Alex Pipkin, PhD
Depois de anos estudando comportamento humano, nas empresas, nas negociações, nas fraturas em que interesse e caráter se enfrentam, tornei-me convicto de que há um equívoco destruidor embalando nossa época. Um erro confortável, incentivado por estruturas que passaram a premiar o desvio e a proteger a irresponsabilidade. Acreditamos que o progresso é automático, que a história é ascendente, que, uma vez civilizados, estamos vacinados contra o retrocesso. Nada é mais perigoso. Nada é mais atual.
Avançamos materialmente como nunca. A medicina prolonga a vida, a tecnologia simplifica rotinas, o transporte encurta distâncias, bens e serviços ampliam o conforto até dos que constroem sua retórica sobre a escassez. Vivemos melhor do que qualquer geração anterior sob quase todos os indicadores objetivos. Mas progresso técnico não é elevação moral. Conforto não produz consciência, e abundância não produz caráter.
A história não é linear; depende de freios internos e externos, e o primeiro a se desgastar é o invisível.
Adam Smith, ao examinar os sentimentos morais, descreveu o “espectador imparcial”, essa instância interior que nos vigia e nos julga. Não queremos apenas aprovação; queremos merecê-la. A reputação não é enfeite social, é capital moral. Perdê-la deveria custar caro: estima, confiança, relações. A vergonha não era fragilidade; era engrenagem da civilização.
O que acontece quando nada mais custa?
Quando a corrupção deixa de escandalizar e passa a ser racionalizada como estratégia de poder, quando a hipocrisia vira habilidade política e a incoerência é defendida com fervor tribal em nome do pertencimento cego, algo essencial se rompe. O freio interno enfraquece porque a consciência foi anestesiada por narrativas convenientes, e o freio externo se esfarela porque a sociedade já não pune reputacionalmente o vício.
Não é preciso que prédios desmoronem para que haja regressão. Basta que a emoção substitua a razão como árbitro supremo, que a lealdade afetiva pese mais que a verdade, que a vergonha deixe de operar como limite.
A sociedade pode continuar “funcional” na superfície e, ainda assim, perder densidade moral. Permanecer conectada e tornar-se menos responsável; informada e menos lúcida.
Podemos ter inteligência artificial e autocontrole rudimentar, infraestrutura moderna e maturidade ética infantil. Civilização não se mede pela sofisticação dos instrumentos, mas pela capacidade de conter impulsos.
Quando a consciência já não constrange e a reputação já não importa, o custo do vício desaparece. E, quando o vício deixa de custar, ele se expande vergonhosamente.
Não voltamos às cavernas. Voltamos à infância moral. Mesmo com aplicativos no bolso, retórica sofisticada e investigações que parecem não ter fim.
Talvez uma das ironias mais agudas do nosso tempo seja a de que enquanto se eternizam inquéritos que prometem salvar a ordem, normaliza-se a erosão silenciosa dos próprios critérios que sustentam a civilização.
O perigo não é apenas regredir. É regredir acreditando que estamos em uma era “progressista”.