• Ruy Fabiano, O Globo
  • 06 Julho 2017

 

O perigo do “Fora, Temer” é ofuscar o protagonismo do PT no maior processo de rapina já perpetrado ao Estado brasileiro – aliás, a qualquer Estado. A corrupção como método de governo.

O PMDB, partido que Temer presidiu por longo tempo, e cuja parceria com o PT o levou à vice-presidência de Dilma Roussef, praticou a corrupção clássica, que, embora obviamente criminosa, cuidava de não matar a galinha dos ovos de ouro.

A do PT, não. Não se conformava em enriquecer os seus agentes. Queria mais: saquear o Estado para financiar um projeto revolucionário de perpetuação no poder. Daí a escala inédita, mesmo em termos planetários. Só no BNDES, o TCU examina contratos suspeitos de financiamentos, que incluem países bolivarianos e ditaduras africanas, na escala de R$ 1,3 trilhão. Nada menos.

Poucos países têm tal PIB. A Petrobras, que era uma das maiores empresas do mundo, desapareceu do ranking mundial. Deve mais do que vale. O PT banalizou o milhão – e mesmo o bilhão.

As delações da Odebrecht e da JBS, entre outras de proporções equivalentes (Queiroz Galvão, OAS, Andrade Gutierrez, UTC etc.) mostram quem estava no comando: Lula e o PT. Os demais beneficiários estão sempre vários degraus abaixo. Eram parceiros – e, portanto, cúmplices -, mas sem comando.

Por essa razão, soou como piada de mau gosto – ou um escárnio à inteligência nacional - a afirmação de Joesley Batista de que Temer era o chefe da maior quadrilha do erário. A ação implacável do procurador-geral Rodrigo Janot procurou reforçar aquela afirmação, que obviamente não se sustenta.

Os irmãos Batista, no governo Lula – e graças a ele -, ascenderam da condição de donos de um frigorífico em Goiás à de proprietários da maior empresa de produção de proteína animal do mundo, com filiais em diversos países. Tudo isso em meses.

O segredo? A abertura dos cofres do BNDES, de onde receberam algo em torno de R$ 45 bilhões. Tal como Eike Baptista, são invenções da Era PT. Temer nada tem a ver com isso, ainda que tenha sido – e está provado que foi – beneficiário do esquema.

Mas chefe jamais. Temer e o PMDB são a corrupção clássica, igualmente criminosa, mas em proporções artesanais. É grave e deve ser investigada e punida. Mas enquanto a rapina peemedebista cabe em malas, a do PT exige a criação de um banco, como a Odebrecht acabou providenciando no Panamá para melhor atendê-lo.

É, portanto, estranho que, diante de evidências gritantes como as que Rodrigo Janot dispunha sobre Lula, não tenha se indignado na medida que o fez em relação a Temer e Aécio, cujas respectivas prisões pediu. Jamais denunciou Lula ou Dilma.

Muito pelo contrário. Até hoje não explicou porque destruiu uma delação premiada do ex-presidente da OAS, Leo Pinheiro, que comprometia Lula. Não o sensibilizaram tampouco as delações do casal de marqueteiros João Santana e Mônica Moura, que, inclusive, revelaram um esquema de financiamento de campanhas em países bolivarianos com dinheiro roubado da Petrobras.

E o casal deixou claro a quem obedecia: Lula e Dilma, fornecendo detalhes sórdidos do esquema: entre outras aberrações, uma conta fria de e-mail pela qual Mônica trocava informações com Dilma, com o objetivo declarado de obstrução de justiça.

* Jornalista
 

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  • Guilherme Fiuza, O Globo
  • 05 Julho 2017

O país do carnaval foi salvo do marasmo pelo procurador-geral da banda.

Isso aqui estava um tédio de dar dó. Depois do golpe de Estado que arrancou do palácio a primeira presidenta mulher, cuja quadrilha estava roubando honestamente sem incomodar ninguém, a sombra desceu sobre o Brasil. Um mordomo vampiresco entregou a Petrobras a um nerd que deixou os pais de família da gangue do Lula no sereno — extinguindo sumariamente o pixuleco, principal direito trabalhista conquistado na última década.

