1. Quando alguém diz que o bem e o mal não existem, ou que é preciso deixar de lado "esse maniqueísmo" e "essa moral cristã", já sei de quem se originou a conversa. Dele mesmo. O cara que deseja levar você para o inferno começa sempre por afirmar que o inferno não existe.
2. E, no entanto, o mal existe. Não só existe, como está solto no mundo. A boa notícia é que nós temos uma maneira de se defender dele: o cultivo da nossa própria consciência individual.
Ela é como um jardim, que deve ser constantemente regado, podado, cuidado. Os dois modos que você tem para cuidar deste jardim — que é você mesmo — são a cultura e a religião.
No fundo, trata-se da mesma coisa: a grande literatura e a tradição sagrada se equivalem a ponto de um escritor como Northrop Frye sustentar que todas as obras da literatura ocidental — todas, sem exceção — têm origem nos textos bíblicos. Mesmo Sade. Mesmo Nietzsche. Mesmo Henry Miller.
3. O diabo não quer que você cultive o seu próprio jardim. Ele quer você reduzido a um autômato, a um escravo totalmente desprovido de imaginação. Porque o mal só triunfa quando a maioria das pessoas não tem repertório intelectual para imaginá-lo. O diabo não quer que você conheça a verdadeira história dos ditadores e dos revolucionários (que frequentemente são a mesma pessoa).
4. Os dois grandes males do mundo contemporâneo — o globalismo e o socialismo — promovem o mal de maneira tão extrema e absoluta que se tornam inimagináveis. Assassinato, aborto, eugenia, eutanásia, tráfico de drogas, censura, destruição da família, ideologia de gênero, lavagem cerebral das crianças e jovens, mentira midiática, ateísmo obrigatório, relativismo moral, corrupção avassaladora — tudo é justificado em nome da conquista e manutenção do poder por uma elite criminosa.
5. Tudo que existe na realidade existiu antes na alta literatura ou nos textos sagrados. Os genocídios do século 20 — que superam o de todos os outros séculos somados — já estavam no Livro do Gênesis, nos Salmos, no Livro do Apocalipse, na Divina Comédia, nos Lusíadas, em Hamlet, em Macbeth, em Guerra e Paz, em Os Demônios, em Crime e Castigo, em The Waste Land, em Mensagem, em Os Sertões, em Triste Fim de Policarpo Quaresma, em O Processo, em Claro Enigma, em Admirável Mundo Novo, em 1984, em Os Rinocerontes, em Arquipélago Gulag...
6. O que está acontecendo agora na Venezuela — e que as forças do mal desejam fazer também no Brasil — é apenas uma repetição de processos revolucionários que ocorreram na Rússia, na Alemanha, na China, no Leste Europeu, no Camboja, em Cuba. Algo que já está em franco avanço na Europa e luta para conquistar os Estados Unidos. É o governo mundial, a ditadura internacional sonhada por Lênin, Hitler, Mao, Stálin e Trotsky. Esse mundo pode ter dois nomes: Getsêmani ou Jardim das Aflições.
7. Volto a dizer: só a cultura literária e a fé religiosa podem nos salvar do mal absoluto. Cuidemos do jardim de nós mesmos, para que os fazedores de deserto não venham a devastá-lo.
Fale com o colunista: avenidaparana @ folhadelondrina.com.br
(Publicado originalmente na Folha de Londrina)
Há alguns dias atrás, Promotores de Justiça, acompanhados de alguns Delegados de Polícia, advogados e um Juiz de Direito, lançaram ao povo um manifesto com o destaque a que "você está sendo enganado", dando conta de várias situações de reformas legislativas e da própria aplicação das leis estão a fomentar mais impunidade e mais violência nas ruas.
Foram usados dois termos que não são novos, mas muito significativos, na referência ao trato da questão criminal brasileira, que são "bandidolatria e democídio". O primeiro, resumidamente, trata da idolatria e glamourização dos criminosos, coisas tão praticadas no Brasil. O segundo, da democratização dos assassinatos e latrocínios, que levam hoje mais de 60 mil brasileiros ao ano à perda precoce da vida. Todos temos "direito" (ou para alguns "dever") a sermos a próxima vítima.
