Afonso Pires Faria
Após as eleições, os institutos de pesquisa debruçam-se sobre os próprios erros, tentando compreender por que suas projeções falharam de forma tão gritante. No primeiro turno, apontaram a vitória de um candidato, mas o adversário levou as urnas. No segundo, ajustaram os ponteiros para dar a vitória ao vencedor da etapa anterior, e novamente o resultado se inverteu. Agora, em um esforço de autorreciclagem, tentam desenhar uma nova realidade. Agem como Procusto, o mítico hospedeiro que possuía apenas uma cama em sua estalagem: em vez de adaptar o leito ao visitante, esticava o hóspede que fosse baixo demais ou decepava as pernas daquele que excedesse o tamanho do móvel.
Essa mesma lógica da distorção factual opera agora no debate econômico. Para legitimar os impactos do fim da escala 6x1, economistas e estatísticos alinhados à pauta veem-se obrigados a reinventar a relação entre tempo trabalhado e produtividade. Afinal, a premissa central exige provar o improvável: que trabalhar menos resultará, invariavelmente, em produzir mais. É o avesso da matemática elementar. Se a regra de três clássica nos ensina que seis operários, em seis horas, erguem um muro de seis metros, a contabilidade criativa dos defensores da proposta quer nos fazer crer que esses mesmos operários, trabalhando uma hora a menos, entregarão um muro de sete metros.
Analistas e legisladores sabem perfeitamente que a conta não fecha e carece de rigor lógico. Todavia, como dita o pragmatismo dos nossos ideólogos de plantão, "primeiro cria-se a narrativa". E a narrativa, nesse contexto, nada mais é do que a mentira convenientemente maquiada para ser palatável ao grande público. Para os engenheiros sociais da atualidade, a exatidão matemática e a lógica factual não devem atrapalhar o projeto ideológico e o velho "jeitinho". Assim caminha o debate público; assim passam as glórias do mundo.