Valterlúcio Bessa Campelo
Em poucos minutos nasci. Me banharam com a água do poço, me deitaram em panos novos e me refrescaram com um abano de palha naquele calor de maio. Era tempo de chão esturricado no sertão nordestino. Não era tempo de nascer, era tempo de morrer, como os bois e os pés de feijão que viraram pó na caatinga. Nasci assim mesmo, de teimoso.
Meu pai tinha 30 anos e era um lavrador em terras áridas, puxava ervas daninhas pros pés com uma enxada que tinha o cabo alisado por suas mãos calejadas. Era também negociante das poucas cabeças de gado que os vizinhos punham à venda uma vez por ano. Dinheiro para comprar tecidos para minha mãe coser roupas novas e, talvez, um par de sapatos para ir à missa.
Minha mãe tinha 34 anos e já criava três dos cinco filhos que havia parido, dois viraram anjinhos, num lugar onde as incelências eram frequentes. “Será que ele se cria?” perguntavam os parentes uns aos outros. Me criei, mesmo lambido pela morte na forma de “doença de menino”. No céu, não me quiseram como anjo.
No domingo eu cresci, brinquei e aprendi. Já não foi na caatinga, foi na cidade, entre outras crianças, amparado por professores pacientes fazendo jogos e longas caminhadas ao meio dia, indo ou vindo do grupo escolar. Cresci bem nutrido, arengueiro e sabido. Força para lutar, arenga só pra arengar e esperteza para me safar.
Na segunda-feira eu cresci, sofri, me apaixonei e aprendi. Pela manhã, as dúvidas, os conflitos, os traumas. Durante a tarde, a paixão, o primeiro tocar, frêmitos no coração e um romantismo acanhado, inspirado nos livros que li. De noite, os prazeres do corpo e do copo, os mal feitos inconfessáveis e o penar pra aprender.
Na terça-feira eu me aventurei, lutei, amei e aprendi. Já não foi onde era, foi fora daquele mundo. Primeiro, sozinho, perdido em mim e na vida. Depois, com ela, que juntou-se ao devir, trazendo esperança, amor e certezas. Mais tarde, mudança, eu queria ser o que era, não bastava aprender.
A quarta-feira é tempo de luta, então lutei, lutei e lutei. Também mais amei, cristalizei o querer. O sentir que entreguei recebi em mais da medida, eu já não era eu, eu éramos nós. Renunciar ao ser para sermos é dobrar a cuia da porção divina. Pra não lutar por lutar, mais aprendi. A luta pode riscar na mente um novo saber.
Na quinta-feira alegrei-me como nunca antes nem depois. Veio do céu, em forma feminina, um presente de Deus. Imerecido, talvez, desejado é certo, necessário também. E mais lutei, amei e aprendi. Uma provação repentina, um recomeço, outro mundo a ver e entender. Saltei no escuro agarrado em seu braço. Éramos três e ela nos sustentava com uma força e um sorriso que nunca tive ou terei.
Na sexta-feira, de novo, a necessidade do recomeço. A vida é assim para quem não se rende, lutar é de lei, amar é só amar e aprender é preciso. Fiz uma volta ao passado, como se ele fosse um barco ancorado a nossa espera. Não era. O passado não estava no lugar onde deixei, não pudemos ficar. Sonhamos o sonho errado, tivemos que acordar.
Agora é sábado, ainda manhã. Voltei pro lugar onde vivi a terça-feira e a quarta-feira. Ainda posso lutar? Amar? Aprender? Lutei tanto e aqui estou, quase sem forças para continuar. Aprendo desde o domingo e nada sei. Coleciono dúvidas como se ainda fosse segunda-feira e as minhas certezas se desmancham no ar, não resistem à luz mais efêmera.
Não, isto não é um olhar para trás, não é um lamento, uma saudade, uma tristeza. É que à minha frente surgiu um enorme espelho e eu só vejo o que foi, o que fui e o que fiz, não consigo enxergar o que virá. Quando o sábado estiver chegando ao fim, o que restará? Um homem quebrantado, uma vida vivida e esquecida num canto da sala? Isso me enche de medo.
Me disseram que a noite do sábado pode ser tranquila, com tempo para observar os domingos dos que nascem e as segundas-feiras dos que aprendem. Mas, também pode ser longa e penosa. Como saber, com esse espelho atrapalhando a visão? É melhor aguardar. Ainda bem que tenho a graça de amar. Ela e ela.
* Publicado originalmente no blog do autor e enviado por ele a este site.
