• Gilberto Simões Pires
  • 19 Setembro 2017

 

DOMINIC BARTON
A entrevista concedida pelo economista canadense Dominic Barton, atual diretor global da McKinsey, consultoria respeitadíssima no mundo todo, que a revista Veja desta semana disponibiliza nas Páginas Amarelas, é uma importante contribuição para o entendimento das transformações sociais em curso, tanto para leigos quanto para iniciados.

CONTEÚDO
Segundo Barton, o setor público não cumpre adequadamente o seu papel de preparar as pessoas para as novas possiblidades tecnológicas. Ora, se a percepção do economista é global, fico imaginando o que diria se conhecesse minimamente o que se passa no nosso empobrecido Brasil, onde a preparação do povo é feita através de grandes conteúdos ideológicos e pouco ou quase nada técnicos.

ANÁLISE INTERESSANTE
Ao enfatizar a necessidade de recapacitar as pessoas, Dominic Barton faz uma observação interessante: - Fizemos uma análise em 25 dos países mais ricos do mundo. Entre 1993 e 2005, apenas 2% das pessoas não havia melhorado de vida. Entre 2005 e 2014, no entanto, 70% das pessoas não tiveram aumento real de renda ou mesmo sofreram uma queda em seus ganhos. Com a tecnologia, a demanda por trabalho caiu e os salários estão estagnados. Mas 1% no topo dos rendimentos está muito bem.

PERDENDO A PACIÊNCIA
Esta análise diz, claramente, o quanto as empresas (esqueçam o setor público) precisam assumir novas responsabilidades. Até porque, como refere Barton, - as pessoas estão perdendo a paciência. Não estão satisfeitas com o governo, com as grandes corporações, com ninguém.

AVALIAÇÃO SOBRE O BRASIL
Quando perguntado sobre o Brasil, eis a avaliação que Barton faz sobre a nossa economia: - O Brasil tem ficado para trás na comparação com outros países. O sistema regulatório e tributário precisa melhorar. Converso com administradores de recursos e empresários de todo o mundo e eles sempre dizem que a economia brasileira NÃO É DAS MAIS AMIGÁVEIS aos investidores. Outro aspecto é a EDUCAÇÃO. O esforço de combate à corrupção tem sido notável, mas as reformas precisam prosseguir.
Amém!

OPORTUNIDADES ENORMES
Para quem tem a mínima noção sobre o que acontece no Brasil, tudo que Dominic Barton diz sobre o nosso país não pode ser visto como algo novo e/ou surpreendente. Entretanto, por se tratar do diretor global da McKinsey, consultoria que goza de forte credibilidade internacional, quem sabe as suas afirmações consigam mexer com a cabeça daqueles que ainda não foram infectados pelo vírus ideológico do atraso. As oportunidades que o Brasil tem, sabidamente são enormes. Falta apenas colocá-las ao alcance dos investidores.

* Publicado originalmente em www.pontocritico.com

 

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  • Aloisio Alves
  • 19 Setembro 2017

 

Quem assistiu ao filme Carandiru, baseado no livro Estação Carandiru, do médico Dráuzio Varella, que narra a dura experiência dos presídios brasileiros, deve se lembrar da frase dita e repetida por bandidos quando confrontados pela justiça: “Doutor, aqui dentro todo mundo é inocente”. Mais de uma década e meia depois, a expressão é atualíssima.

Diante da tragédia da corrupção exposta pela Lava Jato, os protagonistas do show de assalto aos cofres públicos se confessam indistintamente, todos, inocentes. Abordados por procuradores e juízes, questionados pela imprensa, esperneiam, dizem-se revoltados e se consideram injustiçados. As malas de dinheiro flagradas por câmeras sendo carregadas no meio da rua, os esconderijos transbordando milhões de reais e dólares; os imóveis recebidos como prêmio pelas facilidades criadas para terceiros no silêncio das madrugadas; as fortunas incalculáveis circulando clandestinamente como caixa dois e propinas milionárias, tudo isso, não passa de ilações. É fruto de delações fantasiosas, invenção da mídia golpista, perseguição política. É ódio da elite que tem asco, horror a pobre e não os quer ver melhorando de vida, lotando aeroportos e andando de avião, por isso acusa os líderes populistas de traficantes de influência, corruptos, mais que outros.

