Dagoberto Lima Godoy
A renúncia do presidente paraguaio Santiago Peña, provocada pelo escândalo financeiro do Ueno Bank, oferece um exemplo de como uma crise institucional pode ser confundida com uma transformação ideológica. A queda de um presidente conservador não significa necessariamente a ascensão da esquerda. E, no Paraguai, os fatos apontam para uma realidade política bastante diferente.
O escândalo é grave. Suspeitas de conflitos de interesse e irregularidades na aplicação de fundos públicos desencadearam protestos, investigações e uma crise que retirou de Peña o apoio de parte de seu próprio partido.
Entretanto, o Partido Colorado, de orientação conservadora e protagonista da política paraguaia há décadas, permanece no controle da sucessão presidencial. O vice-presidente Pedro Alliana, também colorado, teve seu pedido de impeachment rejeitado pela Câmara dos Deputados por 48 votos a 30, abrindo caminho para assumir o governo até agosto de 2028.
Mais significativo ainda é o quadro eleitoral. Nas eleições municipais de outubro de 2026, realizadas apenas um mês antes da crise, o Partido Colorado conquistou 52,9% dos votos válidos para prefeitos e venceu em 187 dos 263 municípios do país. São resultados que evidenciam uma organização política profundamente enraizada na sociedade paraguaia.
A oposição, por sua vez, está longe de constituir um bloco socialista. Reúne liberais, centristas, conservadores dissidentes e pequenos agrupamentos de esquerda. Mesmo suas conquistas recentes, como a prefeitura de Assunção, não representam uma guinada ideológica à esquerda.
É nesse contexto que se impõe cautela ao interpretar os acontecimentos paraguaios à luz da política brasileira. Lula acaba de conquistar a reeleição, mas enfrentará, a partir de 2027, um Congresso de composição predominantemente conservadora. Seria equivocado utilizar a crise no país vizinho como demonstração de um suposto declínio continental da direita.
O que está em discussão no Paraguai são responsabilidades políticas, a segurança dos depósitos bancários e o funcionamento das instituições. A indignação popular diante de possíveis irregularidades não constitui, por si, adesão a um projeto socialista.
O Partido Colorado poderá sofrer desgaste, e a oposição poderá beneficiar-se dele. Mas isso não autoriza identificar uma eventual alternância de governo com uma vitória da esquerda.
A lição é simples: a crise de um governo não equivale à derrota de suas ideias, assim como a indignação contra um escândalo não significa adesão à ideologia de seus adversários.
* O autor, Dagoberto Lma Godoy, é Engenheiro Civil