Rafael Coelho Leal
Como diria um velho amigo “perdi a capacidade de me espantar”.
Observo que após a mais grave crise deste século e uma das maiores da história da humanidade (vírus chinês) a sensatez , a coerência e a sensibilidade foram muito mais afetadas do que os tecidos e órgãos humanos.
A cada dia me deparo com posições que em outros tempos pareceriam dignas de choque ou anedota.
Para mim está claro, a Covid 19 foi REVELADORA.
Trouxe à tona sentimentos, noções (ou falta delas), conclusões e ditames surpreendentes.
Conceitos consagrados relativizaram-se a bel prazer de quem os forja e os emite.
Responsabilidades foram terceirizadas, direitos sem nenhum fundamento exigidos, imposições autoritárias absolutamente insanas impingidas.
Vilões travestiram-se de heróis.
Heróis foram vilanizados e perseguidos.
A Pandemia das revelações.
O ser humano escancarou seu lado de maior bestialidade: egoísmo, vaidade, egocentrismo, absoluta despreocupação com o próximo, desconexão com a realidade, medo insuperável, ideologias antes de vidas, despreparo, arrogância…
Nossas vidas nunca mais serão as mesmas.
* Rafael Coelho Leal é advogado.
Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
SUPERPODERES
A partir do momento em que CORONAVÍRUS foi declarado como PANDEMIA, pela Organização Mundial da Saúde, inúmeros governadores e prefeitos do nosso empobrecido Brasil entenderam que a OMS lhes conferia o DIREITO DITATORIAL de dizer aos seus governados que só o ESSENCIAL poderia ser produzido e/ou consumido. Mais: através dos supostos SUPERPODERES que acreditavam ter recebido da OMS, eles saberiam definir o que era ESSENCIAL e o que era ACESSÓRIO.
CLIMA DE ABSURDOS
Pois, neste clima onde os absurdos ganharam proporções impressionantes, muitas empresas foram obrigadas a fechar suas portas porque não sabiam produzir algo que fosse considerado ESSENCIAL pelos governantes SUPERPODEROSOS e com isso milhões de brasileiros simplesmente foram demitidos porque não se mostraram capazes de fazer algo que fosse considerado como ESSENCIAL para os consumidores.
ÁLCOOL EM GEL
O curioso, para não dizer revoltante, é que o ÁLCOOL EM GEL, que junto com as MÁSCARAS, foi, e continua sendo, o artigo MAIS ESSENCIAL DE TODOS, figura como o TERCEIRO PRODUTO MAIS TRIBUTADO NO BRASIL (perdendo apenas para TABACO e COMBUSTÍVEIS, segundo informa a Associação Brasileira da Indústria de Higiene e Limpeza, Perfumaria e Cosméticos (ABIHPEC). Em nenhum momento, os SUPERPODEROSOS acharam por bem em reduzir os tributos sobre o produto considerado como mais ESSENCIAL. Nem mesmo o fato de que, em 2020, as vendas de ÁLCOOL EM GEL dispararam 808%,
A MAIOR PARTE VAI PARA O GOVERNO
Como se vê, infelizmente, esses maus governadores e prefeitos do mal, além de não entender que só o consumidor tem o DIREITO SAGRADO de definir aquilo que é ou não ESSENCIAL para si próprio e/ou para seus dependentes, ainda usa seus poderes TRIBUTÁRIOS para ficar com a maior parte do valor do indispensável ÁLCOOL EM GEL que é vendido -compulsoriamente- no mercado.
MAUS GOVERNANTES
Ora, diante de tamanho absurdo misturado com grossa injustiça, o que precisa ficar bem claro é que em momento de PANDEMIA, os IMPOSTOS deveriam ser considerados como TOTALMENTE DISPENSÁVEIS. Melhor: PROIBIDOS DE SEREM COBRADOS. Não só para o ÁLCOOL EM GEL, mas todos os PRODUTOS. De novo, para que fique bem claro: o que não é ESSENCIAL NEM ACESSÓRIO são esses maus governantes.
Autoria desconhecida (?)
Nota do editor do blog: Transcrevo parte de um texto maior que me foi enviado, sem indicação de autoria e com indícios de haver recebido acréscimos em relação ao original. Por isso, extraí apenas a parte que trata de questões de gênero no idioma português. Se alguém conhecer a autora, por gentileza avise. Diz o texto:
"Em português, a vogal temática na maioria das vezes não define gênero.
Gênero é definido pelo artigo que acompanha a palavra.
