• Samir Keedi, da Acad. Paulista de História
  • 28 Junho 2023

Samir Keedi, da Academia Paulista de História

 

Certamente o Brasil deve muito a muitos ao longo da sua história. Mas, a JK e JB deve mais que a outros. Pena que muitos, ao contrário, devem demais ao país e seu povo. Mas, ao invés de se envergonharem, se julgam heróis. O inferno saberá puni-los. Pena que muito tarde. Em que muitos terão pago boletos sem merecer.

JK foi um baluarte em muitas coisas, mas, trazer para cá a indústria automobilística e ocupar o país, é o suficiente, e são impagáveis. Alguém consegue imaginar o Brasil sem a indústria automobilística, e seus satélites produzindo peças para as montadoras? O desenvolvimento que ela produziu, e suas muitas dezenas de milhões de carros aqui fabricados? E a infinidade de empregos gerados? Se não somos um grande país, mas apenas um país grande, imagine-se sem essa fabulosa indústria.

Já vimos muitos criticarem e atribuírem a JK a quase morte da nossa ferrovia e nossa dependência do transporte rodoviário. Uma coisa nada tem a ver com a outra. Não são excludentes. Mas, complementares, o que poucos percebem. Os governos seguintes é que trataram mal essa questão e acreditaram que o transporte rodoviário, e não o ferroviário, é que seria o ideal para o país. Ledo engano. Para um país continental, foi a pior escolha possível. O transporte rodoviário é para curtas distâncias, distribuição de carga e apoio aos demais modos de transporte.

O transporte rodoviário, como se sabe, é o melhor de todos os modos de transporte. O único que pode fazer tudo sozinho e não depende de outro modo qualquer. Todos os demais dependem dele. Inclusive a tão necessária Intermodalidade e a Multimodalidade. Mas, sabemos que ele é o mais caro entre todos os modos de transporte, como já escrevemos e mostramos a nossos alunos e interlocutores diuturnamente, portanto, para ser usado com parcimônia, o que não ocorre em nossas plagas.

Seu outro ponto forte, até mais, foi a mudança da capital do país, da "civilização para o nada" como muitos apregoavam. Já cansamos de ver ataques a ele por isso, até hoje. Obviamente uma visão totalmente equivocada de quem pensa assim. O país era uma faixa de 200 quilômetros do mar, e praticamente nada mais. Com todo o restante quase nada servindo. Ele ocupou o país integralmente. Será que sempre foi mais fácil pensar apenas na maior distância da capital, do que na posse total?

Com a capital no centro do país, proporcionando a ocupação dos nossos 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o efeito agrícola foi avassalador. O tamanho da nossa agricultura hoje é invejável, com alta produtividade. E alimentando um bilhão de pessoas ao redor do mundo. Quantidade que ainda pode crescer muito. Alguém consegue imaginar isso tudo sem criticar? Se ficássemos restritos à faixa litorânea, o que seria hoje do país? Hoje tudo é Brasil, e no passado isso era apenas uma utopia. Somente a coragem de JK poderia ter proporcionado esse feito.

Nossa agropecuária é, hoje, invejável e exemplo para o mundo. Esperamos que assim continue e melhore, pois sabemos que muitos querem destruí-la. Tanto interna como externamente.

A JB devemos muito também. Pela primeira vez na história vimos um patriotismo como "nunca antes neste país". Um país que sempre foi tratado como se não existisse para cada brasileiro. Que pensava no país apenas como o que ele poderia lhe dar. Inversão do que apregoava JFK em seu governo nos EUA. Quando os democratas eram mais patriotas e pensavam no país. Não que não pensem mais, mas, eles mudaram muito, para pior. A esperança dos EUA são os Republicanos, para que continuem como são.

JFK gravou na história a sua célebre "Não pense o que seu país pode fazer por você, mas, o que você pode fazer por seu país". Inverso dessas terras tupiniquins, em que sempre valeu "Não pense no que você pode fazer por seu país, mas, o que seu país pode fazer por você, e sempre, mais ainda, o que o país pode fazer "por mim", e se não fizer, eu farei". Hoje somos um país bem mais patriota.

