Não, não foram os burocratas das casas legislativas dos Estados Unidos que elaboraram leis determinando que os comerciantes devolvessem o dinheiro dos consumidores arrependidos por terem efetuado determinada compra: foi a concorrência entre os empresários que os induziu, na ânsia por atrair clientes, a possibilitar o desfazimento de uma transação livremente realizada entre as duas partes, sem nem mesmo cobrar maiores esclarecimentos a respeito da decisão do comprador desgostoso.
Alguns estados, no máximo (como a Flórida), exigem que os estabelecimentos que não efetuam devoluções informem aos clientes tal deliberação, seja por meio de avisos afixados na própria loja, no recibo de compra ou por meio da internet. Mas a decisão de adotar o procedimento ou não, em si (bem como os princípios que irão reger seu sistema), é exclusiva do próprio empreendedor, tendo em vista seu desejo de impulsionar suas vendas a partir do exacerbamento do ímpeto dos fregueses em possuir certo produto gerado a partir desta medida.
Sim, pois a possibilidade de devolver uma mercadoria diminuiu a reflexão do consumidor no momento da compra. Ora, se eu posso vir a declinar aquele item caso venha a decidir que não foi um bom negócio, reduz-se naturalmente o tempo de avaliação de sua real necessidade e conveniência antes daquela aquisição.
No mesmo sentido, pesquisar preços e condições nos concorrentes antes de concretizar a operação comercial torna-se menos oportuno neste cenário, o que faz com que o consumidor, de forma muito mais frequente, decida-se pela compra tão logo sinta-se atraído pela oferta, por puro impulso – o qual pode ser consertado a posteriori, se for o caso.
No final das contas, entre devoluções efetuadas e compras feitas no calor do momento, tanto consumidor quanto fornecedor costumam sair ganhando: o primeiro por não precisar pensar mil vezes antes de comprar algo; o segundo por aumentar suas vendas e, no saldo, ver seu lucro majorado – e caso isso não ocorra, ele pode rever suas diretrizes internas a qualquer momento.
Cada empresa está livre na América para estabelecer suas próprias regras para devolução de mercadorias, determinando prazos para tal e fixando normas para sua realização – como manter a etiqueta em uma roupa ou guardar a nota fiscal, ou mesmo se irá devolver o dinheiro do cliente ou oferecer crédito para compras na mesma loja. Ou se, simplesmente, não vai aderir à política.
E foi o ambiente favorável ao empreendedorismo nos Estados Unidos que instou os comerciantes a adotarem tal procedimento, a partir da forte concorrência produzida por esta conjuntura voltada ao livre mercado – leia-se: facilidade para abrir (e fechar) empresas, taxa de juros praticada bastante baixa, garantia de cumprimento de contratos, segurança jurídica, tributação mais racional, pouca intervenção estatal na economia, dentre outros fatores.
Mas sempre que tal assunto vem à tona, levanta-se a seguinte questão: será que isso funcionaria no Brasil? É inegável que o forte sentido de ética do americano médio contribui para que esta política de devolução dê certo. A liberdade econômica costuma vingar em sociedades onde os indivíduos respeitam (na maioria das vezes, ao menos) os acordos firmados, dispensando a atuação estatal intermediando as trocas.
Quanto tempo demoraria até que brasileiros começassem a litigar judicialmente contra o regulamento de devolução das empresas? Ou até que o Legislativo passasse a ditar normas para tal – muito provavelmente motivado por lobby financeiro de determinados segmentos interessados em minar a competição? Ou para que os Procon inviabilizassem por completo a política de devolução de produtos?
Para efeito de comparação, narro uma experiência pessoal: certa feita, fui devolver uma jaqueta comprada em Chicago/Ilinóis, adquirida às pressas pelo fato de que não esperava deparar-me com tanto frio logo na chegada à terra de Al Capone. As circunstâncias levaram-me a comprar a peça de roupa na primeira loja que entrei. Mas logo percebi, nos dias seguintes, que o preço cobrado estava muito acima do observado nas demais lojas do gênero. Quando fui atendido no departamento de devoluções, indagaram-me o motivo da decisão, ao que respondi com total sinceridade. Prontamente, o próprio empregado do balcão, sem chamar o gerente nem nada parecido, disse que cobriria o preço da concorrência, devolvendo-me a diferença, caso eu desistisse de retornar o produto. Aceitei.