A versão da revolta dos inocentes dos tempos atuais também gerou a produção de filme Polícia Federal, a lei para todos – cujos personagens representados têm, claro, uma enorme diferença daquela bandidagem hospedada no antigo Centro de Detenção do Carandiru em São Paulo, palco de uma das maiores tragédias em presídios do mundo. Os supostos criminosos da Lava Jato são cidadãos de status, colarinho branco, autoridades da maior estirpe do universo político e empresarial do País e os condenados cumprem suas penas entre Penitenciária da Papuda, em Brasília, Carceragem da PF e Complexo Médico Penal do Paraná. Alguns privilegiados decoram as canelas com tornozeleira eletrônica arrastando-as pelos corredores de casa, moda dos novos tempos, na conhecida prisão domiciliar, desejo de consumo de centenas de congressistas, servidores públicos de alto escalão e poderosos empresários condenados do submundo da propina. Melhor o acessório que uma cela de pouco espaço com privada no chão e banho frio. Apenas um pequeno detalhe faz lembrar o drama dirigido por Hector Babenco no filme Carandiru, em 2003, é a manjada frase dos acusados: “Somos inocentes”.

No mar de sentenças e inquéritos abertos pelo Ministro Fachin, 74, tiveram seus sigilos quebrados, incluindo 8 ministros ou ex do governo Temer, 24 senadores denunciados por corrupção, dezenas de deputados e uma dúzia de governadores. Arrogantes, algum tempo atrás ostentavam poder e riqueza, senhores da razão. Pegos com a mão na massa, agora revoltados, atribuem as denúncias dos seus crimes aos delatores bandidos que desejam aliviar suas penas. Fazem discursos dramáticos no parlamento, sugerem CPIs, desconstroem a justiça, acusam a imprensa, desesperam-se, temem não conseguir a reeleição perdendo o foro privilegiado, bufam por todos os lados. Eles protagonizam a “revolta dos inocentes”. Quem sabe o título do próximo filme!

* Publicitário
** Publicado originalmente no Diário do Poder

 

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  • Eduardo Perez
  • 17 Setembro 2017

 

(Publicado originalmente no Mídia Sem Máscara)

O banco Santander promoveu a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira, valendo-se do investimento de quase R$ 1 milhão com os benefícios fiscais da Lei Rouanet.

Rapidamente a exposição passou a ser alvo de protestos nas redes sociais, sob a alegação de que ela promoveria obras que incentivavam a pedofilia, a zoofilia e o escárnio ao cristianismo.

A repercussão foi tão negativa que o Santander decidiu encerrar a exposição um mês antes, não sem os gritos de “censura” e “conservadorismo” de alguns.

Como é praxe nesses casos, os “considerandos” da exposição foram tecidos com base na novilíngua de forma tão críptica que chega a descer inócua por quem se dispõe a ler. Mas vale sempre a máxima que qualquer sábio iletrado do nosso sertão conhece e que deveria ser ensinada desde o pré: a árvore se conhece pelos frutos.

Se a falta de glamour da fonte incomoda, recorde-se que Shakespeare disse a mesma coisa por intermédio de sua Julieta: "o que há num nome? aquilo a que chamamos rosa, por qualquer outra palavra, exalaria perfume igualmente doce” .

E qual o cheiro de algumas das obras da exposição em voga? Cada um decide.

A exposição é chocante? Nem um pouco. É só mais do mesmo: atacar o cristianismo, atacar valores caros para muitas pessoas, e sexo, muita exposição gratuita de sexo, inclusive com animais. É uma tentativa que está pelo menos trinta anos atrasada, porque me lembro de ver críticas mais inteligentes e chocantes na minha infância assistindo TV Pirata, quando meus pais tinham que inventar uma explicação para uma piada adulta que, obviamente, eu não entendera.

