• Sônia Zaghetto
  • 25 Junho 2018

DE CORAGEM E COVARDIA
Sônia Zaghetto

“O homem mais pobre pode, em sua casa, desafiar todas as forças da Coroa. Ela pode ser frágil, o telhado pode tremer, o vento pode soprar através dela, a tempestade pode entrar, a chuva pode entrar, mas o rei da Inglaterra não pode entrar. Toda a sua força não ousa atravessar o limiar do casebre arruinado! “ William Pitt, 1º Conde de Chatham. Discurso na Câmara dos Comuns (Grã-Bretanha, março de 1763).*

Eventos recentes me fazem refletir sobre coragem, covardia e manipulação. São os clamores de uma parte da população por intervenção militar.

Tempos sombrios estes que vivemos. Nele, vozes estridentes exigem soluções imediatistas e rasas para problemas de natureza complexa. Espelham um pensamento cuja imaturidade é palpável. “Fomos abandonados pelas Forças Armadas”, “Quem nos salvará?”, resmungam alguns, batendo os pés no chão como crianças contrariadas que apelam aos mais velhos para resolverem seus problemas. Não atendidos, reagem com xingamentos, ofensas e palavrões, tentando mexer com o brio dos militares brasileiros, chamando-os de covardes por não se curvarem aos seus caprichos.

Confundem tudo. Coragem, nesse caso, é se manter firme perante os apelos da turba insensata cuja voz foi ampliada pelas redes sociais. Ser fiel a si mesmo custa caro, enquanto a acomodação é relativamente barata: basta ceder ao populismo de ocasião em vez da consciência superior, que mira valores mais altos.

Bravura é revestir-se da armadura da autoconfiança e permanecer de pé enquanto a ignorância bombardeia com boatos vis e toda sorte de vilanias. Corajoso é o que não se intimida com a porta estreita, o caminho árido e as pedradas da infantilidade.

Curioso é ver como funciona o pensamento mágico: clama-se pelas Forças Armadas, pedindo-lhes que salvem os brasileiros de si mesmos. A ideia é que os militares entrem, façam uma limpeza geral, deixem a casa arrumada e entreguem o poder aos civis. Se vivo fosse, diria Garrincha: esqueceram de combinar com os adversários. É que os entusiastas de soluções miraculosas não se dão conta de que a solução proposta aprofundaria a crise ao atirar o Brasil em uma situação de consequências imprevisíveis, na qual é certa a fuga de investidores e a corrosão da imagem do país no cenário internacional.

Um preço altíssimo para um ato que não resolveria o problema. Obrigatório lembrar que os políticos afogados em escândalos de corrupção não chegaram a Brasília por geração espontânea. Estão lá porque foram eleitos – e com votações expressivas. Há deputados e senadores, denunciados há décadas, que continuam a ser reconduzidos ao poder. Não é uma intervenção militar que mudará a conduta de grande parte da população que se vende por coisa pouca e, à primeira oportunidade, se lambuza com a onipresente corrupção. Tudo indica que, após alguns anos, tudo voltaria exatamente ao mesmo patamar atual, pois a revolução deveria ser no ethos, o caráter coletivo.

Nossa história comprova isso. O que vemos em 2018 é versão requentada de tempos passados. Há cem anos vivemos episódios muito parecidos, com uma população manipulada por falsificações se lançando às ruas como boiada em fúria. Basta lembrar a boataria que culminou na revolta da vacina ou o episódio das cartas falsas atribuídas a Artur Bernardes nos idos de 1921. Este reagiu colocando o país sob estado de sítio e feroz censura – convém lembrar. Já experimentamos soluções armadas, revoltas, intervenções, revoluções. Presidentes já foram depostos. E o que ocorreu tão logo se restaurou o voto? A mesma incapacidade de escolher homens decentes para conduzir a Nação. Ethos,senhores. Estamos falando de ethos.

A preguiça conduz os que desejam soluções de ruptura institucional. Uma preguiça mental, que impede raciocínio e reflexão. Os de ontem bebiam na fonte de uma imprensa oficialmente partidária – prática que subsiste nos nossos dias, diga-se de passagem. Os de hoje aderem de bom grado à manipulação no meio digital, tornando-se adeptos das soluções baratas e devotos dos disseminadores de boatos ou cultivadores da histeria coletiva. Eles e seus mestres se assemelham aos caricatos personagens de Molière na peça O Doente Imaginário: médicos sem escrúpulos que exploram a hipocondria de Argon.