A reação bandiólatra e democida foi imediata. Lênio Streck - ex-membro do Ministério Público Gaúcho, hoje advogado de réus acusados de crime contra o patrimônio público nas altas cortes nacionais - escreveu um texto onde, após muitos autoelogios e uma aura de superioridade por serviços prestados (99% administrativos - não tem 10% de efetiva atuação na esfera do Direito Penal que tem o mais novel dos manifestantes), afirma que o manifesto desrespeita advogados, professores e Juízes, nega a realidade do "super encarceramento", que os Promotores assinantes tem "posição prévia contra qualquer garantia", "querem que os professores ignorem a ciência e dois mil anos de conquistas", que pretendem criar a "presunção de culpa", que a prisão deve ser reservada apenas para os "réus perigosos" e que devemos ter cuidado com "discursos populistas".
Não se admite aqui que o eminente professor não tenha lido o manifesto ou que não saiba interpretar a língua portuguesa, tal qual a própria turba que ele tem por ignorante. O manifesto em momento algum critica os advogados, por compreender que estes estão na função de defesa. Onde ele leu crítica aos advogados no reclame dos 300 (reunidos em três dias - o que ele acha pouco)? Onde ele leu que se pretende suprimir todas as garantias dos réus, se o manifesto é claro em dizer que pretende fazer valer o direito das vítimas e "não só dos algozes" (portanto, em interpretação meridiana, também respeitando as garantias dos algozes)? Onde está no manifesto uma letra contra a presunção de inocência, o contraditório, a ampla defesa e o devido processo legal?
Qual a ciência e avanço da humanidade explica que no Brasil se pode cumprir uma pena de homicídio em regime semiaberto ou de peculato com prestação de serviços à comunidade? Quais os presos "não perigosos" ele quer desencarcerar em um sistema que pune apenas 5% dos crimes hediondos e encontra-se lotado em mais de 90% de assassinos, latrocidas, estupradores, traficantes e assaltantes (não hediondo mas gravíssimo)? Qual o sentido de dificultar ainda mais as condenações no Tribunal do Júri, retirando dos autos o inquérito policial, e exigindo cinco votos condenatórios ao invés de quatro, em um país que condena menos que 1 assassino em cada 100 mortes praticadas?
Isso é democracia? Quem se opõe à impunidade é populista?
Em que mundo vivem os bandidólatras e democidas? Não enxergam, não ouvem e não conseguem fundamentalmente sentir as dores de um povo massacrado pela brutalidade dos crimes de sangue e espoliado pelos bandidos do "white collar"?
Paro por aqui. Há quem diga mesmo que toda esta maquiagem científica não passa de interesses e que a conta corrente e o ego em glória sejam as reais razões bandidólatras e democidas.
Farto com o estado de anomia a que foi reduzido o País, um grupo formado por mais de 300 Promotores de Justiça, Juízes de Direito, advogados e policiais lançou um manifesto intitulado “Você Está Sendo Enganado”. O mote do documento é a denúncia do ciclo democida promovido pelo Estado brasileiro, mediante sucateamento das forças policiais (que tiveram suprimida a capacidade de reprimir e investigar os crimes) e desmantelamento doloso do sistema penitenciário, seguidos da denúncia de sua ineficácia e oferta – a título de solução - de uma legislação ainda mais leniente e do desencarceramento de delinquentes perigosos.
O manifesto (ao qual tive a honra de aderir como signatário) ensejou diferentes reações: apoio e adesão, ostentações constrangedoras de covardia (travestidas sob as formas do bom-mocismo auto-indulgente, prudência e ponderação) e last, but not least, ataques de fúria histérica, mediante utilização de surrados expedientes da dialética erística, notadamente falácia do espantalho e ataque ad hominem.
O emprego de artifícios ignóbeis num debate de tamanha relevância não chega a ser motivo de surpresa, quer pela natureza e formação daqueles que o fazem, quer pela ingrata posição que ocupam na contenda. Dito de outro modo: não são necessárias muitas luzes para perceber que num País onde sair às ruas é, estatisticamente, um ato de coragem, soaria estranho qualificar o manifesto como alarmista. Por mais escasso que seja seu contato com a realidade circundante, os apologistas da impunidade são capazes de intuir que 60 mil homicídios por ano (sim, somos campeões mundiais em números absolutos) são algo que não pode simplesmente ser varrido para debaixo do tapete. Não por humanidade, mas por instinto de preservação pessoal, mesmo o mais jejuno dos apóstolos da bandidolatria percebe que diante dos cerca de 800 mil assassinatos (o equivalente à população de João Pessoa-PB) cometidos apenas nos últimos 15 anos (dos quais nem 10% resultaram em denúncias), dizer que “tudo vai bem” pareceria deboche. Ignorar a existência de 130 estupros registrados diariamente no Brasil poderia soar, como direi, algo misógino, sendo igualmente insano ignorar de forma explícita os mais de 985 mil roubos contabilizados numa totalização realizada no longínquo ano de 2011 (certamente a situação atual é bem pior).
