Percival Puggina

08/09/2025

 

Percival Puggina

 

         Alguns meios de comunicação que se deixaram aparelhar e instrumentalizar tomam por amiga ou amante, companheira ou camarada, qualquer autoridade ou poder que de algum modo antagonize as redes sociais. O desconforto em relação a elas se explica: a) há muito mais talento no artesanato das redes do que na indústria da informação; b) os anunciantes já perceberam a tendência e migram parte importante de seus recursos para onde tem ido o público: c) um dos nichos mais bem sucedidos nesse mercado é o dos correspondentes de guerra que reportam a beligerância da velha mídia com os fatos. É uma guerra assimétrica, muitos fatos têm ido a óbito e há brasileiros refugiados no exterior por relatarem ocorrências sepultadas.

Exemplo totalmente em curso é proporcionado pela atitude dos veículos do “Consórcio Goebbels” de Comunicação, em relação ao mais recente personagem na cena do regime instalado no Brasil. Os profissionais do consórcio preferem olhar a paisagem além da janela cada vez que lhes aparece pela frente o senhor Eduardo Tagliaferro. Vivem dilemas shakespeareanos. Ser ou não ser? Ver ou não ver? Saber ou não saber? Preferem entrar em negação, na expectativa de que seu reino de papel e seus cavalos não lhes sumam sob os pés.

Flutuando, então, algumas polegadas acima da superfície dos fatos, os membros do “consórcio” têm referido a existência de uma crise institucional causada pela direita golpista e bolsonarista. Sério? O regime está em crise? Pergunto isso porque até o momento em que escrevo estas linhas, não há no horizonte sinais de insegurança na estrutura que sustenta o poder instalado no Brasil. Ela é bem simples: a maioria do STF manda, o governo aplaude e a maioria da representação política no Congresso obedece por sensibilidade natural aos impactos da mão pesada do Estado. Manda quem pode e obedece quem precisa. A linguagem popular dá outro nome, mas todos entenderão se eu disser que trato aqui de um ponto da anatomia frágil ao medo.

As denúncias se empilham, graves, gravíssimas. Nas redes sociais, quem não fala de pets nem de cuidados de saúde que substituam remédios de uso contínuo, não fala de outra coisa. Hoje, 6 de janeiro, a mídia do Consórcio rasga manchete a esta trepidante matéria: o ministro relator da ação penal do 8 de janeiro pediu um dia a mais para o julgamento. Uau! Um calafrio percorre a coluna vertical da oposição.

Você percebeu, leitor, a palavra que eu usei? Eu escrevi “oposição”! Para o consórcio, a existência de algo com esse nome já é porteira aberta à crise institucional. Em regimes como o vigente no Brasil, oposição, de direita, fazendo seu trabalho, caracteriza “crise institucional”. No século XX, apenas julgamentos coletivos, gulags e covas rasas foram sido mais eficientes para demarcar um regime tirânico do que a recusa a uma oposição.

Considere, por fim, que um “regime” não pode abdicar nem renunciar. O exercício do poder gera a necessidade de perpetuá-lo para a segurança de seus titulares. Há que planejar o futuro. O poder é parte interessada nas decisões que o próprio poder toma. Eis por que já se fala em “anistia sem Bolsonaro”. Capici?

Esqueceram-se de Franklin Martins! Antes das redes sociais, ele inspirou o projeto petista de “controle social da mídia” para acabar com as críticas da imprensa tradicional aos governos de Lula e Dilma entre 2003 e 2016. Essa mesma mídia que hoje lhes afofa os fatos foi alvo de tentativas petistas de lhe colocar freios e não percebe o quanto esse feitiço que hoje aplaude pode regurgitar da panela dos feiticeiros.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

03/09/2025

 

Percival Puggina

 

         Iniciou o julgamento politicamente mais importante deste século no Brasil. Sua importância vem da magnitude dos crimes? Não. Vem da solidez da narrativa que os descreve? Não. Vem da exuberância e veemência das provas? Não. Vem da esmerada condução processual? Não. Vem de sua necessidade para o momento histórico nacional? Não, três vezes não. Bem ao contrário. O processo caminha para seu final acompanhado por denúncias de violações de direitos humanos, de ter instituído o direito penal do inimigo e assim tratado os réus, antecipando julgamentos, construindo versões e imagens em consonância com o viés político assumido pela Corte ao longo dos últimos 14 anos.

