Nenhuma outra doutrina foi tão oposta à filosofia de Aristóteles (322 a. C.) quanto a do pensador idealista alemão G. W. F. Hegel (1831). Sua metafísica constitui-se numa das filosofias mais pretensiosamente sistemáticas do espírito humano numa visão diametralmente contrária à compreensão do filósofo de Estagira. Isso, por muitas razões, mas, sobretudo, por uma nuclear: Aristóteles via o mundo como realidade orgânica, harmoniosa, regida por princípios de unidade e comunhão; Hegel, porém, via a mesma realidade como um sistema intrinsecamente antagônico, regido por princípios conflitantes.
Pode-se dizer que Hegel antecipou a teoria do big bang porque, segundo ele, no início de tudo só havia o ser puro, a tese. Mas (por que cargas d'água não sabemos), aquela pureza se quebrou formando uma realidade negativa de si mesma, a antítese. Daquele ser puro sobraram cacos (espelhos de impureza e negatividade) que, por sua vez, se juntaram novamente para formar uma nova tese, a síntese. Da síntese, porém, surgiu uma nova antítese e assim sucessivamente. Tal é a lei que rege o mundo e a inteira realidade. De quebradeira em quebradeira a realidade inteira progride e se qualifica. O apaziguamento desse movimento dialético dar-se-á pelo esgotamento das suas forças contrastantes. Por isso, no plano social, se a paz algum dia vier a acontecer, ela acontecerá na marra: cansaremos de tantas guerras inelutáveis e necessárias e cederemos, então, à opção por não brigarmos mais. A paz virá mais do cansaço do que dos acordos cívicos.
A filosofia hegeliana padece de um desleixo, um menosprezo, uma desconsideração consciente do respeito que se deve ter pelo princípio denominado por Aristóteles de 'não contraditório'. As considerações que fez acerca desse princípio são uma das coisas mais notáveis e geniais de seu realismo filosófico. Com efeito, segundo Aristóteles, sem o respeito a ele, não seria possível obtermos qualquer verdade científica, vivermos qualquer princípio ético, praticarmos qualquer diálogo coerente e produtivo, termos políticas sérias. Inscrito naturalmente em nossa inteligência, esse mesmo princípio, normatiza e orienta nossa busca pela verdade e nossa liberdade. Só o respeito e a obediência a ele poderão nos conduzir à imprescindível honestidade intelectual e à consequente vida moral. Tal princípio pede, de modo imperativo, que não sejamos, simultaneamente, afirmadores e negadores de nossas locuções e condutas: não nos é permitido, em nenhuma hipótese, dizermos coisas que, ao mesmo tempo, se desdigam e se neguem. Contraditoriedade não é contrariedade. A contrariedade não nega a oposição, a contraditoriedade sim. A parede de uma sala é contrária a outra, não sua negação. Uma parede que negasse a outra seria contraditória. Se alguém, em torno de um mesmo objeto, mesmo aspecto, mesma circunstância, ao mesmo tempo afirmasse e negasse alguma coisa, terminaria por não dizer nada, seria um louco. E a linguagem dos loucos é ilógica, sem sentido.
A loucura sob a ótica da lógica e da convivência humanas é duplamente insuportável. "De loucos e bêbados geralmente rimos, sob a condição de que sejam da família dos outros". Pois bem, Hegel, o maior filósofo idealista de todos os tempos foi o único que rompeu metafisicamente esse princípio tão caro a Aristóteles. Com efeito, para Hegel, a contradição não é uma opção intelectual trágica, não é uma proposição inimiga, mas é uma parceira da lógica e da vida, porque, segundo ele, ela é a própria lei que rege o dinamismo das coisas, o princípio que vivifica e eletriza o inteiro real. A realidade inteira, portanto, é expressão de uma dialética fantástica que move tudo e polariza tudo. A realidade inteira se parece a um átomo que se alimenta de forças internas contraditórias: noite e dia, feio e bonito, bom e mau, luz e trevas, escravidão e liberdade, justiça e injustiça, quadrado e redondo, norte e sul, grande e pequeno, sábio e ignorante, doçura e amargura, delicadeza e grosseria, guerra e paz, alegria e tristeza, ordem e caos, dor e prazer, etc. Devemos amar e acolher o contraditório como parte integrante e essencial do ser. A contradição, entende Hegel, não é inimiga do ser e da lógica, mas sua fiel escudeira. O ser é feito de contradições. Hegel transformou a contradição numa ilustre hóspede da reflexão intelectual, da natureza, da história. Acolheu-a no seio da reflexão, no lar da inteligência, no ninho do pensamento. Não devemos, pois, nos assustar nem nos envergonhar dela, mas podemos tratá-la como íntima parceira e colaboradora.
