• Pe. Benedict Kiely
  • 19 Abril 2019

 

Muito já se escreveu, horas após o fogo que devastou a Catedral de Notre-Dame de Paris, a respeito do "caráter emblemático" do edifício, do seu valor como patrimônio da humanidade e do fato, notado pelo Papa Francisco, de que o edifício constitui "um tesouro arquitetônico de memória coletiva". Foi necessário, no entanto, que o arcebispo de Paris, Michel Aupetit, um ex-médico — discreto, mas profundo —, viesse responder (com uma pergunta retórica) o porquê de o edifício ser um "tesouro".

Entrevistado pela TV francesa, Dom Aupetit disse simplesmente que a magnífica basílica foi construída por uma razão, e não era ser um "tesouro", nem mesmo abrigar a Coroa de Espinhos de Nosso Senhor; Notre-Dame existe para un morceau de pain, isto é, para "um pedaço de pão" — o pão que, ele explicou, os católicos acreditam ser o Corpo de Cristo.

Todas as igrejas católicas — desde a magnificência de uma Notre-Dame em Paris ou de uma Basílica de São Pedro em Roma, até uma igrejinha do interior ou uma cabana de barro em terra de missão —, estando nelas presente a Eucaristia, foram construídas para ser domus Dei, a "casa de Deus". Para um católico, a ausência real que sentimos na Sexta-feira Santa, quando o sacrário fica vazio e a sua luz se apaga, é uma confirmação palpável de que, em certo sentido, uma igreja onde não está presente o morceau de pain não passa de uma "igreja zumbi", aparentemente viva, mas na verdade morta.

Com razão o mundo, especialmente aquelas partes que se consideram civilizadas, horrorizou-se ao ver o Estado Islâmico destruindo antigos artefatos da civilização mesopotâmica e tentando destruir a cidade de Palmira, na Síria. Notre-Dame de Paris é um patrimônio da humanidade, uma obra de arte cuja beleza é apreciada por pessoas de todos os credos, e até pelas que não possuem credo nenhum. O edifício fala, entretanto, não apenas da massiva contribuição que a cultura cristã ofereceu para criar a civilização ocidental (contribuição ignorada pela Constituição da União Europeia), mas também da fé viva sem a qual a basílica seria apenas um museu.

A basílica de Nossa Senhora em Paris leva esse nome não para "honrar o edifício como se ele fosse uma mãe" (como disse um repórter na internet, ilustrando a crescente ignorância religiosa da mídia), mas porque foi dedicado à Mãe de Deus, o primeiro tabernáculo vivo da Palavra feito carne. Esse "ícone" aponta para algo maior do que o homem; sua verticalidade e visibilidade são sinais do transcendente; o que nele sobressai é a verdade da fé a partir da qual tantos trabalharam por mais de um século para construí-la.

Quando os monstros que tocaram o terror da Revolução Francesa profanaram a basílica, dando-lhe o nome de templo do "Culto da Razão", destruindo imagens de Nossa Senhora e substituindo-a pela "deusa da liberdade", em certo sentido a basílica deixou de existir. Mas, assim como, em países que saíram do comunismo, igrejas que haviam sido usadas como salões de esportes ou cinemas voltaram ao seu uso sagrado, também Notre-Dame retornou à sua antiga glória com os sacramentos sendo celebrados novamente em seu interior.

O Estado francês é proprietário de Notre-Dame de Paris, mas, de acordo com a lei de 1905, a Igreja Católica detém os "direitos exclusivos de usá-la para propósitos religiosos perpetuamente". O presidente Macron teria dito que a basílica será reconstruída "de uma maneira consistente com nossa nação moderna e cheia de diversidade". O que se espera é que, por "diversidade", ele queira se referir simplesmente à ampla variedade de artistas e habilidades que se unirão para restaurar o edifício ao longo dos anos.

Falando aos bispos franceses durante sua visita ad limina apostolorum em 1997, o Papa João Paulo II parabenizou o Estado francês pelo seu cuidado com tantas catedrais e igrejas católicas, mas — ele lembrou na ocasião — a liturgia "deve ser sempre a verdadeira raison d'etre (razão de ser) desses monumentos".

Notre-Dame, esta "casa do pão" — o morceau de pain que é o Corpo de Cristo — será reconstruída, e a basílica será igreja viva. Não deixará de ser um "tesouro arquitetônico de memória coletiva", mas não será nunca um museu.
 

* Tradução da equipe Christo Nihil Praeponere, publicada originalmente em https://padrepauloricardo.org/blog/igreja-nao-museu

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  • Renato Santana
  • 17 Abril 2019

 

A “banalização da vida”, na expressão de Hannah Arendt, é um fato. Mas, mesmo assim, ainda não perdemos por completo a capacidade de indignação nem a de ficar sobressaltados com a hediondez daqueles para quem a vida não vale nada.

É abril. Outono. Paralelo 30. A natureza oferta a mais encantadora paleta de cores. Todavia, mal se descortina o dia outonal e tudo se torna sombrio e turvo: a realidade nos joga na cara que, para alguns sub-humanos, a vida nada vale, o que os motiva ao papel de predador.