Mas não foi só isso. Além de arrancar a maior empresa nacional da falange patriótica de José Dirceu, o governo golpista da elite branca e velha deu um tranco na economia. Em pouco mais de um ano, estragou um trabalho de três mandatos presidenciais que levara o país a um recorde — a maior recessão da sua história. Enxotou do comando da tesouraria nacional todos aqueles cérebros amanteigados, e aí se deu o choque: inflação e juros caíram, dólar e taxa de risco idem. Uma tragédia.

Como se não bastasse, o mordomo começou a fazer as reformas estruturais que passaram 13 anos na geladeira do proselitismo coitado, que é o que enche a barriga do povo. Antes que o pior acontecesse — a retomada do emprego e do crescimento — apareceu Rodrigo Janot.

Mas não apareceu sozinho, que ele não é bobo e sabe que com elite branca e velha não se brinca. Veio com o caubói biônico do PT — aquele vitaminado por injeções bilionárias do BNDES, o brinquedo predileto do filho do Brasil. Só mesmo um caubói de laboratório teria a bravura suficiente para dizer ao país que comprou todo mundo e o culpado é o mordomo. A partir daí foi só alegria.

A dobradinha do procurador-geral da banda com o supremo tribunal companheiro nunca foi tão eficiente. A enxurrada de crimes da Lava-Jato envolvendo atos diretos e indiretos de Dilma Rousseff passou dois anos morrendo na praia. Já a homologação da pegadinha do caubói caiu do céu como um raio. Aí o delator foi amargar o exílio no seu apartamento em Manhattan, deixando o país paralisado, mas feliz — como no carnaval.

Nesta revolução progressista, também conhecida como farra do boi, Joesley Batista apontou Michel Temer como o chefe da quadrilha mais perigosa do país. Os brasileiros já deviam ter desconfiado disso. Lula e Dilma não davam um pio sem pedir a bênção do vice. Todo mundo sabe que Dirceu morria de medo de Temer, e não deixava Vaccari, Delúbio, Valério, Duque, Bumlai, Palocci e grande elenco roubarem um centavo sem pedir a autorização do mordomo. Chegaram a pensar em denunciá-lo à Anistia Internacional, mas se calaram temendo represálias. Já tinham visto no cinema como os mordomos são cruéis.

Agora estão todos gratos ao caubói biônico, que por sua vez está grato ao procurador-geral da banda — e ao seu homem de confiança que saiu do Ministério Público para montar o acordo da salvação da boiada (sem quarentena, que ninguém é de ferro). O pacto que emocionou o Brasil, festejado nas redes sociais como Operação Free Boy, é um monumento à liberdade talvez só comparável à Inconfidência Mineira.

Nada seria possível sem o desassombro de Edson Fachin, o homologador-geral da banda. Um candidato a juiz capaz de circular no Senado a reboque do lobista de Joesley não teme nada.

O legal disso tudo, além de bagunçar esse governo recatado e do lar com mania de arrumação (a melhora dos indicadores estava dando nos nervos), foi ressuscitar o PT. Depois da delação de João Santana, o roteiro criminal sem precedentes elucidado por Sergio Moro se encaminhava para a prisão de Lula e Dilma — os presidentes do escândalo. Aí veio a farra do boi dizer ao Brasil que, na verdade, Lula e Dilma eram coadjuvantes do mordomo — quem sabe até laranjas dele. E o Brasil, como se sabe, crê.

Alegria, alegria. Zé Dirceu solto, Vaccari absolvido pela primeira vez na Lava-Jato, pesquisas indicando aumento de aceitação ao PT! (Ok, é Datafolha, mas o Brasil crê). E você achando que não viveria para ver rehab de bandido. O auge da poesia foi o lançamento da denúncia de Janot em capítulos, como uma minissérie. Alguns especialistas classificaram-na como “inepta” (ou seja, a cara do pai), mas estão enganados. A denúncia de Janot é apenas um lixo. Quem gosta de inépcia é intelectual.

A alegação de corrupção passiva, por exemplo, é uma espécie de convite à investigação do Cade. Só faltou escrever “tem coisa estranha ali...” Um estudante de Direito poderia achar que quem denuncia sem apurar está cambaleando entre a negligência e a falsidade ideológica. Algum jurista na plateia?

