(Publicado originalmente em http://www.gazetadopovo.com.br/blogs/alexandre-borges/2017/07/18/segunda-morte-de-isabella-nardoni/)
“A primeira função de qualquer sociedade é proteger suas crianças.”Ben Shapiro
A justiça brasileira acaba de autorizar a progressão de pena para regime semiaberto para ninguém menos que Anna Carolina Jatobá, 39. Ela é a madrastra de Isabella Nardoni, morta aos 5 anos ao ser atirada pela janela da casa do pai em 2008. O caso é daqueles em que toda a vileza da ideologização de extrema-esquerda do sistema penal e das leis brasileiras mostra a que veio.
Matar criança no Brasil de forma brutal e hedionda não dá, portanto, dez anos de prisão em regime fechado para o assassino se ele for maior de 18 anos. Se for menor, como você sabe, não dá praticamente nada. Anna Carolina Jatobá é branca e de classe média, não pertence a qualquer grupo de minorias tradicionalmente cafetinadas pelos justiceiros sociais, mas será beneficiada pelas leis criadas sob medida para quem a esquerda realmente gosta e protege: os criminosos.
As discussões sobre segurança pública no Brasil, intoxicadas por um esquerdismo esdrúxulo pós-modernista que, entre outras aberrações, condena o “punitivismo” e fala até em “abolicionismo penal”, estão na raiz do genocídio do seu próprio povo, incluindo as crianças. Um grupo de juízes e promotores de justiça recentemente lançou o Movimento de Combate à Impunidade para alertar a população sobre o papel nada louvável exercido pelo sistema penal, por acadêmicos e pelas leis do país na escalada da violência. É um pequeno passo na direção certa, mas a guerra pela retomada da sanidade e da racionalidade no debate ainda nem começou.
Anna Carolina Jatobá, que tem dois filhos com Alexandre Nardoni, foi condenada a 28 anos e 8 meses pelo assassinato da enteada, mas em menos de 10 anos já pode sair da prisão todos os dias para “trabalhar”, ver suas crianças e usar a penitenciária como hotel gratuito para pernoitar. Ela ainda terá direito aos famigerados indultos nos feriados.
Isabella Nardoni seria hoje uma adolescente de 15 anos, uma vida ainda toda por viver, mas seu assassinato brutal cortou esta história ainda no primeiro capítulo. Já Anna Carolina está sendo autorizada a retomar aos poucos a vida com o marido e os dois filhos. A mãe biológica de Isabella, Ana Carolina Oliveira, declarou que está “chocada, arrasada” com a progressão da pena da assassina da filha que nunca mais poderá ver. A assassina, com o beneplácito da justiça, poderá voltar a conviver com os filhos de 10 e 12 anos.
Enquanto lia esta notícia no celular, ouvi que a rádio BandNews FM anunciava uma série de reportagens sobre a população carcerária feminina do Brasil e das dificuldades das ex-detentas de conseguirem emprego. Num país com 15 milhões de desempregados, problema para arrumar emprego não é privilégio de assassinas ou sequestradoras, mas o jornalismo costuma ter prioridades e agendas bastante singulares. A BandNews FM poderia dar o exemplo entregando a creche da empresa para Anna Carolina Jatobá cuidar. A jornalista que fez a matéria pode testar a idéia com os colegas, fica a sugestão.
A morte de Isabella Nardoni aconteceu um ano depois do assassinato do menino João Hélio, arrastado por sete quilômetros pelas ruas do Rio, aos 6 anos de idade. Os assassinos de João Hélio também são elegíveis para o regime semiaberto e você poderá esbarrar com qualquer um deles a qualquer momento nas ruas. A lista de criminosos impunes ou soltos após crimes hediondos no Brasil é quase infinita.
O candidato a presidente que tiver uma proposta factível e sensata de combate ao crime e à impunidade tem chances reais de vencer a próxima eleição num país traumatizado pela violência e pela desvalorização quase que total da vida humana em função de uma agenda revolucionária que aposta no caos e na desordem para esgarçar o tecido social até que o caminho esteja aberto para um populista corrupto a autoritário, do tipo que pede a concentração imediata de poderes no executivo em troca do reestabelecimento da ordem, como se vê na Venezuela.
