Alex Pipkin, PhD
Seguramente, há um momento histórico em que a neutralidade deixa de ser prudência e se transforma em uma triste cumplicidade deliberada.
O Irã chegou a esse ponto. Parte do mundo escolheu fingir que não. Sob o pretexto da complexidade internacional, constrói-se uma postura supostamente equilibrada que, na prática, apenas preserva conveniências.
Não é ignorância. É, a meu juízo, uma escolha perversa. A decisão consciente de suspender a empatia quando as vítimas atrapalham a narrativa dominante. Um conforto moral sustentado por uma estética de análise “responsável”, que relativiza a violência quando ela é praticada pelos aliados certos. Claro, os amigos, os meus amigos, os amigos dos meus amigos.
O colapso do regime iraniano não é apenas econômico, embora seja devastador nesse plano. A moeda foi pulverizada, a inflação corroeu a vida cotidiana, a promessa material virou uma genuína ruína.
Mas ditaduras não caem por estatísticas. Caem quando a sociedade percebe que foi submetida a uma fraude moral longa e cuidadosamente ensinada, quando a pobreza é transformada em consciência política, quando o empobrecimento é elevado à condição de virtude, quando a submissão é apresentada como mérito cívico. Nesse instante, o Estado deixa de parecer um norte e passa a ser reconhecido pelo que sempre foi nesses regimes que se dizem “do povo e emancipadores”. Verdadeiramente, não um opressor eventual, mas um predador estrutural, organizado para extrair obediência, recursos e silêncio em nome de uma causa que jamais pertenceu ao povo.
O que emerge nas ruas do Irã é perigoso para qualquer tirania porque é simples e transversal. Mulheres, trabalhadores, comerciantes, jovens e minorias não pedem concessões marginais; rejeitam o arranjo inteiro.
O discurso religioso, antes escudo simbólico, perdeu sua capacidade de sedução. Em seu lugar surge um nacionalismo cívico, desprovido de messianismo, que pede pouco. E é exatamente por isso que assusta tanto, já que o povo somente deseja uma vida normal. Não heroísmo, não martírio, não destino histórico. Apenas normalidade. Regimes sustentados pelo medo não sobrevivem à normalidade.
A própria arquitetura do poder racha. O Irã se revela menos como teocracia e mais como um Estado-mafioso, capturado por elites armadas, com a economia militarizada e a corrupção convertida em forma de governo. Quando o clero moderado se afasta e a classe média urbana rompe, quando o isolamento externo se aprofunda e antigos protetores enfraquecem, a queda deixa de ser hipótese e passa a ser processo.
É aqui que o Irã deixa de ser um drama distante e se transforma em espelho incômodo para o Brasil. Também aqui, quando o povo ousa ocupar o espaço público, a resposta automática do sistema é a da narrativa da desqualificação. Como se lê, escuta-se e se vê: “golpe”, “ameaça”, “radicalismo”.
A grande pequena imprensa simula isenção enquanto protege arranjos, relativiza abusos e administra o silêncio como se fosse uma qualidade moral.
O Brasil lulopetista, alinhado a esse eixo de regimes decadentes, protege o amigo do amigo, chama complacência de diplomacia e confunde interesse de facção com política de Estado. Escárnio.
Mas há um teste moral elementar que separa princípios de retórica vazia.
Se você afirma defender direitos humanos, mas não consegue expressar solidariedade a quem arrisca a própria vida por liberdade no Irã, você já se revelou. Não, isso não é prudência nem pacifismo! É, objetivamente, seletividade moral.
O povo iraniano faz lembrar ao mundo que nenhum sistema erguido sobre sectarismo — religioso ou ideológico — é eterno.
A pergunta derradeira é simples e incômoda: quem terá coragem de aprender antes que a normalidade também nos seja “totalmente negada”?