Percival Puggina
“Estou vendendo um realejo.
Quem vai levar? Quem vai levar? Quem vai levar?
Já vendi tanta alegria, vendi sonhos a varejo.
Ninguém mais quer hoje em dia acreditar no realejo (...)”.
Chico Buarque, em Realejo
Quem diria, não é mesmo? Em 1967, ano dessa composição, os realejos ainda rodavam nas praças. Hoje, vender sonhos e ilusões é tarefa para um certo jornalismo militante que também entrega, de cambulhada, narrativas, utopias, mentiras e mistificações. Ora ele ganha requintes acadêmicos nas redações onde os fatos, recebidos “in natura”, são reciclados em conteúdo e forma; ora é singela construção artesanal para posterior distribuição através dos assim chamados exércitos de ativistas, como a gigantesca infantaria comandada pelo general Janones.
Os tocadores de nossos realejos quotidianos desenvolveram uma semântica astuciosa em que adjetivos como negacionistas, genocidas, fascistas, terraplanistas são usados para significados aquém e além daqueles para os quais existem e nunca com o intuito de serem entendidos no sentido original. Delírios de linguística orwelliana! Veneno em poção verbal e visual. O mercado de veneno atrai ilustrados e apedeutas.
Uns e outros, para combater a divergência que merecem, recriaram um “antifascismo” sempre pronto a causar dano. Visto de perto, porém, não passa do velho fascismo com estrela vermelha. A Segunda Guerra Mundial ainda não acabara e as nações tomadas da Alemanha pelo Exército Vermelho já amargavam a tirania soviética que dizia combater o fascismo supostamente nelas infiltrado.
O realejo que hoje toca o dia inteiro no Brasil tem como público cativo o cidadão do sofá, previamente descerebrado e anatomicamente formado por corpo, membros e almofadas. Pode haver certa má vontade minha, mas sempre achei mais fácil acreditar em Terra plana do que na Globo, por exemplo. Ademais, querer convencer pela repetição, como acontece no Brasil, desrespeita o público. É assim no adestramento usado por humanos para controlar animais – e nunca ao contrário. Pelo amor de Deus, nunca ao contrário, nunca por animais para controlar seres humanos!
* Imagem ChatGPT
Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.