Vou mostrar pra vocês:
O motorista. Termina em A e não é feminino.
O poeta. Termina em A e não é feminino.
A ação, depressão, impressão, ficção. Todas as palavras que terminam em ção são femininas, embora terminem com O.
Boa parte dos adjetivos da língua portuguesa podem ser tanto masculinos quanto femininos, independentemente da letra final: feliz, triste, alerta, inteligente, emocionante, livre, doente, especial, agradável, etc.
Terminar uma palavra com E não faz com que ela seja neutra.
A alface. Termina em E e é feminino.
O elefante. Termina em E e é masculino.
Como o gênero em português é determinado muito mais pelos artigos do que pelas vogais temáticas, se vocês querem uma língua neutra, precisam criar um artigo neutro, não encher um texto de X, @ e E.
E mesmo que fosse o caso, o Português não aceita gênero neutro. Vocês teriam que mudar um idioma inteiro para combater o 'preconceito'."
Comento
Ademais, ninguém tem o direito de submeter o idioma falado por todos ao modo como se vê e/ou quer ser visto e descrito. Ninguém tem o direito de, para identificar-se, suprimir a identificação dos demais. O idioma não é patrimônio de nenhum grupinho político ou de interesse.
Valdemar Munaro
As coisas no Brasil atual, vistas desde a ótica da política e da moralidade, se parecem muito a acontecimentos e personagens já encontrados nas poesias homéricas. Homero (que viveu entre os séculos IX e VIII a. c.), mestre da poesia, embora cego, via com sagacidade muitos segredos da alma humana. Sua obra, pilar da civilização grega e da cultura ocidental, narra mitos e heroísmos que prefiguram parte da saga em que nos metemos. Gerações de sua época conheciam inteiramente aquelas histórias e, mesmo sendo parte do imaginário popular, levavam-nas a sério, memorizando-as. Hesíodo (século VII a. C.), um poeta camponês posterior, declamava aqueles versos aos aldeões para instruí-los na seiva e na tradição das quais eram herdeiros. Prezava, porém, o heroísmo estampado no rosto do lavrador mais do que na força do guerreiro político.
Os poemas conhecidos como 'Odisseia' e 'Ilíada' se tornaram tesouros da literatura e trouxeram até nós uma parte daquele universo helênico. Lamentavelmente, essas obras não mais são conhecidas e amadas como outrora por nossos estudantes pelo fato de pretensos arautos da educação escolar e universitária, enfeitiçados que estão por ideais inovadores e progressistas, semearem desprezo e negação por tudo o que vem do passado. Com efeito, um novo hospedeiro ocupou o lugar da vida intelectual de nossa gente subvertendo o assento que a sabedoria antiga ocupava no reino da ciência na qual se dava primazia à contemplação sobre a ação. Os sábios de outrora não se esforçavam tanto por conhecer o mundo com vistas à sua transformação, mas, antes, para se compreenderem a si mesmos e se orientarem no curso da vida.
Naqueles homéricos poemas encontramos notas de humanismo e fina psicologia. Ulisses, protagonista da Odisseia, é herói sobrevivente da guerra de Troia, um exímio estrategista e enganador. A engenhoca do 'cavalo de Troia' foi sua inspiração. Contudo, Ulisses não enganou só troianos, enganou também o gigante da caverna, pondo-se sob o ventre das ovelhas, enganou sereias sedutoras tapando ouvidos para não as escutar, enganou rochedos mortais ao navegar equidistantes correntes. Sua saga é um heroísmo ante agruras terrestres e marítimas. Seu aprendizado lhe vem mais da lida com a natureza do que das batalhas políticas. A terra e o mar, em muitos casos, são para os humanos obstáculos superiores às lutas cívicas. O convívio de Ulisses com o meio ambiente nu e cru, ensina que a natureza, como diz Chesterton, nem sempre é mãe; por vezes é também madrasta cruel. Do mesmo modo como louvores a revoluções sangrentas em geral são feitos por homens que nunca delas participaram, assim também amores e afetos que normalmente dispensamos à mansa e bela 'natureza' (romantizada, como exemplo, pela floresta amazônica), quase sempre, nascem de mentes e corações situados em recintos aquecidos e varandados.
