• Bernardo Guimarães Ribeiro
  • 27 Setembro 2023

Bernardo Guimarães Ribeiro

Enquanto esperava os meninos na escola, ouvi no rádio uma música que me chamou a atenção, tanto pela linda voz, como pela melodia. Como gosto muito de Soul, acionei um app que tenho no celular de pesquisa musical e vi que se tratava de um dueto, sendo uma das cantoras a revelação Agnes Nunes. Rapidamente, então, fui ver de quem se tratava, qual minha surpresa em ler que a jovem cantora se declarava representante dos nordestinos e dos negros (https://www.uol.com.br/splash/noticias/2021/04/29/mulher-negra-e-nordestina-agnes-nunes-a-nova-xodo-da-musica-brasileira.htm). A outra cantora do dueto era nada menos que Ivete Sangalo, hoje uma notória militante do movimento LGBT (https://vejasp.abril.com.br/coluna/pop/ivete-sangalo-se-posiciona-sobre-criminalizacao-da-homofobia-e-divide-fas/), mas que não foi poupada pelos próprios fãs ao abster-se de posicionamento nas eleições presidenciais de 2018 (https://veja.abril.com.br/cultura/ivete-sangalo-fala-sobre-politica-e-famosos-e-um-direito-nao-um-dever/).

A recente morte de Marília Mendonça chocou o Brasil pela prematuridade e por ter ela deixado um filho pequeno, mas grande parte das informações noticiadas à época do acidente foram direcionadas para a explicação da sua importância para o empoderamento feminino e até contra a gordofobia!!! Não sei se de forma deliberada ou não, mas referida cantora foi identificada como representante feminista e de pessoas gordas. Como ela acabou encampando o ativismo, foi criticada ao perder peso (https://claudia.abril.com.br/famosos/marilia-mendonca-perda-peso-criticada/)  e quase cancelada ao não se posicionar publicamente contra um participante do “erudito” BBB (https://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2021/04/marilia-mendonca-apos-hate-na-web-por-bbb21-fazia-tempo-que-nao-chorava-tanto.html).

Num recente Miss Universo – o último que vi – as manifestações das modelos trilhavam sempre a lógica politicamente correta e o engajamento em alguma causa. A relevância atribuída à militância era nítida, tudo em detrimento do verdadeiro motivo do concurso, qual seja a beleza da mulher. Havia modelos feministas, ambientalistas, LGBTistas, antirracistas e tudo mais que pudesse gerar exibicionismo moral. Nada contra a que mulheres exibam todo o seu cardápio de militância política, mas talvez fosse mais razoável criar um Miss Politicamente Correta!

O saldo final desse caldeirão de excrescências é que a celebridade pós-moderna tanto capitaliza sobre as agendas de minorias, angariando novos admiradores, como delas também se torna refém. Ou seja, o exibicionismo moral agrega, mas cobra seu preço – o ídolo passa a ser pautado pelos seguidores, isto é, teleguiado por alguma minoria que representa. Assim, o artista não é mais um farol para a sociedade; ele é um mero vagão, cuja locomotiva implacável é guiada por seu público ativista. Um exemplo claro disso ocorre com a atriz Marina Ruy Barbosa, sempre obrigada a se explicar perante os fãs que a guiam como um timoneiro à embarcação. Mencionada atriz foi criticada por uma ONG ao aparecer numa fotografia com um cachorro da raça Beagle, o que fora enquadrado como uma espécie de racismo animal (???), tendo que se justificar pela falha (https://www.purepeople.com.br/noticia/marina-ruy-barbosa-posa-com-cachorro-de-raca-e-responde-critica-mais-amor_a155085/1) e, mais recentemente, precisou se explicar por ter feito uma festa de aniversário durante a pandemia (https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/07/4936029-marina-ruy-barbosa-sobre-festa-de-aniversario-eu-nao-sou-perfeita.html).