Farra do boi não tem jurista. Tem quadrilha dançando em torno da fogueira de mais uma greve geral cenográfica, porque sacanear o país nunca é demais. Mas eis que chega um correio do amor para o procurador-geral do bando (devem ter errado a grafia). Vamos reproduzi-lo: “Companheiro, agora dê um jeito de completar o serviço e botar esse presidente na rua, depois em cana; acabe com ele, parceiro, porque dizem que maldição de mordomo é terrível. Só não é pior que a de mordomo-vampiro.”
 

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  • Ênio Meneghetti
  • 04 Julho 2017

 

                 Atravessamos a semana e não veio a sentença de Lula. Confirmada a condenação, começará a corrida contra o relógio, que será determinante para que o TRF-4 possa ou não endossar o veredicto a tempo de Lula ficar inelegível para a disputa presidencial de 2018.

                  A estratégia óbvia é que o PT seguirá tratando Lula como perseguido político. Mas mesmo entre os petistas, já não há consenso sobre a estratégia. Dentro da sigla já há tendências defendendo que o PT adira à candidatura de Ciro Gomes, do PDT.

                  Na prática, só resta a Lula aguardar a sentença – e a pena – que Moro irá lhe determinar e torcer para que a ruptura do iceberg representado pelo processo do tríplex não sirva para que se mostrem mais corajosos aqueles que já se atrevem a divergir dele dentro do partido. Para alguns destes líderes petistas a forma como a crise está se desencadeando pode abrir espaço para Jair Bolsonaro como um nome da direita. Na região Nordeste, reclamam os petistas, a falta de ação de Lula já teria, inclusive, proporcionado crescimento do deputado carioca.

                  A realidade é que, do tsunami que Lula aguarda, mal se viu a crista.

                  Réu em cinco ações penais, três pela Operação Lava Jato, uma pela Operação Janus e uma pela Operação Zelotes, além de alvo em outros inquéritos, fora o caso do triplex, cuja sentença sairá a qualquer momento, Lula também tem outra acusação por Obstrução de Justiça perante a Justiça Federal do Distrito Federal. Trata-se daquele caso que também envolve o ex-senador Delcídio do Amaral e outras cinco pessoas, acusadas de tentar obstruir a Lava Jato com a compra do silêncio de Nestor Cerveró.

Também, oriundo da Operação Janus, corre na Justiça Federal do DF, processo onde Lula tem outra acusação por tráfico de influência. Seria perante órgãos do governo e o BNDES, para beneficiar a Odebrecht em contratos em Angola. É o famoso caso em que também está Taiguara Rodrigues dos Santos, sobrinho da primeira mulher de Lula. Também da Operação Zelotes, há mais uma acusação na Justica Federal do DF que apura se Lula de fato integrou um esquema com seu filho, Luís Cláudio, com a empresa Marcondes & Mautoni, em negociações para a compra de 36 caças suecos Gripen, além da prorrogação de uma MP que concedida incentivos fiscais para montadoras de automóveis.

                Ainda pela Lava Jato, há o caso do terreno que seria usado para a construção do Instituto Lula, comprado pela Odebrecht e não utilizado. Mais o apartamento vizinho ao dele, em São Bernardo do Campo, no mesmo andar onde mora o réu. Sem esquecer da compra e reforma do sítio de Atibaia.

                Há várias outras suspeitas e inquéritos em andamento. A defesa e o próprio Lula, negam tudo, naturalmente.

                Por fim, pesquisa do Instituto IPSOS, aponta que para 64% dos entrevistados o PT ainda é o mais partido mais corrupto, mesmo com o atual esforço midiático de colocarem-se a todos na mesma vala. Seguem-se o PMDB, com 12%, e o PSDB, com 3%. 17% não souberam.

                Os bochinchos dentro do PT, certamente continuarão.
 

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  • Graça Salgueiro
  • 03 Julho 2017



(Publicado originalmente em midiasemmascara.org)

Desde que tornou-se presidente dos Estados Unidos em janeiro deste ano, Donald Trump dizia que iria desfazer os acordos que seu antecessor, Barack Obama, havia feito com os ditadores da ilha de Cuba. Fiquei ansiosa por ver se, finalmente, alguém teria a coragem de chamar as coisas por seus nomes reais e fazer algo por aqueles 11 milhões de escravos de uma ditadura sexagenária, sanguinária e que sempre foi protegida por países que gozam de liberdade e têm seus direitos respeitados.

