• Paulo G. M. de Moura
  • 26 Março 2018

 

O termo civilização é associado à ideia de abandono da violência e sua substituição por valores morais, regras de convivência e instituições de mediação dos conflitos entre integrantes de uma sociedade.

A civilização ocidental inventou a democracia liberal e a separação de poderes entre Executivo, Legislativo e Judiciário visando impedir a tirania dos governantes. Com todas as suas imperfeições a democracia liberal segue sendo a mais evoluída forma de processar decisões coletivas, governar a sociedade, criar leis e dirimir conflitos de forma pacífica e ordeira.

A Ordem Pública, a Paz Social e a correta administração da Justiça são os bens maiores de qualquer sociedade democrática. Sem Ordem, Paz e Justiça não há civilização. Há barbárie e violência; vigora lei do mais forte que impõe aos outros pela força a sua vontade e os seus interesses.

Em tese pelo menos, o papel das instituições jurídicas e políticas de uma democracia seria o de, em primeiro lugar, zelar por esses valores. Em se tratando de uma suprema corte então, mais ainda. Entretanto, não é o que se vê no Brasil.

A sociedade, em sua maioria, anseia por Ordem Pública, Paz e Justiça. Mas, o órgão máximo do Poder Judiciário brasileiro caminha na direção oposta. É o mínimo que se pode dizer da postura adotada pelos ilustres juízes do STF após as manobras absurdas para deixar impune o chefão do maior esquema de corrupção de que se tem notícia na história da democracia, e o principal responsável pela mais dura e longa recessão pela qual o Brasil já passou.

Destaco aqui, três ingredientes da cena política brasileira dos últimos tempos:

1 – O mainstream da mídia, do estabilshment político e do mercado vinham, até a pouco, defendendo a necessidade de construção de uma candidatura de centro capaz de remover do tabuleiro político um cenário de polarização entre extremos; 

2 – Satisfeitos com o impeachment de Dilma, o início da reorganização da economia e a perspectiva da condenação e prisão de Lula e demais corruptos envolvidos nos escândalos do mensalão e do petrolão, os milhões de brasileiros que foram às ruas lutar pelo impeachment de Dilma Rousseff se recolheram para seus lares e trabalho;

3 – Por outro lado, tanto mais quanto mais a Justiça se encaminhava para fazer Justiça, condenando Lula e mandando-o para a prisão assim como já foi feito com centenas de condenados da Lava Jato, mais os brasileiros recompunham sua esperança nas instituições e mais as lideranças do PT e da esquerda em geral ameaçavam-nos com a conflagração e o uso da violência caso a Lei fosse cumprida e Lula fosse preso.

Ninguém dava importância às bravatas petistas, pois, há muito se constata que o petismo perdeu bases sociais reais e hoje mobiliza apenas sua militância doentia e incapaz de aceitar a verdade dos fatos.

No sistema político ninguém, nem mesmo a esquerda que se dividiu em diversas candidaturas presidenciais, operava com a possibilidade de que um condenado em órgão colegiado pudesse vir a concorrer às eleições presidenciais que se avizinham.

Tudo isso até o STF tomar a mais grave e controvertida das suas tantas decisões graves e controvertidas: a ameaça de deixar Lula livre e impune por seus crimes.

Essa decisão mudou totalmente o cenário político do país, jogando gasolina no tabuleiro de uma disputa eleitoral que se encaminhava para ser pacífica e tranquila, apesar de imprevisível.

Talvez o cidadão comum, que não tem por prática profissional monitorar as mídias sociais e o humor político do ativismo virtual ainda não tenha percebido, mas o STF despertou de novo os brasileiros que foram às ruas pelo impeachment de Dilma e que haviam voltado para casa, terceirizando para o Judiciário a missão de zelar pela aplicação da Lei e da Justiça nesse país. Esse ativismo saiu das ruas, mas permaneceu vivo e ativo nas mídias sociais.