Na doce calma da pequena cidade de Estância Velha, a manhã banhada de sol foi tingida pelo sangue dos inocentes: criminosos assaltaram uma joalheria e abateram a tiro os proprietários, Leomar e Fernando, pai e filho. Mais um caso de latrocínio. Mais uma família destroçada.

Numa hora destas, é impossível não lembrar com indignação o que prega Marcia Tiburi:
“Sou a favor do assalto”, diz ela. E justifica: “Tem uma lógica no assalto. Eu não tenho uma coisa que eu preciso, fui contaminada pelo capitalismo… (…) Tem muitas coisas que são muito absurdas, que se você vai olhar a lógica interna do processo (…)”. E chega a uma conclusão: “Sabe que isso seria justo dentro de um contexto tão injusto?”

Será que essa senhora, credenciada como “cabeça pensante da esquerda brasileira”, chega a sensibilizar-se com a tragédia de quem perde dois familiares a um só tempo e pelo motivo mais injusto?

Sua declaração (disponível no Youtube) é feita em abstrato e, por assim ser, é adequado afirmar que ela considera legítima a monstruosidade que, neste momento, deixa a comunidade de Estância Velha tomada pela mais dorida consternação.

Mas, apesar do óbvio, a sedizente filósofa jamais foi incomodada por exaltar a violência e fazer a apologia do crime.

E para onde rumamos, enquanto essa mentalidade era hegemônica? Alguém ignora que, nos últimos anos, a leniência com bandidos e outros preconceitos idiotas embasaram políticas criminais?

É certo que a segurança pública do Rio Grande do Sul teve um salto de qualidade no governo Sartori, sob a gestão do secretário de segurança Cezar Schirmer. E mostra sinais positivos com Ranolfo Vieira Júnior, o novo secretário. E daí? Ainda está muito, muito longe de ofertar à população a tranquilidade legitimamente querida por todos – menos pela sub-humanidade, claro.

Ao pensar nas verdadeiras vítimas de Estância Velha – excluídas, desde logo, do catálogo de vítimas de Marcia Tiburi e da esquerda que ela representa – é forçoso e muito triste lembrar que o secretário de segurança, por mais competente que seja, não tem poderes para devolver a vida que energúmenos ceifaram pelos motivos mais torpes.

Que a verdade não seja silenciada! E que não se omitam os que acreditam no bem! Mas, sempre, sempre métodos pacíficos! Lembrando Viktor Frankl: “As coisas vão mal, mas se não fizermos o melhor que pudermos para fazê-las progredir, tudo será pior ainda.”


*Renato Sant’Anna é psicólogo e advogado. Trabalha com vítimas de violência.
**E-mail do autor: renatos21@uol.com.br

 

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  • Gustavo Corção
  • 17 Abril 2019

 

No torvelinho das horas e dos dias convém considerarmos, vez por outra, os marcos imóveis, os sinais da eternidade. Vale a pena parar a carreira dos sucessos, e com voz de poesia perguntar às árvores espantadas, às pedras retraídas, às casas que ficam atrás dos portões de ferrugem e das janelas estremunhadas, se porventura entendem a avidez que nos impele, que nos compele a perseguir um bem que logo perde o sabor quando alcançado; se entendem essa fome que se muda em fastio ou náusea à medida que morre o momento que passa, continuando insaciável para os sonhos de fumaça impossível.

A árvore permanece, posto que aos ventos ofereça uma mobilidade dançante e cantante; a pedra permanece; o velho portão, malgrado a ferrugem permanece. São essências tranqüilas e bem ritmadas. A seu modo humilde imitam e refletem o Imutável. Sendo o que são, com simplicidade robusta, trazem marca daquele que é o que é. Nós, ao contrário da árvore e da pedra, vivemos a fugir do que somos. Nós que fomos feitos à imagem e semelhança de Deus, fugimos de Deus e portanto de nós mesmos quando buscamos o absoluto no torvelinho das coisas. E assim, pelo sopro do espírito e pelo ímpeto de liberdade que nos faz mais próximos de Deus, tornamo-nos mais distantes e assim vivemos a correr, a fugir do que temos, a buscar o que nunca teremos, e a assistir à decomposição do que tivemos. Marta, Marta, de muitas coisas te ocupas, mas uma só é necessária...

Vale, pois, a pena, parar o frenesi e considerar os marcos de eternidade que a Igreja nos oferece nos tempos da Paixão. Amanhã ou depois os cuidados voltarão; hoje, detenhamo-nos diante da pedra de Pedro, da casa de Deus, a árvore do Crucificado. Amanhã ou depois voltaremos às nossas agitações, à perplexidade da política nacional e internacional, às notícias da cidade e do mundo, a tudo isso que será vaidade das vaidades e perseguição dos ventos, se não soubermos trazer para esses problemas dispersos o critério fundamental que os transfigura em caminhos de Deus.

