• Valdemar Munaro
  • 02/03/2026
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Teologia fajuta


Valdemar Munaro

                 "Os que maquilam as mulheres causam menor mal (porquanto pouco se perde com não as ver ao natural), do que os que têm por profissão abusar, não de nossos olhos, mas da nossa inteligência, abastardando e corrompendo a própria essência das coisas".

            Miguel de Montaigne (1533 – 1592), filósofo renascentista francês, autor da passagem citada, referia-se à oratória que, no entender de Sócrates e Platão, foi inventada astutamente para enganar e adular. A arte retórica floresceu, maiormente, conforme Montaigne, nos lugares e tempos em que ignorantes e vulgos detinham todo o poder; revelam, por conseguinte, a bancarrota intelectual e moral da cultura em que se alberga. Quando a civilização grega se corrompeu, a sofística proliferou como rato e se tornou um instrumento para acalmar ou excitar populachos. Semelhante fenômeno se deu na civilização romana: quanto mais apodrecido o império se tornava, mais crescia a orla de oradores. Se pelos frutos se conhecem as árvores, grandezas adquiridas na base de oratórias e salamaleques, serão sempre ocas e mentirosas.

"Por que, continua Montaigne, antes de julgar um homem o encaramos já todo empacotado? Nada do que nos mostra é dele e ele esconde tudo o que pode esclarecer-nos a seu respeito. O que precisamos saber é quanto vale a espada e não a bainha, porquanto talvez não demos grande coisa por ela. É necessário julgar o homem em si e não pelos seus adornos. Como diz espirituosamente um filósofo do passado: 'Sabeis por que o achais grande? Porque o medis com o pedestal!' O pedestal de uma estátua não é parte integrante dela. Devemos medi-lo sem pernas de pau, nem riquezas, nem dignidades: em mangas de camisa. É o seu físico adequado às suas funções? É ele sadio e alegre? Como tem a alma? Bela, capaz, bem-dotada sob todos os aspectos? Tem a fortuna influência sobre ela? Perturba-se ante um perigo iminente? É indiferente ao tipo de morte que, a cada instante, a pode atingir? É calma, igual, satisfeita com a sorte? Eis o que é preciso procurar saber e nos permite avaliar as diferenças existentes entre os homens: 'É sábio e sabe dominar-se? É capaz de resistir às paixões e desprezar as honrarias? Fechado por inteiro dentro de si mesmo, semelhante a uma bola perfeita que nenhuma aspereza impede de rodar, é influenciado pela fortuna?' Um tal homem está quinhentos braças acima dos reinos e ducados; é ele próprio o seu império" (Ensaios).

A CNBB, entidade episcopal brasileira similar a sindicato, promove outra vez, ora ocorrendo, a reiterada Campanha da Fraternidade neste ano focalizada nuclearmente na falta de moradia que machuca os pobres. O texto que a advoga vem acompanhado de sôfrega nervura teologal e parco convite à contrição e conversão. Suas inquirições beiram a um estelionato evangélico de pouco efeito evangelizador. Chove no molhado. Seus arrazoados quaresmais atendem prioritariamente aos apelos e dramas econômicos, sociais e políticos já eficazmente enraizados na vida do povo.

Passam a impressão, outrossim, de serem redatores cabeçudos e soberbos, visceralmente comprometidos e solidários à situação dos brasileiros sem moradia e sem vida digna no país. Para esses teólogos, porém, a causa da miserabilidade habitacional espraiada pelo Brasil é exclusivamente atribuída ao famigerado neoliberalismo, um monstro sem rosto e sem cauda, a serviço de ricos e abastados.

O texto não menciona, com vírgula sequer, a lama imoral socialista que também assola o continente em que habitamos. Estão na lista vermelha dos empobrecidos sem eira nem beira as nações como o Brasil, a Venezuela, a Nicarágua, Cuba etc., enroscadas nas teias da corrupção e da canalhice de seus governantes inescrupulosos e de suas instituições locupletadas. Tampouco o escrito desses teólogos menciona o roubo aos aposentados e desvalidos, as fraudes dos banqueiros, os gastos exorbitantes e as mordomias com dinheiro público de privilegiados que se autoproclamam defensores de oprimidos.

As pitadas bíblicas agregadas ao texto da Campanha, aparecem para enfeitar ou lambuzar o conteúdo. Com oportunismo, as Campanhas da Fraternidade viajam de carona na liturgia quaresmal cometendo o delito de se desviar de sua finalidade primordial: a Páscoa de Cristo. Ao invés de nos conduzir à interioridade e ao arrependimento, o texto derrama sobre os fiéis, carradas de julgamentos e moralismos travestidos de engenharias que atiçam vontades e energias a lutas exteriores e sociais.