O prazo até 04 de abril que o STF se concedeu para livrar Lula da cadeia, talvez contando com o feriadão da Páscoa para acalmar os ânimos e desmobilizar a sociedade, de fato, foi o tempo que precisavam os movimentos cívicos para convocar novas manifestações de rua na tentativa de fazer valer a democracia sob pressão das ruas.

Já que as instituições jurídicas e políticas da nação parecem voltadas para proteger Lula, o PT e a casta de corruptos a eles associados – todos eles, em benefício próprio, contando com que a liberdade do chefão leve a liberdade de todas as quadrilhas -, não resta outra saída ao povo senão voltar às ruas para garantir que a democracia seja respeitada e Lei seja cumprida.

Não é possível saber se essas manifestações serão fortes o suficiente para botar medo nos juízes comprometidos com as quadrilhas no poder, mas, uma coisa é certa, se Lula ficar livre, impune e fazendo campanha eleitoral, o ativismo cívico que promoveu o impeachment de Dilma Rousseff não voltará para casa durante a eleição.

Os entreveros que envolveram a caravana no Lula pelo Rio Grande do Sul e seguem acontecendo em Santa Catarina e Paraná, são apenas uma pequena amostra do ambiente que o STF está incentivando para o próximo período com a ameaça que faz à nação de deixar impune um condenado dessa magnitude e periculosidade. Lula não passou incólume pelas cidades do Nordeste também.

Mesmo com seus comícios esvaziados o petista foi hostilizado em inúmeros lugares por onde passou.

Deixando Lula impune e livre para fazer política, o STF não estará apenas incentivando uma polarização eleitoral de tipo tradicional, com bate-bocas e discursos inflamados de parte a parte. Assim agindo a corte suprema estará jogando no descrédito total (se é que ainda resta algum crédito) a esperança dos brasileiros de bem na capacidade de suas instituições garantirem a Ordem Pública, a Paz Social e a aplicação da Lei.

A liberdade de Lula por decisão do STF será a liberdade de todos os criminosos comuns e do colarinho branco já condenados em segunda instância. Sinais de gente partindo para fazer justiça com as próprias mãos já há de sobra em se tratando de crimes comuns. Teremos o mesmo na política?

* Cientista Político

** Publicado originalmente em http://emaconteudo.com.br 

Continue lendo
  • Editorial do Estadão
  • 25 Março 2018

 

Num espetáculo indigno de uma Corte cuja função é ser obstáculo aos excessos do poder, a maioria de seus ministros aceitou prestar vassalagem ao chefão petista.

O Supremo Tribunal Federal apequenou-se perante Lula da Silva. Num espetáculo indigno de uma Corte cuja função é ser obstáculo aos excessos do poder, a maioria de seus ministros aceitou prestar vassalagem ao chefão petista. O Supremo, em sua atual composição, reafirmou assim sua vocação de cidadela dos poderosos com contas a acertar com a Justiça.

O cidadão comum, aquele que se submete ao pacto democrático na presunção de que a Justiça criada por esse arranjo será igual para todos, há de se perguntar, depois das vergonhosas sessões de quarta e quinta-feira passadas, se ainda subsiste alguma instituição do Estado que não esteja subordinada ao patronato político – do qual Lula, a despeito da sua apregoada identidade com a gente comum, é um dos maiores expoentes.

O demiurgo de Garanhuns não tem mais foro privilegiado, e no entanto foi tratado no Supremo como se tivesse. Mereceu a deferência de ter seu caso apreciado antes de muitos outros, não por coincidência às vésperas da provável rejeição de seu derradeiro recurso no Tribunal Regional Federal da 4.ª Região contra a condenação a 12 anos e 1 mês de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro.

Ou seja, o Supremo desmoralizou, numa só tacada, todo o bom trabalho de nove juízes – Sérgio Moro, que condenou Lula da Silva na 13.ª Vara Federal de Curitiba; os três desembargadores da 8.ª Turma do Tribunal Regional Federal da 4.ª Região, que confirmaram a condenação e aumentaram a sentença; e os cinco ministros da 5.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça, que negaram o habeas corpus preventivo pedido pela defesa de Lula.

