Percival Puggina

13/12/2025

 

Percival Puggina     

                            Durante curto tempo, quando ainda bem jovem, acreditei, ingenuamente, que certas correntes políticas nacionais buscassem os mesmos fins, nobres e bons, mediante meios distintos.  Bem melhor do que as palavras, os fatos da vida me ensinaram, depois, que os meios são distintos porque os fins são incomparáveis. No fundo não é tudo igual: de cara, coração e mente, são bem diferentes.

Quando a esquerda governa, toda crítica é recebida como uma punhalada. E mesmo a atual oposição brasileira, de gente silenciada e intimidada, de poucos reconhecimentos faciais e meia dúzia de canais digitais, é vista como se fosse perigosa falange de hunos que ataca por todos os flancos e modos. Até parece que a esquerda, quando fora do governo, se caracteriza pela autocontenção e pela fidalguia, não é mesmo? Ouçam o Lula por cinco minutos e perceberão, pelo dito e aplaudido, a ausência de autocontenção e bons modos, seja na turma, seja no governo.

Imagine um plenário, um conselho, um colegiado onde o bloco majoritário se situe entre a esquerda e a extrema esquerda, e resulte suficientemente indissolúvel como para fazer o que bem entenda. Quais as possibilidades de não ocorrerem, ali, abusos de poder, esmagamento da minoria, descolamento da realidade e mudanças das regras do jogo para atender conveniências atuais e futuras dessa “maioria de ocasião” (expressão com que Joaquim Barbosa caracterizou a maioria formada no STF de seu tempo)?

No Supremo Tribunal Federal brasileiro, independentemente de quem venha a ser o substituto de Luís Roberto Barroso, os sucessivos mandatos presidenciais petistas permitiram ao partido formar um bloco que hoje se compõe de dois ministros com origem tucana e sete ministros indicados pelo PT. Perfeito subproduto do Pacto de Princeton. A provável dissensão fica com a divergência aberta pelo ministro Fux e com os dois indicados pelo ex-presidente Bolsonaro. Infelizmente, o resultado vem sendo aquele que resultava previsível. O tribunal assumiu protagonismo político, tem estratégias, criou necessidades excepcionais para justificar o abandono de limites e o arrepio das regras. Instituiu uma democracia de povo silencioso e colocou o parlamento em regime semiaberto, sujeito a cautelares.

Tenho certeza de que o leitor destas linhas sabe por que chamo esse regime de semiaberto. Mas, medidas cautelares? Sim, porque é de conhecimento geral que o foro especial por prerrogativa de função (o tal foro dito “privilegiado”) coloca numerosos congressistas numa situação de dependência perante o STF. Sua inclusão em inquéritos e ações penais que ali tramitam ou encalham e a mera possibilidade de que venham a estar futuramente nessa condição, impõem a inúmeros parlamentares uma cautela cujas consequências são semelhantes às medidas restritivas de direitos inerentes à representação.

Os males de nossa democracia têm nisso uma causa essencial. Como em sociedades de massa não existe democracia sem representação, inativar a representação, apequenar-se ela ou ser ela apequenada, desqualifica a Política tanto quanto ignorar denúncias e perseguir denunciantes desqualifica a Justiça.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

04/12/2025

 

Percival Puggina

 

            Nada é tão danoso à política brasileira quanto o Centrão. Sim, para a política, o centrão é pior do que o PT porque o PT é previsível. Ele sempre agirá em conformidade com suas péssimas convicções. Já o Centrão é ardiloso, oportunista e sempre agirá em conformidade com seus variáveis interesses. Diferentemente do que por vezes é dito, com mais da metade do Senado, o Centrão não é o fiel da balança, ele é o infiel que não merece confiança.