Hoje estamos no limiar da Semana Santa, preparando nosso olhos para o quadro da vitória do Cristo, que a Igreja nos oferece com sinais moldados nas coisas peregrinas, e que nos deixa entrever, no outro lado do espelho, o país maravilhoso da divina esperança. A obra de Cristo, espécie de usinagem operada sobre a dor e a morte, e por conseguinte sobre o que constitui o máximo espanto do mundo, abre-se agora num estuário de glória. Assistiremos, durante a semana, à representação do drama onde se vê passar um Deus apaixonado. O Homem das Dores, irreconhecível para os que o flagelaram e o esconderam atrás da derisão, e todavia o mesmo coração vulnerado do Cântico dos Cânticos.

O cabo da travessia desse mar vermelho, o círio pascal será para nossa vida um diapasão de luz. São Bento ensina que a vida do monge deveria ser uma Quaresma contínua. A nossa também. E essa Quaresma deveria ser paixão e a paixão deveria ser morte; e a morte deveria ser Páscoa. A travessia, a transmutação que Deus espera de nós é uma conversão que vá deixando o que menos somos em favor do que verdadeiramente somos por dom de natureza e pelos dons da graça. De claridade em claridade, se formos dóceis, iremos caminhando por atalhos de dores, para o país do amor perfeito que tem bandeira de fogo em mastro de cera.

Parece-vos ingênuo – ó leitores tristes - o quadro da Sião Gloriosa que a Igreja desdobra? Parece-vos estampa infantil a santa liturgia? Ou quem sabe se tudo isto não vos lembra apenas costumes obsoletos, cerimônia que os etnólogos explicam, ritos que os séculos científicos superaram? Por vós e por mim, receio que a simplicidade do quadro seja chocante, e não consiga atravessar a sebe de nossas complicações. Nós somos complicados; Deus é simples. Nós somos adultos e vividos; Deus é mais moço do que nós. Nós somos espertos, sinuosos, ardilosos; Deus escolheu para si as figuras do cordeiro e da pomba. Diz-nos a fé que ali, na outra margem do mar vermelho, onde brilha o círio da vitória, os enganos e tribulações terão desenlace de prodígio; que receberemos, em medidas de alqueire calcados, recalcados e transbordantes, o que não tivemos a audácia de pedir; que serão consertadas as contradições e nossos tristes amores; que a lágrima vira jóia; que a chaga vira for. Diz-nos a fé que naquele país de maravilhas do outro lado do espelho, teremos a paz.

Parece-vos ingênua – ó homens tristes – a linguagem da fé? Parece-vos insípida a comida da esperança? E quem pergunta poderá se gabar de melhor saber e de melhor servir? Não é a descrença que mais me espanta. A descrença, se me permitem os apologetas, tem certa lógica na sua retratação, no seu encolhimento, no seu propósito de não levar longe demais as investigações que podem terminar em incêndio. A descrença sob esse ponto de vista, é mais razoável, mais compreensível do que a crença imperfeita que se detém, que se encolhe, que se retrai, quando nela, na Fé, tudo pede expansão e conseqüência.

Talvez fosse melhor mudar de tom. A segurança da fé e a certeza da esperança seriam mais edificantes do que o título da perplexidade. Talvez fosse melhor, na festa da igreja, procurar pífaros e cítaras para contar o júbilo da alma Cristã no dia da Páscoa do Senhor, em vez de permitir ao velho coração um gemido de cansaço... Deus há de fazer que essa tristeza se converta em alegria e que a alguém aproveite o que a nós nos pesa. E privilégio seu; é ofício de seu Filho transformar a dor em salvação e a morte em vida.

*Reproduzido de http://permanencia.org.br
 

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  • Ministério Público Pró-Sociedade
  • 17 Abril 2019

Os integrantes da Associação MP Pró-Sociedade, irresignados com a determinação de restrição de divulgação de informações à imprensa brasileira e do bloqueio de redes sociais pelo Supremo Tribunal Federal, em razão de críticas a membro da citada Corte Constitucional, apresentam a presente Nota Pública.

Inicialmente, cumpre destacar que a Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) proclama em seu artigo 19: “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”.

Por sua vez, a Convenção Europeia para a Proteção dos Direitos Humanos e das Liberdades Fundamentais (1950) prescreve em seu artigo 10: “1 - Qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão. Este direito compreende a liberdade de opinião e a liberdade de receber ou de transmitir informações ou ideias sem que possa haver ingerência de quaisquer autoridade públicas e sem considerações de fronteiras O presente artigo não impede que os Estados submetem as empresas de radiodifusão de cinematografia ou de televisão a um regime de autorização prévia. 2 - O exercício destas liberdades, porquanto implica deveres e responsabilidades, pode ser submetido a certas formalidades, condições, restrições ou sanções, previstas pela lei, que constituam providências necessárias, em uma sociedade democrática, para a segurança nacional, a integridade territorial ou a segurança pública, a defesa da ordem e a prevenção do crime, a proteção da saúde ou da moral, a proteção da honra ou dos direitos de outrem, para impedir a divulgação de informações confidenciais, ou para garantir a autoridade e a imparcialidade do Poder Judicial.”

O Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966) também determina em seu artigo 19: “1- Ninguém poderá ser molestado por suas opiniões. 2 -Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse direito incluirá a liberdade de procurar, receber e difundir informações e ideias de qualquer natureza, independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro meio de sua escolha. 3 - O exercício de direito previsto no parágrafo 2 do presente artigo implicará deveres e responsabilidades especiais. Consequentemente, poderá estar sujeito a certas restrições, que devem, entretanto, ser expressamente previstas em lei e que se façam necessárias para: a) assegurar o respeito dos direitos e da reputação das demais pessoas; b) proteger a segurança nacional, a ordem, a saúde ou a moral pública”.