Para atingir esse fim, inventou-se uma liminar que, na prática, tem efeito de salvo-conduto, pois impede a prisão de Lula até que o pedido de habeas corpus feito pela defesa seja efetivamente julgado pelo Supremo. Esse julgamento do mérito foi marcado para o dia 4 de abril, mas nada impede que algum ministro invente criativo expediente para adiar o desfecho do caso indefinidamente, como tem acontecido com frequência no Supremo. (Veja-se o que o ministro Fux está fazendo com o desavergonhado auxílio-moradia.) Nesse período, Lula da Silva ficaria livre.

Chegou-se a esse remendo porque o Supremo foi incapaz de iniciar a apreciação do habeas corpus, entretido que estava em um debate sobre se era o caso ou não de aceitar discutir o pedido da defesa – debate este que incluiu até uma menção do advogado de Lula a Luís XVI, exemplo, segundo ele, de vítima da “volúpia do encarceramento”. Quando ficou claro que a sessão seria encerrada sem a votação do habeas corpus, a despeito da urgência do caso – um dos ministros alegou cansaço, outro disse que tinha viagem marcada –, a defesa pediu a liminar, que acabou aceita. Estava dado o salvo-conduto para Lula, válido pelo menos enquanto durar o longo feriado do Supremo em respeito à Páscoa. Isso é que é espírito cristão.

Não à toa, a decisão foi festejada por gente do quilate do senador Renan Calheiros, contra quem correm 17 inquéritos no Supremo. “Nenhuma condenação sem prova sobreviverá ao controle da constitucionalidade e ao princípio da presunção da inocência. Viva a democracia! Viva o respeito à Constituição!”, escreveu o multiencalacrado senador no Twitter, sob a hashtag “Lula Livre”.

Nada mais simbólico. Outra vez, o Supremo Tribunal Federal, que em quatro anos de Operação Lava Jato não julgou nenhum dos implicados com foro privilegiado, enquanto os tribunais ordinários já contabilizam 123 sentenciados, demonstra sua incapacidade de fazer os poderosos pagarem por seus crimes. Não espanta o empenho de muita gente para adquirir o direito de ser julgado ali, ainda que seja por vias tortas, como Lula. Outros condenados pela Lava Jato, presumindo que o ex-presidente escapará mesmo da prisão, já se preparam para explorar essa brecha. Seria o festim da impunidade.

A genuflexão do Supremo diante de Lula fecha com chave de ouro uma semana vergonhosa na história dessa Corte, que incluiu uma infame manobra para manter o auxílio-moradia para todos os juízes. Quando a Corte constitucional atenta contra a própria Constituição, para proteger quem tem poder, o futuro é inevitavelmente sombrio. Os brasileiros honestos já temem pelo que virá.
 

Continue lendo
  • Marcelo Rates Quaranta
  • 25 Março 2018

 

Eu quero agradecer, em meu nome e em nome de todas as pessoas comuns, cidadãos simples do meu país como eu, pelas últimas decisões tomadas pelo nosso Egrégio Supremo Tribunal Federal.

Sim, o Supremo fez de nós pessoas melhores do que pensávamos ser.

Quando olhávamos aqueles Ministros sob suas togas, com passos lentos e decididos, altivos, queixos erguidos, vozes impostadas ditando verdades absolutas e supremas, envoltos numa aura de extrema importância e autoridade, nos sentíamos pequenos, minguados e reles plebeus diante de uma Corte que beirava o sublime, o inatingível e o intangível.

Com essas decisões o Supremo conseguiu fazer com que a minha percepção sobre mim e sobre nós mudasse. Eles não são deuses. São pessoas tão pequenas e tão venais que qualquer comparação que eu faça de mim e de nós em relação a eles seria desqualificar-nos a um nível abissal. Tudo aquilo é fantasia, tudo aquilo é pose e tudo aquilo não passa de um teatro, mas nós somos reais.