Ruminando sua fúria impotente diante da veracidade apodíctica do conteúdo do manifesto, restou aos seus detratores a desesperada tentativa de transformá-lo num espantalho (afirmando que ele “fere garantias”) ou atribuir aos seus signatários algum rótulo infamante, a fim de neutralizar de antemão a discussão sobre a matéria de fundo, através da desmoralização preventiva e irremediável do inimigo. Foi exatamente isso o que fez a defensora pública Tatiana Kosby Boeira - em artigo publicado no jornal Zero Hora em dia 11 de agosto de 2017 - ao lançar mão da famosa “Lei de Godwin” e equiparar os signatários do manifesto a membros do movimento nazista. Como tudo que é ruim sempre pode piorar, a manifestação da defensora, até então um espasmo isolado de obtusidade presunçosa, rapidamente ganhou caráter institucional ao ser replicada pela Defensoria Pública do Estado do Rio Grande do Sul.
Causa horror e espanto o fato de que, em seu furor difamatório, defensora e Defensoria pareçam não haver percebido a gravidade da comparação realizada. Ao atribuírem aos signatários do manifesto a condição de nazistas, equipararam, ipso facto, milhares de vítimas inocentes do holocausto a estupradores, assassinos e latrocidas da pior espécie! As vítimas do nazismo, segundo essa visão, não merecem ser comparadas aos pobres inocentes abatidos como gado todos os anos no Brasil, mas sim aos seus algozes! A memória dos heróis, santos e mártires da resistência ao nazismo foi lançada no mesmo esgoto onde habitam as reputações de facínoras sanguinários: Viktor Frankl, São Maximiliano Kolbe e Anne Frank restaram reduzidos ao mesmo patamar moral de figuras como o goleiro Bruno, o Maníaco do Parque e Suzane Von Richtofen!
O banho de sangue vivido no Brasil é consequência direta dessa falta de senso de realidade e de proporções. A reação intempestiva e irracional ao manifesto corrobora seu teor e chancela o alerta emitido, mostrando que a autora do artigo - junto com outros tantos - incorre no radicalismo e cegueira ideológica que alega denunciar. O General Dwight D. Eisenhower - que viria a se tornar o 34° Presidente dos Estados Unidos – afirmou jamais haver sofrido choque semelhante ao de sua visita a um campo de concentração na cidade de Gotha, em 12 de abril de 1945. Na ocasião determinou que o horror presenciado fosse objeto de amplo e detalhado registro pela imprensa, temendo que, um dia, idiotas viessem a negar a existência do holocausto. O velho “Ike” só não contava com a possibilidade de que no futuro alguém fizesse tão pouco caso dele.
(Publicado originalmente em Zero Hora)
Os gregos, mesmo não tendo inventado a cidade, perceberam nela um espaço comum e plural que exige uma técnica especial de organização: a política. Resultante da combinação dos termos "Pólis" (cidade) e "Tecné" (arte), a política é, por definição, a "arte da cidade".
Já os romanos afirmaram uma natural resistência da vida privada frente à cidade. Essencial para a liberdade, a separação entre público e privado foi uma das maiores obstinações do liberalismo que afirmou como princípios a oposição entre sociedade e Estado e a limitação da política ao ambiente público.
Na contramão, ideologias totalitárias como o comunismo e o nazismo têm como tática traiçoeira vazar o público para o privado, rompendo a barreira de contenção da privacidade. Público e privado se opõem. O ambiente público é por natureza plural, o ambiente privado é essencialmente hegemônico. É por isso que Hannah Arendt afirma que a família é antipolítica por excelência. Ela é a última trincheira da liberdade em face da própria política. A estatização da vida privada é um movimento nefasto que leva, por exemplo, ao domínio das ideologias no ensino e a à sujeição da educação dos filhos à política. Não teve recentemente uma procuradora que falou que os filhos não pertenciam aos pais, mas ao Estado? Na família não existem petralhas ou coxinhas, mas apenas irmãos e irmãs. Sua natureza é o amor, a solidariedade e a comunhão. Politizá-la é destruí-la.