Os três direitos fundamentais e inalienáveis de qualquer indivíduo, mencionados na Declaração de Independência dos EUA, “vida, liberdade e busca da felicidade”, devem ser lidos necessariamente nesta ordem. “Vida” não aparece em primeiro por acaso. A população brasileira está sendo dizimada e o crime, cinicamente permitido.
O Brasil é uma aula diária do que é o “estado da natureza” hobbeseano e de como a mais importante função do estado, na verdade a única, que é a proteção da vida da população, está sendo negligenciada em nome de uma agenda política demoníaca. É um preço alto demais para idéias tão baratas.
Não se engane: o tema político mais importante do Brasil hoje é a segurança pública. Quem entender isso terá grandes chances em 2018.
( Publicado originalmente pelo Instituto Liberal)
No esforço por reconstruir nosso imaginário, por fornecer substância à nossa retórica, por reformular mentalidades, é usual que discutamos as abstrações e os princípios, indo dos grandes dilemas filosófico-políticos aos dados numéricos da economia. No entanto, os dramas mais concretos e pungentes nos arrastam de volta à dolorosa realidade, tão logo damos uma mera espiadela nos noticiários. Por mais patriotas que sejamos – e somos -, há instantes em que nos estupefazemos com a exposição às escâncaras do tanto que nos falta de civilização. Parece, então, que muitas das nossas querelas mais etéreas perdem seu peso.
Rompendo com a tradição desvirilizada de nossa imprensa, o jornal Extratomou uma decisão significativa que não merece passar despercebida. Sua linha editorial passará a incluir a expressão “guerra no Rio”. Os editores se justificam afirmando que “tudo aquilo que foge ao padrão da normalidade civilizatória, e que só vemos no Rio, estará nas páginas da editoria de guerra”. Afinal, “um feto baleado na barriga da mãe não é só um caso de polícia. É sintoma de que algo muito grave ocorre na sociedade. A utilização de fuzis num assalto a uma farmácia não pode ser registrada como uma ocorrência banal. A morte de uma criança dentro da escola ou a execução de um policial são notícias que não cabem mais nas páginas que tratam de crimes do dia-a-dia. A criação da editoria de guerra foi a forma que encontramos de berrar: isso não é normal! É a opção que temos para não deixar nosso olhar jornalístico acomodado diante da barbárie”.
Mais do que a atitude em si, o jornal conseguiu nos atrair pela preocupação que demonstrou. Como dizíamos, grandes princípios definidores, desafios técnico-econômicos, tudo isso é relevante na discussão social. Nossa gramática política, nossas apostas retóricas e estéticas, têm uma parcela de peso na explicação e solução de nossos problemas. Porém, precisamos fazê-las dialogar com a realidade concreta, objetiva, aquela que vivemos no nosso mundo real, aquela que experimentamos mais com os sentidos e as emoções que com a especulação intelectual – e é precisamente o que nem sempre é feito. Caso fosse, a eleição de prioridades seria diferente.
Estamos em crise econômica, sim; um desastre financeiro que os últimos governos nos legaram. Um desastre moral, um desastre simbólico, também – o que é tão ruim quanto, assim como de caráter mais primordial e matricial ainda na determinação dos nossos rumos. Porém, se, como qualquer conservador ou qualquer liberal de boa estirpe concordará, a vida é a esfera prioritária e sagrada a ser defendida, não há como não entender que o problema mais urgente do Brasil é a segurança pública.
Os sessenta milhares de homicídios por ano nacionalmente já fazem muito mais do que sugerir – escandalizam essa triste e sangrenta verdade aos olhos de qualquer um que ouse questioná-la. São números de uma autêntica conflagração.
A tragédia é nacional, mas uma comparação simples pode desenhar o drama vivido no Rio de Janeiro e que, como cariocas, experimentamos diretamente. Se no primeiro semestre 22 policiais morreram em São Paulo e 10 em Pernambuco, 85 pereceram por aqui. A esta altura já são quase 100. Se o cidadão já teme sair de casa, que dizer do agente da lei, daquele que exerce a função de lutar para proteger os demais, expondo ao risco conscientemente a própria integridade?