Além do que, JB governou sem pensar no que outros fizeram quanto a obras paradas e desvios. Obras que sempre começavam, enriqueciam o governante, e depois eram paralisadas. Infinitas obras foram retomadas, não importando quem as tinha paralisado. Valia o país, o povo que era beneficiado.

Seu ministério, reduzido de praticamente "Ali Babá..." para 22. Ainda muito, mas, bem menos. E, com nomeação de técnicos, sem cabide de emprego. Claro que sempre há erros, mas, não como antes ou depois, em que nos ministérios só há erros e mistérios. Hoje voltamos a ressuscitar "Ali Babá..." com ministérios sem sentido, sendo que, em seis meses de governo, metade dos ministros não foram recebidos nem despacharam com o presidente, segundo a imprensa.

Estradas foram asfaltadas e melhoradas. Ferrovias receberam atenção que não mais estavam acostumadas a receber a cabotagem voando. Atenção a portos, aeroportos, privatizações, etc. Mudando um pouco o cenário logístico quase desolador e que vinha piorando.

Muito ainda se poderia falar aqui desses dois importantes personagens da nossa história. Em especial de JB, fenômeno que o país nunca conheceu antes. Ninguém jamais arrastou multidões como visto nos últimos anos. Caso único na nossa história. Aliás, em certos aspectos, pobre história, com equívocos enormes, em que parece que aqui foram criadas as fake news. É fake news no descobrimento. Na proclamação da independência. Na proclamação da república, etc., uma vergonha.

Mas, preferimos ficar apenas na história recente, e no transporte e logística, partes da nossa área de atuação profissional, em que sabemos como as coisas se passaram antes, durante e agora novamente.

*        O autor é empresário e titular da Cadeira Nº. 4 da APH-Academia Paulista de História -  SKE Consultoria Ltda

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  • Leandro Ruschel
  • 26 Junho 2023

 

Leandro Ruschel

          Pedro Doria é um dos teóricos da censura, no Brasil.

Que um sujeito dessa estatura moral e intelectual tenha alguma influência no debate público é um sinal dos tempos. Mais grave ainda é que ele seja tratado como "liberal".

Em artigo no Globo, Doria aparentemente muda de posição sobre a censura e se coloca contra o bloqueio de contas do podcaster Monark, determinada pelo ministro Moraes.

"Deixa o Monark falar bobagem", afirma o valente na chamada.

O primeiro parágrafo explica o caso:

"O ministro Alexandre de Moraes, do STF, determinou na quarta-feira o bloqueio de todos os perfis de redes sociais de Bruno Aiub, o Monark. Como ele é um comunicador que vive de se apresentar pelas redes, não é apenas uma ordem de censura prévia. É também uma proibição de que ele trabalhe e se sustente. É uma decisão grave. Censura prévia é proibida pela Constituição. Cláusula pétrea. Jair Bolsonaro não é mais o presidente. As eleições passaram. Qual o sentido de calar Monark?"

As primeiras linhas sugeriam alguma luz surgindo na sua caixola, mas ela logo se apaga com o "Bolsonaro não é mais presidente e as eleições passaram". Ora, quer dizer então que a censura deve ser aplicada durante as eleições para impedir a expressão de quem Doria não gosta? Pois é exatamente durante o processo eleitoral que a liberdade de expressão é mais importante, já que o país definirá o seu rumo!

O "liberal" segue então uma linha de argumentação sobre a liberdade não ser um direito absoluto nas redes e basicamente conclui que John Stuart Mill está ultrapassado. A liberdade de expressão de Mill serviria para uma época que as ideias eram apresentadas de forma mais lenta, não agora, no turbilhão da internet, pois:

"...no ambiente de caos, manipulando desinformação de milhão em milhão de likes, um autoritário se reelege, e nessa morrem 100 mil numa pandemia, uns tantos milhões de hectares de floresta são derrubados, talvez um país vizinho termine invadido. Perdemos a democracia. Então, sim, em alguns momentos pode ser que se justifique maior rigor para conter a desinformação e proteger da morte a democracia.