Em paralelo a isso, com o incremento das redes sociais, temos um novo fenômeno ao qual denomino de carteirada por prestígio. Celebridades – e subcelebridades com elevada autoestima – são instadas a manifestar-se sobre qualquer discussão do momento, mesmo que não tenham o menor conhecimento do objeto. O palpiteiro vê-se obrigado a opinar nos mais variados assuntos do momento, de atracamento de navio a acasalamento de muriçocas. Logicamente, o posicionamento segue sempre a manada, visando a fornecer àquela posição um ar de credibilidade com o repaginado “sabe com quem está falando?”. Recentemente, o deputado Alessandro Molón participou de uma live (https://www.youtube.com/watch?v=JCeDLBOFXH8) com a funkeira e especialista em todas especialidades, Anitta, que, dentre as inúmeras pérolas, disse estar surpresa por existir no Brasil “mais cabeça de gado que cabeça de pessoa”. A ideia subjacente de quem explora o prestígio alheio é a de que pessoas ignorantes pensem: “olha, você viu o que a Anitta disse sobre o peido das vacas ser muito poluente”? Anitta declarou recentemente que daria um tempo nos comentários políticos; nós agradecemos!

Como não há nada tão ruim que não possa piorar, os palpiteiros profissionais encontraram uma fórmula pra lá de criativa de constranger outras celebridades a opinarem no sentido do que desejam. Através do chamado desafio, um provoca o outro na intenção de engrossar o coro em direção a alguma opinião. O constrangimento é inexorável, pois eventual silêncio é sempre interpretado como a assunção de uma opinião contrária à finalidade da provocação, o que não pega tão bem para a opinião pública. Esse fenômeno sucedeu com a própria Ivete Sangalo e também com Cláudia Leitte, quando desafiadas por – de novo ela – Anitta (https://www.hypeness.com.br/2018/09/anitta-adere-ao-movimento-elenao-e-desafia-ivete-sangalo-e-clauda-leitte/).

A consequência da adoção obrigatória de uma causa como bengala moral é o paradoxo da desumanização a pretexto da exibição de virtudes humanitárias. Uma pessoa é sempre um ser humano único, com suas qualidades, mas também com inúmeras imperfeições. A obrigatoriedade de ter uma causa a tiracolo para chamar de sua desloca os holofotes do objeto para o sujeito. À condição de indivíduo foram adicionados anexos sem os quais ele não é mais nada. É sobretudo por isso que o status pessoal passou a ser condicionado à agenda dos fãs censores. O cantor não é mais reconhecido pela sua música ou letra, mas pelo trabalho social ou ativismo ideológico que porventura desenvolva. Ao atleta não basta ser bom no esporte; ele tem que ser engagé. O ator não presta se não for aquele enfronhado na militância de algum partido que se oponha ao mal, mesmo que sequer se saiba o que é isso. Até o programa televisivo mais culturalmente underground, como o BBB, hoje tem seus participantes como diletos representantes de algum grupo!

Na pós-modernidade, nem mesmo cidadãos comuns e anônimos escapam à força gravitacional da afetação de virtudes. Todos querem representar algo ou alguém e ninguém quer ser o patinho feio sem causa. Se você não tem algo genuíno que se identifique, não tem problema, pois há todo um mercado emergente de temas, principalmente de hiperestimulação de ressentimentos e de gênese de novas minorias “oprimidas”. Encerro, pois, parafraseando o comercial oitentista do Neston: “existem mil maneiras de ter uma causa, invente uma”.

*       Publicado originalmente por Burke - Instituto Conservador, em 28 de março de 2022

 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 26 Setembro 2023

Gilberto Simões Pires 

REDES SOCIAIS E WHATSAPP

No Brasil, tão logo ficou escancarado que a SUPREMA CORTE, por estrita vontade de uma coesa maioria, passou as DAR AS CARTAS E JOGAR DE MÃO, provando que a SOBERANIA é uma exclusividade daquela nojenta INSTITUIÇÃO E NÃO DO POVO, as REDES SOCIAIS, notadamente o WHATSAPP, passaram a ser utilizados como instrumentos próprios e efetivos de TERAPIA DE GRUPO. 

TIRANIA DA CORTE

Mesmo sabendo que a qualquer momento podem vir a ser TRAÍDOS E/OU DENUNCIADOS por -INFILTRADOS- pelo fato de usarem a SANTA LIBERDADE para expressar e repudiar, de todas as formas, os flagrantes descumprimentos da Constituição, o número de GRUPOS DE BRASILEROS que usam as REDES SOCIAIS, notadamente o WHATSAPP, cresce sem parar abrigando, na sua grande maioria, pessoas pra lá de indignadas e revoltadas com a TIRANIA DA CORTE. 