Ou seja, estão incluídos no caldo do relato exitoso para todos os lados a honestidade de, no mínimo, três pessoas: a do consumidor (pois eu poderia ter mentido qualquer preço na ocasião), a do empregado (a qual permite que o empregador lhe delegue tamanho poder sem temer desfalques no caixa), e a do empreendedor, o qual busca manter uma clientela cativa – e obter lucro, mesmo que em uma perspectiva de longo e médio prazo – agradando seus consumidores, e não orando ao Estado por privilégios e tratamento diferenciado.
Retirado qualquer um destes elementos de cena, provavelmente abrir-se-ia brecha para que o governo, em seu infinito afã de dirimir conflitos entre os cidadãos (cobrando um altíssimo preço pelo “serviço” e, por óbvio, sempre provocando novos conflitos a fim de aumentar a demanda por “apaziguamento” estatal), se apresentasse como o salvador da pátria.
Ou seja, estamos mesmo muito distantes desta realidade, e, por ora, vai ser difícil que esta política de devolução de mercadorias surja por estas bandas protossocialistas.
* Publicado originalmente em https://bordinburke.wordpress.com
Cogita-se agora de inaugurar em Porto Alegre um memorial ou monumento a Luiz Carlos Prestes, obedecendo a um projeto assinado pelo seu correligionário Oscar Niemeyer. Poucas vezes se viu ideia tão desarrazoada quanto essa, e mais afrontosa à grande maioria dos cidadãos porto-alegrenses. Salvo durante um triênio, entre 1924 e 1927, quando as guerrilhas de sua coluna rebelde geraram uma lenda de habilidade tática e de invencibilidade, Prestes nunca empolgou a opinião pública. Depois, no auge da fama de grande tático, quando dele se esperava que assumisse a chefia militar da revolução de 1930, defraudou as esperanças, desviou os mil contos de réis que recebera dos líderes do movimento e aderiu ao comunismo de Stálin.
As ferramentas do Partido Comunista, o culto à personalidade, mais o texto brilhante de Jorge Amado, criaram para ele a imagem do Cavaleiro da Esperança, que, por algum tempo, seduziu parcela da juventude e da intelectualidade brasileiras (inclusive este desavisado articulista, quando muito jovem). A condenação pelo Tribunal de Segurança Nacional e a entrega de sua mulher à Gestapo de Hitler alimentaram a infalível piedade vitimista, para orná-lo com uma auréola de mártir. Mas esse pseudomártir e herói fabricado nunca foi unanimidade e desde a década de 1930 sempre foi discutido, não apenas pelos conservadores, senão também pelos inúmeros dissidentes da esquerda, trotskistas, socialistas democráticos e trabalhistas.
Luiz Carlos Prestes não se trata, portanto, de um herói esquecido, de molde a justificar a ereção de um memorial. Mesmo que tenha subido por um momento aos altares da fama, logo caiu deles, causou graves prejuízos ao Brasil com o levante armado de 1935, dando forte pretexto para a implantação do Estado Novo de 1937 e, quando o Partido Comunista obteve sua legalização em 1945, logo deu mostras de total inabilidade política, arrastando o Partido outra vez para a clandestinidade e para a perda dos mandatos parlamentares que havia conquistado.
Colocando os pingos nos “is”, Prestes não passou de um produto perverso do tenentismo das décadas de 20 e 30, agravado pela adesão ao criminoso stalinismo, que ele jamais repudiou, mesmo depois de revelados todos os seus crimes. Nem ele nem seus parceiros da chamada Coluna Invicta jamais foram intérpretes ou mensageiros da democracia. Não se conhece dele um texto de discurso ou de manifesto que ficasse imune ao sectarismo, ou que trouxesse ideias originais para a solução dos problemas brasileiros. Foi sempre, e apenas, um porta-voz da Internacional ou do Cominform, obediente repetidor das fórmulas e ditames do partido soviético.