E já que falamos em arte, duas obras-primas da literatura traduzem à perfeição como terminam os que cedem aos manipuladores de almas. Por dar ouvidos à língua venenosa de Iago, o mouro Otelo matou a mulher amada e perdeu a si mesmo. E Dorian Gray, ao contemplar no retrato sua face deformada pelos crimes tenebrosos, recordou-se da volúpia inconsequente com que aderiu ao pensamento decadente de Lord Henry. Oscar Wilde e Shakespeare adorariam o Brasil.

A vocação para ser tutelado é característica da covardia perante a vida. Viver e pensar como adulto exigem coragem. Um gênero de coragem que não é feito de bravatas e passionalidade, mas de razão e esforços contínuos para assumir a responsabilidade por si mesmo e pelo ambiente em que se vive.

Covardes terceirizam ações, pensamentos e decisões. Pensam e sentem por empréstimo, sem questionar. Negam-se ao autodesenvolvimento, aferrados a um comportamento imaturo. Limitam-se a repetir calúnias, a semear tolices e a dormir apavorados pelos monstros imaginários que outra mente criou para impressionar ingênuos e alimentá-los com idéias tortas. Vida de escravo voluntário. Vida de gado manso.

Por isso mesmo são incapazes de reconhecer a coragem de um homem digno ou a voz da temperança. Sua métrica é a da brutalidade. A covardia os tornou míopes e os impede de enxergar o valor dos que resistem ao canto das sereias que habitam as redes sociais.

Aprendi há muito que, para um homem covarde, a coragem soa como estupidez. Sua alma pequena não alcança as grandezas daquele que se auto-sacrifica por um bem maior. A régua curta que carregam os torna incapazes de medir a estatura de quem privilegia a estabilidade da Nação.

Arrisco um vaticínio: jamais compreenderão os versos imortais de William Ernest Henley: sou o senhor do meu destino, o capitão da minha alma. É que tal coragem moral, inabalável em meio à gritaria, é o que diferencia um ser humano de um mero bípede.


                                                                                                          ****

*”The poorest man may in his cottage bid defiance to all the forces of the Crown. It may be frail — its roof may shake — the wind may blow through it — the storm may enter — the rain may enter — but the King of England cannot enter — all his force dares not cross the threshold of the ruined tenement!”. William Pitt, 1st Earl of Chatham. Speech on the Excise Bill, House of Commons (March 1763).

Ilustração: Sandro Botticelli. Calúnia. 1495. A pintura tenta recriar uma obra perdida da Antiguidade, de autoria de Apeles. No quadro, o rei, com orelhas de burro e de olhos baixos, sem ver o que está à sua frente, ouve as envenenadas palavras que a Ignorância e a Desconfiança lhe sussurram. De pé, um homem encapuzado, a Inveja, estende seu longo braço em direção ao rei. Ele segura a Calúnia pelo pulso e esta arrasta pelos cabelos o homem caluniado. Calúnia carrega uma tocha acesa, como se viesse trazer luz sobre o caso. A Malícia e a Fraude, suas companheiras, a adornam com flores e fitas, procurando disfarçar sua verdadeira natureza. Atrás do grupo, vê-se uma figura vestida de preto: é o Remorso, que contempla a Verdade.


**Publicado originalmente em soniazaghetto.com
 

Continue lendo
  • Alexandre Garcia
  • 24 Junho 2018



No último domingo, no Mosteiro de São Bento, em Brasília, pediram-me para fazer a leitura do Gênesis, quando Deus cobra de Adão por ter comido o fruto proibido. Adão culpa Eva por tê-lo convencido; Eva, por sua vez, culpa a serpente. A serpente é amaldiçoada e o casal expulso do paraíso. Ou seja, a tradição judaica mostra que desde o primeiro homem e a primeira mulher, introduziu-se o costume de não assumir a responsabilidade e empurrar para o outro. A serpente, para convencer Eva, garantiu-lhe que o fruto iria proporcionar vantagens e poder ainda maiores que as do Éden. E fiquei lembrando os anos eleitorais no Brasil, quando serpentes prometem o paraíso para quem está no vale de lágrimas - e conseguem colher do eleitor o fruto que gera poder, que é o voto.