A Convenção Americana Sobre Direitos Humanos (“Pacto de San José de Costa Rica” — 1969), em seu artigo 13, declara: “1. Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento e de expressão. Esse direito compreende a liberdade de buscar, receber e difundir informações e ideias de toda natureza, sem consideração de fronteiras, verbalmente ou por escrito, ou em forma impressa ou artística, ou por qualquer outro processo de sua escolha. 2. O exercício do direito previsto no inciso precedente não pode estar sujeito a censura prévia, mas a responsabilidade ulteriores, que devem ser expressamente fixadas pela lei e ser necessárias para assegurar: a) o respeito aos diretos ou à reputação das demais pessoas; ou b) a proteção da segurança nacional, da ordem pública, ou da saúde ou da moral públicas. 3. Não se pode restringir o direito de expressão por vias ou meios indiretos, tais como o abuso de controles ou particulares de papel de imprensa, de frequências radioelétricas ou de equipamentos e aparelhos usados na difusão de informação, nem por quaisquer outros meios destinados a obstar a comunicação e a circulação de ideias e opiniões”.

A Constituição Brasileira de 1988 prevê no artigo 5°, incisos IV (liberdade de pensamento); IX (liberdade de expressão); IX (acesso à informação) e no artigo 220, parágrafo primeiro (liberdade de informação propriamente dita). Saliente-se ainda que o artigo 220, §2°, da Constituição Federal veda toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística, evitando, destarte, uma censura sem ataques aos direitos fundamentais. Por outro lado, a Constituição Federal resguardou aos Órgãos Competentes a análise da responsabilização cível (reparação de danos) e criminal (crimes de injúria, calúnia e difamação) em razão dos excessos praticados por cidadão ou pela imprensa brasileira (artigo 5º, incisos V e X), respeitando-se, para tanto, os princípios da legalidade e do devido processo legal.

A liberdade de imprensa emerge, de forma axiomática, como direito fundamental e instituição (“função pública”), “instituição moral e política” irrenunciável do Estado Democrático de Direito. Ademais, preleciona Jorge de Figueiredo DIAS que a liberdade de expressão e informação assume um duplo caráter em sede constitucional: o caráter de direito individual do cidadão, o qual se traduz tanto em direito de defesa como em direito de participação política e, também, o caráter de uma garantia institucional, no “preciso sentido de proteção jurídico-constitucional dispensada, em nome do interesse público, a uma instituição do direito político. (...) Sob esta última forma constitui a liberdade de expressão e informação o fundamento da opinião pública na sociedade democrática e surge institucionalmente ligada à liberdade de imprensa (...) e à proibição de censura.” Com efeito, a comunicação social desempenha um importante papel de coesão social, sendo certo que num Estado Democrático de Direito os cidadãos tomam decisões fundamentais à condução política do país, devendo-se, neste aspecto, estar totalmente informado para formar opiniões e críticas. Assim, é justamente a imprensa que traz as informações e atua como força propulsora de orientação e discussão política.

A liberdade de expressão constitui um dos fundamentos essenciais de uma sociedade democrática e compreende não somente as informações consideradas como inofensivas, indiferentes ou favoráveis, mas também aquelas que possam causar transtornos, resistência, inquietar pessoas, pois a Democracia somente existe a partir da consagração do pluralismo de ideias e pensamentos, da tolerância de opiniões e do espírito aberto ao diálogo.

Por sua vez, o Estado Constitucional moderno estrutura-se como Estado de direito democrático, cuja ordem de domínio é legitimada pelo povo. A par disso, reconhece-se a liberdade de informação como fundamento essencial da sociedade democrática e como garantia institucional (capacitação da opinião pública através da veracidade da informação; veículo de controle popular dos atos dos agentes políticos/públicos). Surge assim o dever de preponderância da liberdade de expressão quando as liberdades se exercitam em conexão com assuntos que são de interesse geral pelas matérias que se referem, pelas pessoas que intervêm e contribuem para a formação da opinião pública.

Ao poder público atribui-se competência para tutelar primordialmente o interesse público, ponderando o âmbito de atuação dos interesses particulares em face do público, e a consequente restrição dos direitos fundamentais, diante da impossibilidade concreta de eficácia absoluta e plena de todos. Essa escolha de valores constitui exatamente a ponderação ou sopesamento dos princípios fundamentais e interesses e bens jurídicos em conflito, tendo como referência o princípio da proporcionalidade à interpretação constitucional.

Assim, o princípio da prevalência do interesse público cria para os agentes políticos/públicos um dever de agir no atendimento ao interesse público em detrimento do privado, estabelecendo, destarte, hierarquia entre os princípios.

O conjunto de princípios constitucionais e o princípio republicano fundamentam a existência de um princípio de superioridade do interesse público sobre o privado e vinculam o agente político/público a um superior interesse geral da sociedade.