Um ambiente soturno rondou essa ação penal. Houve, inclusive, momentos de Família Adams, nos quais o Tribunal agia como se não tomasse conhecimento da opinião pública, mas falando a ela sem parar, impondo uma narrativa e sugerindo culpas antes mesmo de estar a investigação conclusa e de ter a PGR oferecido a denúncia. Advogados dos réus relatam obstáculos processuais que a tudo faziam penoso, inacessível, em meio à obscuridade de perguntas incômodas ficarem sem resposta. Aliás, ignoradas ficaram, também, as denúncias das Vaza Togas que ganharam novo capítulo em recente sessão da CSP do Senado Federal.

O Brasil e o mundo sabem que os manés perderão e tudo sugere que seu principal líder será condenado à mais extravagante das penas.

Arrisco aqui minha opinião sobre o que se pode esperar das futuras páginas dessa história já redigida nas linhas enigmáticas das artimanhas juspolíticas. Quem exerce com tamanha facilidade um poder descomunal vai ficar por aí, parar tão longe do fim? Nunca houve poder assim! 11 ministros em suas togas impuseram-se aos demais entes do Estado e sobre a nação. Como? Transformando o que era um poder sob a Constituição, num poder sobre a Constituição, atributo que ela não concede a qualquer dos poderes que institui. Transformaram a Carta de 1988 numa caixa de ferramentas de valor privativo e uso reservado. Nessa nova ortodoxia, ninguém pretenda lê-la e interpretá-la. Parece ser conteúdo de uso exclusivo da Corte. Há meses avisaram que derrubarão a anistia...

Daí meu receio: aqueles que realizarem feito de tais proporções, nas circunstâncias do tempo presente, desfilarão atrás das fanfarras da vitória. Poderão, inclusive, arrastar 213 milhões de brasileiros para um completo desvio de rota. Poderão levá-los a companhias que não guardam relação amistosa com a democracia nem com os direitos dos cidadãos. Tal menção, aliás, foi proibida na eleição de 2022, lembram?

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

Percival Puggina

31/08/2025

 

Percival Puggina

         Recebi e-mail de uma estudante que ingressou recentemente em universidade federal. Desejava adquirir um livro de minha autoria e explicava o motivo: precisava munir-se de conhecimentos e argumentos para enfrentar todos os professores e mais de quatro dezenas de colegas. Somente ela e um rapaz não eram de esquerda e já sofriam o fenômeno conhecido como “cancelamento”. Na sequência, relatou uma série de fatos observados que mostram a atividade acadêmica transformada em artilharia pesada da guerra cultural, usada como arma para militância política à custa da sociedade, com o cancelamento funcionando como necessária forma de censura. Infelizmente, a universalidade da universidade ou é de extrema esquerda ou é de extrema esquerda.

Disse à minha leitora que eu não ia lhe vender um exemplar do livro que pretendia. Iria enviar-lhe de presente dois exemplares para que ela presenteasse seu colega “dissidente” com o outro. Aconselhei-a, também, a adquirir os dois exemplares do recente lançamento da editora Avis Rara com título “Thomas Sowel Essencial” – estes sim, pela pluralidade de temas, livros essenciais para a situação em que ambos se encontravam.

No silêncio do meu pequeno gabinete fiquei pensando no significado daquela informação, tão coincidente com tantas outras: alunos egressos do ensino médio chegando à universidade nessas condições e lhes sendo oferecido, ali, em doses acadêmicas, muito mais do mesmo. O produto final só pode ser uma anencefalia com diploma, eleitora de Lula, descerebrado padrão, quebrando o país e o arrastando, sem autorização de ninguém, para as piores companhias disponíveis no mercado das tiranias.

A radical burrice acadêmica é mais nociva que o analfabetismo porque o analfabeto tem pequeno círculo de influência e sua natureza não foi violentada pela mentira sofisticada e pela ética de conveniência que domina a conduta dos radicais e seus “cancelamentos”. Em suas limitações, o analfabeto aprende da vida e esta costuma ensinar as regras básicas do viver, o bem e o mal, o certo e o errado, não por acaso as primeiras vítimas das oficinas de mentira e ilusão em que a esquerda vai transformando a cadeia produtiva da Educação em todo o Ocidente.

Dessas oficinas provêm, sem exceção, os controladores da opinião alheia, os inibidores da divergência, os fanáticos pela censura, os democratas do pensamento único, os economistas inimigos da austeridade fiscal, os historiadores de antolhos, os militantes do toco de giz e do toco de ideias, e claro, os tiranos só por um tempo...