Na eleição para governador de Tocantins, no último dia 3, o vencedor do primeiro turno teve 30% dos votos - perdeu longe para os votos brancos, nulos e abstenções, que somaram 49%. Isso que havia sete opções. O vencedor é do minúsculo PHS, sem tempo na TV, pois não tem deputado federal. Será que os partidos vão se tocar com Tocantins? Cada vez menos o eleitor está acreditando nos políticos atuais e nas promessas, e nos partidos sem princípios doutrinários, apenas fisiológicos. A mais recente pesquisa Datafolha, nas respostas espontâneas, deu 46% indecisos e 23% votando em branco ou anulando o voto - quer dizer, 69% insatisfeitos com os atuais pré-candidatos.

Os principais partidos continuam com a mesma lenga-lenga. Não assumem que é preciso reformar a Previdência, diminuir a dívida pública consequente, reduzir o tamanho do estado e seus marajás, para tirar menos dos que pagam impostos compulsoriamente em tudo que compram. E assumir que a igualdade falada na Constituição ainda não existe. Aposentados pelo INSS recebem 40% do que ganhavam; os do setor público levam ainda mais 80% quando param de trabalhar, como no Judiciário. Entre os privilégios do serviço público está a estabilidade, férias de 60 dias para juízes. Nos tribunais e Congresso e Assembléias, nem precisa procurar o SUS; há serviços médicos exclusivos e bem-equipados. Nos tribunais, pagamos academias de ginástica e mordomos com bandejas fartas. E andam de carro oficial com motorista, o que não existe no mundo lá fora. E a PM e forças armadas a cuidar deles, servindo de babás. Ex-presidentes têm carros, motoristas, seguranças e assessores por toda vida, mesmo quem estiver preso.

Aí, a conta é sempre alta, para sustentar o estado brasileiro nos seus três poderes, em seus três níveis. Quem colhe alface, engorda porco, fabrica móveis, costura sapatos, transporta grãos, se esforça para vender, tem que pagar caro a conta do serviço público, ainda que receba serviços medíocres, porque as pontas desse serviço, no ensino, na saúde, na segurança, também sofre com a falta de meios porque a gordura inútil da burocracia consome boa parte dos impostos. E mesmo fora do estado há os que vivem dele, os empreiteiros da propina, os beneficiários dos subsídios, dos juros especiais, das desonerações de impostos - são extrativistas do estado, temerosos da concorrência e das leis de mercado, falsos liberais capitalistas. Está na hora de encerrar a fase pueril do estado benfeitor. A fase infantil que confunde cor e sexo com o necessário mérito. Mas será que vamos acertar o voto que transforme este País?

*Publicado originalmente em sonoticias.com.br (13/06/2018)
 

Continue lendo
  • Gilberto Simões Pires, em Ponto Crítico
  • 22 Junho 2018

 

PRESENÇA NA MÍDIA
Arrisco a dizer, sem a mínima chance de errar ou mesmo exagerar, que nos últimos anos, notadamente a partir do dia em que o PT assumiu o governo do nosso empobrecido Brasil, nenhuma outra empresa, seja ela estatal ou privada, foi alvo de atenção da mídia, tanto nacional quanto internacional, do que a Petrobrás.

ALVO DE ATENÇÃO
Entretanto, para tristeza do povo em geral, e muita felicidade da CORPORAÇÃO, que, literalmente, se adonou da estatal, a enorme atenção que a mídia dispensou (e continua dispensando) à Petrobrás não se deu graças a prática da boa administração, do ganho de produtividade, da competividade e/ou da rentabilidade.

CORRUPÇÃO DESVAIRADA
O fato é, para infelicidade geral, que a ESTATAL-SÍMBOLO DO BRASIL passou a ganhar maior notoriedade a partir dos primeiros depoimentos e/ou delações premiadas, que passaram a revelar, e confirmar, de forma estrondosa as até então incontáveis provas de atos de extraordinária CORRUPÇÃO DESVAIRADA, do tipo jamais visto no universo.

MÁ ADMINISTRAÇÃO
Como se não bastassem os brutais ataques promovidos, sem dó nem piedade, pelos CORRUPTOS aos cofres da estatal, também ficou muito patente a prática daquilo que pior existe em termos de administração. Tudo isto aconteceu, como já ficou mais do que provado, com o aval total do GOVERNO PETISTA, do Conselho de Administração da estatal e efetiva aprovação da Corporação-dona.

AÇÃO TRABALHISTA
Pois, no momento em o atual governo resolveu fazer da Petrobrás, ainda que continuasse estatal, começou a dar os primeiros e significativos passos para um efetivo saneamento das contas e a introdução de uma correta política de preços dos derivados do petróleo, eis que aparece uma fantástica ação trabalhista, no valor de R$ 17 BILHÕES, para ser julgada no TST.