Ontem, 03 de dezembro, quando soube da exótica decisão do ministro Gilmar Mendes, acomodei-me para assistir na TV à rebelião do Senado. Vi Davi Alcolumbre, cacique do Centrão, ler sua manifestação enquanto olhava para o plenário rotineiramente vazio. Ele conseguia mencionar nominalmente os poucos presentes. Ouvi alguns discursos de membros da bancada oposicionista, justamente indignados, e um do senador Randolfe Rodrigues, surpreendente, reprovando a intromissão do ministro em matéria eminentemente legislativa.

Fiquei pensando em gritar um e-mail ao senador Alcolumbre, dizendo-lhe que convocasse uma sessão deliberativa extraordinária, que chamasse todos os senadores a Brasília, que reunisse a imprensa para uma coletiva (como fez, por conta própria, pequeno bloco de oposicionistas), que atravessasse a rua acompanhado de alguns líderes e fosse, expressamente, tomar satisfação do ministro Edson Fachin sobre o ataque absurdo praticado por seu colega. Mas por que Alcolumbre faria isso, se teve em mãos requerimento com 41 assinaturas para dar início ao processo de impeachment do ministro Alexandre e disse que não o faria mesmo ante 81 assinaturas?

O silêncio dos senadores petistas mostra o compadrio que mantêm com a Corte. A omissão do Centrão, mostra a tibieza de um tipo de política que se criou no Brasil como erva daninha, atraindo uma fauna humana que a prudência recomendaria, ao eleitor atento, manter longe do poder.

Aludir ao risco de um possível uso abusivo do impeachment para justificar essa invasão ao Congresso é completo disparate quando estamos tratando de um dispositivo que, em 75 anos, nunca foi usado contra ministro do STF. E se hoje está em cogitação, é por motivos que milhões de olhos veem e milhões de corações sentem.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

03/12/2025

 

Percival Puggina

 

         ... e do Estado de Direito que se desmancha no ar, porque nada mais é sólido. Sim, eu sei, Marx dizia diferente, mas fazer o quê, se nada mais é sólido, mesmo?

Hoje, 3 de dezembro de 2025, senti-me novamente espoliado, privado de um direito que todo cidadão brasileiro tem desde 1950, por força da Lei nº 1079 de 10 de abril de 1950. Na ocasião, chegava a seu final o mandato do presidente Eurico Gaspar Dutra e a disputa eleitoral se travava entre o ex-presidente Getúlio Vargas e o brigadeiro Eduardo Gomes. Em tempos de gatos escaldados pela ditadura do Estado Novo, a lei em questão dispôs sobre os crimes de responsabilidade do presidente da República e outras autoridades, entre as quais os ministros do STF, e atribuiu a todos os cidadãos o direito de propor impeachment nos casos previstos.

O ministro Gilmar Mendes, sem voto de ninguém, interveio nesse direito para transferir ao Procurador Geral da República algo que, há 75 anos, pertence a 155 milhões de pessoas! Nunca tantos foram os lesados... Ficam assim blindados os senhores ministros e membros do Poder Judiciário até que nova emergência surja e o velho casuísmo, que já usou farda e hoje veste toga, tire outra mágica da cachola ou da cartola em favor próprio.

A democracia dos sem voto funciona submetendo quem a pode atrapalhar. Na atualidade, são três pessoas: o desacreditado Hugo Motta, presidente da Câmara, o enredado Davi Alcolumbre, presidente do Senado, e, para fins de não haver projeto de anistia, esse estuário de virtudes que é o deputado Paulinho da Força. Pronto! O resultado está diante dos nossos sentidos: essas três pessoas travam a atividade parlamentar de 594 congressistas na representação de todos os cidadãos. Para acalmar as inquietações dos senhores ministros do  STF, os três funcionam melhor do que qualquer ansiolítico.

Minha consciência está tranquila. Em artigo de abril de 2015 escrevi sobre a elasticidade que vinha caracterizando as interpretações da Constituição por um Supremo já com maioria indicada pelo PT e as consequências disso em caso de vitória da direita em 2018:

“Que necessidade terá de assentos no parlamento, para fazer oposição, quem compôs, dentro de casa, como que em reunião de diretório, um STF a que pode chamar de seu?”