A sensação que nos toma é de que quase todos os dias o noticiário estadual informa a morte cruel de mais um policial, o golpe profundo em mais uma família. O coração do carioca de bem certamente pranteia os seus guerreiros – afinal, uma guerra é travada por guerreiros, e os nossos têm sido os policiais. A despeito de sofrer da precariedade em suas condições de trabalho, a despeito de compor os peões em estratégias de combate e políticas públicas de segurança mal concebidas, a despeito de enfrentar o luto ininterrupto e a inimaginável certeza de que ao menos algum dos seus não voltará para casa ao fim da semana ou do mês, a nossa polícia – não dizemos que não haja em seu seio os corruptos, os intratáveis, antecipamo-nos em observar – não cedeu às ondas grevistas que acometeram o Nordeste. Permanece lá, pronta a tentar nos defender, e acabar executada como gado pelos criminosos que estabeleceram o império do poder paralelo.
Os socialistas e esquerdistas de todos os gêneros, desde Brizola, são responsáveis pela calamidade que enfrentamos. Por isso, ainda que soem tão distantes da concretude do real, e possamos estar pecando até há algum tempo nas tentativas de demonstrar o contrário, a mudança de gramática e o combate à perversão ideológica são importantes. É preciso não mais tratar os que semeiam entre nós as desgraças mais horripilantes como os “coitadinhos” e vítimas do “sistema”, de quem cabe apenas se apiedar. É preciso não mais identificar a polícia como a vilã; é preciso entender que há um preço a pagar por nos termos permitido chegar até esta situação, e que só um histérico ou mal-intencionado se afoba em atacar as Forças Armadas quando elas meramente revistam um cidadão em uma operação de GUERRA. É preciso, em outras palavras, ter o senso da realidade. É por isso que a atitude do Extra é tão importante.
Nós todos, cariocas especificamente, brasileiros em generalidade, que pranteamos o derramamento de sangue dos filhos de nossa pátria e de nossa terra, temos esse senso de realidade? É natural que busquemos distrações, que não nos permitamos ficar paranoicos quando nos sentimos impotentes, que nossas vidas não se resumam a pensar nos problemas da nossa comunidade. Contudo, tão lícito quanto isso é perguntar: será que estamos fazendo tudo que podemos? Será que não deveríamos promover uma mobilização muito maior em favor de nossos policiais – o que significa, em última instância, em favor de nós mesmos, e do mais basilar direito de ir-e-vir?
A “naturalização” da barbárie assassina deve ter um limite, e parece que nós o ultrapassamos. Não nos excluímos pessoalmente da crítica. Deveríamos, como sociedade, reconhecer o mesmo que reconhece o jornal Extra. Deveríamos reconhecer que estamos em guerra contra a criminalidade. A cegueira voluntária do bom-mocismo não é alternativa preferível; ela nos desarma e nada faz além de nos tornar presas fáceis da tragédia de que nosso chão se tornou palco.
Chorar com as famílias dos policiais mortos é corriqueiro – e ser corriqueiro já retrata o quanto é absurdo; mas é pouco. Não pode ser tudo. Precisamos nos deixar sacudir do nosso torpor pelo senso da urgência. Não podemos abandoná-los. Precisamos, acima de tudo, de sabedoria nas eleições. Tanto em âmbito federal quanto em âmbito estadual e municipal, é preciso prestar atenção ao que os candidatos têm a dizer sobre segurança pública, ATÉ MAIS DO QUE ao que dizem sobre economia. O MAIOR problema do Brasil e do Rio de Janeiro, repetimos, É A SEGURANÇA. Nesta área, precisamos de providências de emergência, de reestruturação e, inclusive, da revogação do Estatuto do Desarmamento, o que só pode ser defendido por quem não tiver medo da patrulha dos “santinhos do pau oco”. Os candidatos que souberem compreender isso estão dando um passo mais longe do que os outros, porque falam diretamente ao que cala mais fundo em nossa gente.
O desemprego é terrível, mas sequer procuraremos emprego se não acordarmos no dia seguinte. Esta é a ameaça mais imediata, urgente, absolutamente prioritária, a um país e um estado cujos agentes de segurança estão pedindo socorro.