Há uma tendência do senso comum de afirmar a política como uma arte de utilidade geral. Perigoso engano. Na vida privada, as relações são privadas, assim como nos negócios elas são comerciais e, no foro, são jurídicas. Hannah Arendt descreve tal confusão como crise do conceito. Quando um conceito serve para tudo, ele não serve para mais nada. E é aí que reside a vitória do totalitarismo: a morte da política. Pretender que ela seja tudo em todos é decretar o seu fim. O fim daquela arte do diálogo que pressupõe a natureza plural do espaço público e do próprio pluralismo em si.
* Advogado, professor universitário e vereador em Porto Alegre
Desde o início de 2016, a Universidade do Estado do Rio (Uerj) se tornou o reflexo da derrocada do serviço público no estado. Não pelos servidores, mas pelas condições de trabalho imposta a eles. O EXTRA conversou com quatro docentes da universidade, que somam prêmios e titulações internacionais, para saber de cada um o sentimento frente ao atraso dos salários — maio e junho não foram pagos, além do 13º de 2016 —, os problemas estruturais da universidade e o futuro nada promissor. Nesta semana, por sinal, a reitoria da universidade suspendeu o ano letivo até o fim de 2017.
Diretor do instituto de Geografia Hindenburgo Francisco Pires, de 60 anos, 27 deles dedicados à Uerj, teme pela representatividade alcançada pela instituição ao longo dos últimos anos em função da dedicação dos servidores.
— A gente vê tudo o que construímos desmoronar. Os investimentos ao longo dos anos em pesquisa estão sucumbindo . A universidade conseguiu ser referência no país, e fora dele, pelo corpo acadêmico — lamentou o diretor.
Docente do Programa de Pós-Graduação em Educação, Stela Guedes Caputo, de 50 anos, traduz o sentimento de muitos outros servidores.
— Sinto revolta. Trabalhamos muito para nos constituirmos professoras, uma formação que não é fácil, é longa e dispendiosa. Não podemos chegar agora, já nessa altura da vida e pensar como recomeçar — desabafou.
A primeira reação ao ler essa reportagem é sentir um misto de pena e revolta. Mas logo depois a razão vai dominando as emoções, quando lembramos que a Uerj tem sido um antro de doutrinação ideológica, ao lado de quase todas as federais e estaduais do Brasil. Tomadas por militantes esquerdistas disfarçados de professores, essas universidades se transformaram em palco para todo tipo de proselitismo ideológico e partidário, inclusive cometendo crimes para tanto.
Alguém poderia questionar: “Ok, entendo perfeitamente sua revolta, mas e os professores em particular, vão todos pagar pelos erros de alguns?” Pergunta legítima, claro. Não podemos generalizar. Ocorre que nesse ambiente só os que aceitam jogar o jogo avançam. É raríssimo ver professores de fora do “sistema” construindo carreiras promissoras, até porque os responsáveis pelas promoções são também marxistas em sua grande maioria.
E, surpresa!, parece ser justamente o caso dos quatro docentes entrevistados pelo jornal. Everton Rodrigues, do Students For Liberty Brasil, fez uma pesquisa pelos perfis deles, e eis o que encontrou:
O Jornal Extra fez essa matéria entrevistando 4 professores da UERJ, que estão em situação triste, sem salários e sem perspectiva de melhoras.
Aí eu fui procurar um por um esses professores no Facebook. Hindenburgo Francisco Pires, compartilha video do Jean Wyllys. Stella Guedes Caputo tem fotos em Cuba no monumento do Che Guevara. Bruno Sobral tem várias fotos em protestos de esquerda e compartilha postagem do sites aliados à esquerda. Inês Barbosa Oliveira tem foto da Dilma no perfil e logomarca do PSOL50, fora aquele papo todo de governo golpista.
Resumo da ópera: Não dá pra ter dó, não consigo. Passaram a vida toda pedindo Estado grande, intervencionismo, gastos exagerados em todos os setores do governo, militaram contra políticas de austeridade e responsabilidade financeira. Acharam lindo ver governos durante anos usando a máquina pública como bem queriam, sem limites, e ainda atacavam o capitalismo que é o grande meio de produção de riqueza, unico meio que sustenta um Estado.