ANTES DE PRIVATIZAR É PRECISO ESTATIZAR
Pois, para confirmar -a TRISTEZA do povo em geral e a enorme FELICIDADE da Corporação, ontem, por 13 votos a 12, a Petrobrás foi novamente surrada. Ainda que caiba recurso, a decisão caiu como uma bomba no colo dos investidores. Imagino que ficaram bem mais convencidos de que antes de pensar em privatizar a Petrobrás é preciso que a mesma seja estatizada. Ou seja, é preciso tirar o controle da estatal das mãos da Corporação-dona.
Em tempo: agora só falta o STF, no dia 26, soltar o Lula. Viva o Brasil!
 

Continue lendo
  • Maria Lucia Victor Barbosa
  • 20 Junho 2018



A esquerda brasileira é uma quimera. Característica não apenas nossa, mas que aparece na América Latina e tem causas que podem ser encontradas, inclusive, no afã de justificar nossos fracassos fazendo contraponto aos países capitalistas, notadamente, aos Estados Unidos.

Na teoria da dependência consta que somos pobres porque os ricos capitalistas nos exploram. Desculpa reconfortante para fugir de nossas responsabilidades e creditar a outros nossas desgraças. Desse modo, a tática da vitimização encontra nas falsas promessas da esquerda a sedutora utopia da igualdade.

Para a imposição da mentalidade esquerdista são criadas massas de manobra, sendo o alvo principal a juventude doutrinada na escola e, principalmente, na universidade. Sem maturidade para cotejar os fatos à luz da realidade os cérebros juvenis absorvem ralas noções marxistas e, sobretudo, palavras de ordem. Aprendem que ser de esquerda significa ser bom, defensor dos pobres, possuidor de caráter ilibado. Na direita está a “elite” maldosa, seguidora de um tal de neoliberalismo, opressora dos pobres e oprimidos que necessitam dos paladinos da esquerda para salvá-los em nome da causa, ou seja, da fé.

Não é transmitido aos jovens os horrores do comunismo, sistema que matou milhões de pessoas, sequestrou a liberdade, reduziu a maioria à miséria enquanto uma casta dirigente usufruía do poder e seus inerentes privilégios e, que por fim, fracassou. Na América Latina são, entre outros expressivos exemplos do que pode fazer a chamada esquerda para a desgraça das populações, Cuba e Venezuela.

No Brasil, o governo petista depois de quase 14 anos no poder afundou o país economicamente e corrompeu valores, tendo chegado à decadência por contas da ganância, da incompetência e da corrupção institucionalizada.

Além das massas de manobra existem também os oportunistas, que se dizem de esquerda para obter vantagens nas universidades e nos empregos loteados pelo PT por todo País. Não faltam além disso as espertas lideranças partidárias e os candidatos populistas, que em campanha são de esquerda desde criancinhas.

Note-se que nenhum de nossos partidos, esses trampolins para se alcançar o poder, se apresentam como de direita. Para evitar o estigma de fascistas ou coisa pior preferem se dizer de esquerda, centro-esquerda, centro e, no máximo, de centro-direita.

Esse esquerdismo é totalmente falso porque não temos partidos ideológicos, mas, sim, clubes de interesses. Além do mais, a chamada esquerda virou uma mistura de opiniões politicamente corretas que nada tem a ver com o marxismo. Alguns neoesquerdistas chegam a se declarar cristãos, o que deve fazer Karl Marx revirar na tumba.

O PT, que sempre foi considerado o maior partido brasileiro de esquerda, nos seus congressos nunca conseguiu definir qual era seu socialismo.

Seria o PDT um partido de esquerda? Seu candidato à presidência da República, Ciro Gomes, conhecido por seus destemperos, grosserias e insultos está no sétimo partido e mantém os pés em duas canoas: a considerada de esquerda e a que é vista como de direita.

Marina, PT de coração, esqueceu a ecologia e aceita na Rede qualquer “peixe”. Ela se tornou a menina dos olhos de FHC (PSDB), que depois de destruir a candidatura de João Dória à presidência da República parece desgostoso com o fraco desempenho de Geraldo Alckmin.

Curiosamente, o pré-candidato do PC do B ao governo do Rio de Janeiro, Leonardo Giordano, admitiu que seu partido considerado de extrema esquerda apoiou a administração do ex-governador e atual presidiário, Sérgio Cabral (MDB) e do ex-prefeito, Eduardo Paes (DEM). A combativa deputada, também do PC do B, Jandira Feghali, foi secretária da Cultura na gestão de Paes.