Mas a eleição passou. Não é à toa que nossa Constituição, em geral verborrágica, vede a censura prévia com um período tão simples: “É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística”. Ponto, parágrafo. Só isso e basta."

Em primeiro lugar, já não existe "liberdade absoluta de expressão" porque seus limites estão definidos em lei. O problema é outro: estão sendo criados novos limites sem nenhuma base legal, sob argumento subjetivo de "defesa da democracia".

Sugere Doria que a Constituição e os direitos fundamentais devem ser suspensos por um período, em que o poder ficará a cargo de líderes benevolentes que isolarão a ameaça. Assim que o problema for "resolvido", os direitos voltariam a valer.

Resumindo, Doria defende a imposição de uma ditadura para salvar a democracia. Ele e outros teóricos da censura defendem esse arranjo porque acreditam que serão eles a definir o que pode ou não pode ser expressado, quem deve ou não deve ser perseguido, tudo pensando no bem da sociedade, claro...

"Deixa o Monark falar bobagem. É hora de deixar a democracia funcionar com suas próprias pernas. Confia."

Assim ele encerra o seu panfleto contra a liberdade de expressão, se colocando no posto de censor da República. "Deixa o Monark falar bobagem". E o Allan dos Santos, não?

Coitado, o sujeito parece realmente acreditar que a concentração de poder é um gênio que pode ser colocado de volta na lâmpada assim que utilizada "para o bem". Aprenderá, muito cedo, provavelmente sentindo na própria carne, que uma vez perdida a liberdade, ela demorará muito para ser recuperada, se é que um dia será.

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 26 Junho 2023

Alex Pipkin, PhD
         O ano de 2023 marca os 300 anos de aniversário do maior de todos os pensadores, Sir Adam Smith.

A data é bastante oportuna para reflexões sobre o pensamento smithiano, dentro do qual destaco dois aspectos fundamentais: a natureza do ser humano e as fontes do crescimento econômico e social.

Definitivamente, Smith foi um ferrenho defensor das vitais liberdades: individual e econômica. Ele pregava a imperiosa necessidade das liberdades individuais, exercitadas por meio da racionalidade.

É por demais conhecido que Smith sustentava a tese do autointeresse, explicada por meio da analogia da mão invisível do mercado. Numa economia concorrencial, a busca pelo interesse individual, resultaria no aumento do bem comum, fazendo com que uma nação alcançasse o crescimento econômico e social de forma mais rápida.

Evidente que antes do seminal A Riqueza das Nações (1776), em 1759, no livro Teoria dos Sentimentos Morais, Smith argumenta que os indivíduos são dotados de uma gama variada de sentimentos que estão inclinados ao seu interesse próprio, embora se preocupem com os sentimentos de outras pessoas em função do seu espectador moral imparcial.

Ele nos faz pensar no protagonismo do indivíduo sobre o abstrato coletivo, pontuando que a verdadeira igualdade se fundamenta, especialmente, na capacidade de todos os seres humanos tomarem decisões por si próprios.

Em especial, na vida empresarial, uma ideia inovadora, e a respectiva materialização em produtos e serviços para solucionar os problemas dos consumidores, nasce na mente de um indivíduo curioso e criativo, num processo que é espontâneo e imprevisível. Tal processo é desenvolvido e aperfeiçoado por meio de um conjunto de pessoas com habilidades e competências distintas e especializadas, capazes de gerar novos insights criativos para melhorar essa oferta competitiva.