Ora, os apoiadores da Queermuseu deveriam estar satisfeitos. Se o objetivo da arte é suscitar o debate, ele foi alcançado. Agora, se o objetivo é conduzir a mentalidade das pessoas para caminhos pré-traçados por uma minoria, aí talvez não tenha funcionado mesmo.

Dessa vez não houve o monopólio do discurso. De forma espontânea, as pessoas entenderam que poderiam criticar a exposição, e, sim, crítica não é censura.

Mais ainda, elas perceberam que, se não gostavam de algo, não precisavam financiá-lo. Anos de aparelhamento intelectual parecem ruir lentamente quando o “homem comum” resolve dizer “não”, seja ao estado, seja às grandes corporações, seja às cartilhas ideológicas gestadas por seletos grupos.

Desnecessária nesse caso a intervenção de políticos ou o uso do Judiciário, este último símbolo do grande paternalismo nacional com seus 80 milhões de processos, considerando que a sociedade prefere judicializar qualquer questão, de briga de vizinho a eutanásia, e terceirizar o rumo de suas vidas a uma turma, a debater racionalmente o assunto.

Milhares de correntistas do banco disseram: “Ei, não queremos financiar isso. Vamos procurar algum outro banco”.

O Santander, instituição privada que é, percebeu que a ideia que parecia genial gestada no ar condicionado entre um cafezinho e outro, como qualquer flor de estufa, não resistiu ao primeiro vento de realidade.

Foi censura? Não. Censura é a análise da obra artística por um censor baseando-se em critérios morais e/ou políticos para a liberação ao público.

As obras podem ser expostas, só que os correntistas do Santander, e mais um monte de gente, não querem financiar isso. Os artistas podem usar seu próprio dinheiro e espaço para fazê-lo, ou achar quem queira. Ninguém irá impedi-los, isto é, censurá-los. As obras podem ser expostas.

Cada um é livre para expressar o que der vontade, dentro da lei, mas não pode obrigar ninguém a financiar ou assistir isso. Simples. Claro. Cartesiano.
A dificuldade em aceitar que o outro também pensa é fruto de décadas de grupos e cartilhas dominando o cenário “intelectual” da Terra de Santa Cruz.

Agora que as pessoas “comuns”, isto é, não dotadas do “gênio artístico” avalizado pela “consagrada crítica”, aprenderam a dizer “não”, aqueles que não conseguem disfarçar a sensação de superioridade que nutrem com relação ao resto da humanidade se indignam com a rebeldia da ralé que se recusa ser iluminada.

É um discurso esquizofrênico, porque as premissas sempre foram: a arte suscita a crítica, e a crítica está ocorrendo, e qualquer pessoa pode interpretar uma obra como quiser, o que tem sido feito, então por que a indignação?

A diferença entre o ocorrido no caso Santander fica bem clara quando comparado com o episódio em que tentaram censurar, e este é o termo, Monteiro Lobato, banindo suas obras das escolas públicas.

A pantomina chegou a tal nível de obra kafkiana que, não obstante a questão tenha sido discutida no âmbito do Ministério da Educação, que negou a censura, houve a propositura de uma ação no Supremo Tribunal Federal com a intenção de forçar o estado a impedir a leitura de tais livros.

Pode pesquisar no Google. Sério.

Admirável Mundo Novo, 1984 e Brazil, o Filme, mandaram lembranças saudosas.

De todo modo, o que se extrai de mais importante disso tudo é que nenhum de nós é irrelevante. Mesmo uma onda é formada por suas gotas.

Você só pode responder por suas ações, e não pelo outro, e entender isso aborta o germe de ditador e vítima dentro de você.