Notícias ruins (só para exemplificar!)
Ensino fundamental insuficiente; ensino superior financiado para quem só não pode ter tirado zero (pasmem!) na redação; saúde perfeita "no papel" ("O SUS é um exemplo para o mundo" LILS), mas sofrível na prática; segurança precária com recordes sucessivos de assassinatos em geral e de policiais em particular; tiroteios, balas perdidas; buraqueira crescente em ruas e estradas; déficits impressionantes nas contas públicas, metas que são aumentadas para fugir da responsabilização; gravações comprometedoras, e perdões injustificáveis; milhões de desempregados feridos em sua dignidade; novos escândalos a cada porta que se abre, a cada lata que se destampa...; falta de creches; roubo até da merenda escolar; compra de votos e consciências; milhões pra lá, bilhões pra cá, etc. e etc...
Corrupção institucionalizada!. Quando um deputado pelo qual até se "botaria a mão no fogo" confessa que recebeu doações em "caixa dois porque "é homem bastante para assumir seus erros", nos perguntamos: é essa a democracia tão sonhada? Nós, de qualquer matiz ideológico, que não participamos do poder, somos náufragos à deriva, esperando alguém em que possamos, ainda que sem confiança cega, votar e dizer que fizemos uma escolha consciente.
O cardápio e as promessas são sempre os mesmos, e, neste exato momento, nossos representantes reunidos em lautos jantares, estabelecem regras para as campanhas que nada mais objetivam senão a perpetuação no poder! Estarão decidindo quantos bilhões pagaremos para manter o status quo!
Estafa, esta é a sensação que me assola. Oxalá eu esteja equivocado e nas novas eleições possamos escolher certo para que tudo volte aos trilhos (Não... eu não bebi ...e nem fumei nada!). A continuar nesta toada, sentimos despertando em nós "os mais primitivos instintos"!
Tudo o que escrevi acima é perfeitamente dispensável, mas acho que muita gente, cansada, pensa como eu!
* Médico em Porto Alegre.
Roger Pinto Molina ficou 455 dias enclausurado numa sala da embaixada brasileira em La Paz
Morto nesta quarta-feira aos 58 anos, vítima dos ferimentos sofridos na queda do avião que pilotava, o ex-senador boliviano Roger Pinto Molina não conseguiu consumar o sonho de rever o país que teve de abandonar em 24 de agosto de 2013, depois de 455 dias enclausurado numa sala da embaixada do Brasil em La Paz. Mas ao menos viveu para ver o sepultamento da política externa da canalhice, criada por Lula e mantida por Dilma Rousseff, e a derrocada dos seus três carrascos.
Pinto Molina escapou do naufrágio na loucura, do mergulho definitivo na depressão e da pena de morte decretada por Evo Morales (com o aval dos poderosos comparsas da nação vizinha) graças à altivez de Eduardo Saboia. Sem pedir licença a um Itamaraty emasculado pelo sumiço da vergonha, o jovem diplomata o trouxe para o Brasil de carro, numa viagem balizada por perigos. Esses atos de bravura em território hostil custaram-lhe uma longa temporada na geladeira dos inimigos da pátria petista.
O ex-senador sobreviveu por três anos com a ajuda e amigos dispostos a desafiar a filial brasileira da comunidade bolivariana. Nesse curto período, a paisagem política mudou. Condecorado pelo governo Temer e devolvido à ativa, Saboia trabalha no gabinete do chanceler Aloysio Nunes. Lula tenta livrar-se da cadeia. Dilma foi despejada da Presidência e reduzida a nada. Morales é um lhama-de-franja em seu ocaso.
Os três carcereiros de Pinto Molina seguem vivos. Mas serão todos enterrados na cova rasa reservada a figurantes da história universal da infâmia.
(Publicado originalmente em www.pontocritico.com)
Que precisamos de uma reforma política, quase ninguém tem dúvidas. As reiteradas crises institucionais dão conta que o nosso atual sistema anda de mal a pior. Problemas de representatividade, campanhas caras, distorções geradas por “puxadores de votos”, o enfraquecimento dos partidos políticos, enfim, a lista de sintomas, que nos permitem concluir que o atual sistema possui muitas falhas, é grande.