Talvez a melhor criação do líder comunista haja sido essa filha, Anita Leocádia, cuja entrevista apareceu na Zero Hora do dia 5 de janeiro. Embora fazendo, obviamente, a defesa do pai e de sua memória, não exagerou na dose e, como estudiosa de História, admitiu verdades que antes nenhum prestista admitia, como os homicídios ordenados pelo Comitê Central e referendados por Prestes. Na entrevista, a historiadora nos promete agora uma biografia política do pai, o que deve ser aguardado com algum interesse, apesar de sua natural suspeição.
* Historiador
* Publicado originalmente em Zero Hora do dia 11 de janeiro de 20143
MEMORIAL DA VERGONHA
Ontem, domingo, 22/10, fiz questão de participar da manifestação liderada pela valente e correta pensadora Fernanda Barth, pela pluralidade e democracia, contra os regimes totalitários e, notadamente em repúdio ao Memorial Luiz Carlos Prestes, ou Memorial da Vergonha, que está para ser inaugurado no próximo domingo, 28, em Porto Alegre.
HOMENAGEM A UM ASSASSINO
Porto Alegre, infelizmente, volta a se colocar na contramão da história, ao inaugurar um memorial comunista, como refere Fernanda Barth carregada de total razão.
Para quem não sabe, mas precisa saber enquanto há tempo, Luiz Carlos Prestes foi um líder comunista e um assassino e mesmo assim será homenageado em Porto Alegre. Mais: o memorial Luiz Carlos Prestes, ou Memorial da Vergonha, todo preto e vermelho, com uma gigantesca foice e martelo em sua cobertura, se nada for feito será inaugurado no dia 28 de outubro, pouco antes do centenário da Revolução Russa.
IDEOLOGIA SANGRENTA
Realmente inacreditável ver glorificada a ideologia sangrenta que matou mais de 100 milhões de pessoas no mundo todo e foi responsável pelo massacre de Holodomor, na Ucrânia. Enquanto no resto do planeta os símbolos comunistas são proibidos pelos crimes que foram praticados em seus regimes, em Porto Alegre continuamos enaltecendo-os. Retrocesso total!
Ouso chamar de Memorial da Vergonha, enfatiza F.Barth. - Este espaço deveria é ser destinado a memória de todas as vítimas dos regimes totalitários no mundo, mas não a um falso herói, que friamente mandou executar a menina Elza e causou terror com sua Coluna Prestes. Mas como isto aconteceu?
IDEIA LAMENTÁVEL
Em 1990, ano da morte de Luiz Carlos Prestes, o então vereador Vieira da Cunha (PDT), teve a lamentável ideia de construir um Memorial em homenagem ao sangrento comunista Luiz Carlos Prestes. A infelicidade foi aprovada por maioria na Câmara de Vereadores e homologada pelo então prefeito Olívio Dutra, que indicou terreno público, em área nobre, próximo às margens do Guaíba para a futura construção.
Como as condições financeiras não permitiram que o projeto saísse do papel, a ideia ficou na gaveta, na espera da oportunidade. Em 2008, a construção do memorial comunista acabou sendo viabilizada, graças a necessidade que a Federação Gaúcha de Futebol tinha de construir uma sede própria e que, como contrapartida a doação de uma parte do terreno pela prefeitura, bancou a obra. O novo projeto foi novamente aprovado por maioria na Câmara de Vereadores. Pode?
