Érika Figueiredo
É por essas e outras que estamos caminhando para um abismo como Civilização.
Assisti ao novo filme da Cinderela, que está sendo exibido na plataforma Amazon Prime Video. Confesso que fiquei horrorizada. O conto de fadas que atravessou os séculos e encantou milhões de crianças, foi transformado em uma grande propaganda ideológica, na qual nem a fada madrinha foi poupada.
Todos os elementos da anterior narrativa, repleta de símbolos virtuosos e que falava de amor, doação, renúncia, entrega, generosidade, fé e esperança, heroísmo e senso de dever, cavalheirismo e feminilidade, foram subtraídos da história.
Agora, Cinderela é uma jovem ambiciosa e feminista, que deseja vencer na vida a qualquer custo, como modista. É debochada, contestadora e impetuosa. Seu sonho é alugar a loja que se encontra vazia, e transformá-la em uma boutique de roupas, no vilarejo em que reside. Diz coisas do tipo: “se posso dar à luz e administrar um lar, por que não posso gerir um negócio próprio?”
A madrasta não é tão perversa assim... afinal, uma mulher que ficou viúva de dois maridos, e tem duas filhas e uma enteada para sustentar, precisa arranjar-lhes bons casamentos, a fim de que tenham o futuro garantido. Dá conselhos de sedução às jovens e flerta com o vizinho.
O príncipe é apresentado como um jovem idiotizado e totalmente alheio às funções que deve desempenhar, rodeado de amigos tão histriônicos quanto ele próprio. Questiona a sucessão, e dá ordens ao rei. Sente-se exausto pelo exercício de suas atribuições reais, e chega a dizer que Deus é injusto com ele, pois sua vida é muito difícil.
A rainha é fastiada e aborrecida com seu papel, ao mesmo tempo em que se mostra condescendente com a atitude descompromissada e mimada de seu filho. Desdenha do rei, a quem quer dominar. A princesa, irmã do príncipe, é petulante e autorreferente como o irmão, e o rei só ganha deles na base do grito e da ameaça.
As irmãs de Cinderela, ao menos, permanecem insuportáveis.
As músicas do filme trazem mensagens do tipo: “você pode fazer o que você quiser”, “você pode ser quem você sonhar”, “não deixe o mundo formatar você”, “o que vale é o que você pensa sobre si mesmo”. Ideologia pura, travestida de autoajuda.
A própria postura de Cinderela é insolente e desafiadora, e seu linguajar é chulo e repleto de gírias. Nada nesse filme é ofertado de graça, nenhum afeto é genuíno e desinteressado. Em todas as relações e cenas, as pessoas obtém algum ganho, que faz com que permaneçam onde estão.
Cinderela chega a vender um vestido para o príncipe, na aldeia, em uma ocasião em que ele está disfarçado de plebeu. Ao convidá-la para o baile, o rapaz precisa antes assegurar-lhe que lá haverá muitas clientes em potencial, para suas criações, a fim de que a mesma aceite o convite.
E o que dizer do “fado madrinho”? Uma drag queen, vestida de amarelo, que providencia um terninho azul para Cinderela ir ao baile, em um primeiro momento, já que ela quer ser “empresária”. Como ela discorda da vestimenta, coloca a moça em uma roupa de gala.
O discurso feminista prossegue, com Cinderela dizendo ao príncipe que não quer viver trancada em um palácio, que quer trabalhar fora, que esse papo de casar não está com nada, que quer ser independente... Totalmente Meghan e Harry, e o fim da história lá do Reino Unido nós já sabemos qual foi.
Os contos de fadas foram inventados como uma forma de transmissão de ensinamentos, de geração para geração, a respeito de valores e virtudes, para as crianças desde a mais tenra idade, de um modo compreensível para estas. Ao ouvirem sobre reinos, príncipes, princesas, heróis, bruxas, fadas, reis e rainhas, os pequenos vão decodificando o bem e o mal, o certo e o errado, na vida dos seres humanos.