Ante um conflito entre as liberdades públicas, impõe-se a prevalência da liberdade de expressão com função (formação da opinião pública), já que neste contexto, aparece como direta emanação do princípio democrático. Deste modo, justifica-se a preponderância da liberdade de expressão sobre a honra e intimidade.

Por fim, vale destacar que foram aprovados, por unanimidade, no 1º Congresso Nacional do MP Pró-Sociedade, realizado em Brasília/DF, nos dias 29 e 30 de novembro de 2018, os seguintes enunciados:
Enunciado 16 – O Ministério Público deve reconhecer que as liberda des de informação, opinião e expressão nos meios de comunicação em geral, inclusive na internet, consubstanciam direito humano à comunicação, que não devem ser objeto de censura ilícita, a pretexto de combate, por exemplo, a “fake news” ou “notícias falsas”.
Enunciado 17 – O Ministério Público deve zelar pelo respeito dos poderes públicos e dos serviços de relevância às liberdades de infor mação, opinião e expressão, que consubstanciam direito humano à co municação.
Enunciado 18 – O Ministério Público deve combater toda forma de censura ilícita às liberdades de informação, opinião e expressão nos meios de comunicação social, inclusive na internet.
Ante o exposto, os integrantes da Associação MP Pró-Sociedade manifestam pelo repúdio à qualquer forma de restrição à liberdade de expressão e informação por caracterizar ofensa à Constituição Federal de 1988.


Associação MP Pró-Sociedade
 

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  • Géssica Hellmann
  • 16 Abril 2019

 

*Em Educação Clássica, Valorizando o conhecimento, por Géssica Hellmann

A palavra mais fortemente associada à ideia de Educação Clássica na atualidade é “trivium”, um termo latino que significa em Português “Três Vias”. A ideia do trivium foi concebida na Idade Média para englobar as três primeiras das assim chamadas Artes Liberais: a Gramática, a Lógica e a Retórica. A Educação Clássica (As Artes Liberais) tem por objetivo promover o amor pelo Bem, pelo Verdadeiro e pelo Belo. O “Trivium é a porta para o conhecimento, o verdadeiro manual de instruções da mente, são os alicerces para empreendermos a incursão nos vastos campos do saber e do conhecimento”.

Em 1947, Dorothy Sayers, em seu ensaio intitulado “As ferramentas perdidas da aprendizagem”, enfatizou os problemas da Educação moderna e seu efeitos culturais sobre o ocidente, resultando em crescente impotência intelectual. A autora defende a tese de que os modelos modernos de Educação conduziram ao abandono das ferramentas essenciais para pensar e aprender por conta própria, sugerindo que a solução era recuperar os princípios da Educação Clássica tal como eram aplicados na Idade Média sem, obviamente, deixar de lado todo o conhecimento acumulado pela Humanidade até os dias de hoje. Essa ideia é o nosso ponto de partida a para defendermos a tese de que o segundo benefício fundamental da Educação Clássica é que ela fornece aos estudantes as ferramentas que os habilitarão a tornar-se seus próprios professores ao longo de suas vidas.

Embora o trivium seja popularmente associado, inclusive por diversos autores influentes como Susan Wise Bauer, à periodização cronológica do ensino de crianças e jovens em “fases” – “fase Gramatical”, de 7 a 10 anos de idade; “fase Lógica”, de 11 a 14; e “fase Retórica”, de 15 a 17 – é fato que a ideia do Trivium é muito mais ampla, referindo-se a fases essenciais de todo processo de aprendizagem, pouco importando a idade em que o indivíduo o inicie, nem o quão avançado seja o conhecimento que deseja adquirir.

Ao ler a explicação que se segue, tenha em mente que as Artes do Trivium possuem uma amplitude muito maior do que esse “esquema de divisão em fases”. Para entender todos os aspectos que envolvem as Artes da Gramática, da Lógica e da Retórica recomendamos o estudo de algumas obras essenciais como: “Didascalicon” de Hugo de São Vitor, “Trivium” da Irmã Miriam Joseph, “The Latin-Centered Curriculum: A Home Schooler’s Guide to the Classical Curriculum” de Andrew A. Campbell e finalmente a “História da Educação na Idade Média” por Ruy Afonso da Costa Nunes.

Fase Gramatical – A memorização dos fatos

Seja qual for o assunto que você deseje aprender, o primeiro estágio será, sempre, a memorização dos fatos e conceitos fundamentais do campo de conhecimento. Uma criança que esteja se aventurando pela primeira vez no estudo da Matemática memorizará o nome, a forma e o traçado dos algarismos, as quantidades que eles representam, associando cada um daqueles nomes, formas e traçados à quantidade dedinhos de sua mão ou a grãozinhos de feijão postos sobre a mesa de estudos. Um jovem aprendiz de fotografia deverá memorizar pelo menos alguns fatos essenciais: os nomes das partes da câmera, o papel da abertura da objetiva e da velocidade de exposição, a noção de distância focal, os tipos de luz e os métodos de fotometria, os diferentes tipos de tema, as técnicas de enquadramento, entre muitos outros conhecimentos básicos sem os quais é impossível produzir uma foto de qualidade aceitável. Um estudante de Medicina adulto começará seus estudos memorizando milhares de nomes exóticos para cada uma das partes identificáveis da anatomia humana. Seja qual for o campo de estudos, do mais elementar ao mais avançado, o primeiro passo é, invariavelmente, a memorização de fatos.