A contradição não é uma serpente venenosa, mas uma ilustre dama a ser respeitada e desposada. O que se vê, é que negando e menosprezando o princípio de não contradição somos levados à gandaia intelectual e moral. Deveras, a falta de vergonha começa no desprezo pelo princípio de não contradição. Um bom hegeliano, portanto, não se escandaliza nem se envergonha com as próprias e alheias contradições porque ele as assume como parte da verdade. Hegel fez da contradição uma hóspede subjetiva familiar, adocicou o amargo, temperou a vida moral e intelectual de irresponsabilidades, quebrou o que restava de limite ético no exercício da racionalidade: só por causa disso foi capaz de propor o megalomaníaco 'saber absoluto'. Pode-se dizer que Hegel, sob grande medida, se tornou o semeador das irresponsabilidades racionais e morais no mundo contemporâneo. Nele, dicção e contradição adquiriram pesos ontológicos equivalentes e o bem e o mal se converteram em princípios siameses. O assombroso problema do mal ficou resolvido numa só canetada já que a um só tempo ambos (o bem e o mal), receberam o mesmo valor. Se o bem e o mal se tornaram a mesma coisa ou lados de uma mesma coisa, então não há mais limites morais a ser observados. Hegel, talvez sem o saber, nos libertou dos sentimentos de vergonha e escandalocidade que muitos fatos e atos, antes, nos provocavam. Com Hegel desaparecem não só o pudor, a vergonha, o remorso, a culpa, mas também a admiração, o estupor, o assombro, o deslumbramento, a sensibilidade estética, o amor.
Como se conclui, a filosofia hegeliana é chave para se entender a filosofia e a cultura marxistas. Marx sugou visceralmente do espírito hegeliano para construir sua cosmovisão da política e da história. Lendo diversas vezes 'A Fenomenologia do Espírito' (obra mestra de Hegel), escavou dela os fundamentos de sua doutrina. Entendemos então que todo 'bom' marxista ama a contradição e o conflito, não liga para responsabilidades morais, exceto para as que lhe convém. Sem nenhum pudor, em tempos e lugares convenientes, às vezes aplaude o que critica, outras vezes critica o que aplaude. Democracia e ditadura, socialismo e liberalismo, fascismo e nazismo adquirem significados diversos dependendo de hora e lugar. Contradições desnudadas, escancaradamente à mostra. Elas já não os envergonha. São companhias. Marxistas adoram conflitos e contradições, apreciam a guerra, o antagonismo. Portanto, não é difícil ser marxista pela mesma razão que não é difícil ser hegeliano. É suficiente que acrescentemos à panela de nossa alma uma dose de hegelianismo, uma porção de revoltas, frustrações e ressentimentos pessoais para que tenhamos a sopa marxista. Para Aristóteles, no entanto, e sobretudo para Tomás de Aquino, o mais aristotélico dos pensadores, o fundamento de tudo o que existe não é o conflito, mas a comunhão. Se houver caos ele resulta da ordem e não o inverso. O mesmo vale para a história. Sim, há conflitos na história humana, mas não são eles que regem a historicidade. É a comunhão e o desejo dela que a alimenta. Para Hegel e Marx, ao invés, o conflito é a essência da história e a história uma expressão de conflitos.
Perguntava-se o historiador E. Colomer: se a lei da história, realmente, é o conflito, qual o sentido de almejarmos tempos de paz? Outra pergunta aos amantes do Manifesto do Partido Comunista: se o conflito é a lei que rege a história, então jamais atingiremos o comunismo (que seria o fim dele), e se, porventura, algum comunismo fosse possível, então não estaria errada a análise que fazemos da história? O conflito nos impede de chegarmos ao comunismo e o comunismo nos impede de atestarmos a história como conflitiva. Há algo totalmente ilógico na análise da história humana que o Manifesto estampa. Mas para os marxistas não importa a contradição. Não há vergonha nem pudor em estabelecer com ela vínculos esponsais e levar adiante esse falso casamento. Marx, visceralmente hegeliano, inexoravelmente terminou por ser 'marxista'. Águas hegelianas conduzem ao marxismo. Raro é hegeliano não ser marxista e impossível marxista não ser hegeliano. Hegelianos marxistas e marxistas hegelianos, de sorriso cínico, 'quebram' o respeito que se deve ter pelo princípio de não contradição e não sentem vergonha nem remorso de fazê-lo. Esse 'hegelianismo', porém, respingou também no passado, já germinava no farisaísmo judaico, na hipocrisia passada e presente, antes mesmo de Hegel nascer.
Sua ilustração se mostra em muitos exemplares: a) Robespierre, mero e inexpressivo advogado interiorano, defendia radicalmente a iniquidade da pena de morte até conquistar um naco de poder, mas, depois, sem escrúpulos, mudou totalmente de posição; b) Henrik Ipsen, escritor norueguês, representante da faísca emancipadora e libertadora de todas as mulheres oprimidas do seu tempo, tratava, porém, sua esposa como um lixo (comportamento parecido a M. Gandhi); c) Frida Calo, artista contemporânea, encarnação da consciência do direito e empoderamento femininos, sem remorsos recebia e dava abraços e beijos a um dos maiores assassinos revolucionários do século XX, predador de inocentes e mulheres; d) Michel Foucault, ícone contemporâneo defensor dos homossexuais injustiçados, por detrás das fotografias e cortinas cultivava amizade ignominiosa com xiitas iranianos que fuzilavam e matam gays; e) Karl Marx, bípede pensante e porta voz da classe proletária da qual nunca pertenceu, o grito dos oprimidos e desiguais, desprezava negros e eslavos e jamais trouxe à sua mesa o filho bastardo gerado com a doméstica; f) Jean J. Rousseau, filósofo da Rev. Francesa. arauto da ética e da educação libertadoras audaciosamente deixou seus filhos em orfanatos; g) Fidel Castro, inimigo de toda propriedade privada, segundo um seu guarda costas, tinha iates, ilha e casas só para si; h) Os Myrdall, ministros da economia e da educação, respectivamente, pediam aos suecos para que colocassem os filhos em escolas públicas enquanto os seus iam às privadas; i) No Vietnã, durante os dez anos de conflito (1965 – 1975), 250 mil pessoas perderam a vida, mas um mundo de vozes, em nome da paz, se levantou contra ele e os americanos alçaram voo. Quando isso ocorreu, o massacre superou dois milhões de pessoas, mas isso não importava, era só para protestar. Com a consciência tranquila, sem remorsos, retornou-se ao divã. Os massacres advindos da ausência dos americanos naquele conflito não eram relevantes. Indignação pelo pouco, frieza pelo muito.