ABRIGO DA ESPERANÇA

Estes espaços, que se tornaram próprios e prontos para a prática da -TERAPIA DE GRUPO- funcionam como -ABRIGO DA ESPERANÇA-, onde reinam as mais diversas expectativas de que em algum momento a CORDA ARREBENTE e a DEMOCRACIA -SEQUESTRADA- PELA CORTE SUPREMA- recupere a LIBERDADE e com isso o POVO VOLTE A SER O LEGÍTIMO SOBERANO. 

DRAMA

Sem tirar nem pôr, como se percebe, boa parte das REDES SOCIAIS se transformaram em GRUPOS DE APOIO que guardam similaridade com as RODAS DE CONVERSA do tipo -ALCOÓLICOS ou NARCÓTICOS ANÔNIMOS, onde cada um conta o seu DRAMA e assim, de forma coletiva, todos consigam reunir forças para BRECAR O CURSO DO COMUNISMO, que a olhos vistos está destruindo, sem dó nem piedade, o nosso empobrecido Brasil. 

 

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  • Afonso Pires Faria
  • 24 Setembro 2023

Afonso Pires Faria

 

       Se deu certo na China e na União Soviética, porque não daria aqui?

Se a terminologia é a mesma e os métodos idem, o que impede o nosso país de ser levado a extrema felicidade de uma "ditadura democrática"? A coisa, dependendo do modus operandi, tem um tempo e um jeito um pouco diferente, mas o fim é o mesmo.

A ordem das atitudes, também pode mudar, como também a sua nomenclatura. Na China, há mais de sessenta anos, Mao falou que se deveria acabar com os que ele chamava de contrarrevolucionários, bem como privar proprietários de terras e capitalistas de seus direitos. A coisa aqui não anda muito diferente, guardadas as devidas proporções temporais e hierárquicas.

Os métodos para capturar os que estão estorvando o processo já está em curso. A coleta de dados sobre a vida pregressa dos alvos, que antes eram complicados, hoje estão a um "clic" no mapa das possibilidades.

A célebre frase de Lavrenti Pavlovitch Beria durante o Grande Expurgo - "mostre-me o homem e eu lhe mostrarei o crime" -  está facilitada pois todos àqueles que foram capturados no dia 08/01 poderão facilmente ser enquadrados em algum crime. Se ainda não existe lei para tipificar o ato como delituoso não tem problema, a nossa Suprema Corte, celeremente, cria uma nova terminologia jurídica para o devido enquadramento.

Lá, a ordem era eliminar fisicamente os oponentes do "regime democrático". Aqui, a coisa ainda está incipiente e a eliminação é ainda moral e social. Os indivíduos são eliminados da comunicação social, silenciados.

Que a ordem e a celeridade do método não sejam tão semelhantes aqui, quanto foi lá. E que Deus olhe para o nosso país. 

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  • Alex Pipkin, PhD
  • 21 Setembro 2023

 

Alex Pipkin, PhD
 

Vive-se nessa Republiqueta vermelha, verde-amarela, um cenário satírico. Na realidade objetiva uma tragédia.

Aparenta ser uma piada, e efetivamente o é, entretanto, uma de extremo mau gosto e desilusão.

Os mais jovens não tiveram oportunidade de assistir o programa humorístico do grande Chico Anysio, apresentado na TV Globo, que naquela época praticava um jornalismo factual.

Em plena distopia de 2023, parece que estou vendo, e gargalhando sobre o personagem do Chico, o deputado Justo Veríssimo.

Esse personagem pode ser caracterizado pela famosa “Lei de Gérson”, ou seja, em tudo que se mete quer tirar algum tipo de vantagem.

Que se explodam as questões éticas, morais ou legais, “eu quero o meu!”.

Como político, seu esporte favorito é roubar dos pobres, sendo um exímio praticante da cleptocracia e do mais nefasto tipo de corrupção.

Sua fala característica: “Eu quero que o pobre se exploda!”.

Lamentável que o povo brasileiro, cujo qual o atual presidente se autodenomina “pai dos pobres”, sofra da Síndrome de Estocolmo, e não enxergue a Síndrome de “Veríssimo”, característica do atual mandatário.

Embora sua retórica seja a da preocupação com o povaréu, “o homem mais honesto do Brasil”, só pensa em si próprio e em alguns membros de sua camarilha. Zero de verdadeira empatia com os descamisados.