Foi aí que eu vi o quanto somos mais importantes que eles! Enquanto as divindades supremas encarnam seus personagens de retidão e lisura, mas com suas decisões abduzem a moral e destroem o país (e de quebra a reputação do Judiciário), nós brasileiros comuns e sem toga trabalhamos arduamente dia e noite para construir o país, ou pelo menos para minimizar os danos que eles provocam.

Então... Como é que um dia eu pude vê-los como sendo superiores a nós? Eu estava enganado. Nós somos muito superiores a eles, mesmo sendo zés, joãos, marias, desde o pequeno ambulante ao médico ou engenheiro. Nós somos as verdadeiras autoridades, porque nossa autoridade não foi conferida por um político malandro capaz de tudo com uma caneta. Nossa autoridade nos foi dada pela nossa força de continuar tentando fazer um Brasil melhor.

Fico sinceramente com pena é dos advogados, que são obrigados a chamar esses ministros de Excelência, ainda que com a certeza de que não há excelência alguma nos serviços que eles estão prestando à nação, mas *excrescências* Acho que deve ser o mesmo sentimento de ser obrigado a chamar o cachorro do rei de "milord".

Agora eu sei o quanto somos bem maiores que eles, mesmo sem aquelas expressões em latim e doutrinas rebuscadas cheias de pompas e circunstâncias, que com toda máxima "data venia" no final significam apenas *passar perfume em merda*.

Se há alguém realmente importante no Brasil, esse é o Excelentíssimo Povo Brasileiro, que apesar de tudo é obrigado a sentir o mau cheiro que vem da grande Corte, e mesmo com náuseas e ânsia de vômito, tem que acordar as 5 da manhã pra fazer aquilo que eles não fazem: *Produzir* os impostos para pagar os mais caros salários e os adicionais como ajudas de custos, verbas de gabinetes/ indenizatórias e os agregados e polpudos auxílios funcionais (paletó, educação, moradia, viagens, combustível , veiculo, celular, vinho, petshop, canil, periquita e sogra).
Obrigado, Supremo, por nos mostrar que hoje o rei sou eu e o meu povo, porque não estou encastelado na ilha de Santa Helena.

Agora, podemos andar pelas ruas com liberdade e cabeça erguida sem temor de levar tomates e ovos dos súditos.

  * O autor, Marcelo Rates Quaresma, escreveu este artigo em outubro de 2017, ante decisões então tomadas pelo "Pretório Excelso".

Continue lendo
  • J.R. Guzzo
  • 24 Março 2018

O STF é o melhor lugar do mundo para delinquentes top de linha
 

O Supremo Tribunal Federal já deixou, há muito tempo, de ter alguma relação com o ato de prestar justiça a alguém. O que se pode esperar da conduta de sete ministros, entre os onze lá presentes, que foram nomeados por um ex-presidente condenado a doze anos de cadeia e uma ex-presidente que conseguiu ser deposta do cargo por mais de 70% dos votos do Congresso Nacional? Outros três foram indicados, acredite quem quiser, por José Sarney, Fernando Collor e Michel Temer. Sobra um, nomeado por Fernando Henrique Cardoso – mas ele é Gilmar Mendes, justamente, ninguém menos que Gilmar Mendes. Deixem do lado de fora qualquer esperança, portanto, todos os que passarem pela porta do STF em busca da proteção da lei. Quer dizer, todos não — ao contrário, o STF é o melhor lugar do mundo para você ir hoje em dia, caso seja um delinquente cinco estrelas e com recursos financeiros sem limites para contratar advogados milionários. O STF, no fundo, é uma legítima história de superação. Por mais que tenha se degenerado ao longo do tempo, a corte número 1 da justiça brasileira está conseguindo tornar-se pior a cada dia que passa e a cada decisão que toma. Ninguém sabe onde os seus ocupantes pretendem chegar. Vão nomear o ex-presidente Lula para o cargo de Imperador Vitalício do Brasil? Vão dar indulgência plenária a todos os corruptos que conseguirem comprovar atos de ladroagem superiores a 1 milhão de reais? Vão criar a regra segundo a qual as sentenças de seus amigos, e os amigos dos amigos, só “transitam em julgado” depois de condenação no Dia do Juízo Universal?