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

31/08/2025

 

Percival Puggina

           

         Governos petistas não têm o hábito de levar a sério imposições da razão. Entende-se. Grupos políticos de extrema esquerda são pouco racionais. Embora digam defender a ciência, rejeitam as mais elementares lições da Economia, Antropologia, Sociologia, Política, etc. O critério ideológico é determinante, até mesmo, da escolha do jardineiro e dos ingredientes gastronômicos. Girassóis da Rússia. Camarões de esquerda. Lagostas trotskistas. Pato de Pequim. E, claro, conselheiros chineses.

Por vezes, o que um extremista de esquerda diz corresponde ao que algumas pessoas desejam, mas o que ele faz, nunca encaixa no que disse. Eis a trágica marcha rumo às grandes burradas, como as que nos trouxeram às atuais dificuldades, e provocam a doentia ansiedade de controlar as opiniões e seu trânsito no corpo social.  

Depois de 2011, como consequência das sucessivas eleições de petistas para a presidência da República, a esquerda radical nunca teve menos de seis representantes entre os 11 ministros do Supremo. Com a adesão de ministros indicados por outros governos, como Gilmar Mendes (por FHC) e Alexandre de Moraes (por Michel Temer) chega-se à atualidade, quando a minoria conta com apenas dois e eventualmente com três dos 11 votos.

Era inevitável que o STF, pela maioria de seus membros, atravessasse a linha vermelha. O petismo não brinca com ideologia nem com o que possa afetar seu acesso e permanência no poder. Assim, com ares missionários, cobrando silêncio e submissão do rebanho, o STF se tornou uma esponja de prerrogativas, drenando-as do Parlamento, espaço legítimo da representação popular.

O advento das redes sociais pôs fim a um tempo em que essa maioria “era feliz e não sabia”, para dizer como o ministro Luís Roberto Barroso, hoje visivelmente infeliz, desejoso de ir embora. De fato, as redes sociais acabaram com a intermediação da opinião pública pelas grandes emissoras e grandes jornais. Como ela passou a se expressar de modo vigoroso pelas vozes próprias dos cidadãos em proporções que se revelaram decisivas na eleição de 2018, para elas confluiu parte expressiva das verbas publicitárias.

Selou-se assim um compromisso dos “editores da nação” no STF com os editores da velha mídia, repetindo juntos, à moda Goebbels, sem cessar, narrativas à margem dos fatos. Os editores da nação usam e abusam da intimidação proporcionada por mandados de busca e apreensão, celulares escrutinados, bloqueios de contas, supressão de direitos; muita gente pra prender e multa pra aplicar. Os editores da velha mídia agem como trombonistas da banda oficial, controlando música e letra à vontade dos donos. Fora isso, restam as redes sociais, porque tudo mais, no Brasil de hoje, é apenas paisagem. Com a verdade já decidida pelo Estado, quem precisa da opinião pública?

Ao observar pela primeira vez uma decisão ser tomada pelo STF em frontal antagonismo com teor explícito da Constituição, sob silêncio do Congresso e da mídia, redigi este prefácio do futuro em artigo publicado por Zero Hora.

“Foi escancarada a porta para o totalitarismo jurídico. Passou o bezerrinho. Atrás vem a boiada. Doravante, se um projeto de lei não tiver guarida no Congresso, recorra-se ao Supremo. Sempre haverá um princípio constitucional para ser espremido no pau-de-arara das vontades presentes.”

Corria o ano de 2011. Quanto eu quis estar errado!

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

24/08/2025

 

Percival Puggina 

               O início dos anos 90, preocupados com a erotização precoce de crianças e adolescentes, levando à gravidez, ao aborto e à prostituição, criamos em Porto Alegre um grupo de leigos para formação da “consciência crítica” das famílias através de palestras nas paróquias da Igreja Católica. Cumprimos essa missão por uns poucos anos. Éramos jovens e a vida nos dispersou para outras paragens e responsabilidades.

Naquela época, a internet sequer operava comercialmente no Brasil. Não havia algo que merecesse o nome de “ambientes digitais”. Não existiam redes sociais. Salvo falha da memória, apenas um membro do grupo, com atuação na área jurídica, tinha computador com impressora. O que mais nos preocupava eram as novelas, os programas de TV e sua influência na erotização precoce.

Por isso, louvei, outro dia, a manifestação do Alexandre do bem, o Garcia, chamando a atenção da audiência do “Oeste Sem Filtro” para o fato de que a tal “adultização” acontece principalmente na programação de emissoras de TV. Ao discorrer sobre o tema, Alexandre Garcia mostrou que o PL contra a adultização chega tarde e esquece o principal.

