• Sílvio Munhoz
  • 16 Julho 2023

 

Sílvio Munhoz

       Nos últimos dias foi pauta no noticiário gaúcho e, inclusive, nacional, discussão acerca da votação do projeto da PEC 295/2023 na Assembleia Legislativa Gaúcha, a qual versa sobre a possibilidade de alteração ou não do Hino Gaúcho e dos demais símbolos do Estado.

A polêmica começou há anos, na tomada de posse da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, quando determinado grupo (desnecessário nominá-lo) negou-se a levantar e cantar o hino, fato com direito a reprise na posse da Assembleia Legislativa, dois anos após, sob a desculpa de a letra do hino conter verso com cunho racista. À época, um Deputado dizia que entraria com Projeto de Lei para alterar o verso e tal possibilidade, nunca concretizada, levou outros Deputados a apresentarem a PEC em discussão.

Na época escrevi uma crônica, perdida por conta da alteração do portal da Tribuna Diária, em cujo texto me perguntava se a acusação seria fruto de “analfabetismo funcional” ou de método da guerra cultural que vivemos no Brasil, em uma espécie de neo iconoclastia. Reapresento o texto, pois seus argumentos podem servir de reflexão sobre a tentativa de mudança não só de nossos símbolos, mas, de nossa história:

“A REFORMA DA LETRA DO HINO – PURO MÉTODO"

‘Daqui a pouco, a nossa história não terá datas nem nomes, nem batalhas, nem episódios. Só terá ideologia – a rígida ideologia totalitária que os comunistas querem impor à juventude’. Sandra Cavalcanti.

“Causou grande celeuma o episódio da posse da Câmara de Vereadores de Porto Alegre, quando alguns edis, que assumiam, negaram-se a cantar o hino riograndense, pois seria racista por conter o verso “povo que não tem virtude acaba por ser escravo” e, poucos dias depois, segundo notícias, um Deputado – do PT é lógico, alguém surpreso? - entrou com projeto de lei para alterar a letra do hino.

“Confesso que pensei, inicialmente, em nosso patrono da educação, cujo sistema para alfabetizar não passava de “suposto método milagroso de alfabetização cantado em prosa e verso para justificar a utilização de processos revolucionários e subversivos junto aos adultos analfabetos” e que, sabidamente, embora aprendam a ler, não conseguem interpretar corretamente os textos, fato já constatado quando foi exportado e aplicado em alguns países da África: “dentre os 26.000 alunos envolvidos no processo de alfabetização, não se podia contar com nenhum a ser considerado como ‘funcionalmente alfabetizado”, pois quando eram “questionados sobre o que eles estavam lendo e escrevendo, a compreensão era nula: eles não podiam entender nada (aqui, págs. 207/209)”.

“Não é necessário ir muito longe, pois os resultados desastrosos do Brasil no PISA comprovam, sendo que no último exame: “apenas 2% dos jovens brasileiros alcançaram níveis altíssimos de compreensão em leitura, no qual são capazes de entender textos mais longos e ideias contraintuitivas ou abstratas”. Ou seja, a grande maioria dos estudantes brasileiros não consegue interpretar, corretamente, um texto... Consequência lógica da utilização, por décadas, desse método que visa politizar e ideologizar, não educar.

“O pensamento me ocorreu, porque há grosseiro erro de interpretação, o hino fala em povos, não em raça, e é “necessário conhecer a História para entender que muitos povos virtuosos foram escravizados, à força, ao longo dela: Judeus, Eslavos, Africanos e outros. Muito triste. Mas é ela que nos mostra também que o povo que abdicar das virtudes, que for submisso, que aceitar o fim das Liberdades sem reclamar será escravizado voluntariamente, sem qualquer resistência”. Nenhum povo foi mais perseguido – com várias tentativas de extermínio – e escravizado na história que o povo judeu. Alguém acha mesmo que não sendo virtuoso ainda existiria e, mais, criaria um País próprio?

“O próprio exemplo do Rio Grande do Sul – que desenhou nossas fronteiras com Uruguai e Argentina a pata de cavalo e ponta de lança e, depois, quando tentaram escravizar não física, mas materialmente, pois o Governo Central nada concedia e, em contrapartida, aumentava cada vez mais os impostos, reagiu e sustentou um confronto de 10 anos contra o império - demonstra o conceito do hino.