Com o desrespeito ao princípio de não contradição aprendemos a esfriar a alma, a tolerar o intolerável, a equiparar a mentira à verdade, a aceitar o inaceitável. Não importa. Podemos agora beber nosso drink confortavelmente tendo a consciência entorpecida, mas tranquila. Aprendermos com o sr. senhor Hegel (ainda amado e estudado por muitos) a não mais sentirmos vergonha das nossas contradições. Elas já não nos escandalizam e já não mais são captadas nas radiografias que fazemos de nossa vida política e intelectual. Tínhamos assinado um contrato com o princípio de não contradição. Hegel nos ensinou a rasgá-lo.
*O autor é professor de Filosofia na UFN em Santa Maria/RS
Santa Maria, 20/05/2020
Tenho 56 anos, o oitavo filho de uma família de 10, e desde as primeiras memórias da infância, no pequeno sítio da família em Cafelândia, Paraná, a espingarda sempre fez parte dos instrumentos que meu pai manuseava. Inclusive em algumas oportunidades fiz uso dela atirando em pombas ou objetos como alvo.
Entrando na vida adulta, completando estudos longe daquela casa, trabalho, casamento, filhos, muito mais trabalho, nunca mais dei importância, de forma consciente, para a espingarda muito menos para a questão das armas.
Mais ou menos a partir de 2012, já com 48 anos, com o início da divulgação do livro Professor não é Educador, com muitas ações em vários níveis e organizações afrontando cidadãos, a propriedade privada e a família natural, com a internet e suas redes sociais, a consciência de quem eu era como cidadão, na comunidade e no país onde vivo, começou a clarear de uma forma como nunca tinha ocorrido.
E nessa tomada de consciência me dei conta de que, sem saber quando teve início, ao pensar em armas, um medo, um sentimento de perigo tomava conta. Arma não devia fazer parte da minha vida; ao contrário, quanto mais longe, melhor.
Início de 2017 li o livro “Mentiram para mim sobre o Desarmamento”, do Flávio Quintela e Bene Barbosa, e foi como se um sol inteiro iluminasse minha mente para o que de fato tinha ocorrido, comigo e, imagino, com milhões de brasileiros.
A parte visível das ações desarmamentistas – leis, campanhas, etc, -- são fáceis de ver, de virar notícia na grande mídia, que em geral, apoia tais medidas; porém o que não se vê e não vira notícia é a destruição psicológica que ocorre após décadas de constante publicidade contra a posse de armas. O que é muito, mas muito mais grave pois ela destrói uma força interior, algum sentimento, algum valor que é absolutamente necessário para ser uma pessoa forte, para construir uma nação forte.
“Quando o erro não é combatido, termina sendo aceito; quando a verdade não é defendida, termina sendo oprimida” * Papa São Félix III.
Ao negar ao cidadão o direito de defender-se com uma arma, o Estado (através dos governantes) está dizendo automaticamente ao cidadão que ele é um fraco, um incapaz, de defender-se a si, sua família, sua propriedade. E se o sujeito é fraco, incapaz, é porque ele precisa que alguém cuide dele, que faça por ele aquilo que ele não é capaz, pois ele é um coitado. E quem é este “outro alguém”? O Estado, com seus aparatos de segurança.
A destruição chega a tal ponto que perdemos a consciência de algo que deveria ser sagrado: LIBERDADES. E se os cidadãos não estão dispostos a lutar por suas liberdades, resultado da proposital mutilação mental, o caminho para opressão estatal está aberto. Exemplos disso estamos vivenciando nesta crise do coronavírus. Perda da liberdade religiosa, inclusive com proibição de transmissão de missas e cultos pela internet. Perda da liberdade de ir e vir; liberdade de expressão; liberdade de trabalhar, de abrir empresas.
Políticas de segurança pública – que é função do Estado – não devem confundir-se com o sagrado direito à liberdade de defender-se. Porém ao desarmar o cidadão, o Estado está deixando claro aos criminosos: podem agir, o caminho está livre. E por que? Porque é impossível a força policial estatal estar em todos os lugares, em todos momentos, ao mesmo tempo, dando proteção às pessoas.
E diante desta verdade incontestável, por que ainda assim tantos agem para desarmar o cidadão? A resposta vem do livro do Flávio Quintela e Bene Barbosa: “todos os governos totalitários que já existiram na História da humanidade tiveram e tem um traço em comum: desarmar a população para poder então dominá-la(...) e o resultado foi sempre o mesmo: perda das liberdades e muitos mortos”**. Claríssimo está, que é falsa, mentirosa, TODA a publicidade, TODA a opinião, a favor do desarmamento civil, dizendo que é para proteger o cidadão, que é para reduzir a criminalidade, etc.