Então vieram as ameaças do delinqüente da Coréia do Norte, as crises na Síria e Líbano e nada do magnata-presidente olhar para o outro lado. Em 16 de junho, entretanto, em um evento no teatro Manuel Artime em Miami, ladeado por ilustres cubanos e cubano-americanos, Trump falou para uma platéia repleta que iria cancelar todos os acordos feito por Obama. É necessário deixar claro que não houve um “rompimento”, uma vez que as relações diplomáticas e comerciais permanecem intactas.

Quando Obama anunciou em 14 de outubro de 2016 que Cuba e Estados Unidos refizeram suas relações diplomáticas e comerciais, lembro de ter escrito um artigo denunciando as manobras protecionistas que o muçulmano fazia à ditadura mais antiga do continente em detrimento do povo sofrido, espoliado, massacrado, pois os Estados Unidos cederam a todas as exigência feitas por Raúl Castro sem nenhuma contrapartida. Numa relação entre dois países é de se supor que qualquer acordo seja feito bilateralmente. Mas com Cuba não foi assim. Raúl Castro fez todas as exigências que quis e Obama apenas disse sim.

Para que se tenha idéia da nocividade que foi esse malfadado acordo, a repressão se intensificou de tal maneira que só em março deste ano foram presas mais de 3.000 dissidentes que tudo o que desejam – e cobravam – era liberdade, em todos os níveis.

Mas Trump não agiu sozinho porque, provavelmente, não tinha conhecimento da realidade daquela ditadura. Ele contou com o apoio do senador Marco Rubio e dos deputados Mario Diaz-Balart e Ileana Ros Lehtinen, além de vários respeitados membros da comunidade cubano-americana. Segundo Diaz-Balart, Trump vinha tendo essas conversas desde o período de campanha, de modo que quando resolveu fazer o anúncio estava bem preparado.

Em seu discurso a primeira coisa que Trump disse foi que estava “cancelando” todos os acordos feitos por Obama e que negociaria um acordo “muito melhor”, para o povo cubano, não para a ditadura. Algumas de suas frases foram de grande impacto, tanto para a platéia que o aplaudia a cada anúncio, quanto para os ditadores e aqueles que apóiam a desgraça alheia.

Disse Trump: “Não levantaremos as sanções a Cuba até que todos os prisioneiros políticos sejam livres, todos os partidos políticos sejam legalizados, se programem eleições livres e supervisionadas internacionalmente e a entrega à Justiça americana de criminosos e fugitivos que encontraram refúgio na ilha”. Ele ainda desafiou Cuba a se sentar na mesa para negociar um novo acordo que seja do melhor interesse dos cubanos como dos americanos.

Trump foi enfático quando disse que qualquer mudança de sua postura em relação a Cuba dependerá dos avanços concretos que o ditador faça em direção aos objetivos propostos por ele. “Quando os cubanos derem passos concretos estaremos prontos, preparados e capazes de voltar à mesa para negociar esse acordo, que será muito melhor. Nossa embaixada permanece aberta com a esperança de que nossos países possam forjar um caminho muito melhor”. Disse ainda que restringirá muito robustamente o fluxo de dólares norte-americanos aos serviços militares, de segurança e inteligência da ilha e dará “passos concretos para se assegurar de que os investimentos de empresas americanas fluem diretamente para o povo. Implementaremos a proibição do turismo e implementaremos o embargo”.

Mas a pergunta que se impõe, é: esse acordo é melhor para quem? No mesmo dia o “Governo Revolucionário” emitiu uma nota [1] onde se coloca como uma super potência de quem os Estados Unidos dependem e cujo prejuízo com as novas exigências será dos americanos. Diz parte desse comunicado: “O Governo de Cuba reitera sua vontade de continuar o diálogo respeitoso e a cooperação em temas de interesse mútuo, assim como a negociação dos assuntos bilaterais pendentes com o Governos dos Estados Unidos. Nos dois últimos anos demonstrou-se que os dois países, como expressou reiteradamente o Presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, General de Exército Raúl Castro Ruz, podem cooperar e conviver civilizadamente, respeitando as diferenças e promovendo tudo aquilo que beneficie ambas as nações e povos, porém não se deve esperar que para isso Cuba realize concessões inerentes à sua soberania e independência, nem aceite condicionamentos de nenhuma índole.