“Entretanto, por ser tão grosseiro o equívoco comecei a pensar na outra hipótese: a dos neo iconoclastas que, “por entenderem que muitos monumentos, estátuas e obras de arte refletem um passado pecaminoso, colonialista, escravocrata ou seja lá o que for, não merecem existir”. Em síntese, a aplicação efetiva, continuada e metódica de táticas desenvolvidas na guerra cultural que vivemos, para fazer verdadeira engenharia social.  Apagando da mente dos mais jovens tudo aquilo, todos os conceitos básicos que forjaram nossa civilização.

“Não percebem, pois usam antolhos, que a remoção ou mudança de significado de palavras não resolve o problema, passar a chamar a pessoas negras de ‘afrodescendentes’ não apaga o fato de que existiu escravidão e a existência, ainda hoje, de racismo, com maior ou menor intensidade, em vários lugares do mundo... O fato de destruírem estátuas de descobridores - colonialistas – não apaga o fato de que a América foi descoberta por Cristovão Colombo e o Brasil por Pedro Alvares Cabral, ou seja, só demonstra o desprezo que possui quem assim age por nossa história, nossa cultura, nosso passado, bem retratada na frase que usei como epígrafe da crônica...

“Pior, não percebem que precisamos estudar o passado, para bem aferir os erros e acertos e forjar um presente descartando àqueles e privilegiando estes, pois só assim será possível planejar um futuro melhor. Os acontecimentos do passado devem “correr como águas caudalosas do tempo, modelando a paisagem do presente. Se não pudermos compreendê-los, teremos falhado com as futuras gerações” (aqui, nota de orelha).

“Dentro desse contexto é que, na Alemanha, foi construído o Museu (memorial) do Holocausto. Alguém há de perguntar o porquê de se construir algo que lembre o maior crime, as maiores atrocidades já presenciadas pelo Ser Humano. Exatamente para que jamais esqueçamos o terrível exemplo e, não o olvidando, nunca mais o homem deixe que se repita. Quando esquecemos os exemplos do passado é muito provável que ocorram de novo, exatamente por não guardarmos seus horrores em nossas memórias. Apagar a história, seja qual forem as razões, é um equívoco incomensurável!..

“Por isso peço aos Deputados Gaúchos: digam não à tentativa espúria de mudar nosso Hino, pois é só a aplicação do método utilizado pela esquerda, na guerra cultural marxista, que está em plena vigência no Brasil, hodiernamente. Não deixem isso acontecer!...  e cantemos a plenos pulmões, pois nosso hino está correto: povo que não tem virtude, acaba por ser escravo!...

“’É impossível falar ao coração, à consciência profunda dos indivíduos que trocaram sua personalidade genuína por um esteriótipo grupal ou ideológico. Diga você o que disser, mostre-lhes mesmo as realidades mais óbvias e gritantes, nada os toca. Só enxergam o que querem’. Olavo de Carvalho (aqui, págs. 96/97).”

Anteontem foi aprovada em 1º turno a PEC 295/2023, por 38 votos favoráveis contra 13 contrários, mas a questão ainda não está encerrada, pois, passadas 03 sessões, por se tratar de Projeto de Emenda Constitucional, deverá ser submetido a votação em 2º turno. Espero, ao recordar estes singelos argumentos, contribuir para o debate... e que os Deputados Gaúchos continuem iluminados para barrar esta neo iconoclastia que tenta mudar nossa história, quebrar e alterar nossos símbolos...

Que Deus tenha piedade de nós!..

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 14 Julho 2023


Alex Pipkin, PhD

         Evidente que estou pessimista!

A vida e seus resultados dependem da ação humana e as circunstâncias não são nada boas. São ciclos e, nesta direção, mantenho a esperança de que mais adiante eu possa ser surpreendido positivamente.

Vive-se na era da rejeição da verdade, das narrativas falaciosas, dos gatilhos, das emoções e dos estímulos curto-prazistas. Uma época de abissal sentimentalismo grosseiro.

Sou dos anos 60. Não me apego ao saudosismo, o mundo se transforma, porém, os nossos princípios-chave cerebrais levam séculos para serem alterados.

Acho que sou de um tempo em que prevalecia o pensar reflexivo, a razão. Claro, os estímulos e os incentivos no seio familiar e nas instituições nos impeliam com “sangue, suor e lágrimas” para a construção individual - e portanto, no todo - de um futuro mais saudável e promissor.

A ignorância - na correta acepção da palavra - e o emburrecimento, parecem-me transparentes.