Acontece que testemunhamos, hoje, com muita perplexidade, a total desvirtuação destas fábulas, as quais passaram a ser impregnadas das ideologias e dos discursos do momento. Se antes, estes permaneciam preservados em suas narrativas, atualmente, deixaram de servir de base para a formação, transformando-se em instrumentos de perversão do pensamento, desde a infância; nem as crianças são poupadas.
Pensemos o seguinte, por exemplo: se Cinderela não é necessariamente boa, o bem e o mal estão automaticamente relativizados. Assim, a madrasta também deixa de ser má, mesmo com todas as demonstrações de egoísmo, maledicência e inveja, e tudo está justificado pela vida difícil que leva.
Se o príncipe não é forte, viril e protetor, não é um homem ciente de suas obrigações, põe-se em xeque a masculinidade. Se a fada não é modelo de fé, esperança, generosidade e beleza, ela não representa nosso anjo da guarda. Logo, nossa capacidade de acreditar em Deus e na Humanidade começa a ruir.
Pouco a pouco, todos os critérios objetivos de avaliação de virtudes e de símbolos são diluídos, nessa versão bizarra de Cinderela. O mesmo aconteceu com versões recentes de Alladin e de A Bela e a Fera. Jordan Peterson, o famoso psicólogo canadense e autor de best sellers, costuma utilizar os símbolos extraídos dos contos de fadas, para exprimir virtudes, desde sempre almejadas pelos homens.
A civilização passava tais virtudes adiantes, por meio de seus mitos, fábulas, novelas e Histórias, tamanha a importância desses modelos, ali contidos, para toda a Humanidade. Infelizmente, a modernidade acabou com isso: não há mais modelos ou exemplos a serem seguidos, no campo da existência. Como diz a música do filme Cinderela – cada um pode ser o que quiser.
É por essas e outras que estamos caminhando para um abismo como Civilização, vivendo uma guerra espiritual entre o bem e o mal sem precedentes. Por mais que já tenha o mundo atravessado crises civilizacionais terríveis, os critérios do que seriam o bem e o mal estiveram sempre preservados e eram claros.
É preciso refletir muito sobre o que se passa com a Humanidade, e em que ponto o bem e o mal tornaram-se tão relativos, a ponto de comprometer-se até mesmo a narrativa de um singelo conto de fadas. Como nos dizia Eric Voegelin, ninguém é obrigado a participar da loucura da Civilização, mas todos somos obrigados a manter a ordem em nossas vidas, apesar do caos externo. Os contos de fadas, antigamente, sinalizavam-nos um caminho para chegarmos a esse fim.
* Publicado originalmente em Tribuna Diária -https://www.tribunadiaria.com.br/ler-coluna/1161/cinderela-pos-moderna.html
** Erika Figueiredo é Promotora de Justiça, escritora, mãe, cristã e conservadora. Fala de história, filosofia, política e direito.
Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
HECTOR BRENNER
Ontem à noite, mexendo na gaveta onde guardo os textos -inteligentes-, assinados por autores cujas análises, propostas e críticas nunca saem de moda, me deparei com o espetacular relatório que foi produzido e divulgado pelo MOVIMENTO NACIONAL PELA LIVRE INICIATIVA, referente ao período de 1978 a 1988, encabeçado pelo então presidente do CNP - Conselho Nacional de Propaganda- o saudoso e muito competente publicitário, Héctor Brenner, um argentino que cultivou carinho especial pelo Brasil, especialmente na sua trajetória profissional.
PEÇAS PUBLICITÁRIAS
No seu discurso de apresentação do relatório, em 26 de maio de 1988 (lá se vão mais de 33 anos), Brenner fez um especial agradecimento aos veículos de propaganda do RS pelo excelente material que elaboraram, todo ele com a pretensão de transformar o Brasil em um país próspero e democrático. Aqueles antigos e corretos profissionais, por tudo que fizeram durante a década de atuação do MOVIMENTO PELA LIVRE INICIATIVA, deixaram bem claro o quanto não queriam mais viver sob a interferência do Estado em forma de PESADA CENSURA.