De outro lado, quando não vemos ações que impeçam o cidadão de possuir uma arma, claro pode ficar para ele: você é o primeiro e maior responsável por sua vida, por sua família, por sua propriedade. Você é responsável por seu sustento, por suas escolhas e consequências, por sua comunidade. Bem à semelhança de um pai que educa um filho com esses valores, não há porque imaginar que uma nação formada e mantida sob estes princípios, não será mais forte e desenvolvida.
Em vista dessas reflexões, chegamos a uma conclusão que não pode ser ignorada por quem deseja cidadãos livres e conscientes de suas responsabilidades, por quem deseja um país soberano e desenvolvido: qualquer liderança, política, intelectual, empresarial, religiosa, da burocracia estatal, etc, que defender o desarmamento civil, merece total repúdio, desprezo, pois está defendendo o fim de liberdades, e isto é extremamente grave e não pode ser tolerado.
“Ninguém deve confiar em alguém que lhe queira tirar os meios de defesa própria”**
* Revista Catolicismo, n. 833, maio de 2020.
** Mentiram para mim sobre o Desarmamento, Vide Editorial, 2015.
Os Founding Fathers amaram o próximo quando, primeiramente, amaram o "Juiz Supremo", amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam as próprias vidas.
4 de julho de 1776 é a data em que 13 colônias da América, chefiadas por homens dispostos a perder suas vidas, suas fortunas e sua sagrada honra, puseram fim à tirania de uma coroa corrupta e puderam dar um grito de liberdade e autonomia. A Independência dos Estados Unidos foi conquistada graças a esforços corajosos e viris, o que torna esse feriado americano algo emblemático não somente para os filhos do Tio Sam, mas também para todo o Ocidente — este cada vez mais calejado por causa da febre de pusilanimidade que invadiu a sua cultura.
É questionável se, nos dias de hoje, aqueles homens que assinaram a Declaração de Independência Americana — empenhando, para isso, seus bens mais preciosos — teriam a mesma coragem de lutar e sacrificar-se por um mesmo ideal. A completa ausência de personalidades viris na sociedade contemporânea é um fenômeno espantoso. A ojeriza contra virtudes como força e coragem impregnou-se tanto nos espíritos, que se tornou quase um pecado portar-se de maneira mais masculina. A própria opinião pública faz pressão sobre os jovens para que vivam mais o seu "lado feminino". E o resultado disso se reflete não somente no seu vestuário — cada vez mais fresco —, mas também — e mais gravemente — na sua maneira de lidar com conflitos e decisões sérias.
Vejam, por exemplo, o comportamento dos líderes políticos. Com raríssimas exceções, é praticamente impossível encontrar um que inspire segurança e paternidade. Ao contrário, a esmagadora maioria deles parece mais preocupada com a estética diante das câmeras, com o discurso ambíguo e a imagem de bom mocinho, do que com tomadas de decisões objetivas, ainda que estas venham a desagradar a algum grupo.
É claro que todo esse afrouxamento de caráter não se desenvolveu espontaneamente. Tratou-se de um grave equívoco filosófico e teológico, de cujos resultados muitos grupos sedentos por poder têm se aproveitado.
Em sua Análise sobre o homem, o psicólogo Erich Fromm explica que, no século XVIII, a filosofia de Immanuel Kant desenvolveu uma espécie de "consciência culpada". Esse filósofo alemão, piedoso e escrupuloso que era, retirou a moralidade da ordem do amor para colocá-la na ordem da justiça. E, nessa visão, toda ação humana deve ser absolutamente desinteressada; a moral torna-se um "imperativo categórico", ou seja, um dever social que está acima de qualquer direito: mesmo sob uma ditadura, nenhuma pessoa pode reivindicar algo para si. O que Kant conseguiu produzir, por conseguinte, foi "a mais glacial atmosfera ética jamais proposta ao homem" [2].
Notem: o que rege a coragem de um homem para defender sua vida e a de sua família é o amor e a ordem com que ele ama essas mesmas coisas. Mas Kant condenou o amor, chamando-o de interesseiro. Para ele, os homens devem defender suas famílias não porque as amam, mas porque é seu dever. O homem que defende sua família por amor é entendido pela filosofia kantiana como alguém egoísta. Enfim, Kant separou as virtudes da caridade e da fortaleza. E, como dizia Chesterton, as virtudes separadas umas das outras ficam loucas. Sem o motor do amor, na verdade, todas as demais virtudes, como a fortaleza e a justiça, perdem o seu elã e a covardia toma conta do espaço.