Penso que uns 70% da população brasileira atua no piloto automático do sistema 1, dos sentimentos, tomando decisões baseadas nos comportamentos puramente instintivos.

No dia a dia, somos bombardeados de estímulos e informações, e nosso cérebro busca economizar esforços e maximizar a eficiência. Na verdade, esse gosta mesmo da “vida boa”, sendo necessário fazê-lo se exercitar de fato.
Os nossos “modernos” homens, mulheres e LGBTQIA+, por meio das transformações na família, e em razão dos incentivos tupiniquins de cabeça para baixo, desejam a “vida boa”, procrastinando com relação ao futuro, focados no curto-prazo, e nas falsas recompensas que lhe são apresentadas.

A vida é dura! Exige esforço, compromisso, sacrifício, constância de propósito e foco nos objetivos de longo prazo. O sucesso não chega por decreto, é uma jornada que precisa ser construída para se alcançar um “final feliz”.

Não é o que se vê - e o que não se vê - na atual Pindorama.

As gratificações e as recompensas de curto prazo são finalidades de desejos e de necessidades enganadoras, momentâneas e emocionais. Os grupos de pertencimento, por afinidades - as ideológicas são perversas -, que parecem enaltecer nossa identidade social, são muitas vezes singelas miragens de facilitadores do sucesso. Quando analisadas sobre as lentes do sistema 2, lógico, do pensamento racional, torna-se possível compreender e perceber a irracionalidade de muitos pensamentos, do agir meramente instintivo e, talvez, das escolhas de trilhas equivocadas.

Não somente a verdade se tornou desimportante, o conhecimento, além de ser parco em Macunaíma, passou a ser rejeitado.

A decadência é gritante, tanto no escasso nível de conhecimento exposto, como na questão moral.

Embora muita gente negligencie, os valores importam, e muito, em especial, sobre os resultados na educação e no ensino. Não se constrói caráter como antigamente…

Ligue a TV e constatarás o grau de baixeza de conteúdo, de pautas, de discussões e, de forma assustadora, da mentira escrachada e dos viesses ideológicos. Uma genuína celebração da ignorância, da hipocrisia e da ruína moral.

A grande maioria dos brasileiros enxerga com os olhos enevoados, e a razão da ignorância é singela.

O Estado grande pensa e decide por todos e, pior, a escassez de conhecimento e de discernimento, faz com que muitos aceitem essa nefasta circunstância.
Não há mais o essencial ser individual, pensante e crítico, definindo e trabalhando duro pelos seus próprios objetivos e planos de vida. Esse foi substituído pelo abstrato coletivo, sujeito às ordens e aos desejos espúrios ao qual esse “coletivo” está submetido.

Não há mais lei, liberdades individuais, e a capacidade de se pensar e dizer o que se quer.

Não se distingue mais o que é digno, verdadeiro e positivo, e tal incapacidade é gratificada por meio dos enganadores e “modernos” prazeres imediatos.
Sem querer ser saudosista, mas o meu tempo juvenil não era de tamanha ignorância, burrice, farsa e escuridão.

 

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  • Raul Jafet
  • 14 Julho 2023

 

Raul Jafet
         A expressão "vitória de Pirro" vem da vitória do Rei Pirro de Épiro contra os romanos, vitória amarga, já que embora vencedor da sangrenta batalha, seu exército restou dizimado, seus principais generais e amigos morreram, e a continuidade de suas conquistas ficaram seriamente comprometidas.... No Brasil tudo isso seria simplificado com a frase " ganhou, mas não levou".

O imperdível livro do falecido, genial e laureado Mauro Chaves - durante muitos anos editorialista do "Estadão", sob o título " Eu não disse?", reflete bem o fato de parecermos loucos ou adeptos da Teoria da Conspiração, quando nas rodas de amigos ou em nossos artigos, debates, citamos fatos que pareciam loucuras, devaneios, principalmente para pessoas que baseavam seus entendimentos políticos, em leituras da VEJA, ISTO É, CARTA CAPITAL, tradicionais jornais, debates e programas de rádio e TV, muitos dos quais manipulados e de exacerbadas tendências ideológicas e manipulados por interesses político-econômicos....