De fato, comprovado pelas políticas públicas populistas e ineficientes, não há real preocupação com a economia e com a geração de empregos, portanto, em acabar genuinamente com a mazela da pobreza. O discurso, claro, é o das desigualdades sociais…

O “bon vivant” megalomaníaco só quer saber de hotéis luxuosos - para disfarçar reclama da comida de chef’s renomados -, vinhos finos caros, relógios Rolex, canetas Mont Blanc, camas e móveis faraônicos, entre outros prazeres miliardários.

Evidente que o cartão corporativo rola livre, leve e solto; nenhuma questão, a não ser que a culpa é do Bolsonaro.

Da mesma maneira que alguns super-ricos no país, é dotado de um comportamento imoral, crendo que pode corromper e comprar qualquer pessoa e/ou instituição.

O “pai dos pobres” é astuto, sabe que sua atitude e comportamento desviantes, na condição esdrúxula de autoridade, no país da impunidade para os poderosos e ricos, sempre estará livre de consequências.

“Lule” está em Cuba. Que marravilha! Será que curte a comida do reconhecido chef Claude Troisgros?

Ele, juntamente com o presidente cubano, descendente do guerrilheiro marxista Che Guevara, afirma, claro, que a culpa pelo embargo econômico, é dos yankees. A causa ainda é o imperialismo americano…

Pena que a piada é muito séria! Todos nós, brasileiros, sofremos com esse impostor.

Tristemente, o gado doméstico estúpido, segue docilmente para o matadouro.

Parece não haver reação. Já perdemos nossa resistência, nossos músculos morais.

A banalização do mal está entre nós. E o povaréu dá risadas, como se estivesse assistindo às cenas de Justo Veríssimo, do inesquecível Chico Anysio.

O Chico fazia a gente rir, essa irreal realidade do capô faz a gente chorar!

 

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  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 21 Setembro 2023

Gilberto Simões Pires

ESPANTO

Por incrível que pareça, abundam nas redes sociais um fantástico sentimento de ESPANTO quanto às MENTIRAS e/ou ABSURDOS de toda ordem que foram ditos pelo presidente Lula, no seu discurso de abertura da 78ª Assembleia Geral das Nações Unidas, na última terça-feira,19, em Nova York. 

PALAVRAS DE ORDEM

 

Ora, em primeiro lugar só poderia causar algum ESPANTO caso Lula resolvesse NÃO MENTIR ou NÃO OMITIR AS VERDADES. Como bem referiu o senador Rogério Marinho, Lula foi o velho -MAIS DO MESMO-, ou seja, além de CULPAR SEUS ANTECESSORES usou as velhas e conhecidas -PALAVRAS DE ORDEM- como se estivesse em uma assembleia de metalúrgicos-.

LIGANDO NO AUTOMÁTICO

 

Como se estivesse ligado em modo -AUTOMÁTICO-, Lula tratou de criticar o EMBARGO A MERICANO CONTRA CUBA. E, SEM ESPANTO, o comunista SE OMITIU quanto às claras, gritantes e rotineiras VIOLACÕES CONTRA A LIBERDADE E OS DIRIETOS HUMANOS, que correm soltas por todos os cantos da pobre ILHA COMUNISTA.

OUTRA MENTIRA

 

Outra mentira: Lula. sem corar, declarou ao mundo todo que DEFENDE A LIBERDADE, quando, na mais pura real, o seu governo é marcado 1- pelo APARELHAMENTO DA MÁQUINA PÚBLICA; e, 2- PELO CERCEAMENTO DO EXERCÍCIO DA CRÍTICA, que atinge de morte o DIREITO UNIVERSAL da LIBERDADE DE EXPRESSÃO.

PAÍSES AFINADOS COM O COMUNISMO

 

Para finalizar, também não é cabível qualquer tipo de ESPANTO o inquestionável fato de que Lula e seus comparsas comunistas só tenham OLHOS E CONSCIÊNCIAS VOLTADOS APENAS PARA PAÍSES QUE TÊM TOTAL AFINIDIDADE IDEOLÓGICA com REGIMES AUTORITÁRIOS.