Em sua análise, Fromm adverte que essa condenação do amor em nome do puro dever foi assumida pela cultura ocidental, de modo que as pessoas facilmente deixaram de lutar para se submeterem a uma falsa autoridade superior:
"Não seja egoísta" é uma frase que foi usada para impressionar milhões de crianças, em gerações sucessivas. Seu significado é um tanto impreciso; a maioria das pessoas diria que não se deve ser egoísta, sem consideração ou preocupação com os outros. Na verdade, geralmente quer dizer mais do que isso. Não ser egoísta implica não se fazer o que se quer, desistir de suas próprias vontades em benefício dos que detêm autoridade. "Não seja egoísta", em última análise, tem a mesma ambiguidade que tem no calvinismo. Além de seu sentido óbvio, quer dizer "não ame a si mesmo", mas submeta-se a algo mais importante do que você, a um poder exterior ou à sua interiorização, o "dever". "Não seja egoísta" transforma-se em uma das mais poderosas ferramentas para suprimir a espontaneidade e o livre desenvolvimento da personalidade. Sob a pressão desse slogan, pede-se à gente todo sacrifício e submissão completa. [3]
Não há como ler essas linhas terríveis do psicólogo judeu sem pensar nos efeitos trágicos que essa propaganda demagoga teria causado àquelas 13 colônias americanas, caso seus homens tivessem sido contaminados por tal servilismo. Ao contrário, é porque eles nutriam um sadio amor de si mesmo que puderam defender seus compatriotas da opressão estrangeira. A cultura contemporânea, por outro lado, criou homens passivos e incapazes de qualquer reação viril, porque suas personalidades foram tomadas pelo "amolecimento", pela "docilidade sem virtude", pela "mansidão sem brio", pela "resignação sem mérito" [4]. Em poucas palavras: eles deixaram de ser homens.
A Independência dos Estados Unidos é, sem dúvida, uma lição de virilidade para o nosso tempo. Os Founding Fathers, sim, amaram verdadeiramente ao próximo quando, primeiramente, amaram o "Juiz Supremo" e a "Divina Providência", amaram suas famílias, a natureza humana e seus direitos inalienáveis, e por tudo isso empenharam suas vidas. A medida do amor ao próximo é, afinal, o amor de si mesmo: "Amarás o próximo como a ti mesmo" (Mc 12, 31). Os "pais fundadores" deste tolerante Ocidente, por sua vez, não amam nem o Juiz Supremo, nem suas famílias, nem a natureza humana e seus direitos inalienáveis. Exatamente por essa razão ele se encontra prostrado diante da ameaça terrorista e de tantos outros projetos megalomaníacos de poder global.
"Sê enérgico. — Sê viril. — Sê homem. — E depois... sê anjo" [5]. Talvez nunca esse conselho de São Josemaria Escrivá tenha valido tanto como nos dias de hoje.
Em 05/07/2017
**Publicado originalmente em https://padrepauloricardo.org/blog/uma-licao-de-masculinidade-para-o-nosso-tempo
Nosso aparato humano cognitivo e psicológico herdado adora um modelo de comando e controle, típico da mente tribal. Nossa mente tem a semente dos caçadores-coletores que obedeciam a certos rituais e a determinados comandos.
Tal qual uma tribo indígena, o cacique é quem executa o papel de chefe tribal, organizando a vida em comunidade. Há também a liderança do pagé, o grande sacerdote, aquele que recebe ordens divinas e é o especialista nos "divinos e explicativos" rituais tribais.
Graças a Deus evoluímos! Foi justamente em razão da expansão e da dispersão quantitativa, e pela diversidade e diferenças nas necessidades e nos objetivos de vida individuais - para além do bem-estar dos próximos pelas relações de parentesco - que surgiu a necessidade do Estado, a fim de "normatizar" a vida social, especialmente pela imposição da lei e da ordem.
Bem, assim é de certa forma contraintuitivo que nossas mentes pré-históricas, com base no piloto automotivo, instintivamente, pensem na imperiosidade do Estado (que obviamente existe!) como um órgão centralizador de comando e controle geral.
O "bom Estado" é aquele limitado, que deveria ter como interesse maior colocar o indivíduo acima do coletivo, preservando às liberdades individuais, a igualdade da lei perante todos, e deixando com que as pessoas, por meio de transações interconectadas, voluntárias, e mutualmente benéficas, possam colaborar e competir nos mercados livres.
Em tempos de pandemia da Covid-19, o "natural" poder coercitivo do Estado, absurdamente, vem extrapolando seus poderes sobre nós, os comuns, espraiando-se para nefastas formas de comando e controle autoritários!
Confesso que no princípio da crise viral, seguindo as recomendações científicas da OMS (risos!), fui meio avesso a usar uma máscara, afinal a própria "ciência" afirmava ser contra sua utilização!
Passados dois meses da crise pandêmica, virei fã do zorro! Por que? Porque genuinamente é muito melhor usá-la, e poder sair da "prisão" imaginária dos adeptos do "fiquem em casa", tentando exercer minhas liberdades de ir e vir e fazendo minhas próprias escolhas, inclusive decidindo quem vai ou não entrar em minha casa.
Na verdade, incrivelmente, não existe nada de científico e conclusivo sobre aquilo que de fato deve ser realizado para que se obtenha resultados positivos (comprovados) quanto ao enfrentamento do vírus. O isolamento social drástico e as quarentenas são inconclusivas, questionados mesmo por membros da própria comunidade médica!
Acho mesmo que a máscara pode evitar um maior e eventual contágio entre as pessoas; o contagio é maior do que a letalidade do vírus; é melhor remediar e poder sair da "prisão"...