No entanto, a história da engenhosidade humana demostra que a natureza das ideias inovadoras e do processo criativo é, de fato e muitas vezes, muito particular e incomum. Nesse respeito, a dinâmica imprevisível e, portanto, flexível do processo criativo, demanda aprimoramentos que são alcançados através do conhecimento especializado e da colaboração de uma coleção de pessoas. Num processo criativo que redunde em soluções inovadoras e úteis para a sociedade não pode haver à imposição da ditadura das ideias e do comando de um único rumo a seguir. Aqui é também premente a existência da liberdade individual para o bem do processo de criação. Enfim, Smith nos relembra da essencial importância do indivíduo, num momento em que a narrativa do “social”, estilizada, emocionalmente embala legiões de pessoas.

No que diz respeito às genuínas fontes do crescimento econômico, Smith afirma que a dinâmica do processo de crescimento decorre de uma mudança estrutural que é, por natureza imprevisível, dependente da especialização e dos livres mercados, em especial, da livre competição.

Para ele, a competição é socialmente justa, na medida em que impediria que houvesse a monopolização dos ganhos da especialização de mercado somente para algumas empresas e, portanto, só para alguns indivíduos.

Assim, a concorrência, quanto mais livre e intensa, mais beneficiaria a todas as pessoas de um espaço social.

Mais de 300 anos depois, muito distintamente dos discursos populistas e ideológicos em voga, ele reaviva o papel saudável da economia de mercado e da concorrência.

Seguramente, não são essas que geram as propaladas “desigualdades sociais”. Factualmente, é o declínio da concorrência, por conta da fome voraz por benefícios próprios ilícitos, e vantagens para determinados grupos de pressão e interesse, que faz bradar vozes supostamente bom-mocistas em nome do povo, verdadeiramente populistas e coletivistas, por intervenções regulatórias estatais, que substituem, em vez de aumentar a concorrência e o bem estar das pessoas.

Smith merece ser sempre comemorado. Sempre é um altivo alerta para a permanência das liberdades individuais, para a liberdade nos mercados e a concorrência, e para a elucidação do papel central do indivíduo sobre o coletivo, quando se trata da busca e do alcance do crescimento econômico e social.

Viva Sir Adam Smith!

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  • Katia Magalhães
  • 25 Junho 2023

 

Katia Magalhães

         Se, como todos sabem, as palavras voam, e só a escrita permanece, qual o propósito de deitar estas linhas sobre a entrevista de uma autoridade? Em que pese a sabedoria desse velho adágio, a comunicação verbal adquire relevância sempre que envolve alguém imbuído de poderes virtualmente ilimitados e que traduz autêntico “sincericídio” sobre o modo como o poderoso em questão tem exercido sua posição de mando e pretende continuar a fazê-lo.

Em evento recente organizado pela revista Piauí, o ministro Alexandre de Moraes tornou a monopolizar os holofotes e concedeu uma entrevista divulgada pelo periódico sob a manchete “MORAES DIZ QUE EM SEIS MESES JULGARÁ CASOS MAIS GRAVES DO 8 DE JANEIRO”[1]. Trocando a toga pelo manto de suposto justiceiro, Moraes, erigido, logo no início da reportagem, à figura que “personificou o esforço do Judiciário em lidar com a extrema direita organizada” – afinal, personalismo pouco é bobagem! -, começou por gabar a própria eficiência, segundo ele, evidenciada pelo acúmulo de processos sob sua condução. Em relação a seu burnout, afirmou, em tom quase irônico: “não ganho mais por causa disso, eu não trabalho menos e sou vigiado 24 horas por dia. Bom não pode ser.”