PROJETO MAIOR
Mas esta é só uma parte de um projeto maior que prevê de um lado a obra do Memorial Prestes com seu ornamento comunista e do outro o Memorial Caminhos da Soberania. Se o primeiro Memorial muitos só ficaram sabendo a poucos dias o que seria, o segundo quase ninguém ouviu falar. Pois no mesmo ano fatídico de 2008, durante o governo Fogaça, saiu a Lei nº 10.390, de 22 de fevereiro, que autorizou o Executivo Municipal a conceder uso de área situada na Subunidade 01 da Unidade de Estruturação Urbana (UEU) 1044 da Macrozona (MZ) 01 à Fundação Caminho da Soberania, para a implantação do Memorial Caminho da Soberania, para abrigar acervos dos líderes trabalhistas Leonel Brizola, João Goulart e Getúlio Vargas.
LONGE DOS OLHOS DA POPULAÇÃO
Tal concessão de uso terá vigência de 60 anos, prorrogável por igual período. A área concedida tem 23.255,80m², equivalendo a vários estados de futebol e fica no quarteirão formado pela Avenida Edvaldo Pereira Paiva e o Lago Guaíba, tendo como limite a Nordeste a Avenida Edvaldo Pereira Paiva numa extensão de 400 metros. Ou seja, é na beira do rio, ao lado do Anfiteatro Pôr do Sol. O presidente do conselho diretor da Fundação Caminhos da Soberania é Vieira da Cunha (PDT). O mesmo que teve a ideia do Memorial Luiz Carlos Prestes.
Isto tudo foi feito longe dos olhos da população, entre gabinetes de poder, entre vereadores e prefeitura, que acabaram por, de certa forma, privatizar partes da Orla de Porto Alegre para projetos de partidos políticos. Cada um com seu Memorial, fazendo propaganda da sua ideologia. De um lado os comunistas e de outro os trabalhistas. Porto Alegre merecia destino diferente.
MEMORIAL EM HOMENAGEM A TODAS AS VÍTIMAS
Cabe agora refletirmos como os espaços públicos da cidade são ocupados e com qual destinação. A sociedade não foi ouvida em relação a construção deste memorial da vergonha e nem em relação a concessão do outro terreno ao PDT. Caberia aos vereadores a sensibilidade de destinarem este prédio e o terreno a fins mais nobres, como um Memorial em Homenagem a TODAS as Vítimas de Regimes Totalitários.
Queremos que os vereadores se manifestem e façam a redestinação do prédio, transformando-o em um memorial mais “plural e democrático”.
O termo “Janela de Overton” é uma homenagem a Joseph P. Overton, que criou um modelo para demonstrar como um pequeno grupo de pensadores pode mudar intencional e gradualmente a opinião pública. A Janela de Overton é o leque de idéias “aceitáveis” na sociedade. Deixe-me explicar melhor. Casamento gay, por exemplo. Se alinharmos as posições a respeito do tema, teremos algo assim: proibido, proibido com ressalvas, neutro, permitido com ressalvas, permitido livremente. Durante anos, a Janela de Overton esteve na área do proibido, a sociedade não podia aceitar a ideia do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Com a constante exposição dos argumentos pró-gays na mídia, a janela foi se deslocando para proibido com ressalvas, depois para neutro, até chegar onde está hoje: permitido com ressalvas. Em breve será permitido livremente.
A questão das drogas. Logo teremos uma flexibilização das leis, conforme a opinião pública se tornar mais tolerante com a ideia da descriminalização.
É no deslocamento da Janela de Overton para posições que sejam de interesse de determinados grupos que está aplicado um esforço altamente profissional, que faz parte do que se convencionou chamar de engenharia social, o ato de influenciar uma pessoa para que ela execute ações que não sejam necessariamente de seu (dela) melhor interesse.
Para deslocar a janela de opinião da posição ?proibido? para a ?menos proibido?, ?neutro? e ?permitido?, é preciso desviar o foco do assunto principal para algum outro valor relacionado ao tema. Para isso aciona-se um batalhão de especialistas em opinião pública: técnicos, cientistas, assessores de imprensa, relações públicas, institutos de pesquisa, celebridades, professores, jornalistas, etc.