Entretanto, o que eu realizo, é que burocratas estatais, governadores e prefeitos, têm brigado intensamente por interesses políticos e por egos na luta por prestígio e pelo poder. Desse modo, não tenho dúvidas de que o estabelecimento de decretos e de regramentos estatais esdrúxulos e amplamente autoritários retiram nossas liberdades constitucionais e, de forma aleatória, decretam sobre setores "essenciais" versus não essenciais, além de ignorarem desuniformidades quanto a regiões e a locais diferentes, colocados no mesmo saco padrão do isolamento social, etc.. Tais regramentos parecem-me totalmente arbitrários.
Não acredito na capacidade superior e na moral excelsa de governadores e de prefeitos, sem o conhecimento de como funciona verdadeiramente uma economia, em definir e imaginar que possam melhor projetar a vida em um estado pandêmico. Eles deveriam estudar, pelo menos, um pouquinho da teoria da agência e dos custos de transação...
Fui ao supermercado. Uma multidão e aglomeração infernais. Por que pode haver aglomeração nesse tipo de local, e determinadas lojas e mesmo shoppings, com controle e com regras adequadas e higiênicas, não podem trabalhar?! Quais foram as informações, os dados e os fatos científicos que fizeram com que esses deuses definissem o que é e o que não é essencial e, portanto, não pode operar? Por que comida pode ser entregue via expressa de alguns locais e não de restaurantes de shoppings? Arbitrário e ilógico!
Mais absurdo ainda, e ver que aqueles que protegem "100% vidas" e gritam "fiquem em casa", julgando os diferentes como insensíveis a essa mesma vida, são provavelmente aqueles que têm renda e empregos (muitos no Estado!), e que e não correm o risco de perder suas casas, além de não precisarem acordar cedo de manhã e se perguntarem como vão alimentar a si e seus familiares!
A falta de empregos, de comida, além da própria debilidade na estrutura de saúde, vai levar muito mais gente para os cemitérios do que a Covid-19!
Fico efetivamente questionando-me sobre a genuína preocupação com a saúde das pessoas. Será mesmo que se tem a intenção de mitigar os riscos da Covid-19 e proteger os cidadãos, ou restringir liberdades individuais, enquanto burocratas estatais protegem suas liberdades pessoais e seus interesses políticos?!
Portanto, um dos aprendizados fundamentais nesses tempos virais, é de que não podemos deixar e nos acostumar com os desejos e os impulsos autoritários e desproporcionais desses aprendizes de ditadores!
A liberdade custa muito caro a todos nós! É o nosso bem maior. Como não há nada que seja totalmente negativo (talvez nem a própria morte), aqueles que pensam por meio do sistema manual, de pensamento reflexivo e profundo, agora têm a oportunidade de reavivarem o interesse em proteger seus direitos e suas próprias liberdades! Vamos lá.
“A guerra é o domínio da incerteza; os três quartos de elementos nos quais a ação se fundamenta permanecem nas brumas de uma incerteza mais ou menos grande. Mais do que em qualquer outro domínio, é necessário que uma inteligência sutil e penetrante saiba, instintivamente, discernir e apreciar a verdade”.[1]
A crise pandêmica do novo coronavírus tem lançado os líderes mundiais numa bruma de incerteza semelhante à guerra, e algumas das indagações dos nossos dias: cuidar da saúde ou da economia; isolamento vertical ou horizontal; têm sido, reiteradamente, debatidas pela sociedade.
A resposta mecânica tem sido: “Siga a ciência! Siga a ciência!” O que quer dizer: “lockdown”, quarentena ou qualquer coisa assim, que for indicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O que Napoleão, gênio militar do seu tempo, pode nos ensinar para obtermos a vitória nessa guerra contra um inimigo invisível?
A primeira dica de Napoleão é estudar o conjunto de informações disponíveis, cuidadosamente.
“...Napoleão, quando indagado pelos seus generais sobre como ele adivinhava sempre as intenções do inimigo com tanta precisão, respondeu: eu não sabia antecipadamente os erros que o inimigo cometeria, e dos quais tirei vantagem: simplesmente estudei a minha carta (mapa). “[2]
Apesar de toda a politização que a pandemia tem recebido, há estudos que nos permitem avaliar o impacto da economia na saúde do povo, ratificando que são áreas interdependentes.
A Revista de Saúde Global Lancet, a qual é uma publicação que incorpora inúmeros artigos de estudos sobre saúde em diversos países do mundo, veicula estudo que, em tradução livre, tem como título: ”Efeito da recessão econômica e impacto das despesas com saúde e proteção social na mortalidade de adultos: uma análise longitudinal de 5565 municípios brasileiros”[3], elaborado por Thomas Hone e outros autores.
Apesar do viés progressista e globalista, o escrito traz luz para a importância da economia na condição de saúde das pessoas, estimando o aumento da mortalidade no Brasil, tendo como causa o desemprego gerado na crise econômica de 2014 a 2016.
A pesquisa analisa 6.621.347 mortes, que correspondem a 93,7% dos 7.069.242 de óbitos ocorridos no período de 2012 a 2017, em 5565 municípios brasileiros (total de 5570), em pessoas com 15 anos ou mais.
A análise utiliza métodos estatísticos que permitem inferir sobre as alterações no número de mortes em relação ao aumento do desemprego no período. A estimativa chegou ao número de 31.415 mortes do período de 2012 a 2017, devido à crise econômica ao qual o país foi submetido nesse intervalo de tempo.