Vinte mil pessoas apagando as luzes ao saírem de um ambiente, fechando a torneira ao escovar os dentes, dizendo “obrigado”e “por favor”, não praticando pequenos atos de corrupção ou deixando de gastar o seu dinheiro nos lugares que vilipendiam seus valores: o mundo pode mudar.

E já que falamos de críticas à religião, é oportuno recordar que Buda lecionava que não se deve acreditar em algo porque alguém disse ou porque está num livro, mas somente após o escrutínio racional, livre das paixões e guiado pelo bem, deve-se chegar a uma conclusão.

Se, por sorte, você encontrar mais pessoas que compartilhem desses valores e decidam trocar discursos de ódio e vitimismo por ações de ética e compaixão… que mundo podemos ter?

Livros, filmes, peças de teatro, discursos… vê quem quer. Se ninguém quiser ver, que pena. Somente estados ditatoriais impõem ao seu povo uma cultura, uma cartilha e uma ideologia. Liberdade é poder escolher, ainda que as escolhas não agradem.

 

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  • Ney Lopes
  • 17 Setembro 2017

 

(Publicado originalmente no Diário do Poder)

O Congresso Nacional levantou o tapete, ao apregoar que iria finalmente aprovar a inadiável reforma política, eleitoral e partidária até 7 de outubro, já que as novas regras precisam estar em vigor um ano antes do pleito de 2018.
Entretanto, nada disso acontecerá.

Na madrugada da quinta, a sessão acabou encerrada, sem consenso e quórum. O “grand finale” será o lixo eleitoral jogado (mais uma vez) para debaixo do tapete. Ficou claro que o plenário optou por não modernizar o processo eleitoral do país. Talvez, aprove apenas alguns “remendos”, com o fim de ludibriar a opinião pública.

Como seria possível votar emendas constitucionais, na Câmara e no Senado, em dois turnos, com o aval mínimo de 308 deputados e 49 senadores, faltando duas semanas para o prazo fatal de 7 de outubro? Curiosas às posições dos partidos de esquerda (PT, PSOL, PCdoB), criando obstáculos às reformas, mesmo sendo siglas que mais denunciam a corrupção eleitoral. Já os partidos maiores (PMDB, PSDB, DEM, PP), igualmente recusam as mudanças e se manifestam favoráveis à flexibilização de regras de financiamento, até admitindo a volta das “ajudas privadas”.

O consenso somente ocorreu na preservação e aumento substancial dos valores de dinheiro público destinado ao Fundo Partidário, cuja divisão interna dos partidos continuará nas mãos das cúpulas, sem critérios ou fiscalização. Decepcionante essa realidade. Predominou no Congresso, o instinto da sobrevivência.

Talvez acabem as “coligações”, mas já se anuncia a criação das “federações” de partidos. Ou seja: trocam-se seis por meia dúzia. A federação é uma forma indireta de coligação para evitar que ganhem os que tenham mais votos.

Quando exerci o mandato de deputado federal trabalhei intensamente para aprovação da cláusula de barreira, que foi inserida na lei 9.096, de 1995 (Lei dos Partidos Políticos). A regra estabelecia que os partidos alcançassem percentual mínimo de votos em quantidade determinada de Estados, para ter benefícios como fundo partidário, tempo de TV, representação na Câmara e indicação de bancada.

Seria uma forma de evitar a criação desenfreada de partidos (atualmente 35), quando se sabe que a maioria deles deveria ter registro na Junta Comercial e não no TSE. Infelizmente, em 2006, o STF acolheu ação direta de inconstitucionalidade e essa medida moralizadora ruiu, por “decisão da justiça”.

Anunciada para aprovação em 2017, tudo indica que a cláusula de barreira será novamente sepultada no Congresso, pelo fato de exigir o desempenho eleitoral para os partidos colocarem a mão na grana do Fundo Partidário. Na França, os partidos precisam ter 1% dos votos em 50 circunscrições para receberem € 37 mil/ano (R$137 mil), por deputado.