COMEÇA MAL
O DISTRITÃO já começa mal, pois o próprio nome induz a uma associação ao sistema distrital. A unidade federativa toda é considerada um “único distrito” e a partir daí, elegem-se os mais votados, independentemente da proporção de votos obtida pela legenda partidária. Aparentemente, isso também não é de todo ruim, pois, afinal, nada mais lógico que os mais votados serem os eleitos.
DISCUSSÃO EM ALTA
Com essa discussão em alta, várias simulações têm sido realizadas a fim de se verificar quais seriam as composições das casas legislativas, caso o DISTRITÃO fosse o sistema vigente. Alguns estudos apontam queda abrupta nos índices de renovação. Outros, sugerem que poderia ser benéfico, pois atenuaria o efeito dos eleitos “puxados” por alguém “bom de voto”.
FALHA COMUM
Independentemente do estudo, todos eles partem de uma falha em comum: se o sistema em vigor fosse o DISTRITÃO, de nada adianta simular cenários de resultados. E a razão é simples: o DISTRITÃO traz consigo a necessidade de os partidos mudarem a estratégia de composição da nominata de candidatos. E nenhuma simulação, por melhor embasada que seja, consegue prever o resultado caso a relação de candidatos tivesse sido muito diferente.
INCENTIVO É CONTRÁRIO
No atual sistema, o proporcional de lista aberta, há um incentivo claro para que os partidos possam lançar o maior número possível de candidatos. Por menor que seja a densidade eleitoral de um determinado candidato, ainda assim ele colabora para que a legenda some votos e obtenha um maior quociente eleitoral. No DISTRITÃO, o incentivo é contrário: quanto menor a dispersão de votos, melhor para o partido e, sobretudo, para cada candidato. Se um partido acredita que tem potencial para obter 5 cadeiras, lançar 5, 6 ou 7 candidatos seria muito melhor para suas pretensões do que lançar 30 nomes. Sob o ponto de vista de cada candidato, melhor seria que ele fosse o único candidato da sua legenda. Enfim, o DISTRITÃO é um sistema que desestimula o surgimento de novos nomes nos partidos já estabelecidos. Os detentores de mandato seriam, naturalmente, candidatos naturais e a oferta de novos nomes passaria a ser uma opção de alto risco para qualquer legenda partidária.
CASUÍSMO
Ora, se o DISTRITÃO incentiva que partidos formem nominatas com poucos nomes, não resta dúvidas que estamos diante de uma reforma que tem por objetivo, única e exclusivamente, oferecer garantias para que os atuais detentores de mandato tenham um processo eleitoral com muito mais chances de êxito. Em um momento histórico, em que a sociedade clama por renovação e que muitos detentores de mandato precisam de foro privilegiado para se protegerem das grandes operações de investigação em curso (como a Lava-Jato), não há como não pressupor que tal proposta seja puro e simples casuísmo.
EFEITOS COLATERAIS DANOSOS
Além de ser claramente um obstáculo à renovação, o DISTRITÃO oferece, ainda, dois efeitos colaterais danosos:
• Enfraquece os partidos políticos: ao colocar o candidato como figura central da eleição, o DISTRITÃO estimula o personalismo e enfraquece os partidos políticos. Em sendo uma eleição majoritária, o “dono” do voto é o eleito e não mais o partido.
• Intensifica os problemas de falta de representatividade: no sistema proporcional, por mais que um determinador eleitor tenha votado em alguém que não se elegeu, ao menos ele ajudou a eleger a bancada do partido que recebeu o seu voto. Analogamente, se um candidato tenha recebido muito mais votos do que o necessário para se eleger, o seu excedente de votos auxiliou a trazer alguém identificado, presumidamente, com suas ideias. No DISTRITÃO, o voto de quem não elegeu ninguém ou que excedeu o mínimo necessário é simplesmente descartado.