A MELHOR ESCOLHA É A LIBERDADE DE ESCOLHA
Vejam , a seguir, algumas peças que foram publicadas durante o período da campanha do MOVIMENTO NACIONAL PELA LIVRE INICIATIVA, começando por esta aí: A MELHOR ESCOLHA É A LIBERDADE DE ESCOLHA. Entre tantas e ótimas razões o texto publicitário destaca: - NUNCA, NA HISTÓRIA DO HOMEM, SE VIU UMA SOCIEDADE POLITICAMENTE LIVRE QUE NÃO SE BASEASSE NUM SISTEMA ECONÔMICO LIVRE-. Bons tempos, não?
CAMPANHA
Outra: PARA EXERCER A LIVRE INICIATIVA BASTAM DUAS CONDIÇÕES: SER LIVRE E TER INICIATIVA. Mais outra: SE A LIVRE INICIATIVA FECHAR OS OLHOS A CERTAS COISAS, MUITO EM BREVE ELA PODERÁ NÃO SER MAIS LIVRE. Neste texto a peça publicitária faz a seguinte referência: ENQUANTO EXISTIREM BRASILEIROS VIVENDO EM CONDIÇÕES SUBUMANAS, A LIBERDADE NÃO SERÁ SUA PRIMEIRA PRIORIDADE. Que tal?
LUCRO
Outras mais: QUANDO EXISTE LUCRO, TODO MUNDO SAI LUCRANDO! Aí a peça faz duas referências: 1-: O LUCRO É O INSTRUMENTO FUNDAMENTAL NA ECONOMIA DE MERCADO; e, 2- O LUCRO É NEUTRO, NÃO É BOM NEM MAU. O QUE PODE SER QUESTIONADO É A FORMA COMO ELE FOI OBTIDO OU APLICADO.
MELHOR SISTEMA ECONÔMICO
Mais ainda: - PELAS "4 ÚNICAS MANEIRAS DE GASTAR DINHEIRO" VOCÊ DESCOBRE O MELHOR SISTEMA ECONÔMICO -. As 4 únicas maneiras, como refere a peça publicitária, são:
1- GASTAR O DINHEIRO PRÓPRIO EM BENEFÍCIO PRÓPRIO;
2- GASTAR O DINHEIRO PRÓPRIO EM BENEFÍCIO DOS OUTROS;
3- GASTAR O DINHEIRO DOS OUTROS EM BENEFÍCIO PRÓPRIO; e,
4- GASTAR O DINHEIRO DOS OUTROS EM BENEFÍCIO DOS OUTROS!
Valterlucio Bessa Campelo
Desde que foi criada em 13 de abril deste ano, a CPI da COVID do Senado, liderada pela dupla Omar Aziz/Renan Calheiros, que dispensa apresentações, coadjuvada no que pode ser piorada pelo senador saltitante e outros da espécie vermelha, vem cumprindo o rito, previamente comprometido, de buscar por todos os meios incriminar o governo. Não havendo qualquer denúncia frontal contra o Presidente Jair Bolsonaro, se fez necessário através da uma Comissão Parlamentar de Inquérito, o mais poderoso instrumento de investigação do parlamento brasileiro, produzir molambos fáticos que preenchessem um boneco jurídico prévio, no caso, uma omissão ou algo que o valha em relação ao enfrentamento da peste chinesa.
Nos últimos meses, com direito a prorrogação, a sociedade brasileira foi diariamente afrontada com abusos cometidos contra depoentes que não deveriam estar ali e, nem de longe, poderiam esclarecer qualquer coisa a não ser as próprias percepções em relação à peste. Desde senhoras e senhores profissionais médicos renomados a empresários, qualquer depoente não alinhado com a frase mortal “fique em casa e espere a falta de ar” foi tratado como criminoso. Humilhar o cidadão ou cidadã em nível nacional, constranger, e impingir culpa sem razão seguiu um verdadeiro abecedário na CPI.
