e redistribua para você, imponha deveres a terceiros e garanta direitos para você, e provenha seu sustento (bancado por terceiros) independentemente de suas habilidades de servir aos outros.
Neste cenário, todas as outras pessoas acabam sendo vistas como obstruções à sua felicidade. Livrar-se delas irá aumentar sua fatia do (cada vez menor) bolo, e explorar a produtividade de terceiros para benefício próprio se torna um meio para a satisfação de seus objetivos.
Empreendedores também não escapam
E isso não ocorre apenas com as pessoas que vivem do assistencialismo ou da burocracia estatal, não. Lamentavelmente, cada vez mais vemos exemplos desse tipo de pensamento entre pequenos empreendedores que não se utilizam do estado e entre aqueles que querem ser empreendedores.
Eles abrem um negócio não com o objetivo de ganhar a vida satisfazendo terceiros — isto é, seguindo a Lei dos Mercados formulada por Say —, mas sim com o intuito de "fazer aquilo de que gostam". Trata-se de um estilo de vida ao qual muitos acreditam ter o "direito". Pior ainda, muitos atribuem seus fracassos empreendedoriais à "sociedade" que não o apoiou como deveria e que não valorizou aquilo que estavam ofertando ao preço que estavam cobrando. "Só fracassei porque o povo não deu valor ao meu esforço" é a justificativa corrente.
Isso é exatamente o inverso da realidade: ganhar a vida fazendo aquilo que lhe dá prazer é um privilégio que você poderá usufruir somente se você for bom em satisfazer terceiros com este seu "hobby". Se você sabe criar valor para terceiros, você ganha valor para si próprio.
Conclusão
Neste tipo de sociedade em que os laços entre as pessoas estão se enfraquecendo, não é estranho que elas considerem ingênua a ideia de uma ordem espontânea e descentralizada — que é a essência do mercado.
No mundo distorcido pelos incentivos perversos criados pelo estado, a livre concorrência não mais é vista como um esforço sólido e moral para mais bem servir aos outros, mas sim como um jogo de soma zero em que há ganhadores e perdedores, e em que há muito esforço para pouco retorno. Neste arranjo, quem estiver mais disposto pegar atalhos, viver legalmente à custa de terceiros, e até mesmo fraudar, mentir e enganar estará imediatamente em melhor situação.
Em outras palavras, os incentivos criados pelo estado são para destruir valor e priorizar ganhos de curto prazo, mesmo que estes venham à custa de grandes danos no longo prazo — afinal, no longo prazo, estes custos serão um problema dos outros. Isso é o exato oposto do conceito de civilização, e é algo que, se continuar assim, poderá se degenerar em algum tribalismo ao estilo O Senhor das Moscas.
Não é estranho, portanto, que as pessoas tenham dificuldades em entender o argumento de que o livre mercado — ou seja, a cooperação espontânea e voluntária das pessoas — gera harmonia se estamos vivendo em uma era em que o estado as alienou daquela interdependência produtiva explicada pela Lei de Say.
A cooperação espontânea e informal do mercado, que gera benefícios mútuos para todos os participantes, foi substituída por uma mentalidade estatista, a qual busca garantias e só as encontra no poder formal do estado.
* Consultor de negócios na Suécia e hoje é Ph.D em economia pela Universidade do Missouri e professor na Hankamer School of Business, da Baylor University, no Texas.
Faço desde já o alerta de spoiler para quem ainda não assistiu a este filme, até pelo fato de que, mesmo após a leitura desta análise, ainda valerá (e muito) a pena conferir esta raridade em meio a tantas obras cinematográficas de viés “progressista”. What Happened to Monday (Onde Está Segunda) desafia o padrão predominantemente esquerdista das produções hollywoodianas e lança um olhar crítico sobre o o dirigismo estatal justificado por catástrofes, questiona a prática do aborto e enfatiza o poder da família contra pretensões tirânicas.
Os fatos narrados nesta distopia futurística ocorrem a partir de uma forte escassez alimentícia provocada, supostamente, pelo aumento desenfreado da população mundial e pelo aquecimento global. Têm início, a partir daí, uma política governamental voltada ao controle de natalidade: cada mulher pode dar à luz apenas um filho.
Todos os irmãos dos primogênitos compartilham do mesmo destino: serem congelados por meio de processos criogênicos para que possam ser acordados somente no dia em que os problemas nutricionais na Terra tiverem sido equacionados – o Estado, naquele momento, está investindo pesadamente no desenvolvimento de formas mais avançadas de cultivo e produção de alimentos.