Toda a propaganda difamatória do papel da memorização no ensino – entre nós brasileiros pejorativamente chamada de “decoreba” – não muda o fato de que saber é ter a informação disponível na memória no momento em que você precisa dela. No mínimo, mesmo que você, em certo momento, não tenha uma lembrança exata, você precisa ter disponível em sua memória a informação preliminar de que (1) a informação desejada existe e (2) que ela pode ser encontrada em tal ou qual livro, artigo científico, banco de dados, website ou outra fonte qualquer.

Se você não tiver nem mesmo essas duas informações preliminares, não poderá dizer que realmente aprendeu, que efetivamente sabe ou conhece alguma coisa. Ninguém pode se dizer um “profissional” de uma área de conhecimento se não reduzir ao mínimo a necessidade de consultas externas aos conceitos fundamentais de sua profissão pois esse título é reservado às pessoas que os têm disponíveis imediatamente em sua própria memória!

A crítica mais frequente à memorização ou decoreba pode ser sintetizada no seguinte: “Não adianta memorizar uma montanha de informação e não entender o que ela significa, e não saber o que fazer com ela”. Sim, de fato, essa crítica está correta. O problema é que a Educação Clássica não se esgota na memorização de fatos, mas entende-a como uma fase, uma etapa, um estágio do conhecimento. A memorização é apenas o primeiro degrau necessário ao entendimento. Ou será possível entender algo que não está disponível em sua memória? O segundo degrau do entendimento é o que chamamos de fase Lógica.

Fase Lógica – O relacionamento entre os fatos

Após memorizar os fatos essenciais sobre uma área de conhecimento, dá início ao estabelecimento de relações entre esses fatos. A criança que já aprendeu os números começa a relacioná-los logicamente, efetuando operações de adição e subtração para resolver os primeiros probleminhas, e descobre quantas balas restam num pote após distribuir algumas para seus irmãos. O jovem aprendiz de fotógrafo que já conhece as partes da câmera e os princípios fundamentais de fotografia faz experiências combinando essas informações e compara o resultado obtido com o que desejava inicialmente e entende o que precisa mudar para aproximar-se cada vez mais do resultado desejado. O estudante de Medicina que já memorizou os nomes de todas as partes da anatomia humana começa a aprofundar-se no modo como essas partes interagem para produzir todas as maravilhas – e os problemas – do funcionamento do corpo humano.

Ora, a Ciência do relacionamento entre informações chama-se Lógica. É recorrendo à Lógica que o estudante consegue perceber se uma afirmação sobre um fato é, ao menos provavelmente, verdadeira ou falsa. É a Lógica que possibilita ao estudante aceitar ou descartar uma afirmação, uma ideia, uma proposta. É também com recurso à Lógica que o estudante pode perceber e formular problemas práticos ou teóricos, bem como imaginar soluções para esses problemas e julgar se essa solução tem ou não alguma probabilidade de produzir o efeito desejado quando posta em prática.

A simples manifestação de “opiniões” sem fundamento em fatos memorizados e na análise Lógica do relacionamento entre esses fatos resulta na pseudoargumentação vazia e inútil que todos testemunhamos nas salas de aulas de escolas e faculdades no Brasil das últimas décadas. O resultado é um estudante inseguro quanto aos próprios conhecimentos que busca na atitude de arrogância palpiteira e no discurso ideológico “pronto para consumo” sob a forma de slogans de propaganda partidária um refúgio para a própria incapacidade de raciocínio. Sob essa casca de falso “empoderamento”, encontramos um indivíduo intelectualmente fragilizado por distorções impostas pelo sistema de ensino, facilmente manipulável por todo tipo de gente desonesta. Esse é exatamente o resultado oposto ao obtido pela Educação Clássica, dada a sua ênfase na memorização e no relacionamento Lógico dos fatos.

Conforme o estudante progride em sua capacidade de relacionar os fatos, ele se dirige cada vez mais rumo à elaboração de conexões cada vez mais complexas e originais, que resultam em ideias próprias que não são simples “palpites”, mas autênticas opiniões dignas de uma discussão pública em alto nível. Essas ideias originais exigem uma forma de expressão mais elevada, com forte ênfase na precisão do vocabulário, na lógica da argumentação e na beleza da apresentação para que sua mensagem seja valorizada por todos os que a receberem. Isso nos leva ao terceiro estágio do trivium, a fase Retórica.

Fase Retórica – A expressão magistral das ideias sobre os fatos

Chega um momento em que todo estudante, já tendo explorado logicamente todas as principais conexões entre os fatos, torna-se capaz de elaborá-los intelectualmente sob a forma do que se convencionou chamar, no ambiente universitário, de um “produto”. Por exemplo, aquela criança que estudava Matemática é capaz de criar cartazes em cartolina para uma feirinha de Matemática onde explicará as propriedades da adição ou o funcionamento de um ábaco. Aquele jovem aprendiz de fotografia poderá produzir seu primeiro “ensaio fotográfico” em que expressará seu olhar original sobre um tema à sua escolha. Aquele estudante de Medicina poderá redigir monografias, artigos científicos, teses de mestrado ou doutorado e apresentar os resultados de suas pesquisas em Congressos.