Já em vias de refinamento, a CPI de relatório de conclusões prontas antes de começar, obviamente vai incriminar o presidente. Também obviamente não há justa causa, mas não é de justiça que se trata, é de política. Pretendiam seus propositores e operadores atingir dois objetivos. O primeiro, desgastar o presidente no curso das investigações, fazer derreter sua popularidade com a assistência novelesca das TV’s e jornais, de modo que seu capital político sofresse danos relevantes. O segundo, pouco provável, mas em tese não impossível, seria arrancar algum elemento que desse base a um pedido consistente ao Ministério Público. Não conseguiram uma coisa nem outra, a popularidade do presidente continua alta e a credibilidade do governo permanece íntegra. Os senadores apenas mostraram a própria face.
É certo que a tarefa inglória somente poderia ser dada a certos agentes. Que outro grupo de senadores aceitaria uma missão dessas? É tarefa para Renans, Humbertos. Randolfes e Azizes e como tal foi cumprida. Cada imagem de pessoa decente e trabalhadora, flagrantemente desconfortável apenas em sentar-se perante suas excelências e ter que dar respostas que não lhes caberia, é reveladora da trama que se desenvolveu às nossas vistas.
O Brasil deve um enorme pedido de desculpas ao médicos e cientistas Dr.a Nise Yamaguchi, Dr.a Mayra Pinheiro, Dr. Paulo Zanoto, Dr. Mauro Ribeiro e muitos outros furiosamente questionados por aquela gente sem freios. Aliás, em sentido contrário, sempre que o/a depoente apresentava-se anti-governista, o tapete vermelho era desenrolado e as hienas se derramavam em cortesia e salamaleques. Simplesmente nojento.
Milhões de reais foram gastos no embuste para produzir um relatório definido ex-ante, pedindo o indiciamento do presidente Bolsonaro. Parece um escárnio, mas Renan Calheiros, o relator, aquele responsável pela peça resultante de meses de gastos e nojentezas públicas, tem um histórico em sua carreira política de mais de 25 processos no Supremo Tribunal Federal – STF. Corrupção, lavagem de dinheiro, distribuição de propina, tráfico de influência, venda de apoio parlamentar a projetos etc., são comuns em sua folha corrida. A maioria foi arquivada, diga-se, mas como se pode ver AQUI, Renan Calheiros é praticamente um freguês dos ministros “supremos”.
Omar Aziz, presidente da CPI, não fica muito atrás em matéria criminal. Reportagens AQUI e AQUI e AQUI dão uma pista dos antecedentes do senador amazonense e de sua família. O mais agressivo entre os interrogadores é um vezeiro em responder a acusações de crimes.
Outro integrante, o Senador Humberto Costa, do PT pernambucano, tem alcunha na lista de propinas apurada na lavajato. Ele teria, segundo o delator Paulo Roberto Costa, recebido uma grana (ver AQUI) do esquema para sua campanha em 2010.
O inquieto Randolfe Rodrigues, senador pelo Amapá, teria participado de um esquema chamado mensalão do Amapá, quando foi por lá deputado estadual. O governador Capiberibe teria copiado o Lula e distribuído mesadas mensais aos deputados da base em troca do sim em votações de seu interesse (ver AQUI).
Pode-se então afirmar, pelo noticiário acima referido, que as quatro mais estridentes vozes que se levantam contra senhoras e senhores depoentes são, sem exceção, indignas de partir para cima dos depoentes como tsunamis de pureza, intimidando, agredindo, ameaçando, calando e interrompendo quem deveria estar à vontade para falar.
Foi necessário que o empresário Luciano Hang, vestido de veio da HAVAN em ironia verde e amarela genial, lhes mostrasse como discernimento e lucidez é bastante para por ao chão narrativas prontas e afrontas desmedidas.
Valterlucio Bessa Campelo escreve no site ac24horas, em seu BLOG e, eventualmente, no site CONSERVADORES E LIBERAIS (puggina.org)
Dagoberto Lima Godoy
Os preços estão aumentando em um ritmo de meter medo e esvaziar os bolsos, especialmente os dos mais pobres. É bom que se saiba que isso não acontece só no Brasil, mas em todo o mundo. Não serve de consolo, mas torna mais importante perguntar-se por que o problema é assim, geral. É certo que tanto a globalização da economia quanto a pandemia da Convid são causas evidentes, mas não devem ser culpadas sozinhas pelo empobrecimento generalizado.