Certamente, o déficit habitacional é uma causa justa a ser defendida, mas não é preciso ser católico, nem cristão para fazê-lo. Dispensam-se, portanto, empurrões 'teológicos' que jogam os crentes cada vez mais no circo da arena política. O estrangulamento teológico se acha no atrevimento hermenêutico abjeto que submete o Evangelho de Cristo à mera dramaturgia histórica e temporal dos homens. Em qualquer situação em que nos encontrarmos, desde há muito, já estamos suficiente e inevitavelmente enlameados nessa miséria política, econômica, religiosa, moral, educacional e jurídica que nos cerca. A ousadia desses teólogos, porém, é de, ao invés de nos soerguer, persistir em nos levar cada vez mais para o interior da cova. É de arrepiar!

A 'visão cristã' que orienta tais ensinamentos está restrita à solução dos problemas habitacionais. Semelhante promessa também faz e fez, às turras, o marxismo propalador de uma fraternidade futura, surrealista, jamais realizável. "Séculos passarão, escreveu Dostoievski, e a humanidade proclamará pela boca de seus sábios e de seus intelectuais que não há crimes e, por conseguinte, não há pecado; só há famintos. 'Nutre-os e então exige deles que sejam virtuosos!'".

Os teóricos da 'Fraternidade' tomam o Cristo como um ressentido ou um lamuriante andarilho que caminha pelas estradas da Galileia, Samaria, Judéia e afins, maldizendo a gruta em que nasceu, a ida ao Egito quando guri, as inospitalidades em Nazaré, Cafarnaum e Jerusalém, etc. Mas esse não é o Evangelho de Jesus. Não encontramos nele lamentos de Maria, nem de José, nem de Isabel, nem de Zacarias, nem de João Batista, muito menos de Jesus.

Os queixumes são exclusivamente nossos, da escola do pecado, que nos ensina a diatribe do vitimismo, da injustiça, da violência, da vingança. "Não há homem justo sobre a terra" (Ecl 7, 20 e Sl 14 ), diz a Escritura, 'todos somos culpados' (cfr Rm 3, 9s); por conseguinte, tudo o que falarmos, fizermos ou produzirmos virá contaminado de malícia e soberba.

O Autor da vida, ao invés (não o supremo modelo como supõe a CF), O ÚNICO INOCENTE, "por um iníquo julgamento foi arrebatado e sem que haja cometido injustiça alguma, nem sua boca tenha havido mentira, foi sepultado ao lado de facínoras" (Cfr Is 53). Ignominiosamente crucificado, ocupa um lugar absolutamente oposto ao dos homens, o nosso, em cuja moral justiceira e aleijada, mistura-se a avareza, a mentira, a indolência, a preguiça, o crime, a inveja, o ressentimento, o ciúme, a corrupção, a vingança e a morte.

Se nos compararmos a Cristo, veremos que ninguém é santo, ninguém é puro, inclusive os 'teólogos' e/ou clérigos que nos ensinam. Todos viajamos no mesmo trem do pecado e da iniquidade. Morreríamos empalados em nossa miséria e podridão, mesmo quando guarnecidos por confortáveis moradias, se Ele não tivesse, gratuita e amorosamente, vindo ao nosso encontro. É uma teologia fajuta a que desconhece, de um lado, a necessidade imprescindível da graça de Deus e, de outro, o poder do pecado e da morte sobre a vontade e inteligência humanas. Somos castigados pelo próprio mal que fazemos. Como dizem Platão e o poeta Hesíodo, 'nasce o castigo no momento mesmo em que nasce o pecado'. "A maldade, acrescenta Montaigne, engendra os próprios tormentos. O mal recai em quem o faz. A vespa, ao picar, perde o ferrão e com este as suas forças, para sempre: deixa a vida no ferimento que provoca".

Sendo assim, estamos todos involucrados nas tramoias da maldade e a única misericórdia que nos pode livrar dela, é a Páscoa e o perdão incondicional de Jesus. "Se ainda não sabemos que Jesus de Nazaré ressuscitou dentre os mortos então ainda não sabemos coisa alguma sobre a história" (J. Broadus).