Mil perdões, acertei. Em sequência, desde 2018, escrevi 120 artigos sobre excessos do Supremo. A decisão do ministro Gilmar Mendes, que certamente será referendada pela Corte, é provisória, saibam. Se nova situação de emergência surgir como resultado da eleição de 2026, novas medidas serão adotadas, mas fique tranquilo o leitor destas linhas: a Corte tem insistido em que não lhe falta coragem para qualquer sacrifício em defesa da “democracia” e do “Estado de Direito”.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

30/11/2025

 

Percival Puggina          

                Não é porque algum professor me contou que conheço a história dos governos militares, mas porque estive bem vivo, jovem e atento no decurso dos acontecimentos.

Entrei na faculdade de Arquitetura da UFRGS aos 19 anos, em março de 1964 (remember the date?) e já atuava na política estudantil havia cinco anos. Quando o AI-5 foi editado, no dia 13 de dezembro de 1968, eu tinha terminado os cinco anos do curso, estava esperando os registros profissionais e ia casar.

Um quarto de século mais tarde, muita água corrida sob a ponte, conheci Jarbas Passarinho. À época, ele era o mais idoso que falava, em longas e proveitosas conversas, olho no olho, num gabinete do Senado; eu, o mais  jovem que ouvia a história por um de seus autores. Ele tinha sido membro do Conselho de Segurança Nacional onde se concentrava a linha dura que decretou o AI-5. Sabia muito, mas isso é outra história.

Com tais motivações e contradições, acabei lendo muito sobre causas e consequências daquele ato institucional. Tal conhecimento dá nitidez à minha percepção de seu espelhamento na situação atual. Ou seja, reproduzindo o que aconteceu em 1968 contra a esquerda que pegou em armas, a atual linha dura do STF “formou maioria” para assumir o protagonismo da política contra a direita desarmada. Com o poder das canetas, compôs sua narrativa, se impôs ao Congresso, se opôs ao governo Bolsonaro e calou os “manés”.

Nesse período, a direita emergente passou a ser vista como perigosa pelos que se proclamavam vítimas dos governos militares. Com Bolsonaro, porém, ela se popularizava, identificando-se com conservadorismo e livre mercado, ingressando numa fase de afirmação de princípios e valores cristãos, em antagonismo à agenda estatista, revolucionária, antiocidental e identitarista da esquerda.

O inusitado protagonismo político do Supremo se deveu, então, à expansão da direita, à retração da esquerda desacreditada após os insucessos e escândalos de três mandatos consecutivos do petismo, e à numerosa maioria oposicionista no STF. O ativismo ganhou o nome de papel “contramajoritário” do Tribunal. Como a palavra final da última instância do Judiciário é a coisa mais definitiva do país, o Supremo, politizado, foi absorvendo incumbências institucionais e ficando mais e mais parecido com o Conselho de Segurança Nacional durante os governos dos militares. A Primeira Turma é seu núcleo “linha dura”.

Ao longo da história universal, sem exceção, poderes que tudo podem trazem às próprias mãos todas as decisões de seu interesse. E a autoritária política sem voto das togas vai aumentando a semelhança com a política autoritária e sem voto das fardas... Agora, como antes, sem a anistia ampla, geral e irrestrita não há retorno bom às liberdades constitucionais e à democracia.

Na melhor tradição do Ocidente, Justiça e Política podem coabitar, mas não devem dormir na mesma cama. O AI-5 fechou por dez meses o Congresso Nacional que quis preservar sua independência. Já há alguns anos, salvo honrosas e dignas exceções, intimidado pelo poder que tudo pode, a despeito dos bravos e livres, a maioria do Congresso terceirizou essa independência. Entregou os dedos da representação para preservar os anéis da reeleição.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

22/11/2025

 

Percival Puggina 

            O silêncio do povo é o diploma de formatura das tiranias. Quando as pessoas pararem de falar, quando manifestações públicas forem proibidas, ficará certificado que a tirania se graduou. O silêncio nacional será o tributo que lhes terão prestado os não cidadãos. São tristonhas e sombrias as sociedades comunistas onde o Estado é tudo para todos. Não queremos isso para nosso país!

