• Alex Pipkin, PhD
  • 31/01/2026
  • Compartilhe:

A hipnose do lulopetismo

 


Alex Pipkin, PhD      

            Eu não sou cinéfilo. Não estudo cinema, não escrevo sobre enquadramentos nem faço reverência a teorias narrativas. Quem me lê, porém, sabe: eu amo o cinema. Amo porque, quando acerta, ele funciona como um espelho moral, desses que deformam o rosto para revelar o caráter. A arte serve para dizer verdades que a vida real prefere esconder atrás de discursos moralmente edificantes e consagrados pelo aplauso social automático.

O cinema sempre foi válvula de escape e laboratório social. Talvez por isso, em tempos de delírio coletivo, a ficção tenha começado a parecer menos imaginação e mais ensaio geral. Há filmes que envelhecem mal; outros envelhecem rápido demais. O Amor é Cego pertence à segunda categoria porque se transformou num diagnóstico exato da realidade vermelho-verde-amarela de 2026.

À primeira vista, é uma comédia romântica leve. Jack Black interpreta um sujeito raso, obcecado por padrões estéticos que jamais alcança. Então surge o guru — sempre surge — oferecendo iluminação instantânea. O truque é singelo. O protagonista passa a enxergar apenas a “beleza interior”. O efeito é cômico. Ele se apaixona por uma mulher que, no mundo real, não corresponde ao ideal que ele dizia cultuar. Para ele, porém, ela é perfeita. Não porque ela mudou, mas porque a realidade foi suspensa.

A genialidade do filme está aí. Não se trata de aprender a ver melhor, mas de aprender a não ver. A hipnose não cria virtude; cria cegueira. Mas quando a cegueira deixa de ser acidente e se transforma em estratégia, ela abandona a ingenuidade e se converte num projeto evidente de poder.

É preciso chamar as coisas pelo nome. Desde Karl Marx, o grande formulador da ideologia do fracasso, a moral é tratada como um incômodo descartável. Para ele, ética é superestrutura: um artifício criado para legitimar relações econômicas. Não existe bem ou mal em si; existe o projeto. Os meios são irrelevantes, desde que o fim seja proclamado como justo. A corrupção, nesse esquema mental, não é um problema moral, é apenas uma ferramenta. Se serve ao projeto, absolve-se. Se escandaliza, relativiza-se. A moral não limita o poder; ela é sacrificada em nome dele.

Por isso o filme é atualíssimo. Basta olhar ao redor para enxergar uma sociedade submetida ao mesmo transe. Não por um guru excêntrico num elevador, mas por uma ideologia inteira que promete redenção enquanto suspende qualquer critério de realidade.

O resultado é a obscenidade normalizada. Ou não? Aposentados roubados no INSS tratados como “falhas técnicas”, Correios afundados sem culpados, escândalos financeiros como no caso Master escancarados recebidos com indiferença moral. A corrupção deixou de se esconder; perdeu o pudor e ganhou, como sempre, narrativas.

O mais espantoso não é a existência do encantador de burros — toda época produz o seu. O espantoso é a multidão disposta a manter os olhos fechados mesmo depois de revelado o velho novo truque.

Enxergar exige responsabilidade, a de admissão do engano. Impõe o “acordar-se”.

Bem, talvez algo esteja mudando. Pesquisa recente indica um dado incômodo para o “hipnotizador de burros”. Até parte dos sustentados pelo assistencialismo tupiniquim começa a rejeitar o encanto. Não é lucidez plena, mas já é um espasmo de consciência no país hipnotizado pela farsa lulopetista.

No filme, a hipnose acaba. Na vida real, ela costuma durar mais, porque rende cargos, discursos, dinheiro sujo, e a confortável cumplicidade dos que fingem não ver. Nenhuma ilusão, porém, resiste eternamente à realidade. Quando o transe se desfaz, o encantador desaparece, o truque fica evidente e sobra apenas o essencial.

Oxalá o país comece a se olhar no espelho e se pergunte, sem anestesia, como aceitou chamar cegueira de virtude, e farsa e ruína de “governo do povo”.