Alex Pipkin, PhD
Sou um opinador compulsivo. Escrevo sistematicamente contra a ideologia do fracasso, contra as falácias do coletivismo e contra a hipocrisia de políticas públicas supostamente bem-intencionadas, mas estruturalmente hostis à lógica econômica, à experiência histórica e à responsabilidade individual. Não por gosto da provocação, mas por recusa ao autoengano.
O Brasil acostumou-se a chamar vícios de virtudes e a desvirtuar valores morais civilizacionais como a coragem, a generosidade, a excelência, a integridade e a fé, preservando o discurso enquanto dissolve o essencial conteúdo.
Todo mundo conhece as práticas corruptas do PT. Nada do que se diga hoje surpreende quem não escolheu a ingenuidade e/ou o sectarismo ideológico como modo de ser. O retorno à cena do crime não foi acidente, foi decisão respaldada por milhões. Ainda assim, seria desonesto fingir que esse mal se esgota num partido, num líder ou num governo. Ele é mais profundo, atravessa discursos, sobrevive a alternâncias de poder e se instala na mentalidade do “dar-se bem”, visível na banalização da ética quando se aceita, sem constrangimento, que alguém “rouba, mas faz”, como se eficiência absolvesse a corrupção e resultados redimissem a ausência de caráter.
A corrupção que se vê em Brasília não nasce no poder, ela sobe até ele. O Estado não cria nada que a sociedade já não pratique em escala doméstica, apenas amplia, organiza e legitima.
Basta olhar ao redor, nas relações de trabalho, nos vínculos sociais, nas conversas privadas, para encontrar quem afirme com convicção que “todo mundo faz”, ou quem, de forma mais discreta, pense e pratique o “dar-se bem”. Se dá para levar vantagem, leva-se. Se não, condena-se. O governo que se serve do povo é a versão institucional da mesma lógica que rege o cotidiano, a esperteza celebrada, o atalho moral justificado, o silêncio cúmplice diante do privilégio quando ele parece conveniente.
O brasileiro não odeia a corrupção, odeia não participar dela. A indignação seletiva costuma esconder ressentimento, não virtude. O problema raramente é o roubo, é a exclusividade.
Critica-se o político não por violar a regra, mas por ter chegado antes ao lugar onde muitos gostariam de estar. A Lei de Gérson deixou de ser desvio para se tornar pedagogia moral, confundida com inteligência prática.
O PT não inventou isso, apenas compreendeu. Compreendeu que o ressentimento mobiliza mais do que princípios, que a inveja rende mais votos do que a responsabilidade, que prometer proteção contra o mérito é mais eficaz do que exigir esforço. Não governa apesar do povo, governa porque o representa. Como diagnosticou Ortega y Gasset, o homem-massa abdica da exigência de si mesmo e passa a exigir que o mundo se curve às suas limitações.
Quando a lei se torna negociável, quando a regra varia conforme o réu, a causa ou o alinhamento ideológico, não existe mais lei, existe conveniência. Onde a norma perde a universalidade, a moral vira ornamento. O governo ensina sempre, relativiza a verdade, escolhe aliados, transforma privilégios em virtudes e naturaliza a ideia de viver do esforço alheio.
Sejamos francos, basta examinar o Poder Judiciário, um mundo paralelo, quase uma Ilha de Nárnia institucional, cercado de privilégios, benefícios e penduricalhos, todos legais porque o próprio Judiciário molda as regras, mas completamente imorais para quem ainda leva a sério a noção de justiça.
Nada disso é ingenuidade. Como advertia La Boétie, a servidão raramente é imposta, ela é aceita e cultivada. O brasileiro não é apenas vítima de um Estado corrupto, é seu fiador moral, denuncia em público, reproduz em privado e sonha ocupar um lugar confortável dentro do sistema que critica.
A pergunta incômoda não é por que o governo se serve do povo, mas por que o povo tolera e admira quem se serve dele.
Se 2026 pretende marcar alguma inflexão real, ela não virá apenas das urnas. Começa quando o espectador imparcial, esse juiz interno que cada um tenta calar, passa a apitar como despertador moral.
A mudança começa quando o indivíduo decide parar de negociar princípios, mesmo quando ninguém está olhando.
O resto é apenas a alternância de nomes administrando a mesma decadência moral, a corrosão silenciosa do princípio basilar de qualquer país minimamente civilizado, aquele em que trabalhar, produzir e prosperar honestamente não é ingenuidade, mas regra.