No Brasil, os direitos civis e as liberdades individuais estão sendo relativizados. Isso está gerando, em muitos, insegurança jurídica e um silêncio de desistência, desesperança, desânimo. Cale-se o povo! Tenho observado manifestações desse fenômeno. Num círculo qualquer, perante o assunto “situação nacional”, muitos não falam mais. Murmuram, deixam cair os braços, sacodem a cabeça. As fisionomias se tornam expressões vivas de um triste desalento cujo futuro é algo como Habana Vieja.

Quer dizer, senhores, que o soberano não é mais o povo? Pergunto: restarão, então, a autocensura e o silêncio, filhos do medo, subprodutos da censura e irmãos gêmeos do absenteísmo eleitoral? Os escombros urbanos e humanos de Habana Vieja são resultado do estatismo bruto e do sempre estúpido comunismo, a cujas parcerias nos empurram as estratégias políticas e geopolíticas em curso.

Enquanto descreio dos tiranos, aprendizes ou diplomados, eu continuo acreditando na liberdade, na democracia e na política feita por democratas.  Ante o fiasco da COP 30, símbolo das pretensões estatais, eu reconheço a liberdade como a mais barata e limpa forma de energia para vivificar uma sociedade. Ante tarifas e tarifaços, eu refugo e amaldiçoo os casuísmos e artimanhas que derrubam o Estado de direito, trazem descrédito à democracia, corrompem as instituições do Estado, vão transformando a Constituição de Ulysses Guimarães em lojinha de conveniência e desmoralizam o país perante o Ocidente democrático.

Na percepção do poder que se fez supremo na República, é dele a última palavra. Ora, última palavra é a que encerra a conversa, certo? Depois dela ninguém fala, certo? Ela impõe silêncio, certo? Errado! Três vezes errado! O povo fala sempre. Há limites legítimos para sua ação, contudo, por mais que desagradem ao regime instalado são inerentes à dignidade humana e ao regime democrático as manifestações, as opiniões, as críticas, as cobranças, a tarefa de formação das consciências e o clamor por respostas negadas a perguntas tão lógicas quanto inconvenientes.

É ainda mais importante registrar isso quando a maior parte da representação popular no Congresso Nacional recua ante qualquer demonstração de enfado ou desagrado provinda do lado sul da Praça dos Três Poderes. É ainda mais importante fazê-lo, também, quando tantos se sentem capturados num labirinto distópico, sem saída. Ali, tudo que importa é sugado por uma esponja de prerrogativas e resolvido em reuniões reservadas, sem agenda nem ata, onde estratégias políticas e jurídicas são servidas como hors d’oeuvres de descontraídos jantares.

Devemos, então, buscar alento, respirar o ar dos livres, dar asas ao pensamento, cientes e conscientes de que há um Senhor da História e de que a Ele, o Verbo, pertencem a primeira e a última palavra. Enquanto Ele quiser, amanhã será um novo dia.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Perciva Puggina

17/11/2025

 

Percival Puggina

         Nas encrencas típicas de republiqueta bananeira em que o país se enfia, volta e meia a frase “Nós, que lutamos pela democracia...” é pronunciada com poses de estadista por membros do consórcio governante. Que é isso, companheiro? Pra cima de mim?

Desmentidos a essa alegada luta pela democracia são abundantes, inclusive por participantes da atividade clandestina que, mais tarde, se tornaram honestos historiadores do período. A balela da luta armada pela democracia requer relação inescrupulosa com a verdade.

O mais interessante – quase ninguém com menos de 70 anos sabe disso – é que esses terroristas e guerrilheiros tiveram a oportunidade de proclamar à nação, em cima dos acontecimentos, quem eram e o que pretendiam. O regime que combatiam lhes deu acesso a todos os grandes meios de comunicação em rádio, TV e aos jornalões de então. Poucos momentos e raros documentos foram tão importantes para a história do período quanto o que resumirei a seguir.

