• Percival Puggina
  • 14/06/2026
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Uma conversa entre gerações

 

Percival Puggina

           Quase 80% dos atuais eleitores brasileiros tinham menos de 18 anos em 1988 e não sabem, portanto, o que representava viver sob as condições nacionais daquela época. A moeda era o Cruzado, a inflação chegou a 980% e bateu em 2.000% no ano seguinte! Em pouco tempo, o Cruzado virou Cruzado Novo (1989-1990), foi substituído pelo Cruzeiro (1990-1993), que se converteu em Cruzeiro Real. A transição para Real aconteceria em 1º de julho de 1994. Cinco moedas em seis anos.

Quanto aqueles anos foram pedagógicos e favorecem a compreensão dos riscos envolvidos num desmonte institucional como o que está em curso no nosso país! E não refiro apenas aos ataques cotidianos à disciplina monetária, à responsabilidade fiscal e à liberdade dos cidadãos. Sob um governo que é um delivery de desgraças, incluo e sublinho o deslocamento do eixo do poder político para o topo do Judiciário, porque loucura política com sintomas iguais nunca houve antes.

São densas as camadas ideológicas que sustentam tantas leviandades e não foi por outro motivo que iniciei este texto mencionando 1988. No ano de nascimento da atual Constituição, o comunismo soviético já fizera todo estrago possível no Leste Europeu. A prosperidade do lado ocidental do Muro de Berlim embaraçava o esquerdismo infiltrado nas democracias liberais do lado de cá. Muito escrevi e falei sobre isso naqueles anos porque o PT nascera em 1980 e defendia muitas daquelas ideias e regimes. Foram elas que inspiraram a atuação dos petistas na Constituinte eleita em 1986.

Chegou-se, então, ao ano de 1989 e à queda do Muro de Berlim no dia 9 de novembro. O contraste entre a próspera liberdade ocidental e a cativa miséria do Oriente comunista era tal que os gritos do povo funcionaram como as trombetas de Josué sobre as muralhas de Jericó. As pedras do Muro foram, contudo, as primeiras cartas a cair. O que sobreveio é tão ou mais impressionante, como se verá a seguir.

Dois meses após a queda do Muro, ao longo de todo o glorioso ano de 1990, desabou o comunismo institucionalizado no Leste Europeu. Em 1º de janeiro, foi extinta a Securitate, temida polícia secreta romena. Em 24 de fevereiro, o Partido Comunista foi vencido nas eleições da Lituânia. Em 26 de fevereiro, com a Checoslováquia no auge da Revolução de Veludo, Gorbachev anunciou a retirada de suas tropas de ocupação. Em 11 de março, o Parlamento da URSS revogou artigo 6º da constituição, que assegurava o monopólio do poder ao Partido Comunista. Em 11 de março, o Conselho Supremo da Lituânia assinou o Ato de Restauração da Independência. Em 2 de maio, o dissidente Arpad Goncz foi eleito presidente da Hungria. Em 4 e 8 de maio, respectivamente, a Letônia e a Estônia se declararam independentes. Em 20 de maio a Romênia teve suas primeiras eleições democráticas desde 1937.  Em 29 de maio, derrotando o candidato do Partido Comunista, Boris Ieltsin foi eleito presidente da Federação Russa. Em junho, a Bulgária teve sua primeira eleição democrática. Em dezembro, a Polônia elegeu o sindicalista Lech Walesa presidente com 75% dos votos. No mesmo ano, a Albânia cedeu aos protestos estudantis e abriu-se ao pluralismo partidário. Dois meses antes, acontecera a reunificação da Alemanha.

O esquerdismo latino-americano entrou em pânico. Os acontecimentos libertadores ainda seguiam seu curso quando, entre os dias 1º e 4 de julho, 48 partidos e organizações de esquerda, em vários tons de vermelho, se reuniram em São Paulo. Haviam sido convocados pelo PT brasileiro e pelo PC Cubano. Por Lula e Fidel Castro. Era preciso salvar aqui o que estavam perdendo lá.

Passaram quase quatro décadas daquela reunião. Depois de semear miséria sem apresentar um único bom exemplo, o Foro de São Paulo é sombra do que já foi. Fidel e Chávez morreram. Cuba estertora. Maduro está preso. As revoluções partiram para o narcotráfico. Mas o Brasil, senhores, deu cinco mandatos ao radicalismo esquerdista do PT. E nosso país está em pandarecos. Se você é chefe de família, coroa, sênior, pai, tio, avô, cumpra sua missão orientadora entre os mais jovens.

*              Percival Puggina (81) é arquiteto, escritor, titular do site Liberais e Conservadores (www.puggina.org), colunista de dezenas de jornais e sites no país. Autor de Crônicas contra o totalitarismo; Cuba, a tragédia da utopia; Pombas e Gaviões; A Tomada do Brasil. Integrante do grupo Pensar+. Membro da Academia Rio-Grandense de Letras.