O foco desse projeto, de tanto interesse do governo, não são crianças e adolescentes. É o controle das redes e a autorização para regulamentar uma “autoridade nacional”, ideia fixa da esquerda que dá as cartas, joga de mão, apita o jogo político, parou o relógio em 8 de janeiro de 2023, e culpa a oposição por todos os erros que comete em cascata.

Se o projeto contra a adultização fosse o que dele é dito, incluiria, obrigatoriamente, a programação das emissoras de TV. Nem uma única vez, porém, o projeto menciona TV, emissora ou televisão, deixando tudo como víamos no início dos anos 90.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

21/08/2025

 

Percival Puggina 

            Não é de hoje, nem de ontem. Já transcorreram vários anos durante os quais foi se tornando mais e mais evidente que a maioria do STF deixa de lado as regras do jogo para tomar decisões conforme seu agrado ou em favor de si mesma. Alegando sempre a excepcionalidade do momento, das circunstâncias impostas por inimigos internos ou externos, dos mais elevados princípios e valores, etc., etc., a maioria do Supremo acaba fazendo, sempre, o que melhor lhe convém, como melhor lhe convém. A política entrou por uma porta e a imparcialidade saiu pela outra, aos borbotões, no palavreado dos mandados, entrevistas, palestras e discursos.

A realidade sempre tem um dinamismo próprio, como consequência das forças que nela atuam. Obstar uma delas mediante enquadramentos em inquéritos sem fim neste mundo não impede que subsistam e persistam. Trata-se de algo inevitável, mormente se, sem ouvir o Congresso Nacional e, sem que o tema tenha sido exposto durante a campanha eleitoral (aliás, foi proibido pelo TSE), o governo arrastar o Brasil para um bloco em tudo e por tudo adversário do Ocidente.

É mistificadora a afirmação de que se trata de um bloco autônomo de Estados nacionais, interessado em cuidar de si mesmo para o bem de todos os países-membros. O grupo dos BRICS tem um inimigo comum, explícito, bem conhecido e uma estratégia também comum: destruir o Ocidente (EUA, Reino Unido e União Europeia) por dentro, depreciando os valores de sua cultura e, por fora, debilitando-o economicamente.

Por isso, não se trata de escolher entre Brasil e EUA, mas em escolher entre Brasil + EUA ou Brasil + China.

A Argentina fez a opção correta e deu-se muito bem; o governo brasileiro – o governo, não a nação! – fez o oposto. Só alguém em surto de bulimia ideológica pode querer a segunda opção como futuro para seus filhos e netos, mas é nessa direção que nos empurram sem qualquer autorização. E juram ser “democrático” o inferno onde nos jogaram.

A ânsia por autoproteção e proteção recíproca, nestes exatos dias, está levando o Supremo a impor ao povo o ônus de pagar para que eles, em versão colegiada de Nero, assistam o parquinho pegar fogo do Oiapoque ao Chuí. Sim, se impuserem o que pretendem enquanto escrevo estas linhas, na base do dez por um e um pelos dez, a nação desce os degraus da miséria e o país vai à bancarrota bem além do que Lula já conseguiu. Como Nero responsabilizou os cristãos pelo incêndio, inculparão a direita pela consequência de atos constrangedores que o Ocidente vem presenciando com estupor.  

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

Percival Puggina

16/08/2025

 

Percival Puggina 

           Em pleno século XXI, na vigência do programa “Mais médicos”, o Brasil petista banalizou o tráfico de escravos. Desta feita, porém, eles não vieram das feitorias portuguesas no litoral africano, mas trazidos, em vilipendiados jalecos brancos, da “Casa Grande” comunista que a revolução de 1959 instalou na nação cubana.

As coberturas do poder político e econômico agasalham pessoas que pensam que os outros não pensam! Por isso, argumentam contra a imposição de sanções a autoridades brasileiras envolvidas com o tráfico de médicos cubanos como se não fosse óbvias as violações de direitos humanos cometidas naquela operação. Falo de transgressões aos princípios da liberdade individual, da dignidade da pessoa humana, da justiça, da equidade, da proporcionalidade, do valor do trabalho. Repugna toda consciência bem formada a ideia de que um país possa alugar seus cidadãos a outro, enviá-los aos magotes, como cachos de banana, beneficiar-se financeiramente dessa operação em proporções escandalosas e ainda fazer reféns as respectivas famílias por garantia da plena execução do mandado.