Toda essa introdução tem como objetivo dizer que o FORO DE SÃO PAULO, criado em 1990, embora noticiado à época, foi sempre considerado por grande parte das pessoas dito esclarecidas, sejam empresários, profissionais liberais e outros que tiveram ampla formação universitária, como um "conto da carochinha ", um devaneio daqueles, que como eu, têm repetidos pesadelos com o comunismo, que vitimou covardemente, milhões ao redor do mundo...

Não bastavam meus relatos da viagem que fiz a países da cortina de ferro à época da "Perestróika", que antecedeu a queda do muro de Berlim, e os relatos angustiantes de quem conversei.... Parecia exagero, falácia capitalista, que Stalin, ao não importar trigo e outros alimentos de países europeus, matou de fome 2 milhões de seu próprio povo. Assim como o cruel nazismo escondeu por anos de seu próprio país, as barbaridades inomináveis do horrendo Holocausto, o comunismo escondeu as suas mais de 20 milhões de vítimas...

Amigos cubanos que fugiram de seu país às pressas para não serem mortos, relataram os traumas vívidos em sua memória, mas mesmo assim, o regime assassino deste país sob o poder absoluto da família Castro há quase 70 anos, foi idolatrado por famosos intelectuais, políticos e artistas brasileiros.

Agora,2023, se realizou em Brasília mais uma edição do Foro de SP, presidido pelo atual presidente do Brasil,  que sem qualquer decoro afiançou conforme manchete da CNN "Na abertura do Foro de São Paulo, Lula diz que ser chamado de "comunista" é motivo de "orgulho".

Pronto! Não deixa nenhuma dúvida que ao ter orgulho do comunismo - portanto não é devaneio nem "conto da carochinha"- orgulha-se das barbaridades cometidas pelos comunistas no mundo.

Assim sendo, me devem humildes DESCULPAS, os que me chamavam de alucinado, ou teórico da Conspiração!

Àqueles, cerca de 40 milhões de eleitores que deixaram de votar ou anularam seu voto, exceto os impossibilitados por doenças ou motivo de força maior que o futuro de seu país, por não aceitarem um candidato de esquerda e outro de direita, ficaram em cima do muro como viúvas dos tucanos, demonstraram ignorância política e pouca preocupação com os destinos do Brasil, entregue agora ao comunismo declarado.

E para finalizar,  afirmo com tristeza, que em breve obterei outra " vitória de Pirro ": quando ficará escancarada a existência da NOM - NOVA ORDEM MUNDIAL, que a cada dia, interfere mais em nossas famílias, com o objetivo de destruir a família convencional como a conhecemos, os princípios éticos e a formação moral, bem como, manipular a nossa saúde, nossa forma de pensar e se expressar, controlar governos e grandes conglomerados econômicos...

Cada vez mais, seremos ovelhas ou bois a caminho dos abatedouros, controlados por chips, câmeras e inteligência artificial..... seremos zumbis do Século 21.

Quem viver (e duvidava), verá e me deverá desculpas, mas, como teria dito Pirro: mais uma vitória como esta e estarei acabado...."

*    O autor, Raul Jafet, é jornalista e empresário.

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  • Décio Antônio Damin
  • 14 Julho 2023

Décio Antônio Damin

        Comovente uma cena comum entre nós leva a reflexões sobre a nossa sociedade. Num dia primeiro do ano, cedo, a maioria ainda dormindo, um homem moço, com braços fortes, queimado de sol, de calção e camiseta corre de uma lixeira à outra, rasgando sacos e deles retirando garrafas plásticas, latas, papéis e outros objetos para carregar  num carrinho que  quase desaparecia  sob uma montanha. Era um carro de duas rodas, com dois varões horizontais paralelos unidos na frente por uma barra transversal. Tal era o peso acumulado que parado se inclinava para trás e os varões apontavam, como lanças, para o céu. O homem move-se com desenvoltura, concentrado, nada desprezando. Depois de tudo ajeitado, posiciona-se entre os varões, pula e alcança a barra transversal e então, com seu peso, equilibra o carro que puxa com grande esforço, arfante, músculos retesados, seguindo até novo achado onde recomeça. Oprimido pelo mundo, não desiste e busca com esforço, com as próprias mãos, retirar do lixo a sobrevivência. Com vontade digna de um deus grego, um exemplo  de fortaleza  e  caráter para ser cantado em versos e que mereceria ser eternizado no bronze  é,  em sua fragilidade social, um gigante, um centauro, um sobrevivente. Dos restos está, com esforço e perseverança, arrancando  seu sustento, e  sabe lá de quantos.