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  • Dartagnan da Silva Zanela
  • 20 Setembro 2023


Dartagnan da Silva Zanela 

          Toda alma é uma cruz aqui plantada, diz-nos Bruno Tolentino em seu livro "Os Deuses de Hoje". Eu, você, todos nós somos uma cruz com um coração palpitante no centro do madeiro, apontando para a direção que nós mais amamos.
A cruz é um símbolo arquetípico poderosíssimo, que se encontra presente em inúmeras tradições, como inúmeros outros símbolos que acreditamos serem tão particulares, tão exclusivos de uma e outra tradição.
Nesse sentido, quando temos em nossa mente a imagem deste símbolo, a cruz, é importante lembrarmos que a trave horizontal simboliza o plano do mundo material, natural, social e político.
Estamos inseridos neste plano, fazemos parte dele, mas não fomos feitos para nos realizarmos plenamente nesta dimensão restritiva da realidade.
Bem, junto a trave horizontal temos a trave vertical, que nos aponta para a perspectiva da eternidade e do infinito, lembrando-nos que a vida é muito mais profunda do que as aparências que nos circundam e que invadem os nossos sentidos e que ela, a nossa vida, não termina aqui, abruptamente e em definitivo.
Estamos no mundo, mas não devemos ser mundanos. Fomos feitos para o infinito, mas não podemos ignorar o peso e a força de tudo que está a nossa volta nos limitando.
Em resumo, eis aí a tal da condição humana.
Infelizmente, todos nós, em algum momento, podemos acabar por nos apegar ferozmente a alguma ideologia que agrilhoa, sem dó, os nossos olhos, prendendo-os unicamente à dimensão horizontal, como se o mundo político, social e natural fossem as únicas dimensões que compõem a realidade e dão forma à nossa humanidade.
Tal estreitamento da percepção, consequentemente, acaba por escravizar a nossa consciência, bloqueando a abertura da nossa alma para o infinito. E isso não é apenas triste. É perigoso.
Outras vezes, também, com grande infortúnio, podemos acabar nos vendo amarrados com cordas baratas a haste vertical, abraçados a algum tipo de misticismo moderninho, egocêntrico e egolátrico, que leva-nos a desprezar a realidade deste mundo com suas agruras e perrengues.
Sim, estamos de passagem, como peregrinos, mas aqui estamos e, também, quando restringimos nosso olhar unicamente para uma perspectiva supostamente espiritualizada, terminamos num outro tipo de mutilação da nossa consciência, tão vil e abjeto quanto o que foi anteriormente apontado.
Quando olhamos para o século XX, e temos nossas vistas invadidas pela imagem dos regimes totalitários que destroçaram, e que ainda despedaçam a vida de milhões de pessoas, quando lembramos das inúmeras seitas e cultos que subjugaram e subjugam multidões, reduzindo-as à condição de um pet dócil e obediente, compreendemos, com uma terrificante clareza, que não é muito difícil termos a nossa mente degradada e nossa alma escravizada.
Basta apenas que nos permitamos ficar numa posição de fragilidade por termos aceitado limitar nossa percepção da realidade a apenas uma de suas dimensões.
Por isso, lembremos, toda vez que tomarmos um Crucifixo em nossas mãos - Crucifixo este que, muitos de nós, carregam junto ao coração - está a figura de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Lá está o Filho do Homem, lembrando-nos que Ele é o centro da cruz, o centro da vida, onde a trave horizontal encontra-se com a haste vertical, revelando-nos a face do Deus verdadeiro e, ao mesmo tempo, o rosto do verdadeiro homem.
Deste modo, o Verbo divino encarnado e crucificado está nos convidando a nunca esquecermos qual é o caminho, a verdade e a vida.
Ele está nos lembrando, hoje e sempre, que seu coração transpassado está aberto para adentrarmos nele e, junto com Ele, ascendermos para junto da morada eterna e, Nele, permitirmos que o reino de Deus irradie sua luz neste mundo, através do nosso coração unido ao Dele.
E assim, com Ele, estaremos defendendo nossa consciência contra todas as ideologias mundanas que não medem esforços para nos destruir.
Por essa razão, e por muitas outras, Nosso Senhor nos admoesta para que o sigamos abraçando a nossa cruz de cada dia com Ele em nosso coração, sempre lembrando Dele quando voltarmos nossos olhos para os nossos semelhantes que, como nós, por mais desprezíveis que sejamos, fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, que se fez como nós, que morreu por cada um de nós, para que lembremos, e jamais esqueçamos, quem somos.
Nós somos uma cruz, como disse o poeta. Uma cruz plantada neste mundo para almejar retornar ao descampado da eternidade, junto a árvore da vida.

*       O autor é professor, escrevinhador e bebedor de café. Autor de "A Bacia de Pilatos", entre outros ebooks.

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