Qualquer estratégia dirigida a mudar o sistema político, econômico e social em Cuba, quer seja a que pretenda consegui-lo através de pressões e imposições, ou empregando métodos mais sutis, estará condenada ao fracasso”.

Quer dizer, Castro II reitera que, ou é do jeito deles, ou não tem acordo. Porque a ditador nenhum interessa que seu povo viva bem e feliz, que tenha os mesmos direitos e liberdades que eles da Nomenklatura se outorgaram. Para disfarçar, a Assembléia Nacional do Poder Popular está anunciando eleições para 14 de julho próximo, mas isso não é novidade. Sempre houve eleições. O “inusitado” disso é que os candidatos não são escolhidos pelo povo, mas pelos “conselhos”. O povo é obrigado a ir ratificar a escolha – que ele não fez – para os candidatos do partido único, o Partido Comunista Cubano, cujo mandatário sempre teve 100% dos votos. Dessa vez Raúl Castro não vai concorrer pois há tempo anuncia sua resignação em fevereiro de 2018 quando termina seu mandato. Mas isso é assunto para outro artigo.

Trump disse que esse decreto entraria em vigor dentro de 30 dias mas que já seria posto em prática a partir de seu anúncio. Resta saber se ele vai se manter firme em sua palavra de não fazer concessões enquanto suas exigências não forem plenamente acatadas, ou se pelo caminho – ou por pressão de algum lado – mudará de idéia e afrouxará o torniquete. Deus permita que ele se mantenha firme e tenha êxito!

Nota

[1] Ver documento completo aqui: http://www.granma.cu/cuba/2017-06-16/declaracion-del-gobierno-revolucionario-16-06-2017-19-06-41
Graça Salgueiro, escritora e jornalista, é autora do livro ‘O Foro de São Paulo – A Mais Perigosa Organização Revolucionária da América Latina‘, e apresenta o programa Observatório Latino, na Rádio Vox.

(Foto: Lynne Sladky, AP.) O presidente Donald Trump exibe a ordem executiva assinada em 16 de junho de 2017 que modifica a política dos Estados Unidos à Cuba, ladeado por cubano-americanos e cubanos da “velha guarda” exilados há décadas em seu país.

 

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  • Fernando Gabeira
  • 02 Julho 2017

(Publicado originalmente em gabeira.com.br)

O naufrágio é a perda do horizonte. Estamos todos em busca do horizonte. O período que se abre com a denúncia contra Temer tende a ser bastante confuso. Mas é, de certa forma, um passo previsível na trajetória da crise em que nos metemos.

Procuro alguns elementos na conjuntura que nos possam ajudar a navegar na neblina. Os barcos dispõem de sensores precisos. Não temos instrumentos científicos, apenas algumas intuições. Nossa neblina é mais densa que a simples condensação de água evaporada.

No entanto, algo se move e duas pequenas luzes parecem tremular ao longe. Uma delas tranquiliza: a corrupção não acabou, mas dificilmente terá, nos próximos meses, a mesma intensidade e ousadia do passado. O risco ficou maior: políticos e empresários não ignoram esse fator. A outra pequena luz é apenas uma referência. Ela indica que todas as saídas de curto prazo passam pelo Congresso. Aceitar ou não a denúncia contra Temer, eleger seu substituto ou mesmo alterar a Constituição, tudo passará por ali.

À medida que nos aproximamos do ano eleitoral, cresce o poder da sociedade sobre o Congresso. Pelo menos tem sido assim: com voto aberto formam-se maiorias que o segredo sufoca.

É verdade que esse Congresso abriu um imenso abismo entre ele e a sociedade. Mesmo assim, o instinto de sobrevivência costuma reaparecer nessa época. Não creio que a sociedade vá moldar o caminho em todos os seus detalhes, mas tem condições de escolher as linhas gerais, na medida em que as escolhas sejam postas.

Será difícil a cada instante debruçar-se sobre uma realidade deprimente, vencer a repulsa diante de um jogo político tão baixo. Mas é preciso.

De modo geral, o interesse pela política cresce nas vésperas das eleições.

A denúncia contra Temer encontra nele a mesma resistência que encontram as denúncias contra Lula. Não há provas concretas, dizem ambos, antes de atacar os acusadores, ressaltando que são perseguidos políticos.