É preciso lembrar como governantes reagiram diante desses fatos, mundo afora, com o apoio da mídia internacional e sob os aplausos dos políticos, especialmente os da esquerda. Ressalvadas as exceções, então acusadas de falta de senso humanitário, a maioria resvalou nos limites do autoritarismo ao impor regimes de isolamento social e quarentenas, com isso prejudicando a produção de bens e serviços e, ainda mais, desorganizando o sistema produtivo, em todo o mundo. A palavra de ordem foi “cuidar primeiro das vidas; a economia a gente vê depois”. E governos, como o brasileiro, que se inclinavam a enfrentar a pandemia com visão de médio e longo prazo, foram pressionados pelos opositores políticos e pela mídia, em geral, a seguir a corrente dominante. Então, impôs-se a necessidade de socorrer as multidões deixadas sem ganha-pão, com o que os bancos centrais ao redor do mundo passaram a produzir moeda, em um ritmo sem precedentes desde o fim do padrão-ouro, 50 anos atrás.
Essa dupla estratégia governamental gerou um perverso “efeito-pinça” sobre a economia: de um lado, reduziu-se a oferta, por produzir-se menos e com menor produtividade; de outro lado, no sentido inverso, aumentou-se enormemente o volume de moeda em circulação. Quer dizer: mais dinheiro para ser trocado por ativos escassos, resultando em elevação de preços para bens essenciais e serviços, em escala mundial.
Poderiam tantos governos ter dado outra resposta ao flagelo da Covid? Então, seria diferente o balanço entre as perdas e sofrimentos de curto e de longo prazo? Quem poderá dizer? De momento, só me atrevo a repetir o que escrevi, logo que a pandemia aqui chegou:
“Os governantes que fraquejam ao enfrentar grandes ameaças, enquanto responsáveis pelos destinos de um povo, serão inevitavelmente condenados e vilipendiados, não importa qual tenha sido a natureza – boa ou má – de suas motivações.”
* Dagoberto Lima Godoy é graduado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1960), em Direito pela Universidade de Caxias do Sul (1990) e mestre em Direito pela Universidade de Caxias do Sul. Empresário, escritor, advogado e ex-presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul.
** Publicado originalmente em O Pioneiro. 29-09-2021
Érika Figueiredo
Estou assistindo a segunda temporada de Truth Be Told (Verdade Seja Dita), na Apple TV. Nesta, Poppy Parnell, vivida por Octavia Spencer, é uma repórter investigativa que, ao tentar desvendar assassinatos, acaba perseguida, ameaçada, e precisa abrir mão de muitas coisas, até do próprio casamento, para chegar à verdade dos fatos.
Mas por que buscar a verdade é tão difícil? Por que esbarramos em tantos obstáculos, inimizades, desconfiança e maledicência, quando desejamos nos valer de honestidade e valores morais, ao revelarmos nossas percepções sobre o que acontece ao nosso redor?
Porque a verdade é como um leão: assusta, fere, e uma vez solta, não pode ser refreada, nem precisa ser defendida, como bem dizia Santo Agostinho.
Lembro-me muito da história da verdade e da mentira. Ela é emblemática e fala muito do tempo em que vivemos. É mais ou menos assim: a Mentira convidou a Verdade para banharem-se no rio. Esta, muito desconfiada, não queria ir, mas aceitou o convite, por ter sido a Mentira muito persuasiva.
Enquanto banhavam-se, a Mentira furtou as roupas da Verdade, vestiu-as e fugiu, deixando a Verdade para trás, nua e sozinha. Chegou à cidade e foi logo se apresentando como se fosse a Verdade, afinal, estava vestida com as roupas daquela, disfarçada. Todos acreditaram e receberam-na muito bem.
A verdade chegou à cidade, tentando cobrir-se com arbustos. Ao revelar quem era, foi destratada e tida como louca. Diziam-lhe que havia apenas uma Verdade, e que esta já estava ali. A Verdade, então, humilhada, triste e envergonhada, foi-se embora e nunca mais voltou. A Mentira ali viveu, feliz para sempre.