Muitos são os exemplos da falsa esquerda e no momento o que se vê é uma matéria gelatinosa de todos os partidos buscando freneticamente entre si alianças das mais esquisitos. Esquerda? Que nada. O que existe apenas é o lado de cima.

* Socióloga.

 

Continue lendo
  • Olavo de Carvalho
  • 19 Junho 2018

 


Desde que me distanciei do Brasil, tenho visto a inteligência dos meus compatriotas cair para níveis que às vezes ameaçam raiar o sub-humano. Não posso medi-la pela produção literária, que veio rareando até tornar-se praticamente inexistente num país que já teve alguns dos melhores escritores do mundo. Meço-a pelas teses universitárias que me chegam, cada vez mais repletas de solecismos e contrassensos grotescos, pelos comentários de jornal, pelos pronunciamentos das chamadas "autoridades" e, de modo geral, pelas discussões públicas. Em todo esse material, o que mais salta aos olhos não é o vazio de ideias, não é a estupidez dos raciocínios, não é nem mesmo a miséria da linguagem: é a incapacidade geral de distinguir entre o essencial e o acessório, o decisivo e o irrelevante. Não há problema, não há tema, não há assunto que, uma vez trazido ao palco – ou picadeiro –, não seja infindavelmente roído pelas beiradas, como se não tivesse um centro, um significado, um sentido em torno do qual articular uma discussão coerente. Cada um que abre a boca quer externar apenas algum sentimento subjetivo deslocado e extemporâneo, exibir bom-mocismo, angariar simpatias ou votos, como se se tratasse de uma rodada de apresentações pessoais num grupo de psicoterapia e não de uma conversa sensata sobre – digamos – alguma coisa. A coisa, o objeto, o fato, o tema, este, coitado, fica esquecido num canto, como se não existisse, e depois de algum tempo cessa mesmo de existir. A impressão que me sobra é a de que toda a população legente e escrevente está sofrendo de síndrome de déficit de atenção. Ninguém consegue fixar um objeto na mente por dez segundos, a imaginação sai logo voando para os lados e tecendo, embevecida, um rendilhado de frivolidades em torno do nada.

Se me perguntarem quais são os problemas essenciais do Brasil, responderei sem a menor dificuldade:

1) A matança de brasileiros, entre quarenta e cinquenta mil por ano.

2) O consumo de drogas, que aumenta mais do que em qualquer país vizinho, e que alguns celerados pretendem aumentar ainda mais mediante a liberação do narcotráfico – o maior prêmio que as Farc poderiam receber por décadas de morticínio.

3) A absoluta ausência de educação num país cujos estudantes tiram sempre os últimos lugares nos testes internacionais, concorrendo com crianças de nações bem mais pobres; num país, mais ainda, onde se aceita como ministro da Educação um sujeito que não aprendeu a soletrar a palavra "cabeçalho" porque jamais teve cabeça, e onde se entende que a maior urgência do sistema escolar é ensinar às crianças as delícias da sodomia – sem dúvida uma solução prática para estudantes e professores, já que o exercício dessa atividade não requer conhecimentos de português, de matemática ou de coisa nenhuma exceto a localização aproximada partes anatômicas envolvidas.

4) A falta cada vez maior de mão-de-obra qualificada de nível superior, que tem de ser trazida de fora porque das universidades não vem ninguém alfabetizado.

5) A dívida monstruosa acumulada por um governo criminoso que não se vexa de estrangular as gerações vindouras para conquistar os votos da presente, e que ainda é festejado, por isso, como o salvador da economia nacional.
6) A completa impossibilidade da concorrência democrática num quadro onde governo e oposição se aliaram, com o auxílio da grande mídia e a omissão cúmplice da classe rica, para censurar e proibir qualquer discurso político que defenda os ideais e valores majoritários da população, abomináveis ao paladar da elite.

7) A debilitação alarmante da soberania nacional, já condenada à morte pela burocracia internacional em ascensão e pelo cerco continental do Foro de São Paulo (aquela entidade que até ontem nem mesmo existia, não é?).

8) A destruição completa da alta cultura, num estado catastrófico de favelização intelectual onde a função de respiradouro para a grande circulação de ideias no mundo, que caberia à classe acadêmica como um todo, é exercida praticamente por um único indivíduo, um último sobrevivente, que em retribuição leva pedradas e cuspidas por todo lado, especialmente dos plagiários e usurpadores que vivem de parasitar o seu trabalho.