No entanto, a contrapartida a todo o “heroísmo” alexandrino é a crescente concentração de poder nas mãos de alguém enxergado, por boa parte da sociedade, quase como o juiz único do Brasil. Inebriado pela ânsia de determinar o que pode ou não ser dito e o que pode ou não ser feito, Moraes tem apreciado condutas de pessoas que, à luz da Constituição e das leis, não estariam sob sua jurisdição, como foram os casos dos empresários ditos “golpistas de Whatsapp”, das plataformas digitais, dos governadores Ibaneis e Zema, do ex-ministro Anderson Torres e tantos outros, discutidos em detalhes neste espaço. Tudo isso sob o silêncio conivente de seus pares e do Senado, ao qual cabe a função institucional de contenção de abusos da cúpula judiciária. Ou, pelo menos, caberia…

Indagado por jornalistas sobre a receita para a aceleração no ritmo de julgamento dos acusados de participação nos atos de vandalismo do 8 de janeiro, Moraes admitiu que as condutas de cada invasor não serão analisadas individualmente, pois “é um caso de condutas múltiplas. Quem estava lá participou. Não preciso dizer que fulano quebrou a cadeira A ou riscou o quadro B. Estar lá [invadindo prédios públicos] já é crime.” Em relação a esse tópico, me permita, caro leitor, uma breve digressão sobre uns poucos tecnicismos, apenas para que você seja capaz de avaliar, por si mesmo, toda a extensão da “singularidade” da manifestação do togado.

Em situações em que vários indivíduos se reúnam para a prática (“concurso de pessoas”) de um certo delito, e, ainda, nas hipóteses em que uma pessoa, por meio de mais de uma conduta, incorra em mais de um crime (“concurso de crimes”), cabe ao Ministério Público, ao propor a ação penal, descrever os fatos e atribuir a cada agente a prática de uma ou mais infrações, conforme evidenciado pelas provas. Da mesma forma como o julgador tem de absolver ou condenar cada réu por uma ou várias condutas bem definidas, até mesmo para poder fixar a pena cabível. Isso importa, sim, na obrigatoriedade imposta a qualquer magistrado de afirmar se “fulano quebrou a cadeira A, ou riscou o quadro B”, e, acrescento ainda, se “fulano quebrou a cadeira A e riscou o quadro B”. Ora, qualquer leigo entende que a deterioração de objetos configura crime de dano, diferente do delito da invasão em si, e que um agente que tiver invadido e destruído dezenas de antiguidades não poderá ser punido da mesma forma que um invasor destruidor de um único objeto acessório de valor ínfimo, e, muito menos, do mesmo modo que alguém que tiver invadido sem nada danificar!

Tal conclusão óbvia decorre do princípio da individualização da pena, adotado em todo o mundo democrático e no Brasil[2], segundo o qual, no âmbito criminal, cada pessoa só pode responder por sua própria conduta, devendo o julgador levar em consideração todas as especificidades, caso a caso. Mas quem disse que o redentor da nossa democracia, em sua luta gloriosa contra extremistas, tem de se curvar aos ditames constitucionais?

O filme “O homem que não vendeu sua alma” retrata o período final da trajetória de Sir Thomas More, notável intelectual do século XVI, jurisconsulto e membro da corte de Henrique VIII, no tormento de seus últimos anos. Católico fervoroso, não apoiou o divórcio de seu soberano, as novas núpcias deste com Ana Bolena e, muito menos, a ruptura com Roma. Para manter íntegras as suas liberdades, em particular a de opinião, renunciou a seu cargo de chanceler e recolheu-se à vida simples no campo. “Não importa o que eu acho, mas que eu acho”, afirma ele em uma das primeiras cenas que põem em xeque a faculdade do livre pensar.

Ciente da sua impotência em combater um regime absolutista e ainda fiel à velha amizade com Henrique, Sir Thomas não se entregou a qualquer ataque frontal ao monarca, mas lutou, até o fim, pelo seu direito ao silêncio, do qual nenhuma lei o privava. Aliás, tamanho o apego do jurista à legalidade estrita que, em um dos diálogos mais emocionantes, chegou a afirmar que “daria ao diabo o benefício da lei, em prol de sua própria segurança.” Lançou mão de uma hipérbole para asseverar sua convicção de que o pior dos canalhas deveria ser sujeito a um julgamento justo, ao amparo da legislação vigente, para que ele mesmo (Sir More) se sentisse seguro de que também o estaria. Eis aí a própria definição de segurança jurídica, que reside na capacidade, garantida indistintamente a todos, de prever as consequências (inclusive as penalidades) para suas condutas.