ARGUMENTO FALACIOSO
Um ponto destacado pelos defensores do DISTRITÃO é a eliminação completa dos “puxadores” de votos, artifício largamente utilizado pelas legendas pequenas. Quem não lembra do Deputado Enéas Carneiro que com os seus 1,5 milhão de votos acabou levando para Brasília seu colega com menos de 400 votos? Este é, na verdade, apenas um dos diversos aspectos negativos do sistema proporcional de lista aberta. Porém, a última minirreforma eleitoral propôs um dispositivo atenuante, que já esteve vigente na eleição para vereadores de 2016: desde então, o candidato que não obtiver 10% do quociente eleitoral estará automaticamente eliminado da disputa. Logo, o argumento em questão é falacioso.
DISTRITAL NADA TEM A VER COM DISTRITÃO
Um país com dimensões continentais como o Brasil carece de um sistema que aproxime seus eleitos dos seus eleitores. Hoje, um deputado se esconde atrás dos seus “200 mil votos”, que ninguém sabe de onde vieram. Temos um sistema sujeito a atuação de grupos organizados de pressão, que elegem bancadas e que desprezam a ideia básica que deve estar por trás da representação: a geográfica. Precisamos de um sistema que faça com que cada cidadão saiba quem é o seu representante, mesmo que não tenha recebido o seu voto. Além do mais, necessitamos de um sistema que atenue a importância do poder econômico nas campanhas eleitorais. Esse sistema tem nome: é o DISTRITAL, que nada tem a ver com o DISTRITÃO!
(Publicado originalmente no Correio Braziliense)
A Operação Lava-Jato foi além do desmanche do maior esquema de corrupção já desvendado no Brasil. Fez ruir um projeto continental de poder que uniu o PT, a Odebrecht e outras empreiteiras no financiamento de campanhas políticas de esquerda e investimentos bilionários em Cuba. Fui testemunha do nascimento deste projeto em 1994, como enviado especial do Correio Braziliense ao Uruguai e Argentina para apurar as conexões do PT com a esquerda latino-americana para a criação de uma multinacional da política no continente com o nome fantasia de Foro de São Paulo. A entidade foi viabilizada pelo ex-secretário de Relações Internacionais do PT, Marco Aurélio Garcia, morto em 20 de julho, embora a fama pelo empreendimento tenha ficado com Lula.
A meta do Foro, criado em junho de 1990, era combater o neoliberalismo e criar uma hegemonia partidária e ideológica na América Latina, elegendo parlamentares e governantes. Chamava a atenção, durante a apuração da reportagem, o profissionalismo com que o projeto era conduzido. A comunicação exibia unidade de linguagem, com deputados e dirigentes sindicais de vários países afinados no mesmo discurso. Conforme o projeto avançava e governos iam sendo conquistados, como aconteceu no Brasil em 2002 com a eleição de Lula, surgia explosiva a mistura de ideologia, corrupção com a *compra dos adversários* — como ficou evidente no mensalão e depois na Lava-Jato — e enriquecimento pessoal.
Hoje ficou comprovado que a Odebrecht funcionou como braço financeiro do PT para viabilizar um projeto de poder com a eleição de políticos ligados ao Foro de São Paulo. Em troca, a empreiteira reinaria absoluta, como acabou acontecendo em vários países. Ao desbaratar o esquema de corrupção controlado pelo PT, a Lava-Jato lançou luz sobre o avanço do Foro de São Paulo no continente e o papel de arrecadadora e distribuidora de dinheiro da Odebrecht, oferecendo aos parceiros do partido marketing político de primeira linha — inicialmente com Duda Mendonça e depois com João Santana —, plano de governo com obras caras e assessoria para o financiamento dessas obras, muitas das quais receberam recursos do BNDES.
Em junho de 1994, recebi um telefonema do advogado paulista José Carlos Graça Wagner, que me deu detalhes sobre o Foro de São Paulo. Ele jurava que o Foro, criado pelo PT, tinha a finalidade de integrar a esquerda latino-americana e financiar a eleição de Lula e outros líderes latino-americanos e até africanos. Investiguei o assunto e confirmei a história. Marcamos uma conversa no escritório de Graça Wagner, em São Paulo, na Alameda Canuri, 72, Indianápolis.
