• Valterlucio Bessa Campelo
  • 26/07/2021
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DE DOMINGO A SÁBADO, MINHA VIDA VIVIDA.

 

Valterlúcio Bessa Campelo

 

Em poucos minutos nasci. Me banharam com a água do poço, me deitaram em panos novos e me refrescaram com um abano de palha naquele calor de maio. Era tempo de chão esturricado no sertão nordestino. Não era tempo de nascer, era tempo de morrer, como os bois e os pés de feijão que viraram pó na caatinga. Nasci assim mesmo, de teimoso.

Meu pai tinha 30 anos e era um lavrador em terras áridas, puxava ervas daninhas pros pés com uma enxada que tinha o cabo alisado por suas mãos calejadas. Era também negociante das poucas cabeças de gado que os vizinhos punham à venda uma vez por ano. Dinheiro para comprar tecidos para minha mãe coser roupas novas e, talvez, um par de sapatos para ir à missa.

Minha mãe tinha 34 anos e já criava três dos cinco filhos que havia parido, dois viraram anjinhos, num lugar onde as incelências eram frequentes. “Será que ele se cria?” perguntavam os parentes uns aos outros. Me criei, mesmo lambido pela morte na forma de “doença de menino”. No céu, não me quiseram como anjo.

No domingo eu cresci, brinquei e aprendi. Já não foi na caatinga, foi na cidade, entre outras crianças, amparado por professores pacientes fazendo jogos e longas caminhadas ao meio dia, indo ou vindo do grupo escolar. Cresci bem nutrido, arengueiro e sabido. Força para lutar, arenga só pra arengar e esperteza para me safar.

Na segunda-feira eu cresci, sofri, me apaixonei e aprendi. Pela manhã, as dúvidas, os conflitos, os traumas. Durante a tarde, a paixão, o primeiro tocar, frêmitos no coração e um romantismo acanhado, inspirado nos livros que li. De noite, os prazeres do corpo e do copo, os mal feitos inconfessáveis e o penar pra aprender.

Na terça-feira eu me aventurei, lutei, amei e aprendi. Já não foi onde era, foi fora daquele mundo. Primeiro, sozinho, perdido em mim e na vida. Depois, com ela, que juntou-se ao devir, trazendo esperança, amor e certezas. Mais tarde, mudança, eu queria ser o que era, não bastava aprender.

A quarta-feira é tempo de luta, então lutei, lutei e lutei. Também mais amei, cristalizei o querer. O sentir que entreguei recebi em mais da medida, eu já não era eu, eu éramos nós. Renunciar ao ser para sermos é dobrar a cuia da porção divina. Pra não lutar por lutar, mais aprendi. A luta pode riscar na mente um novo saber.

Na quinta-feira alegrei-me como nunca antes nem depois. Veio do céu, em forma feminina, um presente de Deus. Imerecido, talvez, desejado é certo, necessário também. E mais lutei, amei e aprendi. Uma provação repentina, um recomeço, outro mundo a ver e entender. Saltei no escuro agarrado em seu braço. Éramos três e ela nos sustentava com uma força e um sorriso que nunca tive ou terei.

Na sexta-feira, de novo, a necessidade do recomeço. A vida é assim para quem não se rende, lutar é de lei, amar é só amar e aprender é preciso. Fiz uma volta ao passado, como se ele fosse um barco ancorado a nossa espera. Não era. O passado não estava no lugar onde deixei, não pudemos ficar. Sonhamos o sonho errado, tivemos que acordar.

Agora é sábado, ainda manhã. Voltei pro lugar onde vivi a terça-feira e a quarta-feira. Ainda posso lutar? Amar? Aprender? Lutei tanto e aqui estou, quase sem forças para continuar. Aprendo desde o domingo e nada sei. Coleciono dúvidas como se ainda fosse segunda-feira e as minhas certezas se desmancham no ar, não resistem à luz mais efêmera.

Não, isto não é um olhar para trás, não é um lamento, uma saudade, uma tristeza. É que à minha frente surgiu um enorme espelho e eu só vejo o que foi, o que fui e o que fiz, não consigo enxergar o que virá. Quando o sábado estiver chegando ao fim, o que restará? Um homem quebrantado, uma vida vivida e esquecida num canto da sala? Isso me enche de medo.

Me disseram que a noite do sábado pode ser tranquila, com tempo para observar os domingos dos que nascem e as segundas-feiras dos que aprendem. Mas, também pode ser longa e penosa. Como saber, com esse espelho atrapalhando a visão? É melhor aguardar. Ainda bem que tenho a graça de amar. Ela e ela.

*     Publicado originalmente no blog do autor e enviado por ele a este site.

A PÁTRIA