Se me perguntam a causa desses oito vexames colossais, digo que é a coisa mais óbvia do mundo: quarenta anos atrás, as instituições que se gabam de ser as maiores universidades brasileiras lançaram na praça uma geração de pseudointelectuais morbidamente presunçosos, que na juventude já se pavoneavam de ser "a parcela mais esclarecida da população". Hoje essas mentes iluminadas dominam tudo – sistema educacional, partidos políticos, burocracia estatal, o diabo –, moldando o país à sua imagem e semelhança. Matança, dívidas, emburrecimento geral, debacle do ensino, é tudo mérito de um reduzido grupo de cérebros de péssima qualidade intoxicados de idéias bestas e vaidade infernal. Dentre todas as gerações de intelectuais brasileiros, a pior, a mais predatória, a mais destrutiva.

Se querem saber agora por que os temas fundamentais não podem ser enxergados e discutidos na sua essência, por que as atenções são sempre desviadas para detalhes laterais e por que, em suma, nenhum problema neste país tem solução, a resposta também não é difícil: quem molda os debates públicos, por definição, é a elite dominante, e esta não permite que nada seja discutido exceto nos moldes do seu vocabulário, dos seus interesses, da sua agenda, da sua irresponsabilidade psicótica, da sua ambição megalômana, da sua autoadoração abjeta.

Enquanto vocês não perderem o respeito por essa gente, nada de sério se poderá discutir no Brasil.

*Publicado originalmente no Diário do Comércio, 3 de junho de 2011
**Publicado, também, em olavodecarvalho.org.

 

Continue lendo
  • Gilberto de Mello Kujawski
  • 17 Junho 2018

 


 Herodes, rei dos judeus, foi personalidade cruel e sanguinária, que não hesitou em decretar a morte de dois filhos e da própria esposa. Quando nasceu Jesus, apavorado com a notícia de que nascera o futuro rei, seu sucessor, ordenou a matança de todas as crianças recém nascidas.

O júbilo na Argentina das massas urbanas festejando a esperada confirmação para breve da legalização do aborto, com milhares de apoiadoras de todas as idades, inclusive de muitas bruacas horrorosas em êxtase, rindo e batendo palmas, lembrando cenas do circo romano, demonstra que o sacrifício dos inocentes ainda está vivo como motivo de júbilo para muita gente. A carnificina covarde ordenada por Herodes, está viva na memória de muita gente.

A reprovação do aborto não responde a motivos religiosos, exclusivamente. Sua condenação se apóia, de direito, em argumentos leigos sem nada a ver com religião.

O argumento religioso tem o defeito de interessar somente à população devota.Não impressiona nem interessa à população leiga,talvez majoritária.

A novidade tem nome: “a interpretação antropológica do aborto”, antecipada pelo filósofo espanhol Julián Marías. A visão antropológica do aborto acompanha o desenvolvimento do nascituro desde o primeiro momento, que é a concepção. O cúmulo da hipocrisia está em marcar data para a legalização do aborto, depois de decorridos tantos meses. Quer dizer que o feto só assume a condição de intocável pela agulha do cirurgião depois de certo tempo?Quer dizer que o nascituro só assume condição humana a partir de determinada data?

Muito ao contrário, a condição humana, pessoal, do feto, tem início a partir da concepção. Por que razão o ser humano seria diferente das outras espécies? Por que razão um mamoeiro só poderia ser considerado mamoeiro depois de crescido? E antes, enquanto tenro arbusto,não mereceria o título de mamoeiro?

Muita hipocrisia é admitir que o feto antes dos três meses pode ser sacrificado cruelmente porque ainda não tem idade para ser portador de direitos, sobretudo o direito à vida,base de todos os demais direitos.

O feto, a partir da concepção,com um só dia de idade é portador do direito à vida, devendo ser respeitado como um embrião da futura pessoa plena.

Por isso mesmo é falso sustentar que o direito ao aborto justifica-se porque a mulher tem direito absoluto sobre seu corpo. Sim, é verdade, exceto quando a mulher é portadora em seu útero de um ser vivo,uma pessoa em embrião, que deve ser reconhecida plenamente como outro ser, outro destino desde a concepção.

Ou seja, o feto no corpo da mulher não pertence à mulher, compromissada a respeitar sua personalidade desde que sente a primeira palpitação em seu ventre de outro ser humano a caminho. Não é esta a beleza da gravidez?
 

*Procurador de Justiça em MP/SP
**Publicado no Facebook do autor.

 

Continue lendo