Exemplo: alguém (não tiro da cabeça que foi o Ministro do Marketing, João Santana), achou que realizar a Copa do Mundo e Olimpíadas em nosso país seria uma excelente jogada política. Imediatamente surgiu uma reação contra, daqueles que sabem que precisamos resolver problemas básicos de educação, saúde e infra-estrutura entes de investir bilhões na construção de estádios. O que fizeram os engenheiros sociais? Evitaram qualquer menção ao deslocamento do dinheiro de uma área prioritária para outra não prioritária e, usando a imprensa, desviaram a discussão para o orgulho do brasileiro, para a oportunidade de mostrar ao mundo como somos bons, deslocando a Janela de Overton do ?contra a copa? para o ?neutro ou a favor?. Transformaram os ?do contra? em anti-brasileiros, pessimistas e mau agourentos. Anestesiaram a população, até ficar claro que as promessas não se realizariam, que o legado seria uma coleção de elefantes brancos e que os orçamentos originais explodiriam. Então a Janela de Overton retornou à posição original, contra a copa, e os indignados foram às ruas…
É assim com todos os grandes temas polêmicos, como desarmamento, aborto, aquecimento global… A engenharia social não é de esquerda, de direita ou de centro. É de todos. Pisque o olho e você é manipulado.
Lancei um podcast sobre esse tema, que você pode ouvir em http://goo.gl/sx2GS5.
A saída? Não sei se tem alguma, mas acho que dá pra ficar esperto: verifique sempre se o objeto do debate é o mérito da questão ou algum tema associado, paralelo, um desvio. Se você perceber que é o desvio, atenção: você acaba de descobrir mais uma operação de um grupo interessado em mover a Janela de Overton.
É impossível escapar deles. Mas ao menos você será um otário consciente.
__________________
*Publicado originalmente em http://www.portalcafebrasil.com.br/, em 08 de agosto de 2013. E continua acontecendo...
** Luciano Pires é Escritor, palestrante, podcaster. Um personal trainer de Fitness Intelectual.
Inspirado no artigo dominical de Flavio Tavares sobre escravidão ("Vendaval", ZH 22/10), senti necessidade de expor o reverso da medalha, fundado em experiências próprias. O MT é um cabide gigantesco de empreguismo e mamatas sindicais, parasitas do dinheiro público, achacadores do trabalho; a tal de Justiça do Trabalho – criação do ditador populista Vargas – consome por ano 17 bilhões de reais. Sustenta um exército de gigolôs do salário mínimo e de ricos advogados que atuam contra o grande patrão – o Estado, a favor da massa de funcionários atentos aos meandros da lei para arrancar mais do erário público.
Nesta onda alarmante contra a “escravidão” venho trazer meu depoimento. Visitava com a família num final de semana a pacata cidade Feliz, de tradição alemã e japonesa. Um prazer largar passos pelas ruas limpíssimas, canteiros ajardinados, terrenos entalados entre edificações, cobertos de hortas familiares. Tudo inspira a paz dos justos, do repouso merecido do trabalhador. Cidades de operários da indústria calçadista. Era feriado. Hospedamo-nos no pequeno hotel da cidade; modesto e confortável. O atendente, um cidadão de uns trinta anos, educado e expedito. Como eu estranhasse ser ele o único funcionário, justificou que a família proprietária do hotel, aproveitara o feriado na praia. Por essa razão a substituíra na faina rotineira naquele feriado. E o fazia com prazer. Uma gentileza a quem lhe prestava o emprego e gentilezas o ano todo. Fazia tudo com desembaraço e eficiência. Entabulei conversação com ele para conhecer um pouco da cidade. - O que fazia antes de ser o faz tudo aqui no hotel?
-Trabalhava numa fábrica de calçados onde todos amavam trabalhar; o patrão estimulava e assistia a seus empregados. Éramos uma coletividade feliz. Eu fui porteiro e segurança por seis anos. O patrão ao chegar e me saudava todas as manhãs. Um dia apareceu uma jovem fiscal do Trabalho; aplicou-lhe uma multa escorchante e injustificada. Ele apelou e...foi condenado pela Justiça. Desgostou-se, indenizou todos empregados e fechou a fábrica. O recepcionista, do balcão apontou um carro novo, popular, estacionado à frente do hotel: - Aquele eu ganhei do patrão. Todos nós recebemos gratificação. Dois mil operários ficaram desempregados.