O diretor do filme, intencionalmente, informa aos espectadores sobre esta suposta situação caótica do clima no planeta – e suas consequências nefastas sobre a atividade agropecuária – por meio de reportagens veiculadas pela mídia tradicional. Ou seja, conhecendo o alarmismo infundado difundido por estes meios de comunicação, não há sequer como afirmar se de fato o cenário real seria aquele descrito pela imprensa.
O fato é que, uma vez convencida a opinião pública de que o mundo está desmoronando (tarefa que, na vida real, é empreendida incansavelmente), entra em ação a teoria malthusiana para justificar a criação do CAB (Child Allocation Bureau, ou simplesmente centro de alocação de crianças), órgão estatal que fiscaliza a vida de cada cidadão – inclusive fazendo uso de sistemas eletrônicos subcutâneos – a fim de impor a restrição de nascimentos por mulher.
Algo semelhante, portanto, à política de filho único adotada por Mao Tse-tung, a qual, após décadas de trágicos resultados, precisou ser aliviada por motivos econômicos: a taxa de fertilidade na China estava abaixo do nível de substituição (1,17) em 2013, prestes a gerar uma crise de mão de obra em idade laboral – eis o que Malthus não previu: uma maior quantidade de pessoas possibilita divisão e especialização do trabalho, dando origem a novos métodos mais eficientes de produção (inclusive de alimentos).
A dor de cabeça destes burocratas começa efetivamente quando Karen Settman engravida de sétuplos (todas meninas) e morre durante o parto. O avô das recém nascidas, então, resolve dar um jeito de enganar o governo: dá o nome de um dia da semana para cada uma delas, determina que cada qual só pode sair de casa naquele dia específico, e então elas devem assumir uma única identidade, escapando ilesas de serem capturadas.
E aí entra em cena a capacidade destas sete mulheres, trabalhando em equipe, derrotarem as pretensões estatais. Ela frequentam o colégio, graduam-se, atingem a idade adulta e conseguem destaque no banco onde trabalham, tudo em função da união de suas habilidades em prol de um objetivo comum: sobreviver. Sexta-feira é a mais inteligente, Quinta-feira a mais corajosa, Sábado é a mais sociável, Quarta-feira pratica artes marciais e defesa pessoal, e assim por diante.
Daí fica fácil entender porque regimes totalitários sempre buscam esfacelar os núcleos familiares: a cooperação mútua que os caracteriza é deveras nociva para a pretensão de dominação de cada aspecto da existência dos indivíduos. Orlando Figes, no livro Sussurros: A Vida Privada na Rússia de Stálin, revela:
“A família era o primeiro campo de batalha dos bolcheviques. Nos anos 1920, eles tinham por artigo de fé que a ‘família burguesa’ era socialmente danosa: auto-centrada e conservadora, era vista como um reduto de religião, superstição, ignorância e preconceito; estimularia o egoísmo e o consumismo, oprimindo mulheres e crianças. Os bolcheviques esperavam que a família desaparecesse à medida que a Rússia soviética se tornasse um sistema socialista pleno, no qual o Estado assumiria a responsabilidade por todas as funções domésticas básicas, fornecendo berçários, lavanderias e refeitórios em centros públicos e blocos de apartamentos.”
Não por acaso, a dramaturgia dos dias atuais, quando retrata conflitos familiares (a cada cinco minutos, no caso), privilegia cenas de adolescentes sendo desrespeitosos para com seus pais, e de pais humilhando-se perante seus filhos. Quanto mais instabilidade for gerada, melhor: menos provável que os membros desta família fortaleçam seus laços afetivos e reúnam, assim, condições para opor-se ao Estado (e à elite financeira que com ele anda de braço dado) ou mesmo possa abrir mão de seu auxílio.
Não que arranjos familiares sejam perfeitos e livres de desavenças. Como dizia o refrão do seriado A Grande Família, parentes “brigam por qualquer razão mas acabam pedindo perdão”. No filme em questão, é justamente uma traição da “ovelha negra” das sete gêmeas que revela seu segredo.
Eis que Nicolette Cayman, espécie de ministra responsável pelo controle populacional, ao tomar ciência do caso, resolve assassinar as irmãs, pois sabe que, caso venha a público a informação de que as Settman sobreviveram por tanto tempo valendo-se deste expediente, restará desmoralizada a própria política do filho único.