Tudo o que é gasto eles apoiam freneticamente (SUS, PAC, Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida, FIES, ProUni, Ciências Sem Fronteiras, bolsa isso, bolsa aquilo, auxílio disso, auxílio daquilo, concurso desse, concurso daquele outro, Copa, Olimpíadas, etc etc) e na outra ponta tudo o que é meio de fazer economia ou gerar caixa eles são contra ( Reforma previdência, privatizações etc), e também nunca acharam grande problema os prejuízos recorrentes de estatais como a Petrobrás, Eletrobras e Correios. É como se o dinheiro caísse do céu.
Agora que tudo ruiu, que tudo veio abaixo, que o sistema faliu e sobrou dívida pra todo canto, agora ficam de choro com cara de criança que colocou o dedo na tomada e se arrependeu. Só que esses são adultos, acadêmicos, educadores… É triste, mas é bem feito. O pior de tudo é que nem assim aprendem, nem assim….
Ideias têm consequências. Quem planta vento colhe tempestade. Não dá para ficar pregando o socialismo a vida toda, aplaudindo aumento de gastos públicos, condenando privatizações, atacando o livre mercado, defendendo mais impostos, e depois reclamar quando a grana acaba. O socialismo dura até o dinheiro dos outros acabar. E ele sempre acaba sob tal mecanismo perverso de incentivos.
Já alertei aqui várias vezes que mesmo os funcionários públicos, da classe claramente privilegiada em nosso país, deveriam defender mais capitalismo, reformas estruturais e redução do estado, ainda que à custa de alguns benefícios. É que se o peso dos parasitas ficar demais para os hospedeiros, todos saem perdendo, eventualmente até os parasitas. Se matarem a galinha dos ovos de ouro (capitalismo), matam também os ladrões de ovos de fome (socialistas).
(Publicado originalmente em http://www.gazetadopovo.com.br/rodrigo-constantino/artigos)
(Publicado originalmente por https://bordinburke.wordpress.com)
Cena: Prisão de Shawshak. Manhã. Ao proceder a contagem dos prisioneiros, um problema: um deles está faltando. Andy Dufresne, condenado à prisão perpétua por matar a sangue frio a esposa e o amante dela. Ninguém sabe como Andy desapareceu. Ele estava em sua cela na noite anterior.O diretor do presídio, Samuel Norton, ao verificar pessoalmente a cela, se irrita com a fuga. Acaba descontando sua raiva em um poster de Rita Hayworth o diretor descobre que Andy escavou um túnel na parede de sua cela. Por cerca de quase 20 anos, Andy trabalhou discreta e silenciosamente… Livrando-se dos entulhos, pouco a pouco.
Esta cena do filme “Um Sonho de Liberdade” (The Shawnshank Redemption, 1991) se tornou um clássico porque, àquela altura do filme, já havíamos nos acostumamos à ideia de viver na prisão. Já estávamos, juntamente com Red (Morgan Freeman) e Dufresne (Tim Robbins), acostumados com aqueles muros. “Institucionalizados” como dizia Red Vimos o que aconteceu com quem tentou sair de lá. A sensação de segurança fala mais alto. E quando já estamos prontos para ver Andy Dufresne velhinho na prisão, vem o soco no estômago com a reviravolta. Todo o filme passa a ter um novo significado. O que antes era para ser a luta de um homem para sobreviver na prisão, passa a ser um filme sobre fuga inesperada e o resultado de seu paciente trabalho.
Este certamente é o maior, melhor e mais redentor¹ plot twist da história do cinema, superando inclusive os “Guerra nas Estrelas”, “Clube da Luta”, “Planeta dos Macacos” e “Psicose”. E, no filme, ela foi brilhantemente sintetizada na voz de Morgan Freeman, narrador da história, quando ele diz:
Geologia é estudo da pressão e do tempo. E na verdade, isso é tudo o que precisamos: pressão e tempo. (…) O hobby de Andy era talhar a sua parede e espalhá-la pelo pátio, um punhado de cada vez.
Não se foge de um presídio da noite pro dia, sem um plano elaborado e trabalhado por meses. Não importa o que o Sylvester Stallone diga, não é assim que funciona. Talvez esse seja o maior acerto do filme, ensinar que na vida o sucesso depende unicamente de pressão (trabalho) e tempo. Pressão e tempo são as chaves para uma vida tranquila e pacata em Zihuatanejo ou qualquer que seja o seu sonho de liberdade.