- E a fiscal não perdeu o emprego, né? – rematei em gracejo. Para minha surpresa ele esclareceu: - Era filha da Dilma.
Sorte da família hoteleira a fiscal do MT não obrar em feriado; multaria o hotel por “escravidão”.
Em outubro de 2017 a Revolução Bolchevique que introduziu o regime marxista na União Soviética completará cem anos. Não será uma data de celebração e sim de recordação da memória de como um punhado de fanáticos russos atropelou o recém-nascido projeto democrático em andamento implantado em março do mesmo ano.
Abrindo um parênteses explicativo, o termo ‘bolchevique’ significa ‘maioria’, em contraposição ao termo ‘menchevique’, que significa minoria. A partir de 30 de junho de 1903, quando o Partido Operário Social-Democrata (POSDR, na sigla russa), durante o seu segundo congresso, em Bruxelas, elegeu Georgi Plekhanov como seu presidente, o partido começou o processo de racha completado em 1907. O resultado foi a emergência de duas principais facções: a dos bolcheviques e a dos mencheviques. Embora mantivessem o denominador comum de derrubar o regime do czar e destruir o capitalismo, os mensheviques, liderados por Yuliy Osipovich Tsederbaum (1873-1923), conhecido como Julius Martov, eram bem mais moderados do que os bolcheviques, liderados por Vladimir Ilyich Ulyanov (1870-1924), conhecido como Lenin, pois pensavam democraticamente, tinham escrúpulos quanto ao uso de violência, e aceitavam negociar com os liberais.
Não foram os bolcheviques que derrubaram a monarquia russa e sim um grupo de descontentes que incluía liberais e mencheviques. O líder menchevique que teve um papel importante na Revolução de Março de 2017 era Nikolay Chkheidze (1864-1926), um professor que havia sido eleito para o Duma (o parlamento russo) durante a década de 1880s, e que ocupava o cargo de Presidente do Petrograd Soviet (Presidente da câmara de vereadores de Petrograd ou São Petersburgo).
Lenin encontrava-se hospedado numa pensão em Zurique quando ficou sabendo da queda do regime do czar. A fim de que ele, sua esposa e seus aliados mais chegados pudessem retornar à Rússia, era necessário cruzar a Alemanha, uma nação inimiga da Rússia. Como os seus pedidos de ajuda ao governo da Suíça e ao Governo Provisório da Rússia não deram resultados, Lenin então usou uma artimanha de influência e mentiras. Ele telegrafou a um amigo em Estocolmo pedindo ao mesmo que mandasse uma mensagem a Chkheidze, demandando a ajuda deste para o retorno de mencheviques exilados. O estratagema deu resultado. O embaixador da Alemanha na Suíça foi contatado, o qual conseguiu um salvo-conduto para que os exilados atravessassem a Alemanha, com a condição de que ninguém desembarcasse naquele país nem se comunicasse com ninguém de fora. Escoltados por um representante do governo suíço, Lenin, a esposa e cerca de trinta exilados russos, nenhum deles menchevique, partiram da Suíça no dia 8 de abril, chegando a Petrograd no dia 16 de abril.
Ao chegar a Petrograd, Lenin encontrou-se com Chkheidze dentro do antigo palácio do czar, quando este lhe disse:
“Camarada Lenin”, “em nome do Petrograd Soviet e de toda a revolução, seja bemvindo à Rússia… mas nós julgamos que levando em conta a situação presente, a principal tarefa da democracia revolucionária é defender a nossa revolução contra todo tipo de ataque, tanto de dentro quanto de fora… Nós esperamos que se junte a nós na luta por este objetivo”.