Avaliando-se os motivos desse aumento, o artigo destaca os efeitos da recessão econômica sobre o sistema de saúde, devido à redução de receita do estado, implicando o aumento do tempo de espera para tratamentos de saúde, escassez de medicamentos e atrasos no pagamento a funcionários da área de saúde. Ressalta que, as pessoas economicamente mais vulneráveis, as quais são mais dependentes do sistema de saúde e de proteção social, são as que mais sofrem com o impacto da precarização do sistema de saúde no Brasil devido à crise econômica.
Não é difícil compreender que um Estado empobrecido significa uma saúde empobrecida.
O exemplo de Napoleão nos diz que as informações estão disponíveis para todos. Quem melhor estuda, obtém a vitória ou, no caso da pandemia, a menor perda de vidas humanas.
Ou seja, não há alternativa, saúde ou economia. Se a economia for destruída, a saúde também o será!
É por este motivo que seguir, cegamente, apenas uma visão sobre o problema pode impedir o acesso às informações estratégicas, que nos permitem enxergar a guerra como um todo e as suas consequências no médio e longo prazo.
Na aviação tem-se um efeito parecido e que leva a consequências, igualmente, desastrosas.
A visão em túnel acontece quando o piloto se prende a uma só informação, levando-o a decidir erroneamente sobre a condução da aeronave e a correção a ser feita. Para resolver algumas panes o piloto deve dirigir a atenção para certos instrumentos, mas também deve estar atento ao conjunto geral de informações e o que está acontecendo à sua volta.
Felizmente, já há no Brasil um movimento que se permite olhar com mais clareza a condução do combate à Covid-19. Temos Governadores que começaram a pensar pelos seus próprios estudos e não seguindo, roboticamente, a ordem de fechamento total proposto pela OMS.
O Governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, tem se esforçado para corrigir um erro cometido em março deste ano, momento em que ordenou a quarentena no Estado, sendo que somente 10 cidades, dos 497 municípios do RS, apresentavam casos do Covid-19.
Pressionado, seguiu a “grita” generalizada: “fecha tudo!” E, por intermédio de Decreto de Calamidade Pública, de 19 de março de 2020, pôs o Rio Grande do Sul em quarentena. O primeiro caso da doença foi registrado em 10 de março de 2020.
O primeiro movimento de reabertura foi em 16 de abril de 2020, quando permitiu que os Prefeitos decidissem sobre a quarentena, considerando-se a condição de contágio de cada localidade. Para tal, apresentou uma iniciativa simples e bem planejada que representa um esforço da ciência gaúcha em orientar as ações do Governador. Trata-se de um estudo estatístico conduzido pela Universidade Federal de Pelotas, em conjunto com outras 11 instituições de ensino, que tem como objetivo entender o contágio do Covid-19 no estado, em especial, a situação do contágio, velocidade de expansão e a letalidade da doença.
A pesquisa baseia-se na aplicação de exames para o Covid-19 e questionários para 4.500 pessoas, residentes em 9 cidades gaúchas, seguindo critérios do IBGE sobre o perfil populacional.
Em cada rodada são testadas 500 pessoas em 9 cidades representativas do estado, repetindo-se este procedimento em quatro etapas distintas (11-13/4; 25-27/4; 9-11/5 e 23-25/5).[4]
Mais do que ciência aplicada à realidade local, esse esforço significa, com muito orgulho, que os pesquisadores gaúchos estão pensando com a própria cabeça e não seguindo, cegamente, instituições estrangeiras burocráticas que não conhecem a realidade do povo e a propagação da doença no nosso país.
Para finalizar, um dos fatos que mais me impressionou na minha missão como Adido Militar na França decorreu de uma reunião com oficiais do exército francês.
Conversando sobre a instrução dos militares franceses, questionei se eles estudavam muito os ensinamentos de Napoleão e recebi a seguinte resposta: “Vocês devem estudar mais do que a gente. Na França ele é considerado um traidor e os seus ensinamentos não são estudados nas nossas escolas militares!”.
Desde aquele momento percebi que, em Paris, havia poucas referências a Napoleão I. Eu vi somente duas pequenas estátuas do imperador: na Praça Vendome e no Museu Militar dos Inválidos.
Se os franceses não querem aprender, problema deles! Aprendamos nós!
Estude antes de decidir!
* Jorge Schwerz é Coronel Aviador da Reserva da Força Aérea Brasileira; MsC pelo ITA; ex-Adido de Defesa e Aeronáutica na França e Bélgica; e Coordenador do Blog Ao Bom Combate!
** Publicado originalmente no blog Ao Bom Combate: https://www.aobomcombate.org/post/aprendendo-com-napole%C3%A3o-estude-antes-de-decidir
[1] VON CLAUSEWITZ, Carl. Da Guerra. São Paulo: Martins Fontes, 1986. p. 51;
[2] VON FREITAG-LORINGHOVEN, Hugo. O poder da personalidade da Guerra. Rio de Janeiro. Bibliex, ; p. 71;
[3] HONE ET AL.; Effect of economic recession and impact of health and social protection expenditures on adult mortality: a longitudinal analysis of 5565 Brazilian municipalities. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/langlo/article/PIIS2214-109X(19)30409-7/fulltext. Acesso em: 9 de maio de 2020; e
[4] RIO GRANDE DO SUL. Epidemiologia da Covid-19 no Rio Grande do Sul. Disponível em: 1ª etapa: https://www.estado.rs.gov.br/upload/arquivos//covid-19-estudo-versao-atualizada.pdf e 2ª etapa: https://www.estado.rs.gov.br/upload/arquivos//pesquisa-ufpel-fase2-20200428.pdf. Acesso em: 9 de maio de 2020.