O mês de setembro de 1969 iniciou em plena vigência do AI-5. O presidente Costa e Silva sofrera um AVC e o Brasil era governado por junta militar. Duas organizações guerrilheiras, a ALN e o MR-8, haviam sequestrado, no dia 4, o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, e imposto condições para libertá-lo: soltura de 15 presos políticos e publicação e leitura, “na íntegra, pelos principais jornais, rádios e televisões” (sic) de um manifesto que haviam redigido.

Despachar os presos para os destinos combinados, era fácil, mas autorizar a ampla reprodução da catilinária dos sequestradores era constrangedora rendição... Contudo, a execução do embaixador por quem o havia sequestrado seria um mal maior. E a junta militar se rendeu.

Assim, ao longo do dia seguinte ao sequestro, em diferentes horários, a nação inteira leu, ouviu e assistiu o texto redigido por Franklin Martins, um dos autores da operação. Oportunidade preciosa, dourada, única para guerrilheiros e terroristas dizerem por que lutavam, afirmarem seus compromissos e cobrá-los do governo, não é mesmo? Qual o quê! O documento (leia a íntegra em "Charles Burke Elbrick" na Wikipedia) foi uma xingação em que os revoltosos falaram do que entendiam – ideologia, violência, revolução – e do que faziam – “justiçamentos", sequestros, assaltos. Não há uma única menção às palavras democracia e liberdade.

O texto acima reproduz artigo que escrevi de 11 de janeiro de 2016, relembrando os fatos de 1969. Aquela “luta pela democracia”, da qual tantos fazem fila para se vangloriar, só retardou o processo político. E se tivessem vencido? Bem, teriam antecipado para pior, em meio século, o estrago que passaram a produzir a partir de 2003.

Para saber a que distância andamos das liberdades inerentes à democracia, sem a qual não há Estado de direito, pense nestes males de consumo forçado, disponibilizados pelo regime em vigor. Pense em Congresso de maioria intimidada e tímida, com medo até da sombra projetada pelo lado direito da Praça dos Três Poderes (STF) e dependente das emendas parlamentares proporcionadas pelo seu lado esquerdo (Palácio do Planalto). Pense em eleições com dogmas (em 2022 eram os dogmas das vacinas, das sagradas urnas sem impressora e da vida imaculada de Lula da Silva). Pense em censura (inclusive prévia), em multidões com tornozeleiras, em presos políticos, em exilados, em criminalização das opiniões, em obstinado e obcecado controle das redes sociais e plataformas. Pense em direito penal do inimigo; pense em todas as perguntas lógicas que ficam sem resposta e no silêncio com que tais silêncios são acolhidos. Pense, então, no jornalismo militante, também ele, de exceção em exceção, tornando-se cortesão do regime. E me digam se isso é próprio de uma democracia.

Nem em seus melhores devaneios nos anos 60 do século passado, Franklin Martins imaginaria tão amplo elenco de sucessos para sua revolução com meios de então.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

05/11/2025

 

Percival Puggina

 

         Parafraseando ministros do STF, as imagens dos acontecimentos do dia 28 de outubro no Rio de Janeiro não registram um piquenique no morro. Não eram jovens em retiro espiritual buscando energia na favela, mas faccionados do Comando Vermelho, portando armamento pesado e abrindo fogo contra a polícia. Portanto, dizer que houve uma chacina não é apenas retórica de boteco ou fake news. É corrupção, na pior de suas expressões: corrupção da Verdade.

Como seria fácil prever, a opinião pública, quanto mais próxima de suas causas e consequências, louvou a operação policial. Nem se Lula levasse para horas de conversa um “engradado” de cerveja (como aqueles que existiam antigamente), isso convenceria um morador da favela de que a operação foi coisa ruim. Quem se concede um padrão de vida como esse da elite que domina o Estado, pensa e age a uma distância estratosférica da favela.