Segundo o historiador J. Weiss, a tática é velha. Também os fariseus queriam cancelar Jesus e todos os fatos ligados a Ele. Mil outras vezes foi cancelado da face da terra e seu túmulo trancado conforme os tempos: os seus guardas, o estado, a religião, a filosofia, a ciência, a democracia, a aristocracia, o proletariado, a nação, o racionalismo, a prudência. Mas o Cristo guardado no túmulo ressuscitou. Muitos homens foram amados no seu tempo: Sócrates por seus discípulos, Júlio César pelos seus legionários, Napoleão por seus soldados, mas hoje estes estão inexoravelmente no passado. Nenhum coração palpita mais por seus ideais. Ninguém pensa em blasfemar a Sócrates, a Júlio César, a Napoleão porque não têm mais eficácia. Jesus, ao invés, é ainda hoje amado ou blasfemado. Nenhum vivente é tão vivo quanto Jesus.

O ressuscitado não pode ser tratado, portanto, como mera ilustração à nossa fraternidade como insiste fazer a teologia da libertação. Ele é e só pode ser a sua causalidade. Não nos peçam práticas fraternas sem nos dar o Cristo para o podermos ser! Os santos também seriam tão grandes egoístas e abestalhados quanto o são os demais homens, se não estivessem enxertados na vida de Cristo.

Que significado tem o 'Pretório' senão o de ser um espelhamento de nossos tribunais e poderes judiciais infestados de malícia, escárnio e podridão? Que significado tem o 'Jardim do Getsêmani' senão o de ser um espelhamento das nossas falsas lágrimas, traições e abandonos? Que significado tem o 'Gólgota' senão o de ser um espelhamento de nossas ignominiosas condenações, crimes, violências e cinismos?

Aquele que 'habitou entre nós', o Justo e Santo, sem obrigações e sem mérito algum de nossa parte, pagou a dívida que nos conduziria, fatalmente, ao inferno. 'Quem nada deve, tudo paga; quem nada paga, tudo deve' (S. Anselmo). A Páscoa, sem a qual, tudo ruiria, é o maior dos bens que Deus poderia dar à humanidade. O resto é palha, como disse S. Tomás.

A que serviriam nossas casas bem montadas e guarnecidas sem o Cristo ressuscitado? O moinho, segundo a visão hegeliana, faz a histórica girar para cima e para baixo num movimento cíclico sem começo e sem término. Cedo ou tarde, segundo Hegel, escravos se tornam senhores e senhores escravos. A história é um monstro perpetuando-se no seu próprio suicídio, uma gaiola chumbada no tempo e sem porta. Somente Cristo a quebrou.

Milhões de seres humanos buscam, inconscientemente, todos os dias, espantar sua miserabilidade. Casas de ouro ou de barro não evitam que vivamos ocamente, sem amor e sem sentido. Os teólogos da libertação veem os dramas humanos pela vitrine da epiderme. Cristo, porém, não nos vê, nem nos trata pela casca, se somos estamos vivendo em casebres ou mansões, se andamos descalços ou a cavalo, carroça ou BMWs. Ele conhece nossa alma e quer preencher o vazio que há nela.

As comunidades cristãs nascentes não eram apenas lugar de culto e oração; eram também porto seguro a desamparados materiais (Cfr. At 2, 44). Martinho Lutero, ao saber disso, passou a desprezar os pedintes, por achar que o ato de quem só quer esmola é vagabundagem ou não inserção comunitária. Igrejas realmente fraternas farão muitos perdidos encontrar seu ninho material e espiritual.

Em Betânia, na região dos amigos Lázaro, Maria e Marta, Jesus entrou, certa ocasião, na casa de Simão, o leproso. Veio-lhe ao encontro uma mulher e derramou perfume caríssimo sobre sua cabeça. Indignados, 'amantes dos pobres' e justiceiros lamentaram o desperdício, mas Jesus lhes disse: 'ela praticou uma boa ação para comigo... Pobres sempre tereis e quando quiserdes podeis lhes fazer o bem' (Mc 14, 5s).

Unindo-se a Cristo, o cristão aprenderá como amar e viver a justiça. Os teólogos da libertação priorizam as regras morais e pretendem extrair delas o milagre do encontro com Cristo e a vida nova, quando, na verdade, fazem o movimento inverso ensinado por Jesus. Seus insistentes apelos à prática da justiça desconectados de Cristo, se assemelham a imperativos kantianos: latem como cães encastelados sem assustar os passantes.

Santa Maria, 02/03/2026.

*                      O autor, Valdemar Munaro, é professor de Filosofia.