Lenin não respondeu a Chkheidze, mas caminhou na direção de uma janela e de lá ele falou para uma pequena multidão que se encontrava do lado de fora. No seu discurso ele afirmou que a revolução que haviam feito era apenas o primeiro passo de outra que estava por vir a fim de abrir as cortinas da nova época. E depois de sair do palácio, Lenin passou a atacar sem descanso o Governo Provisório.
O ocorrido acima é uma mostra das táticas de mentir, enganar e trair que caracterizaram o ethos dos revolucionários bolcheviques. Entretanto, muitos outros pormenores acerca de Lenin foram descobertas desde a que os arquivos soviéticos foram disponibilizados a partir da última década do século XX. Um dos fatos mais relevantes foi o fato de Lenin ter recebido dinheiro do inimigo (Alemanha), tornando-se de fato um traidor de seu próprio país.
Um dos autores que fez bom uso dos arquivos soviéticos disponibilizados é Sean McMeekin, um premiado historiador americano e professor da Universidade de Kok, na Turquia. Ele acaba de publicar ‘The Russian Revolution. A New History’, pela editora Profile. Segundo McMeekin, Lenin tido pouco impacto político na Rússia se não tivesse recebido ajuda financeira da Alemanha. Quando os bolcheviques retornaram do exílio eles compraram uma gráfica por 250 mil rublos (equivalente a cerca de 13 milhões de dólares em dinheiro de hoje), o que permitiu que imprimisse uma quantidade inimaginável de materiais de propaganda revolucionária. É óbvio que tal propaganda disseminou sedição entre a gentalha ignorante tanto da cidade quanto do campo. O dinheiro inimigo permitiu que os bolcheviques batessem de frente contra o Governo Provisório. Entretanto, o contrapeso que mudou o jogo a favor de Lenin foi a promessa bolchevique de acabar com a guerra já, mesmo passando por cima do interesse nacional da Rússia. Segundo McMeekin, Lenin sabia que não poderia vencer a eleição marcada para janeiro de 1918, e portanto planejou uma revolução para outubro de 1917. A Revolução de Outubro, como ficou chamada, derrubou o Governo Provisório do então Primeiro Ministro Alexander Fyodorovich Kerensky (1881-1970).
O historiador britânico Robert Service (1947-), um dos maiores especialistas da história da União Soviética e autor de extensas biografias de Vladimir Lenin, Joseph Stalin e Leon Trotsky. Conforme escrevi na minha resenha da trilogia de Service (PortVitoria 4, Jan-Jun 2012), a minha resenha da trilogia de Service):
“Dentro da característica humana de ‘querer melhorar o mundo’ há duas distintas predisposições, uma revolucionária e outra reformista. A predisposição revolucionária difere da predisposição reformista pelo fato de aceitar a violência como meio de se chegar ao fim desejado, e inclui valores totalmente alheios ao humanitarismo. Tal comprometimento cego com o fim faz da predisposição revolucionária um distúrbio de personalidade. Como mostra a psicologia, os distúrbios de personalidade são invariavelmente complexos, isto é, tendem a vir acompanhados de outros distúrbios. A predisposição revolucionária era denominador comum de Lênin, Stalin e Trotsky. Esta foi alimentada pelo Marxismo, doutrina que passou a dominar no meio intelectual da Rússia desde a década de 1890, apesar de que a Rússia daquela época, e mesmo a das duas primeiras décadas do início do século vinte, tinha uma economia medieval, bem diferente do sistema capitalista que segundo Marx incitaria a revolução dos trabalhadores. As três biografias estão lotadas de exemplos de comportamentos que evidenciam valores marginais e distúrbios psicológicos”.
Que o centenário da Revolução Bolchevique seja uma lição negativa de história para todos os que dão valor à democracia e à liberdade.
* Joaquina Pires-O’Brien é brasileira residente na Inglaterra e editora da revista PortVitoria, de generalidades, cultura e política (www.portvitoria.com). O seu e-book de ensaios O homem razoável (2016) encontra-se à venda na Amazon