Admiro Odisseia, mas, permitam-me sublinhar 'Ilíada', a poesia épica troiana, de natureza fratricida. Encontramos ali o eco dos devastadores conflitos de povos gregos entre si. Ilíada é a poesia das cidades irmãs em litígio: está implícito nela o tema da guerra entre os próprios gregos, o símbolo de todos os atritos humanos. É claro que também a guerra contra os persas, registrada por Heródoto (484 - 430 a. C.), tem matizes de heroísmo e desgraça, mas o conflito dos gregos entre si, narrado inclusive por Tucídides (460 - 400 a. C.), na sua Peloponeso, é mais lamentável e mais triste porque é registro de guerras entre irmãos. Enfim, batalhas contra estranhos e batalhas entre irmãos terminam sendo faces de um mesmo e degradado convívio humano.
Em Troia, os personagens falam mesma língua, bebem mesma fonte, rezam mesmos deuses, manducam mesmo pão, mas a intriga termina em sangue de 'irmãos' derramado por 'irmãos'. Por que essa insensatez no interior das nações? Erasmo de Roterdã no seu 'Elogio' (1509), diz satiricamente que a loucura é a fonte e a causa das nossas invenções, da nossa arte, dos nossos amores e das nossas guerras. Ironias à parte, sabemos que nenhuma insensatez faz bem aos homens, muito embora haja os que a defendam e a promovam. Em jardins secretos de lacaios de ocasião crescem árvores mazelentas nutridas de perversas intenções que oportunisticamente se revelam. No sacrário humano parece haver uma misteriosa e maliciosa genética que a própria psicanálise (e suas doutrinas irmãs) não consegue visualizar, nem curar.
A guerra de Troia se assemelha a uma outra denominada Babel e descrita pela Bíblia. Também aqui se veem homens entoando mesmas canções, palrando mesmas línguas, bebendo mesmos vinhos, orando mesmo Deus. São gentes de igual estirpe e cultura, mas não se entendem. Vê-se que o problema não está na língua. Em Pentecostes, antítese de Babel, os homens falam línguas diversas e se entendem. Em Babel, antítese de Pentecostes, falam mesma língua, mas não se entendem. Nesta, fraternidades se tornam babilônia, naquela, babilônias se tornam fraternidades. O espírito que nutre e sustenta ambas as 'cidades' tem fontes distintas: numa, se cultiva o inferno, noutra, o paraíso. O diabólico, o espírito da divisão, é craque em encrencas. Seus frutos são premissas de babilônias que nos dividem e nos amedrontam.
O assunto se derramou por várias esferas, sobretudo para o campo das doutrinas e das relações humanas. Maquiavel (1469 – 1527), por exemplo, via a sociedade como junção de 'raposas e leões', por isso insistia numa vida política baseada na desconfiança, na malandragem, na tirania, no medo. O príncipe, segundo ele, não deve somente ser obedecido. Para subsistir, deve também ser temido. Thomas Hobbes (1588 – 1679) seguiu o mesmo caminho ao formular os fundamentos do seu 'Leviatã'. Depois vieram os revolucionários franceses impregnados de 'iluminismo' e terror. Charles Darwin (1882), racista, não perdeu por esperar: sua teoria afirma a lei da luta pela vida e da seleção natural pela qual o forte subjuga o fraco. Finalmente, quando o pai do marxismo, Karl Marx (1883), veio para nos ensinar o comunismo, a cama já estava arrumada para deitar nela a prática revolucionária, o ressentimento, a revolta, a quebradeira moral, o conflito histórico e social. Por isso, marxistas gostam de conflitos e o promovem. Foi de um famoso filósofo alemão, G. W. F. Hegel (1830), que Marx aprendeu quase tudo o que ensinou sobre luta e conflitos políticos. De fato, a filosofia de Hegel acreditou poder explicar tudo por meio de um princípio que recebeu o nome de dialética, mas que, na prática significa conflitualidade. É natural, portanto, que filosofias hegelianas e marxistas acariciem e alimentem conflitos e nunca a paz.
Ora, se a malícia e a corrupção medram e nutrem a alma do homem, não há língua nem atitude decorrentes dela que estejam livres dessa desgraça. O espírito de Babel se espraiou na seara política e em toda comunidade humana, especialmente no Brasil. Babilônia é nossa peste. Dá um nó na garganta ver o comportamento de muitos de nossos políticos e de nossas lideranças. É só conferir a atual CPI da Covid (conduzida pelo G7) de nossos senadores totalmente aninhados na sujeira e na corrupção (como Omar Aziz e Renan Calheiros). Definitivamente, esse pessoal não ama, nem respeita o Brasil e os brasileiros. Seguem institivamente instintos de poder e de conflito. Nas entranhas de muitas de nossas lideranças reside o germe que achincalha a comunhão, corrói a vida social e familiar, a justiça, a fraternidade, o amor. Primeiro rasgam a túnica inteiriça e depois se apresentam como seus costureiros. Primeiro instauram a quebradeira em todo tecido social (como exatamente fizeram e fazem os atuais governantes comunistas cubanos e o PT com toda sua turma) para depois se professarem arautos da paz e restauradores da democracia e da concórdia. Somos mesmo um povo sob lideranças carunchadas e enganadoras.