Os tempos que estamos vivendo mostram que talvez aprouvesse ao nosso regime esquerdista dispor dos brasileiros como coisas suas, assim como os Castro dispunham e seus sucessores dispõem dos cubanos. Virão dessa inspiração a ansiedade por censura, as restrições de direitos, as ameaças do poder e as prisões de natureza política?

Quando ouço discursos contra o capitalismo e a perversidade patronal em sistemas de liberdade econômica, lembro-me de algo que testemunhei como uma de muitas lições sobre a vida num regime comunista. Virara o século e eu estava em Havana, como turista, para ver de perto realidade tão exaltada pela militância esquerdista brasileira. Tinha na minha agenda uma visita à nossa embaixada. Ali, em conversa com a pessoa designada para me atender, ouvi falar pela primeira vez no aluguel de recursos humanos pelo Estado cubano. Contou-me que sua secretária, por exemplo, fora selecionada de uma das agências através das quais o governo de Fidel locava mão-de-obra para representações e empresas estrangeiras que funcionavam no país e no exterior. A agência estabelecera a remuneração mensal em 200 dólares, dos quais a moça recebia o equivalente, em pesos, a 20 dólares. Escândalo! Nove vezes maior, o quinhão de seu generoso patrão, o Estado comunista cubano! Diante de tão miserável realidade, a representação brasileira incluíra a servidora em seus custos e lhe repassava 500 dólares mensais.

Nos anos seguintes, a locação de cubanos no exterior se tornou, de longe, a maior fonte de divisas do país graças à escandalosa mais valia dessas operações. Chocante? Muito mais chocante é saber que o Brasil, em anos petistas, bateu o martelo numa operação gigantesca (cerca de 20 mil seres humanos) e não clamar vergonha, como Castro Alves: “Andrada arranca esse pendão dos ares! Colombo, fecha a porta de teus mares!”. Eu, ao menos, sei que não silenciei. Escrevi vários artigos a respeito. O texto acima coleta fragmentos de alguns deles.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

Percival Puggina

09/08/2025

 

Percival Puggina 

            Ministros do Supremo Tribunal Federal não perdem oportunidade para repetir, à exaustão e com ampla confirmação pelos veículos do Consórcio Goebbels, que aquele punhado de bravos, sob as negras vestes talares, salvou corajosamente a democracia e o Estado de direito em nosso país. (Seguem-se aplausos e parabéns recíprocos).

Lembro-me dos dias que sucederam ao pleito presidencial de 2022. Havia prolongada e cumulativa inconformidade social com o encerramento da operação Lava Jato, com o cancelamento da biografia de Lula durante a campanha eleitoral, com os temas e palavras proibidos à oposição, com o protagonismo político do STF, com a asfixia das redes sociais, com o abortamento das urnas providas de impressoras e com o ativismo inaudito do TSE durante a campanha presidencial. Terá vindo daqueles meses todos a tal salvação? Não creio, não creio que a democracia e o Estado de Direito fossem salvos daquele jeito; censuras, interdições, multas e bloqueios, são instrumentos que se opõem a esses dois valores. Lula, porém, disputou a eleição como se não tivesse passado, maus amigos e péssimos parceiros internacionais.

Por falar nisso, a bomba tarifária que acaba de explodir sobre a desavisada nação vem dessa procedência. A reação de Lula, com jabuticabas, carteio de truco e discursos sobre seu desejo de levar o Brasil aos inimigos do Ocidente e às misérias do socialismo escancaram o que não pode ser dito em 2022! Eram coisas sabidas, há muito tempo, para quem tivesse um pingo de juízo. A democracia sem voz deu nisso. Nosso assunto, porém, são as perguntas do título.

Teria sido no dia do suposto golpe, que o STF salvou a democracia e o Estado de direito? Ou seja, no 8 de janeiro de 2023? Mas, como assim, se o STF, o Congresso, o Palácio do Planalto e os portões de todos os quartéis estavam fechados? Quem dispersou a arruaça, por ordem do ministro da Justiça de Lula, foram policiais da Força Nacional de Segurança e da Polícia Militar do DF.

Teria, o extraordinário feito judicial, ocorrido no dia 9 de janeiro, quando, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, foram presos os 1,5 mil acampados que tomavam café da manhã diante do QG do Exército? Sabe-se hoje, com constrangedoras minúcias reveladas pela Lava Toga II, que não guarda relação com a democracia nem com o bom Direito o calvário de desgraças a que foram submetidas aquelas pessoas humildes, totalmente impotentes perante o Estado.

