• Valdemar Munaro
  • 19/09/2025
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Epílogos de uma filosofia perversa III



Valdemar Munaro

                 O expoente mais notável do Idealismo Alemão, G. W. F. Hegel (1770 – 1831), concebia a história do mundo como realização progressiva do 'espírito' iniciada no oriente e concluída no ocidente. China, Índia, Pérsia, Grécia e Roma representam, para Hegel, a infância e a adolescência da humanidade, enquanto a fase adulta se encontra no continente europeu, especificamente, em terras e culturas germânicas.

O olho hegeliano vê o cume qualitativo do 'espírito' no germanismo, lugar da liberdade e da consciência. É, como se vê, um idealismo bairrista e arrogante que esconde em suas entranhas os gérmens do marxismo, do fascismo e do nazismo.

A megalomania de tais ideias, desembocou, mais tarde, nas práticas malthusianas, eugenistas e racistas que a história registra. A hipotética superioridade sanguínea e cultural do povo germânico, suficientemente chancelada por Hegel, foi palco do desprezo que levou milhões de 'inferiores' e sobrantes ao extermínio.

A demência historicista, hegeliana e marxista, foi denunciada veementemente pelo filósofo K. Popper. Não se pode, segundo ele, isentar Hegel e Marx da responsabilidade pelas ideologias assassinas que esmagaram e destruíram a Europa.

No seu livro autobiográfico (O mundo de ontem: memórias de um europeu), o escritor judeu austríaco Stefan Sweig, exilado no Brasil, escreveu: "Todos os corcéis pálidos do apocalipse correram pela minha vida, revolução e fome, desmonetização e terror; vi as grandes ideologias de massas crescerem e propagarem-se sob os meus olhos, o fascismo na Itália, o nacional-socialismo na Alemanha, o bolchevismo na Rússia e, acima de tudo, esse arque-pestilência, o nacionalismo, que envenenou a flor de nossa cultura europeia. Tive de ser uma testemunha indefesa e impotente da inimaginável recaída da humanidade na barbárie há muito esquecida com o seu dogma consciente e programático de antihumanidade. (...). Era preciso submeter-se constantemente às exigências do Estado, atirar-se para ser devorado pela política mais estúpida, adaptar-se às mudanças mais fantásticas, sempre se estava acorrentado ao comunitário, por mais amargamente que se resistisse; você era arrastado, não havia como resistir"

Os que plantam ideologias assassinas quase sempre não são os que experimentam os seus frutos. São autores incendiários, reclinados em seus divãs confortáveis (como fazem os dirigentes do Hamas no Catar), sob conforto e segurança de asseclas, ignorantes da ruína demencial que produzem.

Os convencidos da superioridade germânica não são poucos: I. Kant, F. Holderlin, J. G. Fichte, G. W. F. Hegel, R. Wagner, K. Marx, F. Engels, Robby Kossman, Ernst Haeckel, Max von Gruber, A. Rosemberg (ministro da cultura nazista), Oscar Schmidt, F. Nietzsche, M. Heidegger, Adolf Hitler etc. Muitos deles foram combatentes pró eugenistas. A lista de muitos outros, pode ser encontrada nos estudos de Richard Weikart 'De Darwin a Hitler' e Francisco Gil-White 'O Eugenismo – movimento que pariu o nazismo'.

Boa parte dos teóricos e revolucionários marxistas são de ascendência germânica: K. Marx, F. Engels, L. Feuerbach, Moses Hess, Ernst Bloch, Karl Kautsky, Eduard Bernstein, Theodor Adorno, etc. e, por mais que o marxismo se contorça para inculturar-se, transportar-se-á por veias mentais soberbas e racistas. A história, segundo Hegel, no fim dos tempos, julgará supremamente os vivos e os mortos. Seus magistrados serão germânicos. Como se vê, Hegel não foi apenas mentor do marxismo, mas também seu sacerdote, juiz e profeta.

Entretanto, das teses hegelianas presentes no prefácio da 'Filosofia do Direito' e também na 'Enciclopédia das Ciências Filosóficas' sobressai-se a afirmação mais desconcertante e enigmática que o idealismo alemão produziu: "aquilo que é racional é real; e aquilo que é real é racional".
Se levada a efeito, a proposição faz o pensamento ser um princípio igualzinho ao ser e o ser um princípio igualzinho ao pensamento. A simbiose densa e vulcânica desse esponsalício realiza uma confusão tamanha que faz do mundo uma extensão da racionalidade e da racionalidade uma extensão do mundo. Construído assim, o bolo ontológico se equipara ao bolo racional e vice-versa. Não havendo fronteiras que distingam o pensamento da existência e a existência do pensamento, qualquer coisa será possível, num imanentismo de fatos pensados e pensamentos factuais que substancializam, estonteantemente e esquizofrenicamente, tudo, para enlouquecer e desorientar.