Poucas pessoas sabem que o Rio de Janeiro tem um Mapa do Crime que permite, a todo cidadão, identificar os bairros mais perigosos, os trechos mais hostis dos bairros mais inseguros e os horários em que todo o anjo da guarda prudente desaconselha andar por certos locais.

No Brasil, o Estado inferniza a vida de uma família inteira por bate-boca no aeroporto (e proíbe que as imagens sejam vistas), tornozeleira é peça de vestuário para milhares de cidadãos de bem e há um pacote de acusações criminais pronto para quem emite opinião contrária ao gosto do Estado. No Brasil, uma pessoa virtuosa, exemplar, pode viver um inferno por, supostamente, ter integrado comitiva de uma viagem que ela poderia ter feito, mas não fez, e participado de uma reunião da qual não participou. No Brasil, o Estado pode tudo contra todos, menos contra os verdadeiros criminosos. O Estado impõe sigilos de cem anos, silêncios a quem tem voz, cegueira a quem tem olhos de ver e trevas a quem tem luz própria.

Aos 24 anos, enquanto estudava Direito em Coimbra, Gonçalves Dias (o poeta) escreveu a “Canção do exílio”, na qual arde a saudade das altivas palmeiras onde sabiás exerciam seu direito natural de cantar em liberdade.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

*           Ilustração gerada por inteligência artificial (GPT-5, da Open AI)

Percival Puggina

01/11/2025

 

Percival Puggina

 

         Foi o ministro Gilmar Mendes quem primeiro usou a expressão “grande contexto” para costurar ao 8 de janeiro de 2023 alguns acontecimentos ocorridos durante o governo Bolsonaro.

Ao votar num dos três primeiros julgamentos da Ação Penal dos atos do 8 de janeiro, o ministro sustentou em seu voto a necessidade de “...ter a perspectiva de todo esse contexto onde estamos inseridos. Nós estamos aqui para contar uma história que é uma história da sobrevivência da democracia. (...) E isso tem a ver com todo o contexto que permitiu essa resiliência, o papel do Supremo Tribunal Federal, o papel da Justiça Eleitoral”. Na sequência, Sua Excelência passou a pinçar, desordenadamente, retalhos para compor o referido contexto. Incluiu eventos tão avulsos no tempo quanto a tentativa de explosão de um caminhão de gasolina nas proximidades do aeroporto de Brasília; a invasão da PF de Brasília para soltar o cacique Serere Xavante no dia da diplomação de Lula; o discurso de Bolsonaro em 7 de setembro de 2021, o vídeo da reunião ministerial de 22 de abril de 2020 (aquela que ficou conhecida pelos palavrões e pela animosidade aos membros do STF).

Desse atelier de costura judicial resultou uma colcha de retalhos que, mais recentemente, atende pelo nome fantasia de “trama golpista”. Diga a etiqueta o que disser, parece estarmos longe de um produto que, levado às vitrines, vá encontrar comprador. Entre o primeiro acontecimento listado como golpista pelo ministro Gilmar Mendes e o 8 de janeiro de 2023, transcorreram 991 dias! Para lhe dar validade, seria necessário aceitar que o governo instalado em 1º de janeiro de 2019, com a ideia fixa de dar um golpe de Estado, permitisse que anos, meses e dias se escoassem com meia dúzia de ações desconexas e incapazes de produzir o fim a que se destinavam.

“É disto que se trata!”, tornou-se uma das expressões mais frequentes no vocabulário político brasileiro. Seu uso se explica pelo fato de haver, na versão mais desidratada de nossa história recente, pelo menos duas narrativas a serem contadas. E ambas começam com o habitual: “É disto que se trata!”, seja nas palavras de um ministro de acusação seja de um advogado de defesa.