Para alguns todas as chances, para outros o lixo! À tamanha disposição, se oportunidade fosse dada, a gratificação seria imensa.

Faz-nos pensar, ao propiciarmos aos nossos todas as oportunidades, insistirmos, brigarmos para que façam bem as coisas, estudem, se esforcem e que nos respondem, às vezes, com indiferença e até desdém.

Um  dia li uma opinião clara de que, para resolver os problemas do tráfego, dever-se-ia  retirar  das ruas as carroças, pois elas o atravancam., mas esqueceu que todavia temos ainda conosco convivendo homens que não atingiram  sequer o estágio da tração animal e puxam   eles próprios seus pesados carros. Sofisticamente, a opinião esquecia a luta hercúlea que, com meios naturais  elementares,  mãos e  força física, estão travando estes nossos irmãos. Merecem, sim, a  nossa admiração e, ao invés de execrá-los, deveríamos fazer  esforços para trazê-los ao século XXI em que a tração animal e, mais distante, a humana,  seriam apenas uma lembrança. Não basta tirá-los simplesmente das ruas.

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 12 Julho 2023

Gilberto Simões Pires

EM PROCESSO DE QUEDA

Passado primeiro e fogoso impacto proporcionado pelo extraordinário número de votos que garantiu a aprovação da PEC da REFORMA TRIBUTÁRIA, em dois turnos, na Câmara Federal, a impressão que surge neste momento, salvo engano, é que para muitos deputados e tantos outros faceiros a FICHA JÁ ESTÁ EM PROCESSO DE QUEDA LIVRE. 

PREPARADO PARA FERRAR A SOCIEDADE

Se ainda é cedo demais para admitir que já está havendo uma significativa mudança de consciência e/ou boa compreensão dos reais e inquestionáveis perigos impostos pela REFORMA TRIBUTÁRIA, o fato é que já está em fase de crescimento a certeza do quanto o seu conteúdo foi cuidadosamente preparado com o firme propósito de ferrar ainda mais aqueles que INVESTEM, PRODUZEM, COMERCIALIZAM, PRESTAM SERVIÇOS E CONSOMEM. 

TRIO DO FLAGELO TRIBUTÁRIO

Vale lembrar, por oportuno, que a nossa -elevadíssima- CARGA TRIBUTÁRIA já representa 34% do PIB. Pois, as brechas proporcionadas pelo TRIO DO FLAGELO TRIBUTÁRIO, resultante 1- da REFORMA TRIBUTÁRIA; 2- do ARCABOUÇO FISCAL ( que está em fase de aprovação) e, 3- da NOVA LEI DO IMPOSTO DE RENDA (que já está pronta para ser enviada ao Congresso), a sociedade brasileira -que produz e consome- sentirá seus trágicos e inequívocos efeitos -na pele, na mente e nos bolsos.  

REFORMAS

Volto a afirmar que sempre defendi a realização das REFORMAS - PREVIDENCIÁRIA, ADMINISTRATIVA e TRIBUTÁRIA, desde que obedecessem ao sério compromisso de DIMINUIR O GASTO PÚBLICO, que se feitas corretamente levariam uma efetiva queda da CARGA TRIBUTÁRIA para o patamar de 20% do PIB, percentual observado até a promulgação da atual Constituição de 1988. Como se vê, os enormes e impactantes DIREITOS impostos pela Carta somados aos limitados DEVERES, foram decisivos para elevar a CARGA TRIBUTÁRIA para os atuais 34% do PIB. 

O QUE TEMOS...

O que temos até agora, ainda que de forma muito precária, foi a realização da REFORMA DA PREVIDÊNCIA. A mais importante, a - REFORMA ADMINISTRATIVA-, nunca saiu do papel; e a REFORMA TRIBUTÁRIA, pelo andar da carruagem, ao invés de atender os necessários quesitos -SIMPLIFICAÇÃO e MODERNIZAÇÃO-, está correndo solta no sentido de empobrecer ainda mais a esfolada sociedade brasileira. 

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  • Olavo de Carvalho
  • 10 Julho 2023

 

Olavo de Carvalho

        Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.

O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.

Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria — a supressão, em suma, da personalidade.

É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação — literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo mimético de que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.

Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação, impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.

Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.

Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidades do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudorreligiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.

Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.

*          Famoso artigo, publicado no Jornal da Tarde de 3 de abril de 1998 e que deu origem ao livro de mesmo nome.
 

 

 

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