E assim acontece com a Civilização. Sócrates, há quase 2500 anos, foi perseguido e preso, pelas verdades que propagava. Quando perguntado sobre a crise ética pela qual Atenas passava, honestamente respondia que, enquanto os homens não evoluíssem, as instituições tampouco se modificariam, pois estas eram ocupadas por esses mesmos homens, de cuja moral se duvidava.
Ser verdadeiro tem um preço. Pode ser o do isolamento, ou da antipatia social. Pode ser o da perseguição. Pode, ainda, ser o das calúnias que serão ditas a respeito de quem, com sinceridade, defende suas posições.
Como dizia Santo Agostinho, a verdade impõe-se sobre todas as demais narrativas. Em determinado momento, a coerência abandona os que não têm razão, e apenas a lógica prevalece, deixando pra trás até mesmo uma boa retórica.
Mas o que é a retórica? Olavo de Carvalho, em seu magnífico livro Aristóteles sob Nova Perspectiva, fala dos 4 discursos aristotélicos, dividindo-os em poético, retórico, dialético e analítico. Ora, bolas, o que é isso? Eu explico:
Há quatro etapas do convencimento humano, e quem as domina, chega à verdade. Elas vão se aperfeiçoando, da primeira à quarta, tornando-se mais próximas dos fatos reais, na medida que avançamos nestas, como se fossem degraus a serem galgados.
A primeira etapa do convencimento humano é a poética. Tudo que você lê, ouve, assiste, contempla, tudo que aciona seus sentidos, forma uma convicção prévia em você, que é a sua percepção acerca daquilo. Esse é o primeiro estágio, o momento de contato com algo que lhe foi apresentado, que forma em seu cérebro uma noção inicial.
A segunda etapa do convencimento é a retórica, o discurso persuasivo de que alguém lança mão, a fim de demonstrar a pertinência de sua opinião, fazendo com que seu interlocutor adote a mesma posição. Trata-se de uma habilidade, uma estratégia humana, que é a capacidade de alguém, de convencer os demais.
A terceira etapa do convencimento é a dialética. Aqui, o destinatário do discurso ou da informação, confronta-o com outras idéias e versões, a fim de checar sua veracidade, para que possa, então, chegar à certeza.
Chegamos, enfim, à quarta etapa do convencimento, que é a analítica. Depois de ouvir, absorver, coletar opiniões e confrontá-las, a pessoa chega à verdade, ao que efetivamente representa aquilo, e tem o conhecimento pleno do que faz uso em sua vida. Na fase analítica, a verdade se revela, plena e indiscutível, após a análise pormenorizada de tudo que lhe foi oferecido.
Ocorre que, na modernidade, grande parte das pessoas estaciona nas etapas um e dois. Como assim? Bem, após terem tido contato com a informação ou o discurso, fazem uma análise superficial, como por exemplo ler apressadamente uma manchete de jornal, e postam-se a emitir opiniões, rechaçar oponentes e elevar à categoria de verdade absoluta algo que sequer foi debatido.
O que deveria ser apenas o primeiro degrau, torna-se incontestável, e é alçado a um lugar onde sequer poderia estar, uma vez que nem à discussão retórica foi submetido. Tais indivíduos contentam-se com a etapa poética do convencimento humano, acreditando em qualquer coisa que ouvem, assistem ou lêem, sem capacidade de análise crítica ou coerência avaliativa.
Temos, também, os que, após quererem inteirar-se mais sobre um tema, contentam-se com uma defesa apaixonada de um ponto de vista, sem confrontá-lo, dialeticamente, com outra opinião, movendo-se pela imagem de quem fala, ou por sua projeção pessoal.
A estes, a camada retórica basta. Um perfil de instagram pode, perfeitamente, ser por estas pessoas elevado a um patamar de oráculo do saber, sem ser contestado, por milhões de seguidores. Os anos 2000 nos trouxeram a internet, e com ela, os influenciadores digitais profissionais.
Para os que não caem nessas armadilhas da poética e da retórica, resta avançar, e fazer uma comparação de discursos e opiniões. Na dialética, muitas versões sequer se sustentam, no confronto com outras, por não possuírem qualquer conteúdo ou veracidade.