Contudo, na distante Inglaterra, onde prevaleceu o desejo do monarca, Sir Thomas pagou com sua vida o preço pela discordância, tendo sido preso e executado por “traição dolosa à supremacia real”, ou melhor, apenas por calar.

Sempre que o império da lei é substituído pelo dos homens, ninguém pode se sentir seguro. Até quando suportaremos ver, entre nós, o julgamento de réus sem especificação de condutas, enquanto sentenças contra criminosos notórios são anuladas por firulas? Censuras e parlamentares defenestrados por fundamentos inexistentes? Que o exemplo de Sir More nos inspire, e que os soberanos da atualidade tenham seus caprichos freados pelas instituições, acionadas mediante pressão de uma sociedade fortalecida e mais madura.

[1] https://piaui.folha.uol.com.br/moraes-diz-que-em-seis-meses-julgara-casos-mais-graves-do-8-de-janeiro/

[2] CF: Art. 5 – XLV – nenhuma pena passará da pessoa do condenado

*       A autora é advogada formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e MBA em Direito da Concorrência e do Consumidor pela FGV-RJ, atuante nas áreas de propriedade intelectual e seguros, autora da Atualização do Tomo XVII do “Tratado de Direito Privado” de Pontes de Miranda, e criadora e realizadora do Canal Katia Magalhães Chá com Debate no YouTube.

**     Artigo reproduzido do site do Instituto Liberal, em https://www.institutoliberal.org.br/blog/justica/a-cada-fala-do-imperador-togado-maior-a-inseguranca/

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 23 Junho 2023

Giberto Simões Pires

MODO PÉ-NO-FREIO

No editorial de ontem, 22, -O QUE APONTA O MONITOR DA FGV SOBRE O PIB BRASIL-, traduzi para os leitores o cenário econômico apontado pelo -MONITOR DO PIB-, elaborado e divulgado pelo IBRE/ FGV, dando conta que a economia brasileira, assim como também acontece na maioria dos países industrializados, está em -MODO - PÉ NO FREIO-.  

FLUXO DE CAPITAL ESTRANGEIRO: QUEDA DE 28% EM QUATRO MESES

Pois, para confirmar o cenário de DESACELERAÇÃO ECONÔMICA, o editor de economia da Gazeta do Povo publicou hoje um artigo dando conta de que após recorde em 2022, o FLUXO DE CAPITAL ESTRANGEIRO APORTADO NO SETOR PRODUTIVO DO BRASIL CAIU 28,3% nos quatro primeiros meses de 2023 na comparação com o mesmo período do ano passado.

ABRIL: QUEDA DE 70,3%

O saldo do chamado INVESTIMENTO DIRETO NO PAÍS (IDP) entre janeiro e abril deste ano, o primeiro da atual gestão (?) de Lula, foi de US$ 24,3 bilhões, contra US$ 33,9 bilhões em intervalo equivalente de 2022, quando o Brasil era governado por Jair Bolsonaro e o Ministério da Economia era tocado pelo competente Paulo Guedes. 

Mais: considerando apenas o mês de abril, dado mais recente consolidado pelo BC, o APORTE LÍQUIDO DE INVESTIMENTOS ESTRANGEIROS FOI DE US$ 3,3 bilhões, ante US$ 11,1 bilhões no mesmo mês do ano passado – uma queda de 70,3%. Que tal? 

PORTO SEGURO

Aqui entre nós: não é difícil entender que a -vitória- de Lula na eleição presidencial foi o fator determinante para o PÉ NO FREIO. Mesmo levando em conta que os investidores de modo geral já se mostravam receosos, o fato é que o Brasil, com Jair Bolsonaro e Paulo Guedes, era um PORTO SEGURO INTERESSANTE E RENTÁVEL, notadamente para INVESTIMENTOS EM INFRAESTRUTURA, que, diga-se de passagem, boa parte já estava CONTRATADO.