Ela pode ser rejeitada ou não pela Câmara dos Deputados. Uma vez que o presidente duvida das provas, questiona sua concretude e conclui pela inépcia da denúncia, o ideal seria levar o tema ao STF.

Naturalmente, qualquer pessoa tem ideia do que é uma prova. Mas ultimamente essa palavra tem sido tão questionada que, ao contrário de outros povos, os brasileiros terão um grau superior de conhecimento sobre prova. Num futuro próximo talvez todos nós tenhamos uma ideia de prova, assim como temos uma escalação ideal para a seleção brasileira.

Para alguns, não há provas de que a mala com R$ 500 mil levada pelo deputado Rocha Loures tenha relação com Temer. Há apenas uma conversa entre o presidente e Joesley Batista, na qual Temer indica Loures como seu interlocutor de confiança.

Não há imagens de Rocha Loures entregando o dinheiro a Temer. Não há certidões oficiais que liguem Lula aos imóveis que a Justiça lhe atribui.

Os defensores mais ardorosos sempre poderão perguntar: onde está a imagem de Temer no táxi, recebendo a mala com que Rocha Loures saiu correndo da pizzaria? Onde está o registro de posse de Lula?

Uma das razões por que a denúncia contra Temer deveria ser aceita pela Câmara é a possibilidade de o tema ser discutido pelo Supremo, onde cada um dos juízes pelo menos já discutiu centenas de vezes o que é uma prova e os limites de sua validade. Mas mesmo no caso de a questão subir para uma decisão do STF, a sociedade está sempre sujeita, como no caso do TSE, a um conflito típico da fábula O Lobo e o Cordeiro.

A suposição é de que gastarão horas e latim para definir o que é um prova, qual a superioridade de uma prova sobre outra, antes de apresentarem o seu veredicto. Ao cabo dessa discussão podem concluir que existem provas e que são abundantes, mas devem ser ignoradas, em nome da estabilidade do País.

Creio que a sociedade esteja acompanhando tudo isso. E o fato de não se ter manifestado com ênfase se deva à própria confusão do quadro político.

O que seria eficaz nessas circunstâncias? O movimento “fora Temer”, inspirado pela esquerda, tem uma visão clara de combater as reformas. Até mesmo a reforma trabalhista, que contempla as transformações do capitalismo e uma nova correlação de forças.

Os trabalhadores reais que se viram num mundo precário não contam tanto como os sindicalizados, os que trabalham com relógio de ponto, numa disciplina fabril. Trabalhadores, para a esquerda clássica, são os que alimentam os cofres dos sindicatos com os impostos e povoam a ideia de uma classe operária dos livros marxistas do século 20.

À precarização do trabalho a esquerda responde com uma aspiração saudosista de voltarmos todos à segurança do passado, algo desejável, mas distante da vida real de quem se vira para sobreviver num mercado em mutação. Essa reforma seria importante no momento.

A da Previdência é necessária, no entanto, mais complicada. Precisaria de ter um foco no serviço público, que tem grande peso nos gastos e na cobrança da dívida das grandes empresas.

Isso só se consegue com apoio popular. As corporações têm muita capacidade de mobilização e as grandes empresas, poderosos defensores. Daí a expectativa de uma reforma da Previdência a partir da legitimidade do novo governo.

Apesar de toda a confusão, a sociedade não pode observar o que se passa como se tivesse um satélite explorando Jupiter. A crise é real, sobretudo para quem vive no Rio, onde há uma dezena de tiroteios por dia e um roubo de carga por hora.

Não se trata apenas do fracasso de um sistema político-partidário. Sem interferência da sociedade ele acabará arruinando o País por décadas.

O que fazer nessa confusão, o que escolher como prioridade para evitar o pior? Já observamos muito o caos. Talvez seja hora de atenuá-lo.

* Jornalista
 

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  • Lucas Berlanza
  • 01 Julho 2017

 

(Publicado originalmente em http://www.sentinelalacerdista.com.br)


A barulhenta capa da Revista Época esta semana revelou um claro interesse em aproveitar a entrevista de Joesley Batista para reforçar a narrativa de que o presidente da República, Michel Temer, é o grande vilão do Brasil – alguém que, à época do mensalão e do começo do grande esquema de assalto à Petrobrás revelado pela Lava Jato, sequer era vice-presidente.