Hegel tinha um projeto maluco (morreu antes de o terminar): eliminar todas as obscuridades no interior do saber humano. Nas suas últimas considerações acerca da 'Fenomenologia do Espírito' dedicou páginas ao 'saber absoluto'. O projeto: fundição da inteligência com a natureza e vice-versa até ao ponto de não haver mais enigmas, nem sombras epistemológicas. A meta hegeliana seria obter a graduação divina para tudo dominar e esclarecer. Hegel quis ser Deus sem precisar Dele. A conquista do saber absoluto, seria a chave do poder absoluto que tudo ilumina e resolve: tudo em todos e todos em tudo.

Essa 'enjambração' filosófica, porém, veio de mais longe, dos tempos subjetivos em que o geômetra francês R. Descartes (1650), desconfiado e cético, não conseguia sentir o que pensava, nem pensar o que sentia. Foi, porém, de dentro do próprio pensamento que encontrou sua suposta verdade desejada. 'Cogito, ergo sum' (penso, logo existo), concluiu. O ato de pensar lhe garantiu a certeza de ser um ser real. Em outras palavras, Descartes tirou da 'cartola' racional a confirmação de sua própria existência. Não foi da experiência senciente, mas do seu pensar erguido edifício. Ninguém pode pensar sem existir, mas a sua principal testemunha, o pensamento, lhe dá a certeza de ser.

Assim, a filosofia moderna ocidental pôs sobre os ombros do pensamento o comando dos raciocínios e das buscas científicas. De modo que, segundo ela, se deve partir da razão para se chegar ao ser e não inversamente. Ao invés das coisas reais determinarem a atividade cognoscitiva, o pensamento passa a determinar o mundo das realidades. G. Berkeley, B. Espinoza, N. Malebranche, I. Kant, J. Fichte, F. Schelling e G. W. F. Hegel acrescentaram temperos a essa lógica cartesiana que resultou catastrófica e insana.

O tobogã idealista escorregadio fez o pensamento 'voar livre', sem compromissos, para que se detivesse onde bem lhe aprouvesse. Sob sua 'autoridade' absoluta, o pensamento não mais pensa sobre as coisas que vê, mas vê as coisas sobre as quais pensa. Esse grave delito hegeliano não apenas fundiu o pensamento no ser, mas o independizou para que se erigisse autor de si mesmo.

Idealistas aos moldes hegelianos creem firmemente na premissa segundo a qual, o que não é pensado também não existe. Em outras palavras, aquilo que não for pensado pertencerá ao mundo do não ser. "Agora sabemos, disse o físico norte americano, N. D. Mermin, que é possível demonstrar que a lua não está lá quando ninguém a olha". Quer dizer, se ninguém estiver olhando a lua, ela praticamente deixará de existir.

É preciso, porém, urgentemente, restaurar o realismo científico e filosófico que se perdeu, pois não é a visão a causadora da existência das coisas, mas as coisas existem independentes de nosso pensamento e, por isso, podemos vê-las e conhecê-las. Se o mundo existisse em razão dos pensamentos que o pensam, então a existência do mundo dependeria de uma roda 'pensamentista'. Os idealismos epistemológicos podem nos enlouquecer, pois criam a falsa ilusão de que as coisas existem e ocorrem em razão de nossas ordens pensantes.

A fórmula 'aquilo que é real é racional e aquilo que é racional é real' quando levada ao forno prático da atividade cognoscitiva e moral, produz esquizofrenias monstruosas. A festa de muitos que celebraram a morte de Charlie Kirk é uma demonstração delas. Ao invés da inteligência se submeter aos apelos dos fatos e realidades reais, a alucinação estonteante faz prevalecer a demência e a insensatez. O idealismo hegeliano, portanto, é um fabricante de esquizofrenias tresloucadas que o tempo não curou.

Hegel e Marx, segundo Popper, algozes do passado e profetas do futuro, na verdade, se tornaram pensadores estranguladores do presente. A incapacidade que os impede de ver a realidade tal como é, metamorfoseou-os em loucos desvairados.

O recente julgamento sobre os eventos de 08 de janeiro de 2023 e do ex-presidente da República mostra a eficácia do idealismo hegeliano. Se o ministro Fux refletiu sobre o que viu, os demais ministros, refletiram sobre o que pensaram. No primeiro caso, a realidade dos fatos orientou o pensamento, no segundo, o pensamento orientou os fatos da realidade. A sentença infame e vergonhosa que resultou, indica a presença de hegelianos esquizofrênicos ocupando o egrégio tribunal.

Em Santa Maria, 19/09/2025

*        O autor, Valdemar Munaro, é professor de Filosofia.