Os ministros do STF, com as maiorias que conseguem formar hoje em dia lá dentro, podem fazer qualquer coisa dessas, ou pior. Por que não? Eles vêm sistematicamente matando a democracia no Brasil, com doses crescentes de veneno, ao se colocarem acima das leis, dos outros poderes e da moral comum. Mandam, sozinhos, num país com 200 milhões de habitantes, e ninguém pode tirá-los dos seus cargos pelo resto da vida. O presente que acabam de dar a Lula é apenas a prova mais recente da degradação que impõem ao sistema de justiça neste país. Foi uma decisão tomada unicamente para beneficiar o ex-presidente – chegaram a mudar o que eles próprios já tinham resolvido a respeito, um ano e meio atrás, quando declararam que o sujeito pode ir para a cadeia depois de condenado na segunda instância. É assim que se faz em qualquer lugar do mundo onde há justiça de verdade — afinal, as penas de prisão precisam começar a ser cumpridas em algum momento da vida. Para servir a Lula, porém, o STF estabeleceu que cadeia só pode vir depois que esse mesmo STF decidir, no Dia de São Nunca, se vale ou não vale prender criminoso que já foi condenado em primeira e segunda instâncias (no caso de Lula, por nove juízes diferentes até agora), ou se é preciso esperar uma terceira, ou quarta, ou décima condenação para a lei ser enfim obedecida. Falam que a decisão foi “adiada”, possivelmente para o começo de abril. Mentira. Já resolveram que Lula está acima da lei – como, por sinal, o próprio Lula diz o tempo todo que está.

O STF atende de maneira oficial, assim, não apenas a Lula, mas aos interesses daquilo que poderia ser chamado de “Conselho Nacional da Ladroagem” – essa mistura de empreiteiras de obras públicas que roubam no preço, políticos ladrões, fornecedores corruptos das estatais e toda a manada de escroques que cerca o Tesouro Nacional dia e noite. Para proteger essa gente o “plenário” está disposto a qualquer coisa. Ministros se dizem “garantistas”, como Dias Toffoli e Marco Aurélio Mello, e juram que seu único propósito é garantir o “direito de defesa”. Quem pode levar a sério uma piada dessas? A única coisa que garantem é a impunidade. No julgamento do recurso de Lula, o ministro Ricardo Lewandowski teve a coragem de dizer que a decisão não era para favorecer o ex-presidente, mas sim “milhares de mulheres lactantes” e “crianças” que poderiam estar “atrás das grades” se o STF não mandasse soltar quem pede para ser solto. É realmente fazer de palhaço o cidadão que lhe paga o salário. O que uma coisa tem a ver com a outra? Porque raios não se poderia soltar as pobres mulheres lactantes que furtaram uma caixinha de chicletes e mandar para a cadeia um magnata que tem a seu serviço todos os advogados que quer? Tem até a OAB inteira, se fizer questão. À certa altura, no esforço de salvar Lula, chegaram a falar em “teratologia”. Teratologia? Será que eles acham que falando desse jeito as pessoas dirão: “Ah, bom, se é um caso de teratologia…” Aí fica tudo claríssimo, não é mesmo? É um mistério, na verdade, para o que servem essas sessões do STF abertas ao “público”. Depois que um ministro assume a palavra e diz “boa tarde”, adeus: ninguém entende mais uma única palavra que lhe sai da boca; talvez seja mais fácil entender o moço que fica no cantinho de baixo da tela, à direita, e que fala a linguagem dos surdos-mudos. Sem má vontade: como seria humanamente possível alguém compreender qualquer coisa dita pela ministra Rosa Weber? Ou, então, pelos ministros Celso de Mello, ou Marco Aurélio? É chinês puro.