Dostoievski (1881) desconfiava que o inferno podia ser ou uma espécie de 'fraternidade' odiosa ou uma absoluta solidão. Estamos no caminho. O que é pior: uma convivência fundada sobre o ódio ou uma impossível convivência fundada sobre a ausência de pessoas para se amar? O que mais mata: um lar sem amor ou um amor sem lar? No fim, dá no mesmo: o amor que falta à solidão é o mesmo que falta às insuportáveis convivências. Até mesmo, no seio da nossa Igreja, aquela que deveria ser mãe zelosa de comunhão e de moralidade, também reina contaminações: o trigo travestiu-se de joio e o joio de trigo. Talvez, por isso, no coração de muitos cresce um sentimento de desamparo e solidão.
Voltemos à Ilíada. Nela, dois ilustres heróis, Aquiles e Heitor, indicam as coordenadas das intenções que motivam os que na vida devem lutar. Esses heróis são da mesma estirpe grega e urbana, mas o escopo de suas lutas, em cada um, é distinto. Em Aquiles há narcisismo e vaidade. Seu ego, coisa inusitada, tem o incenso da própria mãe. Como assim!? Mãe incentivando o próprio filho à guerra?! Sim, pois o que interessa nele não é a guerra em si, nem a pátria a ser defendida, mas é o peito inchado de narcisismo. Aquiles é o 'cara' da civilização helênica, o guerreiro por excelência, aquele que derruba adversários. A vaidade o conduz à guerra e seu gozo é ver inimigos se contorcendo. Não ama porque é mercenário e é mercenário porque não ama. Poderia lutar inclusive ao lado dos troianos se estes tivessem acariciado sua imagem e seu orgulho pessoal. Sua força guerreira não visa beneficiar nenhum povo, nenhuma cidade, mas só a si mesmo.
Heitor, ao invés, tem nobreza de alma. Vai à guerra para salvar sua gente, defender sua terra, sua casa, sua família. A guerra em Heitor tem um naco de justiça e honradez. Espelha as guerras que devemos travar quando precisamos conservar a retidão na nossa alma e a nossa alma na retidão. Por isso, nem todas as guerras são injustas. Muitas delas são necessárias e inevitáveis. Os grandes S. Agostinho e S. Tomás justificavam as guerras de defesas. Sabiam que não há vida honesta e justa sem batalhas e todo aquele que, de coração, amar o bem e a verdade sofrerá represálias, perseguições e sentirá frieza e força dos ventos contrários. Escolher o bem é também rejeitar e resistir ao mal.
Aquiles e Heitor não são apenas personagens míticos, são também o rosto e a personalidade de cada ser humano. Se nossa vida política se tornou um ninho de serpentes, com maior razão heitores devem despertar e se levantar. Nossa nação não pode ser refém de personagens aquileanos infiltrados no Congresso Nacional, no Judiciário e nos Estados. Os resíduos troianos estão à vista. Aquileanos estão a postos para abocanhar de novo o ubre em que mamavam. As eleições do próximo ano impõem-nos, portanto, uma urgente obrigação moral: escolhermos heitores ao invés de narcisistas aquileanos para nos legislar e nos governar. Cabe a todos nós discernirmos e julgarmos os que agem como Aquiles e os que agem como Heitor. Não há nem haverá uma terceira via. A luta será entre Aquiles e Heitor. Todo nosso apoio, portanto, neste momento, deve ser dado ao nosso presidente Jair M. Bolsonaro que já desceu ao campo de batalha e demonstrou ter alma e elmo de Heitor.
* O autor é professor de Filosofia na UNIFRA.
Santa Maria, 23/07/2021
Alex Pipkin, PhD
Desde meus áureos tempos nos bancos escolares do primário, li e aprendi que o Brasil era o grande celeiro do mundo.