Realmente, uma narrativa esdrúxula. Nada é mais criminoso nessa história toda que o lulopetismo – uma excrescência populista e autoritária que alinhou o Brasil a toda a escória internacional e nos pôs a braços com a recessão e a decadência. Não foi Temer quem financiou as ditaduras latino-americanas. Não foi Temer quem defendeu o tempo inteiro a censura desavergonhada da imprensa sob o pretexto da “democratização da mídia”. Não foi Temer quem insuflou o “exército de Stédile”. Não foi o PMDB o partido de Celso Daniel.
Perdendo a narrativa dos anos 80 de ser o partido da ética, o PT de Lula se agarra à retórica da “justiça social”, exibindo-se como o partido que representa o “povo”, mesmo que, detalhe insignificante, seja corrupto como os outros – e na verdade muito mais, pois além de empresas estatais e máquina pública, corrompeu a alma do país, e também intentou promover o máximo retrocesso de nossas aspirações republicanas.

Nada disso torna Temer inocente. Disse e repito: continuo na dúvida quanto às suas condições porvindouras de governabilidade, as reformas tendem a ser aprovadas com muita timidez e o que pesa contra ele é, sim, muito grave, independentemente de motivações partidárias de Rodrigo Janot na seleção ou tratamento de seus alvos. Não pretendo admitir um nível de tolerância “tupiniquim”; quero uma civilização digna onde imoralidades e inadequações sejam tratadas pelo nome, à revelia de circunstâncias. Não voltei atrás nisso, nem voltarei.

Contudo, Temer é uma face menos daninha de um sistema muito mais profissional e amplo do que ele próprio: aquele a que o colunista da Revista Amálgama Elton Flaubert já chamava de “consenso social democrata”: a ortodoxia política, cultural e institucional da Nova República pós-1988. O que vemos a essa altura é que o consenso se articula para atacar de novo, com a única intenção de preservar o Brasil em seu círculo, preso às suas rédeas, proibido de respirar outros ares.

É assim que já pululam manchetes nos jornais de que o ícone tucano Fernando Henrique Cardoso estaria admitindo aliança com o PT de Lula para pedir as famigeradas “eleições diretas” para agora. As investidas estariam sendo bem recebidas. Não seria a primeira vez; a briga entre PT e PSDB há muito é uma briga de comadres, um grande engodo em que ambos se enfrentam para se legitimarem mutuamente e deslegitimarem o que houver para além. Uniram-se contra Collor nas eleições de 89. As diferenças, como a oposição petista à Constituinte e ao Plano Real, se apagam quando se trata de defender essa espécie de “ethos fabricado” que lhes interessa.

O texto de FHC no jornal O Globo flerta perigosamente com o golpismo oportunista, o que não vinha sendo de seu feitio. Embora casuístico e forçado pelos interesses imediatos, o que é próprio de populismos bolivarianos e não de democracias liberais maduras, o pedido de uma emenda constitucional para eleições diretas não é considerado, por óbvio, inconstitucional. Porém, FHC não se limita a considerar a ideia interessante, o que já seria estar de acordo com o petismo – em um apelo por uma modificação em cima do laço, pouco viável politicamente, que demandaria um gasto imprevisto em meio a um clima de terra arrasada e turbulência, e em que mais adequado seria dar algum respiro à economia.

Mais que isso. O tucano diz que seria um gesto de grandeza de Temer pedir eleições gerais, pois se não houver “aceitação generalizada” da “validade” da lei, “as ruas pedirão a ruptura da regra vigente exigindo antecipação do voto” (!). As ruas, no caso, certamente os “movimentos sociais” aparelhados pelo petismo, que são os que bradam aos quatro ventos por essa solução imediata. FHC, naturalmente, sabe que o presidente da República não tem o poder de convocar eleição alguma. Quer, no entanto, que como chefe de Estado e Governo, ele reivindique o descumprimento da regra constitucional, fazendo o que deseja o PT. Ora, se desmoralizado ele já está, quanto mais para uma manobra dessa envergadura!

O texto de Fernando Henrique nos parece irresponsável. Do ponto de vista do poderoso “consenso”, esse mesmo que ainda nos cabe romper, talvez não seja. Não faz muito tempo, o próprio Temer sinalizou que poderia conversar com Lula “em prol do país”, não é mesmo? O “consenso” é agradável, até o momento em que ele te engole.

 

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