Por esse motivo, é fundamental chegar-se a essa etapa do discurso, a fim de que se depreenda o quanto este é apenas inflamado e vazio, ou se possui substrato e coerência, para ser considerado verdadeiro.
Ocorre que, infelizmente, pouquíssimos são os que, hoje, conseguem, pelo bombardeio midiático e pela polarização social e política do mundo, seguir em busca da verdade da etapa analítica.
Vivemos na instantaneidade, na era do sucesso imediato e das verdades absolutas, defendidas por muitos, sem qualquer fumaça de razão. Mais do que ser honesto ou verdadeiro, o que importa é estar em evidência, com o que se diz e faz, ainda que seja esse conteúdo pornográfico, mentiroso, vazio ou amoral.
E a verdade, onde fica? Bom, é com imenso pesar que lhes informo que a verdade, que foi exposta nua e crua, tendo sido desacreditada e humilhada, fugiu pra bem longe e talvez não volte mais a habitar o planeta Terra e suas incongruências diárias.
* Publicado originalmente no Portal Tibuna Diária.
Gilberto Simões Pires
DESTAQUE INTERNACIONAL
Pelo que informam os relatórios anuais produzidos e divulgados pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Estado de Santa Catarina vem se destacando em termos sociais e econômicos em comparação com as demais unidades da Federação. Vejam que, pelo segundo ano consecutivo, SC é o Estado que apresenta indicadores ACIMA DA MÉDIA. Como tal, SC foi agraciado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), como -DESTAQUE INTERNACIONAL- do Prêmio de Competitividade dos Estados.
FREQUENTADOR ASSÍDUO DA BR 101
Como resido uma parte do ano em Porto Alegre e outra parte, quase que idêntica, em Florianópolis, sou frequentador assíduo da agora ótima BR 101. Como tal passei a testemunhar, e desfrutar, não apenas dos serviços prestados pelas concessionárias que cuidam dos trechos entre os dois destinos, como dos diversos paradouros que por sua vez proporcionam viagens muito agradáveis.
DIFERENÇAS A OLHO NU
Entretanto, a bem da mais pura verdade, enquanto o trecho gaúcho mostra um lado bucólico, basta atravessar o rio Mampituba, que separa o RS de SC, para começar a curtir a diferença -para melhor- que vem sendo constantemente proporcionada pelos catarinenses. A começar pelo preço dos combustíveis, que ficam em torno de 10% a menos, em comparação com os preços praticados no lamentável estado gaúcho.
RANKING DE COMPETITIVIDADE
Mais: de dois ou três anos para cá chama muito a atenção o contínuo crescimento verificado no lado catarinense, notadamente nas proximidades das áreas portuárias. Só por aí, para usar uma expressão gaúcha, o Estado de SC -está dando de relho- no pobre RS. Mas, no Ranking de Competitividade dos Estados, que é formado por DEZ PILARES, o Estado catarinense ganhou:
Os demais pilares do ranking são Sustentabilidade Ambiental, Potencial de Mercado, Solidez Fiscal e Capital Humano. Entre os três estados do Sul, SC lidera em SETE DOS DEZ PILARES: Segurança Pública, Sustentabilidade Social, Eficiência da Máquina Pública, Educação, Solidez Fiscal, Infraestrutura e Potencial de Mercado. Nos demais, SC aparece em SEGUNDO LUGAR.
À ESQUERDA DO MAMPITUBA
A conclusão, ou melhor explicação para tamanha diferença entre o que acontece nos dois Estados é, não por acaso, o fato de que o Estado do Rio Grande do Sul fica à ESQUERDA DO RIO MAMPITUBA. Pudera. Só o fato de ficar À ESQUERDA já diz muito a respeito do que o Ranking de Competitividade é capaz de mostrar. Isto tudo sem levar em conta a NATUREZA, onde o litoral de SC é incomparavelmente belo, e o litoral gaúcho, como bem referiu o escrivão português Pero Vaz de Caminha, se define por águas escuras, vento predominante nordeste, nenhum ancoradouro natural, e impróprio para navegação.