Claro que as irmãs não deixam barato e partem para o enfrentamento. Em sua luta pela sobrevivência, acabam por deparar-se com a revelação mais chocante do filme: as crianças que, segundo alegava o governo, seriam adormecidas por tempo indeterminado, eram, em verdade, incineradas em escala industrial.
Ou seja, o “Centro de alocação de crianças” é, em verdade, uma gigantesca clínica de eugenia, aos moldes daquelas mantidas (inclusive com dinheiro público) pela Planned Parenthood nos USA – especialmente nos bairros pobres e habitados predominantemente por negros. A instituição criada por Margaret Sanger e apoiada por Hillary Clinton pretende conseguir aprovação no congresso para realizar “abortos pós-nascimento”. Pergunta: qual será a diferença entre tais procedimentos e as cremações executadas no filme?
Aliás, a citada antagonista do enredo repete, em sua defesa, um mantra adotado frequentemente por abortistas: “As crianças não sofreram” (elas eram sedadas antes de serem reduzidas a cinzas). Convenhamos: quem defende o aborto com base neste argumento (de que o “feto” não sofre) precisa concordar com ela e absolvê-la, não? Tudo em nome de “uma sociedade perfeita”, como aquela almejada na Islândia.
Nicolette Cayman, em verdade, fazia-se notar como uma pessoa supostamente interessada no bem da humanidade (inclusive acusando de “egoísmo” quem se atrevia a ter mais de um filho), enquanto articulava, nos bastidores, sua ascensão ao cargo de primeira-ministra. Qualquer semelhança com os políticos que ditam nossos rumos não é mera coincidência.
Ao ser detida por seus crimes e ver sua lei eugenista revogada, ela dirige ao público a questão que mais revela sobre seu caráter (e dos gestores públicos em geral): “Quem vai tomar as decisões difíceis por vocês?”. Ou seja, não interessa a vontade popular (especialmente se ela contrariar os desejos da elite financeira e governamental); os tecnocratas e intelectuais ungidos é que sabem o que é melhor para o povo ignorante – e para ampliar este entendimento, nada melhor que imbecilizar as pessoas cada vez mais.
Faço aqui previsões das mais fáceis e manjadas: esta obra cinematográfica jamais será premiada, na medida em que é puro “gramscismo às avessas” – ou seja, introduz de forma velada conceitos que são a antítese da mentalidade dominante hoje nas universidades e no jornalismo. Receberá duras críticas a quaisquer defeitos de produção. E irá demorar muito até que o diretor Tommy Wirkola limpe sua barra com o politicamente correto…
(Publicado originalmente em https://bordinburke.wordpress.com)
Ao meu questionamento sobre a forma de parlamentares se queixarem da falta de atenção e carinho dos chefes de Poder Executivo, sem dizerem exatamente o que isso significa, um irmão mais velho respondeu narrando o constrangimento demonstrado por uma mulher de Patos, Paraíba, em razão de um homem lhe ter entregado o dinheiro do programa na frente de outros freqüentadores da casa de tolerância.
Quando o parlamentar reclama da falta de atenção a seus pleitos, não está querendo dizer que o Executivo travou algum projeto em benefício do povo, e sim que não atendeu sua lista de exigências pessoais, como cargos para parentes e amigos, coitadinhos, tão necessitados, e os lobbies que lhes garantem bons retornos financeiros.
O eleitor também contribui com sua parte, pressionando o político a buscar um jeitinho para seus interesses mais imediatos, como o pagamento de contas atrasadas.
Há também o político safado que manda seus eleitores explorarem determinado concorrente, como forma de exauri-lo antes do pleito começar, abandonando-o no meio do caminho.
Conheci na Bahia um deputado de esquerda que mandava sua turma entupir de pleitos os gabinetes dos parlamentares do partido, de modo a deixá-los ocupados, enquanto ele saía livre e solto pelo estado invadindo redutos e comprando votos com cestas básicas.
Há também os leiloeiros de apoio, que agem como os eleitores de antigamente, na época em que os chefes políticos podiam dar comida em dia de eleição. Comiam dos dois lados, a cada hora com uma camisa diferente, até estuporar.
Existe ainda o candidato pedinte, que arranca dinheiro de todos, prometendo dobradinhas, e não apóia ninguém. É mais conhecido como nota de 3 reais.
O fato é que, na hipocrisia generalizada em que vivemos, ninguém chama as coisas pelo nome certo, e a ética do prostíbulo manda passar o pagamento do programa escondido, por baixo da mesa.
Miguel Lucena é delegado de Polícia Civil do DF e jornalista.
* Publicado originalmente no Diário do Poder