No Brasil, esse Fundo já serviu até para comprar avião (presidente do Pros, Eurípedes Júnior, usou R$ 400 mil para esse fim) e helicóptero por R$ 2,4 milhões. Mesmo com tanto dinheiro do Fundo, alguns partidos têm débitos inscritos na Dívida Ativa da União há mais de 30 anos, em valor superior a R$ 120 milhões.

A omissão dolosa do Legislativo levará o Judiciário a regulamentar as eleições, mesmo que muitos condenem a judicialização da política.

A culpa do atual quadro caótico é do nosso sistema político, permitindo, por exemplo, a indústria dos “suplentes” de senador, que exercem mandatos sem sequer serem votados ($$$$). Caberá ao eleitor lutar por mudanças, a partir da hora do voto na urna, em 2018.

Na democracia, só há esse caminho.


* Jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano, procurador federal
 

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  • Guilherme Benezra
  • 14 Setembro 2017


Eu ia ficar quieto sobre o caso Santander, mas tem certas opiniões que não consigo entender. Não estou particularmente preocupado quanto ao uso do dinheiro da Lei Rouanet, sabemos que esse dinheiro sempre foi usado, majoritariamente, para financiar qualquer porcaria. Esse foi somente mais um dos casos em que isso ocorreu. A solução? Encerrar essa porcaria que financia artistas e grandes empresas amigas do governo. Curiosamente, mesmo os principais receptores sendo grandes capitalistas ou milionários, parece que a esquerda defende veemente esse fundo, afinal o dinheiro é usado em sua agenda. Mas vamos ao que interessa.

Vejo o termo censura ser usado amplamente, não somente pelos blogs de esquerda, mas de maneira curiosa pelos Liberais. Censura é o que a esquerda tem feito nas últimas décadas, ou seja, o uso do poder político para cercear a opinião alheia, através de processos, multas e proibições de tudo aquilo que eles não gostam.

O que aconteceu no caso Santander? A Sociedade Civil, pessoas normais, sentiram que a sua fé foi ofendida e optaram por reclamar. Eles fizeram piquetes como a esquerda faz? Que eu saiba, não. Eles proibiram a entrada com a esquerda faz? Não. Eles proibiram legalmente a exposição como a esquerda faz? Não. Então o que eles fizeram? Reclamaram em redes sociais, fizeram um evento na frente do local reclamando (sem proibir a entrada das pessoas) e pediram o boicote ao Santander. Então, o que eles fizeram de errado? Não faço ideia. Eles usaram de ferramentas democráticas para expressar seu ponto de vista e o banco, com medo do boicote de seus clientes, encerrou a exposição. Que eu saiba, nunca foi feita uma proibição legal ou algum tipo de processo, atitude comum na esquerda. Se a atitude dos conservadores ou religiosos foi ‘’hipócrita’’ ou não pouco me interessa. Eles têm o direito de reclamar.

Não me assusta que a esquerda esteja reclamando da dita ‘’censura’’. A verdade é irrelevante para eles, sempre foi. Mas francamente não consigo entender porque os liberais estão usando a mesma linguagem que a esquerda para atacar um movimento civil que usou de ferramentas do próprio ‘’livre mercado’’ (o boicote) para expor seu ponto. Se o Santander sofrer um processo, podem ter certeza que não teria problemas em defender o banco. Todos têm o direito de fazer e falar merda. Mas enquanto isso não ocorrer, não consigo ver lógica nenhuma no posicionamento de alguns liberais.

Já aproveitando, as chamadas dos principais jornais estão vergonhosas. A mídia tradicional tem 0% de credibilidade em qualquer assunto, como já vimos nós últimos anos. A única que parece estar bem no momento é a Gazeta do Povo.