Se quem fala é um ministro de acusação (é o que a Casa infelizmente oferece), o STF se apresenta como credor de merecimentos na suposta garantia da ordem constitucional e democrática, tarefa que teria sido conduzida com a neutralidade e isenção que se recomenda ao ofício. Se quem fala é advogado de defesa, cuida de negar os fatos e contestar tais méritos.

Por fim, se quem fala é cidadão de direita – um dos chamados manés –, lembrará de outro poder, também excessivo e bem mais eficaz estrelando no palco da  política. Lembrará de Lula, o condenado que, de súbito, “nada devia à Justiça” nas palavras de William Bonner. Lembrará da censura e da censura prévia, dos inquéritos sem fim, das pesadas multas, das palavras e pautas proibidas em plena campanha eleitoral. Lembrará de frases que valem por um BO. Como esquecer a pesada interferência sobre as redes sociais, as ameaças, as invasões de competências, o ativismo judicial, o direito penal do inimigo e a política feita sem voto popular, sempre unilateral?

Qualquer criança dirá que está tudo errado e que é disto que se trata.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

Percival Puggina

25/10/2025

 

Percival Puggina      

               É fácil compreender por que o Brasil perde posições nos rankings internacionais e por que, salvo exceções, nossa representação política é tão precária. Todo ano, cerca de 3 milhões de brasileiros festejam sua chegada à maioridade. Em imensa proporção, tiveram suas mentes oprimidas pela “pedagogia do oprimido” e suas potencialidades contidas pelas urgências da “luta política”. Vários anos de “Ideologia para idiotas” enfiada em diferentes conteúdos pedagógicos, impingiu-lhes que a esquerda, sempre moderada, é boa, generosa e bem sucedida e que a direita, sempre extremada, é sinônimo de fascismo. Agora, saiam de dentro da bolha e espiem o resultado.

Basta observar esses jovens para entender que foram vítimas passivas do persistente combate cultural e espiritual travado contra o Ocidente. Aliás, é bom saber que essa foi a linha mais bem sucedida da velha Guerra Fria. É um combate que atacou e continua atacando de modo permanente o Bem, a Verdade, a Justiça e a Beleza. Seu produto final é perversão, falsidade e, claro, o desastre da ética e da estética. Em ambientes universitários, quando bem encaminhada em direção aos próprios fins, essa “cultura” confere aos coletivos e a seus ambientes o conhecido aspecto de legião de zumbis indignados.

Menciono aqui, com pesar, observações que jamais têm o devido destaque fora das redes sociais. É como se para as emissoras e veículos do oficialismo, os pilares da civilização fossem temas superados e estivessem, em fratura exposta, ante os olhos de todos. Regrediram à pedra lascada, isto sim! Mas se veem como sofisticados joalheiros na Amsterdam das ideias.

O consagrado teatrólogo alemão Bertold Brecht, em “A medida punitiva”, depois de prescrever aos comunistas o abandono de toda coerência e o descarte das regras morais e dos sentimentos humanos, conclui: “Quem luta pelo comunismo tem, de todas as virtudes, apenas uma: a de lutar pelo comunismo”.

Capturados pela militância esquerdista, brechtianos sem o saberem, milhões de jovens brasileiros sobre cujos ombros recairia tanta responsabilidade no futuro do país, têm, na própria incoerência, sua “best friend”. Dela lhes vem o inesgotável estoque de pesos e medidas que usam no mesmo modo flex aplicado por certas autoridades da República a preceitos da Constituição Federal.

Estamos assistindo, ao vivo, a tolerância com a corrupção dos companheiros. Há um silêncio nas redações. Ainda que a corrupção seja de uso e benefício privado, fazer de conta que não existe é menos danoso do que reconhecer a culpa. No Brasil de hoje, apesar das provas em contrário, todo direitista é tão culpado quanto Filipe Martins, um inocente; todo esquerdista, tão inocente quanto Nicolás Maduro, um bandido. Essa é a escandalosa lição que as instituições republicanas, em mal ensaiada coreografia, proporcionam à nação.

Percival Puggina (80) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.