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  • Miguelito Martinez Palma
  • 21 Junho 2023

Miguelito Martinez Palma

Nota do editor o site: Essas imagens eu as busquei, agora, no Google, onde existem em abundância. Mostram trechos de uma área muito maior, centro histórico de Havana, antiga Pérola do Caribe. Eu conheço bem a região e estive em três ocasiões e anos distintos. O que elas mostram fica a poucos metros da porção central, restaurada com recursos da Unesco. 

       Rostos, expressão de misérias!

Os rostos de fome e tédio percorrem as ruas de Havana, expressões de cansaço e desespero se acumulam de fila em fila. Estamos ficando feios, o calor cada vez mais intenso, a angústia por coisas necessárias, a ausência de sonhos e a falta de esperança estão deixando sulcos em nossos rostos.

Estamos vivendo uma história onde um simples pão é um problema, nossas mentes estão regredindo e pensamentos primitivos tomam o lugar de nossa inteligência, o simples, o essencial é a maior motivação de qualquer cubano e nossos rostos, nossos rostos são o espelho disso tão insignificante em que nos estamos transformando.

Ficaram no álbum de família as fotos antigas de gente bem arrumada, de gente pobre mas bem vestida, o jeito de falar e de gesticular, o respeito e a decência.

Hoje com a alma corroída e sem valores, cheios de necessidades e conformados com a imundície, a nossa imagem é outra, tem sido um processo lento e gradual que sem perceber nos levou a tornar-nos vulgares e indecentes, a nossa alma cheia de palavrões e frases obscenas se tornaram a rotina que nos degrada a simples gentalha.

A sobrevivência nos leva a fazer o que é errado e a necessidade se torna aliada dos malandros e abusadores que sem escrúpulos colocam um alto preço em nossas vidas, somos uma matilha de cães covardes que se mordem para saciar sua fome e descarregar sua frustração.

Estamos ficando feios como nossa cidade, nossos rostos e suas ruas quebradas e fachadas sujas e sem pintura se misturam, revelando a decadência em que estamos mais do que envolvidos, .... Havana e você, cada dia mais feio!

A gente se acostumou com a merda! E ver o que está sujo, ver o que está feio, ver o que está estragado, ver o quão mal feita é hoje qialquer coisa cotidiana, tão cotidiana que faz parte do nosso dia a dia, e até o cheiro imundo de um buraco convive normalmente com muitos de nós.

Falamos do pobre e da pobreza, como algo muito distante da nossa existência e não percebemos que hoje somos os mais pobres desse mundo, porque no mundo tem muita gente humilde sem má preparação, mas aqui, aqui meus amigos, nós somos Todos são pobres, como o que limpa a rua ou o médico que opera corações, todos nós, independentemente do nível que tenhamos, somos pobres, porque não tendo nada além de pão imundo para dar aos nossos filhos, vendo leite e ovos como iguarias e esquecendo o sabor da carne por tanto tempo sem prová-la. Meus amigos, isso é pobreza, é pobreza do tipo ruim, do tipo que destrói ilusões, do tipo que mata sonhos e esperança, é a pobreza que penetra na mente e na alma tornando-se pobres e ignorantes, é aquela pobreza desprovida de valores, mas cheia de mentiras e maldades, que está mudando nossa face.

Olhe, observe, ouça e depois pense e verá no que os cubanos nos tornamos inadvertidamente. O problema é que na busca constante de satisfazer nossas necessidades simples, olhamos apenas nessa direção, tornando-nos escravos de nossos estômagos.

Estamos ficando velhos e feios, não tenham dúvidas! Os jovens estão ausentes da nossa realidade e só pensam em fugir deste inferno e nós que aqui ficamos, cada dia temos a alma mais pobre, mais enrugada e lembrem-se meus amigos que o rosto é o espelho da alma!

*Em 90 de junho de 2023, Dr. Miguelito Martinez Palma

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