Por isso a história de Stephen King é tão cativante, porque é fácil se reconhecer e se identificar nela. O plot twist é redentor porque vemos anos de trabalho sendo justamente recompensado. Não há um prêmio de honra ao mérito apenas por ser o protagonista bonzinho e injustiçado. Não é assim que o mundo real funciona; não há saída fácil. O trabalho foi árduo, discreto, silencioso. Características tão esquecidas no mundo atual, mas fundamentais para atingir o sucesso.
Por mais veloz que seja a sua conexão com a internet, algumas coisas ainda levam tempo, e demandam pressão constante para acontecer. Na síntese genial de Warren Buffet: “Não importa quão grande seja o talento e o esforço, algumas coisas simplesmente levam tempo. Você não pode fazer um bebê em um único mês usando nove mulheres grávidas.” Outra cena do filme deixa isso bem claro.
Durante 6 anos Dufresne escreve uma carta por dia, todos os dias para o Senado, a fim de conseguir verba para a nova biblioteca da Prisão. Até que finalmente ele consegue a verba. Ele se gloriou e ficou satisfeito com seu trabalho certo? Sim, mas ele também começou a escrever DUAS cartas por dia, para conseguir mais verbas. Logo, seu novo pedido também foi atendido.
Realizar um sonho, executar um projeto pode levar tanto tempo quanto talhar uma parede com um martelo. E depois de talhada, é preciso ainda quebrar o cano de metal, rastejar pelo esgoto, fugir dos cães… as lutas nunca acabam, apenas mudam.
Em meio a esta nova geração não é só a (hiper) sensibilidade “palavras machucam” que está deturpada. A noção de tempo e recompensa também se diluiu. Em um tempo em que a demora de um segundo importa, é praticamente loucura a noção de que se deve trabalhar por 15 ou 20 anos antes de começar a colher os frutos, de fato. Ninguém ganha um cargo de chefia apenas por que é bacana, por que defende as minorias ou mesmo por que “merece”. Não em empresas sérias.
Talvez a mais dura lição que aprendemos quando viramos adulto é que, ao contrário do que dizem nossos pais e professores quando somos crianças, nós não somos especiais. Ou melhor, apenas somos especiais na medida em que conseguimos gerar valor para alguém. E isso mais do que o conceito de meritocracia.
Longe de tornar as relações utilitárias, esta lição nos mostra o contrário, que se quisermos algo, devemos nos abnegar de nós mesmos e nos dedicar, seja a algo ou a alguém. E de novo, isso vale para o trabalho, para o casamento, para o casamento², para a criação dos filhos, para realizar um sonho, ou simplesmente para um happy hour com os amigos. Se quer ganhar algo, você primeiro precisa dar algo. E em seguida você precisa esperar. O tempo necessário. Não é justo? Talvez não. Mas é assim que o mundo funciona.
Trabalhar duro também não significa trabalhar muito e de forma estúpida, desperdiçando força em coisas inúteis ou de pouco valor. Trabalhar duro significa se dedicar a uma causa – mais uma vez – seja ela qual for. Dufresne não gastou seu tempo “enfeitando” o túnel, tornando mais “user friendely”.
E se essa lição se aplica à nossa vida, aos nossos sonhos e projetos, também se aplica à questões maiores. Não, não será possível salvar o Brasil em uma ou duas eleições. É impossível mudar, de uma só vez, a previdência, a CLT, a carga tributária e o padrão das tomadas. Nenhuma dessas coisas virá de um grande ato redentor feito por um salvador predestinado. Pelo contrário, a redenção virá de centenas de milhares de pequenas mãos cheias de parede talhada, dia a dia, de forma constante. Ao invés de reformar o sistema tributário, antes deveríamos cobrar nossos representantes para que vetem novos aumentos de impostos; Antes de querer a reforma da previdência, por que não rever o a concessão de benefícios? Enfim, uma guerra se ganha nas pequenas batalhas diárias.
“Esforce-se para viver, ou esforce-se para morrer”, disse Andy no filme. De qualquer forma, você terá que se esforçar. Não há escapatória!
¹ Não à toa, o nome da história original é “Rita Hayworth e a Redenção de Shawshank”.
² Não consegui escolher qual dos dois textos do genial Stephen Kanitz era melhor. Então, linkei os dois. Há muito mais. Vale a pena ler.
³ Ninguém me convencerá jamais de que este filme não merecia o Oscar de melhor filme. OK, Forrest Gump também foi um ótimo filme, mas convenhamos…