Anticomunista ferrenho, beirando os 70 anos, elegante, inteligente e culto, Graça Wagner sabia tudo sobre o Foro de São Paulo: "Eles não querem vencer só no Brasil, querem o poder em toda a América Latina. Pretendem financiar esse projeto com *dinheiro público*". Deu nomes, datas e uma informação surpreendente para aquela época: dirigentes do Foro em outros países estavam conectados com o PT de São Paulo por uma rede internacional de computadores.
Fui para o Uruguai e consegui confirmar a história de José Carlos Graça Wagner. Cheguei até o deputado Jose Bayard, da Vertente Artiguista da Frente Ampla. No seu gabinete no Congresso, *havia um computador ligado em rede com São Paulo, pelo qual se comunicava com a direção nacional do PT em tempo real. "Vamos ampliar isso", garantiu o deputado. Fiquei impressionado. Numa época em que os celulares eram uma novidade caríssima e a internet engatinhava, uma rede privada internacional de computadores era algo no mínimo ousado*.
Apurei que os Tupamaros, movimento guerrilheiro atuante durante a ditadura uruguaia, sabiam de onde vinha e onde estava guardado o dinheiro do Foro de São Paulo. Depois de uma negociação difícil, fui avisado que me procurariam no meu hotel. Dois dias depois, na esquina da avenida 18 de Julio com Calle Yaguarón, por volta das 11h30, um Citroen 2CV, com dois homens jovens me recolheu. Sentei atrás. No caminho me explicaram que a fonte conversaria comigo num bar, mas não poderia perguntar seu nome, anotar e nem registrar o endereço. Pediram que eu me abaixasse naquele banco apertado. Rodaram mais uns 10, 15 minutos. Pararam. Havia um bar acanhado, uma portinha. Mandaram que eu entrasse e fosse até os fundos. Entrei. Ele estava lá. Barba de dois, três dias, óculos escuros, cara redonda, japona de lã preta, cabelos grisalhos, gordinho. Na mesa, um solitário copo de vinho tinto. Fez sinal. Sentei. Foi logo falando: "O dinheiro deles vem de Cuba e também de doadores de campanha aqui do Uruguai e de outros países. Eles têm uma conta em dólares no Citibank em Montevideo. *Quando precisam de dinheiro vivo, sacam e atravessam a fronteira por Rivera ou qualquer outro lugar por onde possam passar de carro ou a pé sem despertar suspeitas e sem correr o risco de serem roubados. Sempre usam seguranças quando precisam transportar dinheiro para o Brasil. São pacotes de dólares. É tudo o que eu sei*". Tentei argumentar, pedir mais detalhes, queria saber quem administrava a conta, mas o homem não quis conversa: "É tudo o que posso dizer". Voltamos e fiquei no mesmo ponto da 18 de Julio. Chovia e fazia frio. Era uma informação importante, mas impossível de ser checada, tanto que não publiquei. Só agora, com os resultados da Lava-Jato, decidi revelar.
Cheguei em Buenos Aires no dia 21 de julho. Nas conversas com os argentinos, consegui aprofundar bastante a apuração. Conversei com os deputados Graciela Fernandez Meijire e Carlos Chacho Alvarez; Jorge Kreyness, dirigente do Partido Comunista da Argentina; e sindicalistas como Víctor de Genaro, da Central dos Trabalhadores da Argentina. Todos apostavam firme na eleição de Lula e na integração da esquerda latino-americana. Para Kreyness, o papel do Foro de São Paulo era uma frente de esquerda organizada com "unidade na adversidade".
O mais incrível é que, ao longo dos últimos 23 anos, o projeto de poder do PT e da esquerda latino-americana *avançou sem qualquer reação dos adversários, seja por falta de informação e capacidade de articulação, por terem subestimado o partido e seus aliados ou ainda porque, como revelou a Lava-Jato, boa parte destes adversários foram comprados* pelo esquema de suborno envolvendo o mensalão, a Petrobras, financiamentos do BNDES e outras fontes de dinheiro público, exatamente como denunciou José Carlos Graça Wagner, morto em 2006. Presidentes de vários países tiveram sua propaganda política, obras e planos de governos financiados com recursos do Tesouro, empresas e bancos públicos, numa farra de 13 anos que jogou o Brasil na pior crise econômica e política da sua história e cujas consequências se tornaram imprevisíveis.
* Jornalista