Mais do que uma capacidade, a expressão oral e escrita de ideias longamente elaboradas após anos de estudos é uma necessidade pessoal e um dever de todo cidadão. O ser humano é ávido por dizer o que pensa, por comunicar – isto é, tornar patrimônio comum – suas ideias, descobertas, invenções e criações. É essa avidez de comunicação que permite à Humanidade evoluir constantemente no seu conhecimento sobre o mundo, representando a mais importante herança que cada um de nós pode transmitir às futuras gerações.

A Retórica é a Ciência própria da comunicação humana. O estudante que atinge a fase Retórica aprenderá os meios de expressão mais elevados para que suas ideias provoquem impacto sobre o público e encontrem eco na comunidade científica ou profissional de que venha a participar. O objetivo é tornar-se apto a liderar intelectualmente o seu campo de atuação, seja ele qual for, exercendo influência ampla e duradoura sobre muitas gerações.

Ao domínio da arte da Retórica, o estudante estará pronto para dedicar-se a explorar e a expandir as fronteiras do conhecimento em seu campo de atuação, seja nas Artes, nas Ciências, na Filosofia ou na Religião, pois ele terá realizado aquele que deveria ser o objetivo final de toda Educação: a independência intelectual.

A Educação Clássica é o caminho para a Independência Intelectual

Se a palavra “trivium” significa “três vias”, é porque devemos entender esta primeira etapa da Educação como uma jornada rumo à independência intelectual. Em síntese, adquirir independência intelectual significa “aprender a aprender”, libertando-se da dependência de “cursos”, “métodos” e “instrutores” para adquirir os conhecimentos que se deseja. Uma vez que o cidadão tenha atravessado essas três estradas do conhecimento, ele poderá percorrê-las novamente quantas vezes quiser, com maior facilidade a cada vez, para dominar seja qual for o campo de conhecimento que deseje.

Sem dúvida, não estamos aqui advogando a ideia estapafúrdia de que os cursos seriam “desnecessários” ou “nocivos” à independência intelectual. Ao contrário, uma pessoa que tenha atingido o estágio superior da independência intelectual saberá definir com precisão quais conhecimentos lhe será conveniente adquirir por conta própria e quais outros deverá acessar com o auxílio da experiência e conhecimentos de um mentor, instrutor, professor ou treinador. Porém, mesmo nesses casos, ela não permanecerá ouvinte passiva de uma exposição oral, mas se esforçará para (1) relacionar seu conteúdo com os fatos de que tem notícia, (2) estabelecer conexões entre os fatos e as informações expostas pelo mestre e (3) elaborar pensamentos próprios e originais que expressará em linguagem dotada de brilho e competência argumentativa e persuasiva.

“Aprender a aprender” significa, portanto, assumir as rédeas da própria Educação, isto é, tornar-se capaz de conceber e executar com sucesso um plano de aprendizagem para si mesmo e para os seus filhos. A Educação Clássica, ao conduzi-lo por essa trajetória rumo à independência intelectual, deixando claro para o estudante, a cada passo, o significado do processo de aprendizagem, propicia essa independência e cumpre magistralmente, ao final de longos anos de estudo, o objetivo de transformar simples iniciantes em autênticos mestres capacitados a transmitir o que aprenderam às futuras gerações.

Índice de artigos desta série:
Os oito benefícios fundamentais da Educação Clássica
Benefícios da Educação Clássica (1) – Pertencimento
Benefícios da Educação Clássica (2) – Independência Intelectual
Benefícios da Educação Clássica (3) – Discernimento

* Publicado originalmente em http://www.gehspace.com/arte-cultura/author/gessica-hellmann/

 

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  • Nina Shea & Bob Fu, em Tradutores de Direita
  • 14 Abril 2019


Uma nova era de perseguição religiosa chegou, em pleno século XXI.

A Igreja de Sião, em Pequim, é a maior igreja no crescente underground protestante Chinês. Em setembro, tal igreja foi fechada pelo governo.

Qual seu crime? O pastor da igreja, Dr. Ezra Mingri Jin, graduado no Seminário Teológico Fuller, em Pasadena, Califónia, rejetou uma intolerável diretriz do Partido Comunista Chinês, para montar câmeras de reconhecimento facial no púlpito, apontadas para a congregação. Por sua recusa, o pestor, e praticamente todos os 1.500 membros da Igreja de Sião foram detidos, revistados e interrogados pela segurança pública – alguns mais de uma vez.

E o pior ainda está por vir. Os registros policiais deles agora serão usados no novo sistema Orwelliano de crédito social para dificultar seu acesso a serviços públicos, como trens, aviões, escolas, pensões e outros benefícios.

Os mais de 100 milhões de protestantes e católicos chineses estão se preparando para ter sua fé severamente testada em uma firme e dura repressão geral.

A repressão do governo contra as igrejas está sendo feita em nome da campanha de “sinicização” do Presidente Xi Jinping, com objetivo de fortalecer a cultura chinesa. Porém, o que cada vez mais parece é que ela busca remover a Bíblia e seus ensinamentos do cristianismo chinês.