O espetáculo de prestação de serviço a Lula veio um dia depois, justamente, de uma briga de sarjeta, na frente de todo o mundo, entre os ministros Luis Roberto Barroso e Gilmar Mendes. Entre outras coisas, chamaram-se um ao outro de “psicopata” ou de facilitador para operações de aborto. Por que não resolvem suas rixas em particular? É um insulto ao cidadão brasileiro. Por que precisam punir o público pela televisão (aliás, paga pelo mesmo público) com a exibição de sua valentia sem risco? Os ministros dão a qualquer um, depois disso, o direito de chamá-los de psicopatas ou advogados de abortos clandestinos – por que não, se fizeram exatamente isso e continuam sendo ministros da “Corte Suprema”? Dias ruins, com certeza, quando pessoas desse tipo têm a última palavra em alguma coisa – no caso, nas questões mais cruciais da justiça e, por consequência, da democracia. É o mato sem nenhuma esperança de cachorro, realmente. A televisão nos mostra umas figuras de capa preta, fazendo cara de Suprema Corte da Inglaterra e dizendo frases incompreensíveis. O que temos, na vida real, é um tribunal de Idi Amin, ou qualquer outra figura de pesadelo saída de alguma ditadura africana.

* • Publicado originalmente em Veja.com

Continue lendo
  • Gilberto Simões Pires
  • 23 Março 2018



SALVO-CONDUTO
Com o salvo-conduto concedido -sob medida- pela maioria dos ministros do STF, o condenado Lula, que já é tido como o maior bandido do Brasil, obteve a privilegiada proteção que confere o direito de poder circular livremente sem correr o risco de ser preso ou impedido. Que tal?

RETRIBUIÇÃO
Aqui entre nós: a decisão tomada, ontem, pela maioria dos ministros do STF, não pode ser vista como algo surpreendente. Até porque este péssimo e nojento sistema de escolha, indicação e/ou aprovação de quem quer que seja para ocupar um cargo público, propõe o entendimento geral de que a retribuição pelo gesto é uma questão de tempo e oportunidade.


INDULTO
Pois, na condição de cidadão -indignado e revoltado-, fiquei com sensação de que o salvo-conduto tirado do forno pelos cozinheiros do STF exalava um forte cheiro de INDULTO, ou ATO DE CLEMÊNCIA ao já condenado Lula.

CHEIRO DA IMPUNIDADE

Sei, perfeitamente, que o SALVO-CONDUTO tem prazo de duração até o dia 4 de abril (?), data que o STF marcou para julgar a liminar que impede a prisão do larápio. Ainda assim não posso negar o que o meu olfato acusou, ou seja o forte e muito conhecido CHEIRO DA IMPUNIDADE. A ver...

ESTADO TERMINAL
O fato é que os brasileiros decentes, que ainda cultivavam a ESPERANÇA DE UMA BRASIL MELHOR, foram dormir (se é que conseguiram) com a sensação de que a mesma está em ESTADO TERMINAL, sem direito sequer à extrema-unção.

 

Continue lendo
  • Ricardo Bordin
  • 23 Março 2018

 

Estava bom demais para ser verdade. Lula, para surpresa geral da nação habituada a ver poderosos se safarem de suas picaretagens, vinha sendo tratado pelo Judiciário como um réu ordinário?—?no bom e no mau sentido?—?no caso do Triplex recebido como propina do Petrolão. Primeira instância, com Moro e Deltan como protagonistas: condenado. Segundo grau, com direito a goleada de 3x0: confirmada a condenação e elevada a pena. Habeas Corpus preventivo impetrado no Superior Tribunal de Justiça: 5x0 fora o olé.

Mas todos suspeitavam que o salvo-conduto do Brahma poderia vir do Supremo Tribunal Federal?—?aquele dos guardiões dos interesses de quem os nomeou para o cargo?—?especialmente depois que Gilmar Mendes “mudou de opinião” um ano e meio depois quanto à execução de sentença penal condenatória confirmada por órgão colegiado.
Foram semanas de hashtags “não se dobre às pressões, Carmen Lúcia”, mas era óbvio que o HC para manter Lula livre até o esgotamento total de recursos cabíveis (mais uns cinco anos solto, no mínimo) iria acabar furando a fila na cara duríssima—?até porque o Ministro Fachin resolveu levá-lo a plenário após denegá-lo, ao melhor estilo “se é pra livrar a cara do padinho, que todos assinem embaixo juntos e vamos dividir a raiva do povo”.