Na última quinta-feira, na Rede X, a jornalista Basilia Rodrigues divulgou que, segundo ministros do Supremo, “se impeachment de integrante da corte avançar”, eles “podem dar andamento a julgamentos/investigações que estão pendentes contra deputados e senadores na justiça”. Até agora não foi desmentida! E não creio que o seja porque essa lamentável estratégia, tão viciosa, se tornou notória e até o Consórcio Goebbels, de tantos e tão jeitosos paninhos, trata do tema com naturalidade de dar engulhos. Ninguém explica como esse tipo de prática se encaixa num Estado minimamente direito.

Então, até hoje, não entendi como nem quando o STF nos livrou do que diz nos haver resguardado. O que vejo é tão oposto a isso! Vejo um poder que se meteu no jogo político sem modos nem jeito, usando a força bruta do Estado para alcançar bem-aventuranças que não correspondem aos meios utilizados nem aos resultados alcançados.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.

 

 

Percival Puggina

07/08/2025

Percival Puggina

        

         Quando Peter Kellemen lançou o livro “Brasil para Principiantes”, em 1959, ele vivia há seis anos em nosso país. JK presidia a república e a construção de Brasília ainda não havia iniciado. A obra do húngaro naturalizado brasileiro é uma análise bem-humorada sobre o modo como as coisas aqui funcionam ou não funcionam. Era uma época em que muitos europeus imigravam para o Brasil e se o livro, divertido e sincero, tivesse sido mais bem aproveitado, talvez o fluxo não se houvesse invertido com tão grande prejuízo nosso.

Hoje, o Brasil de onde os brasileiros querem ir embora é para “profissionais”. Quem não for, nem tente. Nem tente compreender o país porque eles não lhe darão a menor chance. Entender e explicar o Brasil requer acesso a jantares sigilosos, a eventos além-mar, a acordos entre “famiglie” que, em entrevero, operam pelos canais dos poderes de Estado e dos negócios.

Se você conclui, com razão, que isso nada tem a ver com democracia, então você está experimentando seus primeiros e inseguros passos no sentido da profissionalização. Há, de fato, algo de mafioso na realidade brasileira. A palavra máfia, por exemplo, provém do adjetivo siciliano mafiusu, significando arrogante ou audacioso. Já esse tipo de organização, também conhecido pela expressão Cosa nostra, sob autoridade pessoal de um Capo, surgiu com um sentido de soberania, inclusive territorial. Regia-se por leis próprias, como a “omertá” (lei do silêncio), que visavam ao interesse e à perpetuidade do poder como objetivos absolutos. Ou seja, um não soltava a mão do outro como se diz aqui em relação a certos casos bem sinistros.

Há coisa de uns quinze dias, na minha difícil condição de mero cidadão (vejam só que posto vulgar!), tentando entender o trabalho dos “profissionais”, me lembrei do bom e velho Dostoievski em “Os demônios”.  Nesse livro, simplesmente precioso, há um personagem, encarnação da lucidez sem alma – o revolucionário Stavróguin – em torno do qual se forma uma célula de seguidores fanatizados e levados à destruição. As semelhanças com o noticiário brasileiro me desanimaram, então, sobre as possibilidades de que fosse rompido o círculo de ferro que submetia a nação.

Acontece que como foi dito no início deste pequeno texto, eu não sou profissional. Sou um velho principiante, aprendiz dedicado ao escrutínio das malas artes do poder nacional. Trump é pós-graduado, profissional como foram quantos deram aos Estados Unidos os meios de operacionalizar uma norma como a Lei Magnitsky. Profissionais, também, são jornalistas como Michael Schellenberg e Eli Vieira, que jogaram fora a tampa da Caixa de Pandora montada nas audiências de custódia dos presos do 8 de janeiro e – perdoem o já surrado trocadilho – magnificaram, com lente documental, irregularidades que chocaram a nação e o mundo.

Do nosso Estado democrático de direito, extinta a democracia e o direito, só restou para uso e abuso a força bruta do Estado. No entanto, a boa política também tem seus profissionais naquele punhado de bravos que se agregam hoje, enquanto escrevo, para restabelecer sobre escombros, a justiça, a liberdade, o direito e a democracia em nosso país. Num Congresso que manteve luzes apagadas, na escuridão destes tempos de vergonha nacional, quando os covardes se escondem, eles enfrentam adversários que parecem extraídos do livro de Dostoiévski que mencionei acima. Que o Senhor os proteja de todo mal.

Percival Puggina (80) é arquiteto, empresário, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.