 

(Publicado originalmente em http://opiniaolivre.com.br/boicote-o-que-aconteceu-no-caso-santander-por-guilherme-benezra/)

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  • Editorial do Estadão
  • 14 Setembro 2017


O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse que “nunca se viu, em toda a nossa história, tantas investigações abertas e tantos agentes públicos e privados investigados, processados e presos”, razão pela qual resta à defesa dos implicados “tentar desconstruir, desacreditar a figura das pessoas encarregadas do combate à corrupção”. Foi uma forma nada sutil de se referir às críticas que ele e sua equipe vêm sofrendo em razão do espantoso acordo de delação premiada com o empresário Joesley Batista e do açodamento das denúncias contra vários políticos e altas autoridades sem o devido embasamento. Segundo Janot, quando há uma grande ofensiva contra a corrupção como a que ele e outros procuradores da República conduzem, “muitas pernas tremem”.

São palavras de quem, ele sim, precisa se defender. Ninguém no Brasil, salvo os criminosos, se opõe à luta contra a corrupção. Muito ao contrário: a Lava Jato e operações congêneres resultam da resolução dos brasileiros de atacar esse que é um dos principais flagelos nacionais. O que tem causado profundo incômodo é o messianismo dos que se julgam em uma cruzada moral contra os políticos em geral, comportamento que os induz a agir algumas vezes em desafio ao Estado de Direito, como se a causa justificasse o atropelamento da lei. Esse incômodo aumenta consideravelmente quando se observa que Janot tem sido incapaz de esclarecer as diversas dúvidas e suspeitas que surgiram sobre os procedimentos de integrantes da Procuradoria-Geral desde que veio à luz a bombástica delação de Joesley Batista.

Uma instituição como a Procuradoria-Geral, dedicada a defender a ordem jurídica, deveria ser a campeã da transparência. No entanto, o que se tem observado é que, dia após dia, surgem informações que indicam um comportamento reprovável de alguns de seus integrantes envolvidos nas nebulosas negociações do acordo com Joesley, sem que o procurador-geral tenha sido capaz de dar explicações plausíveis para isso. O máximo que consegue é dizer-se “ludibriado”.

O caso mais célebre é o do ex-procurador Marcelo Miller, que, ao que tudo indica, orientou o Grupo J&F e o empresário Joesley Batista a elaborarem os acordos de leniência e de delação premiada quando ainda era integrante da Procuradoria-Geral e um dos principais assessores de Rodrigo Janot. O próprio Janot já admitiu a ação de seu ex-assessor e pediu a prisão de Miller, que o ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, indeferiu – embora, em seu despacho, tenha dito que são “consistentes” os indícios de que Miller praticou o delito de obstrução de Justiça.

A exótica decisão de Fachin é apenas mais um elemento carente de explicação numa história que causa espanto contínuo e progressivo – a começar pelo fato de que ela só veio à luz em razão do estranho acaso da entrega de uma gravação involuntária de Joesley Batista que, entre um drinque e outro, conta como se associou a procuradores para obter a desejada imunidade total.

Com esse novo escândalo, surgiram suspeitas de que, além de Marcelo Miller, ao menos outros dois procuradores, muito próximos de Rodrigo Janot, teriam atuado em favor de Joesley. Recorde-se, a propósito, que um outro procurador chegou a ser preso, em maio, sob acusação de ser informante de Joesley.

Ou seja, há robustas razões para cobrar de Janot esclarecimentos sobre o que se passa no Ministério Público sob sua chefia. De nada adianta dizer-se enganado. É preciso que o procurador-geral pare de insultar a inteligência dos cidadãos – como quando disse que conversou apenas sobre “amenidades” ao ser flagrado em encontro fora da agenda, atrás de engradados de cerveja num botequim de Brasília, com um dos principais advogados de Joesley na véspera da prisão do empresário.

Desde o começo desse incrível imbróglio, esperava-se que Janot, comprovadamente despreparado para o cargo que ocupa, pedisse demissão. Já que resolveu ficar, então que ao menos reconheça seus inúmeros erros, que tanto custaram ao País, em vez de maliciosamente atribuir a seus críticos a pecha de inimigos da Lava Jato.

 

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