Adam Smith e David Ricardo, entre outros, explicam pertinentemente nossas vantagens comparativas em uma série de commodities agrícolas - soja - e industriais - minério de ferro - que nos foram herdadas; uma dádiva d’Ele. Como fomos beneficiados pela extensão, pela abundância, pela qualidade e pelo clima de terras agricultáveis para certas culturas. Será mesmo que como alude o folclore tupiniquim, Deus é brasileiro? Tenho minhas abissais dúvidas…
Bem, como nos meus tempos universitários agarrei-me a trilogia Porteriana, sei que as vantagens que realmente contam são as competitivas, aquelas que são criadas pela engenhosidade, pelo esforço e pelo investimento humano.
Nossa vocação continua sendo de produtores e de exportadores do setor do agrobusiness, no entanto, com uma diferença abissal: o setor investiu pesadamente em pesquisa e desenvolvimento, em tecnologias, e inovou pragmaticamente, gerando maior produtividade, empregos, renda e riqueza. O agronegócio nacional transformou-se em uma indústria intensiva em capital e tecnologia no que diz respeito à sua produção; sensacional.
Não é necessário muito esforço para comprovar o protagonismo do setor, que em 2020 representou 26,6% do PIB brasileiro.
Evidente que a demanda mundial e o aumento dos preços das commodities impactaram no crescimento, porém, inegavelmente ocorreu uma transformação de postura e tecnológica no setor.
Por outro lado, o que dizer do franco processo desindustrializador que o país vem sofrendo?
Em 2020, a indústria representou apenas 11,3% do PIB nacional e, sabidamente, o setor é o grande responsável pela geração de transformações, inovações, empregos, renda e riqueza.
Nesse país de legítimas e provadas elites de baixa qualidade, que insiste em focar o próprio umbigo - e de apenas alguns escolhidos - isolacionista e protecionista, repleto de relações de compadrio, de proteções, de incentivos fiscais, de subsídios, de tributação alta e burocrática, com raras exceções, continuamos mesmo produzindo espécies de carroças.
O acesso a tecnologias de ponta, insumos, componentes, sistemas, bens de capital, enfim, segue significando um esforço hercúleo, que impede e/ou dificulta a agregação de valor, o aumento da competitividade brasileira e a nossa participação nas cadeias globais de valor.
Esse país é tão esotérico que até mesmo as transnacionais por aqui atuam distintamente do resto do mundo, constituindo-se, basicamente, em produtoras para o mercado doméstico. O irônico é que muitas delas brigam pela manutenção da “fechadura brasilis”.
O nefasto resultado desta retrógrada e enviesada situação, é o de que a indústria nacional manufatura produtos de baixa agregação tecnológica, não inovadores - não há influxos tecnológicos - e de custos e preços mais altos - não há ganhos em escala.
Claro que não é ruim ter um agronegócio forte; o problema é ter uma indústria desvalida e que definha sistematicamente, com reflexos negativos para a produção, para a inovação, para a produtividade e o emprego e a renda.
Sem dúvida, o agronegócio tem sido a ilha verde-amarela da produtividade e da prosperidade nacional.
Neste sentido, aproximamo-nos do momentoso arquipélago de Cuba. Alega-se que Cuba, cuja produção se baseia na cana-de-açúcar, no tabaco e no níquel, não consegue se industrializar em razão do bloqueio econômico imposto ao país. Interessante um país socialista precisar dos “capitalistas malvados” para tanto, mas enfim, as relações internacionais são fruto de uma escolha política cubana.
Por sua vez, por aqui, a decisão de procrastinar no caminho da abertura, da industrialização, do crescimento e do desenvolvimento econômico e social, é sempre velada, verbalizada de modo ambíguo e contraditório, mas o fato é que a carroça nacional transita sempre devagar e pela contramão, sendo frequentemente ultrapassada pelos países asiáticos e até mesmo por outras nações latino-americanas, que outrora nos orgulhávamos em afirmar que éramos mais “desenvolvidos”.
Nossa teimosia protecionista tem um enorme custo social e econômico no presente e no futuro. O efeito da corrida da Rainha Vermelha vai pegar sempre e, verdadeiramente, os parasitas pau brasil sempre encontram novas formas de se reproduzirem e se desenvolverem.
Pois é, tanto se fala em economia 4.0, em inovações na indústria, em especial naquela puxadora, a automobilística, mas os elétricos… ah, os elétricos… esperemos…
Pelo que tristemente prevejo, seremos eternamente o país das “modernas carroças” e, inteligentemente, de um cada vez mais pujante e inovador setor agropecuário.
Que pena, que lástima, Brasil, para todos nós!