Mais cedo neste ano o presidente Xi emitiu novas e fortes regulamentações para questões religiosas e incumbiu o oficialmente ateu Partido Comunista para reforçá-las. Tecnologia sofisticada, combinada com um policiamento de punho de ferro, agora estão sendo usados para suprimir as crescentes igrejas protestantes e Católica.

Estima-se que o surpreendente número de 100.000 ou mais cristãos foram presos este ano, em contraste com 3.700 em 2017, de acordo com a ChinaAid, uma organização de direitos humanos que promove a liberdade religiosa e o Estado de Direito na China. Maioria destes casos, como na Igreja de Sião, envolvidos em detenções de curto prazo.

Particularmente perseguidas são as chamadas igrejas “underground”, que não estão registradas no governo chinês, principalmente porque tais cristãos não querem o controle e a vigilância que vêm com o registro. Enquanto escrevemos este artigo, surgiram rumores de que algo em torno de 100 cristãos do movimento underground da Igreja Aliancista da Chuva Serôdia, em Chengdu, foram reunidos e detidos. Alguns acusam “estupros e abusos” por parte da polícia.

O pastor Ezra é parte do underground protestante, que um notável expert sobre a China, da Universidade de Purdue, estima que seja a fé de nada menos do que 30 milhões dos 93 a 115 milhões de protestantes no país. Ele e mais de 400 outros pastores protestantes underground, assinaram uma declaração corajosa, publicada pela ChinaAid. Nela, eles afirmam sua resolução de enfrentar esta perseguição que se desenrola, com uma resistência pacífica e fiel, dizendo em parte: “pois quando igrejas se recusam a obedecer leis más, isto não ocorre por qualquer agenda política, nem por ressentimento ou hostilidade; isto é consequência apenas das demandas do Evangelho e do amor pela sociedade chinesa”.

Apesar do acordo entre Pequim e o Vaticano acerca do apontamento de bispos, em setembro deste ano, aproximadamente doze sacerdotes católicos foram presos desde sua assinatura. Em novembro, o bispo Peter Shao Zhumin, de Wenzhou, foi submetido a duas semanas de doutrinação e interrogação estatal – foi sua quinta detentenção em dois anos.

Alguns cristãos chineses passam anos na prisão. O bispo católico James Su Zhimin, de Boading, ficou preso por 20 anos, depois de conduzir uma missa sem permissão do governo, e o governo se recusa fornecer quaisquer informações sobre ele.

Um residente americano está entre os prisioneiros religiosos da China, o pastor John Sanqiang Cao, da Carolina do Norte, foi sentenciado em março, a sete anos de cadeia por “organizar travessias ilegais da fronteira” depois de abrir escolas e entregar auxílios humanitários em Burma. Notícias informam que ele compartilha a cama com 12 prisioneiros e perdeu 22 quilos.

Menores agora são proibidos de entrar qualquer igreja, vendas on-line de Bíblias são bloqueadas, o catecismo católico é censurado, as igrejas alegam que suas cruzes e outros símbolos cristãos foram derrubados e em vezes, trocados por imagens de nada menos do que o próprio presidente Xi.

Desde fevereiro, milhares de igrejas foram forçadas a fechar. É particularmente aterrorizante saber que muitas das 10.000 igrejas protestantes que fecharam em uma província eram aprovadas pelo governo. Ainda, agora em setembro, a Igreja Católica do Sagrado Coração, em Henan, aprovada pelo governo, viu seu padre ser detido e excomungado pela Associação Católica Patriótica, que recebe dinheiro do Estado, pelo que indicam fontes, por organizar grupos de comunhão para a juventude e para os anciãos.

Como mostram estes exemplos, a repressão não é limitada às igrejas underground. Estes incidentes sinalizam que o presidente Xi quer reduzir todas as várias comunidades cristãs da China, ou mesmo eliminá-las.

Basta olharmos para o sofrimento dos Muçulmanos Uighur chineses – dos quais um milhão foram confinados em campos de doutrinação – para que tenhamos certeza que o presidente Xi está, sem piedade, lançando uma nova era de intensa perseguição religiosa.

A eloquente afirmação da declaração dos pastores deveria ser, ao mesmo tempo, um aviso e uma inspiração para nós: “As igrejas cristãs da China estão ansiosas e determinadas a trilhar o caminho da Cruz de Cristo, e estão mais do que dispostas a imitar passadas gerações de santos que sofreram e foram martirizados por sua fé”.

Enquanto cristãos ao redor do mundo celebram o nascimento de Jesus Cristo dois mil anos atrás, estes novos cristãos e todos os outros, perseguidos por sua fé na China, não podem ser esquecidos.

Deveríamos influenciar nossos líderes políticos e religiosos a falar sobre eles urgentemente, e tenazmente pressionar o presidente Xi para que respeite a liberdade religiosa.

[*] Nina Shea & Bob Fu. “China cracks down on Christians — a new era of religious persecution has arrived”. Fox News, 12 de Dezembro de 2018.
Tradução: Samuel Kultz
Revisão: Andrey Costa

 

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