Para quem perdeu o que aconteceu hoje em Brasília, o julgamento do bendito HC já começou atrasado; após a sustentação oral do procurador do réu e da Procuradora-geral, um intervalo de dez minutos virou cinquenta. Na sequência, as supostas onze maiores autoridades em Direito no país discutiram por horas a fio se um instrumento jurídico que existe praticamente sem alterações desde 1215 deveria ser acolhido ou não.

Resumo do teatro: quando o próximo passo era examinar o mérito da ação, eis que Marco Aurélio Melo revela que não pode ficar para fazer seu trabalho, remunerado a base de dezenas de milhares de reais do dinheiro dos pagadores de impostos, porque precisa pegar um avião para no dia seguinte tomar posse em um conselho sei lá do quê.

A partir dali, mais seis ministros, incluindo a presidentA, resolvem que talvez seja melhor iniciar o fim de semana logo de uma vez mesmo.

Só que há um problema: sessão suspensa significava Lula preso segunda-feira. Seu advogado, aproveitando uma brecha entre os incontáveis elogios que recebia dos membros da suprema corte, solicita então que seja expedida liminar impedindo o TRF4 de decretar ordem de prisão para Lula após a apreciação dos embargos em 26/03.

Bingo: Luiz Inácio está protegido até 04/04, para quando foi marcada a continuação da novela. Você entendeu bem, sim: como esse era um julgamento com efeitos inter partes?—?isso é, só valem para o requerente?—?, inúmeros criminosos seguirão sendo enjaulados após terem suas sentenças corroboradas pelos tribunais de justiça estaduais, mas Lula não: ele é mais bonito, é diferentão. Merece continuar impune por tempo indeterminado?—?afinal, quem garante que outros compromissos inadiáveis (ou cartas na manga) não surgirão em abril? Agora o jogo virou, e o tempo passou a ser amigo do Amigo da Odebrecht.

Lewandowski asseverou que “o paciente não poderia arcar com o ônus de nosso atraso em julgar”. Acabou a vergonha: em rede nacional, aquele que permitiu o fatiamento da votação do impeachment de Dilma, preservando seus direitos políticos e assegurando seu retorno à cena política ainda este ano, diz que o interessado não poderia ser prejudicado pela enrolação propositadamente encenada por ele e seus parceiros de toga!

Só para evitar maiores frustrações futuras, atentem para o discurso de Rosa Weber, a ministra que deve ter o voto de minerva na votação deste HC, no enrosco em comento: ela votou pelo adiamento do processo e pela concessão da cautelar nos exatos termos propostos pelo defensor do réu?—?que tem o hábito de citar frases em francês para encantar terceiro-mundistas cafonas. Quando desconfiou por um momento, logo após a manifestação contrária de Alexandre de Moraes, que o caldo poderia entornar, disparou: “se eu soubesse, ficaria até às duas da manhã votando”. Ora, é o óbvio ululante que o placar de 6x5 ou pior irá se repetir em favor de Lula no mês que vem ou quando esta ladainha seguir adiante.

E ainda somos obrigados a ouvir Gilmar Mendes falar que “ninguém pode desconfiar que eu queira ajudar o PT”, sendo que até os vegetais sabem que seu intento é gerar precedentes que possam eventualmente aliviar a barra de seus compadres tucanos e pemedebistas. Pisa mas não esculacha, meu!

Esqueçam. Foi bom enquanto durou. Mas este foi mesmo apenas um ensaio no esforço de deixarmos de ser um republiqueta de (cidadãos) bananas. Falta muito. Game over. We lose!

 

Continue lendo