A cultura da morte e seus ataques internos e externos a todos os fundamentos da nossa civilização.
Inicialmente, quando se fala de cultura da morte, a primeira coisa que salta aos olhos de quem se defronta com tal expressão é o debate acerca da legalização do aborto, ou seja, o embate entre aqueles que são favoráveis à vida e aqueles que são favoráveis ao direito de decidir, como costumeiramente é conhecida a opção pelo aborto. A realidade, porém, é muito mais abrangente, pois as ações desencadeadas pela cultura que fomenta a morte não se restringem a este aspecto nefasto de suas atividades. Já há alguns anos, os reais objetivos de tal cultura têm assumido contornos cada vez mais claros diante de nossos olhos, pois parece haver um esforço contínuo para introduzir, de forma às vezes ostensiva às vezes amenizada, uma semente de destruição que acabaria por minar o edifício que sustenta a nossa civilização.
Identificar a cultura da morte com a "indústria" ou esforços para a disseminação do aborto e de todos os métodos contraceptivos não chega a ser um equívoco, mas, não é uma visão completa daquilo que ela verdadeiramente almeja. Quando se quer destruir um edifício para levantar uma nova construção, dois caminhos podem ser tomados: o da explosão, ou seja, algo que venha de fora e acabe por arrasar toda a estrutura existente; ou o da implosão, quando se destrói a construção antiga a partir de dentro, fazendo com que ela mesma venha abaixo porque perdeu a força para se sustentar.
A cultura da morte também age assim. Em alguns momentos parece desferir ataques explosivos, que são externos, ostensivos e bastante claros, pois têm o objetivo de chocar, de desestabilizar para que, por meio do alarde provocado, as situações por ela defendidas ganhem respaldo ou aceitação na sociedade. Tal é a tática que muitas vezes se utiliza para as questões relativas ao aborto, especialmente no que diz respeito a tratá-lo como se fosse simplesmente uma decisão entre ter ou não um filho, como se não houvesse outra realidade a ser implicada nesta situação a não ser o corpo da própria mulher e a decisão de fazer ou não algo com este corpo que lhe pertence, sem levar em consideração, em nenhum momento, a existência de mais uma vida, ainda no ventre materno, que deveria gozar de toda a proteção possível por parte da sociedade.
O outro caminho, não menos danoso, porém muito mais sutil e ardiloso, é o caminho da implosão, que consiste num ataque contínuo, sistemático, lento e progressivo contra tudo aquilo que se constituiu num alicerce para a nossa sociedade. Alvo deste movimento implosivo são os três pilares da civilização ocidental: a filosofia grega, o direito romano e a moral judaico-cristã. No prefácio do livro O Calvário e a Missa, o venerável Fulton J. Sheen salienta que a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo foi erigida num ponto de convergência, numa encruzilhada entre estas três grandes civilizações, para que seu gesto redentor estendesse a universalidade da Redenção também sobre essas esferas da sociedade.
Hoje, o alvo da cultura da morte é a tentativa de implodir, a partir de dentro, a estrutura que sustenta a sociedade humana, baseada nestes três alicerces: filosofia, direito e moral. A filosofia se torna cada vez mais instrumentalizada, como se fosse uma justificativa para determinados comportamentos ao invés de se constituir numa autêntica busca pela verdade, lançando suas artimanhas também numa nova abordagem do processo educacional, que não seria nada mais do que mera propaganda ideológica, esquecendo-se completamente de seu objetivo de ser um caminho para se alcançar a sabedoria; o direito, por meio da negação da existência de um direito natural e na sua utilização para legitimar novos comportamentos e criminalizar a oposição aos mesmos; a moral que, ao sofrer toda espécie de crítica e de racionalização, é substituída por um novo padrão no qual a família e toda a sociedade são vistas de uma maneira totalmente nova, numa inversão de valores e desprezo pelas instituições tradicionais.
A cultura da morte, a partir destas poucas constatações, não se refere simplesmente ao direito ou não ao aborto ou à militância para que o mesmo se constitua num direito. Ela tem um objetivo muito maior. Quer colocar abaixo toda a estrutura que sustenta a nossa civilização e não deixará de empreender esforços para destruir a filosofia, o direito e a moral, para então levantar o seu novo edifício, uma nova sociedade, verdadeira quimera que é uma prefiguração dos piores pesadelos que um homem poderia imaginar. O abraço a que ela convida o homem não é apenas dirigido a um aspecto de sua vida, isto é, a seu pensamento, seu comportamento, ou às relações que estabelece na sociedade e, principalmente, na família. A cultura da morte quer, na realidade, abraçar o homem todo, em todas as suas dimensões, e não somente a um indivíduo, mas a todos os homens.
Pe. Paulo Ricardo, em 22/04/2015
*Publicado originalmente em https://padrepauloricardo.org/blog/o-abraco-da-morte-a-nossa-sociedade